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Carnavalize

 


Texto: Beatriz Freire, João Vitor Silveira e Thomas Reis


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrinchamos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize). 

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Para o nosso último texto (coro de lamento), contamos com a colaboração de três padrinhos: Renato Cabral, Vitor Vieira e Danielle Souza estão representados por União da Ilha 1990 (Sonhar com rei dá João), Renascer de Jacarepaguá 2009 (Como vai, vai bem? Veio a pé ou de trem?) e Império Serrano 2017 (Meu quintal é maior que o mundo). Agradecemos mais uma vez aos nossos padrinhos e madrinha pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Como um dos maiores expoentes da cultura brasileira, desde o rebaixamento para a Série A em 2009, o Menino de 47 passou alguns anos tentando beliscar novamente uma vaga no Grupo Especial. A passagem pelo segundo grupo rendeu bons momentos de conexão com suas raízes, como quando homenageou Dona Ivone Lara, a jóia rara do samba, em 2012, passou uma mensagem de fé, em 2015, e também quando reverenciou Silas de Oliveira, no carnaval de 2016. Estes dois últimos, aliás, eram os pontos de uma trilogia pensada para o Império Serrano de 2015 a 2017, fundamentada sobre três ideias: a fé, a raiz e a herança, respectivamente. 


Menino Bernardo em meu ser, reinvento o meu Pantanal


Assim, no ano de seus 70 anos de existência, em 2017, até se cogitou fazer uma homenagem própria à escola da Serrinha para que a sequência finalmente fosse finalizada (a herança). Mas, no final das contas, os olhos se voltaram para a os feitos de Manoel de Barros, usando a obra homônima do poeta, para Marcus Ferreira, que chegou à agremiação naquele ano, desenvolver o enredo “Meu quintal é maior que o mundo”.

“Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.”
(Manoel de Barros, do "Livro das Ignorãças", 
Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1993, pág. 107.)


A logo oficial do enredo desenvolvido por Marcus Ferreira.

O enredo conduzido por Marcus se propôs a versar de forma poética sobre a trajetória de um dos maiores literatos da contemporaneidade, o poeta brasileiro Manoel de Barros. Foi a partir do seu olhar poético sobre sua terra que a história ganhou a Sapucaí. De origem mato-grossense, nascido em Cuiabá, o homenageado sempre teve seu olhar voltado para a região do Pantanal, muito presente em todas as suas obras. Desta forma, o ainda jovem carnavalesco buscou, por meio da subjetividade presente na obra de Manoel e no seu amor por sua terra, o fio condutor da narrativa. A viagem pantaneira contava com o auxílio mais que especial de Bernardo, um dos principais personagens da obra do poeta, que exprimia toda sua brasilidade e mística rural.

Sobre Bernardo:
Espécie de totem, deus, guardião da natureza sagrada. Mítico que domina o mundo natural pantaneiro.
Fazedor de amanhecer. Guardador das águas. Encantador de pássaros.
Matuto pantaneiro, meu fazendeiro.
"Reizinho" do meu quintal.
Bernardo: meu outro eu.

A narrativa foi dividida em quatro partes embasadas em todo o regionalismo do poeta. O primeiro setor demarcava o “Fazedor de amanhecer”, percorrendo toda a origem da terra pantaneira que se estende para além dos limites da fronteira brasileira, tomando parte das regiões da Bolívia e do Paraguai. O segundo setor partia para “O guardador de águas”, passando pelo "Mundo natural do pantaneiro"; no terceiro, e por fim, desaguava em "Um pantaneiro a lutar". 
 

A minha história já fala por mim

A Comissão de Frente coreografada por Júnior Scapin. Foto: Wigder Frota. 


Sob o comando de Júnior Scapin, nome conhecido do quesito, o corpo de baile se apresentou em dois atos, com o título “poesia é voar fora da asa”. Em um primeiro momento, os componentes trajavam vestes indígenas, associando o Pantanal a esta figura nativa. Um tripé com um ipê, árvore-símbolo da região, acompanhou o grupo que em um segundo momento fazia acontecer a transformações de pajés feiticeiros em animais pantaneiros. Ao final da apresentação, a figura de Manoel surgia pela abertura de uma janela que acompanhava a frase da cabeça do samba. 

O primeiro casal de porta-bandeira e mestre-sala da Serrinha. Foto: Wigder Frota.

Raphaela Caboclo, em dado momento da sua vida, passou mais tempo como porta-bandeira da Serrinha – independente do posto de terceira, segunda ou primeira – do que longe da dedicação à condução do manto sagrado imperiano. Em 2017, formava, pelo terceiro ano seguido, dupla com Feliciano Júnior; a cumplicidade e o entrosamento eram tantos que pareciam ter aprendido a se movimentar juntos naquela dança desde sempre. Em vestes sem as tradicionais penas utilizadas, mas feitas de capim barba de bode, os dois jovens e experientes talentos representavam o índio e a perdiz, personagens de “O primeiro poema” - curiosamente o último poema do livro “Menino do mato”, de autoria do homenageado. Graciosos em uma apresentação não menos que perfeita, os guardiões abriram os caminhos para a comunidade de Madureira passar. 


O nosso verde fez o céu emocionar


Do ponto de vista estético, o reizinho de Madureira cumpriu muito bem o proposto. O conjunto alegórico se destacou por apresentar cinco carros imponentes, com cores vívidas e bem decorados, que se mantiveram equilibrados desde o abre-alas até a última alegoria. Por falar no abre-alas (Meu quintal é minha aldeia), esta foi a alegoria que mais se destacou, sobretudo por sua estética diferenciada, dividida ao meio por duas tonalidades: uma metade o ouro do Eldorado, a outra marrom do pantanal brasileiro, carregando toda a mitologia que se perpassou pela região. 

O abre-alas evocava o Eldorado. Foto: Fernando Grilli.

A alegoria levou à Avenida o símbolo máximo do Império, a coroa. Na ocasião, em especial, o carnavalesco buscou resgatar o primeiro modelo da coroa, concebido na fundação da escola, em alusão aos 70 anos completados em 2017. A segunda alegoria, “Caracol é uma casa que anda”, foi um banho de cores cítricas para representar a natureza da região centro-oeste do país com um toque poético bem compatível com o homenageado. Apesar do toque criativo e das boas soluções estéticas, a alegoria apresentou alguns problemas de execução decorativa, com algumas madeiras à mostra. 

Para fechar a narrativa, contou-se com mais duas alegorias. O terceiro carro, “Passarinhos construíam casas na aba do seu chapéu de palha”, trazia em sua parte frontal uma enorme escultura de Bernardo, o personagem de Manoel, que conduzia a história contada pela verde e branco. Os tons cítricos que permearam todo o desfile se fizeram presente nesta alegoria também; com uma iluminação robusta, o carro ganhou vida, mas o excesso de adereços em determinados pontos acabam poluindo um pouco a construção. 

A segunda alegoria lembrava o verso "Caracol é casa". Foto: Wigder Frota.

No entanto, nada comprometeu a beleza estética da alegoria. Por fim, mais uma imponente alegoria, “O Pantaneiro encontra o seu ser”, com destaques coloridos, um certo excesso de adereços e, mais uma vez, o símbolo da escola, desta vez no centro carro e com movimento giratório. O equilíbrio entre as cores e a iluminação das alegorias merece ser reverenciado por ter dado vida e dinamismo ao bom conjunto alegórico apresentado pela escola. 

O equilíbrio entre as alegorias não se fez presente por entre as alas, apesar do desempenho positivo e o cumprimento do proposto com excelente adequação ao enredo, as fantasias alternaram entre soluções criativas e outras nem tanto. Se por um lado as fantasias não eram tão luxuosas, por outro, a utilização das cores foi muito acertada. A escola formou um belo tapete, voltado especialmente para o verde, amarelo e laranja, com ressalvas em tons terrosos e de palha. De maneira geral, o visual conseguiu retratar muito bem o tom artístico do poeta e toda sua leitura do pantanal brasileiro, sua terra, seu quintal. A estética da escola se fez poesia, assim como as obras de Manoel de Barros, e versou muito bem sobre as terras do centro-oeste brasileiro. 


