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Carnavalize

 


Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos 

Investigar ritmos é perceber as ligações de um universo quase à parte, no qual as conversas se dão por sinais e pela batuta aguda dos apitos, os quais se manifestam a todo momento ditando o andamento do som. Assim, os símbolos visuais e auditivos das direções de bateria chamam a atenção dos ritmistas e se misturam na complexa melodia da orquestra que conduz a escola em sua caminhada. É dela a missão de ser a primeira ala a começar o desfile e a última a encontrar a linha final.

Para trilhar a nossa última viagem da série Batuques, iremos aproveitar a nossa última parada, que foi em Madureira, embarcar na estação de trem mais próxima, rumando para a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma viagem curta, na companhia dos infalíveis representantes do comércio alternativo que tomam esse meio de transporte na cidade, nos fará chegar até Padre Miguel.

Se voltarmos no tempo, encontraremos os bambas que fundaram a Mocidade Independente de Padre Miguel se congregando por intermédio do esporte da bola redonda que tanto cativa nosso país. Assim como a União da Ilha do Governador, a Mocidade também se originou por intermédio de um time de futebol local. É em meio aos batuques, que comandavam os festejos após as partidas vitoriosas do Independente Futebol Clube, sempre regadas à batida de limão, que a escola é fundada e coloca de vez a Zona Oeste no mapa do Carnaval. 

Fundada em 10 de novembro de 1955, a Mocidade Independente protagonizou diversos momentos importantíssimos para a história da festa como a conhecemos, em todos os seus aspectos. Mas, possivelmente, o mais determinante deles foi a influência que a bateria de Padre Miguel teve para a transformação das demais baterias das escolas de samba em todo o país. E, como não poderia ser diferente, são esses códigos e histórias que iremos abordar mais a fundo nesse texto, para falar da Não Existe Mais Quente.

Padre Miguel é a capital da escola de samba que bate melhor no Carnaval

Mestre André na batuta da Bateria Independente no desfile campeão de 1979. Foto: O Globo

E se o Mestre André sempre dizia, não seríamos nós a discordar dele: ninguém segura essa bateria. Realmente, é impossível falar dela sem primeiro trazer à baila essa grande figura do Carnaval carioca, tido por muitos como o “Mestre dos Mestres” - o icônico Mestre André que, na verdade, se chamava José.

José Pereira da Silva foi técnico do Independente Futebol Clube, time a partir do qual foi fundada a Mocidade, e encantou a escola desde antes de assumir o cargo pelo qual entraria para a História. Ainda no bloco Mocidade do Independente, surgido antes da escola de samba, Mestre André foi baliza para o estandarte, mas tão logo a escola foi fundada ele se tornou mestre de bateria, em 1956. 

E após se investir da função, Mestre André conduziu a bateria da Mocidade Independente para um patamar sem precedentes. Durante muito tempo da sua gestão à frente da Não Existe Mais Quente, ela era conhecida como uma bateria que tinha uma escola de samba, e não ao contrário, tamanha a marca e identidade que foram empregadas pelo mestre e seus diretores e ritmistas no Carnaval. Dessa forma, aqueles que testemunharam seu trabalho reconhecem a singularidade que foi. Zé Bolinho, que foi ritmista sob a batuta de André, diz: “Assim como os grandes craques do futebol, que deixam sua marca única, nunca mais vai existir outro Mestre André.”

Uma das criações que ocorreram sob a sua batuta na Mocidade, tomando todo o mundo do Carnaval de assalto, foi a utilização do surdo de terceira. Junto com Tião Miquimba, Mestre André implementou esse instrumento em sua bateria, criando um balanço inconfundível na bateria independente, além de ser uma ótima ferramenta para ajudar na manutenção do ritmo. A inovação deu tão certo que hoje é utilizada em todas as escolas de samba. Se as ideias de Mestre André tivessem parado por aí, já teria sido suficiente para revolucionar por completo a história do Carnaval, mas sua influência continua. 

Bateria da Mocidade Independente, com todos os ritmistas carecas, no desfile de 1976. Foto: Eurico Dantas | O Globo.

Foi também o criador do chocalho de platinela, que veio para substituir as maracas utilizadas na época. Cumprindo a mesma função, mas com uma sonoridade melhor e mais alta, também foi uma criação que se espalhou pelas escolas de samba. Assim como é de sua autoria a criação das baquetas de tamborim cortadas, feitas a partir de um pedaço de bambu cortando sua ponta em vários pedaços, de forma que o som do tamborim se multiplicava, algo que também se espalhou pelas demais escolas. Pode-se citar ainda que foi sob sua batuta que foi criada a levada de repique clássica, comumente referida como “tucalacatuca”. Mestre André foi um dos grandes responsáveis pelo fato de o instrumento ganhar notoriedade e destaque dentro da bateria. 

Como tratamos anteriormente, tanto na Série Batuques quanto na Série Padroeiros, a influência da religiosidade africana nas baterias é um fator muito marcante, em Padre Miguel não seria diferente. Tia Chica, mãe de santo e baiana da escola que deu as cores do pavilhão da escola teria indicado a Mestre André que fizesse um toque de caixas para honrar o orixá padroeiro da escola e da bateria, Oxóssi. Atendendo o pedido de Tia Chica, o músico conseguiu criar com maestria um toque em cima do agueré de Oxóssi, dando para a bateria da Mocidade uma outra característica única no Carnaval. De forma que sempre que a alviverde pisa na Avenida é possível ouvir a cadência característica, como se a bateria preparasse o cortejo para a caça, em honra do orixá que lhe rege. (Saiba mais aqui)


Essa relação do toque de caixa da bateria da Mocidade com os seus ritmistas e com toda a escola assume um papel muito interessante quando conversam com a sua comunidade, principalmente na ligação com aqueles ligados às religiões de matriz africana. Nesse sentido, Fábio Fabato, jornalista e um dos biógrafos da Mocidade Independente, diz:

“O sentido da caçada é uma questão fundamental, que a gente tem que discorrer. A gente pode imaginar que, como a bateria da Mocidade toca para Oxóssi nesse sentido de caçada, ela desce para o centro numa caçada de axé. É a alegoria perfeita do Orixá de cabeça da escola. Então, a bateria primeiramente com o Mestre André e depois seus herdeiros, sai para essa caçada de axé, para caçar, ganhar, enfeitiçar, roubar o coração dos outros a partir do nosso axé, inserindo esse grupamento pouco conhecido no coração do Rio de Janeiro. E tudo isso tem o dedo, a mão, a alma, o apito, a batuta e o chapeuzinho do Mestre André.” 

Júnior Sampaio e Serrinha Raiz demonstram a interseção entre o Agueré de Oxóssi e a batida de caixa da Mocidade - Vídeo: Batuque Digital


Outra característica única da bateria da Mocidade, também criada nos tempos de Mestre André, é a afinação “invertida” dos surdos da Estrela Guia. Funciona assim: o que ficou comumente convencionado nas baterias das agremiações é que o surdo de primeira, que toca no segundo e quarto tempo do compasso, tem uma afinação grave, enquanto que o surdo de segunda, que toca no primeiro e terceiro tempo do compasso, tem uma afinação médio-aguda ou aguda, a depender do gosto dos diretores. Já na Não Existe Mais Quente, ocorre o contrário. Os surdos de primeira tem uma afinação médio-aguda ou aguda, enquanto os surdos de segunda tem uma afinação grave. Essa característica oferece para a bateria também uma identidade única, fazendo com que seu ritmo seja tão marcante. 

Por fim, além de todas as invenções citadas anteriormente, o legado de Mestre André permanece vivo também por intermédio da criação que talvez seja a mais inovadora: as paradinhas. É difícil pensar nas baterias de hoje e imaginar que houve um tempo em que as baterias não criavam convenções inventivas e complexas para suas apresentações, mas isso começou com o Mestre dos Mestres. 

Reza a lenda que, no ano de 1959, Mestre André conduzia a bateria da Mocidade e, enquanto riscava o chão da Praça Onze, exibindo seu talento no pé, teria caído. No momento de sua queda, seus ritmistas teriam parado de bater nos instrumentos, com exceção de apenas um ritmista, que continuou tocando seu repique. Mestre André, que de bobo não tinha nada, rapidamente se levantou e chamou a bateria para voltar a tocar dentro do compasso, e daí, teria surgido a paradinha. Dessa maneira - ou não -, foi a partir da inovação de Mestre André que não só a Não Existe Mais Quente, como todo o Carnaval se revolucionou.

Ivo Lavadeira (de boina) um dos fundadores do time Independente Futebol Clube, Mestre Djalma “Galo Velho” (de roupa listrada) um dos criadores das primeiras bossas da NEMQ, Tião Miquimba (de branco) que criou o surdo de terceira junto de Mestre André, Madureira (com o óculos pendurado na camisa) ex diretor da bateria. Todos sobre a batuta de Mestre Bereco, no FINEP Seminário Mestre André - o maestro do povo, em 2009. Foto: Fábio Fabato, acervo pessoal


Uma das grandes inovações da Mocidade foi também a criação da bateria mirim, no ano de 1969. Com isso, ficou eternizado um dos maiores momentos do Carnaval, com o encontro da bateria da escola com a dos pequenos, na Avenida Presidente Vargas. Zé Bolinho, que foi ritmista da bateria mirim neste ano, conta:

”Mestre André viu a gente brincando com os instrumentos atrás da quadra quando éramos crianças e perguntou se queríamos tocar. Foi aquela festa, uma animação danada. Ele nos ensinou e ensaiou - e eu me lembro como se fosse hoje - o encontro das duas baterias na Presidente Vargas. Num certo ponto do desfile, ele parou a nossa bateria e a da escola grande começou a tocar. Me emociono só de lembrar que fiz parte desse momento histórico.”

Mestre André, com essa inovação, criava não somente um legado de preservação para a bateria, mas também oferecia àquelas crianças uma atividade, tirando-as do perigoso ócio. 

Uma grande marca da Mocidade Independente de Padre Miguel é a força familiar que mora no seio da escola. Desde os primórdios da escola, isso pode ser mapeado: foi a família Trindade que atuou na fundação e estruturação da escola recém-fundada, passando também por Maria do Siri, que emprestou o terreno para que a escola pudesse conduzir seus ensaios à época, quando a repressão aos sambistas e aos malandros era muito forte e recorrente. E, caminhando pelos laços familiares, chegamos à família Orozimbo, que teve bastante influência no crescimento da bateria da Mocidade Independente. 

