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Carnavalize

 


Prólogo


No princípio era o verbo. E os verbos e as gírias estavam com o povo, era o povo, que descia o morro para transformar a rua em palco. Artistas de uma opulenta ópera popular chamada escola de samba, regida por um maestro/profeta que banhou de luxo a miséria e escancarou aflições escondidas em folhas de jornal.

Pelas mãos do profeta João esfarrapados ganharam ar de nobreza e protagonismo. Suas visões misturaram paraísos e infernos. Opostos que se atraem e se reinventam.

O evangelho segundo o João do povo teve suas primeiras páginas escritas na Academia do Samba e pregou que a regra é ousar. Seus delírios etéreos gozavam de intensa liberdade, não cabendo em si ou em julgamentos outros. Sem proibição ou pecado — abolir o não, purgar os preconceitos. A arte é para fazer sonhar, riqueza que não cabe em uma caixa ou que possa estar encarcerada nos porões de mentes tacanhas.

As epístolas deixadas ainda conduzem o reino do carnaval. Quem aprendeu em suas escrituras sabe bem que a alforria é soberana e que o encantamento e as inquietações provocadas pela criação e manifestação artística são elementos fundamentais de sanidade, capazes de provar que a fantasia é uma grande realidade.

João 30:90

Sinopse 


O misterioso pórtico ergue-se da página em branco do universo. Por detrás de suas portas maciças, cuidadosamente entalhadas por nobre criador, a mais sublime obra de arte: as faces de um novo mundo. Superfície coberta por jardins que atravessam o horizonte, contorno sem fim. Paraíso protegido, íntegro. Em uma exuberância desmedida brotam árvores, folhas e flores de suntuoso encantamento. Os frutos ostentam tenra suculência, despertam apetite inesgotável. Até onde os olhos alcançam tudo é deslumbrante.

Frondosa e exótica, a natureza se impõe guardiã da sabedoria. O paraíso, ao contrário do que relatam os livros, se expande em tons de vermelho, em ricas cores vivas, fortes e sedutoras, que tingem a terra e o céu.

Entre barro e costela levantam-se as primeiras criaturas. Imagem e semelhança divina, testemunhas únicas a experienciar a excelência do Éden, os mistérios guardados no paraíso original. Adão e Eva, nativos afortunados, são retrato do bom selvagem, carregam em si a pureza em estado bruto, a inocência cercada de curiosidade. Cada descoberta é magnífica: tudo é estranho e familiar. No paraíso, o real e o fantástico se frequentam, o vento fresco tem perfume de liberdade. Os corpos dançam fluidos, percorrem o ambiente livres para as ilusões.

Vagueiam pelos campos sem contar que em sua sombra espia-lhes a ira. Furtiva criatura a invadir sorrateira a calmaria do Éden. Dissimulada aos olhos e nas palavras, transfigura verdades e mentiras, destila veneno poderoso e ludibria talentosa a pureza nativa. Sedutora serpente de língua afiada, faz florescer na mínima censura a mais tenra tentação. De tantas árvores e tantos frutos, somente aquela, proibida, há de revelar os segredos da vida, de preencher a ignorância com sabedoria.

No afã por intensidade, em uma mordida, o vermelho perde a cor, a exuberância míngua. No perigo maior do paraíso, a perda. Fruto da desobediência, agora pecado original. O pórtico se fecha e o Éden esvanece. Paraíso perdido, herança primeira da humanidade, expatriada da perfeição por ser facilmente corrompida.

O ser humano é filho da queda, desorientado pela condenação aos limites mundanos. Aqui na Terra, jardim dos exilados, o inferno são os outros. A cada juízo, uma condenação. Tudo é perversão e pecado. Tudo é proibido. Grandes olhos vigiam a vida dos outros e sentenciam à margem quem desafia os “costumes”: exclusão, apagamento. A obediência anda incorporada na culpa.

Quem há de ter pecado maior?

Uma luta de vaidades se manifesta e entre a inveja e a ira os homens se afrontam. Onde antes dava valor, hoje boto preço. Vendo barato minha dignidade, pois meu paraíso são meus bens. Notícias de tempos corrompidos, dos prazeres da carne, da gula devastadora e da preguiça moral. Relatos de períodos obscuros e frios.

A esperança renasce na fé, na ponta da espada, duelo do bem contra o mal. Na luta diária contra as cabeças de um dragão insaciável pelo sofrimento. Com a batalha armada, põe-se entre nós a cavalgada do fim dos tempos. É ensurdecedor o som do galope austero dos cavaleiros do apocalipse se misturando nas ruas, despertando dores e espalhando terror. Vendem a paz que não queremos, propagam o conflito. Devastam, destroem, espalham a escassez e a fome. E nessa irradiação do caos, a morte é a verdade anunciada.

A velha barca para o inferno tem uma nova diretriz: a redenção vem para os renegados. Os crucificados, os doloridos: uma multidão marginalizada aos olhos dos homens. Seus demônios caíram por terra.

Louvados sejam os excluídos!

Louvados sejam os rejeitados!

A compaixão lhes aguarda no novo Éden. Reluz em tons fortes de vermelho, renasce de amores e sonhos. Portas abertas a quem tem fome e sede de infinito. Entrem e sejam tomados pelo êxtase de um paraíso em festa, efusivo como uma interminável noite de carnaval. Lugar de desejos e das individualidades. Caldeirão de diversidade. Paraíso dos devaneios, da liberdade democrática das ruas, da comunhão entre todos, onde a fantasia se mistura com a realidade. O que era aparente ilusão hoje alimenta os olhos, preenche do corpo à alma: a fartura, a união, o respeito. Ouse imaginar um paraíso “carnevale”, salgueirense, em que a celebração é a fonte da vida eterna. No lugar das trombetas, tambores da Furiosa dão as boas vindas e pedem passagem para toda a gente.

Ainda que a mesma história fosse contada setenta vezes ou ilustrada por trinta mãos talentosas, seria difícil fantasiar esse lugar de reencontro com a liberdade, onde o pecado não mora mais ao lado, pois o sagrado e o profano se misturam, são tão mundanos quanto divinos, fontes de um mesmo criador. Apenas abra os olhos e flutue pelos encantos e delírios do novo paraíso vermelho, pulsante como a Academia do Samba, viva de desejos e prazeres.

Autoria do Enredo: Edson Pereira

Pesquisa e Desenvolvimento: Edson Pereira, Ruan Rocha, Lucas Abelha, Victor Brito e Departamento Cultural.

Roteiro: Edson Pereira e Ruan Rocha


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Por Redação Carnavalize


Sempre um potencial competidor da disputa pela parte de cima da tabela, o Salgueiro pareceu um pouco menos falado neste pré-carnaval em comparação aos anos anteriores. A fama de sua regularidade e o auxílio luxuoso da Prof. Drª. Helena Theodoro na construção do enredo salgueirense parecem ter dado a robustez necessária, em tese, para o Salgueiro sonhar com um título que não vem desde 2009. O enredo intitulado “Resistência” foi um mergulho na cultura negra da cidade do Rio de Janeiro e nas diversas formas de resistência cultural que a cidade vivenciou desde a escravidão.

De casa nova, Patrick Carvalho foi o responsável pelo trabalho da comissão de frente, que articulou bem a descrição/apresentação do enredo e uma coreografia vigorosa. Personagens negros foram exaltados. Em um momento inicial, se viu o corpo de dança em tons de cobre, como se fossem monumentos, com destaque para Mercedes Batista como personagem central. O ponto alto da performance aconteceu depois que surgiu uma fumaça branca. Na sequência, várias iaôs apareceram no elemento alegórico, que tinha um chão de areia, com um símbolo do Salgueiro no meio. Em síntese, a agremiação pisou na avenida já impactando o público com um número robusto e potente. Por sua vez, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Marcella Alves, estava elegantemente trajado, nas cores da escola, seguindo a tradição salgueirense. Luxuosa, a dupla bailou sincronizada, girando bastante e usando a pista, o espaço cênico, com inteligência.

A beleza da Comissão de Frente do Salgueiro (Foto: Leonardo Antan)


O enredo deixou um pouco a desejar, apesar de dialogar com a história do Salgueiro, do início ao final, fazendo alusão à revolução salgueirense já no começo. Ocorre que ele é desenvolvido de maneira burocrática em alguns momentos, sendo muito temático, com cortes bruscos na narrativa. O conjunto alegórico foi satisfatório, com destaque para o aspecto cenográfico na concepção das alegorias. Cada carro veio com uma pegada diferente, o que culminou em cortes estéticos, como o perceptível entre a alegoria do Municipal e a do Viaduto de Madureira. Cabe destacar ainda que o segundo carro apresentou problemas notáveis de acabamento. O conjunto de figurinos é competente, em termos de cor, de diversidade de materiais e de volumetria.

Detalhes de alegoria da escola (Foto: Leonardo Antan)


A bateria dos mestres Guilherme e Gustavo sacudiu, literalmente, as arquibancadas do Sambódromo, com várias paradinhas. A escola passou quicando na avenida e se comunicando com o público. O samba-enredo funcionou perfeitamente e colocou todo mundo pra cantar, principalmente o refrão principal.

Muito grande, o Salgueiro acabou tendo que correr no final para encerrar o cortejo no tempo regulamentar. A agremiação também abriu alguns buracos ao longo do desfile. Assim, a evolução foi um quesito que pode ter prejudicado a escola. Com muitos acertos e alguns tropeços, o Salgueiro briga para voltar no Sábado das Campeãs.




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Texto: Beatriz Freire, João Vitor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile eleito pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize). 

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Em nosso terceiro texto, foi a vez de Pedro Ivo Almeida, Pedro Willmersdorf e Helenice Gomes indicarem desfiles para a nossa enquete. Foram eles, respectivamente: Salgueiro 1989 (“Templo negro em tempo de consciência negra”), Porto da Pedra 1997 (“No reino da folia, cada louco com a sua mania”) e Tradição 2001 (“Hoje é domingo, é alegria, vamos sorrir e cantar!”). Agradecemos mais uma vez aos nossos padrinhos e madrinha pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 


O centenário não se apagará...


Para o carnaval de 1989, depois de desfiles com resultados de meio-de-tabela e um quarto lugar no desfile anterior, a alvirrubra decidiu levar à Avenida um enredo dedicado ao centenário da abolição da escravatura com a memória construída pelos seus próprios desfiles. A “lembrança tardia” da libertação formal foi justificada pela própria escola na introdução de sua sinopse: 

“Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”, essa frase define muito bem o Salgueiro, sempre arrojado e marcante, original e atrevido, verdadeiramente uma escola forte, livre e solta, comprometida com seu tempo e nele pioneira, sempre surpreendente e inovadora, e é assim que a desejamos no carnaval de 1989, livre e soberana em seu estilo, transmitindo liberdade e resistência.

