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Carnavalize

 


por Talitha Dejesus


“Assim como as palavras, as pessoas que as escrevem não podem ser apagadas.” 
(Carolina Maria de Jesus, 1960)


Dia 14 de março é o dia do nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus e nada mais justo do que celebrar sua vida e seu legado. Você pode estar se perguntando: ‘’Qual a ligação da escritora com o Carnaval ou com o samba?’’, mas ao longo desse texto você vai compreender…

Antes de fazer esse paralelo da história da escritora com o universo do Carnaval, precisamos entender quem foi essa mulher e a importância dela para a cultura brasileira. A intenção aqui não é contar sua biografia, mas sim exaltar sua contribuição para a literatura brasileira e levantar reflexões sobre a vida e o legado dessa figura multifacetada que foi escritora, poetisa, compositora, sambista e muito mais. 

Vinte e seis anos após a Abolição da Escravatura, nasce Carolina na cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Neta de escravizados e filha de lavadeira, frequentou a escola por apenas dois anos, onde pegou o gosto pela leitura e escrita. Ela chegou a São Paulo quando a cidade estava em processo de modernização e viu as primeiras favelas aparecendo. Construiu o seu barraco e, em 1947, se alojou na favela do Canindé. Lá, trabalhou como catadora de papel para sustentar a si e a seus três filhos que criava sozinha.

Carolina ficou mundialmente conhecida por seu livro ‘’Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada’’. O best-seller, publicado em 1960, relata suas vivências na favela e sobre como sobreviveu à fome. Nele, ela descreve a dor, o sofrimento e as angústias dos favelados de forma única, retratando a realidade assim como ela é, o que até hoje segue sendo um relato atual da condição de vida das favelas brasileiras. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.

 
Carolina em 1961, antes de embarcar para o Uruguai para lançar o best-seller Quarto de Despejo.(Foto: Acervo Estadão)


Sabemos que a história dos negros e das mulheres sofre tentativas de apagamento diante de uma sociedade racista e machista. Carolina também foi vítima desse processo de invisibilidade, de forma dupla, por ser mulher e negra. 

O que poucos sabem é que Carolina, para além do Quarto de Despejo, publicou ainda em vida mais três livros e deixou guardadas mais de cinco mil páginas manuscritas, totalizando 58 cadernos que contêm sete romances, mais de sessenta textos com características de crônicas, fábulas, autobiografia e contos, além de mais de cem poemas, quatro peças de teatro, doze marchinhas de Carnaval e, em 1961, chegou a gravar um disco com canções compostas por ela mesma.

Apesar de silenciada, depois do estrondoso sucesso, ela se mantém como uma importante representante da literatura brasileira, tendo sua escrita como ferramenta de denúncia, protesto e desabafo. 

A autora também anuncia os dilemas de ser mulher: quando criança, desejou mudar de gênero e sonhou em se tornar homem. Isso não aconteceu porque queria mudar seu corpo, mas por conhecer as barreiras que lhe trariam sua condição feminina. Em seus escritos, também podemos encontrar muitas marcas de oralidade, que entendemos como uma herança africana. Ao relatar as suas próprias histórias cotidianas, ela reverencia os griôs – em alguns povos da África, eles são contadores de histórias que têm o compromisso de preservar e transmitir conhecimento e cultura. 

 
Carolina às margens do rio Tietê. (Foto: Reprodução)

A escritora era moradora da favela do Canindé, próxima ao rio, e era ali onde ela lavava suas roupas e pegava água para seu consumo e de seus filhos. Alguns trechos de seu best seller relatam a relação da autora com o Tietê. 

A ascensão da literatura negra e da literatura feminina foi fundamental para sua retomada ao cenário literário e acadêmico. Seus livros passaram a ser tema de teses e dissertações nas universidades e se tornaram leituras obrigatórias em escolas e vestibulares.
Como forma de manter seu legado, podemos encontrar muitas homenagens à autora em documentários, peças de teatro, pinturas, grafites, poemas, reportagens, feiras literárias, nomes de ruas e bibliotecas e muito mais…

Levando em consideração as origens da festa carnavalesca, é muito comum sermos presenteados com enredos sobre ancestralidade, religiões de matrizes africana e homenagens a personalidades negras, como é o caso de Carolina Maria de Jesus, que já foi homenageada no Sambódromo do Anhembi e na Marquês de Sapucaí. 

Como forma de reverenciar essa figura gigante, fã da folia e reforçar seu legado cultural e social, vamos relembrar desfiles em que a escritora foi homenageada: 

Desfile da Renascer em 2017. Foto: Ana Cristina Victória

Em 2017, pelo grupo de Acesso A, a escola de samba Renascer de Jacarepaguá desfilou com o enredo ‘’O Papel e o Mar’’, baseado num curta-metragem com o mesmo nome que narra um encontro imaginário entre a escritora e o almirante negro João Cândido, líder da Revolta da Chibata.