Surdo da Mocidade Independente no desfile de 2018. Foto: Dhavid Normando | Riotur

Foi dos Orozimbo que saiu um dos maiores mestres da história, não só da Mocidade Independente, mas de todo o Carnaval. Mestre Jorjão se iniciou na bateria mirim criada pelo Mestre André ainda aos 6 anos de idade, mostrando que o talento e o amor pelo ritmo havia começado cedo. Galgou os degraus comuns aos ritmistas que se destacam e se tornou mestre da Não Existe Mais Quente, carregando no sangue talvez o maior DNA da bateria de Mestre André: o amor pela inovação. Mestre Jorjão era um verdadeiro revolucionário, sem medo de arriscar, mas com conhecimento pleno de cada toque, levada, afinação que queria para as baterias que comandou.

Isso ficou marcado na sua trajetória e se destaca com mais força no ano de 1997, quando na Viradouro levou para a Avenida a famosa paradinha funk, uma momento que ficou marcado para sempre na folia do país. A mistura de ritmos “alheios” ao universo do samba plantaria uma semente para que dali pra frente diversas vezes outros mestres pudessem trazer ritmos mais complexos e diferentes para a realização de algumas paradinhas. Ainda que, no âmbito pessoal, tivesse um jeito sério, Jorjão era conhecido por ter um grande coração, além do talento e liderança inegáveis, que foram laureados com os dois Estandartes de Ouro que ganhou no comando da bateria da Mocidade, além do prêmio “Mestre André” de destaque do Carnaval de 1988, digno de alguém que veio dessa frondosa árvore. 

Mestre Dudu na batuta da Não Existe Mais Quente no desfile de 201. Foto: Gabriel Monteiro | Riotur

Outra relação familiar bem marcante na história da bateria da alviverde é a árvore genealógica da família do grande Mestre Coé, que comandou a Não Existe Mais Quente de 1995 até 2004. Seu filho trilhou seus passos, tendo adentrado a bateria da Estrelinha da Mocidade com 8 anos, mostrando que a semente plantada por Mestre André, a de ter um lugar em que essa renovação fosse feita de forma orgânica, segue dando certo. O menino se apaixonou pelo repique e trilhou vários caminhos na bateria da Estrelinha da Mocidade chegando a ser o mestre da escola mirim, para depois se tornar diretor de seu próprio pai. Hoje, mestre de Bateria da Mocidade, o mestre Dudu carrega consigo a tradição do trabalho em família, tendo ao seu lado como diretor o seu irmão Henrique Arcanjo, além de também dar continuidade ao enorme legado de mestres da Mocidade, mantendo o ritmo que marcou a escola e mostrando que uma agremiação que alimenta suas raízes sempre terá frutos a colher.

E não há como falar do legado familiar da Mocidade sem trazer a história da família Quirino. Essa história teve início em 1924, com o nascimento de Quirino da Silva Lopes, que pisou forte nesse chão, com orgulho de sua negritude, ainda que lidasse com a repressão aos sambistas naquele tempo. Nadando contra a corrente que buscava apagar a história, costumes e cultura da negritude, fez de tudo para dar continuidade à sua veia artística, trabalhando em lojas de instrumentos. Com isso, foi primeiramente tocador de pandeiro. Mas foi na cuíca, instrumento que fez pela primeira vez a partir de uma lata de salsicha vazia e uma vareta de bambu, que encontrou o seu lugar, que o consagraria para sempre. 



Assim, sua história se mistura com a caminhada da Mocidade Independente, já que morou na Zona Oeste e viu de perto o crescimento da escola de samba na qual trilharia uma gigantesca caminhada, tendo orgulho de ter posto terra no terreiro da Coronel Tamarino. Iniciou sua trajetória esquentando couro para ajudar na afinação dos instrumentos, até ingressar a bateria com sua cuíca, marcando seu lugar na história. Demonstrando seu talento, viajou o mundo com Mestre André e a Mocidade, tendo inclusive um de seus solos de cuíca eternizados na gravação “Cuíca no Samba de Uma Nota Só”, de produção de Tom Jobim.

Seu legado se eternizou a partir do seu querido instrumento, que levou para as viagens pelo mundo e, em cada lugar que passava, pegava alguma das moedas locais para colocar em sua lendária cuíca, marcando não só a história do instrumento no Brasil, com um legado de conhecimento que jamais se perderá, mas criando também uma herança física. A famosa “cuíca com as moedas” acompanhou Seu Quirino até 2006, quando ele deixou de tocá-la, mas passou para as mãos de seu filho, Quirininho, que já era percussionista e assumiu o legado do pai. Em 2010, essa lendária cuíca chegou às mãos de Eryck Quirino Neto, a terceira geração dessa grande família a pisar na Sapucaí, carregando não apenas o legado histórico do instrumento, mas novamente a cuíca cheia de moedas, que marcou história não só na bateria da Mocidade, mas também em todo o Carnaval.

As três gerações da família Quirino: Mestre Quirino, Quirino Neto e Quirininho.


Com esse capítulo, encerramos hoje a Série Batuques, na qual tivemos a honra de desvendar juntos os códigos e as mensagens que algumas das tantas baterias das escolas de samba do Rio de Janeiro trazem em seus toques e batuques. Eu, João Vítor, agradeço ao Eryck pela parceria, e também pela honra de contar um pouco da história da sua família. É baseado nessas relações inquebráveis que o samba se perpetua e não morre jamais.

Salve a cuíca, salve os Quirinos, salve a Mocidade!

Se ainda não leu, confira os demais textos da Série Batuques sobre o Partido Alto (Estácio, Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel); a batida do surdo um da Estação Primeira de Mangueira e o O baticum majestoso da Portela, imperial da Serrinha e insulano.

Além da Série #Batuques, você pode conferir também a #SérieMulheres, lançada às segundas do mês de agosto. 


















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Durante o mês passado, na Série Padroeiros, o Carnavalize abordou a relação das escolas de samba com os santos e os orixás de casa. Como refletir as identidades religiosas das suas comunidades sem se relacionar com a maneira com a qual elas regem seus batuques para colocar o cortejo na Avenida? Para falar sobre isso, durante as quartas-feiras do mês de agosto, o Carnavalize vai se debruçar sobre as baterias cariocas com a Série Batuques.


Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos 


Investigar esses ritmos é perceber as ligações de um universo quase à parte, no qual as conversas se dão por sinais e pela batuta aguda dos apitos, os quais se manifestam a todo momento ditando o andamento do som. Assim, os símbolos visuais e auditivos das direções de bateria chamam a atenção dos ritmistas e se misturam na complexa melodia da orquestra que conduz a escola em sua caminhada. É dela a missão de ser a primeira ala a começar o desfile e a última a encontrar a linha final.

Existe frases que permeiam diversos âmbitos da vida que, em certos casos, se aplicam com maestria ao mundo do samba. Uma delas é a que diz que “parecido não é igual”, que é um dos motes para as viagens que faremos no texto de hoje. Ao ouvido desatento, as levadas rítmicas das caixas que contam com rufada podem se misturar e, muitas vezes, soarem iguais, ainda mais com divisões rítmicas tão parecidas. É exatamente por isso que, para nós, é importante desvendar esses códigos e mostrar que as batidas não só têm diferenças no que diz respeito à sua execução, mas também com relação à forma como se relacionam com o resto da bateria em cada escola. 

Dessa forma, nossos primeiros passos nos levarão à Madureira, onde nossos caminhos irão se cruzar entre Portela e Império Serrano. Dialogando com as duas maiores escolas da região, iremos desvendar signos que se parecem, mas, ao mesmo tempo, se diferem. As caixas, quando conversam com os agogôs - como acontece na bateria dessas agremiações -, podem produzir sons e identidades semelhantes, mas, na verdade, elas têm características únicas. Ao se analisar com cuidado, elas não nos deixam confundir a Tabajara do Samba e a Sinfônica do Samba. Seguindo a ordem de idade, chegaremos ao final da nossa trajetória à União da Ilha, onde também temos signos parecidos, mas com identidade própria e única.


“Tabajara ê, Tabajara ô, a Tabajara do Samba chegou”


Como bons sambistas, respeitamos os mais velhos e, como manda o figurino, iremos prestar reverência à mais antiga das três escolas de samba do texto de hoje. Sendo assim, nossa primeira parada em Madureira será na Majestade do Samba, lar de nomes estelares da nossa folia, como Natal, Monarco, Clara Nunes, Paulo da Portela, Tia Surica, Candeia, Heitor dos Prazeres, Malandro Histórico, Zé Ketti e Paulinho da VIola. Esse verdadeiro celeiro de bambas se originou a partir de alguns blocos carnavalescos da região de Oswaldo Cruz e Madureira como Ouro sobre Azul, Quem Fala de Nós Come Mosca, Baianinhas de Oswaldo Cruz e o Conjunto de Oswaldo Cruz, este último que viria mais tarde a ser chamado de Vai Como Pode.

Sendo uma das mais tradicionais agremiações do Rio de Janeiro - inclusive a maior vencedora dos concursos de desfiles - a Portela viu de perto o início da formação das escolas de samba e a sua relação com o poder público, ela mesma passando por experiências de tentativa de controle mais direto por parte deste. Alguns dos seus fundadores relatam, coisa que não há como comprovar com exatidão nos dias de hoje (aquele papo recorrente sobre a história oral no mundo do samba), que o próprio nome da Portela é oriundo da ação de esferas governamentais para ordenar a folia. Segundo esses relatos, o delegado Dulcídio Gonçalves teria argumentado contra o nome Vai Como Pode, que, segundo ele, não seria adequado para denominar uma organização séria, tendo sugerido Portela como designação para a agremiação, inspirado na Estrada do Portela. 

