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Carnavalize


Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à agremiação e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos Padroeiros - toda quarta de julho, aqui no Carnavalize. Hoje, o último texto!


Foto: Riotur/Fernando Grilli | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Texto: Vítor Melo
Revisão: Felipe Tinoco

A pedreira e a fundação

Conta a história iorubá que Xangô foi o quarto alafim de Oió – título de obá (rei) do império iorubano, hoje localizado no que se entende por Nigéria. Detentor do controle dos raios e de tempestades, era de cima da pedreira, região na qual geograficamente se estabelecia o reino criado por Odudua, avô do nosso padroeiro de hoje, que, durante curto período de sete anos, ele comandou a ascensão do maior império iorubano já visto. Embora conhecido pela tirania e pela violência, o orixá do fogo sempre fez prevalecer sua pesada mão de justiça e sabedoria entre seus súditos. Segundo a tradição oral africana, Xangô teria sido destituído do cargo de majestade e fora obrigado a se suicidar na floresta após ser causador de um grande incêndio que destruiu o reino de Oió, após testar uma de suas façanhas (o fogo). Tendo cumprido a pena, nunca foram encontrados restos mortais do antigo obá, sugerindo que os deuses haviam o transformado em orixá. Na medida em que o tempo passou, a cada relampejada ou trovão que rasgasse o céu, existia a certeza por parte do povo de lá que Xangô permanecia vivo, protegendo e zelando por eles, de cima da pedreira de onde tudo se vê.

Primeiramente conhecido como Morro dos Trapicheiros, o morro do Salgueiro herdou o nome de um cafeicultor da região, quem havia construído alguns barracões para pessoas escravizadas. Domingos Alves Salgueiro deu início, de forma ainda lenta, à povoação daquele espaço. Esse movimento foi intensificado após a “abolição” da escravatura, quando recém-libertos constituíram famílias, construíram casas e contribuíram para o crescimento da comunidade do Salgueiro. Nos idos de 1940, uma nova leva de migrantes de outros estados e, notadamente, de regiões interiores da própria cidade deu a tônica do berço fértil de mistura e potência cultural que o morro já demonstrava possuir. Como o carnaval é uma festa essencialmente de resistência, mesmo diante de todas as adversidades, o festejo de momo era religiosamente comemorado pelos moradores daquela região. À época ainda existiam três blocos que animavam a moçada e já detinham uma relação estreitíssima com o quarto rei de Oió, fundamental pra escola que viria surgir e para o fato dela ser abordada nessa série. Embora competissem entre si, os grupos carnavalescos Azul e Branco, Unidos do Salgueiro (a azul e rosa) e Depois Eu Digo (a verde e branco) dificilmente conseguiam boas colocações nos campeonatos locais.


Djalma Sabiá, último dos fundadores salgueirenses vivo, como "obá" no carnaval 2019. Foto: Riotur/Dhavid Normando.


Inicialmente, o Unidos do Salgueiro resistiu à junção dos outros dois grupos, mas logo depois se rendeu ao sinérgico branco e encarnado do recém-constituído Acadêmicos do Salgueiro, fundado em 05 de março de 1953. Sendo fruto de uma comunidade localizada em uma pedreira (onde reside Xangô), a escola tinha o primeiro enlace litúrgico com seu padroeiro e dava indício da relação que só foi fortificada durante os anos. Embora existam pessoas que acreditem em coincidências - o que não é o meu caso -, o Salgueiro, em sua carta de fundação, definiu suas cores como vermelho e branco. Juntas do marrom, formam as cores do orixá. A escolha dos fundadores, entretanto, era baseada na tentativa de distanciamento das combinações cromáticas já em voga nos blocos anteriores. 

Se para um bom entendedor, um pingo é letra, estava mais explícito do que nunca a relação dada! Os destinos do orixá da justiça e da escola tijucana foram cruzados mesmo antes que a segunda existisse. Dois dos fatores que ligariam ainda mais diretamente a escola ao seu padroeiro e fixariam essa relação do patronato espiritual da Academia do Samba em nosso imaginário coletivo vieram em 1969.


O Xangô do Salgueiro

Entra na história a figura de Júlio Expedito Machado Coelho, mais conhecido como Professor Júlio, destaque de luxo que desfilaria no Salgueiro até 2007, ano de seu falecimento. Foi em 1969, entretanto, que ele alçaria seu maior voo e herdaria uma herança que carregou até “Candaces”. No enredo “Bahia de todos os deuses”, assinado pela dupla imbatível Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, o professor desfilou pela primeira vez com as vestes de um orixá, conforme pedido de sua mãe de santo. O escolhido obviamente foi o padroeiro da escola, Xangô, sendo rapidamente acatada pelos carnavalescos. 

Ao final da apresentação, com tamanho excitamento gerado por ela, o carnavalesco da voz de trovão virou para Júlio e sentenciou: “Você é nosso Xangô! Xangô do Salgueiro!”. Com o novo epíteto, agora Xangô do Salgueiro desfilou sempre em representação ao patrono espiritual da agremiação. A fator de curiosidade, essa “obrigatoriedade” gerou poucas e boas, como conta cirurgicamente Leonardo Bruno em Explode, coração: histórias do Salgueiro, livro da coleção Cadernos de Samba. Em 1970, com o enredo versando sobre a Praça Onze, o destaque ganhou posição ao lado de Tia Ciata, já que Xangô era seu orixá de cabeça, conforme descobriram na pesquisa do tema.

Júlio Machado, Xangô do Salgueiro, desfilando no carnaval de 1995. Foto: Wigder Frota.