Você já sabe quem sou pelo toque do agogô


O samba do ano de 2017 é mais um a compor a galeria de grandes sambas do Império Serrano. A composição tem diversos trechos poéticos e de muita beleza, além de transições melódicas bem interessantes. A estrutura de utilizar um refrão de meio mais longo e sem repetição foi uma saída criativa para poder fugir da fórmula padronizada que tomou o gênero do samba-enredo ao longo dos anos. O samba foi muito bem conduzido na Avenida pelo intérprete Marquinhos Art’Samba, que defendia o pavilhão da Serrinha pela primeira vez, tendo uma boa identificação com sua comunidade já na sua estréia.
 
O samba composto por: Lucas Donato, Tico do Gato, Andinho Samara, Victor Rangel, Jefferson Oliveira, Ronaldo Nunes, André do Posto 7, Vagner Silva, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante e Totonho, um verdadeiro time de futebol, foi bem aceito ao vencer a disputa, muito pelo refrão de cabeça, icônico. Eram elementos da obra a exaltação da história do Menino de 47, além da reverência a uma das grandes características da bateria do Império Serrano: o característico toque de agogô. (saiba mais na série Batuques.)

Um ritmista da bateria sinfônica em 2017. Acervo Império Serrano.

A bateria do Império Serrano, que inclusive deu um show com um dos melhores anos recentes da Sinfônica do Samba, conduzida pelo Mestre Gilmar, desfilou com uma cadência daquelas pela pista. Gilmar, inclusive, falou um pouco conosco sobre sua perspectiva sobre o desfile de 2017:

“Nós vínhamos de um desfile no ano de 2016 onde as características da bateria tiveram que mudar um pouco por conta do samba. A diretoria pediu que acelerasse o andamento por conta do samba, e eu falei muitas vezes que não daria certo, a bateria do Império não teria um bom desempenho com um andamento acelerado, porém eu sigo ordens. Foram dois 10 e duas notas inferiores naquele ano. Para 2017, comecei os trabalhos com novos pensamentos, toda minha diretoria entendeu que seria importante mudar em tudo. Dei oportunidade a novos diretores, ensaiamos por módulos, cada dia um naipe, limpamos literalmente os toques que achamos errados no desfile. Os ritmistas estavam meio desanimados por conta do desfile anterior. Então privamos em bossas simples mas com um ritmo firme, a bateria é muito acostumada a fazer bossas, e fazer ritmo por muitos ensaios foi bem desafiador. Daí veio a escolha de samba e uma final linda, unanimidade a escolha, acho que todos queriam o samba.
Samba lindo, melodias diferentes porém ajudando muito os desenhos de cada instrumento.”

Ainda que tenha tido um foco bem grande no ritmo, a Sinfônica apresentou bossas maravilhosas no desfile, que exaltaram todas as características principais de sua orquestra: o toque das caixas, a afinação dos surdos, os seus tamborins e o naipe de agogôs. O Mestre fala um pouquinho mais sobre o trabalho até chegar no desfile:

“Continuei trabalhando ritmo, só ritmo. Quando achamos que estava quase bom, começamos a fazer bossas, mas bossas simples, deixando o samba por si abrilhantar tudo. Fizemos ensaios maravilhosos na quadra e fora dela, principalmente o ensaio técnico, que foi impecável, até na vestimenta. Pela primeira vez tiramos o verde e branco e colocamos preto, e no dia ensaio técnico vi que estávamos no caminho certo. Então foi só esperar o desfile e repetir o mesmo desempenho. Se você ver o desfile, eu sambei o tempo inteiro, eu nunca tinha desfilado tão tranquilo e irreverente, os ritmistas rindo. Saímos da Sapucaí com a certeza de um ótimo desfile, todos os ritmistas se abraçando, gritando, foi muito foda.”



O resultado final do trabalho daquele ano foi visto já ao final do desfile, visto que toda a equipe de bateria ficou satisfeita com a capacidade que tiveram de vir de um ano adverso e fazer as mudanças e o trabalho necessário para recuperar o ritmo e as características do Império Serrano. Para coroar esse trabalho, ainda veio o gabarito na quarta-feira de Cinzas. Mestre Gilmar finaliza comentando um pouco sobre o resultado: 

“Minha satisfação como Mestre foi enorme. Dedico aquele desfile a todos os ritmistas que aceitaram o desafio de um desfile direcionado ao samba, onde procuramos deixar ele por si só abrilhantar a festa, e então foi só esperar a apuração. Sem dúvida nenhuma, foi o melhor ano meu como Mestre, ali eu vi que a  mudanças para o bem de toda agremiação, e tinham que ter acontecido.”

 
Reizinho de tantas vitórias


A quarta-feira de cinzas de 2017 reservava momentos especiais para Madureira. Apesar do favoritismo da Unidos de Padre Miguel, o Império Serrano apresentou um desempenho arrebatante nas notas, tendo sido descontada apenas nos quesitos Alegorias e Adereços e Mestre-Sala e Porta-Bandeira, penalizada em 0,1 décimo em cada um deles, além de um completo gabarito em Enredo, Harmonia e Bateria. Sendo assim, a Serrinha garantiu o título no Grupo de Acesso de 2017, carimbando sua vaga no grupo Especial para 2018. A consonância com o título da Portela em 2017 rendeu uma festa completa em Madureira.

Depois de tantos anos, enfim a Serrinha pode se reencontrar com o Grupo Especial. Em um carnaval envolto de emoções, em um ano especialmente difícil tanto na Série A quanto no Grupo Especial, a esperança parecia sinalizar um retorno quando o anúncio do campeonato foi feito. De mãos dadas com a coirmã, Portela, o Império Serrano ainda recebeu o convite para que seu casal desfilasse ao lado dos defensores portelenses no sábado das campeãs. Nas páginas verde e brancas, basta abrir o livro e ver que o Menino de 47 e Manoel fazem parte de um pedacinho da história um do outro. 



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Texto: Beatriz Freire, João Vitor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile eleito pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize). 

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Em nosso terceiro texto, foi a vez de Pedro Ivo Almeida, Pedro Willmersdorf e Helenice Gomes indicarem desfiles para a nossa enquete. Foram eles, respectivamente: Salgueiro 1989 (“Templo negro em tempo de consciência negra”), Porto da Pedra 1997 (“No reino da folia, cada louco com a sua mania”) e Tradição 2001 (“Hoje é domingo, é alegria, vamos sorrir e cantar!”). Agradecemos mais uma vez aos nossos padrinhos e madrinha pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 


O centenário não se apagará...


Para o carnaval de 1989, depois de desfiles com resultados de meio-de-tabela e um quarto lugar no desfile anterior, a alvirrubra decidiu levar à Avenida um enredo dedicado ao centenário da abolição da escravatura com a memória construída pelos seus próprios desfiles. A “lembrança tardia” da libertação formal foi justificada pela própria escola na introdução de sua sinopse: 

“Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”, essa frase define muito bem o Salgueiro, sempre arrojado e marcante, original e atrevido, verdadeiramente uma escola forte, livre e solta, comprometida com seu tempo e nele pioneira, sempre surpreendente e inovadora, e é assim que a desejamos no carnaval de 1989, livre e soberana em seu estilo, transmitindo liberdade e resistência.

Visão geral do desfile da arquibancada. Reprodução Tantos Carnavais.

Quando todos lembraram do negro em 1988, nós do Salgueiro só o faremos em 1989, não apenas por sermos diferentes, também porque nos parece que o movimento negro, a luta negra não se finda em 88, ela é maior que o centenário dessa dita liberdade, dessa falsa abolição. É importante que essa chama não se apague e que no 101º, 102º, 103º ano da libertação dos escravos ainda se proclame igualdade entre negros, mulatos e brancos.

Por isso dizemos que o Salgueiro é atrevido, arrojado e diferente, pois quando essa chama de luta começar a arrefecer nós a avivaremos, a reacenderemos com nosso evoluir, cantar e dançar (…)”. 