Mas algo que sabemos de fato é que a tradição da Portela se estende por todos os braços da festa carnavalesca. Colecionando alguns dos maiores nomes da história da folia em seu rol de bambas, passando por compositores, cantores e dançarinos, também não seria diferente quando falamos de seus ritmistas e daqueles que carregam a responsabilidade de comandar a orquestra rítmica que embala os desfiles das escolas de samba. Já tendo contado com o lendário Mestre Marçal em suas fileiras, também teve no comando de sua bateria os mestres Bombeiro, Timbó, Mug da Portela, Paulinho Botelho, Carlinhos Catanha e Marçalzinho, filho de Mestre Marçal. 

A bela caixa da Tabajara do Samba no ano de 2018. Foto: Dhavid Normando/Riotur


Mestre Marçal ficou conhecido por elevar o patamar da bateria da Portela para uma outra prateleira. Foi o seu trabalho ao longo das décadas de 1970 e 1980 que tornou a bateria da Portela bem reconhecida dentro do Carnaval, empregando um estilo único, tendo como uma das características marcantes um diálogo intenso e rico entre as caixas e os surdos de terceira. Era bem sabido que essa conversa se relacionava com as batidas que ocorriam nas casas de candomblé, tendo os surdos de terceira da Portela uma relação próxima com os atabaques de corte. Muitos dizem que essa relação se estabeleceu pela presença na Tabajara do Samba de muitos ogans, aqueles que conduzem os batuques nos rituais religiosos, principalmente no naipe de surdo de terceira. 

Mas, por alguns anos, a bateria da Portela teve alguns percalços. Muitos deles foram causados por brigas internas causadas por uma troca de comando. Nilo Sérgio, atual mestre de bateria da Tabajara do Samba, conta em entrevista ao site Apoteose: ”Quando o Mestre Marçal saiu da bateria e o mestre Timbó assumiu, aconteceu uma ruptura muito grande. Muitos que eram “partidários” do Marçal diziam que não saíam com o Timbó, e quando o Timbó saiu, anos depois, alguns que eram “partidários” do Timbó, diziam que não sairiam com outro.” O próprio mestre Nilo conta que, por causa dessa rusga, espaços se abriram e foi por causa da leva de ritmistas que saíram com a entrada do Timbó que ele entrou na bateria, no naipe de agogô.

Mas essa divisão dentro da bateria da Portela não fez apenas com que espaços fossem abertos na Tabajara do Samba, mas também fez com que um dos naipes mais característicos da bateria, as caixas, começassem a apresentar problemas nos desfiles. Uma das razões disso era que os ritmistas que tocavam com Mestre Marçal tinham uma visão do toque, aqueles que tocavam com o Timbó tinham outra, o que resultou numa disputa após a saída de ambos. Alguns realizavam uma levada e outros executavam outra, de forma que o toque acabasse ficando “sujo”, tendo como consequência o desconto de pontos em algumas oportunidades. 

Mestre Nilo Sérgio, comandante da Tabajara do Samba desde 2006. Foto: Leandro Andrade/Divulgação

Quando o mestre Marçalzinho deixou a bateria da Portela, em 2005, devido a outros compromissos profissionais, o já diretor Nilo Sérgio foi alçado ao posto de mestre da bateria. Ele diz, na entrevista ao site Apoteose, não querer ser mestre na ocasião, mas que acabou assumindo o cargo para que não viesse um ritmista de fora da escola. Ao assumir a bateria, no ano de 2006, sua primeira preocupação foi reformular o naipe das caixas. Não só garantir que a levada estivesse sendo executada de maneira correta, mas também garantir que a Portela tivesse o melhor toque de caixa dentro de sua realidade, de forma que, nesse processo de reformulação, ocorreu uma mudança na forma de execução do instrumento. 

A levada das caixas da Portela contava com três rufadas dentro da sua divisão rítmica. Para além da confusão das individualidades dos toques dos ritmistas dentro do naipe, o próprio tipo de levada começava a prejudicar sua realização, pois, à época, o andamento das baterias das escolas de samba começou a se acelerar. Dessa forma, executar as três rufadas era uma tarefa quase impossível, muitas vezes embolando a bateria. Sendo assim, após estudar o toque e testar algumas variações, chegou-se na versão final com uma rufada, que é usada pela Tabajara do Samba até os dias de hoje. Mas a tarefa não foi fácil, e precisou de muita perseverança - e também certa dose de coragem - para levar as mudanças adiante, ainda que, eventualmente, fosse necessário cortar os ritmistas que não se comprometessem com o trabalho. 

Sob a batuta do mestre Nilo Sérgio, a Tabajara do Samba seguiu assumindo com cada vez mais gosto a marca que havia lhe sido característica ao longo dos anos. “Macumbeiro” com orgulho, como ele mesmo diz, Nilo Sérgio gosta de incorporar os ritmos de origem africana na bateria da Portela, sempre que o samba-enredo em questão abre essa possibilidade. Dessa forma, a introdução de ritmos como o ijexá e o 6 por 1 puderam ser ouvidos nas apresentações da agremiação ao longo dos anos de comando do mestre. Além disso, também houve diversas convenções com ritmos de origem africana utilizados para os esquentas da escola, sendo um dos mais notórios o que aconteceu no Setor 1 da Marquês de Sapucaí no ano de 2012, quando desfilou com o histórico enredo “E o Povo Na Rua Cantando é Feito uma Reza, um Ritual”. 



Sendo um dos mais longevos mestres da Sapucaí, Nilo Sérgio está no comando da Tabajara do Samba há 15 carnavais, estando atrás apenas do mestre Plínio da Beija-Flor com 24 carnavais seguidos no comando ininterrupto da mesma escola. E, como bem sabemos, o Carnaval não costuma ser gentil com os mestres de bateria - mudanças diante de resultados negativos não costumam ser raras. Para além de apresentar um resultado positivo em notas para a agremiação, o mestre Nilo fez um trabalho de resgate essencial para a bateria da Portela, colocando nos eixos algumas questões que haviam se perdido por motivos além do seu controle. Mas ele não se engana quanto à sua longevidade e, da mesma forma que foi auxiliado no passado pelos mestres “cascudos” da época, hoje, sendo um dos mais experientes, devolve a ajuda que recebeu para seus diretores e ritmistas, sendo um dos grandes mestres do nosso Carnaval.


“Tem poesia no ar, você já sabe quem sou… Pelo toque do agogô”


Se formos levar em consideração a geografia dos dias de hoje, nossa caminhada a partir do nosso destino prévio para o próximo endereço é bem curta. Menos de um quilômetro separam a atual sede da Portela, na Rua Clara Nunes, da quadra do Império Serrano, na Avenida Ministro Edgar Romero. Entretanto, ainda que essa distância seja curta para os pés, no coração ela se prolonga em cima de uma rivalidade histórica. A grande verdade é que Madureira não poderia ser mais feliz em abrigar duas escolas do porte da Portela e do Império Serrano e, talvez, festa maior não se tenha visto do que em 2017, quando o caneco de campeã do Carnaval se duplicou em Madureira, com a vitória da Portela no Grupo Especial e do Império no Grupo de Acesso. 

Fundado em 23 de março de 1947, vindo daí seu famoso apelido de “Menino de 47”, foi originada de uma dissidência da Prazer da Serrinha, na comunidade homônima. Não é exagero concordar com a letra do samba-enredo que a agremiação levou para a Avenida para conquistar seu título do ano de 2017. Quando os seus componentes cantam a plenos pulmões que a sua história fala por si, eles contam a verdade. O Reizinho de Madureira tem uma tradição fincada no coração do Carnaval carioca, sendo um dos pilares para a construção dessa trajetória momesca, de forma que é impossível falar dessa nossa festa popular sem fazer a eles a devida referência. 

Desde que foi fundada, a agremiação nunca parou de gerar bambas essenciais para a preservação da nossa arte: Tia Eulália, Molequinho, Mano Elói, Tia Maria, Mano Décio, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Wilson das Neves, entre tantos outros. Começando sua trajetória vencedora no primeiro desfile após sua fundação, no ano de 1948, a escola da Serrinha mostrava para todos e, principalmente, para os dois rivais mais próximos, que havia chegado não apenas para marcar presença, mas para disputar em pé de igualdade com as coirmãs mais velhas, sem dever nada a ninguém. E boa parte da fundamentação dessa tradição vencedora passa pela Sinfônica do Samba.

Mestre Gilmar no comando da bateria do Império Serrano no Carnaval de 2017. Foto: André Melo-Andrade

E, se a árvore do Império Serrano deu tantos frutos, não seria diferente com a Sinfônica do Samba. A bateria da Serrinha sempre esteve sob a batuta de mestres que são referência não só dentro da escola, mas para todo o mundo do Carnaval, como mestre Faísca, mestre Birão, mestre Wanderley, mestre Átila, mestre Sílvio Manoel, entre outros sábios que estiveram no comando desse tradicional quesito. Nessa seleta lista, também esteve o mestre Gilmar, que comandou a Sinfônica de 2010 até o último desfile da agremiação. Com a tradição desses mestres, a bateria do Império se fundamentou e se tornou inconfundível. E a base desse fundamento está na sua “cozinha”. 

A dita “cozinha” da bateria (composta por surdos, caixas e repiques) do Império Serrano tem uma afinação mais grave, como o mestre Gilmar diz: ”A cozinha do Império Serrano, historicamente, é mais grave. A bateria do Império é uma bateria pesada. A afinação dos surdos, sendo a primeira bem grave, a segunda médio-aguda e a terceira aguda contribui para isso. A gente usava bastante os surdos de segunda nas bossas, então a gente precisava dessa boa resposta e desse balanço.” E o balanço da bateria do Império mora bastante nas particularidades da escola em relação aos surdos. 

Os surdos de primeira do Império eram divididos em dois tipos: metade deles eram surdos de 26 polegadas e 55 centímetros de altura, sendo a outra metade surdos de 29 polegadas com também 55 centímetros de altura, dando um bom peso e o tom grave característico dessa bateria. As marcações de segunda eram de 24 polegadas e as terceiras eram de 18 polegadas, com algo entre 65 ou 70 centímetros de altura, conhecidas também como “charutinho”. Outra particularidade do Império Serrano é a diferenciação entre as terceiras e a formação dos surdos, como o mestre Gilmar explica:

”Dentre as terceiras do Império, geralmente 18, nós temos dez terceiras que vão fazer os desenhos definidos para o samba. Essas terceiras têm o revestimento de couro de um lado e o revestimento de nylon do outro, tendo um agudo mais alto. Já as oito terceiras restantes vão ser apenas de seguimento, fazendo só a sustentação rítmica, e essas vão ter o revestimento de couro dos dois lados, tendo um agudo um pouco mais baixo. Já na hora de formar a bateria, diferente das outras escolas que têm primeira e segunda intercaladas nas laterais e as terceiras espalhadas, nós temos as segundas nas laterais e, nos corredores do meio da bateria, nós intercalamos as primeiras e as terceiras de desenho, com as terceiras de seguimento vindo espalhadas ao longo da cozinha.” 