Foto: O Globo.


No Carnaval de 2018, Carolina foi homenageada pelo Salgueiro, dentro do enredo ‘’Senhoras do Ventre do Mundo’’, que fazia um tributo à mulher negra, representando desde rainhas guerreiras a figuras contemporâneas da força feminina. O carro que encerrou o desfile trazia uma releitura da obra Pietá, de Michelangelo, que em sua versão original representa Jesus Cristo morto nos braços de Virgem Maria e, no desfile da agremiação, era uma mulher negra vestida com textos da escritora retirados do livro "Quarto de Despejo".



Levando o campeonato do Carnaval carioca em 2019, com ‘’História pra ninar gente grande’’ a Estação Primeira de Mangueira também prestou homenagem à Carolina. A ala “São Verde e Rosa as Multidões” representou as multidões de moradores de comunidades espalhadas pelo Brasil, com homens e mulheres carregando bandeiras de grandes personalidades, como por exemplo, o da escritora. 

Foto: Riotour.

“Nas encruzilhadas da vida, entre becos, ruas e vielas, a sorte está lançada: Salve-se quem puder!” foi o enredo da União da Ilha no Carnaval de 2020. Apesar do rebaixamento, o desfile tratou o tema importante da exclusão e invisibilidade social e mostrou que o caminho para vencer as mazelas é a educação. Com isso, a escola trouxe um elemento cenográfico no início do desfile homenageando a escritora em sua comissão de frente. 

Também em 2020, mas dessa vez no Sambódromo do Anhembi, Carolina foi reverenciada dentro do desfile da escola de samba Tom Maior. Com o enredo ‘’É Coisa de Preto’’, a escola teve como proposta enaltecer a negritude e lembrar como o povo negro contribuiu com o desenvolvimento da sociedade. Enaltecendo figuras negras que o racismo estrutural tentou ofuscar, Carolina foi uma das homenageadas em uma ala, que tinha como figurino páginas de um livro e, no chapéu, reprodução dos barracos da favela do Canindé. 

‘’Salve o povo da rua. 
Abre caminhos pro destino abençoar
Sou eu, Carolina de Jesus 
A voz da pele preta a ecoar.’’

 

Esse é o trecho do samba enredo da Colorado do Brás para o próximo Carnaval. A escola levará para a avenida o enredo “Carolina - A Cinderela Negra do Canindé”, que será desenvolvido pelo carnavalesco André Machado, em sua estreia na agremiação. 

Carolina nunca parou de escrever e nunca parou de dizer. Suas obras se tornaram a impressão da voz negra e feminina e daqueles que, por muito tempo, foram invisibilizados. Seu legado se perpetuou através do tempo para que nunca se esqueçam de que ela foi uma mulher negra resistente e representante da cultura brasileira, dentro e fora do nosso país. 

A vivência de Carolina é um grito de socorro que precisa ser ouvido, afinal, quantas Carolinas não existem por esse nosso Brasil? 





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Arte: Vítor Melo.

por João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos


Começar o texto com um questionamento é sempre uma estratégia interessante para estimular o leitor e fazê-lo pensar junto sobre o assunto que queremos tratar. Porém, neste momento em que vivemos, essa pergunta vai para além de uma simples estratégia de escrita ou maneira de produzir um título de impacto. É uma reflexão que se faz necessária e muito tem me causado aflição – e acredito que não seja o único. 

Não é de hoje que esse tipo de ponderação ronda a cabeça daqueles que vivem e respiram o Carnaval e, de alguma maneira, também conversam com outros corações apaixonados pelas agremiações. Sempre se discute o afastamento gradual delas suas comunidades, a distância das quadras de suas origens, as cifras que comandam a manifestação cultural e o foco quase exclusivo no aspecto competitivo do Carnaval.

A rapidez com que muitos chegam à conclusão de que as escolas estão sob o risco de acabar, ainda mais diante de um ano em que os festejos e o cortejo não irão ocorrer, evidenciam que perdemos o prumo em algum momento dessa caminhada. Quando pensamos em tudo o que nos faz amar a cultura do Carnaval, o desfile deveria ser tratado como um momento de euforia, um instante em que todos aqueles aspectos artísticos, culturais e musicais se concentram num grande momento de explosão catártica e cativante.

Os desfiles deveriam ser um subproduto da nossa cultura, não o objetivo final. 