Já em 1997, com o enredo “De poeta, carnavalesco e louco, todo mundo tem um pouco”, de Mário Borrielo, que brincava com a loucura, o encaixe foi mais arrojado. Júlio desfilou ao lado de uma representação de Dona Maria (a Louca). O porquê disso se dá pela versão de um batismo da figura em águas africanas, ganhando a proteção do orixá, antes de chegar ao Brasil. Loucura ou não, a veracidade não é o aspecto mais relevante do causo; importante era Xangô desfilar – e isso ele felizmente sempre fez. Com essa onipresença física (e espiritual), o professor Júlio foi sem dúvidas um dos responsáveis pela aproximação da relação Xangô-Salgueiro do imaginário coletivo e pela manutenção da figura do patrono como um dos principais símbolos da agremiação. 


Tambor

Chegamos, então, ao segundo elemento relacionado ao desfile que deu ao morro salgueirense o primeiro título: o furioso ritmo da bateria tijucana. Embasada pelos contos dos mais experientes salgueirenses, diz a lenda que em 1969 se ouviu pela primeira vez o emular do alujá, toque para Xangô, bem na cabeça do samba, após a volta do refrão principal. É justamente a passagem em que evoca a Bahia, um dos principais berços da ancestralidade que percorre esse solo tupiniquim.

“Bahia, os meus olhos estão brilhando/Meu coração palpitando/De tanta felicidade”

Embora a bateria salgueirense se inspire primordialmente na levada de partido-alto das bandas dos bambas da Estácio de Sá, foi nos tambores vermelhos e brancos que o batuque sincopado recebeu a codificação para Xangô. A necessidade do flerte rítmico com o padroeiro é coisa séria e caracteriza os ritmistas do Salgueiro até hoje. Fato semelhante ocorre na Mocidade, conforme o texto da semana retrasada (“Batuques ao caçador, o agueré independente”, leia aqui). A Furiosa, como é conhecida carnaval afora, recebeu esse apelido exatamente pela ferocidade com que tocava (e toca), diferenciando-a das outras baterias, tendo base no alujá para o orixá padroeiro. 

Um dos diretores da bateria Furiosa durante o carnaval de 2019. Foto: Richard Santos/Riotur.


Mães do samba

Partindo pra outro segmento... Em uma ligação com a Profa. Dra. Helena Theodoro, conhecedora dos caminhos do sagrado, ativista defensora das causas étnicas-raciais, salgueirense e curadora de "Resistência", enredo do Torrão Amado para o próximo carnaval, pude mergulhar um pouco mais profundamente pela simbologia que as representações das mães africanas carregam e pela representação das baianas salgueirenses, assim como perceber minúcias cotidianas que muito nos dizem, independentemente de nossos olhos não enxergarem. As grandes mães ancestrais das escolas de samba carregam em seus conhecimentos a responsabilidade de serem símbolos das cabeças brancas coroadas pela experiência, pela carga ancestral e principalmente pelo poder da sabedoria.

No Salgueiro, portanto, são elas as únicas responsáveis (e capazes) de perpetuar a manutenção dos fazeres ancestrais, de repassar o conhecimento que adquiriram até hoje e de guiar os rituais e as obrigações necessárias quando a escola aborda divindades africanas em seus enredos, como no próprio "Xangô", em 2019. Helena também afirmou que as baianas carregam em suas vestimentas o poder de criar, transformar e perpetuar ensinamentos que são carregados em seus tabuleiros pelos saberes e sabores, refletidos inclusive nas comidas vendidas em torno da quadra. São diferentes os conteúdos das barraquinhas antes de ensaios, disputas e demais eventos de coirmãs apadrinhadas por Ogum ou Oxóssi, por exemplo. Carregadas dessa liturgia entre escola e padroeiro, é comum achar na Silva Telles a comercialização de alimentos que também são comumente oferecidos a Xangô, como pratos com camarões, azeite de dendê e muitas velas nas cores de seu pavilhão.  Essa energia e esse poder vital que os orixás e os guias espirituais carregam também funcionam dessa forma, trazendo para perto de si, em locais que seu culto esteja presente, símbolos e mensageiros de sua falange.


"Samba, corre gira, gira pra Xangô"

O enredo da vida de cada salgueirense ocorreu em 2019! Esperada por muito tempo, a homenagem ao padroeiro finalmente aconteceu no carnaval do ano passado. Em um cenário pra lá de conturbado politicamente, diga-se de passagem, mas aconteceu. Corre em boca nem tão miúda assim que a escolha do tema sobre Xangô foi uma das últimas táticas tentadas por Regina Celi, ex-presidente salgueirense, para criar certa capilaridade e gerar uma adesão da comunidade da escola com ela. O imbróglio foi parar na justiça, estendeu-se por quase 6 meses e nitidamente afetou o cronograma do desfile da escola até quando a nova gestão, encabeçada pelo presidente André Vaz, assumiu. 


Visão geral da apresentação da alvirrubra de 2019. Foto: Wigder Frota.

O Salgueiro recebeu uma safra à altura de seu padroeiro, gerando um dos sambas mais ouvidos e repercutidos do pré-carnaval, com refrão forte e melodia potente. O momento da escolha, em especial, foi bastante emocionante. A quadra pulsava, os segmentos salgueirenses se abraçavam nitidamente emocionados e o ambiente contagiava até o menos satisfeito com a composição escolhida.  O desfile foi empolgante e emocionante, embora apresentasse algumas irregularidades no conjunto visual e alguns senões na narrativa escolhida, como o pouco destaque dado a Oiá, Oxum e Iansã, mulheres de Xangô citadas no samba. A garra do chão salgueirense e a emoção do componente da vermelho e branco tijucana em homenagear aquele que os protegem foram suficientes pra driblar os pontos negativos, gerando um ambiente simbólico e competitivo. O Salgueiro ficou na quinta posição, suficiente para voltar ao Sábado das Campeãs pelo décimo primeiro ano consecutivo.