Eu sou negro sim, liberdade e poesia/E na atual sociedade, lutamos pela igualdade


O carnavalesco Luiz Fernando Reis, que até então havia se consolidado na Caprichosos de Pilares com os enredos irreverentes e críticos, chegou à Academia do Samba com a missão de resgatar a identidade da escola que foi se perdendo ao longo da década de 1980. O resgate não teria como ser diferente: após deixar o centenário da abolição da escravatura passar batido no ano anterior, a agremiação foi ao encontro da essência em suas raízes negras com o enredo que exaltava a negritude por meio de uma homenagem aos, até ali, nove enredos com a temática “afro” apresentados pela vermelho e branco.

A abertura da apresentação salgueirense. Reprodução: Tantos Carnavais.

A abertura do enredo é dada por um enaltecimento da negritude salgueirense, partindo para uma viagem temporal ao seu próprio passado no qual se tornou referência e revolucionou as narrativas carnavalescas. Afinal, a escola passou a dar centralidade aos personagens negros marginalizados na história dita “oficial” (Alô, Mangueira!), valorizando a cultura afro-brasileira fundamental para a construção do nosso país e que passa por um constante negacionismo. Percorre, então, por entre os carnavais Navio Negreiro” - 1957, “Quilombo dos Palmares” - 1960, “Xica da Silva” - 1963, “Chico-Rei” - 1964, “Bahia de todos os deuses” - 1969, “Festa para um rei negro” - 1971, “Valongo” - 1975, “Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses” - 1978 e “O bailar dos ventos. Relampejou, mas não choveu” - 1980.

Em consonância com os carnavais anteriores, que ditaram o fio narrativo daquele desfile, o carnavalesco, sem perder sua essência crítica, levantava a reflexão sobre os 100 anos de abolição - advinda de uma luta constante travada pelos negros e não um presente de uma princesa “redentora” - em um país alicerçado sobre a égide do preconceito racial e a crença em uma (inexistente, vale ressaltar) democracia entre etnias. Para isso, ao longo do cortejo, se viu a celebração de personagens como: Zumbi dos Palmares, Anastácia, João Cândido, Chico Rei e Martin Luther King, além de personagens rememorados pelo próprio Salgueiro.

No setor dedicado aos orixás, o Xangô do Salgueiro foi o destaque da alegoria representando o orixá. Foto: Revista Manchete. 

Longe das coreografias com passos definidos e complexidade de dança, o Salgueiro veio com uma comissão de frente tradicional. Acompanhados na abertura do desfile por Elizabeth Nunes, ex-presidente da escola, os integrantes da velha guarda apresentaram a agremiação como os verdadeiros guardiões do Templo Negro salgueirense, representando os guerreiros bantos. 
Como a própria sinopse do enredo já anunciava, referenciada por Martin Luther King, “Black is beautiful - “Negro é belo”, e essa frase nos inspirará (...) negro não só é belo, mas também é rico, pomposo, forte, exuberante e fundamentalmente livre, e é nessa riqueza, nessa beleza e nessa liberdade que abordaremos nosso enredo.”. E foi o que aconteceu. Com seus mais de 5000 componentes, a escola tomou a Avenida, tingindo-a de vermelho e branco. 


Que santuário de beleza/Um congresso de nobreza de raríssimo esplendor


O conjunto de fantasias concebido pelo figurinista Flávio Tavares impressionou a todos! Repleto de plumas em tons fortes de vermelho e preto, com o equilíbrio em branco e amarelo, a escola mostrou bom gosto e muito luxo. Apesar da exuberância dos chapéus e costeiros, as fantasias eram leves, sem muito pano, facilitando a evolução dos componentes que pulsavam junto com a bateria. A “ala do Minueto” prendeu as atenções. Composta por jovens casais, saudava o memorável cortejo ocorrido em “Xica da Silva”, no ano de 1963, no qual o grupo coreografado por Mercedes Baptista tomava a Presidente Vargas. 

A escola levou para seu desfile duas alas de baianas. A primeira - “Ala das Baianas do Bonfim” - antecipava a alegoria que fazia referência ao carnaval de 1969, “Bahia de todos os deuses”, em tons claros, mesclando brancos com detalhes prateados, acompanhando as cores da alegoria, o que proporcionou uma imagem fascinante com aquele conjunto todo em branco. Já a segunda, “Elegância Negra”, encantadora! Com a indumentária também em tons claros, mas com muitos detalhes em preto, dourado e vermelho, sobretudo na cabeça, a ala fascinou quem assistia o desfile e conquistou o Estandarte de Ouro.  

A bela ala de baianas no desfile. Foto: Sebastião Marinho (O Globo)

As alegorias não ficaram aquém de toda essa riqueza da alvirrubra. O conjunto imponente e bem explorado conseguiu dar uma boa forma ao enredo. O abre-alas “Templo Negro” era robusto e com duas grandes panteras - simbolo da luta e coragem negra - levava o nome da agremiação em vermelho, abrindo os caminhos na passarela. O segundo carro, “Navio Negreiro” simbolizava o início da saga dos povos escravizados. “Portais de Palmares”, o terceiro, celebrava o líder quilombola que vinha representado pelo ator Antonio Pitanga. Mas foi a quinta alegoria que mais fascinou por sua estética. Como já mencionado anteriormente, ela referenciava o enredo “Bahia de todos os deuses”. Totalmente branca com detalhes prateados, ela se destacou em meio ao volumoso conjunto de dez alegorias. 


Nesse quilombo tem magia


A escola não estava para brincadeira: como se não bastasse o corpulento conjunto alegórico e as encantadoras fantasias, levou também dez tripés para a Sapucaí. Destes, seis louvavam os orixás Exu, Iansã, Ogum, Oxóssi, Oxumaré, Oxum e Oxalá. 

Um euforia tomou conta das alas, que verdadeiramente quicavam pela pista, com muita animação. Os componentes deram um show de harmonia e contagiaram o público cantando, pulando e sambando no amanhecer daquele 6 de fevereiro de 1989.  Era o Salgueiro em sua melhor versão: branco e vermelho, afro, rasgando o chão da Sapucaí. 

 Élcio PV e Dóris defendendo o pavilhão vermelho e branco em 1989. Foto: O Globo.

“Espero ter tido a felicidade de ter levantado a nota máxima para a família salgueirense. E para a minha vaidade também, não é?!”, disse Dóris, em entrevista ao final do desfile, já na Apoteose. Seu mestre-sala era ninguém menos que o lendário Élcio PV, com quem também era casada, que retornava ao Salgueiro, desta vez com a amada como porta-bandeira, depois de anos em que os dois gabaritaram o quesito pela Beija-Flor de Nilópolis. A vaidade própria, como ela mesma apontou, tinha razão de existir: em cima de saltos altíssimos, ela bailava cheia de si – porque era mesmo brilhante – ao lado de Élcio, formando uma dupla de sucesso e resultados invejáveis. Na apresentação, trajados em vermelho e ele com o machado de Xangô como adereço em uma das mãos, bailaram com a cumplicidade que transcendia o matrimônio e encantava a todos. 


Ô Zaziê, Ô Zaziá/Salgueiro é Maiongolê, Marangolá!


É impossível fazer uma lista dos grandes sambas da Academia e não incluir a grande obra que foi para a Avenida no ano de 1989. E também é impossível falar sobre o samba de 1989 sem falar sobre a condução de manual do Pavarotti do Samba, Antônio Ricardo de Souza, o Rixxah. E nada melhor que as palavras do próprio intérprete, que conversou com a gente para falarmos sobre aquele ano, começando pela sua visão do samba em questão: 

“Naquele ano, o samba que ganhou foi o melhor da disputa. Havia outros grandes sambas, como sempre, já que a Ala de Compositores do Salgueiro sempre foi uma verdadeira seleção de bambas. Mas eu fiquei muito satisfeito com a escolha do samba, pois era o melhor. A cara do Salgueiro, bonito, melodioso, do jeito que eu gosto.” 

A alegoria que lembrou "Chico Rei". Reprodução: Tantos Carnavais.