Existe um momento em que todo amante do Carnaval precisa defender aquilo que tanto ama. Para isso, evoca o que deveria significar de fato o termo “Escola de Samba”. Essa, geralmente, é a hora de adentrar o contexto da criação das escolas, em que elas se colocavam na posição de gerar sociabilidade para suas comunidades, sendo um ponto de convergência para um povo marginalizado que tinha no canto, na dança, nas tradições religiosas uma forma de se enxergar como iguais e se ver com orgulho como o povo forte que é. 

As “Escolas de Samba” têm, acima de tudo, um compromisso social para com a sua comunidade. E aí não resumindo comunidade ao termo geográfico, mas significando toda a rede que apoia e encontra apoio na existência de uma agremiação. Encontrar maneiras de resistir e reexistir são essenciais. E foi justamente assim que as escolas fizeram para chegarem até aqui vivas, escapando do destino que atingiu as grandes sociedades, os ranchos e os cordões. 

Isso tudo é mais latente e grave quando pensamos no contexto em que vivemos. Como em nenhum outro momento deste século, a comunidade das agremiações precisa da presença viva das escolas em sua vida, da maneira que lhes são possíveis, respeitando as limitações sanitárias existentes. Mas é preciso ter clareza para enxergar as decisões como sendo provenientes de uma preocupação sanitária ou meramente de uma preocupação competitiva. 

No modelo atual de feitura dos desfiles, a roda gira muito rápido na cadeia produtiva do Carnaval. Sempre se teve em mente os momentos do calendário em que os enredos seriam divulgados, os sambas iriam começar a ser disputados e a grande obra se sagraria vencedora. Esse tempo se dava de maneira que, por quatro ou até cinco meses, o samba pudesse ser trabalhado junto à comunidade de forma exaustiva, para que fosse apresentado nos desfiles e pudesse alcançar um bom desempenho. 

Na nossa realidade hoje, essa é uma questão delicada. Um samba escolhido em janeiro de 2021 teria pelo menos um ano de maturação com seu público antes de ser defendido na Avenida. Considerando a janela de tempo padrão, seria quase o triplo do tempo em que esses sambas estariam sendo defendidos. A preocupação com essa janela de tempo provém do risco de o samba ficar saturado com sua comunidade (e até mesmo com a comunidade externa à agremiação) e não render bem no desfile. 

Mas deveria ser a nossa preocupação neste momento o possível rendimento de um samba no próximo desfile?

Se a resposta, que para mim é evidente, for um não, qual é a justificativa para as escolas cancelarem as disputas? A grande parte de seu público, no ano de 2020, esperou ansiosamente pelo momento em que teriam a oportunidade de ter contato com as agremiações que compõem e tanto amam. As disputas se encaixam nesse contexto, indo além de uma mera seleção de sambas. Elas também foram uma forma de trazer alento para uma comunidade que se viu afastada do seu mecanismo de sociabilidade, de laços e de sobrevivência durante um ano tão difícil. 

Mas, no contexto que enfrentamos, esse pensamento não se baseia apenas na manutenção dos ideais sociais das escolas. Ele também se reflete no rigor do sustento de tantos trabalhadores que serão afetados com a não realização dos desfiles no ano de 2021. As lives com as disputas de samba seriam uma maneira com que as escolas poderiam manter a roda girando para os seus próprios funcionários, arrecadando fundos por intermédio de patrocínios, podendo assim pagar seus trabalhadores mais fragilizados. Além disso, estariam também aquecer a economia para os seus intérpretes e músicos, que voltaram a defender as obras concorrentes e estabilizar sua renda com isso.

Podemos, ainda, ir além de enxergar apenas os sambas como uma maneira de se conectar com sua comunidade e de angariar fundos. As escolas têm em seu quadro de funcionários alguns dos artistas mais talentosos e proficientes de todo o país. Não há a possibilidade de realizar, em suas quadras, exposições visuais contando com obras desses artistas que trabalham na escola e, a partir disso, se conectar com a comunidade e também trazer patrocínios para as escolas? 

É preciso pensar em maneiras de ocupar o calendário do ano, para que não se veja mais um ano de afastamento das escolas de seus públicos, num momento de tanta dificuldade, horando assim o nome “escola de samba”, se conectando com sua comunidade e abandonando a lógica de funcionar com o único e exclusivo intuito de desfilar. As escolas de samba devem desfilar porque existem e não existirem para desfilar, pois no momento em que qualquer contexto adverso ameaça a organização do desfile per se, ameaça também a existência das agremiações. 