Quando chegamos ao naipe de caixas, uma das grandes estrelas da Sinfônica, também há muita história para contar. Apesar de ser uma característica tradicional, o característico toque rufado e acentuado do Império por um tempo se havia perdido em meio a floreios e influências pessoais na levada do instrumento. Durante a gestão do mestre Macarrão como Presidente da Bateria, começou um processo de padronização desse toque, que foi levado adiante pelo mestre Átila e pelo mestre Gilmar, com auxílio e opiniões dos grandes mestres Wilson das Neves, Faísca, Birão e Wanderley. O resultado foi executado em caixas de 12 e de 14 polegadas, sendo as de 12 com uma afinação um pouco mais alta. Ainda assim, a afinação das caixas do Império Serrano é a mais grave entre as baterias estudadas aqui. Em consonância, há também a levada de repique da agremiação, mais próxima da tradicional, mas com rufadas ocasionais, para ajudar na sustentação do ritmo das caixas. 

E é justamente a estrutura pesada da cozinha do Império Serrano que permite que os naipes leves da bateria possam brilhar. Mas, até mesmo para se chegar a isso, houve um trabalho de padronização e limpeza em todos eles: 

”Esse trabalho de padronização foi necessário. As cuícas a gente teve que padronizar, sair da questão muito individual. Ainda havia alguns momentos dos sambas em que a gente liberava os floreios, mas com muito cuidado. Os chocalhos também passaram por uma padronização, todo mundo entrando junto e pra frente, junto também com uma renovação nos instrumentos. E os tamborins também, que é algo que esteve quase em extinção. Naipe de tamborim é algo muito “flutuante”, o cara toca aqui, toca ali, e acaba perdendo a identidade da escola. Até a gente fazer um trabalho para unificar isso, demora.” 

Edgard do Agogô, criador de um dos instrumentos que mais caracteriza a bateria do Império.  Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo Newsletters

E não podíamos terminar sem falar do agogô. O instrumento que talvez seja a maior identificação para o público externo quando se pensa em Império - é quase impossível ouvi-lo e não associá-lo ao Reizinho de Madureira - quase marcou história na escola vizinha. O grande Edgard do Agogô levou primeiramente o instrumento para a Portela, mas num desentendimento com o então presidente Natal, que não aceitou a inovação, resolveu apresentá-lo a alguns amigos do Império, que o incorporaram na bateria. Isso criou uma marca para bateria e o agogô foi, inclusive, o primeiro instrumento do mestre Gilmar. É ele quem faz questão de exaltar aqueles que ajudaram a construir sua caminhada: “Me sinto muito afortunado de ter tido a oportunidade de trabalhar com tantos feras. Wilson das Neves, nosso pai maior, Átila, Macarrão, Faísca, Birão, Wanderley, Sílvio Manoel. Ter contado com eles não só na minha trajetória até virar mestre, mas também enquanto mestre, foi essencial.”


Vem ver, vem ver! A “Baterilha” arrepiar!


Findadas as nossas andanças pelo bairro de Madureira, nossa viagem toma rumo para um local que a linha do trem não alcança, mas, ainda assim, se costura na imensa colcha de retalhos que é o mundo do samba. Colcha essa constituída por um pedaço de tradição de um lado, um outro corte de tradição de outro, dando origem à cultura que rege nossas vidas. E, se falarmos de identidade, talvez a União da Ilha seja uma daquelas escolas que tem uma tão marcada ao longo de sua história que é se torna tarefa fácil traçar como a agremiação gosta de se comunicar não só com seus componentes, mas com todo o público dos desfiles. 

A escola, fundada em 7 de março de 1953, tomou emprestado o nome e as cores do União Futebol Clube, time de futebol da área da Ilha do Governador do qual os fundadores da escola faziam parte à época. Alguns anos mais tarde, em 1960, ao ganhar a aprovação para participar dos desfiles do Rio de Janeiro, teve seu nome modificado para o atual: GRES União da Ilha do Governador. A escola marcou sua identidade ao levar para a Avenida desfiles memoráveis de tom irreverente, festejando a essência de brincar o Carnaval com leveza e alegria. Nessa trajetória, nos brindou com sambas que ficaram eternamente marcados na história cultural do Rio de Janeiro, chegando a transpor as barreiras do Carnaval, como Domingo (1977), O Amanhã (1978), É Hoje (1982) e Festa Profana (1989).

O intérprete Ito Melodia, um dos maiores cantores da história do Carnaval e herdeiro do legado de Aroldo Melodia. Foto: Gabriel Nascimento / Riotur

Também está marcada na história do Carnaval uma das maiores dinastias vocais da folia carioca. Sendo quase unânime a sua presença no rol dos maiores intérpretes da história dos desfiles, Aroldo Melodia deixou sua marca incrível na União da Ilha, com sua voz marcante e quase inconfundível. O “quase” aqui fica por conta do fato de que, às vezes, temos a impressão de que é sua voz que ouvindo nas atuações do seu incrível filho, Ito Melodia, que carrega o legado familiar conduzindo o carro de som da Ilha ininterruptamente desde 2002, ainda tendo defendido a agremiação em outros dois anos. Mas a tradição familiar não parece conduzir apenas os caminhos dos microfones de canto da azul, vermelha e branca da Ilha do Governador. Essa história se estende também para o caminho dos batuques. 

Sendo hoje um dos mestres de bateria da União da Ilha, Marcelo Santos sabe desde cedo - muito cedo - o que significa ter no sangue o ritmo da Baterilha. Ele é filho de Odete, ritmista de chocalho da bateria, com o lendário mestre Tinico. Marcelo e seu irmão gêmeo Maurício sabem desde a barriga da mãe o que é estar em constante contato com o ritmo. Entretanto, ainda que veja o lado positivo de ter essa herança familiar na bateria, ele não esconde que também é uma responsabilidade: “A gente tem que prezar pelo nome que veio antes. Desde que me tornei diretor, algumas vezes quando a bateria da Ilha não andava muito bem, eu escutava na rua: ‘Na época do teu pai era melhor hein? Teu pai merece coisa melhor!’ Então, ter esse legado é muito positivo, mas é também uma responsabilidade”. 

Porém, a Ilha não abraça somente aqueles que já têm o ritmo da Baterilha correndo na veia desde a infância. Keko Araújo tem uma trajetória diferente, mas de muito sucesso, premiada em 2019 ao ser alçado ao posto de mestre de bateria junto com Marcelo. Oriundo da escolinha de bateria da escola da Ilha do Governador, Keko trilhou todos os passos possíveis: aluno da escolinha, professor dela, ritmista da bateria, diretor da bateria e, hoje, mestre. E esse itinerário traçado é motivo de orgulho: “Poder percorrer todo esse caminho é muito gratificante. Fui repique do mestre Paulão e sinto que chegar a esse posto foi merecido. Posso dizer que percorri um grande caminho até conquistar essa faixa preta. E hoje eu tenho segurança de fazer o meu trabalho.” 

Os mestres Keko Araújo e Marcelo Santos, respectivamente, à frente da bateria desde 2018. Foto: Fábio Felder

E, por falar em repique, a forma de tocar esse instrumento é uma das grandes características da bateria da União da Ilha. Historicamente, a Baterilha sempre foi conhecida como uma grande potência no naipe. Há muito tempo atrás, houve um concurso de repique realizado no Copacabana Palace, tendo acontecido duas edições: uma vencida por Carlinho Coca e uma por mestre Tinico, da União da Ilha. Mas não para por aí. Alguns mestres da União da Ilha, inclusive, são reconhecidos como exímios tocadores do instrumento, plantando essa semente em seu trabalho. São exemplos disso mestre Odilon e mestre Riquinho, além de exímios repiques de bossa como Jagunço, Carioca, Bigode, Luquinhas, assim como os próprios mestres Keko e Marcelo. 

Outro grande trunfo da bateria da União da Ilha é o naipe de caixas. Já tendo passado por algumas transformações ao longo dos anos, ele passou por uma reformulação recente para reencontrar a batida de caixa rufada introduzida pelo lendário mestre Paulão. Mas essa fortaleza foi se perdendo, como conta o mestre Marcelo:

“A bateria passou muito tempo sem ter uma renovação, que é sempre saudável para a bateria. Muitos foram ficando velhos, alguns saíram do Carnaval, outros pararam, alguns faleceram, e essa batida se perdeu. Para poder suprir essa questão, os mestres foram convidando ritmistas pra fazer a batida de caixa em cima, o partido alto, até que em 2014 o Mestre Thiago Diogo implementou todas as caixas sendo tocada em cima.”

Essa mudança permaneceu com o Ciça em 2015. Porém, os ritmistas mais antigos e os diretores da escola para o ano de 2016 fizeram um pedido para o mestre: que fosse resgatada a batida rufada da bateria da Ilha. A solicitação foi atendida, de forma que esse resgate começou para o Carnaval de 2016. Em meio a essa mudança, também foi implementada outra mudança, que fez com que todas as caixas tocadas embaixo fossem de 14 polegadas. Isso alegrou muitos ritmistas e gerou frutos para a escolinha, já que, segundo Marcelo, agora são formados ritmistas versados no toque tradicional da escola. Ele também exalta mestre Ciça pela escolha: “O Ciça fez o nome dele e ganhou tudo com as caixas em cima, no partido alto. Ele saiu da zona de conforto dele pra poder fazer esse resgate e implementar novamente essa batida característica da Ilha. E nós ficamos muito felizes com isso.” 