E o gosto de Rixxah ficou nítido pelo seu desempenho. O samba de Alaor Macedo, Helinho do Salgueiro, Arizão, Demá Chagas e Rubinho do Afro tinha trechos muito poéticos e melódicos, em que a característica do canto do intérprete ficava ainda mais evidente. Um exemplo disso é o trecho final da segunda parte do samba. E, além do mais, a obra contava com um refrão de meio cativante e histórico, que ficou marcado na cabeça dos componentes e dos amantes do Carnaval:

“Ô Zaziê, Ô Zaziá
Ô Zaziê, Maiongolê, Marangolá
Ô Zaziê, Ô Zaziá
Salgueiro é Maiongolê, Marangolá”

O trecho em iorubá-nagô seria a maneira como Xangô faz um clamor aos céus, pedindo para que eles se abram em bênçãos para recepcionar Oxalá. A partir desse inesquecível refrão e da qualidade do samba como um todo, a condução de Rixxah foi ainda mais valorizada, tanto que o desfile lhe rendeu seu primeiro Estandarte de Ouro como intérprete. Ele falou um pouco mais sobre a importância do desfile e daquele enredo: 

“Aquele carnaval teve muita importância para mim. Foi quando consegui ganhar meu primeiro Estandarte de Ouro como intérprete. E era um enredo bonito e importante. O carnaval sempre foi e sempre será importante, porque retrata e valoriza a luta do meu povo. Salve a África! Salve a Bahia! E Vidas Negras Importam! Axé!” 

E para exaltar ainda mais o samba do Salgueiro, nada melhor que o belíssimo ritmo proporcionado pela Bateria Furiosa. Sob o comando do saudoso Mestre Louro, a Furiosa pisou com força na Avenida, com uma fantasia que representando guerreiros africanos. Ela deu a cadência perfeita para que a bonita obra do Salgueiro pudesse brilhar e conquistou a nota máxima dos jurados. Na regência de seu lendário mestre, o destaque do trabalho da bateria foi o belo e criativo desenho realizado pelos tamborins ao longo do famoso refrão de meio do samba. 



Ainda que tenha realizado um belo desfile já na manhã do domingo, o Salgueiro não conseguiu chegar ao título. Apesar do apuro estético e o bom desempenho apresentado pelos quesitos na Avenida, naquela quarta-feira de cinzas, os holofotes estavam direcionados para longe da Grande Tijuca, de forma que as vizinhas Salgueiro e Vila Isabel acabaram sendo ofuscadas pelos desfiles históricos e arrebatadores de Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor de Nilópolis. Ao final da apuração, o Salgueiro acabou empatado com a Vila Isabel com 207 pontos, ficando com a quinta colocação e voltando para o Desfile das Campeãs. 

Ainda que não tenha conquistado o campeonato ou mesmo se confortado com a segunda colocação, o carnaval de 1989 não passa batido pela memória de desfiles e feitos da escola. Além de ter produzido um dos sempre entoados sambas da grande safra que comporta a discografia salgueirense, ganhou-se um desfile politicamente alinhado aos acontecimentos do mundo, em um tempo no qual se discutia os efeitos da abolição formal e de redemocratização, com a vigência da nova Constituição. Além disso, inegável é o sentimento de pertencimento que trazem os versos do samba que, ainda hoje, fazem da Silva Teles um templo negro.



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Arte: Lucas Monteiro.

Texto: Beatriz Freire, João Vítor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos

"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize).

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Para o nosso segundo texto, João Neto indicou três desfiles que compuseram a votação. Vejam só como ele nos colocou em briga de gente grande: Beija-Flor 2001 (“A saga de Agotime - Maria Mineira Naê”), Salgueiro 2007 (“Candaces”) e Vila Isabel 2012 (“Você semba de lá que eu sambo de cá - O canto livre de Angola”). Agradecemos mais uma vez ao nosso padrinho pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Em 2001, a Beija-Flor de Nilópolis completava 25 anos da conquista do primeiro título de sua história, no ano de 1976 (“Sonhar com rei dá leão”). Até ali, já havia alçado voos tão altos que, ao todo, nas duas décadas e meia que se passaram, colecionava seis campeonatos para chamar de seus. A competitividade veio, para além do suporte de sua patronagem, com Joãosinho Trinta, que, na explosão de sua carreira carnavalesca, mudou os rumos da agremiação nilopolitana. 

Os carnavais anteriores foram marcados por ótimas colocações, sempre muito disputadas com a Imperatriz, uma das grandes potências de toda a década de 1990. Mordida pelo vice-campeonato no ano anterior, a Beija-Flor apostou todas as suas fichas em busca da vitória naquele ano: com um enredo “afro”, já era manhã de segunda-feira – a escola encerrava o domingo de desfiles – quando Nilópolis adentrou a Sapucaí sob a luz do sol e os olhos das arquibancadas lotadas para contar a história de Agotime. 


Foto: Wigder Frota. 


VAI SEGUINDO O SEU DESTINO (DE LÁ PRA CÁ)


O retorno às origens africanas foi pensando pela Comissão de Carnaval composta por Laíla, Cid Carvalho, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Shangai e Nelson Ricardo. A equipe, que já estava no comando do carnaval da escola há 4 anos, teve a inspiração para o enredo quando desenvolviam “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu” em 1998, como nos contou o carnavalesco Fran Sérgio.

“Esse enredo começou com a gente preparando, em 1997, o carnaval de 1998, que era: “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu”, uma história da pajelança cabocla, protagonizado pela dona Zeneida Lima, que é a pajé (...) e dona Zeneida já falou com a gente sobre a história da tataravó dela que era a rainha Agotime (...). E já ficamos encantados ali com a história e ficamos dois anos (1999 e 2000) amadurecendo essa ideia, essa pegada africana, uma homenagem aos voduns, aos ancestrais da Agotime e ao culto de Dahomé.”  

O enredo foi uma espécie de encantaria que envolveu a todos que assistiam o cortejo da azul e branca nilopolitana. Percorrendo a história da rainha Agotime de Abomey, antiga capital do Reino de Dahomé - atual Benin -, contou-se que a líder foi traída, escravizada e enviada ao Brasil. Ela, que era a segunda esposa do rei Agongolo, vivia no palácio Dãxome com seu enteado Adandozan (primogênito do rei) e seu filho Gezo. Próximo de sua morte, o monarca reuniu seu povo no mercado Adjahito para anunciar que seu segundo filho iria sucedê-lo no trono após sua morte. Entretanto, o ordenamento de Agongolo não foi cumprido, e Adandozan se apropriou de forma tirânica do governo de Dahomé. 

Agotime, conhecida por cultuar os voduns seus reis ancestrais mortos, foi acusada de feitiçaria pelo novo rei e vendida no grande porto de escravizados em Whidah. Lançada ao porão de um navio negreiro, cruzou o oceano, como havia sido previsto pelo seu Vodun como sua missão, e rumou para o Brasil. Ancorada em seu compromisso espiritual de renascer em outras terras o culto a Xelegbata, a rainha resistiu às dores, ao sofrimento e a humilhação, trazendo consigo os saberes ancestrais do povo de Dahomé e o culto aos voduns. 

O desembarque em solo tupiniquim foi em Itaparica, na Bahia, onde encontrou com muitos africanos escravizados, mas nenhum da mesma região ou religião que a sua. Foi através do contato com os povos Nagô que Agotime se aproximou dos orixás e por meio deles descobriu a localização de seu povo em São Luís do Maranhão. Sua gente foi denominada de Negros-Minas e estavam desamparados e sem local para cultuar sua religião. Diziam aguardar um sinal dos ancestrais para isso. Ou seja, mesmo sem saber, esperavam por Agotime. 

Entendendo que sua saga estava próxima do desfecho tão sonhado, a rainha chega ao Maranhão sentindo os espíritos de seus ancestrais africanos, ouvindo ecoar os tambores de Dahomé e, em um ritual de celebração, a escravizada retoma seu posto de rainha. Acolhendo seu povo e seguindo as orientações do Vodun, funda a “Casa das Minas” em São Luís do Maranhão. Sua missão enfim, estava concretizada. No terreiro em que resiste a tradição africana e o culto aos Voduns, a rainha passou a se chamar Maria Mineira Naê, cumprindo o seu destino. 

A história contemplada pela escola foi conduzida pelos relatos da pajé Zeneida Lima, então neta de Agotime. Ainda que muitas polêmicas envolvam a veracidade dos relatos, não há dúvidas sobre o fato de que a saga encantou a todos na Avenida, bem ao estilo místico da narrativa. O encontro entre a Deusa da Passarela e a Rainha Agotime foi repleto de feitiçaria, misticismo e deslumbramento, digno da grandeza de suas altezas. O enredo muito bem amarrado e repleto de minúcias não só embeveceu o público, mas também conquistou notas máximas dos jurados e levou o Estandarte de Ouro do quesito. 