E também é preciso pensar com cuidado, dentre as escolas que decidiram por interromper as disputas, no contexto em que esses concursos vão retornar. Os regulamentos durante a pandemia possibilitaram a participação de compositores que, considerando os custos usuais das disputas, não teriam a chance normalmente de fazerem parte desse processo. Mas, no modelo em vigência, vários puderam entregar suas obras e participar do concurso, muito por conta dos baixos preços exigidos para as inscrições e também pela falta de necessidade de pagar torcida, camisas e cerveja, entre outros gastos. 

Mas, mesmo assim, a despesa com gravações e com o palco durante as disputas não é pequeno e, sendo assim, houve a necessidade para essas parcerias de um extenso e cuidadoso planejamento financeiro, que pode ser atirado pela janela caso as escolas só decidam retomar esse processo num momento em que o acesso às quadras seja permitido. Nesse contexto, com o público ávido por poder voltar à atividade que tanto amam, os pequenos compositores serão atropelados pelos custos exorbitantes que não estão gastando no momento. A possibilidade da retirada de obras em massa ou de compositores que não terão torcida frente aos grandes escritórios é grande. As escolas precisam se assegurar que essas parcerias estejam resguardadas.

De uma forma ou de outra, mesmo que decidam manter a suspensão das disputas, é urgente que as escolas encontrem maneiras de promover a sociabilidade, dentro dos limites sanitários impostos, promovendo a conexão com suas comunidades para fazê-las sobreviver, tanto no aspecto financeiro quanto sendo verdadeira para com os seus ideais. Sumir do imaginário social até ser possível realizar as disputas de forma presencial é jogar mais uma pá de cal no ideal das “Escolas de Samba” e chegar mais perto das “Escolas de Desfile”.





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Sou prece festiva, sou fé encarnada. Sou graça acolhida, sou voz Imaculada. Ó virgem, mãe de Deus, a ti entrego meu coração, que carrego no peito, na ginga e nas mãos. Faço do meu cantar peregrina e popular oração.

Sou, no alto do penhasco, o pedido ouvido, onde é sentido o calor e força de sua presença. Não há mal que vença, nem “serpente” para aterrorizar. Faz muito tempo, que lá na freguesia do Irajá, nos domínios do capitão Baltazar, estava presente o sagrado manto da mãe, que, ao ouvir do homem, em seu clamor amedrontado, enviou um lagarto abençoado para sua vida zelar. Pela graça alcançada, uma igreja em seu nome se erguia. A capela um dia seria grandioso santuário, mas também cenário da festa de consagração de tambores, pessoas, sabores e rosários.

Sou Te Deum da colônia portuguesa. ”Nós vos louvamos, ó Deus. Nós vos bendizemos, Senhor”. Querubins e serafins subiam a escadaria dançando fados por seu amor, entre pandeiros e fitas desfilava a romaria de viras, onde as promessas se cumpriam. Quem viria a fazer cortejo seriam Marias, como tu, ó mãe. Que levas o divino Deus nos braços, como as negras baianas com seus os cestos em laços, trazendo quitutes e afagos com os sabores da terra africana.

Sou o som dos tambores já brasileiros da “festa de outubro”. Onde os abastados faziam rezas no templo, onde pretos e pobres dançavam ao vento. A união de tudo, da cachaça e da água benta, do girar apressado e da prece lenta, da liturgia sagrada e da profana dança que desorienta o olhar e o passo de quem lhe contempla. A festa, filha da desigualdade é o triunfo da pluralidade do povo e de sua vontade de ser feliz, de compartilhar e exaltar a própria raiz.

Sou o canto da reunião de preto foro, quilombolas e escravos que, anos depois, virou folguedo de trabalhador pobre e favelado, mas que reunia olhares dos abastados. Dos pontos e canções aos santos, cristão, nagô ou yorubá.  Nascia ali, entre barracas de Ciata, Josefa e Dadá, um novo marco da música popular. O comércio fervia, os jornais cobriam, a cidade partia em direção a Leopoldina para, na Penha, festejar. Dali surgia a canção que na folia de Momo iria reinar.

Sou marcha de ranchos e cordões que pela festa frequentavam. A marra de sambistas e malandros que na festa “duelavam”. A farra de populares que, num carnaval fora de época, a festa transformara. A “beca de pano novo” que Cartola usava para pedir proteção à santa padroeira. O desejo realizado pela mulher amada, de Francisco Alves em seu “braço de cera”. O samba de Vadico e Noel com “feitio de oração”, pela morena que entristeceu seu coração; ou o pedido chorado de quem subiu a Penha a pé, para mostrar sua fé e exaltar Gonzaga e seu “baião”.

