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Justificativa do enredo 


Qual o Brasil que vivemos e queremos hoje?
Nosso país está em construção e disputa desde de seu surgimento. Se hoje estamos mergulhados numa crise de identidade, que permeia nossos símbolos e o que nos forma enquanto povo, essas dúvidas motivaram a obra e o pensamento de grandes intelectuais e estão presentes em cada cidadão brasileiro.
Afinal, isto aqui o que é? O que nos faz Brasil?
Um dos principais nomes da cultura brasileira, Mário de Andrade foi um dos pensadores a se debruçar sobre essas perguntas. Um dos autores mais celebrados e pesquisados, foi também um dos responsáveis pelo nosso modernismo e profundo curioso da cultura brasileira. 
Há exatos cem anos, em 1924, ele escreveu em certa carta: “É no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei”.
Em um dos seus livros mais famosos, “Paulicéia Desvairada”, o poeta já começava a pensar tais questões. Mas antes de cruzar o nosso território, olhou para sua própria cidade. Descreveu em seus poemas as transformações e contradições de São Paulo nos anos de 1920. 
Em 2024, a cidade celebra 470 anos da sua fundação, o que parece um momento oportuno para repensar a sua formação e um dos seus grandes pensadores. A metrópole é, afinal, síntese nossa. 
Nas palavras e pensamentos do escritor estão a urgência de pesquisar o Brasil, entender e construir essa nação, saber sobre suas nuances e o que lhe define, para assim ser possível articular o passado que fomos, o presente que somos e o futuro que ainda podemos ser. 
Essa busca incessante de Mário atravessou a sua obra em poemas, contos, romances, músicas, estudos, palestras e fotografias. 
Se permanecesse apenas em seu escritório estudando e pensando, jamais conseguiria responder tais dúvidas. Por isso, precisou sentir e desbravar pessoalmente todos os quatro cantos que constituíam esse país. Dar nome, rosto e sentimento a quem era esse tal de “povo brasileiro”.
Quando uma escola de samba pisa na Avenida, ela também reconstrói o seu país e está em busca de quem somos. Afinal, uma agremiação é feita dessas pessoas, de múltiplas origens e sotaques. Cada desfile é feito com encontros, da força coletiva que nos faz um só e do resgate das nossas múltiplas ancestralidades.
Construir mais uma vez um novo Brasil, rever a identidade brasileira e, ainda assim, festejar quem somos é o desejo e a missão da Mocidade Alegre para 2024. Uma escola que tem o povo e o compromisso de celebrar em seu próprio nome.


Carta de Mário de Andrade ao povo brasileiro (Sinopse)


I

Fui paulistano por demais.
A terra que eu nasci foi a que me formou de maneira mais forte.
Não à toa, nunca deixei São Paulo. Uma cidade que enamorei, vi se transformar completamente, numa relação de profundo zelo e asco simultaneamente.
Ainda que rusgas tenham surgido, sempre foi uma comoção na minha vida, uma cidade Arlequinal. Afinal, ela é feita de múltiplos recortes, sobreposições, camadas e sobretudo, gente.
Quanta gente há nessa Paulicéia! Burgueses, operários, imigrantes, vadios. É uma cidade das multidões, que tomava as fábricas e suas chaminés, que enchiam os bondes e automóveis. 
Quanta gente tomando as ruas! O cinza do concreto duro, a garoa que caia insistente.
Essa cidade sempre teve esse ritmo acelerado, insano e desvairado. 
Minha Paulicéia Desvairada, assim a batizei.
Ainda que fosse fascinante em diversos aspectos, São Paulo ainda era um pedaço muito pequeno de Brasil. Afinal, o quanto de país havia para além daqui. Tanto a conhecer, tantos sabores a degustar, lugares a visitar, ritmos a ouvir, pessoas a conhecer. 
Dar uma alma ao povo brasileiro, que eu não conhecia do meu gabinete de intelectual. 
Obviamente, não foi uma missão só minha. Outros intelectuais, artistas, escritores, músicos também estavam imbuídos desse sentimento durante o modernismo.

II

Foi assim que decidimos, em 1924, desbravar essa imensidão com os nossos próprios olhos. Eu, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros amigos éramos um grupo de paulistas, curiosos de conhecer outros brasis. Após brincarmos o Carnaval no Rio de Janeiro, seguimos de trem para Minas Gerais. Chegamos em plena Semana Santa. Procissões por todos os lados, aquela gente simples com seus terços e orações se espalhando pelo chão de pedras.
As casas eram brancas e simples, se ouvia uma anedota a cada esquina.
A cada velha e preciosa igrejinha um assombro.
Naves douradas, fantasmas nos altares, peças escultóricas de tamanhos deslumbrantes.
Palácios, oratórios, casebres e mansões. Mariana, Ouro preto, São João Del Rei e Tiradentes.
Por mais que existam coisas monumentais, tudo é singelo em Minas.
Tarsila soube traduzir como ninguém as curvas das montanhas e as retas da arquitetura.
São lugares dum sublime pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada, que são feitas pra querer bem ou pra acarinhar.
Dentre as riquezas dessa terra, estão ainda as obras de Aleijadinho, o arquiteto escultor.
Um gênio maior do nosso país com seus traços sinuosos e formas gloriosas.
Nas Gerais, reside o nosso passado esplendoroso e primordial, na ingenuidade de sua gente e nos traços de seus mestres barrocos.