Cruzo

Utilizo-me de muitas referências de Luiz Antonio Simas e lá vai mais uma: cruzo. Em detrimento do conceito de sincretismo, acredito que “cruzo”, além de tornar um campo mais amplo pro entendimento de tudo isso que existe entre o céu e a terra, é uma forma mais correta de se entender e explicar essa interseção entre energias, lendas e crenças de diferentes religiões e dogmas. Não existe meios de se contar histórias, fermentadas em terras brasileiras, que bebem do poço da fertilidade de nossa cultura e raízes, sem falar dessa mistura. Muito se sabe da relação Salgueiro-Xangô e também do costume das escolas de samba pela cultura de aglutinação, da não excludência, de reverenciarem padroeiros de diferentes origens, inclusive católica. Portela e Nossa Senhora da Conceição; Paraíso do Tuiuti e São Sebastião; Império Serrano e Estácio de Sá e São Jorge... Tantos exemplos!

Com a Academia do Samba não é diferente. Essa relação, pasmem, vem antes mesmo do que sua ligação com o rei do império iorubano. Voltando ao segundo parágrafo do texto, chegamos novamente ao Morro dos Trapicheiros. Haroldo Costa destrincha em seu livro Salgueiro: Academia do Samba que a procissão a São Sebastião, perpetuada até os dias de hoje no morro, é herança do legado desse sarapatel religioso do processo de ocupação do morro. Esse sarapatel é ainda mais reverberado na propagação dos saberes culinários, durante as festividades religiosas e na disseminação de danças e ritmos como jongo, caxambu, folia de reis, etc. 

Registro da procissão de São Sebastião no morro do Salgueiro.
Foto: Flickr ArqRio/Arquidiocese do Rio de Janeiro.

“O jongo e o caxambu vamos rodar/Salgueirar vem de criança/O centenário não se apagará”. Toda essa relação e toda essa devoção se dá até hoje pela manutenção da presença de uma capela para o santo no alto do morro, como vestígios das décadas que precediam o ano da fundação do Salgueiro. As comemorações do dia 20 de janeiro são fortemente preconizadas anualmente pela comunidade. A decoração do campo o qual abriga o principal festejo sé dá por muitas velas, bandeirinhas, barracas e tudo mais que compõe o visual de um verdadeiro arraiá em louvação ao padroeiro católico da agremiação. A cereja do bolo dessa relação íntima se dá por uma personagem verde e rosa, a querida Alcione. O clássico “Academia do Samba”, imortalizado na voz da nossa Marrom, sintetiza e confirma o “apadrinhamento” de forma poética logo de cara, com os assertivos e belos primeiros versos: “Salgueiro, ô, salgueiro/Teu padroeiro é o próprio São Sebastião/Estende o manto sobre o Rio de Janeiro”. 

Ainda há um último elemento querendo entrar nesse balaio. No dia da fundação da escola geralmente ocorre uma missa na quadra, ministrada pelo padre Wagner Toledo, ilustre torcedor salgueirense e personificação da representação sacro-profana, sendo amante das escolas de samba e torcedor apaixonado e desfilante assíduo da Academia. Durante a cerimônia, há a comum presença de muitos componentes devotos de São Sebastião, além de toda a simbologia contida no olhar mais atento da grande imagem do santo que a escola mantém em sua quadra. Esse elemento, associado com a figura do detentor do Oxé que também se coloca presente no terreiro salgueirense, vigia os ensaios e protege o bom prosseguimento da vida e do dia a dia dos becos, vielas e frechas do Oió tijucano. Suas presenças encantam e muito contam sobre o misticismo e magia do cotidiano carioca, sobre o pertencimento dos saberes e caminhos ancestrais, preservando por meio desses signos a memória e a história do Acadêmicos do Salgueiro, uma matriarca e grande protagonista dessa cachaça que nos move chamada carnaval. Saravá!


Agradecimentos: à interminável fonte de conhecimento conhecida por Helena Theodoro, pela ligação de quase 1h sem prévio aviso e toda a sabedoria compartilhada generosamente comigo; ao jornalista e escritor Leonardo Bruno, autor do primeiro livro que obtive sobre a história do Torrão Amado, por também ter me doado parte do seu tempo para conversarmos um pouco; e a Eduardo Pinto, um dos atuais diretores do eminente departamento cultural da Academia do Samba, pelo contato propriamente estabelecido e também todo o tempo e a atenção dispensados.

Referências bibliográficas: A tese de Doutorado “O G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro e as representações do negro nos desfiles das escolas de sambas nos anos 1960”, de Guilherme José Motta Faria; o livro “Explode, Coração: Salgueiro”, de Leonardo Bruno, coleção Cadernos de Samba, publicado pela VersoBrasil; o livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi, publicado pela Companhia das Letras; e o livro “Salgueiro: Academia do Samba”, de Haroldo Costa, publicado pela Record.

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Sendo a Série Padroeiros um desejo meu de pesquisa de longa data, sinto-me já um pouco órfão dessas quatro semanas pesquisando e buscando conhecimentos sobre essa relação litúrgica entre as escolas de sambas e seus padroeiros que sempre me fascinaram. Começamos pela relação entre o Paraíso do Tuiuti e São Sebastião e Oxóssi. Nesse primeiro texto, o enfoque foi mais direcionado ao desfile de 2020 e na simbologia contida no morro do Tuiuti (leia aqui). No segundo texto, desembarcamos na Vila Vintém. A coluna abordou a influência do agueré, toque de Oxóssi, na construção identitária da bateria Não Existe Mais Quente. Para traçar essa história, utilizamos brevemente a genialidade e o teor ancestral do Mestre André como nosso fio condutor (leia aqui). Já no penúltimo texto, a relação entre o imperiano fiel que confia na lança do santo guerreiro foi o assunto debatido. Passeamos pela procissão e pela alvorada de São Jorge que ocorre pelas bandas de Madureira religiosamente todo dia 23 de abril e terminamos o texto nas aparições de São Jorge nos enredos do Império Serrano (leia aqui). E, no de hoje, abordamos a principal escola quando se trata de relação e manutenção desse símbolo espiritual: o Salgueiro. 