Sou a poesia de tantos artistas, de Blancs, Beths, Novos Baianos e Caetanos, que ano após anos ainda fazem questão de preservar minha memória. Sei que sou história viva de minha região, sei que estarei presente em cada oração, sei que serei cantada e escrita num guardanapo em um bar ou em um “la la iá” na palma da mão. Pois minha gente da Leopoldina sempre soube fazer festa e reinventa a própria tradição. Quem diria que hoje eu seria enredo em Olaria e inspiração de mais uma canção. Que nossa cultura popular vença, seja lá quando o próximo carnaval aconteça, para que todo o povo venha pois sou e quero fazer “batuque pra Penha!”.


Texto e desenvolvimento: Guilherme Estevão
Carnavalescos: Caio Cidrini e Alex Carvalho




 

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Texto-mestre, ou sinopsis

Dizem que, quando o menino, preto retinto, nasceu com cara de quem tem fome aqui no Morro da Cachoeirinha, veio um anjo atrapalhado, desses que vivem se escorregando pelo caminho, desengonçado, que disse: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! E o garoto foi. Desajeitado, mas foi. Entre cambalhotas, tropeços e acertos, mas foi. Tudo para ele virava espetáculo. Tanto que ele não era apenas um. Carlinhos era vários!

E o garoto, muito travesso, debandou com tantas pernas por aí, sempre a se aventurar. Não parava num canto. Escorregava daqui. Escorregava dali. Escorregava acolá. Era difícil de segurar Carlinhos! Preto sabido, driblou a miséria, cortou na mão as dificuldades que a vida lhe impusera. De verdade, meu cumpadi, não tinha tempo ruim para ele! Até porque sabia tirar proveito de tudo para viver, por alguns instantes, em céu de brigadeiro! Eita, menino arteiro!

Um dia, o mé, que bota a gente comovido como o diabo gosta, fez Carlinhos sair perambulando pelo subúrbio carioca. E no meio do caminho do garoto tinha um bloco. Tinha um bloco no meio do caminho do garoto. Era o União da Guanabara, com tanta gente com cara de fome que nem ele, improvisando no visual e na percussão. Foi ali, rapaziada, que o guri da Cachoeirinha viu no samba uma possibilidade de ser estrela na vida. Carlinhos, daí em diante, nunca mais se esqueceria deste dia. Nunquinha! Porque descobriu ser pé de valsa, cortejando feito mestre-sala. Porque descobriu que também era mestre-sala na arte da música de se reinventar, levando jeito para tocar, de forma incomum, um velho reco-reco cavado num gomo de bambu. 

É, o moleque era atrevido! Tão atrevido que não demorou pra como Carlinhos do reco-reco ficar conhecido! Que ironia, né?! Ganhou o apelido de um instrumento que, em suas mãos, virava ouro, deixando de ser considerado da ralé! E logo não tardou para ele mesmo fazer seu reco-reco, com metais, parafusos e mais o que se tinha por perto. Mas a protagonista da parada era a mola. Ela, igualzinha a ele, ora! Que encolhe, estica, parada não fica, balança, mas não cai! Ui, ui, ui, papai!

Carlinhos, nessa bagaça, embarcou no bonde do samba e conheceu, pelas bandas de uma tal Praça, o Clube dos Baianos, onde deixou de ser um simples frequentador para começar a virar um artista que tira o seu ganhapão tocando. A admiração pelo talento de Carlinhos era tanta que fez com que ele ali mesmo fosse parar num tal de Modernos do Samba, que depois virou Originais. Neste grupo, meu cumpadi, só tinham os de fé, os geniais!

E o sucesso foi chegando, no sapatinho, como: contando sobre a nêga Tereza, que deixou de pista um malandro, indo dar uma sambadinha lá no morro com outro fulano; tirando sarro da cuíca da vizinha Maria, que adorava um sururu na esquina com o Peru; e entregando que, de tanto glup glup pra lá, glup glup pra cá, acabou acontecendo uma Tragédia no Fundo do Mar!

Enfim, o rapaz, danado que só, destaque no grupo, foi ganhando mansamente os palcos da vida e do mundo, mundo, vasto mundo.

Carlinhos, como um bom batedor de pernas que era, também foi dar um rolé em Mangueira, pelas vielas da favela! Ele era gente da gente! Gostava de dar perdido principalmente nas biroscas que tinham no Buraco Quente! Onde vista assim do alto mais parece um céu no chão, pisou miudinhosobre folhas secas e até foi parar no quintal de Dona Neuma! Lá, aprendeu que madeira de dá em doido é jequitibá! A partir de então, do Morro de Mangueira, não queria mais arredar o pé, não!