III

Oswald de Andrade definiu essa viagem de 1924 como a de “descoberta do Brasil”.
Tudo havia sido tão proveitoso que planejamos repetir a experiência anos depois, mas agora indo mais ao norte. Por um infortúnio, Tarsila e Oswald não nos acompanharam, mas resolvi descer por todo o rio Amazonas ao lado de outros companheiros.
Foi aí que me tornei definitivamente um turista aprendiz.
Durante mais de três meses, fui sendo levado pela correnteza do rio-mar até dizer chega.
Tomei navios, embarquei em canoas, percorri trilhos de trem, subi em carroças.
A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem. Tudo é tão vasto e encantador que nos coloca frente a nossa mortalidade.
Uma natureza pulsante, selvagem e voluptuosa. As belas vitórias-régias, o verde fortíssimo das folhagens, peixes saltando e o banzeiro dos rios.
A cada nova parada, refazia minha alegria, tomava nota, fotografava, experimentava novos sabores e recolhia histórias. Quantas histórias! Lendas e sabedorias daquele povo.
Pescadores, vendedores, artesãos, caciques e pajés, gente de todos os tipos.
Experimentei o açaí do mercado Ver-O-Peso, me deliciei com castanhas e peixes.
Uma enorme comoção senti em Marajó, verdadeiro paraíso com seus búfalos.
Mas de toda a gente que conheci, foi dos indígenas brasileiros que recolhi as melhores narrativas. Tanto que inventei minhas próprias tribos, com linguagens próprias e seus códigos.
Foi uma bonitíssima duma viagem. Por esse mundo das águas, vi as coisas bonitas que já enxerguei.

IV

Obviamente, meu desejo de devorar o Brasil não parou por aí. Depois de tantos bons sabores, precisava saborear mais.
A bordo do Vapor Manaus explorei do litoral cearense ao sertão pernambucano.
Em Recife, me hospedei na fazenda do grande pintor e amigo Cícero Dias.
Depois do nosso passado e da nossa gente, descobri a capacidade do nosso povo de festejar.
Recolhi cocos, cantigas, repentes e temas de cheganças. Fui a ensaios de Maracatus.
Anotei, registrei, mas também me esbaldei. Nunca me esqueço de um Carnaval que passei em Recife. Cai no frevo por demais. Tomei um porre daqueles.
Além da festa, também rezei terços. Fechei meu corpo num catimbó.
Quantos tambores formam nosso país? Seja nas umbigadas, pungas, frevos, macumbas e sambas.
Depois de cruzar o país, eu não queria mais parar de colecionar histórias, foi então que me embrenhei no interior de São Paulo. Lá encontrei as raízes do samba paulistano, no toque do bumbo na festa de Bom Jesus de Pirapora, que definiu as matrizes rítmicas deste gênero.
Nos Carnavais e nas batidas desses tambores, reencontrei uma mocidade alegre. Aquela mesma do Norte e do Nordeste, que são as múltiplas caras do nosso Brasil.
Não sei se até hoje encontrei o país que tanto procurei. Mas sei que nos batuques e nas festas, muitos países são formados, verdadeiras nações.
Em horas sentado numa rede, descrevi e imaginei com saudade de tudo aquilo que me tinha transformado. Pois agora, carregava comigo na bagagem novas crenças, afetos, macumbas, feitiçarias, crendices e tantas outras ciências.
A minha “Paulicéia” parecia pequena e provinciana, em um desvario meu seria mesmo uma verdadeira “Brasiléia”. Um mosaico arlequinal de tanta gente, tantas vozes, tantos saberes, que se somam e misturam.
Que nós, brasileiros, possamos sempre lutar e construir um novo país. Temos que dar uma alma a ele, isso é um sacrifício grandioso e sublime.


Criação e desenvolvimento do enredo: Jorge Silveira e Leonardo Antan
Texto: Leonardo Antan
Alguns trechos são adaptações dos escritos de Mário de Andrade em Turista Aprendiz. 


Referências bibliográficas

ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil I. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1982
ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz / edição por Telê Ancona Lopez, Tatiana Longo Figueiredo. Brasília, DF: Iphan, 2015.
ANDRADE, Mário de. O samba rural paulista. In: Aspectos da Música Brasileira. São Paulo: Martins, 1965.
ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. Barueri: Editora Novo Século, 2017. 
ANDRADE, Mário de. Seleta erótica /org. Eliane Robert Moraes. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
ANDRADE, Maristela. Oliveira de. A viagem de Mário de Andrade ao Nordeste: missão cultural e pesquisa etnográfica. In: Cadernos De Estudos Sociais, v. 5, n. 2, 25(2), 2011.
BOTELHO, André. A viagem de Mário de Andrade à Amazônia entre raízes e rotas. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 57, p. 15-50, 2013.
DUARTE, Pedro. O Brasil e os brasis de Mário de Andrade: o fim do turista aprendiz?. In: Estudos Avançados, n. 36, 104 (fev. 2022), p. 35-52.
NATAL, Caion Meneguello. Mário de Andrade em Minas Gerais: Em busca das origens históricas e artísticas da nação. Artigo da História Social, (13), p. 193–207, 2011, Campinas. 
SANTOS, Marcelo Burgos Pimentel dos.Viagens de Mário de Andrade: A construção cultural do Brasil. Tese de doutorado em Ciências Sociais apresentada PUC, São Paulo, 2012.
TÉRCIO, Jason. Em busca da alma brasileira: biografia de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019. 