E NA LUZ DE SEUS VODUNS/ EXISTIA UM RITUAL DE FÉ


Na comissão de frente comandada pela bailarina e coreógrafa Ghislaine Cavalcanti, viu-se a encenação do ritual da pantera negra: quatorze mulheres que dançavam ao ritmo do tambor  mina-jeje acompanhavam a personagem central que representava Agotime. Durante quase toda a apresentação, a rainha era representada em vestes douradas e com uma máscara sobre o rosto. Quando era “escondida” pelas suas guardiãs, retornava à cena como uma pantera, simbolizando o ritual inspirado na dança dos povos jeje e no culto aos voduns. 

Foto: Fernando Quevedo | O Globo

Do ponto de vista estético, a escola apresentou um dos desfiles mais opulentos e ricos que já tomou a Sapucaí. Rompendo a Avenida ao amanhecer do dia 26 de fevereiro de 2001, a Beija-Flor fascinou o público com sua exuberância e as tonalidades utilizadas em suas alegorias e fantasias; o contraste entre as cores da Deusa da Passarela e o céu clareando gerou imagens lindíssimas do desfile. 

O conjunto alegórico composto por 7 carros era imponente, gigantesco e muito bem trabalhado. A começar pelo abre-alas, que tomou grande parte do tapete branco com suas três estruturas acopladas, representando “O palácio de Dãxome - O clã real”, que, segundo a lenda, foi edificado sobre a barriga da serpente. Em sua decoração, a farta utilização de palhas, presas e peles de animais chamava muita atenção, juntamente com os adereços dos destaques e os totens típicos da região espalhados pela alegoria. 

Apesar de toda imponência do abre-alas, o carro que mais impactou a todos foi o terceiro: “A Feitiçaria”, e essa comoção não foi exclusividade dos foliões que estavam na Avenida. Fran Sérgio conta que os próprios funcionários do barracão sentiam a intensidade da alegoria: “Tínhamos figuras muito fortes nesse carnaval (...) tinha uma escultura de um bode, no carro da feitiçaria, que falava realmente do culto da rainha que vem para o Brasil com ela; e as pessoas, os funcionários do barracão, tinham um tipo de medo do bode porque era um bode preto, era uma escultura que você olhava e parecia que ela estava olhando para você. Então esse enredo tinha muito misticismo, muita força, essa magia africana que contagiava a gente no barracão. Nós sentíamos essa energia pulsando dentro do barracão.”. 

Além do famoso bode já citado que abre a alegoria, esta era composta por 700 velas dentro de recipientes com água; suas cores eram fortes e vibrantes, em tons vermelho e preto. Em seu ponto mais alto, estava a destaque central com um costeiro colossal. Para muitos, o carro era uma espécie de ebó que percorreu a Sapucaí, ostentando oferendas e sacrifícios. 

Foto: Cezar Loureiro | O Globo

Outra alegoria digna de ser evidenciada é a quinta. “A Bahia - Encontro com os Nagôs” conta a chegada da rainha em condições de escravizada no Brasil, que foi representada por uma belíssima construção artística em tonalidades claras entre branco e prata que contrastava com a luz do dia. Em tons coloridos e vívidos, os destaques de composições vestidos de orixás davam o toque pontual àquela concepção incrível, algo bem similar a estética desenvolvida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora na Grande Rio em 2020. 

No todo, o conjunto alegórico apresentado pela escola de Nilópolis foi marcado pela sua robustez, sua riqueza de detalhes e por destaques volumosos que tiveram a capacidade de refletir muito bem a narrativa do enredo. Em determinados pontos, é possível observar o excesso de adereços e a falta de rigor estético, mas nada que comprometesse todo aquele feitiço que pairou sobre o Rio de Janeiro naquela manhã. E, falando nisso, a alegoria “A Feitiçaria”, por ironia do destino a mais bela do cortejo, como mencionamos acima, teve um pedaço danificado. A perda da peça, fato que, no conjunto do desfile, pareceu insignificante, custou caro à Beija-Flor na quarta-feira de cinzas.  

A riqueza das alegorias esteve presente também por entre as alas. Volumosas, com cores vibrantes e seguindo o embalo que tomava os componentes, as fantasias foram mais um quesito impecável da escola. O primeiro destaque vai para a “Ala das Pretas-Velhas”. Para além da indumentária, a passagem das senhoras negras integrantes da comunidade nilopolitana trouxe consigo um enorme valor simbólico. Não à toa, para muitos que assistiam o desfile, algumas delas - senão todas - estavam incorporadas. A ala já vinha gerando discussões muito antes do desfile, pois muitos duvidavam que as mulheres já idosas conseguiriam atravessar toda a Avenida seguindo a coreografia com a coluna curvada para frente. O Diretor de Carnaval, Laíla, conduziu incansáveis ensaios para que tudo saísse conforme o previsto... e foi o que aconteceu! Lá estavam elas à frente do abre-alas, com cachimbo, bengala e guia no pescoço, abrindo os caminhos para aquele grandioso cortejo. 

Foto: Wigder Frota

Além disso, em todo o corpo de desfilantes da escola notou-se alas muito volumosas e ricamente trabalhadas em materiais e, principalmente, em cores, as principais aliadas da escola naquele desfile sob a luz do sol. Impressionou pela quantidade de componentes e criatividade a ala das baianinhas, intitulada “As sinhazinhas do bumba-meu-boi”. Com uma quantidade considerável de alas coreografadas, a escola mostrou excelente desempenho de harmonia e evolução e, mesmo sendo obrigada a apertar o passo nos minutos finais por conta de sua extensão, ninguém deixou de vibrar com o samba, muito menos de realizar os passos delimitados. 


O RUMO DE SEU POVO ENCONTROU


De luvas douradas nas mãos, coisa que já não se vê mais nos dias de hoje, Selminha Sorriso empunhou o pavilhão azul e branco ao lado de Claudinho, já companheiro de muitos carnavais, sem deixar escapar o mastro que ostentava a identidade e garra nilopolitanas. As luvas, a título de curiosidade, foram pouco tempo depois escanteadas após um “comum acordo” entre as porta-bandeiras, tendo em vista que o suor fazia as mãos escorregarem. A dupla estava lindamente trajada com indumentárias dignas da realeza daometana, com a riqueza das estampas que reproduziam as peles de zebras. O garbo inconfundível do casal abrilhantou ainda mais a presença das cores e símbolos da escola para mostrar que o percurso Daomé-Bahia-Maranhão desembarcou em Nilópolis para saudar a sacerdotisa Agotime. Como de costume, Selminha e Claudinho conduziram o beija-flor de sua bandeira como um amuleto por toda a Avenida, em uma linda apresentação para as cabines de jurados. 

Foto: Wigder Frota.


SOU BEIJA-FLOR E O MEU TAMBOR/ TEM ENERGIA E VIBRAÇÃO


Histórico. É uma boa palavra para definir o samba-enredo que a Beija-Flor levou para a Avenida no carnaval de 2001. A composição de Déo, Caruso, Cleber e Osmar foi completamente arrebatadora, conquistando o público desde o pré-carnaval e coroando a sua grandeza com uma performance incrível na Sapucaí. A obra contou com a interpretação magistral de Neguinho da Beija-Flor, que ia para o seu vigésimo sexto ano seguido à frente do carro de som nilopolitano, junto com seu fiel escudeiro Gilson Bacana. Considerado por muitos o melhor samba do carnaval de 2001 e um dos grandes sambas da década, ele conseguiu concatenar com perfeição os trechos e as passagens do enredo, sendo uma belíssima representação da totalidade do desfile.

O grande desempenho do samba foi, ainda, propiciado pelo excelente trabalho da bateria Soberana de mestre Paulinho Botelho e de mestre Plínio - o hoje mais longevo mestre em atividade pela mesma escola, com 24 anos na escola de Nilópolis. Diferente do que acabou se tornando a tendência daquela década, em que belas obras acabaram sendo atrapalhadas pelo andamento acelerado das baterias, a orquestra da Beija-Flor conseguiu manter uma bela cadência num andamento favorável ao samba poético que tinham em mãos, de forma que o hino da escola pôde brilhar em todo o seu esplendor no desfile. 