E a admiração ao mestre Ciça não para por aí. A influência de um dos maiores mestres do Carnaval carioca com certeza foi importante para que Marcelo e Keko ao realizar o trabalho que fazem na Ilha do Governador. Inclusive, sob a batuta de Ciça, Keko começou a se debruçar mais sobre a questão da afinação da bateria, estudando bastante o assunto. Mas, tendo trabalhado com tantos mestres que inspiram todo o mundo do Carnaval, ele presta reverência a todos eles: “Eu procuro pegar um pouquinho de cada um pra construir um trabalho forte meu. Trabalhei com muito mestre bom, então tento tirar um pouco de cada. mestre Paulão, mestre Riquinho, mestre Bira, mestre Odilon, mestre Ciça, o próprio Thiago Diogo. Aprendi com todos eles.” 

Por fim, é também uma das principais características da bateria da União da Ilha seu forte naipe de tamborins. Na década de 1980 e 1990, a Baterilha era conhecida por ter uma ala de tamborins muito comentada pelo mundo do Carnaval, contando com ritmistas famosos nesse meio. Mestre Marcelo cita alguns nomes: “Vânia, Betão, Ivan, Papaco, Zélio. Essa galera comandava a ala, não tinha um diretor de fato, mas eles eram conhecidos por todos. Então eles se resolviam e faziam uma ala completa, com um carreteiro muito limpo. Hoje em dia, nós também voltamos a ter uma ala muito forte de tamborim, com o trabalho do nosso atual diretor Yan, que tem sido muito comentado como um dos melhores do Carnaval. Ele está fazendo um trabalho muito bom.”

Com o fim deste terceiro capítulo da nossa Série Batuques, nos aproximamos do nosso desfecho na semana que vem. Se ainda não leu, confira o texto sobre o Partido Alto (Estácio, Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel) e a batida do surdo um da Estação Primeira de Mangueira. Para o último capítulo, iremos falar das características do baticumbum independente da Não Existe Mais Quente.

Além da Série #Batuques, você confere também toda segunda-feira a #SérieMulheres durante o mês de agosto. 

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Durante o último mês, na Série Padroeiros, o Carnavalize abordou a relação das escolas de samba com os santos e os orixás de casa. Como refletir as identidades religiosas das suas comunidades sem se relacionar com a maneira com a qual elas regem seus batuques para colocar o cortejo na avenida? Para falar sobre isso, durante as quartas-feiras do mês de agosto, o Carnavalize vai se debruçar sobre as baterias cariocas com a Série Batuques.


Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos


Investigar ritmos é perceber as ligações de um universo quase à parte, no qual as conversas se dão por sinais e pela batuta aguda dos apitos, os quais se manifestam a todo momento ditando o andamento do som. Assim, os símbolos visuais e auditivos das direções de bateria chamam a atenção dos ritmistas e se misturam na complexa melodia da orquestra que conduz a escola em sua caminhada. É dessa orquestra a missão de ser a primeira ala a começar o desfile e a última a encontrar a linha final.

E se nos propusermos a investigar as características das baterias das escolas de samba ao redor do Rio de Janeiro, seremos capazes de enxergar detalhes que fazem com que cada uma dessas verdadeiras orquestras sejam únicas e inconfundíveis. É possível chegar ao sambódromo ainda alheio à ordem dos desfiles daquele ano que está finalmente começando após o ano novo oficial carioca, pois é bem sabido que nenhum ano começa de fato até que chegue o carnaval. Mas, ao ouvir os timbres tocados e as levadas executadas pelas baterias, é possível acertar de sopetão a escola que passa pela avenida. 

Quando falamos sobre baterias com particularidades e identidades tão próprias é impossível não destacar de imediato a Tem Que Respeitar Meu Tamborim. A bateria da Estação Primeira de Mangueira se diferencia em tantos pontos quanto possível, formando uma instigante orquestra rítmica. Seja pela marcação de seus surdos, batendo somente no segundo tempo do compasso, dando à mesma uma estrutura forte e pesada; seja pelo toque diferenciado das caixas de 14 polegadas (que são também chamadas na Mangueira de tarol) ou pelo toque rufado das caixas de 12 polegadas; seja pelo destaque da ala de timbal; ou pela ala de pratos dos últimos dois carnavais. Falar da bateria da verde e rosa é falar de fatores únicos.

A bela caixa mangueirense no desfile de 2018, ao lado de um repique. Foto: Dhavid Normando/Riotur

Nos idos tempos dos anos 20 do século XX, tornou-se popular um bloco conhecido pela malandragem, com bambas respeitados e bons de briga, que desciam o morro vestidos de mulher e arrumavam confusão com os blocos que encontrassem pela frente. Tendo saído pela primeira vez em 1923, o Bloco dos Arengueiros formou a base para a fundação da Estação Primeira de Mangueira. E o grupo de fundadores, composto por gente de garbo e nome, tal como Cartola, Carlos Cachaça e Seu Saturnino, contava com componentes de primeira linha para cumprir seu objetivo de descer para o asfalto, roubar os estandartes dos outros blocos, ao mesmo tempo que protegiam com eficiência o próprio. Aquele grupo confiava sua proteção à Marcelino José Claudino, o seu Maçu.

Maçu era uma figura lendária. Segundo o próprio Carlos Cachaça, Maçu era um capoeira tão afiado e competente que nunca havia sido derrubado em uma roda de pernada. Sob sua proteção, estava justamente o estandarte do bloco dos Arengueiros, que dizem nunca ter sido perdido. Foi graças à confiança adquirida em sua batuta que, mais tarde, Maçu se tornaria o primeiro mestre-sala da escola vindoura. Em 1928, os que já foram acima citados junto a Zé Espinguela, Abelardo Bolinha e Pedro Paquetá decidiram aposentar o Bloco dos Arengueiros e fundar a Estação Primeira de Mangueira, nome oriundo da proximidade da escola com a estação de trem que atende seus arredores, que era a primeira a partir da Central. 

Essa proximidade com a linha do trem origina diversas histórias que, infelizmente, não têm muita confirmação - o que é uma das características do samba, ou seja, ter contato com informações que advêm do “ouvi dos mais velhos”. Mesmo assim, é inegável uma influência dos trens na sonoridade da bateria. A batida do ritmo dos surdos da verde e rosa se assemelha e muito com os compassos ritmitos que uma locomotiva faz seu trajeto. Outra possibilidade interessante é a que conta que a marcação única da escola, uma de suas características marcantes até os dias de hoje, ter origem no fato de que, no princípio, os surdos eram emprestados e não havia instrumentos suficientes para fazer uma marcação tradicional: uma de base e uma de resposta. Entre tantas possibilidades, fato é que não existe verdade única e a cultura popular é feita exatamente desses cruzamentos tão interessantes. 

A Tem Que Respeitar Meu Tamborim, sob a batuta de Mestre Wesley, no espetáculo "Matrizes". Foto: Alexandre Macieira/Riotur.

Sendo fidedigna ou não tais narrativas, é impossível falar da bateria da Mangueira sem falar sobre a marcação de seus surdos. Essa peculiaridade, inclusive, fez com que ela fosse denominada por muitos anos como “Surdo Um”, nome que dava força e notoriedade para esse marco único da verde e rosa, que é uma característica sem paralelos no carnaval brasileiro. Além de ser um dos traços mais tradicionais da Estação Primeira, também é, provavelmente, o que persiste com maior duração ao longo de toda história. Para que se tenha uma ideia, já ocorreram mudanças nos toques de caixas e na formação dos tamborins ao longo do tempo, mas a marcação sem resposta permanece com força total. Marcação esta que conta com diversos tipos de surdo trabalhando no mesmo compasso, como, por exemplo, os surdos Maracanã, Bola e Treme-Terra, que são instrumentos com tamanhos diferentes, mas com a mesma função e afinação. A diversidade deles se traduz em uma sonoridade única e um timbre peculiar. Além disso, o surdo-mor fazendo os cortes pontuais dentro da levada do samba tem como resultado o molho sensacional da batucada mangueirense.  

Outra das características essenciais da bateria verde e rosa são as caixas. Tendo passado por transformações ao longo dos anos, desde 2019 ela tem sido alvo do resgate do toque tradicional e diferenciado que embalou títulos importantíssimos da história da Estação Primeira, como 1984 (Braguinha), 1986 (Caymmi) e 1987 (Carlos Drummond de Andrade). A retomada dessas batidas vem sendo encabeçada pelo Mestre Wesley do Repique, que assumiu a bateria da escola em 2018 e começou o seu trabalho para o carnaval de 2019 com três enfoques principais: o andamento, a limpeza do toque de caixas e a limpeza do naipe de tamborins. O próprio mestre Wesley diz em relação ao toque tradicional das caixas: 

“Essa batida de caixas funcionava muito bem nos anos 1980, anos 1990. O toque funcionava e a bateria tirava a nota. Enquanto estive fora, por compromissos profissionais, observei que houve uma mudança no toque das caixas e ocorreram descontos nas notas. Então, quando entrei, quis resgatar o toque tradicional.”

Mestre Wesley deixa claro que respeita o trabalho realizado por todos os mestres que passaram por lá, assinalando que não poderia deixar de ser assim. Mesmo que ocorram mudanças, com cada novo comandante colocando a própria marca no seu trabalho, ainda assim a singularidade maior da agremiação é ter, no comando de sua bateria, mestres da casa, que conhecem suas características e as respeitam. Um exemplo claro disso é que o desenho de tamborim da Mangueira em 2020 foi criado por Rodrigo Explosão, comandante da Mangueira entre 2015 e 2018. Isso evidencia que há confiança, em via de mão dupla, entre o mestre atual e seus ritmistas, inclusive aqueles que já foram mestres. 

A Rainha de Bateria da Mangueira, Evelynn Bastos, com Mestre Wesley ao lado e ao fundo, a Tem Que Respeitar Meu Tamborim, no desfile de 2020. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur

E Wesley sempre faz questão de frisar que ele não inventou uma batida nova, apenas resgatou o que já existia na história da Velha Manga:

”Eu fiz um trabalho grande para essa mudança. Mostrei a batida na prática, e com vídeos, dos anos 1980 e 1990. Passei para eles diversas filmagens, mostrando como a caixa era tocada e como a gente faria o trabalho a partir daquele ano. Os ritmistas entenderam o trabalho e abraçaram, tanto que ganhamos um prêmio de melhor ala de caixas do carnaval, além de termos sido agraciados com o título do carnaval de 2019, com a bateria conquistando nota máxima.” 