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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação: seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à agremiação e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos Padroeiros - toda quarta de julho, aqui no Carnavalize. Excepcionalmente na terceira semana, neste sábado!

Foto: Riotur/Divulgação | Arte: Vítor Melo/Carnavalize
Como já diria a música do grande imperiano Arlindo Cruz, haja lugar para abrigar mitos e seres de luz como Madureira. O bairro, que fica ali próximo a Oswaldo Cruz, Cascadura, Vaz Lobo e Irajá, abriga nada menos do que dois dos maiores organismos socioculturais de nosso país: o Menino de 47, Império Serrano, e a Majestade do Samba, Portela. Diferente do primeiro texto dessa série (sobre a relação direta entre o Paraíso do Tuiuti e seu padroeiro, São Sebastião, o santo-rei) e do segundo texto (sobre a influência do toque do orixá padroeiro, Oxóssi, na construção da identidade da bateria independente), nas linhas de hoje, vamos misturar um pouco das duas coisas e passear por acontecimentos, símbolos e histórias que ligaram e ainda conectam a comunidade da Serrinha ao santo e ao orixá responsáveis por zelar e guiar o caminho da agremiação.

O Império Serrano foi fundado em 23 de março de 1947, data que dá origem à carinhosa forma com que o chamam - “Menino de 47”. A escola surge de uma ruptura à hegemonia pautada no autoritarismo de anos, comandada unilateralmente pelo presidente da Prazeres da Serrinha, Alfredo Costa. Assim como aqueles que nascem nessa data e são regidos pelo primeiro signo do zodíaco, a ariana agremiação não curtia a ideia de se limitar pelas amarras de uma administração unilateral, hierarquicamente familiar e que polia qualquer tentativa de mudança. Nessa levada dissonante, um grupo de bambas, encabeçado por nomes da mais alta estirpe imperial, como Tia Eulálila - quem era a dona da casa que serviu de local demarcatório na fundação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano -, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Sebastião de Oliveira (“Molequinho”) e tantos outros sambistas da Serrinha. Nessa reunião, ficou definido, além do nome e da fundação das escolas, as cores verde e branco – representando respectivamente esperança e paz. 

A ideia desse texto não é estabelecer uma conversa tão profunda sobre a história e os caminhos que proporcionaram a criação do Império Serrano. Para isso, deixamos como indicação o livro, de Rachel e Suetônio Valença, “Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba”. Na obra, os autores fazem uma profunda viagem e detalham todos os capítulos dessa longa e grandiosa trajetória da escola. Pensamos, porém, ser impossível estabelecer uma relação entre a agremiação e seu padroeiro, São Jorge, sem previamente contextualizar historicamente a ligação.

Com a fundação consolidada, a escola se preparava pro primeiro desfile, com o enredo “Homenagem a Antônio Castro Alves” para o carnaval de 1948. Devido à proximidade geográfica e às influências de sambistas da escola vizinha, estava tudo certo para o recém-formado Império Serrano receber as bênçãos de sua quase futura madrinha, Portela. O sucesso do primeiro desfile imperial foi tanto, elevando a escola ao primeiro lugar já em sua estreia, que os bambas de Madureira e Oswaldo Cruz se recusaram a dar a bênção para a nova (mas já campeã) agremiação. Assista ao relato de Tia Maria do Jongo, uma das fundadoras da escola, contando majestosamente essa e outras histórias sobre a fundação do Império no vídeo abaixo!


Após a recusa da maior campeã do carnaval, o Império nunca foi batizado de fato. Embora não seja algo convencional no universo “hierárquico” das escolas, a Serrinha “pagã”, como disse tia Maria no vídeo, nunca encarou isso como um problema. A comunidade serrana pegou esse fator pra si e fez questão de estreitar os laços e canalizar toda a sua devoção (e gratidão) ao santo. São Jorge é o único patrono que a escola tem até hoje, cuja imagem foi oferecida à agremiação por duas das mais antigas alas do Império Serrano, logo após sua fundação – Amigos da Onça e Estado Maior. Desde esse momento de consolidação, o guerreiro da Capadócia jamais deixou de lado aqueles que confiam a sorte à sua lança e lá já se vão mais de 70 carnavais regendo, protegendo e matando os dragões que ousem surgir nos trilhos imperiais. Passearemos por alguns acontecimentos que fazem questão de ratificar essa relação íntima entre escola e seu padroeiro!

Brasileiro, carioca, sambista, Jorge é um de nós. Apesar de ter origem na atual Turquia, São Jorge se tornou o mais brasileiro de todos os santos, movimentando todos os anos uma legião de fieis nas alvoradas, procissões e nos rituais dentro de muitos terreiros – cruzado nas macumbas como Ogum. E pelas bandas de Madureira não é diferente! Religiosamente, todo 23 de abril se inicia com uma enxurrada de fogos, prenunciando um longo dia de devoção. Sem dúvidas, a carreata do Império em homenagem a São Jorge assume uma posição de destaque no calendário anual do bairro. O evento, que foi impedido de tomar as ruas pelas medidas de contenção à pandemia do COVID-19, completaria esse ano sua 50º edição.  O percurso trilhado pela imagem, que sai da quadra localizada nas proximidades ao Mercadão de Madureira, é coisa seríssima e começa nas primeiras horas do dia. O primeiro destino, a Igreja de São Jorge no bairro de Quintino, é acompanhado por centenas de motos, carros e fiéis até que o santo esteja dentro do templo religioso. De lá, parte para o Clube da Esquina, em Engenho de Dentro.