Para além do reconhecimento do andamento ideal para o samba que possuíam, os mestres Plínio e Paulinho Botelho conseguiram levar para a Avenida uma bateria bem condizente com o enredo que a escola trabalhava, contando com alguns ritmistas com instrumentos totalmente conectados com a temática africana, como o atabaque e o xequerê. Além disso, um dos grandes destaques da bateria foi a bossa realizada após sair do refrão de meio do samba, entrando na segunda do samba e executando um ritmo afro no qual os surdos e os tamborins puderam brilhar. 


A Beija-Flor foi a última escola do domingo de Carnaval e deixou a Marquês de Sapucaí como a franca favorita ao título após desfilar com o dia já amanhecendo. A escola arrebatou o público e encerrou o desfile aos gritos de “É Campeã!”. Mas, para a tristeza e frustração da comunidade nilopolitana, a Quarta Feira de Cinzas reservava uma ingrata surpresa. Mesmo com um desfile arrebatador, que empilhou notas 10 em todos os quesitos, um 9.5 em Alegorias e Adereços foi determinante para que a Imperatriz, com um perfeito 300, chegasse ao título do carnaval de 2001, repetindo as posições anteriores e fazendo com que a Beija-Flor de Nilópolis amargasse o terceiro vice-campeonato seguido para a escola de Ramos.  

Mesmo sem a vitória, Agotime é um daqueles desfiles que ganhou, acima de tudo, as páginas da história carnavalesca. Até hoje lembrado como uma das melhores apresentações – e mais injustas derrotas para muitos – da Deusa da Passarela, o desfile mobilizou uma estética rica, criativa, excelente samba e um enredo indiscutivelmente abraçado pela comunidade nilopolitana. A saga milenar da escola, mais do que buscar uma história antiga para contar, invocou uma personagem não ensinada nas salas de aula, cumprindo, assim, o papel cultural e educacional das escolas de samba que se interessam a colocar nas devidas molduras os nomes que combinaram de não nos contar algum dia. Ressoou no Maranhão, na Sapucaí e no país inteiro. 

Confira o depoimento do carnavalesco Fran Sérgio sobre esse desfile inesquecível:





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Texto: Beatriz Freire, João Vitor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos. 


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize). 

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Nesta primeira semana, Aline Gama, Any Cometti e Raí Chaves indicaram os três desfiles que compuseram a votação popular. Curiosamente, os três concorrentes foram apresentações do carnaval de 1993: Grande Rio (“No mundo da lua”); Salgueiro (“Peguei um Ita no Norte”) e Vila Isabel (“Gbala - Viagem ao templo da criação”). Agradecemos mais uma vez a eles pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Como conversa de sambista é samba, daremos largada ao desfile escolhido por vocês para marcar nossa reestreia: faremos uma viagem ao lúdico céu da tricolor caxiense para ficar o pavilhão do Carnavalize “No Mundo da Lua”.

"Nessa aquarela, a Grande Rio é a tela"

O carnaval de 1993 marcava o ano de retorno da Grande Rio ao Grupo Especial, a agremiação era até então uma criança em seu sexto ano de existência. Em 1991, a escola já havia passado pelo grupo principal, mas, ante a expressividade e grandiosidade das coirmãs, acabou retornando ao segundo grupo. No carnaval anterior ao desfile a ser relembrado, em 1992, pelo Grupo de Acesso, a caçulinha desfilou belamente o enredo “Águas claras para um rei negro”, uma sagração a Oxalá, desenvolvido pelos carnavalescos Lucas Pinto e Sônia Regina. O desafio desta segunda passagem pela elite das agremiações era mostrar que sua juventude em nada impedia a capacidade de desfilar bem – e permanecer! 

O jovem, mas já experiente carnavalesco, Alexandre Louzada chegou à escola de Caxias trazendo na bagagem o enredo fascinante que versava sobre o tão importante satélite natural da Terra. A narrativa abordava o astro a partir de um olhar encantado, passeando, assim, por entre lendas, mitologias, assombrações e paixões que o envolviam. 

Na pista, prateada pelo brilho lunar, a escola partiu com base nas influências do astro na cultura das antigas civilizações por intermédio das crenças astrológicas que ditavam os arranjos cotidianos daqueles povos, percorrendo assim, Grécia, Egito, China e Índia. Passou, ainda, pela astrologia lunar e pelo destino da vida aquática, falando sobre sua posição preponderante na condução das marés. Mencionou Jaci, a deusa Lua, que personifica no seio das lendas tupi-guarani a fertilidade. Indo para a mitologia cristã, surgiu São Jorge, que fez da lua sua morada, imaginando que nas noites de lua cheia é possível vislumbrar o cavaleiro alçando sua lança no dragão. Isso sem falar dos apaixonados, que fizeram à luz da lua canções e serenatas… e sabe qual foi o resultado? Lua de mel! Louzada soube explorar as mais diversas vertentes do tema para além das tecnicidades científicas. 

Alegoria "Serenata ao luar". Foto: Memória Grande Rio.

Mas nem só de mito e paixão a lua se vestiu no desfile da Grande Rio. O lado misterioso e sombrio ganhou forma com a lua cheia na sexta-feira treze. A corrida espacial também se fez presente, assim como o flerte crítico com os “lunáticos” que conduziam catastroficamente a política do país nos anos 1990 – nada muito diferente dos dias de hoje. Para não perder todo encantamento e magia envolto no tão sublime satélite, Louzada fez questão de destacar em seu enredo o título inegável atribuído a ela de fada madrinha, que ganhou verso central no samba-enredo com o tão popular “Clareia, Dindinha”. Em meio a tantas narrativas mágicas e encantadoras, o desfecho foi dado de forma fabulística por um grande eclipse total, no qual a lua oculta a luz da Terra ao se impor sobre o Sol. 

O enredo foi um dos pontos forte da tricolor de Caxias: apesar de ter dividido uma parecida temática com a Estácio de Sá no mesmo ano, a leitura e o desenvolvimento dados por Louzada foram vistos com bons olhos e iluminaram os caminhos da agremiação. 

"Ô luar, ô luar... vem pratear a nossa rua"

Debaixo de chuva, tendo exatamente a lua de São Jorge como ponto de partida, a comissão de frente trouxe doze homens vestidos como o santo guerreiro e Jussara Pádua, coreógrafa do grupo, representando a lua, sob a guarida de seus defensores. Todos em vestes brancas, eles inseriram à cromática de Louzada o seu hoje reconhecido trabalho com tons brancos, muito pertinente à estética lunar proposta. 

Acompanhando a comissão de frente, o início do desfile é tomado pelos tons de branco e prata. Logo no abre-alas é possível ter uma noção do nível alegórico apresentado pela escola: uma grande espaçonave repleta de turbinas carregava a imponente coroa, símbolo da Grande Rio, dando início a uma grande viagem à lua. O conjunto alegórico composto por 12 carros conseguiu exprimir muito bem a narrativa. Com construções impressionantes para uma escola tão jovem e recém-chegada ao Grupo Especial, a Grande Rio apresentou alegorias imponentes que se mantiveram em nível equilibrado do início ao fim. 

A abertura da apresentação da tricolor em 1993. Foto: Wigder Frota. 

Ainda assim, apesar dos bons efeitos proporcionados por Louzada quanto ao uso de materiais como espelhos e o tom prateado nas alegorias - na busca por imprimir uma estética espacial -, o conjunto não se mostrava exatamente luxuoso ou esteticamente inovador. Além disso, eram visíveis os problemas na execução decorativa. Apesar das adversidades enfrentadas, o talento de Alexandre Louzada para a criação de alegorias já se destacava, o que era exatamente uma árdua tarefa de superação em anos marcados pela competição entre o requinte de Rosa Magalhães e o hightech de Renato Lage.