Visão geral do desfile da arquibancada. Reprodução Tantos Carnavais.

Quando todos lembraram do negro em 1988, nós do Salgueiro só o faremos em 1989, não apenas por sermos diferentes, também porque nos parece que o movimento negro, a luta negra não se finda em 88, ela é maior que o centenário dessa dita liberdade, dessa falsa abolição. É importante que essa chama não se apague e que no 101º, 102º, 103º ano da libertação dos escravos ainda se proclame igualdade entre negros, mulatos e brancos.

Por isso dizemos que o Salgueiro é atrevido, arrojado e diferente, pois quando essa chama de luta começar a arrefecer nós a avivaremos, a reacenderemos com nosso evoluir, cantar e dançar (…)”. 


Eu sou negro sim, liberdade e poesia/E na atual sociedade, lutamos pela igualdade


O carnavalesco Luiz Fernando Reis, que até então havia se consolidado na Caprichosos de Pilares com os enredos irreverentes e críticos, chegou à Academia do Samba com a missão de resgatar a identidade da escola que foi se perdendo ao longo da década de 1980. O resgate não teria como ser diferente: após deixar o centenário da abolição da escravatura passar batido no ano anterior, a agremiação foi ao encontro da essência em suas raízes negras com o enredo que exaltava a negritude por meio de uma homenagem aos, até ali, nove enredos com a temática “afro” apresentados pela vermelho e branco.

A abertura da apresentação salgueirense. Reprodução: Tantos Carnavais.

A abertura do enredo é dada por um enaltecimento da negritude salgueirense, partindo para uma viagem temporal ao seu próprio passado no qual se tornou referência e revolucionou as narrativas carnavalescas. Afinal, a escola passou a dar centralidade aos personagens negros marginalizados na história dita “oficial” (Alô, Mangueira!), valorizando a cultura afro-brasileira fundamental para a construção do nosso país e que passa por um constante negacionismo. Percorre, então, por entre os carnavais Navio Negreiro” - 1957, “Quilombo dos Palmares” - 1960, “Xica da Silva” - 1963, “Chico-Rei” - 1964, “Bahia de todos os deuses” - 1969, “Festa para um rei negro” - 1971, “Valongo” - 1975, “Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses” - 1978 e “O bailar dos ventos. Relampejou, mas não choveu” - 1980.

Em consonância com os carnavais anteriores, que ditaram o fio narrativo daquele desfile, o carnavalesco, sem perder sua essência crítica, levantava a reflexão sobre os 100 anos de abolição - advinda de uma luta constante travada pelos negros e não um presente de uma princesa “redentora” - em um país alicerçado sobre a égide do preconceito racial e a crença em uma (inexistente, vale ressaltar) democracia entre etnias. Para isso, ao longo do cortejo, se viu a celebração de personagens como: Zumbi dos Palmares, Anastácia, João Cândido, Chico Rei e Martin Luther King, além de personagens rememorados pelo próprio Salgueiro.

No setor dedicado aos orixás, o Xangô do Salgueiro foi o destaque da alegoria representando o orixá. Foto: Revista Manchete. 

Longe das coreografias com passos definidos e complexidade de dança, o Salgueiro veio com uma comissão de frente tradicional. Acompanhados na abertura do desfile por Elizabeth Nunes, ex-presidente da escola, os integrantes da velha guarda apresentaram a agremiação como os verdadeiros guardiões do Templo Negro salgueirense, representando os guerreiros bantos. 
Como a própria sinopse do enredo já anunciava, referenciada por Martin Luther King, “Black is beautiful - “Negro é belo”, e essa frase nos inspirará (...) negro não só é belo, mas também é rico, pomposo, forte, exuberante e fundamentalmente livre, e é nessa riqueza, nessa beleza e nessa liberdade que abordaremos nosso enredo.”. E foi o que aconteceu. Com seus mais de 5000 componentes, a escola tomou a Avenida, tingindo-a de vermelho e branco. 


Que santuário de beleza/Um congresso de nobreza de raríssimo esplendor


O conjunto de fantasias concebido pelo figurinista Flávio Tavares impressionou a todos! Repleto de plumas em tons fortes de vermelho e preto, com o equilíbrio em branco e amarelo, a escola mostrou bom gosto e muito luxo. Apesar da exuberância dos chapéus e costeiros, as fantasias eram leves, sem muito pano, facilitando a evolução dos componentes que pulsavam junto com a bateria. A “ala do Minueto” prendeu as atenções. Composta por jovens casais, saudava o memorável cortejo ocorrido em “Xica da Silva”, no ano de 1963, no qual o grupo coreografado por Mercedes Baptista tomava a Presidente Vargas. 

A escola levou para seu desfile duas alas de baianas. A primeira - “Ala das Baianas do Bonfim” - antecipava a alegoria que fazia referência ao carnaval de 1969, “Bahia de todos os deuses”, em tons claros, mesclando brancos com detalhes prateados, acompanhando as cores da alegoria, o que proporcionou uma imagem fascinante com aquele conjunto todo em branco. Já a segunda, “Elegância Negra”, encantadora! Com a indumentária também em tons claros, mas com muitos detalhes em preto, dourado e vermelho, sobretudo na cabeça, a ala fascinou quem assistia o desfile e conquistou o Estandarte de Ouro.  

A bela ala de baianas no desfile. Foto: Sebastião Marinho (O Globo)

As alegorias não ficaram aquém de toda essa riqueza da alvirrubra. O conjunto imponente e bem explorado conseguiu dar uma boa forma ao enredo. O abre-alas “Templo Negro” era robusto e com duas grandes panteras - simbolo da luta e coragem negra - levava o nome da agremiação em vermelho, abrindo os caminhos na passarela. O segundo carro, “Navio Negreiro” simbolizava o início da saga dos povos escravizados. “Portais de Palmares”, o terceiro, celebrava o líder quilombola que vinha representado pelo ator Antonio Pitanga. Mas foi a quinta alegoria que mais fascinou por sua estética. Como já mencionado anteriormente, ela referenciava o enredo “Bahia de todos os deuses”. Totalmente branca com detalhes prateados, ela se destacou em meio ao volumoso conjunto de dez alegorias. 


Nesse quilombo tem magia


A escola não estava para brincadeira: como se não bastasse o corpulento conjunto alegórico e as encantadoras fantasias, levou também dez tripés para a Sapucaí. Destes, seis louvavam os orixás Exu, Iansã, Ogum, Oxóssi, Oxumaré, Oxum e Oxalá. 

Um euforia tomou conta das alas, que verdadeiramente quicavam pela pista, com muita animação. Os componentes deram um show de harmonia e contagiaram o público cantando, pulando e sambando no amanhecer daquele 6 de fevereiro de 1989.  Era o Salgueiro em sua melhor versão: branco e vermelho, afro, rasgando o chão da Sapucaí. 

 Élcio PV e Dóris defendendo o pavilhão vermelho e branco em 1989. Foto: O Globo.

“Espero ter tido a felicidade de ter levantado a nota máxima para a família salgueirense. E para a minha vaidade também, não é?!”, disse Dóris, em entrevista ao final do desfile, já na Apoteose. Seu mestre-sala era ninguém menos que o lendário Élcio PV, com quem também era casada, que retornava ao Salgueiro, desta vez com a amada como porta-bandeira, depois de anos em que os dois gabaritaram o quesito pela Beija-Flor de Nilópolis. A vaidade própria, como ela mesma apontou, tinha razão de existir: em cima de saltos altíssimos, ela bailava cheia de si – porque era mesmo brilhante – ao lado de Élcio, formando uma dupla de sucesso e resultados invejáveis. Na apresentação, trajados em vermelho e ele com o machado de Xangô como adereço em uma das mãos, bailaram com a cumplicidade que transcendia o matrimônio e encantava a todos. 


Ô Zaziê, Ô Zaziá/Salgueiro é Maiongolê, Marangolá!


É impossível fazer uma lista dos grandes sambas da Academia e não incluir a grande obra que foi para a Avenida no ano de 1989. E também é impossível falar sobre o samba de 1989 sem falar sobre a condução de manual do Pavarotti do Samba, Antônio Ricardo de Souza, o Rixxah. E nada melhor que as palavras do próprio intérprete, que conversou com a gente para falarmos sobre aquele ano, começando pela sua visão do samba em questão: 

“Naquele ano, o samba que ganhou foi o melhor da disputa. Havia outros grandes sambas, como sempre, já que a Ala de Compositores do Salgueiro sempre foi uma verdadeira seleção de bambas. Mas eu fiquei muito satisfeito com a escolha do samba, pois era o melhor. A cara do Salgueiro, bonito, melodioso, do jeito que eu gosto.” 

A alegoria que lembrou "Chico Rei". Reprodução: Tantos Carnavais.

E o gosto de Rixxah ficou nítido pelo seu desempenho. O samba de Alaor Macedo, Helinho do Salgueiro, Arizão, Demá Chagas e Rubinho do Afro tinha trechos muito poéticos e melódicos, em que a característica do canto do intérprete ficava ainda mais evidente. Um exemplo disso é o trecho final da segunda parte do samba. E, além do mais, a obra contava com um refrão de meio cativante e histórico, que ficou marcado na cabeça dos componentes e dos amantes do Carnaval:

“Ô Zaziê, Ô Zaziá
Ô Zaziê, Maiongolê, Marangolá
Ô Zaziê, Ô Zaziá
Salgueiro é Maiongolê, Marangolá”

O trecho em iorubá-nagô seria a maneira como Xangô faz um clamor aos céus, pedindo para que eles se abram em bênçãos para recepcionar Oxalá. A partir desse inesquecível refrão e da qualidade do samba como um todo, a condução de Rixxah foi ainda mais valorizada, tanto que o desfile lhe rendeu seu primeiro Estandarte de Ouro como intérprete. Ele falou um pouco mais sobre a importância do desfile e daquele enredo: 

“Aquele carnaval teve muita importância para mim. Foi quando consegui ganhar meu primeiro Estandarte de Ouro como intérprete. E era um enredo bonito e importante. O carnaval sempre foi e sempre será importante, porque retrata e valoriza a luta do meu povo. Salve a África! Salve a Bahia! E Vidas Negras Importam! Axé!” 

E para exaltar ainda mais o samba do Salgueiro, nada melhor que o belíssimo ritmo proporcionado pela Bateria Furiosa. Sob o comando do saudoso Mestre Louro, a Furiosa pisou com força na Avenida, com uma fantasia que representando guerreiros africanos. Ela deu a cadência perfeita para que a bonita obra do Salgueiro pudesse brilhar e conquistou a nota máxima dos jurados. Na regência de seu lendário mestre, o destaque do trabalho da bateria foi o belo e criativo desenho realizado pelos tamborins ao longo do famoso refrão de meio do samba. 