Durante a viagem, passar por dentro de diversos bairros da zona norte carioca. O terceiro ponto de parada é a tenda espírita Caminheiros da Verdade. Esse é o momento de maior duração do percurso, já que passes são ofertados pelos médiuns presentes durante toda a procissão a quem quiser chegar e receber a purificação enérgica dos caboclos em transe. Rumando à penúltima localização, a imagem do santo guerreiro ainda faz uma parada em Ramos a tempo de saudar a coirmã Imperatriz Leopoldinense e a Swing da Leopoldina, sua bateria. Voltando pra casa, a carreata segue até ao Morro da Serrinha, no qual costumeiramente é recebida por samba, feijoada e muita festa.

Recapitulando, a procissão sai de Madureira, da quadra do Império, passa por Quintino (Igreja de São Jorge), para em Engenho de Dentro (Clube da Esquina e Caminheiros da Verdade), flerta com Ramos (Imperatriz) e volta para terminar o cortejo, embebida no berço fértil da fé e nos braços da comunidade que viu o Menino de 47 nascer. Só percorrendo toda essa história dá pra entender o porquê de tanta comoção no canto e do marejar de olhos dos componentes do Império Serrano a cada vez que evocam o santo na avenida.


O caso mais explícito de homenagem imperiana ao seu padroeiro foi no carnaval de 2006. Com o enredo “O Império do Divino”, assinado por Paulo Menezes, o componente verde e branco ganhou um lema que sintetiza cirurgicamente a relação entre escola e santo. Mesmo que o tema apresentado pela escola não fosse diretamente direcionado a São Jorge, mas uma abordagem aos mais diversos festejos religiosos do país, a parceria responsável pelo samba-enredo e o carnavalesco fizeram questão de dar todo um toque especial, sabendo da intimidade entre o protegido e o protetor. O grupo composto por Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Sena, Aluísio Machado e Elmo Caetano foram os responsáveis pelo refrão inexorável daquele ano:

O meu Império é raiz, herança
E tem magia pra sambar o ano inteiro
Imperiano de fé não cansa
Confia na lança do Santo Guerreiro
E faz a festa porque Deus é brasileiro

Ô se confia! Fato curioso é que o refrão apresentado ao carnavalesco na troca de figurinhas do artista visual com a parceria, continha o seguinte verso: “Imperiano de fé não cai, balança”. Sendo rejeitado instintivamente pelo carnavalesco por passar uma ideia de fragilidade conflitante à proposta temática, abriu-se espaço ao verso imortalizado no imaginário carnavalesco. Ô, sorte! Serve até hoje como um mantra pros bambas do Império Serrano, simbolizando a fé inabalável dos que seguem a coroa imperial. 

Outra aparição marcante e carregada de simbologia do padroeiro ocorreu no carnaval de 2015. Nesse episódio, a escola buscava a ascensão ao Grupo Especial, que só viria dois anos após, e desfilou com o enredo “Poema Aos Peregrinos de fé”, assinado por Severo Luzardo. A bateria da escola, Sinfônica Imperial, veio representando os devotos do santo em procissão. Seguindo a cultura da oralidade do samba e a característica da influência dos toques de orixás nas baterias, reza a lenda pelas vozes dos mais sábios do Império que a bateria bate em homenagem a Ogum. Dessa maneira, dá-se carga semântica ainda maior à fantasia, personificando o cruzamento do santo-orixá, presente mais forte do que qualquer outro nesse binômio guerreiro na crença popular.

Com essa última aparição, encerramos relembrando que nós já reunimos cinco vezes em que São Jorge e Ogum foram evocados nas avenidas Brasil afora, confira aqui. É sempre tempo de fortificar os laços de fé dos milhares de guerreiros brasileiros que matam diariamente seus dragões e olham sempre pra cima, confiando na lança e na proteção do santo – e do orixá – guerreiro. Salve Jorge, patacori Ogum!

Referências bibliográficas: o livro “Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba”, de Rachel e Suetônio Valença, lançado pela Editora Record, e o artigo “Caminhos de Ogum: Florindo as ruas, festejando São Jorge e Ocupando a Cidade”, de Ana Paula Alves Ribeiro

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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, além do Giro Ancestral dos defensores de um pavilhão, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à agremiação e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos #Padroeiros - todas as quartas-feiras de julho, aqui no Carnavalize.

Depois de abordarmos a relação de devoção entre São Sebastião e, indiretamente, Oxóssi com a comunidade do Paraíso do Tuiuti no primeiro texto (leia aqui), prosaremos hoje sobre a influência do toque para o orixá das coisas belas na Não Existe Mais Quente. Antes de tudo, contextualizaremos como a levada dos atabaques, responsável por evocar as divindades em um terreiro, influenciou a construção identitária dessas escolas e também como essa influência foi sendo perdida ao longo dos anos. Por fim, passearemos brevemente pelo enredo da Mocidade Independente para o próximo carnaval, seja lá quando ele for. O tema apresentando pela agremiação, até então, não tem sinopse divulgada, mas versa com uma narrativa que busca retomar essa identidade tão forte em outrora, mas substancialmente asfixiada pelas mudanças que o carnaval tem sofrido.

Foto: Dhavid Normando/Riotur | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Por Vítor Melo, com colaboração de Eryck Quirino
Revisão por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A base oral, que embala a história do samba e, de certa forma, comporta-se como fonte de onde bebemos a inspiração para escrever textos como esse, é fundamental. Portanto, reza a lenda, confirmada pela prosa dos mais antigos bambas da Vila Vintém, que ninguém, nos idos que sucediam o ano de fundação da Mocidade Independente de Padre Miguel, rumava aos ensaios sem passar antes pelo terreiro de Tia Chica. A mãe de santo, líder religiosa do bairro, garantia aos ritmistas boas energias e um ótimo ensaio com seus passes sinérgicos, decretando, mesmo que involuntariamente, o aval para que os surdos de terceira (salve Tião Ziquimba), os chocalhos de platinela e a inconfundível afinação da bateria mais quente do carnaval começassem a tocar.