O moleque, rapaziada, acabou ainda se apaixonando por uma tal de Primeira Estação! Carlinhos dizia que era um sentimento tão grande que nem cabe explicação! Daí, varava as noites na Cerâmica, fazendo amizade com tantos bambas consagrados. E também não perdia a oportunidade de mostrar na quadra da Velha Manga que entendia do riscado! E escola de samba ensina… Ah, como ensina! Deixou na memória de Carlinhos marcado o Mundo Encantado de Monteiro Lobato e toda poesia e verdade do Reino das Palavras de Carlos Drummond de Andrade! Como dizem, torcer para a Mangueira é o a-a-a-ço! Imagina só: Quanto orgulho o rapaz não tinha de ter participado dos desfiles a esses escritores que deram à Estação Primeira campeonatos?!

Ah, e sabe quando, mesmo sem querer querendo, você vira de uma família membro e até apelido acaba tendo? Foi justamente isso que aconteceu com Carlinhos! Ele ficou todo prosa, pois agora era filho da Manga Rosa! E embalado pelo som dos tamborins e o rufar do tambor que cortavam a manhã, percebeu que era Mangueira, sim! Pra hoje, pra sempre e até pra Amanhã!

E pernas pernas pernas. Nas suas andanças, Carlinhos foi até parar nas telas. De um jeito atabalhoado, sempre com a cara assustada e os olhos esbugalhados, caiu nas graças do povo! E ele era realmente muito engraçado! Todos queriam vê-lo de novo e de novo e de novo! Mas ora, ora, quem diria! O rapaz que para ator achava que não levava jeito nenhum, ganhou de Grande Otelo até o apelido de Muçum - peixe escorregadio, difícil de pegar, que se adapta em qualquer lugar! E se não bastasse de aventuras isso tudo, com seus ezis e izis, foi parar na Escolinha do Professor Raimundo!

É! Mussum era mesmo palhaço, um insociável, que, mesmo abduzido ao Planalto dos Macacos, adorava fazer graça, levando toda gente a morrer de rir, perder o ar de tanto dar gargalhadas!

É, meus cumpadis, Não tinha jeito, não! O circo tava montado! Nas voltas que o mundo dá, Mussum foi virar um global Trapalhão! E nas poltronas,de casa, dos cinemas, ou de qualquer outra apresentação, o palhaço era aclamado, a grande estrela, a atração!

Mas quis a vida pregar uma peça no menino que vivia pregando peça nos outros. Carlinhos foi se empirulitar. Só que seu sorriso continuou passeando por aí! Tá em todo lugar! Dando esperança a tantas crianças! Estampando lembranças! Atravessando o tempo para de novo uma pindureta armar! Reivindicando o direito de que ser pretis não é absurdo!

Reinventando a arte num mundo caduco!

E segue, meus cumpadis, com seus bordões eternizados, perambulando por aí, o que um anjo atrapalhado disse ao garoto daqui do Morro da Cachoeirinha: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! 

É, Carlinhos é mesmo uma estrela, sim! Pra sempris em nossos coraçõezis... E fim!


Carnavalescos:Eduardo Minucci e Raí Menezes.
Texto, pesquisa e desenvolvimento: Mateus Pranto e Raphael Homem


Inserções feitas no texto com trechos de “Poema de sete faces” e “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade; de “Sei lá, Mangueira”, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho; de “Jequitibá”, de José Ramos e Marcelino Ramos; “O meu guri”, de Chico Buarque de Hollanda. 


Obra consultada

BARRETO, Juliano. Mussum forévis – samba, mé e Trapalhões. Disponível

em: <https:/ sambrasil.net/wp-content/uploads/2018/06/Mussumfor%C3%A9vis-Juliano-Barreto.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2020.

 



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"Iroko – É tempo de xirê"

Iroko Kisselé! Eró Iroko Issó, Eró!

No princípio, havia eternidade.

E, na eternidade, tempo ainda era silêncio.

Dança antiga da criação, o Aiyê fez-se nos mistérios do Axé.

O tempo começava a falar.

Plantou-se a primeira árvore, Iroko, Iggi Olórum, e ele passou a escutar a voz do tempo.

Genitor do sagrado, raízes para o alto e para baixo, Aiyê e Orun ligados.

Orixá da Árvore, Árvore Orixá – e os outros Orixás por ele descendo ao Aiyê!

Árvore-Orixá dos mistérios, raízes ancestrais no fundo da terra e também bailando ao vento pelos céus.

Orixá-Árvore do infinito, do início e do fim, mestre de todas as Árvores, e todos os Osa Iggi curvam-se à sua existência.

Árvore da vida do que é, do que foi, do que virá a ser, e a vida seguindo sendo vida.

Irmão de Ajé, a feiticeira mãe de um passarinho, e de Ogboí, a mulher com dez filhos, é a Árvore das mulheres-pássaros iamis, semeadoras rígidas das respostas aos pedidos.