Ainda que tenha realizado um belo desfile já na manhã do domingo, o Salgueiro não conseguiu chegar ao título. Apesar do apuro estético e o bom desempenho apresentado pelos quesitos na Avenida, naquela quarta-feira de cinzas, os holofotes estavam direcionados para longe da Grande Tijuca, de forma que as vizinhas Salgueiro e Vila Isabel acabaram sendo ofuscadas pelos desfiles históricos e arrebatadores de Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor de Nilópolis. Ao final da apuração, o Salgueiro acabou empatado com a Vila Isabel com 207 pontos, ficando com a quinta colocação e voltando para o Desfile das Campeãs. 

Ainda que não tenha conquistado o campeonato ou mesmo se confortado com a segunda colocação, o carnaval de 1989 não passa batido pela memória de desfiles e feitos da escola. Além de ter produzido um dos sempre entoados sambas da grande safra que comporta a discografia salgueirense, ganhou-se um desfile politicamente alinhado aos acontecimentos do mundo, em um tempo no qual se discutia os efeitos da abolição formal e de redemocratização, com a vigência da nova Constituição. Além disso, inegável é o sentimento de pertencimento que trazem os versos do samba que, ainda hoje, fazem da Silva Teles um templo negro.



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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à agremiação e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos Padroeiros - toda quarta de julho, aqui no Carnavalize. Hoje, o último texto!


Foto: Riotur/Fernando Grilli | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Texto: Vítor Melo
Revisão: Felipe Tinoco

A pedreira e a fundação

Conta a história iorubá que Xangô foi o quarto alafim de Oió – título de obá (rei) do império iorubano, hoje localizado no que se entende por Nigéria. Detentor do controle dos raios e de tempestades, era de cima da pedreira, região na qual geograficamente se estabelecia o reino criado por Odudua, avô do nosso padroeiro de hoje, que, durante curto período de sete anos, ele comandou a ascensão do maior império iorubano já visto. Embora conhecido pela tirania e pela violência, o orixá do fogo sempre fez prevalecer sua pesada mão de justiça e sabedoria entre seus súditos. Segundo a tradição oral africana, Xangô teria sido destituído do cargo de majestade e fora obrigado a se suicidar na floresta após ser causador de um grande incêndio que destruiu o reino de Oió, após testar uma de suas façanhas (o fogo). Tendo cumprido a pena, nunca foram encontrados restos mortais do antigo obá, sugerindo que os deuses haviam o transformado em orixá. Na medida em que o tempo passou, a cada relampejada ou trovão que rasgasse o céu, existia a certeza por parte do povo de lá que Xangô permanecia vivo, protegendo e zelando por eles, de cima da pedreira de onde tudo se vê.

Primeiramente conhecido como Morro dos Trapicheiros, o morro do Salgueiro herdou o nome de um cafeicultor da região, quem havia construído alguns barracões para pessoas escravizadas. Domingos Alves Salgueiro deu início, de forma ainda lenta, à povoação daquele espaço. Esse movimento foi intensificado após a “abolição” da escravatura, quando recém-libertos constituíram famílias, construíram casas e contribuíram para o crescimento da comunidade do Salgueiro. Nos idos de 1940, uma nova leva de migrantes de outros estados e, notadamente, de regiões interiores da própria cidade deu a tônica do berço fértil de mistura e potência cultural que o morro já demonstrava possuir. Como o carnaval é uma festa essencialmente de resistência, mesmo diante de todas as adversidades, o festejo de momo era religiosamente comemorado pelos moradores daquela região. À época ainda existiam três blocos que animavam a moçada e já detinham uma relação estreitíssima com o quarto rei de Oió, fundamental pra escola que viria surgir e para o fato dela ser abordada nessa série. Embora competissem entre si, os grupos carnavalescos Azul e Branco, Unidos do Salgueiro (a azul e rosa) e Depois Eu Digo (a verde e branco) dificilmente conseguiam boas colocações nos campeonatos locais.


Djalma Sabiá, último dos fundadores salgueirenses vivo, como "obá" no carnaval 2019. Foto: Riotur/Dhavid Normando.


Inicialmente, o Unidos do Salgueiro resistiu à junção dos outros dois grupos, mas logo depois se rendeu ao sinérgico branco e encarnado do recém-constituído Acadêmicos do Salgueiro, fundado em 05 de março de 1953. Sendo fruto de uma comunidade localizada em uma pedreira (onde reside Xangô), a escola tinha o primeiro enlace litúrgico com seu padroeiro e dava indício da relação que só foi fortificada durante os anos. Embora existam pessoas que acreditem em coincidências - o que não é o meu caso -, o Salgueiro, em sua carta de fundação, definiu suas cores como vermelho e branco. Juntas do marrom, formam as cores do orixá. A escolha dos fundadores, entretanto, era baseada na tentativa de distanciamento das combinações cromáticas já em voga nos blocos anteriores. 

Se para um bom entendedor, um pingo é letra, estava mais explícito do que nunca a relação dada! Os destinos do orixá da justiça e da escola tijucana foram cruzados mesmo antes que a segunda existisse. Dois dos fatores que ligariam ainda mais diretamente a escola ao seu padroeiro e fixariam essa relação do patronato espiritual da Academia do Samba em nosso imaginário coletivo vieram em 1969.


O Xangô do Salgueiro

Entra na história a figura de Júlio Expedito Machado Coelho, mais conhecido como Professor Júlio, destaque de luxo que desfilaria no Salgueiro até 2007, ano de seu falecimento. Foi em 1969, entretanto, que ele alçaria seu maior voo e herdaria uma herança que carregou até “Candaces”. No enredo “Bahia de todos os deuses”, assinado pela dupla imbatível Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, o professor desfilou pela primeira vez com as vestes de um orixá, conforme pedido de sua mãe de santo. O escolhido obviamente foi o padroeiro da escola, Xangô, sendo rapidamente acatada pelos carnavalescos. 

Ao final da apresentação, com tamanho excitamento gerado por ela, o carnavalesco da voz de trovão virou para Júlio e sentenciou: “Você é nosso Xangô! Xangô do Salgueiro!”. Com o novo epíteto, agora Xangô do Salgueiro desfilou sempre em representação ao patrono espiritual da agremiação. A fator de curiosidade, essa “obrigatoriedade” gerou poucas e boas, como conta cirurgicamente Leonardo Bruno em Explode, coração: histórias do Salgueiro, livro da coleção Cadernos de Samba. Em 1970, com o enredo versando sobre a Praça Onze, o destaque ganhou posição ao lado de Tia Ciata, já que Xangô era seu orixá de cabeça, conforme descobriram na pesquisa do tema.

Júlio Machado, Xangô do Salgueiro, desfilando no carnaval de 1995. Foto: Wigder Frota.

Já em 1997, com o enredo “De poeta, carnavalesco e louco, todo mundo tem um pouco”, de Mário Borrielo, que brincava com a loucura, o encaixe foi mais arrojado. Júlio desfilou ao lado de uma representação de Dona Maria (a Louca). O porquê disso se dá pela versão de um batismo da figura em águas africanas, ganhando a proteção do orixá, antes de chegar ao Brasil. Loucura ou não, a veracidade não é o aspecto mais relevante do causo; importante era Xangô desfilar – e isso ele felizmente sempre fez. Com essa onipresença física (e espiritual), o professor Júlio foi sem dúvidas um dos responsáveis pela aproximação da relação Xangô-Salgueiro do imaginário coletivo e pela manutenção da figura do patrono como um dos principais símbolos da agremiação. 


Tambor

Chegamos, então, ao segundo elemento relacionado ao desfile que deu ao morro salgueirense o primeiro título: o furioso ritmo da bateria tijucana. Embasada pelos contos dos mais experientes salgueirenses, diz a lenda que em 1969 se ouviu pela primeira vez o emular do alujá, toque para Xangô, bem na cabeça do samba, após a volta do refrão principal. É justamente a passagem em que evoca a Bahia, um dos principais berços da ancestralidade que percorre esse solo tupiniquim.

“Bahia, os meus olhos estão brilhando/Meu coração palpitando/De tanta felicidade”

Embora a bateria salgueirense se inspire primordialmente na levada de partido-alto das bandas dos bambas da Estácio de Sá, foi nos tambores vermelhos e brancos que o batuque sincopado recebeu a codificação para Xangô. A necessidade do flerte rítmico com o padroeiro é coisa séria e caracteriza os ritmistas do Salgueiro até hoje. Fato semelhante ocorre na Mocidade, conforme o texto da semana retrasada (“Batuques ao caçador, o agueré independente”, leia aqui). A Furiosa, como é conhecida carnaval afora, recebeu esse apelido exatamente pela ferocidade com que tocava (e toca), diferenciando-a das outras baterias, tendo base no alujá para o orixá padroeiro. 

Um dos diretores da bateria Furiosa durante o carnaval de 2019. Foto: Richard Santos/Riotur.


Mães do samba

Partindo pra outro segmento... Em uma ligação com a Profa. Dra. Helena Theodoro, conhecedora dos caminhos do sagrado, ativista defensora das causas étnicas-raciais, salgueirense e curadora de "Resistência", enredo do Torrão Amado para o próximo carnaval, pude mergulhar um pouco mais profundamente pela simbologia que as representações das mães africanas carregam e pela representação das baianas salgueirenses, assim como perceber minúcias cotidianas que muito nos dizem, independentemente de nossos olhos não enxergarem. As grandes mães ancestrais das escolas de samba carregam em seus conhecimentos a responsabilidade de serem símbolos das cabeças brancas coroadas pela experiência, pela carga ancestral e principalmente pelo poder da sabedoria.

No Salgueiro, portanto, são elas as únicas responsáveis (e capazes) de perpetuar a manutenção dos fazeres ancestrais, de repassar o conhecimento que adquiriram até hoje e de guiar os rituais e as obrigações necessárias quando a escola aborda divindades africanas em seus enredos, como no próprio "Xangô", em 2019. Helena também afirmou que as baianas carregam em suas vestimentas o poder de criar, transformar e perpetuar ensinamentos que são carregados em seus tabuleiros pelos saberes e sabores, refletidos inclusive nas comidas vendidas em torno da quadra. São diferentes os conteúdos das barraquinhas antes de ensaios, disputas e demais eventos de coirmãs apadrinhadas por Ogum ou Oxóssi, por exemplo. Carregadas dessa liturgia entre escola e padroeiro, é comum achar na Silva Telles a comercialização de alimentos que também são comumente oferecidos a Xangô, como pratos com camarões, azeite de dendê e muitas velas nas cores de seu pavilhão.  Essa energia e esse poder vital que os orixás e os guias espirituais carregam também funcionam dessa forma, trazendo para perto de si, em locais que seu culto esteja presente, símbolos e mensageiros de sua falange.