O grande charme das caixas da Estação Primeira, como a tradição dos anos 1980 mostrava e agora vem sendo resgatada pela escola, está na confluência de levadas e timbres presentes no seio de seu ritmo. Diferente das caixas de 14 polegadas comumente utilizadas no carnaval, a caixa de 14 da Tem Que Respeitar Meu Tamborim é mais fina, sendo inclusive chamada de tarol pelos seus ritmistas. Com uma afinação mais baixa, apresenta uma levada reta na qual é possível observar uma certa influência do ritmo tocado na folia de reis, dando uma boa sustentação para ele. Já a caixa de 12 polegadas da Mangueira, essa já mais próxima da que é comumente utilizada, tem uma levada que conta com uma rufada em sua execução, além de uma afinação mais alta. A mistura de levadas, aliada ao encontro dos timbres da caixa mangueirense e o tarol verde e rosa, confere um swing sem igual para a bateria.



E, até mesmo para que se pudesse fazer esse resgate do ritmo tradicional da Mangueira, houve a necessidade de muito estudo. A trajetória completa pela qual mestre Wesley passou é motivo de orgulho:

”É como se fosse uma faculdade da vida, né? Estive envolvido na fundação da Mangueira do Amanhã, onde fui ritmista desde a fundação e mestre de 1999 a 2002. Na escola mãe fui ritmista, diretor de bateria e agora exerço a função de mestre de bateria. Eu estudei muito para estar onde estou hoje.”

A trajetória de Wesley demonstra a importância da tradição na Estação Primeira, mas é importante salientar que tradição não é sinônimo de atraso. Muito pelo contrário, a bateria da Mangueira é responsável por algumas das maiores inovações já feitas no carnaval. 

Ivo Meirelles é um nome conhecido pelos sambistas e, principalmente, pelos mangueirenses. Entusiasta das inovações, em sua gestão a bateria da Mangueira trocou de apelido e também protagonizou um dos momentos mais eletrizantes e inesquecíveis da história da folia, a paradona de 2012. Entretanto, Ivo não começou a criar novidades apenas em sua gestão. Antes disso, ele foi uma das mentes por trás do Funk n’ Lata, grupo do qual o mestre Wesley também fez parte, assim como também outro personagem: Waguinho Percussão. Foi inclusive em conjunto com esse multipercussionista que Ivo Meirelles inovou mais uma vez no ano de 2010, com a introdução da ala de timbal na batucada verde e rosa. 




E, segundo o próprio Waguinho Percussão, a princípio ele não colocou muita fé na proposta, achando que fosse uma brincadeira:

”Ali embaixo do viaduto, em frente a quadra, o Ivo veio com a proposta de colocar um timbal na Mangueira. Eu sempre gostei muito de Olodum, Timbalada, era ligado ao timbal, conga, etc. Mas pra mim era sacanagem. Mesmo assim eu falei: vambora! Aí o negócio foi pra frente mesmo. Começamos eu e Juninho do Vale. Em 2010, desfilamos em torno de 5 ou 7 timbais.”

E a inovação deu muito certo. Dali em diante, a ala foi crescendo, contando com nomes importantes da percussão brasileira, como Nego Feijão, Juninho Crispim, Nego Damoé, Boka Reis, Téo Bahia e Marcelão, entre outros.

Ainda que a ala de timbal da Mangueira tenha sido um sucesso e se perpetuado na bateria, inspirando outras escolas na utilização do instrumento, também ocorreram inovações pontuais dentro da bateria da Mangueira. Um exemplo disso foi a inclusão do naipe de pratos. Ainda que esse seja um instrumento comumente utilizado de forma performática, nos últimos dois carnavais, a bateria da Mangueira trouxe uma ala inteira de pratos para a avenida, mas por motivos específicos:

”No trabalho para o carnaval de 2019, a gente tinha construído a paradinha da marcha militar, mas senti que estava faltando algo. Então introduzi os pratos. Desfilamos com apenas 4 ensaios da ala. Já no carnaval 2020, senti que encaixava na paradinha funk, mas, dessa vez, ensaiamos o ano inteiro com a ala.”

Apesar de ter gostado do trabalho e do resultado, Mestre Wesley alerta para o fato de que a ala foi colocada de maneira pontual, não sendo pensada como uma inclusão permanente. Mas ele não descarta utilizar mais vezes: ”Se o enredo de 2021 render um samba que propicie o uso dos pratos, eu vou trazer de novo. Mas, se não encaixar com o enredo ou o samba, eu vou tirar.”

Enxergar essas inovações na bateria da Mangueira, ao mesmo tempo em que caminham lado a lado com a tradição incontestável da verde e rosa, é testemunhar a identidade única dessa orquestra tão singular. E, como fica claro pelas falas do Mestre Wesley e também pela confiança dos seus ritmistas, assim a Estação Primeira continuará levando para o futuro as suas tradições, ao mesmo tempo que incorpora em seu seio as experiências musicais mais diversas o possível, aliando o novo com o consolidado. 

Se ainda não leu, confira os demais textos da Série Batuques sobre o Partido Alto (Estácio, Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel); o O baticum majestoso da Portela, imperial da Serrinha e insulano e o baticumbum independente da Não Existe Mais Quente.

Além da Série #Batuques, você confere também a #SérieMulheres durante o mês de agosto. 


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Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Felipe Tinoco


Durante o último mês, na Série Padroeiros, o Carnavalize abordou a relação das escolas de samba com os santos e os orixás de casa. Como refletir as identidades religiosas das suas comunidades sem se relacionar com a maneira com a qual elas regem seus batuques para colocar o cortejo na avenida? Para falar sobre isso, durante as quartas-feiras do mês de agosto, o Carnavalize vai se debruçar sobre as baterias cariocas com a Série #Batuques.

Investigar esses ritmos é perceber as ligações de um universo quase à parte, no qual as conversas se dão por sinais e pela batuta aguda dos apitos, os quais se manifestam a todo momento ditando o andamento do som. Assim, os símbolos visuais e auditivos das direções de bateria chamam a atenção dos ritmistas e se misturam na complexa melodia da orquestra que conduz a escola em sua caminhada. É dessa orquestra a missão de ser a primeira ala a começar o desfile e a última a encontrar a linha final.

Tão essencial quanto a precisão de seus movimentos e a manutenção do andamento, entretanto, é o respeito e a preservação do seu fundamento. É necessário compreender as características que possibilitam reconhecer não somente as relações de determinada bateria com sua comunidade e sua escola, como também os signos que se camuflam na totalidade do ritmo. Com isso, consegue-se encontrar as particularidades que moram no seio de cada couro de surdo e no bordão de cada caixa de guerra - não por acaso, os motivos pelos quais é possível reconhecê-las ao longe. 

Primeiramente, a sustentação rítmica de cada grupo de ritmistas encontra a sua morada nas caixas. Não à toa, é o naipe mais numeroso de uma bateria, propiciando experiências únicas. O toque de caixa mais tradicional é derivado do samba, como iremos abordar muito em breve. Ele também é, porém, alvo da influência dos ritmos percussivos existentes antes da criação das escolas e de suas baterias, desde o final do século XIX e o início do século XX. Esses ritmos são vistos em festejos como as batucadas, o jongo, o caxambu e os ranchos carnavalescos, além dos ritmos tocados nos atabaques das casas de macumba, garantindo às baterias seus próprios padroeiros. Por vezes, trazendo os toques para essas entidades codificados nas suas batidas.

Ouvir as caixas da Medalha de Ouro é a certeza de se maravilhar com o partido alto estaciano. Encontrar com os seus derivados nos taróis da Swingueira de Noel, da Pura Cadência Tijuca ou da Furiosa é garantir também o encanto com o ritmo. Neste primeiro texto da série, iremos nos aprofundar essa forma de batucar e entender seus códigos, em um passeio pela Zona Norte carioca com as quatro donas dessas baterias: Estácio de Sá, Salgueiro, Vila Isabel e Unidos da Tijuca!


“Bate no peito e desce o São Carlos!”

E não poderia ser diferente. Como começar a falar dos ritmos e saberes tocados pelas escolas sem começar pelo Berço do Samba? Não há a possibilidade de falar sobre o samba como conhecemos hoje sem puxar a cadeira para a Turma do Estácio sentar-se à mesa, e derramar o conhecimento apurado que corre em suas veias. Com o perdão do trocadilho, que deixem falar, pois é uma fonte inesgotável de informação imprescindível para a perpetuação da nossa cultura, da nossa essência e da nossa tradição. 

Dessa forma, a primeira parada é no Morro do São Carlos, para ter contato com a Estácio de Sá e o ritmo inconfundível que nasceu nesse berço.  O nome atual da vermelho e branco só foi adotado nos meados da década de 1980 para homenagear não apenas o morro na qual foi originada, como também todo o bairro fundamental para a história da música. A escola é descendente de Unidos do São Carlos, com origem no morro homônimo, e bebedora da fonte da lendária Deixa Falar - a suposta primeira escola de samba que jamais desfilou como tal. Justamente por beber da fonte da Deixa Falar, a Estácio é uma das maiores representantes da caixa tocada no ritmo do partido alto. 

Ritmista de caixa da Estácio de Sá no desfile de 2020. Foto: Gabriel Nascimento|Riotur.


Derivando-se no ritmo do samba de improviso do partido alto, a sua é a levada de caixa mais diversificada e difundida no carnaval. Original, portanto, também das mãos da Turma do Estácio. Juntando Bide, Marçal (não se esqueça desse nome!), Ismael Silva, Brancura e todo o grupo que fez parte da criação da Deixa Falar, deixou-se um legado importantíssimo para todo o carnaval. Além da próprio Estácio, há diversos exemplos de escolas que utilizam a batida do partido alto, como Viradouro, Grande Rio, Beija-Flor, Salgueiro, Unidos da Tijuca, São Clemente, Paraíso do Tuiuti, Imperatriz Leopoldinense, Unidos de Padre Miguel, Porto da Pedra, Inocentes de Belford Roxo, Império da Tijuca. Acadêmicos de Santa Cruz, Acadêmicos do Sossego, Unidos de Bangu, Unidos da Ponte, Acadêmicos de Vigário Geral, Lins Imperial, Em Cima da Hora e Cubango. 