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Quanta bravura cabe no coração de um homem?
Venceu a dor e o sofrimento para se tornar lenda. 
Não tinha medo do combate, na certeza de que a vitória vem da luta. 
Sangue guerreiro, instrumento da justiça. Herdeiro dos inquices de Nzuzu (águas) e Nzazi (justiça), trazia em si a força de duas afluentes.
Correntes se cruzaram em uma improvável mistura: Japão e África. 
Tambores ritmados ecoando no desaguar de diferentes sabedorias ancestrais. 
Das terras de Moçambique ao sol nascente, as marés da deusa Nzuzu conduziu um de seus filhos a um lugar distante. Pelo o vai e vem das ondas, no porto de Kyoto, esse jovem guerreiro foi guiado à nação de lendários samurais.
Vinha de mares distantes, esse tal detentor de valentia, cuja tamanha força o fazia alto e soberano. Havia sido levado de sua morada por jesuítas.
Durante o caminho das águas, aprendeu uma cultura que não era sua e acumulou muitas sabedorias, para além das que já trazia de seu povo. 
O Japão daquela época tinha escasso contato com o resto do mundo, mas os bárbaros do Sul vinham de além-mar. Faziam grande estardalhaço em prol de apenas um Deus.
Em meio às peles amarelas, a negrura reluziu à luz da lua.
Lugar de grandes templos e palácios, jardins de cervejeiras e lavouras de arroz. 
Toda aquela terra tinha um senhor, conhecido como daimyô. Seu nome era Oba Nobugara, quem possuía o desejo de unificar o Japão contra um período marcado por tantas guerras civis. Para isso, precisava de nobres guerreiros. 
O líder era receptivo aos forasteiros, ofertando um Templo dos Estrangeiros como moradia. Certo dia, um alvoroço tomou conta do local: todos queriam ver o homem que brilhava ao luar. Em um lugar no qual a pele preta assusta, o filho de Nzuzu e Nzazi despertou curiosidade.
Ao encontrar uma figura tão nobre, o senhor pensou que se tratava de uma artimanha dos estrangeiros para impressioná-lo. Ordenou que banhassem o homem alto, tentando limpar sua pele. Na água, escorrendo sobre a melanina, veio, em verdade, o motivo de orgulho. Sua cor reluziu. Não havia sujeira, havia beleza. Beleza guerreira. 
Escudo próprio forjado por seus ancestrais. Sua armadura, até ali, tinha sido sua raça. 
Convencido de seu erro, Nobugara reconheceu naquele homem a potência de um guerreiro. Nasceu uma bela amizade entre dois fortes combatentes.
O daimyô, então, batizou o forasteiro filho de Nzuzu e Nzazi: Yasuke. 
Além de seu vigor físico, Yasuke se destacou por sua sabedoria e sagacidade. Alinhava corpo e mente. Com sua alma nobre em território livre, poderia ser o que quisesse. 
Tornou-se aquele que serve a um senhor, um samurai.
A lenda do guerreiro com a força de dez homens correu os sete ventos.  
Além dos combates, passou muitas tardes tomando chá em animadas e prazerosas conversas com o senhor. Tornaram-se inseparáveis. 
Mostrando-se digno, a mais nobre honraria lhe foi dada. Espada forjada no fogo.
Instrumento de justiça, nobre obá. Herdeiro da bravura de Nzazi. 
Vermelho do justiceiro na Terra do Sol Nascente.
Entre lutas e guerras, o poder do senhor Nobugara só crescia, espalhando-se por mais lugares. O nobre, contudo, não contava com a traição de um dos seus. Foi assim que teve início um grande confronto que derramou muito sangue. 
Yasuke lutou até o último momento. Porém, derrotado por uma emboscada armada em um templo, o senhor se sacrificou. Coube ao negro samurai um último ato de coragem: o de tirar a vida de seu próprio mestre, levando a valentia do seu mentor adiante. Escorreu a lágrima clara sobre a pele escura. Entregou sua espada aos traidores, vendo o templo arder em chamas. As cinzas, então, espalharam ao vento mistério e incerteza. 
Não se sabe se ele sobreviveu ou qual foi o fim que levou o lendário guerreiro. 
De certo, tamanha bravura não pode ser apenas carregada pelo vento e, por isso, diz a lenda que o espírito de Yasuke ressurge no corpo de cada jovem preto. 
Principalmente, na São Paulo onde negros e asiáticos fazem Morada.
A cidade mais japonesa fora do arquipélago oriental. E, paradoxalmente, a que também mais mata jovens negros.
Diante de um mundo em que a pele preta assusta, é necessária uma armadura de samurai para enfrentar cada dia. Samurais da Quebrada, combinados em não morrer. 
Na Mocidade Alegre, todos possuem sangue guerreiro. Vestem-se de suas armaduras; trajam suas fantasias para enfrentar mais uma luta pela vitória no Anhembi. 
Benditos, louvados sejam! Aqueles que que encaram suas batalhas, independentemente dos temores do combate.



Texto: Leonardo Antan
Criação e desenvolvimento do enredo: Jorge Silveira e Ricardo Hessez


Glossário 


Nzuzu - É a deusa banto das águas, equivalente a Yemanjá. 
Nzazi - É o deus banto da justiça, equivalente a Xangô. 
Moçambique - País africano de onde Yasuke provavelmente é originário, optou-se pela denominação moderna do território para demarcá-lo. 
Kyoto - Antiga capital do Japão na época feudal.
Daymiô - Senhores de terra do Japão feudal.
Obá - Ministro de Xangô, orixá da justiça.






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Introdução e Justificativa


Historicamente, o Império da Tijuca apresenta relevantes enredos que buscaram inspiração na cultura afro-brasileira. Como forma de afirmação dos saberes negros, contra o racismo e a intolerância religiosa, sempre se faz necessário afirmar os conhecimentos e as artes que envolvem as religiões de matrizes africanas. 

