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Carnavalize

 


Texto: Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco

Uma história pode ter mil versões. Ao longo das construções narrativas, algumas verdades acabam cristalizadas, mas nem sempre condizem com as realidades dos fatos. Ainda mais se tratando de culturas populares e orais, diversas versões podem se sobrepor e uma delas acabar sendo considerada "oficial" por uma série de razões históricas. 

Bom, e o que isso tudo tem a ver com a escola de samba? Tudo! As agremiações carnavalescas sempre se equilibram na corda bamba entre tradição e modernidade. Por isso, muitas delas precisaram afirmar exatamente a sua importância e a sua carga de inovação por meio de certos pioneirismos, que nem sempre são verdadeiros se olhados mais cautelosamente. Tentando desmistificar algumas verdades do carnaval repetidas por mais e mais pessoas sem a devida checagem dos fatos, resolvemos listar 7 equívocos comuns ao se contar a história do carnaval carioca.

Vale destacar que de nenhuma maneira estamos tentando deslegitimar certos personagens ou diminuir sua importância, mas sim abrir novos debates e possibilidades. Além disso, é sempre bom lembrar que a História sempre merece ser revista e recontada com novos fatos e perspectivas, como bem a Mangueira nos contou em 2019. Por isso, nossa tentativa também é revisitar alguns pontos e tentar discuti-los. Vem com a gente!


1 - Ismael Silva e a fundação das escolas de samba


Já começamos com o mais polêmicos dos assuntos! Se a pergunta for quem inventou o termo “escola de samba”... Todo mundo conhece a versão oficial que o próprio Ismael Silva contou sobre o que teria sido o surgimento da primeira escola de samba do Brasil. Foi em entrevista ao jornalista Sérgio Cabral, na década de 1970, que a história se cristalizou, mais de quarenta anos depois do ocorrido. A narrativa de que um grupo de sambistas teria se inspirado numa “escola normal” para fundar “uma escola de samba” deve e pode ser relativizada, já que a história apresenta algumas contradições. 

Ismael Silva na Festa da Penha. Foto: O Globo.

Primeiramente, a Deixa Falar nunca desfilou como escola de samba - no contexto em que as entendemos hoje -  durante os concursos promovidos desde 1932, mas sim foi fundada como bloco e chegou ainda a filiada aos desfiles de ranchos. Depois, pois é completamente impreciso o surgimento do termo “escola de samba” nos jornais da época, já que antes mesmo de 1928 já é possível ver registros do uso da expressão. Existem ainda estudiosos que relativizam a própria existência de uma “escola normal” na região do Estácio de Sá. Fato é que a contribuição de Ismael Silva e do grupo do Estácio para o samba de “desfilar” é inegável musicalmente falando. No entanto, se de fato teria sido a “Deixa Falar” a primeira escola de samba carioca… O papo já é bem controverso e preciso ser mais estudado e debatido. 


2 - Pamplona e o primeiro enredo "negro"


Outro narrativa super “verdade estabelecida” do carnaval envolve outro personagem que tomou para si a narração dos fatos. Fernando Pamplona tem importância inegável na história do carnaval brasileiro; sua atuação no Acadêmicos do Salgueiro revolucionou o que se entendia até então como escola de samba. Porém, um dos mitos conhecidos sobre a atuação do cenógrafo do Municipal é que ele teria feito o “primeiro enredo ‘afro’” das escolas de samba. 

A abertura do desfile sobre o "Quilombo dos Palmares" em 1960.

Mais uma vez a informação não se confirma dando uma olhada mais atenta a temas e sambas apresentados nas décadas anteriores pelas agremiações. O próprio Salgueiro já havia desfilado com “Navio Negreiro” anos antes, assim como temas em louvor ao estado da Bahia e ao próprio samba já haviam se apresentados, sendo temáticas muito próximas às de certa “negritude”. Fato foi que, além de trazer o “Quilombo dos Palmares” para a Avenida, Pamplona ajudou a criar toda uma uma estética afro-brasileira de afirmação da negritude em seus enredos, em contato como movimentos artísticos, sociais e de pautas étnica-raciais do período. Sem dúvidas, promoveu uma “revolução salgueirense”, como dizem.


3 - Os mitos sobre Xica da Silva 


Ainda permanecendo na Academia do Samba para discutir mais uma polêmica, outro suposto pioneirismo da vermelho e branco envolve seu desfile de 1963, sobre Xica da Silva. Se de fato esse é um desfile seminal para entender as escolas de samba como as conhecemos hoje, seja em estrutura narrativa ou em estrutura estética, há alguns mitos que o cercam. 