Germinou como lar e guardião da ancestralidade, enquanto ele reside mesmo é no tempo, sem amarras, nem clausuras. Quando os oluôs pediram para Iroko fazer parte do Axé, não quis ele casa alguma: viveria livre junto ao Povo de Santo, junto a todas as Nações.

No balanço do tempo, Iroko acolhe os temores e consola as aflições. Justiceiro, Iroko dá, Iroko tira. Engole os devedores. Corrige as desfeitas. É clemente com os arrependimentos.

Conforta suas iaôs…

…E guarda a natureza!

Foram os Orixás ao encontro de Iroko e então Iroko-Árvore, Morada dos Orixás. Grande e belo, Iroko protege da tempestade e conversa com o vento, através dele suspirando seus chamados e espalhando sua dádiva.

Iroko, Orixá do Morim, cabendo aos homens abraçá-lo com o ojá. Na Dança da Avania, andando Iroko pelo Aiyê, conta o que viu e o que ouviu, quando amou e quando guerreou, ao fim fincando-se no chão, a Grande Árvore Sagrada.

Iroko dos ciclos, da terra, do ar, do fogo; do sol que brilha quente e forte queimando o mundo, às folhas mortas que caem sob o desígnio do tempo rotundo; do frio gelado que castiga com dores na alma, às flores do recomeço da cicatrização da ferida; da vida sem vida dos minerais, à magia da água como fonte mãe alimento do Axé da vida da natureza.

Irôko Issó! Eró! Irôko Kissilé!

Iroko dos caminhos. Caminhos que vem e vão, e o mundo rodando à sua vontade. Na floresta, ao lado de Ossain, declama com seus galhos e folhas os retorcidos mistérios do verde universo. Orixá se transmuta em árvore, árvore se torna Orixá e o povo virando no Santo! O Grande Guardião e a vida em louvação.

Orixá Árvore das trilhas em cruzamento e Iroko Senhorio do Otim. Árvore também vivenda dos mortos, com Icú revelando-se indomável aos seus pés durante a noite. ÁrvoreCemitério, dos ajejês, dos abicus, lança sua sombra cobrindo os términos dos ciclos, em junção com os segredos de Nanã e Obaluayê.

Generoso, grande amor de Yewá, Iroko também brilha e vibra possibilidades de renovação.

Senhor do que recomeça, do que o vento leva e traz no toque do atabaque da transformação, pois ele ouve o tempo e o tempo segue, ciclo eterno de mudança.

O branco, a sua cor, união de todas as cores do arco-íris da sua ligação com Oxumarê, o mesmo branco do sangue dos ibis. Ele, a brasileira Gameleira, em comunhão com Obatalá.

Assim, a Árvore-Orixá da fartura e da fertilidade, feliz, dá frutos: Árvore Maior, Iroko é e será para todo o sempre a abundância na plenitude dos dois mundos. De sua copa frondosa, resplandece o equilíbrio sobre tudo, Iroko regenerando a vida infinitamente, fazendo triunfar a união na paz de Oxalufã, cujo opaxorô é feito de um de seus galhos.

Enfim, rigoroso, caem as folhas como lágrimas de desespero, implacável contra aqueles que cultivam o erro. O Orixá que brada a guerra quando não é tempo de perdoar. Todavia, Iroko também sabe curar, sempre disposto a ouvir.

E como gosta de ouvir! Lamentos, pedidos, choros, rezas, agruras, dores, tristezas.

Paciente, escuta-os. Reto, cobra as alegrias e as farturas atendidas. Mulheres e homens, nas raízes e tronco sob as folhas, batem cabeça pelas bênçãos do seu Axé, por perdão pelos erros cometidos.

Os antigos ainda contam, por fim, que Iroko soprou através do vento um chamado a uma jovem que dançou e rodopiou, indo girando ao seu encontro para tornar-se Filha…

… E hoje, em sua homenagem, Ela, a Unidos de Padre Miguel, pede licença!

Com o Estandarte resplandecendo o vermelho do nosso sangue fervendo Carnaval e o mesmo branco do ojá de Iroko, pedimos licença para celebrar a felicidade da devoção e oferecemos o banquete da alegria de viver sob a sombra da Árvore Sagrada.

A Unidos de Padre Miguel, emocionada e aguerrida na gira da Vila Vintém a passar pela Sapucaí, canta os mitos e estórias sagrados, festejando as raízes, o tronco, os galhos, as folhas e o Axé da Grande Árvore, ajoelhando-se respeitosa aos pés de Iroko pelas graças abençoadas do Orixá!

Aqui e agora, tributo ao Senhor da Árvore, é Tempo de Xirê!

“No tronco da Gameleira,
Meu Iroko eu vou louvar!”.