Para 2023, unimos essa poderosa narrativa ao olhar precioso de quem soube reconhecer e se inspirar em um elemento tão potente e enriquecedor, imbuído da força primordial, transformadora e criativa: o Axé. 

Para a tradição nagô-iorubá, o Axé é a energia vital que está presente no universo desde sua criação. Rodeia, portanto, a humanidade, seus divinos e as substâncias naturais da Terra. Abarca desde a pequena folha de uma grama até a pele do atabaque a rufar. 

Também é força do encontro. O Axé se porta como o ritmo que embala a ginga do corpo e preenche o significado da vida. Magia contagiante. É fé, presente nos candomblés e umbandas, dos xirês até os mais singelos amuletos. 

De tão vigoroso e presente na nossa cultura, o Axé não passaria despercebido aos olhos curiosos e atentos de quem sabe se encantar com a beleza e a poesia da vida. Foi assim que Héctor Julio Páride Bernabó, originalmente argentino, logo se tornou baiano, deslumbrado pela energia criadora e a potência afro-brasileira. 

O Axé, que já era arte, ganhou nova visão através deste grande pensador da imagem. Seu fascínio com as cores, os cheiros e os temperos da Bahia se derramaram em telas, aquarelas, painéis e gravuras. Imagens que eternizaram o jeito que só essa terra tem. Ao lado de Amado, Verger e Caymmi, foi um dos principais responsáveis pela construção da “baianidade” e por registrar o Axé em sublimes manifestações.

Com maestria, pintou e esculpiu o cotidiano do nosso povo. Dentre ritos e celebrações do terreiro, festas e aglomerações das ruas, vários momentos repletos de energia ganharam contorno nas obras do artista. Traçou o Axé das vestimentas, dos animais e dos instrumentos dos orixás, além de seus itans e lendas. Tornou-se ogã e Obá, cabeça feita no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá pela babalorixá Mãe Senhora.  

Munido da mais plena energia, nosso enredo se manifesta através das obras de Carybé: filho de Oxóssi, Obá de Xangô e cronista do povo.

Sinopse


Tela em branco na imensidão de Olodumarê, tal qual o mundo a ser criado. O primeiro risco do artista é caminho aberto de Axé, onde linhas se encontram feito uma encruzilhada entre a tinta e o papel. O movimento comanda o pincel como energia criadora, que traça os rumos da vida ao preenchê-la de cor. 

Do universo funfum, a nossa aquarela. Dos vários matizes, a energia vital. Eis o Axé.

A princípio, ele desponta em forma de natureza, ocupando as lacunas e se ramificando em galhos frondosos. Afinal, sem folha não há orixá. 

Na beleza do mundo, feito mata verdejante de Oxóssi, o Axé se alastra. Flutua no vento alaranjado guiado por Iansã, ilumina o céu como o fogo do trovão de Xangô. Escorre no papel em dourado doce, repousando sereno nas águas de Oxum. Deita-se salgado na imensidão azul de Yemanjá. 

Os orixás, em seus tons, matizes, animais e instrumentos, ganham forma no rabisco de um Obá, reconhecedor do Axé que pulsa nas cenas de sua arte.

Transcendendo a natureza talhada em madeira, a energia percorre outros cenários. Com traços fortes, o pintor risca o chão do terreiro. Lugar de troca e assentamento. 

Ogãs tocam na textura de couro dos atabaques, enquanto fundamentos são evocados para a entrega de oferendas. Reúnem-se em roda, convocam a força essencial, plantam Axé. Fazem dele o ímpeto e a vitalidade para os barracões que resistem.

O batuque dos terreiros se expande derramado pelas ladeiras e o padê abre os caminhos. Nas ruas, pingos de tinta e de gente desenham a paisagem das celebrações que ornamentam a Bahia das obras do Obá. 

Festas que não existem sem fé. Axé que desconhece a vida sem festa. As celebrações populares têm suas heranças ancestrais.

Seja num xirê, no Olubajé, na lavagem do Bonfim ou em Dois de Fevereiro. Toca o alujá, dança o São João. Saem correndo no Pelourinho os Erês brincalhões. Estão todos ali nas gravuras, pintando a vida com nuances de farra. 

O Axé, constante e circular, prolifera. Em aquarela, registra a alegria e o cotidiano da brasilidade. 

Está no cheiro da feira, no sabor forjado na panela, no aconchego da pele com cada fio de conta, na ginga da capoeira, no tabuleiro da baiana e em seus balangandãs. 

É muita gente que chega, batendo na palma da mão e apostando nos encontros como forças transformadoras.

Arte e cenários se misturam. No quadro, o chão da quadra: ambiente colorido onde o ritmista batuca, o mestre-sala risca o chão, a bailarina gira feito majestade e a folia faz o chão tremer. 

Os brincantes compartilham da mesma concha de feijão fervido pela velha baiana, unem-se pela proteção de um pavilhão, desfilam em cortejo. 

A cada embalo da bandeira desfraldada, ecoa pelo vento o Axé da ancestralidade do samba. Na avenida, vivemos kizombas, banquetes e batuques. Vibrações máximas, contagiantes, que nos preenchem de energia. 

Outrora vazia, a folha agora é painel de encontros tingidos de alegria pulsante.

Através de traços diversos, significados sinuosos de festa e devoção passam pelo olhar do artista e brincam de criar o mundo fundando Axé na quina de uma tela. 

Lá no canto do papel, é possível ver a assinatura daquele que o Império da Tijuca anuncia: 
Carybé. Obá das Cores do Axé.