A famosa "Ala do Minueto" se apresenta no Quitandinha após o carnaval. Foto: Manchete. 

O primeiro diz respeito a quem o assinou. A criação do cortejo sobre a “escravizada que virou nobre” é toda mérito de Arlindo Rodrigues, enquanto Fernando Pamplona pouco se envolveu, já que o artista passava uma temporada na Alemanha e não gostou da ideia do enredo, a princípio. O trabalho de Arlindo foi trazer uma narrativa importante sobre uma personagem negra brasileira, mas não se tratava do primeiro “enredo feminino” da festa. Outro equívoco comum é atribuir a “ala do minueto”, de Mercedes Baptista no desfile, como a primeira “ala coreografada” da folia. A primeira bailarina negra do Municipal já vinha dando expediente no Salgueiro desde 1960, já tendo coreografados outros grupos  sintonizados aos enredos desde então. Os dozes casais que bailaram a dança europeia estavam nessa lógica, mas não foram os primeiros a dançar passos marcados durante um desfile. Mas de fato, foram os que mais se eternizaram durante o período. 


4 - Dona Ivone: a "primeira compositora"


Do Salgueiro à Serrinha! Falar da história do samba-enredo como gênero musical é, com certeza, passear pelas grandes obras do Império Serrano. A verde e branco tem importância fundamental para a festa no quesito musical, brindando o público com inesquecíveis clássicos do gênero. Uma dessas obras-primas é o “Cinco baile das história do Rio”, composto por nada menos que Silas de Oliveira, Bacalhau e Dona Ivone Lara. 

Dona Ivone desfile pelo Império Serrano na década de 1980. Foto: O Globo.

A versão oficial é que este seria o “primeiro” samba-enredo composto por uma mulher na história da festa, o que também pode ser contestado. Primeiramente porque é muito provável que muitas outras mulheres já tenham composto sambas para outras agremiações, sem que pudessem ter assinado suas obras. O caso geral se assemelha com a própria Dona Ivone, quem já versava e fazia suas canções antes daquela ocasião. Há versões que indicam que um outro clássico da Serrinha como “Tiradentes”, de 1949, já poderia ter a contribuição da cantora. Especulações à parte, fato é que a primazia feminina na composição deve ser atribuída (até aqui) para Carmelita Brasil, a primeira mulher a dirigir uma escola de samba. A presidente da Unidos da Ponte assinou as canções da agremiação entre 1959 e 1964. Para saber mais da importância de figuras tão fundamentais como Carmelita e Dona Ivone, a pedida é ler a nossa “Série Mulheres”, que destrincha a presença do gênero no carnaval. 


5 - Olegária dos Anjos e a “primeira destaque”


Por falar em Império Serrano, a escola também gosta de reivindicar outra inovação no formato dos desfiles carnavalescos: a primeira destaque do carnaval carioca, Olegária dos Anjos. Os sambas-enredos de 1992 e 2007 traduzem a afirmativa ao cantarem que “o primeiro destaque surgiu em minha pauta musical” e “no primeiro destaque e na comissão, as novidades verde e branca meu irmão”. Mas a história que traz o protagonismo de Olegária - quem também era casada com o ritmista Calixto dos Anjos Filho  - para o centro dessa função na festa é bem incerta. 

Olegária posa com uma fantasia na década de 1960. Foto: Acervo Rachel Valença. 

Pesquisador do universo dos destaques de luxo, João Gustavo Melo relativiza a suposta primazia de Olegária no seu livro “Vestidos para brilhar”, publicado pelo selo Carnavalize. A atuação da desfilante não teria dito tanta repercussão na sua época, não sendo notabilizada na imprensa nem em relatos dos desfiles da Serrinha entre os anos de 1950 e 1960. A construção da versão de Olegária como “primeira destaque” foi construída muito depois do que teria sido seu “surgimento”. Foi um resgate posterior, em livros e reportagens, depois que a ideia de “destaque” já havia sido cristalizada enquanto personagem na folia. Isso tudo muito pela atuação de Isabel Valença no Salgueiro e seu sucesso midiático…. Mas esse detalhe é outra história. 


6 - Ratos e Urubus "só tinha mendigos"


Chegamos a uma figura cercada de controvérsias e que construiu muitas histórias em torno de si: Joãosinho Trinta. Com seu poder narrativo e sua forte oratória, o artista se tornou um dos principais e mais famosos nomes do carnaval no mundo inteiro. Sua vida pode ser cercada de polêmicas e relatos que podem ser contestadas, mas o fato muitas vezes entendido como verdade aqui tem menos a ver com o maranhense e mais com a sua “obra-prima”, o desfile “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, feito pela Beija-Flor em 1989. 