Nesse ponto, entra um dos principais protagonistas de nosso papo: Mestre André! O Maestro do Povo, como ficou conhecido, era filho de santo e ogã do terreiro de Tia Chica. Pra quem não é do babado, entende-se pelo responsável pela sonoridade dos atabaques durante um ritual afro-brasileiro. A Mocidade é devota de São Sebastião, cruzada como Oxóssi nas macumbas cariocas (leia aqui o texto sobre a relação entre o Paraíso do Tuiti e o santo-rei). Partindo dessa premissa e desse contexto histórico, dá-se o quê de genialidade do inventor das paradinhas. Novamente norteados pelo o que contam os baluartes da verde e branco, a construção identitária da bateria se deu pela associação dos sons dos tambores, que evocam toda a ancestralidade africana do sincretismo religioso, à sincope das escolas de samba.

Mestre André no carnaval de 1979 frente a seus ritmistas. Foto: Reprodução Facebook/Mocidade

Dessa forma, criou-se a relação entre o toque de orixá e bateria da Mocidade, que, aos poucos, foi se consolidando como uma das principais baterias do nosso carnaval. O destaque dos tambores independentes era tanto, que veículos jornalísticos da época difundiam a ideia de que a escola da Vila Vintém e de Padre Miguel era apenas uma “bateria com pessoas ao redor”, dando total protagonismo à cadência impregnada pelos ritmistas, relegando, de certa forma, todo o restante. Essa ideia, porém, foi dissipada logo em 1958, segundo desfile da agremiação, quando se sagrou campeã e provou que não era “só bateria”, mas também aquilo. A importância da batida de uma escola ligada epistemologicamente às suas raízes africanas é perfeitamente destrinchada e explicada por Luiz Antonio Simas em seu livro “O Corpo Encantado das Ruas”. “Há uma sofisticada pedagogia do tambor, feita dos silêncios das falas e da resposta do corpo, fundamentada nas maneiras de ler o mundo sugeridas pelos mitos primordiais” (2019, p. 29), segundo ele, prega-se que as escolas de samba, durante boa parte de sua trajetória, contaram a história oficial, porque nos atentamos estritamente ao espetáculo visual e à narrativa proposta pelo enredo.

Se assistíssemos aos cortejos carnavalescos com os ouvidos, veríamos que a história é outra. As baterias, detentoras da ancestralidade que as caixas de guerra possuem por exemplo, contam histórias completamente diferentes para os conhecedores dos mitos que o couro do tambor carrega. Limitar a interpretação de um enredo pelo viés puramente temático é podar a relação de pertencimento entre aquele momento de transe e o ritmista dotado da habilidade de se comunicar e entender as entrelinhas ditas pelo ritmo. Para exemplificar, voltemos à Mocidade. A alviverde se apropria do toque para o orixá das coisas belas, o agueré, para sustentar a levada do naipe de suas caixas e, por conseguinte, harmonizar os instrumentos restantes. Por tese, a batida para Oxóssi emula a ida do caçador à floresta em busca de sua presa (vídeo abaixo de Simas explicando cirurgicamente toda a simbologia envolvida no toque). Oriundo de todo esse fértil campo simbólico das religiões de vertentes africanas, sustenta-se a ideia da importância de uma aproximação de ícones das escolas que os liguem às suas raízes e sirvam como mecanismos de manutenção da preservação de identidade, ritos e fundamentos que nos encantam e engradecem esse espetáculo.




Por outro lado, não é exclusividade da Não Existe Mais Quente a batida com influência “afro”. Escolas, como Portela, Mangueira e Salgueiro também sustentam ritmos que versam com a ancestralidade de seus padroeiros e muitas outras já mantiveram, mas perderam, em certo ponto, a identificação com a origem da identidade sonora de seus criadores, ritmistas e principais baluartes. Esse acontecimento se dá principalmente pela aceleração constante das levadas impregnadas carnaval afora (o famoso “BPM”), assemelhando-se inclusive ao ritmo de frevo em alguns casos específicos. Aliado a esse fator, a volatilidade entre alguns ritmistas, diretores e mestres de bateria, que chegam a novas escolas, sem o conhecimento necessário para codificar a mensagem que os tambores daquele lugar propagam. Mudando assim totalmente a identidade do toque, contribuindo para a desconfiguração entre a relação da bateria com a própria história da comunidade e da escola.

Na contramão dessa tendência, a Estrela-Guia da Zona Oeste anunciou seu enredo para o próximo carnaval, que conforme plenária realizada na LIESA, no dia 15/06/2020, segue sem data definida por conta da pandemia do Novo Coronavírus. O tema “Batuque ao Caçador” é em alusão ao orixá da fartura e da caça, padroeiro da escola, e versará com a história de criação da identidade da bateria independente, retomando, em um espectro geral, a valorização das raízes da escola e de todas as referências que corroboram para construir a Mocidade que todos nós conhecemos hoje. O enredo e a sinopse foram idealizados e concebidos pelo totêmico Fábio Fabato, jornalista, escritor e torcedor apaixonado da Mocidade e já a parte visual ficará pela batuta do carnavalesco Fábio Ricardo. O texto base da história que a escola contará na avenida ainda não foi divulgado, mas já nos deixa bastante ansiosos para conhecê-lo somente pela premissa divulgada. Além da ansiedade, emano o sincero desejo por mais escolas que busquem retomar suas identidades, cultivem a imaginação percussiva¹ e valorizem, sobretudo, seus fundamentos, assim como a Mocidade, de Mestre André, de Sebastião Miquimba, de Toco, de Quirino da Cuíca e de tantos outros baluartes incontestáveis, faz com maestria. Okê, arô!