Carnavalescos: Júnior Pernambucano e Ricardo Hessez

Texto: Felipe Tinoco, Juliana Joannou e Leonardo Antan

 

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 A Profecia das Águas


Presságio... Diante do espelho ondulante das águas, a menina courana sentiu a vida passar diante de si. Uma gota se transformou em oceano, fazendo o real transbordar em vertigem. 
Em transe, percebeu-se tragada por um assombroso redemoinho em meio a um dilúvio brutal. Então defrontou-se com o reflexo de uma mulher misteriosa, de manto reluzente e coroa luminosa, como que a protegendo da própria sina. E, de súbito, viu-se emergir em uma arca resplandecente sobre a qual flutuaria plácida a cortar a fúria das ondas.

A menina chorou frente àquela revelação. Dali em diante, tudo se desfez em mar revolto, apagando as memórias dos seus primeiros anos. Foi rebatizada em águas cariocas, no outro lado do Atlântico. E desse bárbaro ritual de esquecimento, brotou uma nova Rosa, preta e cálida: a Rosa mística do Brasil.
🌹 Auri Sacra Fames – A Fome de Ouro
Ainda jovem, seguiu em romaria vigiada, por léguas e léguas mata adentro. Vendida às Minas Gerais, foi obrigada a peregrinar com os cativos pela Serra da Mantiqueira, longo percurso que a assombrava com visões de paraísos e infernos. Entre bruma e poeira, cortava as alterosas cravejadas de sonho e temor.
Nas freguesias mineiras, a sociedade devota do ouro e dos diamantes era sustentada pela depravada escravização na colônia. Cortejos de penitentes saíam pelas vielas do arraial entoando ladainhas. Pediam perdão por muitos pecados, menos o de submeter outros seres humanos a condições degradantes em nome da adoração às pedras e aos metais preciosos. Pacto social que envolvia todo um sistema forjado no privilégio, na degeneração moral e violação da dignidade dos corpos pretos. 
Mas havia as frestas sociais. Enquanto servia de oferenda àquela civilização de escândalos e perversões, Rosa acumulou um tanto de joias para se enfeitar e sedas para se cobrir. Os parcos ganhos eram ostentados nos batuques do Acotundá. Na magia da noite escura, encandeada de luar e fogueira, a preta girava saia, saudava as almas e soprava aos ares a fumaça do cachimbo, religando-se à ancestralidade que brotava no terreirão da Fazenda Cata Preta, onde era cativa. 
Até que o corpo deu sinais de desgaste. E Rosa se desfez de tudo. Distribuiu aos seus o pouco que havia recolhido, como fez Maria do Egito, a santa meretriz que foi alçada ao altar celestial após doar aos desvalidos toda a riqueza de uma vida. Mais tarde, deixaria de ser a Courana para ser Rosa Egipcíaca, transitando entre a devoção e o misticismo.
🌹 Ventanias, Visões e Possessões 
Feitiçaria ou teatro? A freguesia alvoroçada se dividia em opiniões ao testemunhar as possessões da mulher, ocorridas entre rezas e sessões de exorcismo comandadas pelo padre português Francisco Gonçalves Lopes, o “Xota-Diabos”. 
Visagens chegavam a Rosa em ventanias ruidosas que apoquentavam sua mente dividida entre os solfejos dos anjos e os gritos dos malignos. Em êxtase espiritual, ela era saliva e fogo, arrepio e suor, lágrima e vulcão. Sentia, atordoada, a presença de sete demônios pairando sobre si em vertiginosas espirais, possuída tal qual Maria Madalena. 
Mas, assim como a personagem bíblica, a africana tinha também a alma acalentada pelo amor Divino. E os ventos agora lhe sopravam de volta ao litoral. 
🌹 A Flor do Rio 
Vivendo a debulhar as contas do Rosário, retornou ao Rio de Janeiro por onde desfilava como dileta serva de Deus. Sob o pálio da devoção a Santana, avó de Cristo, a negra cruzava a fé dos brancos com os cultos ancestrais aos mais velhos, herança da sua origem na costa africana. Rosa impressionava o universo religioso da cidade com seus dons premonitórios, jejuns e flagelações, tornando-se foco de curiosidade e admiração. Um passo para ser cultuada como Santa.
Levada pelo dever de perpetuar os pensamentos devocionais, alfabetizou-se nas letras divinas e passou a escrever compulsivamente. Foi assim que colocou no papel aquele que é considerado o primeiro livro a ser escrito por uma mulher negra no Brasil. Desta forma, derramava pelas suas mãos o bendizer da palavra revelada nos pergaminhos mais sublimes. 
Sentia na pele e no coração as dores das mulheres afastadas do convívio familiar. Assim, a visionária ergueu o Recolhimento, mosteiro com que ela havia sonhado como arca protetora a abrigar almas cujos corpos femininos eram negados pela sociedade. 
O poder da vidência não cessava e Rosa sonhou com a imagem de cinco corações radiosos e brilhantes. Cada vez mais santa no altar popular, foi se tornando mais mística, mais etérea e mais misteriosa. Elo entre Deus e a humanidade, a beata com dons paranormais seria desposada em um grandioso devaneio apocalíptico.
🌹 A Derradeira Profecia
Revelação. Rosa fechou os olhos e pressentiu um dilúvio de força descomunal que lavaria os pecados da humanidade. Estava novamente frente à imagem que tanto a impressionou na infância: a mesma mulher misteriosa de manto reluzente, protetora do seu destino. Debaixo do majestoso véu das virtudes, revelou-se a face verdadeira: era o próprio rosto de Rosa. 
Águas em turbilhão sairiam como veios da terra. E daquele reino sobrenatural emergiria não uma, mas duas arcas, flutuando entre a história e o delírio. Em uma, estava ela, no esplendor do seu último desvario; na outra, o rei Dom Sebastião, desaparecido em épica batalha em nome de Cristo. 
O enlace com o Rei dos Encantados consumaria a união mística para fundar o grande Império Brasileiro. Rosa, enfim, seria o rastro de salvação dos eleitos no triunfante evento do fim dos tempos, inundando as almas de esperança. Assim, cumpriu o enredo de uma vida e agora estava liberta para se tornar a própria Santa na qual se refletia. 
🌹 Uma Santa Negra no Céu
E lá no firmamento, aonde as águas do dilúvio a arrebataram, um concerto de marimbas e candombes a aclamou em sua saga de fé. Guardas da Santa Coroa, empunhando fitas e bandeiras, uniram-se em batuques para louvar à Santíssima africana que um dia viveu cercada de mistérios e virtudes em uma terra tão plena de vícios quanto de credos. 
Folguedos desfilaram em louvor à mulher que virou divindade, em sagrado cortejo de canonização popular. Nos jardins do Palácio Celeste, ela se enxergou em cada rosa que desafia a sorte, insiste em rachar o chão e brota da aridez. 
E no altar do Divino, todo enfeitado de flor, a mais bela Rosa orna a coroa do Senhor. 
Não é uma rosa qualquer. É a Rosa que o povo aclamou! 