"Samba, corre gira, gira pra Xangô"

O enredo da vida de cada salgueirense ocorreu em 2019! Esperada por muito tempo, a homenagem ao padroeiro finalmente aconteceu no carnaval do ano passado. Em um cenário pra lá de conturbado politicamente, diga-se de passagem, mas aconteceu. Corre em boca nem tão miúda assim que a escolha do tema sobre Xangô foi uma das últimas táticas tentadas por Regina Celi, ex-presidente salgueirense, para criar certa capilaridade e gerar uma adesão da comunidade da escola com ela. O imbróglio foi parar na justiça, estendeu-se por quase 6 meses e nitidamente afetou o cronograma do desfile da escola até quando a nova gestão, encabeçada pelo presidente André Vaz, assumiu. 


Visão geral da apresentação da alvirrubra de 2019. Foto: Wigder Frota.

O Salgueiro recebeu uma safra à altura de seu padroeiro, gerando um dos sambas mais ouvidos e repercutidos do pré-carnaval, com refrão forte e melodia potente. O momento da escolha, em especial, foi bastante emocionante. A quadra pulsava, os segmentos salgueirenses se abraçavam nitidamente emocionados e o ambiente contagiava até o menos satisfeito com a composição escolhida.  O desfile foi empolgante e emocionante, embora apresentasse algumas irregularidades no conjunto visual e alguns senões na narrativa escolhida, como o pouco destaque dado a Oiá, Oxum e Iansã, mulheres de Xangô citadas no samba. A garra do chão salgueirense e a emoção do componente da vermelho e branco tijucana em homenagear aquele que os protegem foram suficientes pra driblar os pontos negativos, gerando um ambiente simbólico e competitivo. O Salgueiro ficou na quinta posição, suficiente para voltar ao Sábado das Campeãs pelo décimo primeiro ano consecutivo.

Cruzo

Utilizo-me de muitas referências de Luiz Antonio Simas e lá vai mais uma: cruzo. Em detrimento do conceito de sincretismo, acredito que “cruzo”, além de tornar um campo mais amplo pro entendimento de tudo isso que existe entre o céu e a terra, é uma forma mais correta de se entender e explicar essa interseção entre energias, lendas e crenças de diferentes religiões e dogmas. Não existe meios de se contar histórias, fermentadas em terras brasileiras, que bebem do poço da fertilidade de nossa cultura e raízes, sem falar dessa mistura. Muito se sabe da relação Salgueiro-Xangô e também do costume das escolas de samba pela cultura de aglutinação, da não excludência, de reverenciarem padroeiros de diferentes origens, inclusive católica. Portela e Nossa Senhora da Conceição; Paraíso do Tuiuti e São Sebastião; Império Serrano e Estácio de Sá e São Jorge... Tantos exemplos!

Com a Academia do Samba não é diferente. Essa relação, pasmem, vem antes mesmo do que sua ligação com o rei do império iorubano. Voltando ao segundo parágrafo do texto, chegamos novamente ao Morro dos Trapicheiros. Haroldo Costa destrincha em seu livro Salgueiro: Academia do Samba que a procissão a São Sebastião, perpetuada até os dias de hoje no morro, é herança do legado desse sarapatel religioso do processo de ocupação do morro. Esse sarapatel é ainda mais reverberado na propagação dos saberes culinários, durante as festividades religiosas e na disseminação de danças e ritmos como jongo, caxambu, folia de reis, etc. 

Registro da procissão de São Sebastião no morro do Salgueiro.
Foto: Flickr ArqRio/Arquidiocese do Rio de Janeiro.

“O jongo e o caxambu vamos rodar/Salgueirar vem de criança/O centenário não se apagará”. Toda essa relação e toda essa devoção se dá até hoje pela manutenção da presença de uma capela para o santo no alto do morro, como vestígios das décadas que precediam o ano da fundação do Salgueiro. As comemorações do dia 20 de janeiro são fortemente preconizadas anualmente pela comunidade. A decoração do campo o qual abriga o principal festejo sé dá por muitas velas, bandeirinhas, barracas e tudo mais que compõe o visual de um verdadeiro arraiá em louvação ao padroeiro católico da agremiação. A cereja do bolo dessa relação íntima se dá por uma personagem verde e rosa, a querida Alcione. O clássico “Academia do Samba”, imortalizado na voz da nossa Marrom, sintetiza e confirma o “apadrinhamento” de forma poética logo de cara, com os assertivos e belos primeiros versos: “Salgueiro, ô, salgueiro/Teu padroeiro é o próprio São Sebastião/Estende o manto sobre o Rio de Janeiro”. 

Ainda há um último elemento querendo entrar nesse balaio. No dia da fundação da escola geralmente ocorre uma missa na quadra, ministrada pelo padre Wagner Toledo, ilustre torcedor salgueirense e personificação da representação sacro-profana, sendo amante das escolas de samba e torcedor apaixonado e desfilante assíduo da Academia. Durante a cerimônia, há a comum presença de muitos componentes devotos de São Sebastião, além de toda a simbologia contida no olhar mais atento da grande imagem do santo que a escola mantém em sua quadra. Esse elemento, associado com a figura do detentor do Oxé que também se coloca presente no terreiro salgueirense, vigia os ensaios e protege o bom prosseguimento da vida e do dia a dia dos becos, vielas e frechas do Oió tijucano. Suas presenças encantam e muito contam sobre o misticismo e magia do cotidiano carioca, sobre o pertencimento dos saberes e caminhos ancestrais, preservando por meio desses signos a memória e a história do Acadêmicos do Salgueiro, uma matriarca e grande protagonista dessa cachaça que nos move chamada carnaval. Saravá!


Agradecimentos: à interminável fonte de conhecimento conhecida por Helena Theodoro, pela ligação de quase 1h sem prévio aviso e toda a sabedoria compartilhada generosamente comigo; ao jornalista e escritor Leonardo Bruno, autor do primeiro livro que obtive sobre a história do Torrão Amado, por também ter me doado parte do seu tempo para conversarmos um pouco; e a Eduardo Pinto, um dos atuais diretores do eminente departamento cultural da Academia do Samba, pelo contato propriamente estabelecido e também todo o tempo e a atenção dispensados.

Referências bibliográficas: A tese de Doutorado “O G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro e as representações do negro nos desfiles das escolas de sambas nos anos 1960”, de Guilherme José Motta Faria; o livro “Explode, Coração: Salgueiro”, de Leonardo Bruno, coleção Cadernos de Samba, publicado pela VersoBrasil; o livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi, publicado pela Companhia das Letras; e o livro “Salgueiro: Academia do Samba”, de Haroldo Costa, publicado pela Record.

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Sendo a Série Padroeiros um desejo meu de pesquisa de longa data, sinto-me já um pouco órfão dessas quatro semanas pesquisando e buscando conhecimentos sobre essa relação litúrgica entre as escolas de sambas e seus padroeiros que sempre me fascinaram. Começamos pela relação entre o Paraíso do Tuiuti e São Sebastião e Oxóssi. Nesse primeiro texto, o enfoque foi mais direcionado ao desfile de 2020 e na simbologia contida no morro do Tuiuti (leia aqui). No segundo texto, desembarcamos na Vila Vintém. A coluna abordou a influência do agueré, toque de Oxóssi, na construção identitária da bateria Não Existe Mais Quente. Para traçar essa história, utilizamos brevemente a genialidade e o teor ancestral do Mestre André como nosso fio condutor (leia aqui). Já no penúltimo texto, a relação entre o imperiano fiel que confia na lança do santo guerreiro foi o assunto debatido. Passeamos pela procissão e pela alvorada de São Jorge que ocorre pelas bandas de Madureira religiosamente todo dia 23 de abril e terminamos o texto nas aparições de São Jorge nos enredos do Império Serrano (leia aqui). E, no de hoje, abordamos a principal escola quando se trata de relação e manutenção desse símbolo espiritual: o Salgueiro. 




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Maior cidade escravista das Américas, o Rio de Janeiro foi o palco da assinatura da Lei Áurea, diploma legal que extinguiu a escravidão no Brasil. Abolir o trabalho escravo, porém, não foi suficiente para promover as mudanças tão desejadas por todos nós. Abandonados pelo Império, continuamos sem condições para uma existência decente. Libertos, tornamo-nos prisioneiros da miséria nos cortiços, nas ruas, nos trabalhos precários e na ausência de direitos humanos e sociais básicos. Discriminados e marginalizados, sem cidadania, sem alternativas para uma vida digna, fomos lançados à nossa própria sorte. Excluídos – no dia seguinte, na década seguinte, no século seguinte –, vivemos, até hoje, sufocados. 

Hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito. Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo “democracia racial”, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados.

Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA.

E resistir é ter nossa história, antes negada e silenciada, ressignificada e recontada no carnaval, lugar de alegria, mas também de diálogo com o mundo. Ao som dos tambores ancestrais, o Salgueiro foi pioneiro na introdução da temática africana nas escolas de samba. Seguiu na contramão da narrativa “oficial” do país e deu vez e voz aos personagens, heróis e protagonistas pretos. Como um Griot, transmitiu ricas histórias por meio de enredos que revelam a participação da escola no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional. 

Resistir é plantar um legado nos “chãos” do Rio de Janeiro. Criamos Quilombos, lugares de resistência e insurgência negra, com estrutura politica, econômica e social africana. Revivemos a história nas marcas deixadas na Pequena África, região que se destaca como lugar de acolhimento e também por personagens como as tias baianas festeiras da Praça XI, cozinheiras e Mães de Santo celebradas até hoje pela fantasia e pelo rodopio que as nossas Alas de Baianas exibem. Foram elas que formaram o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de Candomblé.

Resistir é professar nossa fé. Por ela nos unimos nas irmandades religiosas que faziam filantropia por justiça social. Construímos os terreiros de Candomblé, templos que são uma reinvenção do macro universo cultural e religioso trazido do continente africano. Desenvolvemos o Culto Omolokô e criamos a Umbanda, religião afro-brasileira surgida no Rio de Janeiro, que sincretiza elementos do Candomblé, do Espiritismo e do Catolicismo. 