Um dos carros que mais se destacaram foi “Jaci - Índia Lua”, trabalhado em tons esverdeados e alaranjados, que representava a lenda indígena da deusa lua em uma grande floresta. A utilização das cores cítricas lhe concedeu um impacto vívido. A quinta alegoria “Serenata ao Luar” também merece destaque por sua concepção: revestida por prata e branco, recebeu um sutil toque rosado com as plumas que compunham as fantasias dos destaques, gerando um efeito encantador. Por fim, o carro “A Lua de São Jorge”, que, apesar de ter uma construção aparentemente simples, mostrou soluções interessantes com uma paleta de cores composta por vermelho, dourado e branco, teve em seu centro a representação em esculturas do embate entre São Jorge e o dragão. Ao fundo, lanças douradas fechavam a alegoria. O destaque negativo ficou por conta da alegoria “Lunáticos”, em verde e amarelo, uma construção confusa trazia em sua base políticos aprisionados. O tom crítico condizia com o momento e se fazia até mesmo necessário, mas as soluções estéticas se mostraram muito prejudicadas e pouco criativas. 

A alegoria "Eclipse total". Foto: Alexandre Graciano.

Do ponto de vista das indumentárias, as cores foram muito bem utilizadas. Com um início em branco, o tapete foi ganhando cores mais quentes no decorrer do desfile até terminar em tons escuros. As fantasias compostas por Louzada se destacaram pela leveza e pouco volume. Sem muita riqueza, mas com ótima execução, conseguiram imprimir muito bem o que o enredo propunha. 

"É lindo ver a tua imagem encantando a multidão"

Naquele carnaval, Rita Freitas foi levada à escola a peso de ouro para defender ao lado de Ronaldinho, conhecido companheiro de dança dos tempos de Salgueiro, o pavilhão da tricolor de Caxias. Grande nome revelado pela coirmã alvirrubra da Tijuca, Rita tornou-se uma das mais competentes e desejadas porta-bandeiras da década de 1990. Para garantir as notas, era preciso apostar alto, o que não era exatamente um problema para a escola, vide a estrutura financeira proporcionada por sua patronagem.

Rita e Ronaldinho ensaiavam com empenho. Ela foi a porta-bandeira pioneira dos ensaios na Marquês de Sapucaí por muitas e muitas noites que antecediam os desfiles oficiais, fator importante para estruturar a preparação dos guardiões da bandeira e que, certamente, contribuiria por mais um ano de sucesso no trabalho dos dois. Com Laíla como diretor da escola, um entusiasta declarado da repetição em busca da quase-perfeição, o que não faltou foi incentivo. Mesmo assim, não bastou experiência que fosse para lidar com os imprevistos durante a passagem do casal na Avenida. Logo no início, ao curvar-se para reverenciar a primeira cabine de jurados, a fantasia da porta-bandeira se soltou, sendo necessário improvisar até o fim. A chuva não deu trégua numa apresentação que impediu o casal de mostrar todo seu talento. 

O gabaritado primeiro casal da escola: Rita e Ronaldinho. Foto: Wigder Frota.

"Clareia, dindinha!"

O desfile da Grande Rio foi embalado por um samba primoroso, que fez sucesso no pré-carnaval, sendo elogiado inclusive por intérpretes de outras agremiações. A obra foi cantada com fervor pelos componentes da escola e conduzida com perfeição por Nêgo, que acabava de chegar na Grande Rio oriundo da Unidos da Tijuca. Sua interpretação, sem sombra de dúvidas, foi um dos grandes fatores para que o samba crescesse e fosse considerado um dos melhores daquele ano. 

A obra contava com dez compositores, entre eles o próprio Nêgo, um número incomum para a época. Mas isso se explica pelo fato de que o samba entoado na Avenida era resultado da junção de três obras diferentes. O presidente da Grande Rio à época deu a seguinte explicação para a iniciativa em entrevista: “Este ano fizemos o ideal: juntamos as melhores partes dos três concorrentes da final”. Ainda que junções sejam muitas vezes complicadas - ainda mais envolvendo três sambas! - o resultado final para a Grande Rio foi bem proveitoso. Tanto que, por muito tempo, foi considerado o maior samba-enredo da história da escola, posto colocado em disputa pelo samba que norteou o vice campeonato da agremiação no ano de 2020. 

É fato também que o samba-enredo de 1993 foi bastante auxiliado pela bateria da escola de Caxias, comandada à época pelo Mestre Maurício. O ritmo cadenciado foi bem conduzido pelos ritmistas ao longo do desfile, tendo como principal destaque os desenhos de tamborim bem ensaiados, que tiveram o papel principal de abrilhantar a obra durante a passagem da escola. Para além disso, a virada de três na cabeça do samba: Ao sair do refrão principal, para entrar na cabeça do samba, os surdos de primeira e segunda realizam uma breve conversa entre si, antes de voltarem para o ritmo padrão, com uma coordenação bem interessante com os tamborins, que foi também um ponto alto da bateria naquele ano.

Mas, apesar de embalada uma execução musical fora de série, a Grande Rio não encontrou no colo da lua a oportunidade de sorrir e ser feliz. O já mencionado samba (que, aliás, foi composto por figurinhas carimbadas como Jacy Inspiração e Dicró, entre outros) foi o único quesito da escola a garantir a nota máxima na Quarta-Feira de Cinzas. A escola contou ainda com um desempenho positivo nos quesitos Fantasia, Comissão de Frente e Harmonia. Entretanto, os decréscimos em diversos quesitos - a agremiação não conquistou nenhuma nota dez em Evolução, Enredo e Alegorias e Adereços -, fez com que a tricolor amargasse uma nona colocação. 


Nota a nota, ainda que o cenário não tenha sido o ideal para toda escola que sonha com as altas posições, a Grande Rio garantiu uma permanência tranquila na primeira divisão, feito que lhe conferiu o mérito de, desde então, nunca ter sido rebaixada. “No Mundo da Lua”, para que justiça seja feita, foi um dos passos iniciais para o surgimento de uma escola que estabeleceu, ainda em seus primeiros anos de existência, uma ótima relação com a comunidade e apresentou enredos para lá de pertinentes. 

Não percam nossos próximos textos da série “Do Setor 1 à Apoteose”! Se você quiser participar da votação que definirá o desfile-tema da semana que vem, basta acompanhar os stories no Instagram do Carnavalize e nossa enquete no Twitter até quarta-feira, dia 09/09. Carnavalize conosco!






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Após vencer o campeonato de 1985 com icônico enredo "Ziriguidum 2001 - O carnaval nas estrelas", o carnavalesco Fernando Pinto despediu-se da Mocidade por algumas desavenças com a diretoria da verde e branca. Entretanto, após o fracasso da apresentação de 1986, com o estranho enredo "Bruxarias e histórias do arco da velha", o artista tropicalista marcou seu reencontro com Padre Miguel. Para tentar alçar um voo de proporção ainda maior que a viagem sideral de outrora, Fernando criou um enredo ainda mais ousado e delirante. Nascia, assim, a metrópole retrô-futurista, símbolo do Tupi Power: a grande Tupinicópolis.

Fernando Pinto voltaria à temática indígena quatro anos após tê-la abordado de maneira pioneira, num grito de preservação ecológica em "Como Era Verde Meu Xingu", e de maneira idílica em "Viagem Encantada Pindorama Adentro", em 1973, no Império Serrano. Dessa vez, a ideia era ilustrar uma cidade comum, semelhante a qualquer outra brasileira, exceto fato de ser dominada por índios. Todos os elementos de uma grande metrópole foram representados nas alegorias e alas, aliando ícones da nossa cultura com a temática indígena. Assim, nascia a lendária cidade do terceiro milênio. 

Com cocar na cabeça e patins nos pés, venha passear por esse mundo incrível a partir de agora, na descrição do desfile de ponta a ponta.


"Vejam quanta a alegria vem aí, é uma cidade a sorrir"





A ironia festiva que marcaria o desfile já dava  o ar de sua graça na Comissão de Frente, em que enormes caciques de terno, óculos escuros e malas de couro saudavam o público. A junção de símbolos tão díspares, num misto de crítica social e celebração, pautariam um desfile dúbio e com forte herança do movimento tropicalista, que marcou a arte brasileira nos anos de 1960. O abre-alas marcaria uma grande inovação, apostando numa abertura monumental, já que cinco chassis diferentes formavam uma grande alegoria acoplada e que trazia a primeira visão geral da Taba de Pedra. Depois de inventar o acoplamento na inesquecível Nave Mãe, de 1985, o carnavalesco voltaria a investir na grandiosidade de seus carros. 