 Autor do Enredo e Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Inspirado no livro “Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil”, de Luiz Mott 
Texto: João Gustavo

 Referências: 


ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. O Reino Encantado: crônicasebastianista. Editor do Organizador, 2017.
ANTAN, Leonardo.  Laroyê, Xica da Silva: narrativas encruzilhadasde uma incorporação no carnaval carioca. Nova Iguaçu: Carnavalize,2021. 
MARANHÃO, Heloísa.  Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Rio deJaneiro: Rosa dos Tempos, 1997.
MOTT, Luiz.  Rosa Egipcíaca:  uma santa africana no Brasil. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1993.
MOTT, Luiz.  Acotundá: raízes setecentistas do sincretismo religiosoafro-brasileiro, In Escravidão, Homossexualidade e Demonologia. S.Paulo: ícone, 1988, pp. 87-118.
PERES, Eraldo.  FÉsta Brasileira: folias, romarias  e congadas. SãoPaulo: Editora Senac, 2010. 
SIMAS, Luiz Antônio. Almanaque de Brasilidades: um inventário doBrasil popular. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018. 
SOUSA, Giulliano Glória de. Negros feiticeiros das Geraes: práticasmágicas africanas e repressão em Minas Gerais na segunda metadedo século XVIII. Anais da Anpuh. Mariana (MG), 2012.




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Prólogo


No princípio era o verbo. E os verbos e as gírias estavam com o povo, era o povo, que descia o morro para transformar a rua em palco. Artistas de uma opulenta ópera popular chamada escola de samba, regida por um maestro/profeta que banhou de luxo a miséria e escancarou aflições escondidas em folhas de jornal.

Pelas mãos do profeta João esfarrapados ganharam ar de nobreza e protagonismo. Suas visões misturaram paraísos e infernos. Opostos que se atraem e se reinventam.

O evangelho segundo o João do povo teve suas primeiras páginas escritas na Academia do Samba e pregou que a regra é ousar. Seus delírios etéreos gozavam de intensa liberdade, não cabendo em si ou em julgamentos outros. Sem proibição ou pecado — abolir o não, purgar os preconceitos. A arte é para fazer sonhar, riqueza que não cabe em uma caixa ou que possa estar encarcerada nos porões de mentes tacanhas.

As epístolas deixadas ainda conduzem o reino do carnaval. Quem aprendeu em suas escrituras sabe bem que a alforria é soberana e que o encantamento e as inquietações provocadas pela criação e manifestação artística são elementos fundamentais de sanidade, capazes de provar que a fantasia é uma grande realidade.

João 30:90

Sinopse 


O misterioso pórtico ergue-se da página em branco do universo. Por detrás de suas portas maciças, cuidadosamente entalhadas por nobre criador, a mais sublime obra de arte: as faces de um novo mundo. Superfície coberta por jardins que atravessam o horizonte, contorno sem fim. Paraíso protegido, íntegro. Em uma exuberância desmedida brotam árvores, folhas e flores de suntuoso encantamento. Os frutos ostentam tenra suculência, despertam apetite inesgotável. Até onde os olhos alcançam tudo é deslumbrante.

Frondosa e exótica, a natureza se impõe guardiã da sabedoria. O paraíso, ao contrário do que relatam os livros, se expande em tons de vermelho, em ricas cores vivas, fortes e sedutoras, que tingem a terra e o céu.

Entre barro e costela levantam-se as primeiras criaturas. Imagem e semelhança divina, testemunhas únicas a experienciar a excelência do Éden, os mistérios guardados no paraíso original. Adão e Eva, nativos afortunados, são retrato do bom selvagem, carregam em si a pureza em estado bruto, a inocência cercada de curiosidade. Cada descoberta é magnífica: tudo é estranho e familiar. No paraíso, o real e o fantástico se frequentam, o vento fresco tem perfume de liberdade. Os corpos dançam fluidos, percorrem o ambiente livres para as ilusões.

Vagueiam pelos campos sem contar que em sua sombra espia-lhes a ira. Furtiva criatura a invadir sorrateira a calmaria do Éden. Dissimulada aos olhos e nas palavras, transfigura verdades e mentiras, destila veneno poderoso e ludibria talentosa a pureza nativa. Sedutora serpente de língua afiada, faz florescer na mínima censura a mais tenra tentação. De tantas árvores e tantos frutos, somente aquela, proibida, há de revelar os segredos da vida, de preencher a ignorância com sabedoria.