Resistir é expressar nossa cultura para manter a continuidade de valores civilizatórios. Com a benção dos orixás, entramos na cozinha, espaço de saber, para alimentar o corpo e a alma. Para transformar alimentos, hábitos e a própria culinária brasileira. Ao som dos atabaques, “compramos o jogo” nas rodas de capoeira e dançamos jongo ou caxambu. Pisamos nos gramados para expulsar os cabelos esticados e o pó-de-arroz que “disfarçavam” a cor da nossa pele. Brilhamos nas passarelas e nas ruas com as formas, símbolos, cores e texturas de nossa moda. 

Resistir é fazer arte. Inquietos por representatividade e pela visibilidade que insistem em nos sonegar, criamos nossas próprias narrativas e espaços nas artes cênicas, como o Teatro Experimental do Negro. Assumimos nosso protagonismo e nos fizemos enxergar também por meio da literatura, da dança, das artes plásticas. Espalhamos para o mundo a vocação artística que reside em nós. 

Resistir é festejar. É revelar nossa maneira de ser por meio das festas, do modo de celebrar a vida, do entusiasmo que propicia o resgate de nossa identidade e afirmação existencial. Desde o chorinho na Festa da Penha, passando pelas escolas de samba, afoxés e blocos afro. Pelo pagode à sombra da tamarineira, pelo funk carioca e pelo charmoso baile sob o viaduto de Madureira.

Resistir é existir. 
É continuar a reverberar a coragem dos nossos heróis contemporâneos de pele preta. 
É saber que somos frutos de uma mesma raiz de igualdade, fé, esperança, arte e vida. 
É crer que nenhuma luta foi em vão. Que nenhuma luta será em vão. 
É persistir no sonho de igualdade para que ele não seja silenciado. 
É entender que, juntos, em cada passo e em cada pequena mudança, seguiremos adiante. 
E é ter certeza que no dia em que fizermos cair todas as máscaras da discriminação, conseguiremos, enfim, respirar.   

Autoria e curadoria: Dra. Helena Theodoro
Carnavalesco: Alex de Souza
Concepção: Eduardo Pinto e Marcelo Pires (Diretoria Cultural)
Texto: Paulo Barros
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Por Leonardo Antan e Vitor Melo
Revisão: Felipe Tinoco
Artes: Vitor Melo

Depois de um passeio em Oswaldo Cruz e Madureira, a Série Baluarte segue resgatando a história de grandes artistas de todas as áreas do carnaval. Nossa parada hoje é no lendário Morro do Salgueiro, nas cores da vermelha e branca, a Academia do Samba. 

Fundada em 1953, a agremiação surgiu da fusão de três outras escolas do morro tijucano: Depois eu Digo, Unidos do Salgueiro e Azul e Branco. Se separadas as três nunca conseguiram uma posição expressiva, dando origem aos Acadêmicos já estrearam conquistando um terceiro lugar, mostrando uma história predestinada a ser grande. Alguns anos depois, seria líder de uma revolução que mudou pra sempre os rumo das escolas de samba. Para saber mais sobre a famosa Revolução Salgueirense, clique aqui.

Dos artistas visuais aos passistas, passando por grandes compositores e mestres de bateria, montamos um luminosa constelação de salgueirenses que marcaram a trajetória da agremiação e que marcaram sua trajetória por meio dela. Para cada segmento, dentre liderança, força feminina e os poetas, uma estrela foi escolhida como guia para aprofundar sua passagem e, assim, relembrarmos outros grandes nomes que fizeram história na festa. Venha salgueirar com a gente! 



Para transformar o Salgueiro em uma agremiação competitiva, surgiu um dos grandes nomes por trás da modernização dos desfiles das escolas de sambas nos anos finais da década de 1950. Mesmo não morando no morro do Salgueiro ou não sendo uma força política do bairro, Nelson de Andrade assumiu a presidência após ajudar a agremiação em seu livro de ouro. O simples comerciante de peixes da região logo mostrou habilidades administrativas. Com seu porte alto e o jeito brigão, foi escolhido para defender a escola em meio às outras grandes da época, na Associação das Escolas de Samba.  

Quando o visual era ainda secundário, Nelson percebeu que a inovação poderia ser um elemento importante para colocar a alvirrubra na disputa por suplantar a barreira do terceiro lugar. Foi assim que criou o lema definitivo da agremiação: “nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”. Ele ainda apostou em trazer pessoas de fora da escola para conceber a parte artística-estética da escola. Em 1959, conheceu um excêntrico casal que colecionava peças de artesanato e arte popular; ninguém menos que Dirceu e Marie Louise Nery - quem recentemente faleceu vítima da COVID-19. A suíça e o pernambucano desenvolveram, então, o enredo sobre o artista Jean Baptiste Debret, famoso por integrar a Missão Artística Francesa. Nelson ficou responsável pelo desenvolvimento do enredo, enquanto o casal de folcloristas desenvolveu figurinos nada convencionais para época e aboliram as alegorias em carreata, apostando só em adereços de mão. Saiba mais sobre esse desfile clicando aqui.

Nelson de Andrade com seu inconfundível bigode. (Foto Portela Web)

A inovação rendeu um vice-campeonato graças a nota de um certo jurado professor da Belas Artes e cenógrafo do Teatro Municipal. E assim surgiu mais um artista acadêmico comandando o carnaval da Academia: Fernando Pamplona. Como o mestre afirmou em sua autobiografia, Nelson era o primeiro grande enredista do Salgueiro, responsável por conduzir brilhantemente o tema desenvolvido por meio de muita pesquisa. Em entrevista para o Jornal do Brasil publicada em 21/12/1961, Nelson fez esta declaração: “como responsável pelo enredo, não deixo ninguém sair com fantasia em desacordo com o tema. Faço questão de pesquisar o máximo que posso. Em primeiro lugar, o tema deve ser inédito, depois, estudo a ponto de dominá-lo por inteiro”. 

Se na maioria das vezes os louros da revolução salgueirense caem no colo de Pamplona, a mudança estética e temática que promoveu a Academia do Samba não teria acontecido sem a ousadia e a vanguarda de Nelson na busca do primeiro título da escola. Pena que ele tenha deixado a agremiação antes de conseguir o feito. Em 1961, após um desentendimento com alguns membros, o dirigente rumou para a Portela, na qual seguiu sendo um profissional interessado em inovar. Em seis anos na azul e branco, foi campeão três vezes. Ele voltaria a sua escola de coração no final dos anos 60.

Com a saída de Nelson, outro grande líder salgueirense surgiu: Osmar Valença, dirigente da agremiação por mais de duas décadas. Aproximou-se da escola quando sua esposa, Isabel Valença, começou a desfilar como destaque e, então,  contribuiu com o livro de ouro. Ao lado de Natal, foi da primeira geração de bicheiros a participar da cúpula das escolas de samba. Sob sua direção, o Salgueiro ganhou seis títulos. Foi uma figura controversa e polêmica, mas sem dúvidas nenhuma muito importante na trajetória da alvirrubra.



O primeiro grande artista da Academia foi Hildebrando Moura, atuando como uma espécie de “carnavalesco”, sem receber essa nomenclatura à época. Funcionário da Casa da Moeda, assinou enredos como “Romaria à Bahia”, “Brasil, fonte das artes” e “Navio negreiro”. Entre 1954 e 1958, sua atuação seria sintomática no forte período de transformações sob o qual as escolas de samba já viviam. O seu nome aparece apenas registrado, sem que exista muitos materiais para se tomar conhecimento de seu legado na folia e na própria agremiação. 

O carnaval de 1959, embora não tenha entrado para os anais da Academia do Samba, foi essencial para introduzirmos em nossa conversa a próxima indispensável figura. Como sugere o parágrafo sobre “Os Líderes”, Nelson de Andrade já vislumbrava caminhos inovadores a serem desbravados.

Fernando Pamplona e o projeto de decoração de rua para o carnaval de 1973 (Foto O Globo)

Com a devida menção aos primeiros sopros artísticos do Torrão Amado, é missão impossível falar da batuta criativa salgueirense sem lembrar da voz de trovão. Fernando Pamplona, professor da Escola de Belas Arte (EBA), cenógrafo e, sobretudo, jurado que se encantou pelo Debret salgueirense, foi convidado ainda em 1959 por Nelson de Andrade para comandar o carnaval de 1960. Não houve resistência por parte de Fernando em aceitar o convite, tomando ofício a profissão que marcaria seu nome – e do Salgueiro – para sempre na história da festa. Influenciadas pelas amarras ditatoriais e pelos ventos ufanistas que circulavam por nosso país, as escolas nas décadas de 60 e 70 tinham enredo predominantemente nacionalistas, pautados por uma história, digamos, oficial. Logo em seu primeiro desfile, coube ao Pamplona e à sua equipe proporem um enredo disruptivo a essa hegemonia temática: Quilombo dos Palmares, uma história que a História não contava. 

O trabalho realizado visualmente estabeleceu novos paradigmas artísticos, inserindo na discussão duas das principais qualidade do artista: a capacidade de construir incríveis equipes que sempre materializaram perfeitamente suas ideias e a de revelar grandes nomes para a festa como Rosa Magalhães, Lícia Lacerda e outros que aparecerão por aqui. Fernando assinou os desfiles campeões de 1960, "Quilombo dos Palmares", 1965, "História do carnaval carioca", 1969, "Bahia de todos os deuses" e 1971, "Festa para um rei negro". Além desses, protagonizou outros muitos desfiles pela escola, tornando-se um dos maiores da história do carnaval e, sem dúvidas, o maior artista da História do Salgueiro. De todos os títulos conquistados pelo homem que só tinha medo da Matinta Pereira, sua “inseparável dupla” estava presente em todos eles: Arlindo Rodrigues.

Ao falar de revolução salgueirense, pela magnitude da figura de Fernando Pamplona, relegam muitas vezes a importância de Arlindo Rodrigues, colocando-o inclusive à margem das figuras fundamentais à festa. É uma árdua missão, entretanto, traçar esse panorama de renovação da linguagem e do discurso das escolas de samba sem falar do gênio barroco do carnaval (e há um texto todinho dele aqui). Braço direito de Pamplona, conheceram-se no Theatro Municipal e construíram uma afinidade artística invejável, com processos criativos complementares. A dupla que parecia inseparável desfez-se após o carnaval de 1961 quando Fernando foi morar na Alemanha por alguns anos e abriu caminho para Arlindo alcançar o seu ápice em 1963 com “Xica da Silva”. Além de um desfile consagrador, aliando todas suas virtudes e inserindo novos elementos no cortejo carnavalesco, tendências e ideias que reinam até os dias de hoje, o carnavalesco deu ao Salgueiro seu primeiro título solo, elevando a escola a outro patamar. “O Descobrimento do Brasil (1962)”, "Chico-Rei (1964)" e "Skindô, skindô" (1984) foram três outros desfiles assinados individualmente pelo artista, além de diversos outros com Pamplona e sua equipe.