Pela tradição da caixa de guerra, originada nas bandas militares, e também tomando como referência os ritmos que eram tocados no Brasil antes da criação das escolas de samba, muito se discute sobre como a caixa foi parar em cima do ombro dos ritmistas. Especula-se que, na época de origem do samba e das agremiações, os malandros do Estácio posicionavam a caixa na altura do ombro como uma forma de esconder o rosto dos policiais. A estratégia não auxiliou somente o acobertar de suas identidades durante os cortejos, mas também gerou melhor sonorização melhor e uma maior precisão de toque, além da mobilidade.

Por seu histórico, a Medalha de Ouro estaciana só poderia ter sua maior identificação rítmica conhecida justamente no partido alto bem executado pelos seus ritmistas. Por lá, é a caixa de guerra quem dita as ordens, com a divisão característica do ritmo com alguns desenhos dentro do compasso do samba, dando um swing mais solto para a bateria, fortificando sua marca. O que abrilhanta mais esse swing da alvirrubra é o encontro entre tal característica e o conhecido partido alto com o toque de repique único e peculiar das bandas da região. 



Conhecido como pé de boi, a levada de repique da agremiação é única, utilizada apenas pela bateria Medalha de Ouro. Diferente da levada tradicional de repinique, que consiste na divisão do toque entre o meio do instrumento, a batida mais perto do aro e o rimshot, a levada da Estácio se concentra em tirar o som do meio do instrumento, dando uma característica ímpar e um balanço sem igual. Sua identidade, então, é o sarapatel formado por essa característica dos repiques com o partido alto das caixas.

E a Estácio de Sá não é conhecida como berço do samba à toa. Sendo uma árvore de raiz forte, evidente que viria a dar frutos que seriam proveitosos para além da bateria. O principal deles é Serrinha Raiz, músico percussionista cria da comunidade. Desde cedo se espelhou no próprio irmão, que sempre foi conhecido por ter um swing diferenciado. Serrinha seguiu os passos familiares, tornando-se também um grande ritmista, conhecido pelo seu “sotaque diferenciado no partido”, como ele mesmo gosta de dizer.



Tendo chegado ao cargo de diretor da Estácio de Sá no ano de 2000, Serrinha Raiz rodou o meio do carnaval carioca, já que também foi diretor na Unidos da Tijuca e na Unidos de Padre Miguel, ajudando na criação da identidade do partido alto bem tocado e executado. Também rodou o mundo com o ritmo por meio de workshops de bateria realizados fora do país enquanto era membro da escola do Borel. A a gratidão se estende diretamente para o seu instrumento e para seu ritmo preferidos: “Nunca pensei que pisaria em lugares que eu só conhecia por filmes, e fui capaz de conhecer por intermédio da caixa de guerra. Sou extremamente grato a esse instrumento”, comenta. Fica a nossa semelhante gratidão a um dos nomes que ajuda perpetuar as nossas tradições mundo afora!


“Um velho ditado é quem diz… 
Salgueiro é uma raiz, que nasce forte em qualquer lugar”


Após dividir a história sendo feita em chão estaciano, é hora de versar sobre os caminhos percussivos que se cruzam no Oió tijucano, com o direito à livre citação do texto da Série Padroeiros sobre a relação do Salgueiro com Xangô (leia aqui). 

Criadora de raízes fortes, uma das maiores baterias da história do nosso carnaval. Talvez seja impossível comentar as orquestrar carnavalescas sem passar pela Furiosa, em todos os aspectos. Desde o seu ritmo inconfundível até a figura majestosa de sua rainha, ela assume lugar de referência e destaque em qualquer âmbito em que o assunto seja o batuque. Até porque não é toda bateria que tem para si um título de carnaval enquanto é homenageada (Tambor, 2009). 

O Acadêmicos do Salgueiro foi fundado em 05 de março de 1953 pela união de outras três organizações da região do morro outrora conhecido como Morro dos Trapicheiros. É justamente na diferença de sua origem que nasce uma das coisas mais belas quando se pensa no ritmo salgueirense, e trataremos disso um pouco mais à frente. Tal ritmo se sagrou vencedor do Estandarte de Ouro de melhor bateria 9 vezes, empatado com o Império Serrano como maior ganhadora do quesito. Possui, também, alguns dos mestres mais lembrados da história dos batuques: Mestre Louro - quem já dividiu a batuta com seu irmão Almir Guineto e maior vencedor do Estandarte de Ouro do segmento - e Mestre Marcão. O último samba campeão da encarnada e branca transmite o sentimento: “Salve o Mestre do Salgueiro!” 

Ritmista de tarol do Salgueiro no desfile de 2020. Foto: Raphael David/Riotur.
 

Qual é o segredo de tanta qualidade? É possível dizer que ela mora em todos os naipes, mas é impossível falar do Salgueiro sem citar três de suas características mais marcantes: o surdo de primeira de 29 polegadas, também conhecido como surdo bola; o centrador, que oferece uma dinâmica única com o resto da bateria; e os taróis, que oferecem um som único para as batidas da Furiosa - como os próprios ritmistas e diretores dizem, uma “sujeirinha” inconfundível. Esses instrumentos são tão característicos e marcantes na bateria da Academia que há uma subida de bateria chamada “Corre chave”, conhecida também como terceira e tarol, na qual os taroleiros iniciam sua levada acompanhados dos centradores até a bateria toda subir e iniciar a batucada de vez.

A vermelho e branca é uma das primeiras escolas a beber na fonte da Turma do Estácio, fazendo com que o toque do partido alto esteja presente pelas bandas do Morro do Salgueiro ainda no tempo em que a região era dividida entre os três blocos mais proeminentes. Além disso, baseado na levada de partido alto das caixas estacianas, surgiu também o tarol, instrumento com a mesma polegada das caixas, porém mais fino, oferecendo uma afinação mais aguda e trazendo um timbre inconfundível. 



Ultrapassando o timbre diferente, o toque de tarol do Salgueiro traz consigo mais um tempero especial: um rufo que entra na mão responsável por fazer o contra-tempo da batida, de forma que haja a divisão rítmica potente e acentuada na “mão forte”, enquanto que a mão fraca irá marcar o tempo da levada, intercalando essa marcação de tempo com a rufada, que dá ao tarol a “sujeirinha” comentada, levando para a sua bateria um elemento primoroso e inconfundível. Talvez seja esse o grande segredo por trás dessa bateria tão reconhecida e tarimbada. 

É importante pontuar que o toque de tarol do Salgueiro não é padronizado - ou seja, não existe um molde para que todos os ritmistas do instrumento toquem exatamente a mesma levada ao longo de todo o desfile. A rufada da “mão fraca” é livre, o que dá ainda mais swing para a batida, de forma que não seja mecânica. Inclusive, diz-se que a batida de tarol é tão particular que ainda existem aqueles que trazem como herança da época em que o morro era dividido em diversas agremiações. Essas pessoas constroem maneiras de introduzir o rufo à levada, de forma que existam batidas diferentes advindas de partes diferentes da região, o que acrescenta mais um ingrediente para esse molho fantástico. Há também uma certa compreensão de que a batida seja um código ao alujá de Xangô, padroeiro da escola, com uma relação muito íntima de devoção por parte de seus componentes, mas não há confirmação dessa inspiração. 

Para além de conhecer e compreender as características da bateria do Salgueiro, é também preciso dedicar tempo para preservá-las, e fazer o melhor trabalho possível para mesclar o que há de tradicional com as novidades. Pesando-se em frescor, não dá para não citar os mestres da Furiosa e deixá-los de fora dessa equação. Guilherme e Gustavo, que assumiram a bateria diante de uma turbulenta situação política vivida pela agremiação, são a representação mais eficiente do cuidado com a tradição aliado à inovação. Nascidos e criados na rua Silva Teles, são filhos de membros assíduos da escola e acompanham desde pequenos a agremiação. 

Os irmãos Guilherme e Gustavo dos Santos. Na mão de Gustavo, à direita, o famoso tarol do Salgueiro, instrumento que tocou em seu primeiro ano de bateria, aos 13 anos. Foto: Alex Nunes/Divulgação.


Ambos são estudantes dos mais variados estilos musicais. A partir desses extensos estudos, foram capazes de auxiliar na criação de diversas paradinhas, ou bossas, da bateria enquanto trabalhavam como diretores sob a batuta do Mestre Marcão. Do xaxado introduzido no samba de 2012 (Cordel Branco e Encarnado) ao pagode baiano no samba de 2017 (A Divina Comédia do Carnaval), confirmam a associação da tradição e da inovação. Uma das primeiras medidas da dupla foi o desejo de voltar com a afinação característica dos tempos do Mestre Louro, relembrando a época na qual cresceram e aprenderam a tocar. 

Eles também promovem encontros entre os ritmistas do tarol no espaço que hoje é lar do Bloco Raízes da Tijuca, antiga quadra do Salgueiro, no morro. Fazem daquele território lugar de encontros para buscar o toque de tarol, a compreensão do ritmo. O corte único dos antigos com a juventude que compõe o naipe. Ambos tiveram origem na Aprendizes do Salgueiro e têm participação ampla em oficinas de percussão. 


“Sou da Vila não tem jeito, comigo eu quero respeito que meu negócio é sambar”


Após nossa viagem pelo Morro do São Carlos, com uma escala no Morro do Salgueiro, aterrisamos em um dos lares da boêmia carioca para dialogar com os saberes e os batuques do Morro dos Macacos e da terra de Noel. Assim como é impossível falar de samba e de carnaval sem guardar o lugar à mesa para a Turma do Estácio, também é necessário guardar a cadeira para os bambas do bairro que dá nome à azul e branca. De Noel Rosa até Martinho da Vila, passando por Braguinha, Luiz Carlos da Vila, Almirante, Mestre Mug e a própria árvore da raiz de Martinho, Mart’Nália e Tunico da Vila. Todos são nomes tarimbados no mundo do samba e do carnaval que comprovam sem ressalvas o um dos versos do campeonato de 2013: “É a Vila, chão da poesia, celeiro de bambas”. 