No afã por intensidade, em uma mordida, o vermelho perde a cor, a exuberância míngua. No perigo maior do paraíso, a perda. Fruto da desobediência, agora pecado original. O pórtico se fecha e o Éden esvanece. Paraíso perdido, herança primeira da humanidade, expatriada da perfeição por ser facilmente corrompida.

O ser humano é filho da queda, desorientado pela condenação aos limites mundanos. Aqui na Terra, jardim dos exilados, o inferno são os outros. A cada juízo, uma condenação. Tudo é perversão e pecado. Tudo é proibido. Grandes olhos vigiam a vida dos outros e sentenciam à margem quem desafia os “costumes”: exclusão, apagamento. A obediência anda incorporada na culpa.

Quem há de ter pecado maior?

Uma luta de vaidades se manifesta e entre a inveja e a ira os homens se afrontam. Onde antes dava valor, hoje boto preço. Vendo barato minha dignidade, pois meu paraíso são meus bens. Notícias de tempos corrompidos, dos prazeres da carne, da gula devastadora e da preguiça moral. Relatos de períodos obscuros e frios.

A esperança renasce na fé, na ponta da espada, duelo do bem contra o mal. Na luta diária contra as cabeças de um dragão insaciável pelo sofrimento. Com a batalha armada, põe-se entre nós a cavalgada do fim dos tempos. É ensurdecedor o som do galope austero dos cavaleiros do apocalipse se misturando nas ruas, despertando dores e espalhando terror. Vendem a paz que não queremos, propagam o conflito. Devastam, destroem, espalham a escassez e a fome. E nessa irradiação do caos, a morte é a verdade anunciada.

A velha barca para o inferno tem uma nova diretriz: a redenção vem para os renegados. Os crucificados, os doloridos: uma multidão marginalizada aos olhos dos homens. Seus demônios caíram por terra.

Louvados sejam os excluídos!

Louvados sejam os rejeitados!

A compaixão lhes aguarda no novo Éden. Reluz em tons fortes de vermelho, renasce de amores e sonhos. Portas abertas a quem tem fome e sede de infinito. Entrem e sejam tomados pelo êxtase de um paraíso em festa, efusivo como uma interminável noite de carnaval. Lugar de desejos e das individualidades. Caldeirão de diversidade. Paraíso dos devaneios, da liberdade democrática das ruas, da comunhão entre todos, onde a fantasia se mistura com a realidade. O que era aparente ilusão hoje alimenta os olhos, preenche do corpo à alma: a fartura, a união, o respeito. Ouse imaginar um paraíso “carnevale”, salgueirense, em que a celebração é a fonte da vida eterna. No lugar das trombetas, tambores da Furiosa dão as boas vindas e pedem passagem para toda a gente.

Ainda que a mesma história fosse contada setenta vezes ou ilustrada por trinta mãos talentosas, seria difícil fantasiar esse lugar de reencontro com a liberdade, onde o pecado não mora mais ao lado, pois o sagrado e o profano se misturam, são tão mundanos quanto divinos, fontes de um mesmo criador. Apenas abra os olhos e flutue pelos encantos e delírios do novo paraíso vermelho, pulsante como a Academia do Samba, viva de desejos e prazeres.

Autoria do Enredo: Edson Pereira

Pesquisa e Desenvolvimento: Edson Pereira, Ruan Rocha, Lucas Abelha, Victor Brito e Departamento Cultural.

Roteiro: Edson Pereira e Ruan Rocha


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Cheiro de pólvora perfumando as ventas. O parabelo carregado e a bala cortando os ares. O calango rabisca o chão, a boiada se inflama, o cavalo galopeia aperriado. O rifle balança como menina na mão do cangaceiro. A faca talha. Fura. Mata gente.

O cabra grita, o suor desce pelo gibão de couro. O líder do bando canta e os bandoleiros se colocam a arrastar as chinelas. A poeira laranja sobe sobre o xique-xique ainda verde. Criança de colo corre. O gato late. O cachorro solta um miado fino e a turma se põe a xaxar. Xaxando, me ponho a contar, nome por nome do time que Lampião comandava: tinha Corisco e tinha Dadá. Tinha Pilão Deitado, Beato e um homem brabo, com nome de cobra, vulgo Jararaca, que, ao morrer, dizem ter virado santo. Tinha também Graúna, Zé Baiano, Azulão e Cirilo Antão. Não me perdoo se esquecer o nome de Cansanção. Canário, companheiro de Adília, Pé de Peba e Pé de Pato. Pajeú, Volta Seca e Zé de Julião. Juntos, essa turma esquentava como pitú com pimenta ou o sol que arde, queima e castiga o sertão. Arruaça, rebuliço, Deus nos acuda e, no meio disso, reluz – como a chama do candeeiro – a estrela de Salomão, que brilha no chapéu de um cangaceiro, rei e capitão.

Contado nas palavras rimadas do cordel, cantado pelas cordas das violas do repente, tema para o gracejo do boneco mamulengo. Ele tá na boca e na reza dos beatos; nos aboios dos vaqueiros; na bagagem dos tropeiros; no motivo da lágrima que molha o rosto da carpideira. Tá lá o nome dele: Virgulino Ferreira da Silva. Vulgo Lampião, que morreu aos quarenta anos tiroteado numa emboscada que lhe separou a cabeça do cangote, no raiar de um dia vinte e oito, quando o calendário marcava o mês de julho, no ano de 1938.