Se falamos de Arlindo como uma pessoa que por diversas vezes cai no esquecimento involuntário do senso comum, chegamos a uma outra figura que traçou caminhos contrários, também discípulo direto de Pamplona e um sucessor instintivo: Joãosinho Trinta. Maranhense, baixinho, arretado e genial, Joãosinho é daquelas figuras que não aparecem sempre, mas deixam um legado imensurável por onde passam. Diante de uma crise tremenda instaurada após o fiasco do carnaval de 1972, quando Fernando e Arlindo assinaram “Nossa madrinha, Mangueira querida”, restou a João e Maria Augusta, também discípula de Pamplona, dominarem no peito aquela bola quadrada e comandarem a situação. Os artistas voltaram às origens salgueirense em 1973, com o enredo "Eneida, amor e fantasia", e conseguiram um comemorado 3º lugar. Foi no ano que viria, porém, que Trinta começou a demonstrar todo seu potencial, inserindo mais uma inovação a qual o Salgueiro aderiria e seria pioneiro: os enredos delirantes, histórias não-lineares, seguindo o poder criativo do carnavalesco e a sua mais pura imaginação. Além dessa nova vertente temática, João inseriu no mundo do carnaval diversos fatores que viriam para repaginar para sempre o que a gente entende como desfile escola de samba. A verticalização das alegorias, a opulência e o luxo são heranças ainda muito fortes desse artista lendário. Voltando ao Salgueiro, tanto em 1974 (“O Rei da França na ilha da assombração”), quando assinou sozinho, como em 1975 ("O segredo das minas do Rei Salomão"), que esteve em parceria de Augusta, a vermelho e branco faturou o lugar mais alto do pódio, conquistando o primeiro e único bicampeonato de sua história até hoje.

Lage é o recordista em carnavais assinados na Academia.

Trazido por Pamplona - olha ele aí de novo - em 1977 para desenhar as alegorias do enredo “Do Cauim ao Efó, com moça branca, branquinha”, Renato Lage até então nunca sonhava em fazer carnaval. O assistente e chefe de alegorias permaneceu até 1978 - último carnaval no qual Pamplona assinou - e foi para Unidos da Tijuca logo em 1979. Voltou à Academia em 1987 para assinar com Lilian Rabello o desfile “E por que não?” e teve passagens no Império Serrano e Caprichosos, antes de se consagrar em um vitorioso casamento de 13 carnavais com a Mocidade Independente. O período só seria ultrapassado pelo tempo em que permaneceu no comando artístico do Acadêmicos do Salgueiro em parceria com sua esposa Márcia Lage, de 2003 a 2017, com exceção de 2009 (“Tambor”) e 2010 ("Histórias sem fim"), quando assinou sozinho. A segunda passagem pela vermelho e branco tijucana foi extremamente frutífera, apesar do único campeonato em 2009. Lage elevou o patamar da agremiação com belíssimas apresentações, deixando a escola no hall das sempre postulantes ao título, estando presente em todos os sábados das campeãs de 2008 até 2017, seu último ano. Com uma assinatura artística moderna e identificado com a origem e a identidade salgueirenses, o artista permaneceu na escola por longos 15 anos e não poderia definitivamente ficar de fora dessa lista.

Falar dos artistas da Academia e não citar o Departamento Cultural do Salgueiro seria uma missão extremamente complicada. Esse grupo tem grande importância na amarração das ideias e construções das sinopses dos enredos levados pelo Salgueiro desde 2002. Primeiramente encabeçado por Eduardo Pinto, filho da querida baluarte Iracema Pinto, e João Gustavo Melo, o cearense que se apaixonou pela Academia ainda criança e se tornou jornalista e doutorando em Artes pela Uerj. Os diretores culturais do Salgueiro são figuras essenciais do sistema pensante por trás dos carnavalescos nessa construção colaborativa de um enredo. João se tornou um dos grandes enredistas da festa conduzindo o desenvolvimento de temas como “A Ópera dos Malandros”, que teve sua preciosa interferência e faturou o Estandarte de Ouro. (Nós produzimos uma  entrevista bacana com o João Gustavo Melo na #SérieEnredo sobre a importância da atuação de um departamento cultural por trás da construção das histórias da avenida! Você pode ler aqui.)



Imponente, majestosa e invejada. Foi em 1963 que o Salgueiro lançou a pedra-fundamental da linguagem dos desfiles das escolas de samba atual, com o enredo sobre Xica da Silva. A grande ópera popular proposta por Arlindo Rodrigues tinha uma protagonista: Isabel Valença. A então esposa do presidente Osmar Valença já havia desfilado com destaque  interpretando Dona Maria, Rainha de Portugal, no enredo de 62 sobre o Descobrimento do Brasil. Mas foi ao incorporar a escrava que se tornou nobre nas terras de Diamantina que Isabel fez história e virou uma verdadeira celebridade carioca da década de 1960.

Com o luxo do figurino idealizado por Arlindo e realizado pelo costureiro Carlos Gil, Isabel entrou na Avenida Presidente Vargas com uma fantasia que custava mais que um apartamento popular na época. O enorme figurino inspirado na moda do século XVIII pensava mais de 25 quilos, cauda de 3 metros, uma infinidade de paetês, cristais, pérolas e pedras semipreciosas, além da imponente peruca de fio de nylon francês medindo cinquenta e cinco centímetros. O luxo da fantasia e atenção que Isabel recebeu, assumindo protagonismo tanto da narrativa quanto estético, ao buscar se diferenciar dos outros desfilantes com seu exuberante figurino. Foi assim que Isabel começou a estabelecer o que entendemos hoje como “destaque”.

Isabel Valença deslumbrante ao incorporar Xica da Silva. (Revista Manchete)

Ao incorporar Xica da Silva, Isabel Valença seria não só a própria entidade da rainha do Tijuco, manifestada através de corpo e fantasia, mas também a primeira grande “imagem” gerada por um desfile de escola de samba. A repercussão de Isabel ao assumir o papel da protagonista do desfile seria enorme, fazendo-a se confundir com a personagem. A partir daquele ano, Isabel se tornaria uma espécie de celebridade, estampou capas de jornais e revistas não só no Brasil, mas no mundo, como a norte-americana Times, concedendo entrevistas para importantes veículos de comunicação, sempre referida como a “Xica da Silva”. No ano seguinte, a destaque fez história a ser a primeira negra a vencer o concurso de fantasias do Teatro Municipal, um episódio que marcou um trânsito entre a festa erudita e os desfiles populares de maneira definitiva. Sua atuação seguiu brilhante no Salgueiro nos anos seguindo, vivendo outros personagens marcantes até o fim da sua vida. Só como Xica da Silva ela voltou a sair em 1965, 1984 e 1989. Em 1974, outro figurino histórico, a longa cauda da Rainha de Médicis concebida por Joãosinho Trinta. 

Quem brilhou ao lado de Isabel como protagonista do enredo de 1964 como Chico Rei, foi o grande baluarte Neca da Baiana. Um dos fundadores do Salgueiro, assumindo a função de Membro do Conselho Fiscal na ata de fundação da escola e que foi vencedor do concurso Cidadão Samba em 1976.

Júlio Machado, o Xangô do Salgueiro, no desfile da escola tijucana em 1995 (Foto Wigder Frota)

Numa escola de destinados a brilhar, outro grande destaque foi o Xangô do Salgueiro. Professor de História e sociologia, Júlio Expedito Machado Coelho começou a desfilar na alvirrubra em 1962, mas foi apenas sete anos depois que ganhou destaque ao incorporar orixá da justiça no enredo sobre a Bahia, em 1969. A partir da fantasia veio o apelido que acompanhou por mais trinta e oito anos, suas fantasias sempre traziam elementos a divindade a partir de então. Seu último desfile foi em 2007. Outra grande baluarte no quesito luxo e esplendor foi Iracema Pinto, que além de brilhar no alto dos carros alegóricos foi diretora do segmento por décadas na vermelho e branco, falecida recentemente a caminho do desfile da escola de 2019, deixou como legado seu filho Eduardo Pinto, desde o início dos anos 2000 atuando diretor cultural da agremiação. 


Outra linhagem importante nos desfiles da Academia foram seus grandes dançarinos. A precursora dessa arte foi a Paula da Silva Campos, mais conhecida como a Paula do Salgueiro, uma espécie de celebridade do universos das escolas de sambas na década de 1960 e intimamente ligada à identidade da vermelho e branco, desfilando na agremiação desde sua fundação. Tornou-se uma atração à parte com seu gingado e carisma, mesmo sem nunca ter sambado propriamente. Costumava usar fantasias de baianas estilizadas no estilo popularizado por Carmen Miranda. Sua atuação na folia ainda a levou a fazer parte dos conjuntos folclóricos de Mercedes Baptista e Solano Trindade, além da Brasiliana, de Haroldo Costa, com os quais viajou o Brasil e o mundo.

Um das baluartes salgueirenses mais emblemáticas; Paula do Salgueiro no desfile de 1963.

Nos anos 1960 quem também eram verdadeiras atrações do desfile da Academia era as Irmãs Marinho, um trio formado por Mary, Olívia e Norma que já era famoso quando se integrou à agremiação. Bailarinas  da noite carioca, apresentaram-se na boate Night and Day, do rei do teatro de revista Carlos Machado. As irmãs ainda rodaram o mundo no grupo de folclore Brasiliana, dirigido por Haroldo Costa, outro grande salgueirense, que foi casado com Mary.

Dos palcos da dança veio outra grande personalidade que fez história no Salgueiro, a pioneira Mercedes Baptista, já citada. Primeira bailarina negra do Theatro Municipal e criadora do Balé Folclórico, ela reuniu as heranças do popular e do erudito, de origem africana e européia, em uma dança verdadeiramente moderna. Em 1960, coreografou pela primeira vez seu grupo para desfilar na avenida a convite de Fernando Pamplona. No enredo sobre o Quilombo do Palmares, liderou um time de ogãs que tocavam atabaques.

Mercedes, a direita, puxa a inesquecível ala do Minueto, em 1963, no Salgueiro (Revista Cruzeiro)

Em 61, o grupo lembrou garimpeiros no enredo sobre Aleijadinho. Já em 62, o encontro entre índias e colonizadores do Descobrimento do Brasil já deu o que falar, repercutindo fortemente nos jornais e revistas. Mas foi mesmo em 1963 que o estouro definitivo aconteceu no seminal Xica da Silva. A ala do minueto entrou para história e marcou a contribuição definitiva da dançarina para a folia carioca. Em 1964, seu trabalho de coreografia foi tão intenso e complexo que agitou discussões sobre a descaracterização do samba. Tradicionalismo a parte, Mercedes sem dúvidas é figura fundamental da história salgueirense.