Um dos setores pra lá de luxuosos do desfile de 1989.

A apresentação ficou imortalizada no imaginário brasileiro por sua abertura impactante com foliões trajados como mendigos e abençoados por um cristo censurado pela Igreja, que ganhou uma lona preta e a eterna frase “mesmo proibido, olhai por nós”. Muito se diz que os componentes em farrapos tomaram conta da escola inteira, o que não é verdadeiro. Os grupos de “mendigos” apareceram apenas nos primeiros setores da agremiação, enquanto outras alegorias e alas trouxeram ainda mais luxo para a Avenida. 

A narrativa passeou por diversas visões de “lixos” da sociedade, como a Igreja, a política, o sexo, a infância e a guerra. O visual trouxe um “luxo” simbólico, muitas vezes sujo e destruído, mas nem sempre os trapos da abertura se reproduziram no desfile. Uma outra fake news também difundida sobre a apresentação é que estas pessoas seriam “mendigos” de verdade, quando a impressão veio justamente do trabalho cênico impressionante comandado por Amir Haddad. É aquilo: a ficção foi tão bem feito que se misturou com a realidade. 


7 - Paulo Barros inventou "as alegorias humanas"


Enganou-se quem achou que as pós-verdades carnavalescas se restringiam apenas a décadas passadas e com menos registros tidos oficiais. Até hoje a necessidade de criar afirmações e primazias acaba criando verdadeiras ciladas narrativas. Chegando ao século XXI, um mito muito comum à história recente da festa é que o carnavalesco Paulo Barros inventou as chamadas alegorias humanas. Se a importância do carro do DNA em 2004 é inegável para a consolidação destas, a ocasião não foi de longe a primeira vez que uma alegoria teria uma estrutura vazada composta por um número expressivo de componentes. 

A inesquecível alegoria do DNA, na Unidos da Tijuca em 2004.

Antes de Paulo trazer a suposta novidade que deixou todos de queixos caídos, algumas tentativas parecidas já haviam sido feitas por Oswaldo Jardim, na década de 1990, em desfiles como “Gbala”, na Vila Isabel, em 1993. Até mesmo Joãosinho Trinta já havia criado carros com centenas de composições na Beija-Flor, com exemplos que podem ser vistos em 1983 e 1988. Assim, a importância de Barros se dá menos por “ter inventado” algo, mas sim afirmado aquela linguagem como sua e ter dado a ela uma nomenclatura que se tornou oficial. 


"Quero ser a pioneira?" 


Este é, aliás, um gancho ideal para encerrar nosso passeio por alguns mitos nem tão verdadeiros assim do carnaval carioca. A tentativa não é de nenhuma maneira desprezar essas personagens, mas tentar lançar luz para os processos que se estabeleceram. Estudar mais sobre esses casos é entender as complexidades que formam as escolas de samba, já que muito mais importante que descobrir suposta “primazia” de algum evento é compreender como certos elementos foram cristalizados historicamente, marcando como isso nos mostra sobre disputas e construções da festa. 

Nada surge de maneira espontânea e imediata; os elementos são construídos ao longo de diversas trocas e movimentos, o que deixa as escolas de samba ainda mais interessantes e importantes de serem estudadas. E é função de todos os apaixonados pela festa olhar com atenção e cuidado para os sujeitos e as agremiações que formavam e formam a folia brasileira. 




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Desde aquele 7x1 que dispensa recordações, o brasileiro vive tentando entender o que aconteceu lá nas quatro linhas que foram palco da nossa maior desgraça futebolística recente. De onde veio tamanho infortúnio? Como isso pôde acontecer? Exercícios mentais são insuficientes para buscar o sentido do vexame que se abateu sobre nós. Para desanuviar, nada mais justo do que trazer essa partida para o nosso campo de jogo, porque aqui no Carnavalize a gente subverte qualquer revés e transforma a tristeza em folia.

E não é porque o assunto da vez vem com ares solenes que a gente vai deixar de lado nosso jeito malandro, bonito, sagaz e maneiro. Cantar, dançar, pintar, bordar e ser feliz faz parte do perfil do brasileiro. Certo? A verdade é que existem diversas interpretações para o que somos como povo e nação e as escolas de samba sempre se dedicaram – conscientemente ou não – a dar voz a esses conceitos sociais. Neste texto, assumimos a tarefa inglória de pincelar sete vezes em que as agremiações levaram um discurso para a Avenida que nos ajuda a compreender sob que bases está formado o nosso país.