Morto, Lampião foi direto aos portões do inferno. Morada do Encardido, Capiroto, Arrenegado, Peba, Excomungado. De nome Filhote e sobrenome Danado. A casa do Tinhoso onde pensava ser tratado e aceito como bom moço. Barrado no portão, fedendo a enxofre, montado em seu cavalo – agora, só de osso – se aperreou com a demora pra entrar, fruto da discussão com um diabo ainda moço.
O certo é que Satanás, dono daquela morada, por saber de quem se tratava, não queria confusão. Se desse ingresso a um cabra com a fama de Lampião, logo, sem demora, lhe chegava a desmoralização. Diante da negação, Virgulino Ferreira se inflamou e, acredite o senhor ou não, fogo no inferno o sujeito tocou.

Em brasa, morreu pra mais de cem cão queimado. Morreu Desgraça Pouca e Bananinha. Morreu Propina. Morreu um cão chamado Preguiça. Morreu Luxúria e Avareza. Saudades deixou o cão Safadeza. Gemendo, morreu Ypsilone. Em chamas morreu Furico. Morreu Belzebu muito apreciado por Satanás.

Sabendo do alvoroço, o Bicho ruim mandou chamar Lubisome, gritando por Aucapone – este, com o pau da prensa – gritou por Ritlê e Moléstia. Veio uma Diaba boa e braba chamada Quem Me Dera. Uma velha, famosa como Língua de Sogra. Soltaram a Onça Caetana da coleira e foram, com a tropa armada, pro meio do tiroteio, onde o cacete batia, o filho chorava e a mãe não via. Em boa luta, pra mais de duas horas, Lampião ainda de pé, com uma caveira de boi, arrebentou um cão, puxou do oitão, incendiou o mercado e lançou brasa no armazém de algodão. Prejuízo sem tamanho, matemática de se danar: perdeu-se todo o dinheiro que o Diabo ganhou com a rachadinha, queimou-se o livro de ponto, o Excomungado perdeu pra mais de vinte contos e Lampião, vendo que não era bem quisto, teve de se retirar.

Com a má-querença do excomungado, Capitão Virgulino montou-se nos costados de um azulão e arribou rumo ao portão do céu. Naquela morada, de cadeado bem trancado, bateu palmas dizendo querer entrar. Foi então que Pedro, santo carrancudo, largou do café que bebia, pra ver quem, na santíssima morada, queria estadia.

Sem crer no que via, São Pedro tratou de enxotar Lampião. Na mão esquerda, sua chave; na direita, um papel de pão. Nele, escrito toda sorte de judiação: filho da gota serena, ladrão, furador de bucho e assassino ferino. Amancebado, marcador de gente, bandoleiro perigoso metido com rapariga. É pirangueiro que bulinou mulher casada. Meteu galho na testa do pai de família.

“Não seja dedo-duro”, respondeu Lampião e, com o rifle na mão, fez a exigência: “me leve até o pai, pois é ele quem sabe de tudo. Sou filho do homem. Por ele parido e não sou bastardo. Tu até parece brabo, mas, nessa santíssima mansão, tu não manda, tu é mandado”.

Diante da ousadia, São Pedro tocou o sino. Vejam vocês, chamou uma tropa de anjo menino. Mandou São Jorge selar o cavalo e ordenou a São Gonçalo Ivo: “Chame Antônio e São Miguel. Chame também por Gabriel. Diga a Santa Rita que venha. Apresse Nossa Senhora da Penha. Diga à Bárbara que cesse a macumba; que São Longuinho apareça; que João menino traga o triângulo e a zabumba”.

A santaria veio num pinote. Lampião corria, parecia uma festa junina, quando ele então, pendurou-se num balão e clamou ser levado à presença de “Cíço” Romão. “Isso é golpe baixo”, berrou São Judas Tadeu, interrompido por Santa Luzia que lhe advertiu: “Se tem padrinho, não morreu pagão. Deixe que o balão suba e leve o moço até os aposentos de Padre Ciço Romão”.

Lampião bem que tentou. Padim Ciço advogou. Mas São Pedro, o pé não arredou: “és um sujeito malcriado e o diabo também não lhe quis. Desça daqui pra terra. Vá vagar pelo sertão. Torne-se assombração, mas suma, antes do fim do barulho de meu trovão”.

Mal quisto no inferno e sem a guarida do santíssimo, Lampião desceu à terra em busca de alguma morada. Astucioso, querendo a eternidade, o homem que em vida perdeu o coco para ser sabedor do que havia depois da morte, queria habitar agora o quengo que pertencia aos outros.

Primeiro, andou fazendo assombro ao abrigar-se por de trás do dente canino e pontiagudo de uma carranca que navegava no São Francisco. Na sequência, foi morar no breu do olho direito e cego de Patativa do Assaré. Esteve abrigado na sombra de cada palavra dita e escrita pela pena do poeta. Em dia de festa, esteve de tocaia na sanfona de oito baixos de mestre Januário. Durante anos, seu paradeiro foi o gibão de Luiz Gonzaga. Com ele, foi ao Sudeste, ao rádio, exibiu-se na televisão. Esteve sob a coroa de couro de outro rei, o do baião.

Astucioso, buscando uma morada que não lhe fosse perene, deixou-se amassar pelas mãos de Vitalino. Misturou-se então – pra sempre – nas entranhas de corpos sem osso e sem costela. Tá em toda sorte de gente, ainda hoje, feito de uma mistura que cozinha um bocado de barro mágico, pouca água e o fogo que arde feito o sol desfeito em brasa.

Pesquisa, desenvolvimento e texto: Leandro Vieira.

*Inspirado nos Cordéis “A Chegada de Lampião no Inferno” e “O grande debate que teve Lampião com São Pedro” de José Pacheco.


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