No findar da década mais importante da história do Salgueiro, outra bela cabrocha se destacou com sua ginga encantadora. Nascida praticamente dentro da quadra do Salgueiro, Narcisa Pereira Macedo frequentava os ensaios da escola desde nova porque sua mãe tinha uma barraquinha que vendia quitutes no "terreiro" - como se chamava a quadra naquela época. Em 1954, primeiro desfile da Academia, a menina não ficava quieta nos braços da mãe, que, cansada, a colocou no chão. Com apenas 5 anos, Narcisa mostrou que o samba estava no seu sangue e deu um verdadeiro show. Na década seguinte, estreou aos dez anos no extinto posto de Mascote de bateria, uma prévia do que seria as rainhas de agora. Protagonizou um episódio histórico em 1969, quando perdeu as sandálias e sambou descalça no asfalto sob o sol quente. Foi no antológico "Bahia de Todos os Deus" que seus pés ficaram em carne via ao término do desfile. Narcisa se apresentou como passista no Salgueiro até a década de 80 e atualmente administra um quiosque na quadra da Academia. 

Quando o Salgueiro perdeu o protagonismo da folia no final da década de 1970 para dar espaço ao surgimento de outras grandes escolas, uma porta-bandeira roubou para si os holofotes da vermelha e branco da Tijuca. Revolucionária, Rita Freitas chegou na Academia em 1982 após um concurso já sacudindo as estruturas do bailado tradicional do casal mais nobre da folia e quebrando paradigmas. Branca e de classe média, formada em Educação Física, sua presença causou estranhamento. Além dos clássicos rodopios, Rita incorporou ao bailado mais movimentos corporais, muito movimentos de braços e coreografias garantido uma sequência de notas 10. Rompeu com a Academia pela primeira vez em 1986, após um desentendimentos com a diretoria da escola. Voltou, de forma triunfal, em 1991, quando faturou um Estandarte no lendário desfile sobre a Rua do Ouvidor, estreando com novo parceiro: Ronaldinho, que também faria história. 

Reinaldo Alves Teixeira, Ronaldinho, era dono de uma elegância e um sorriso inconfundíveis. Ligado à folia desde cedo, estreou como mestre-sala em 1985 na vizinha Império da Tijuca. Após três carnavais, em 1988, estreou pela Academia com a porta-bandeira Norminha, já faturando seu primeiro Estandarte de Ouro. Após de afastar da agremiação em 1991, retornou apenas dez anos mais tarde em um episódio marcado por uma forte superação. O bailarino se acidentou em um histórico incêndio no programa de televisão Xuxa Park. Ronaldinho teve 20% da área corporal atingida e mesmo assim não deixou de desfilar, ao lado da então estreante Marcella Alves, com apenas 17 anos. Superando o episódio, os dois não só ganharam notas máximas do júri, como Ronaldinho faturou seu segundo Estandarte de Ouro. A parceria entre os dois durou até o desfile de 2006, quando ele retomou a dançar com a porta-bandeira Rita Freitas. No ano seguinte, começou uma marcante cumplicidade com Gleice Simpatia, que vinha da Acadêmicos da Rocinha. Seguiram juntos por cinco carnavais, sendo campeões em 2009. Aos 42 anos, esse grande bailarino morreu precocemente, depois do carnaval de 2013.


O último obá salgueirense em terra! Djalma Sabiá é um dos fundadores do Salgueiro e das mais importantes figura da agremiação, atuando ainda como compositor de obras clássicas. São assinados por eles clássicos como “Navio Negreiro” (1957); “Debret” (1959) e “Chico Rei” (1964). Foi casado com a passista Estandília, porta-bandeira do Salgueiro nas décadas de 1960 e 70. Além da importância histórica e das habilidades musicais, puxou os sambas de 1956, 1957 e 1959. Assim como o ritual de bater cabeça no terreiro ao chegar à entidade máxima, Djalma é aguardado ansiosamente e louvado com todo respeito e devoção como maior símbolo de ancestralidade da escola a cada desfile não só pelos salgueirenses, mas por todos que valorizam o fundamento de uma escola de samba.

Geraldo Babão: um dos grandes compositores da Academia (Foto Jornal Extra)

Outro nome de respeito da ala de compositores da Academia do Samba é Geraldo Babão. Sambista de mão cheia, conhecido pela sua facilidade em tirar melodias lindíssimas sem nenhum instrumento de corda, comumente utilizados para essa finalidade. Babão usava sua fiel parceira: a flauta. Uma história triste marca, entretanto, sua história. Geraldo trabalhava na fábrica da Brahma, quando uma garrafa de vidro de cerveja explodiu em sua mão, inutilizando um de seus dedos, impossibilitando que ele continuasse a tocar. Além disso, o compositor foi uma das figuras principais na introdução da ideia da fusão que deu origem ao Acadêmicos do Salgueiro, não aceito por ora pelo Calça Larga, mas com a semente plantada. Após o carnaval de 1953, o poeta desceu o morro do Salgueiro, acompanhado das três instituições que virariam uma cantando um samba de sua autoria, brincando com as rivais, “Vamos balançar a roseira/Dar um susto na Portela/No Império e na Mangueira/Se houver opinião/O Salgueiro apresenta/Uma só união”. Os versos nitidamente flertavam com a necessidade de se juntar a fim de quebrar a hegemonia das três grandes citadas no sambas. O compositor saiu do morro após a negativa pela fusão e foi para a vizinha Vila Isabel, mas logo voltou a tempo de dar à luz belas obras. Algumas das composições dele, “Eneida, Amor e Fantasia (1973)”, “Chico Rei (1964)” e “História do Carnaval Carioca (1965)”. 

Noel Rosa de Oliveira - sempre bom ressaltar, pessoa diferente do homônimo sambista de Vila Isabel - foi outro grande compositor do Torrão Amado. Ele foi o puxador da escola nos anos 1960 e 1970, quando essa função ainda era chamada de crooner, um epíteto americano de antigamente para designar os cantores de jazz. O Noel salgueirense foi compositor de nada menos do que dois clássicos do carnaval e dois campeonatos da escola, “Quilombo dos Palmares (1960)” e “Xica da Silva (1963). Além dos sambas de enredo, o poeta dava expediente nos sambas de meio de ano com primazia com parceiros da ala de compositores.

Grande parceiro de Noel, Anescarzinho do Salgueiro compôs também os dois vencedores acima. Não fixo ao samba-enredo, teve grande legado na MPB, regravando e compondo sambas que furaram a bolha nichada da folia, participando de importantes movimentos musicais da época. Nescarzinho, como também era conhecido, participou do musical “Rosa de Ouro” e integrou o grupo “Voz do Morro” com Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho

O carnaval salgueirense de 1971 reservou ao Salgueiro o samba mais cantado mundialmente da história. Com uma disputa acirrada, durando até duas semanas antes do carnaval, os dois finalistas são artistas cristalizados da prateleira de compositores da Academia do Samba: Zuzuca e Bala. Com o refrão extremamente melódico, “Olê-lê, Olá-lá/Pega no ganzê/Pega no ganzá”, o compositor Zuzuca acertou em cheio e contagiou a avenida durante o desfile campeão, trazendo novos paradigmas para o gênero carnavalesco.

Zuzuca do Salgueiro: compositor da obra revolucionária de 1971 (Foto Jornal Extra)

Logo no ano seguinte, o poeta queria repetir a dose no enredo sobre a Mangueira e emplacou mais uma trinca de lugares do Morro de Mangueira com comunicação objetiva e melódica: Tengo-Tengo, Santo Antônio, Chalé… Além desses clássicos mais presentes no imaginário popular, Zuzuca assinou “Chico Rei” em 1964, e “Os amores célebres do Brasil” em 1966. Bala foi o adversário de Zuzuca em relação à disputa de 1971, na qual saiu perdedor. Depois dali, todavia, nunca mais parou de ganhar, assinando a maior catarse que a Sapucaí já viu: “explode, coração!”, enredo de 1993, “Peguei um Ita no Norte”. Além desse clássico, o compositor enfileirou vitórias e outros belíssimos sambas, como “O reino encantado da mãe natureza contra o reino do mal” (1979), “Traços e Troças” (1983), "Anos Trinta, Vento Sul – Vargas" (1985), “E Por Que Não” (1987) e “O Negro que Virou Ouro Nas Terras do Salgueiro” (1992). No total, foram 11 sambas assinados pela Academia, o maior vencedor de todos os tempos. Muitos dos sambas de Bala, tiveram como parceiros outros grandes poetas da agremiação, como Celso Trindade e César Veneno.

Se reza a lenda que Demá Chagas guardava o refrão inesquecível de 1993 porque seus parceiros achavam fraco e ele quase não saiu da gaveta mesmo com “Ita” e o próprio confirma a história, ele é mais um que jamais poderia ficar de fora desse texto. Compositor extremamente ativo da safra salgueirense, o poeta participa ainda hoje das disputas tendo ganhado seu último samba em 2019 no emblemático enredo sobre o padroeiro da escola, Xangô. Tendo vencido seu primeiro samba só em 1989 com o enredo "Templo negro em tempo de consciência negra", emplacou mais três até os anos 2000, 1990, 1992 e 1993. Zé Di, compositor paulista trazido por Joãosinho para “decifrar” seus enredos e transformá-los em samba exatamente de acordo com o que pensava, causou muita controvérsia no morro do Salgueiro antes de cair nas graças dos sambistas salgueirense por ganhar o samba que deu o campeonato de 1974, “Ô, ô, ô Xangô/As preta véia não mente, não sinhô”. Além desse, venceu com seus parceiros a disputa de 1980, com o enredo "O bailar dos ventos. Relampejou, mas não choveu", além de ter sido intérprete da agremiação no ano de 1982.

Marcelo Motta é o maior vencedor recente da ala de compositores salgueirenses, emplacando um expressivo número de oito sambas vencedores desde 2007, quando venceu sua primeira disputa com “Candaces”. O poeta é autor de duas obras emblemáticas do Salgueiro, a de 2019, já citada acima no trecho do Bala, em louvação a Xangô, e o samba de 2016, no enredo “A Ópera dos Malandros”, obra que teve uma rápida adesão popular e virou um verdadeiro hit do pré-carnaval, furando a bolha carnavalesca durante aquele período. Outro nome vitorioso desse passado recente e compositor salgueirense de longa data é o consagrado sambista Xande de Pilares. O compositor e líder do grupo Revelação ganhou seu primeiro samba em 2014, no enredo “Gaia - A vida em nossas mãos”, a composição venceu o Estandarte de Ouro. Xande também emplacou suas composições nos de 2015, com o enredo "Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí" e no ano de 2019 com o enredo "Senhoras do ventre do mundo".