Carnavalesco: Edson Pereira
Enredo: Edson Pereira e Comissão Artística
Sinopse e pesquisa: Edson Pereira, Victor Marques e Clark Mangabeira
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Maior cidade escravista das Américas, o Rio de Janeiro foi o palco da assinatura da Lei Áurea, diploma legal que extinguiu a escravidão no Brasil. Abolir o trabalho escravo, porém, não foi suficiente para promover as mudanças tão desejadas por todos nós. Abandonados pelo Império, continuamos sem condições para uma existência decente. Libertos, tornamo-nos prisioneiros da miséria nos cortiços, nas ruas, nos trabalhos precários e na ausência de direitos humanos e sociais básicos. Discriminados e marginalizados, sem cidadania, sem alternativas para uma vida digna, fomos lançados à nossa própria sorte. Excluídos – no dia seguinte, na década seguinte, no século seguinte –, vivemos, até hoje, sufocados. 

Hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito. Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo “democracia racial”, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados.

Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA.

E resistir é ter nossa história, antes negada e silenciada, ressignificada e recontada no carnaval, lugar de alegria, mas também de diálogo com o mundo. Ao som dos tambores ancestrais, o Salgueiro foi pioneiro na introdução da temática africana nas escolas de samba. Seguiu na contramão da narrativa “oficial” do país e deu vez e voz aos personagens, heróis e protagonistas pretos. Como um Griot, transmitiu ricas histórias por meio de enredos que revelam a participação da escola no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional. 

Resistir é plantar um legado nos “chãos” do Rio de Janeiro. Criamos Quilombos, lugares de resistência e insurgência negra, com estrutura politica, econômica e social africana. Revivemos a história nas marcas deixadas na Pequena África, região que se destaca como lugar de acolhimento e também por personagens como as tias baianas festeiras da Praça XI, cozinheiras e Mães de Santo celebradas até hoje pela fantasia e pelo rodopio que as nossas Alas de Baianas exibem. Foram elas que formaram o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de Candomblé.

Resistir é professar nossa fé. Por ela nos unimos nas irmandades religiosas que faziam filantropia por justiça social. Construímos os terreiros de Candomblé, templos que são uma reinvenção do macro universo cultural e religioso trazido do continente africano. Desenvolvemos o Culto Omolokô e criamos a Umbanda, religião afro-brasileira surgida no Rio de Janeiro, que sincretiza elementos do Candomblé, do Espiritismo e do Catolicismo. 

Resistir é expressar nossa cultura para manter a continuidade de valores civilizatórios. Com a benção dos orixás, entramos na cozinha, espaço de saber, para alimentar o corpo e a alma. Para transformar alimentos, hábitos e a própria culinária brasileira. Ao som dos atabaques, “compramos o jogo” nas rodas de capoeira e dançamos jongo ou caxambu. Pisamos nos gramados para expulsar os cabelos esticados e o pó-de-arroz que “disfarçavam” a cor da nossa pele. Brilhamos nas passarelas e nas ruas com as formas, símbolos, cores e texturas de nossa moda. 

Resistir é fazer arte. Inquietos por representatividade e pela visibilidade que insistem em nos sonegar, criamos nossas próprias narrativas e espaços nas artes cênicas, como o Teatro Experimental do Negro. Assumimos nosso protagonismo e nos fizemos enxergar também por meio da literatura, da dança, das artes plásticas. Espalhamos para o mundo a vocação artística que reside em nós. 

Resistir é festejar. É revelar nossa maneira de ser por meio das festas, do modo de celebrar a vida, do entusiasmo que propicia o resgate de nossa identidade e afirmação existencial. Desde o chorinho na Festa da Penha, passando pelas escolas de samba, afoxés e blocos afro. Pelo pagode à sombra da tamarineira, pelo funk carioca e pelo charmoso baile sob o viaduto de Madureira.

Resistir é existir. 
É continuar a reverberar a coragem dos nossos heróis contemporâneos de pele preta. 
É saber que somos frutos de uma mesma raiz de igualdade, fé, esperança, arte e vida. 
É crer que nenhuma luta foi em vão. Que nenhuma luta será em vão. 
É persistir no sonho de igualdade para que ele não seja silenciado. 
É entender que, juntos, em cada passo e em cada pequena mudança, seguiremos adiante. 
E é ter certeza que no dia em que fizermos cair todas as máscaras da discriminação, conseguiremos, enfim, respirar.   

Autoria e curadoria: Dra. Helena Theodoro
Carnavalesco: Alex de Souza
Concepção: Eduardo Pinto e Marcelo Pires (Diretoria Cultural)
Texto: Paulo Barros
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