Mas a verdade é que não foram apenas nessas sete oportunidades que vamos passar a relatar que as escolas de samba desnudaram na Avenida esse gigante pela própria natureza: elas fazem isso o tempo todo. O fato de existirem já é narrativa potente; as histórias que contam em fantasias, alegorias, canto e dança só reforçam as vozes circundantes na sociedade e lhes dão eco. Ressalva feita e vamos para a pista: escolhemos alguns desfiles significativos que nos ajudam a montar esse apaixonante e praticamente insolúvel quebra-cabeças chamado Brasil.


1. O samba dominando o mundo (Portela 1935)


Nessas horas, é bom começar do começo. O samba, manifestação cultural oriunda das manifestações culturais, sociais e religiosas negras, era perseguido, discriminado e até assunto de polícia. Estamos no início do século XX. A pujança criativa de ex-escravizados e seus descendentes deu origem ao que conhecemos hoje como escolas de samba. Em 1935, ocorre o primeiro concurso oficial promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, num reconhecimento da relevância cultural daquelas agremiações. À época, havia interesse governamental em unir o país em torno de um projeto de identidade nacional – assim começa a negociação com o poder público. O reconhecimento por parte das autoridades causou tal alegria nos sambistas que praticamente todos as escolas exaltaram tal vitória do samba. A Vai Como Pode – que, em seguida, já mudaria seu nome e passaria a se chamar Portela –, naquele ano, desfilou com o enredo “O Samba Dominando o Mundo”, expressão máxima da satisfação do grupo até então tão discriminado.

Jornal Diário Carioca, de 7 de março de 1935, noticiando a vitória da Vai como Pode. Imagem: Reprodução/PortelaWeb

É inegável que, efetivamente, nos tornamos mundialmente conhecidos pela nossa maior expressão cultural. Mas qual o preço que se pagou por isso? A domesticação para se enquadrar nas diretrizes do poder público, num eterno jogo de negociações, talvez tenha nos custado caro: estamos no ano de 2020 e tais relações não são benéficas para os sambistas. Constantes movimentos de negociação e conflito são uma das maneiras de entender como se dá a tentativa por um consenso nacional, em que vários grupos com interesses distintos disputam a hegemonia.
 
 

2. Casa Grande e Senzala (Mangueira 1962)


Em 1962, a Estação Primeira de Mangueira batizou o seu enredo com o mesmo título da clássica obra de Gilberto Freyre. Como revelou uma matéria do Jornal do Brasil no pré-carnaval daquele ano, o enredo tratava da escravidão, mas pouco se baseava no livro homônimo do autor pernambucano que definiu as bases da “democracia racial”.

Até aquela década, eram comuns temas que exaltavam o nacionalismo, quase sempre do ponto de vista da história oficial, em perfeita composição com o poder constituído. Aqui vale uma ressalva: engana-se quem pensa que este foi um movimento de cima para baixo, ou seja, uma exigência governamental. Na verdade, tratou-se mais de uma continuidade do movimento inicial da busca pelo reconhecimento.

Ala do carnaval da Mangueira de 1962. Foto: Revista O Cruzeiro (24/02/1962).

Mas chegaram os anos 1960 e os temas relacionados à negritude começam a surgir. E se todo mundo sabe que a Revolução Salgueirense ajudou na difusão de narrativas não-brancas, a verde e rosa também surfava nessa onda no mesmo período mesmo sem ter Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues como seus carnavalescos. Nem sempre, porém, isso significou uma ruptura no pensamento vigente, já que a narrativa propôs uma visão romantizada que passeou por engenhos, plantações e senzalas. Recorramos à letra do samba da Mangueira em questão para explicar um pouco o que isso quer dizer:

“Pretos escravos e senhores
Pelo mesmo ideal irmanados
A desbravar
Os vastos rincões
Não conquistados
Procurando evoluir 
Para unidos conseguir
A sua emancipação
Trabalhando nos canaviais
Mineração e cafezais
Antes do amanhecer
Já estavam de pé
Nos engenhos de açúcar
Ou peneirando o café”

Não surpreende a visão romântica de construção de um país se levarmos em consideração que a própria obra ensaística que serviu de base ao tema do samba-enredo também assim se coloca. Em Casa Grande & Senzala, apresenta-se certa visão do processo da escravidão que sugere uma harmonia nas relações entre negros e brancos que é certamente questionável. Afinal, o que se passou a chamar de democracia racial nunca existiu no Brasil, tendo em vista que seria impossível que escravizados e senhores se irmanassem por qualquer ideal em uma relação marcada pela exploração e pelo comércio de seres humanos. No entanto, essa visão perdura, de certa forma, em nossa sociedade, numa tentativa de apagar a luta contra o racismo estrutural que nos assola.