¹“Imaginação percussiva” é um termo utilizado por Tião Maquimba, inventor do surdo de terceira junto ao Mestre André, em diversas entrevistas. Esse conceito é a genial narrativa responsável pela criação do instrumento, que intercala batidas inesperadas no silêncio entre as síncopes características do samba.

Referências bibliográficas: artigo “Cinqüenta primaveras especiais”, de Fábio Fabato, presente no portal Academia do Samba (clique aqui para ler) e o livro “O Corpo Encantado das Ruas”, de Luiz Antonio Simas, lançado pela Civilização Brasileira em 2019

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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à escola e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos Padroeiros - toda quarta de julho, aqui no Carnavalize.


Texto e arte: Vítor Melo
Revisão: Felipe Tinoco

De um conflito paradoxal ligado simbolicamente à sua existência, o protagonista do primeiro texto dessa série, não podendo ser outro, é o padroeiro carioca: São Sebastião. Já que passearemos pelos trilhos místicos que envolvem todo esse universo, o pontapé inicial teria de ser feito exatamente sobre aquele que rege nosso dia a dia e olha por nossa cidade. Em 1965, Estácio de Sá prestou homenagem ao, até então, rei-menino de Portugal, Dom Sebastião, batizando a cidade com seu nome (São Sebastião do Rio de Janeiro). O batismo dessa criação é estritamente atrelado à necessidade de dominação territorial, que visava o triunfo em relação à Confederação dos Tamoios (1554-1567), um dos principais mecanismos de resistência dos povos ameríndios que coexistiam antes mesmo das chegadas das tripulações europeias. Engana-se quem acredita fielmente na oficialidade dos livros didáticos que preconiza uma falta de oposição e uma franca submissão por parte comunidade indígena. Dois anos após o batismo, a trupe portuguesa, na que ficou conhecida como Batalha de Uruçumirim, enfrentaria uma histórica resistência dos senhores da Guanabara e contaria com um auxílio divinal para sair vitoriosa.

É agora que o santo entra no balaio! No dia 20 de janeiro de 1567, São Sebastião é visto, como reza a lenda, batalhando, ao lado dos portugueses, contra a população nativa indígena em prol da conquista da área. Consagrando-se, desde então, padroeiro oficial do Rio de Janeiro. Jovem, Sebastião foi militar exímio e ferrenho pregador dos princípios cristãos em território romano. A manutenção de seu dogma fez com que o imperador lhe condenasse ao fim – amarrando-o em uma árvore, na qual seria flechado até a morte. Dando luz ao berço fértil que é o campo religioso carioca, São Sebastião é sincretizado, pelas bandas de cá, como Oxóssi. Essa ligação se deu, provavelmente, pela simbiose contida na figura da flecha – mesmo que estabelecida numa relação contraditória, já que o caçador da umbanda tem nela sua principal artimanha, enquanto o santo a vê como sua principal ameaça. Esse sarapatel chamado Rio de Janeiro não poderia ter história mais genuinamente carioca: o santo, consagrado padroeiro, por ter lutado na expulsão dos tupinambás de terras cariocas é sincretizado, na umbanda, como orixá líder da falange dos caboclos, responsável pelo chamamento e pela proteção dos índios. Uma complexidade muito potente dos processos culturais! 

Comissão de frente do Paraíso do Tuiuti em 2020, assinado por Márcio Moura. Foto: Riotur/Gabriel Nascimento.
Feita a contextualização histórica, chegamos ao Paraíso do Tuiuti! A agremiação leva a sério quando o assunto é devoção ao padroeiro e elevou esse quesito até a maior potência em seu último desfile. No carnaval 2020, com o enredo “O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião”, assinado pelo carnavalesco João Vítor Araújo, a escola fez uma homenagem ao seu protetor com uma história repleta de intercruzamentos entre a vida de Dom Sebastião com a história do santo e as lendas encantadas que circundam o sebastianismo. Na impecável sinopse, assinada por João Gustavo Melo, a dupla de artistas introduz de forma poética e nítida o que viria a ser desenvolvido no enredo. A agremiação, vestida pela adoração à figura que a rege, trazia, ao cruzar as vidas e os legados de Dom Sebastião e São Sebastião, uma série de minúcias de histórias cruzadas de fé que desdobrariam pelos mais diversos rincões de diversos brasis e desaguariam principalmente no solo fértil e sagrado da própria comunidade tuiutiana. Para as cabeças responsáveis pelo desenvolvimento artístico do desfile, falar dos Sebastiões era muito mais do que propor um enredo histórico ou místico; é desnudar uma gramática pautada no leque dos encantamentos. Desenvolvendo, dessa maneira, uma narrativa própria da escola com a forte presença sebastianista que os levava pra um entendimento próprio e carregado de misticismo do tema, pautado na sensação de pertencimento daquela narrativa e no autorreconhecimento da história contada.

A trajetória geográfica do enredo se inicia em Portugal, berço do rei, indo para Alcácer Quibir, no Marrocos, onde Dom Sebastião, segundo a lenda, encantou-se. Encantado, chega à costa maranhense, pelo Oceano Atlântico, rebela-se no sertão nordestino e se apega ao santo, voltando para a cidade cujo padroeiro é seu homônimo. O enredo é costurado com as múltiplas referências às diferentes histórias que complementam essa narrativa única, como a data de nascimento do Dom Sebastião e o dia em que se comemora o dia do santo, 20 de janeiro. Passa pelo mais diversos encantamentos cultuados e fermentados no nordeste brasileiro até chegar ao Rio de Janeiro, comparando a história do santo também com a de Estácio de Sá, que foi morto por uma flecha envenenada no dia do santo. Dessa forma, o enredo se desenha para um final em que se estabelece um paralelo com a situação atual da cidade, suplicando ao santo-rei que o carioca está ferido e suplica a eles que ajudem a retirar as flechas que os assolam. O carnavalesco encerrava o enredo com a ideia de “povo-rei”, a aglutinação do pensamento de um só espírito entre santo e rei, dizendo que os “touros” (negros) precisariam desencantar para coroar a majestade real e o povo de Tuiuti. 