Salve o mestre do Salgueiro! Mesmo sendo o diretor que mais ficou à frente de uma bateria, Mestre Louro não tinha lá boas lembranças do carnaval quando era criança. Sua mãe Nair, mais conhecida como Dona Fia, boa sambista que era, não perderia o desfile de sua escola e tacava a primeira fantasia que via pela frente no menino. Enquanto criança, não gostava de se fantasiar e por isso danava a chorar. Com o tempo, foi se acostumando e aprendendo a gostar daquele ambiente, até que naturalmente os caminhos foram o aproximando da bateria. Irmão de Almir Guineto e filho de seu Ioiô, Iracy Serra, um dos fundadores do Acadêmicos do Salgueiro e compositor, não tinha pra onde correr. Iniciou na bateria em 1964 como ritmista, foi convidado pelo Mestre Mané Perigoso em 1972 para assumir o cargo de diretor de bateria, cargo em que continuou até 2003 - 31 anos! Nessa trajetória faturou 5 Estandartes de Ouro de melhor bateria e outros dois, de personalidade masculina. De fato, Louro foi responsável por dar nome e fama a uma das melhores baterias do carnaval carioca até hoje e pavimentar os caminhos que guiaram o Salgueiro a ter uma batida furiosa. Além dele, a batuta da Academia teve na figura de Tião de Alda outro grande maestro.

O grande puxador Rico Medeiros em 2016, quando interpretou uma parceira na disputa de samba naquele ano.

Aliado ao batuque do grande mestre, o Salgueiro também revelou grandes intérpretes do carnaval. O primeiro deles foi Rico Medeiros, famoso por sua voz rouca. Sua trajetória começou em  1978, ao conduzir “Do Yorubá à luz, à Aurora dos Deuses”. A partir daí foram quase anos de dedicação à família salgueirense, com uma breve passagem no apoio do carro de som na Imperatriz Leopoldinense, em 1987. Neste período, o sambista revezava-se entre ser o cantor principal da escola e também como coadjuvante de luxo de outros puxadores igualmente ilustres. Fora da folia, grandes discos solos e foi autor de sambas como “Blusa amarela”, parceria sua com Moacir, que fez relativo sucesso nas emissoras de rádio no final da década de 70, quando foi gravada pelo grupo Os Originais do Samba. Após sua grande contribuição a nossa cultura, o intérprete faleceu recentemente, em 24 de abril de 2020.

O grande substituto de Rico foi Melquisedeque Marins Marques, mais conhecido como Quinho do Salgueiro, carrega no próprio nome (artístico) a identificação com a Academia do Samba e a responsabilidade de representar tantos nomes, histórias e vozes que já passaram por ali. Entre idas e vindas, são exatamente 22 carnavais defendendo os componentes salgueirenses desde seu primeiro ano em 1991 até 2020. Demonstrando uma intimidade única com o DNA salgueirense, Quinho e o Salgueiro se confundem em sua essência. Conhecido por seus cacos, brincadeiras e suas apresentações enérgicas, o cantor foi quem representou a escola em seus dois últimos campeonatos. Além da função vocal, Quinho também já participou de disputas de samba na Academia, consagrando-se campeão em 7 vezes.

Para manter o ritmo, é preciso bons diretores de harmonia. E nesse quesito existe uma verdadeira dinastia se tratando de diretores e baluartes: os “Calça Larga”. O primeiro deles foi Joaquim Casemiro, diretor de harmonia e da quadra nos primeiros anos da agremiação. A curiosa alcunha veio pelo seu mais de 1,90 de altura e os mais de 100 kg, um líder imponente e gigante em muitos sentidos. Vivendo no morro desde 1932, foi uma figura de liderança influente que tinha na sua lista de amizades o governador Carlos Lacerda. Sua atuação foi tão fundamental para a quadra e os ensaios da vermelho e branco que hoje ele batiza a quadra original da escola, no Morro do Salgueiro, onde ela ensaia em algumas ocasiões.Falecido precocemente em um pleno ensaio da escola para a folia de 1965, Casemiro deixou como herdeiro seu filho Jorge que ganhou a mesma alcunha de “Calça Larga”. 

Já em “História do carnaval carioca” (1965), Jorge Calça-Larga começou a atuar no lugar deixado pelo pai, fazendo de tudo um pouco; puxando carro alegórico, presidente de ala, diretor social, presidente do conselho fiscal e vice presidente geral. Já nos anos 2000, a terceira geração da família passou a atuar como diretor de harmonia e evolução: Jô Calça-Larga. Ciente de seu legado, fundou o Espaço Cultural Calça Larga, na casa onde seu pai e avô moraram e que realiza pagodes e outros eventos.

Laíla surgiu no Salgueiro, como compositor e foi finalista na disputa de 1963. Conta Leonardo Bruno, jornalista e jurado do Estandarte de Ouro, que ele teria inclusive intimidado Pamplona, em posse do voto de minerva, a votar favoravelmente a sua parceria na disputa. Aos poucos, foi galgando hierarquicamente pela Harmonia da escola, chegando ainda muito novo no cargo de diretor, o que causou natural estranheza de alas mais tradicionais da escola. Com sempre muita competência e um aptidão pelo canto e pela fluência de um desfile aguerrido, com então diretor foi começando fermentar o “selo Laíla” de harmonia que estamos conhecidos de conhecer até hoje. Uma evidência do respeito e eterno carinho que Laíla tem pelo Acadêmicos do Salgueiro é utilizar até hoje os fios de conta das cores (vermelho) do padroeiro salgueirense, Xangô.


Além de toda a contribuição artística para a festa como um todo, o desfile de 1963 da alvirrubra despertou ainda um dos mais importantes salgueirenses da história: Haroldo Costa. Ele estudava no colégio Pedro II quando teve contato com o teatro em 1948, atuando no Teatro Experimental do Negro. Começando primeiro como contrarregra em meio às montagens na União Nacional dos Estudantes (UNE) até chegar ao posto de ator, no grupo liderado por Abdias Nascimento. É importante ator, escritor, produtor e figura da cena cultural carioca desde então. Em 1956, foi protagonista da primeira montagem de “Orfeu da Conceição”, escrita por Vinícius de Moraes e encenada no Theatro Municipal. Fundou, ao lado do poeta Solano Trindade, o grupo Teatro Folclórico, depois rebatizado como Brasiliana. O coletivo foi responsável por apresentar espetáculos sobre a cultura popular e viajou o mundo com suas apresentações. Na folia, já foi jurado dos desfiles no início dos anos 1960 e  depois se consagrou como comentarista na TV e jurado do Estandarte de Ouro. Em 1984, lançou o seminal “Salgueiro: Academia do Samba”, biografia pioneira de um escola de samba, sendo a sua uma das perspectivas responsáveis por construir o cânone da Revolução Salgueirense. Quase vinte anos depois, relançou a obra em comemoração do cinquentenário da escola, batizado de “Salgueiro - 50 anos de glória”. Haroldo já desfilou na comissão de frente da agremiação em seu formato tradicional, com os bambas de fraque e cartola. 

Os cantores Wilson Simonal e Jorge Ben Jor no desfile da Academia de 1971. (Revista Manchete)

Outros grandes salgueirenses que já desfilaram pela vermelho e branco foram os cantores Wilson Simonal e Jorge Ben Jor. Inspirado no desfile da escola, Jorge compôs uma de suas canções mais famosas, Xica da Silva, trilha sonora do filme homônimo dirigido por Cacá Diegues. Outra personalidade negra da nossa música e que valorizou a Academia a ponto de batizar o enredo "Festa para um rei negro" com um dos seus álbuns, foi Jair Rodrigues. O parceiro eterno de Elis Regina gravou ainda sambas de enredo da alvirrubra que não foram para a Avenida, com a parceria de Bala em 1971.

Ainda na música, Almir Guineto, herdeiro de grandes nomes da escola, também nunca escondeu seu amor pelo torrão amado. Nessa lista está ainda o Branca Di Neve, integrante do Originais do Samba ao lado de Mussum, e compositor do clássico exaltação da escola “Salgueiro é uma raiz”, ao lado de Luiz Carlos Xuxu, sambista também responsável por “Lá vem Salgueiro”. Sando da música para as artes dramáticos, dois ávidos torcedores da Academia e que sempre marcam ponto desfilando são Eri Johnson e Ailton Graça.

Na difícil missão de resgatar a história de uma agremiação por meio de seus baluartes, sempre alguns nomes acabam fugindo. Isso é potencializado por aspectos como a característica oral do ambiente das escolas de samba e pela falta de registro da trajetória de alguns nomes. Encerrando a lista, deixamos a homenagem a algumas figuras do Salgueiro que encontram registros em obras e artigos sobre a história da escola, mas sem maiores informações, tais quais as pastoras Tia Neném do Buzunga e Dona Fia. Outra figura feminina de destaque foi Dona Maria Romana (presidente da ala da das patativas e depois transformada em baianas). Também assinalamos Peru Ceciliano (diretor de harmonia e idealizador do pavilhão).

Por fim, ironicamente, contamos o time de fundadores da agremiação composto pela equipe formada por Paulino de Oliveira (Presidente); Olímpio Correia da Silva, o "Mané Macaco" (Vice-Presidente); Eduardo dos Santos Teixeira (Presidente de honra); Antônio Almeida Valente de Pinho (Patrono); Alcides Nascêncio de Carvalho (Secretário); Djalma Felisberto, o "Chocolate" (Segundo-secretário); Pedro Ceciliano, o "Peru" (Tesoureiro); Manoel Vicente de Oliveira, o "Manoel Carpinteiro" (Segundo-tesoureiro); Durval Antônio Jesus (Procurador); Antônio José da Silva, o "Malandro" (Segundo-procurador); Manoel Bernardo, o "Cabinho" e Manoel de Souza Gomes o "Manelito" (Sindicância); Custódio Augusto (Presidente do Conselho Fiscal); João Batista dos Santos, o "Bitaca", Mário José da Silva o "Totico", Joviano de Oliveira e Manoel Laurindo da Conceição, o "Neca da Baiana" (Membros do Conselho Fiscal).


Referências bibliográficas: os livros “Salgueiro: Academia do Samba”, de Haroldo Costa, e “Explode coração: histórias do Salgueiro”, de Leonardo Bruno, tal como as pesquisas acadêmicas de Guilherme Guaral, incluindo a tese de doutorado intitulada “O G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiros e as representações do negro nos desfiles das escolas de samba da década de 1960”, além da dissertação de mestrado de Leonardo Antan, “Laroyê Xica da Silva: narrativas encruzilhadas de uma incorporação no carnaval carioca”.

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