Num processo narrativo simples mas cheio de camadas, a cidade indígena passava diante dos olhos do espectador numa série de fragmentos e imagens que parecem ilusórias e alucinógenas. Placas de trânsitos, operários, trabalhadores, caipiras e esportistas; tinha todo tipo de gente em Tupinicópolis. Nas alas, a aposta foi em grandes esplendores de fácil leitura para facilitar a comunicação de tamanha multiplicidade cultural. Era um limiar muito tropicalista, entre a crítica e celebração da sociedade capitalista e consumista, abrindo múltiplas camadas de interpretação. 


"E a oca virou taba, a taba virou metrópole, eis aqui a grande Tupinicópolis"



Alguns dos maiores destaques do desfile seriam as divertidas marcas locais criadas por Fernando Pinto, abusando de sua irreverência, com nomes de elementos culturais indígenas associados a outras referências dos mais diversos tipos. Nesse processo de justaposição de significados, sugiram as mais inusitadas misturas, como o Supermercado Casas da Onça, em referência a Casas da Banha; o Shopping Boitatá, que representou uma das alegorias mais bonitas daquele desfile, repletos de eletrodomésticos, e produtos divertidos como o xampu Jurema Maracujá. Um grande chafariz de verdade chamava atenção no meio da alegria que apresentava o consumo agressivo e contraditório. Outra febre de consumo era a Farmácia Raoni, repleta de chás para diversas doenças e de várias pajelanças, foi representada em uma das várias alegorias. A ala dos tupiterapeutas, uma mistura de médico e pajé, veio na sequência.

Para fazer tantas compras, a cidade tinha sua própria moeda! No momento seguinte do desfile, o Banco Tupinicopolitano foi mostrado. A moeda vigente no Brasil, então, foi colocada lado a lado do Guarani usado na cidade futurista, onde 500 cruzados valeriam apenas uma unidade da moeda indígena, numa crítica a inflação  que começava a assombrar os brasileiros.



A bateria se apresentou belamente vestida de fraques e cocares, com destaque, mais uma vez, para a inesquecível Monique Evans, representando Iracema II, como rainha dos ritmistas. Bira, Jorjão e Léo comandaram a Bateria Nota 10 (assim era chamada naquele tempo), que foi mais uma vez impecável, e Ney Vianna conduziu muito bem samba ao lado de David do Pandeiro. A roupa do grupo trazia uma peruca inspirada no visual cantora Tina Turner e da personagem Tina Pepper, vivida pela atriz Regina Casé na novela Cambalacho, em 1986. Mostrando como era grande o leque de referências de Fernando Pinto, vindo tanto do cinema quanto da televisão. 

"Boate Saci, Shopping Boitatá, Chá do Raoni e Pó de Guaraná..."



Como boa cidade globalizada, Tupinicópolis também tinha seu lazer e muitas foram as alegorias que marcaram o divertimento no lugar. O primeiro a passar na avenida foi o Tupinambá Esporte Clube, que veio representado em verde e amarelo, com bandeiras e uma réplica da taça Jules Rimet, símbolo do futebol. As figuras das Olimpíadas e da miss de Tupinicópolis também foram criações de Fernando. Grandes letreiros luminosos tomaram conta da paisagem do desfile, como de filmes de ficção científica e que começavam a tomar conta das metrópoles, neles se via representado locais como o Cine Marajoara (em cartaz, Iracema II), o Teatro Jacuí, Motel Karajás, as Saunas Amazonas, Gambá Drink’s, Boate Karajás e do Hotel Pirarucu, todos representando a agitada vida noturna da cidade.



Os prazeres da noite de Tupinicópolis trouxeram, ainda, o carro da Discoteca do Saci, com uma pista de patinação quadriculada, efeitos de fumaça, utilizada por índios-punks de patins, óculos escuros e cabelos espetados. O carro tinha um cenário vazado com grandes pistas de danças num formato pouco usado no carnaval carioca. A estrutura modernosa e a imagem síntese de nativos patinando como punks foi um dos grandes marcos do desfile. Depois, a ala do cassino abriu passagem para o carro do luxuosíssimo Cassino Eldorado, com jogos de azar, roleta, dados, cartas e espetáculos com shows de revista. O carro do Bordel da Uiara, o mais procurado pelos endinheirados, veio repleto de índias de topless, rodando bolsinha, com perucas coloridas, meia arrastão, plumas, óculos escuros e uma piranha na cabeça. Outra imagem irônica e multi-cultural que deu o tom da apresentação. 


"Até o lixo é o luxo quando é real, Tupi Cacique, poder geral"


Na sequência dos prazeres e do entretenimento, a força bélica e social da cidade desfile em alas e alegorias. A Prisão Jurupari trouxe prisioneiros com a inscrição 171 no uniforme. Nesse setor, esteve presente o casal de mestre-sala e porta-bandeira Roxinho e Irinéa, que acabou desfilando sem chapéu, o que foi levantado por Fernando Pamplona na transmissão da TV Manchete, fato que poderia custar pontos preciosos.



O pequeno setor que representava a força bélica do lugar começou com um grande letreiro apresentando a Tapioca dos Poderes, de onde surgiram as forças armadas de Tupinicópolis, representadas pelos carros do tatu guerreiro (exército), marreco bélico (marinha) e gaviavião (aeronáutica).



Uma das mais enigmáticas e emblemáticas alegorias do desfile surgiria logo depois. Um teclado de computador e uma tela com o busto de um Cacique representariam a soberania e sabedoria da cidade, programadores do grande cérebro tupiniquim (a Tupi informática). A ideia era mostrar que a grande força da cidade era, na verdade, um sistema operacional, ou seja, os computadores mandavam na cidade. Assim como a mais rebuscada das ficções científicas que faziam muito sucesso na década de 1980.



A ala seguinte trouxe a feijoada tupi na cabeça. Enquanto, as crianças passaram de garis com vassouras na mão. O último carro da escola, Tupilurb, o Lixo do Luxo, representando a limpeza da cidade, trouxe sucata de carros, tevês, geladeiras, escombros e uma réplica de pontos turísticos brasileiros de outrora, como o Cristo Redentor, Elevador Lacerda e Monumento aos Pracinhas; era o lixo do velho mundo. A última alegoria marcava um grande "plot-twist" da narrativa do desfile, mostrando que Tupinicópolis se passava séculos a frente do tempo atual. Na ficção inventada, os indígenas expulsavam os brancos do país e formaram seu próprio lugar. Era uma clara referência ao enredo do clássico filme "O Planeta dos Macacos", de 1968.

"Minha cidade, minha vida, minha nação, que faz mais verde meu coração"


Se no aspecto plástico e narrativa, Fernando Pinto havia criado um obra-prima pouco vezes vista na história do carnaval. O quesito de samba-enredo foi um dos mais discutidos daquela apresentação. Tudo começou já em uma disputa acirrada. A obra vencedora desbancou o favoritismo da parceria de Tiãozinho Mocidade, que havia composto o hino campeão de 1985. Optou-se uma canção mais descritiva, que embora alegre e com boa leitura sobre o enredo, deixava a desejar em riqueza melódica. Na apuração disputada, a verde e branco perdeu para a Mangueira por um ponto, num resultado controverso e discutido até hoje. Alguns apontam o samba como fator preponderante.



O segundo lugar ajudou a fixar a apresentação na memória afetiva de torcedores independentes e amantes do carnaval em geral. Até porque, ele seria o último preparado totalmente em vida pelo genial carnavalesco de cabelos cacheados. Em novembro daquele ano, na preparação para o desfile, Fernando Pinto morreria num acidente de carro na Avenida Brasil, voltando da quadra da Mocidade. Para se ter ideia de como a apresentação marcou diferentes estilos e gerações de carnavalescos, ele seria o favorito de artistas como Rosa Magalhães, Jorge Silveira e Paulo Barros. Ganhando ainda diversas releituras e referências no carnaval, como em desfiles na Renascer de Jacarepaguá, em 2010, e na Mocidade Independente, em 2014.
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