Visão aérea do bonito abre-alas do Paraíso do Tuiuti no carnaval 2020. Foto: Riotur/Fernando Grilli.
Partindo pro dia do desfile, em si, um dos grandes momentos de emoção que o Tuiuti nos reservou em 2020 foi, sem dúvidas, o esquenta da escola. Com um dos sambas-exaltações mais bonitos entre as escolas de samba cariocas, a azul e amarelo de São Cristóvão nos brindou com a bela composição do ex-intérprete da escola, Daniel Silva. Com os versos "Ó padroeiro, que é luz e devoção/Abençoai, meu querido pavilhão/Um canto de fé, ecoa em forma de oração/Salve São Sebastião!", o Tuiuti já iniciou a louvação a seu padroeiro antes mesmo da largada e deu a tônica perfeita que precisava pra mexer com o brio de sua comunidade e aquecer as arquibancadas da Marquês de Sapucaí. Na visão do júri, a agremiação não apresentou um conjunto visual perfeitamente regular, mas nos brindou com belíssimos momentos como o abre-alas, predominantemente dourado e com lindos touros azulejados puxando o carro, e o segundo carro, trazendo Dom Sebastião flechado na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. A questão musical foi outro trunfo do Paraíso. Repetindo a fórmula que tem dado certo desde 2018, os compositores Alessandro Falcão, Píer, Moacyr Luz, Julio Alves, Cláudio Russo e Anibal brindaram os presentes com uma belíssima obra, tanto em solução melódica como em letra. A escola, embora não tenha obtido boa classificação na quarta-feira de cinzas, ficando apenas na décima primeira posição, cantou com muita propriedade e contou orgulhosamente a história de seu padroeiro. Os versos "No Morro do Tuiuti/No alto do terreirão/O cortejo vai subir/Pra saudar Sebastião" foram uma feliz solução da parceria, sintetizando poeticamente a comemoração do dia do santo pela comunidade do Tuiuti. A letra, de forma bela e objetiva, percorre o trajeto no qual os moradores correm a procissão a cada dia 20 de janeiro, partindo do alto do terreirão até o Cruzeiro da região, no local mais alto do morro que abriga essa devota comunidade.

A presença de Dom Sebastião é tão forte no imaginário da cultura popular que vale ressaltar duas aparições do rei português em carnavais distintos, ambas pelas gramáticas da encantaria:  Salgueiro, 1974, com o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, de Joãosinho Trinta, e Mangueira, 1996, com “Os Tambores da Mangueira na Terra da Encantaria”, de Oswaldo Jardim. No primeiro, um delírio de J30, imaginando que o rei-menino ainda criança, ao ler e ouvir muitas histórias sobre o Maranhão no Palácio de Versalhes, começava a delirar, transpondo a realidade das lendas que escutara pra França. Transformou “salão em matas”, “candelabros em palmeirais” e de “ouro e prata, um mundo irreal”. A música fechava com os ótimos versos “Na praia dos Lençóis/Areia, assombração/O touro negro coroado/É Dom Sebastião”, evidenciando o poder de síntese que só o samba-enredo consegue atingir. Já na Estação Primeira, os versos que o evocavam eram estes: “Os tambores da Mangueira/Na terra da encantaria/Encantaram o touro negro/Que num toque de magia/Se vestiu de verde e rosa/Embarcou na poesia”. Na parte visual, o momento de aparição do touro negro era na nona e última alegoria do desfile, “Reino de Dom Sebastião”, sucedida pelas alas “Encantados do Saber”, “Encantados da Magia” e “Encantados da Alegria”, que encerravam o cortejo mangueirense. Em uma aparição mais recente, o santo-rei deu as caras também, no carnaval de 2008, pela Mocidade Independente, no enredo "O Quinto Império: de Portugal Ao Brasil, Uma Utopia Na História".

Uma das alas do desfile salgueirense no carnaval de 1974. Foto: Eurico Dantas.

Da mesma forma com o que o Paraíso do Tuiuti encerrou o enredo em seu desfile no último carnaval, terminamos o primeiro texto dessa série com o pedido aos padroeiros de nossa cidade maravilhosa por proteção e amparo, contra as forças, dentre bispos e capitães, que tanto a assolam.

Aliados a esse desejo, deixamos os esperançosos versos da canção “Sebastian”, de Milton Nascimento e Gilberto Gil, imortalizados na voz de Gil: “Sebastian, Sebastião/Diante da tua imagem/Tão castigada e tão bela/Penso na tua cidade/Peço que olhes por ela/Cada parte do teu corpo/Cada flecha envenenada/Flechada por pura inveja/É um pedaço de bairro/É uma praça do Rio”.

Que esses versos sejam a personificação da voz de tantos que amam e zelam por esse espaço único banhado pela Guanabara e abraçado pelo Cristo Redentor. Olhem por nós e intercedam por nossa cidade! Salve São Sebastião, okê arô Oxóssi! Na próxima quarta-feira, passearemos pela influência da gramática do tambor e como o orixá das coisas belas, Oxóssi, influencia a Majestade do Samba e a estrela de luz da Vila Vintém na levada e na identidade de suas baterias. Axé!
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