Ritmista de Tarol da Vila Isabel no desfile de 2020. Foto: Raphael David/Riotur.


Mas a escola fundada por Antônio Fernandes da Silveira, o “Seu China”, em 4 de Abril de 1946 não tem apenas esse grande elenco de personalidades para falar por si. Os saberes em Vila Isabel se vinculam com a comunidade do Morro dos Macacos também por palavras ritmadas, mas que não são ditas. E a conexão de cada palavra pronunciada pelos naipes da Swingueira de Noel dá origem a uma produção textual única e tão rica quanto a mais rebuscada poesia já escrita em solo tupiniquim. Se estivermos falando sobre palavras belas produzidas pelos toques da terra da Vila, é inviável não se aprofundar, e sem vergonha se deleitar, nas palavras do seu taroll.

Bebendo também na fonte do partido alto  estaciano, o toque de tarol da Vila isabel introduz nessa já bela amálgama de toques um rufo que deixa a sua batida única e com um swing característico. O que o deixa ainda mais especial é a impossibilidade de precisar em que momento da execução da levada a rufada vai entrar, pois é algo que é definido pelo feeling, pela sensibilidade e percepção do ritmista. Cada um, então, tem a sua própria pegada e a sua própria compreensão de onde introduzir a rufada, de forma que ofereça para o som geral da bateria um molho especial, que só pode ser encontrado em Vila Isabel. 



Nas palavras de Cassiano da Vila, um dos atuais diretores de tarol da Vila Isabel, é exatamente aí que mora a magia: “Nunca houve um padrão do toque de tarol da Vila. O padrão entra na base do toque, na base do partido alto, mas cada um sempre teve o seu próprio tempo de rufada”. Filho de Áurea Lima, uma das primeiras passistas da Unidos de Vila Isabel, e Amadeu Amaral, o lendário mestre Mug que comandou a Swingueira por 31 anos, Cassiano acompanha e conduz com orgulho o trabalho de resgate do toque fundamental de tarol da Vila Isabel. Nos últimos períodos, a escola tem recebido reconhecimento por isso: “O tarol é um instrumento em extinção, então o resgate que a gente vem fazendo junto com o Mestre Macaco Branco, eu e o Mariozinho (outro diretor de tarol da bateria), tá dando certo. A bateria da Vila Isabel esse ano lembrou os tempos dos anos 80, 90, misturando a juventude com os cascudos”, completa.

Cassiano, talvez por um acaso do destino, passou muito perto de traçar carreira como mestre-sala. Desde jovem, dividiu-se entre a bateria mirim da Vila Isabel e a arte do protetor do pavilhão. Em certo momento, decidiu abandonar a bateria e se dedicar à dança, inscrevendo-se em uma competição de mestre-sala e porta bandeira em que seria escolhido o casal mirim da escola mãe - o jovem e a jovem que fossem os primeiros colocados do concurso - e o primeiro casal da Herdeiros da Vila - os que alcançassem o segundo lugar.

Capa do CD dos sambas-enredos das escolas mirins de 1990. À direita, o casal da Vila isabel, com direito ao mestre-sala Cassiano de braço quebrado. Foto: Acervo pessoal.


Entre 30 casais, Cassiano garantiu o vice e foi consagrado o mestre-sala da Herdeiros da Vila. Os fios que foram tecidos para a vida de cada um, no entanto, muitas vezes se manifestam da maneira mais curiosa possível. Foi durante a final dessa competição que ocorreu uma apresentação da bateria da escola mãe. A paixão pelo segmento musical se reacendeu, motivada muito pelo show protagonizado pelo falecido Vermelho - para Cassiano, o melhor tarol que ele já viu passar pela Swingueira de Noel, dentre tantos bambas do instrumento como Godô, Mauro, o próprio Mestre Mug, e Gilson, pai do atual mestre da Vila, Macaco Branco. Cassiano nem chegou a desfilar, voltando-se em definitivo para a bateria. 

Para ele, a atual qualidade da bateria da escola está atrelada a um fator importantíssimo: a divisão em igual proporção dos taróis e das caixas de guerra. A Vila Isabel sempre contou com as caixas de guerra, tocadas embaixo na levada reta. Essa levada reta, que alguns dizem ter sua origem no toque avamunha, é bastante utilizado pelas escolas de samba, blocos de carnaval e também oficinas de percussão. Podem ser vistas em Beija-Flor de Nilópolis, São Clemente, Unidos de Padre Miguel, Inocentes de Belford Roxo, Acadêmicos do Cubango, Império da Tijuca, Acadêmicos do Sossego, Unidos de Bangu, Acadêmicos de Vigário Geral, e Lins Imperial.

Inclusive, para a própria magia do toque de tarol acontecer, as caixas de guerra desempenham um papel essencial. Segundo Paulo Vinícius, o PV, diretor de caixa da Unidos de Vila Isabel desde que a gestão do Macaco Branco começou, a sustentação que as caixas oferecem para o tarol são essenciais para dar o molho característico que a bateria da escola tem. Com a afinação mais alta dos taróis, com a afinação mais baixa das caixas (hoje misturadas entre as de 14 polegadas e 12 polegadas, em um processo de transição para que todas sejam de 14 polegadas), encontra-se o timbre médio, que sustenta a escola. Apesar dos taróis serem a cereja do bolo, porém, não dá para negligenciar a outro instrumento: “É um casamento perfeito entre as caixas e taróis, mas tem que ser aquela caixa bem tocada, com a acentuação correta”, finaliza. 


“Couro manchado em vermelho, na raça tijucana o amor mais puro e verdadeiro”


Após uma volta por alguns dos morros da Grande Tijuca - São Carlos, morro do Salgueiro e morro dos Macacos - chegamos finalmente ao nosso destino final para o primeiro texto da Batuques: o Borel. É fundamental dialogar com a maneira como a bateria da Unidos da Tijuca encara, com extrema seriedade, a perpetuação do ritmo do partido alto em sua bateria. A escola, lar de uma das maiores revoluções estéticas e precursora de uma ruptura da forma como se enxerga o carnaval durante a década de 2010, é parada obrigatória. 

Fundada no limite do ano de 1931, no dia 31 de dezembro, a Tijuca é com certeza dona de uma enorme tradição na competição carnavalesca no Rio de Janeiro, sendo uma das primeiras campeãs do carnaval ainda no ano de 1936. Ainda que tenha amargado a maior seca de títulos entre uma campeonato e outro (74 anos entre os 1936 e 2010), a escola não perdeu sua força ao longo dos anos, sendo ainda lar de belíssimos sambas que passaram pela Sapucaí. Aqui, vale reverência ao gigante David do Pandeiro que faleceu no último dia 21 de julho, quem puxou o grandioso O Dono da Terra (1999) - talvez o mais belo samba da história da agremiação..

Ritmista de caixa da Unidos da Tijuca no desfile de 2020. Foto: Raphael David/Riotur.


Ao se pensar na bateria da Unidos da Tijuca, logo ganha muito destaque o partido alto tão bem executado das suas caixas de guerra. Diferente da Estácio de Sá, que ainda conta com algumas variações e desenhos dentro do compasso da batida, a Pura Cadência é conhecida pela execução precisa da divisão padrão do partido alto. A divisão de notas perfeitas, aliadas com a acentuação impecável e com a afinação primorosa das caixas da Tijuca, dão para bateria da escola um balanço inconfundível, sendo referência do partido alto para todo o mundo do samba. 

Além disso, uma das grandes características da bateria da Tijuca é sua esplendorosa ala de tamborins, que também é referência. No último carnaval, ao lado da bateria comandada por mestre Ricardinho, no Paraíso do Tuiuti, a ala de tamborins da Tijuca foi a maior do carnaval, com 42 ritmistas. Comandada pelo diretor Coringa, a Tamborim 42 fez e faz história na Sapucaí, com desenhos do instrumento apurados e de alto grau de dificuldade. É um espelho para novos ritmistas do instrumento.


Sob a batuta do mestre Casagrande desde 2008, a Pura Cadência coleciona notas 10 tal qual fossem figurinhas. É uma das baterias mais competentes e precisas do nosso carnaval. Nos últimos cinco anos de desfiles na Sapucaí, perdeu apenas 0,3 décimos e é a bateria que menos sofreu decréscimos nesse período, a mais regular do grupo. O estilo de trabalho do Casão é tão referência que rendeu diversos frutos, como os diversos mestres que foram coordenados por ele: Demétrius, Léo Capoeira, Lolo, Chuvisco, Magrão, Maurão, Ricardinho, Junior Sampaio. Todos trabalharam com o mestre Casagrande, dando dimensão da referência que ele é para o nosso carnaval. 

Mestre Casagrande, que comanda a Pura Cadência há 12 anos. Foto: Gabriel Santos/Riotur.

Como o carnaval é feito sempre de renovações, é importante citar que, para Casagrande, que hoje é referência de ética de trabalho para tantos mestres, a grande referência foi o trabalho com o mestre Marçal, lendário mestre da Portela que também trabalhou na Unidos da Tijuca, responsável por alçar Casagrande ao posto de diretor de bateria. Mestre Marçal também foi um dos grandes responsáveis por revolucionar a maneira como a Tijuca toca o seu partido alto, promovendo o apuro e a precisão do toque. O legado, como sabemos, foi continuado por mestre Casagrande. 

Aliás, o nome de Marçal não é estranho, né? Como dissemos para não esquecê-lo… O lendário Armando Marçal, parceiro de composição de Bide e um dos fundadores da Deixa Falar… Não à toa seu filho foi um dos responsáveis por dar continuidade à transmissão do partido alto, originado com o pai e a tanto exaltada Turma do Estácio!

E assim encerramos nosso passeio pela batida que saiu lá da turma da Estácio de Sá e se espalhou pela Grande Tijuca, influenciando gerações de ritmistas! 

Se ainda não leu, confira os demais textos da Série Batuques sobre a batida do surdo um da Estação Primeira de Mangueira; o O baticum majestoso da Portela, imperial da Serrinha e insulano e o baticumbum independente da Não Existe Mais Quente.

Além da Série #Batuques, você conferir também a #SérieMulheres.

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