3. Educação para o desenvolvimento (Beija-Flor 1973)


Parece verídico: só é possível alcançar o pleno desenvolvimento de uma nação por meio da educação de seus compatriotas! Porém, do enredo da Beija-Flor do ano de 1973 pouco se pode dizer de louvável, uma vez que se tratava de pura e simples propaganda oficial. 

O Brasil, naquele tempo, estava vivendo as agruras dos “Anos de Chumbo” e a ordem era exaltar um país promissor governado pelo regime militar. Citando textualmente no refrão o projeto “Movimento Brasil da Alfabetização”, criado em 1967 (“Uni-duni-tê / Olha o A-B-C / Graças ao MOBRAL / Todos aprendem a ler”), revela-se a exaltação a um dos projetos educacionais do governo autoritário.  O enredo não teve interferência ou apoio direto do regime, mas surgiu de uma diretoria da agremiação que era filiada ao partido alinhado do governo. A narrativa representou os padres jesuítas, pinturas da primeira missa realizada no Brasil e a Cidade Universitária. Já o abre-alas levou levara o nome de “Sol da Liberdade”, além da utilização de caramanchão com flores e beija-flores.

Detalhe da alegoria 1973. Fonte: Jornal do Brasil, 04-03-1973. Página 6.

Não é preciso dizer, é claro, que não cabia nenhum tipo de crítica a tais ações por parte de especialistas no tema ou de movimentos estudantis: estávamos sob o silêncio da ditadura. Pode-se ver, portanto, que as escolas de samba seguiram com suas relações bem próximas com os donos do poder – muitas vezes, até mesmo de dentro das agremiações.  Mesmo com menos visibilidade pela imprensa que as agremiações do primeiro grupo, a Beija-Flor ganhou espaço nas páginas de jornal com seu enredo patriótico e garantiu o campeonato que a levava para o Grupo Especial.


4. Cem anos de liberdade: realidade ou ilusão? (Mangueira 1988)


Novos ares o Brasil respirou nos anos 1980: reabertura, constituinte, esperança de democracia. Tudo isso permitiu que a crítica pudesse ecoar mais livremente pelas narrativas das escolas de samba. Em 1988, no centenário da dita Abolição da Escravatura, a Mangueira questiona se realmente havia algo a se comemorar. Crítica social embasada de consciência: o negro, uma vez livre do açoite da senzala, seguia preso na miséria da favela. 

 A representação de Mangueira dos “cem anos de liberdade”. Foto: Ricardo Leoni.

As lutas contra a opressão do racismo ecoam na Marquês de Sapucaí e mostram que as agremiações carnavalescas nem sempre viveram de submissão aos discursos oficiais que colocam Isabel, a princesa que teria assinado a lei divina, como heroína. Mas, se adentrarmos esse capítulo, além de ficarmos cara a cara com as contradições discursivas brasileiras, vamos ultrapassar nosso tempo regulamentar e, afinal de contas, ninguém aqui está interessando em tomar o oitavo gol, certo?


5. Terra dos papagaios... Navegar foi preciso! (Unidos da Tijuca 2000)


No Carnaval do ano 2000, a temática única para a comemoração dos 500 anos do nosso personagem principal deu asas à imaginação dos carnavalescos, que lançaram mão de diversas narrativas para interpretar a data. Destacamos uma delas, por seu tom ufanista: a Unidos da Tijuca apostou em exaltar o Brasil idílico em que a invasão dos portugueses e a dominação por parte deles sobre os povos indígenas é vista como um ato de comunhão e o despontar de uma nação.

Visão do desfile da Unidos da Tijuca de 2000. Foto: Reprodução/Tantos Carnavais.

Se aqui já falamos da impossibilidade de se construir um consenso de país por meio da violência do apagamento e dominação cultural, nada mais justo do que citar outro mito: o das três raças, em que, teoricamente, brancos, negros e índios compõem harmonicamente o povo brasileiro. Infelizmente, nada mais longe da realidade.


6. A Vila canta o Brasil celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um... 
(Vila Isabel 2013)
 
As baianas de Vila Isabel. Foto: Wigder Frota.

A Unidos de Vila Isabel em 2013 foi certeira ao escolher o título de seu enredo: cantou mesmo uma face incontestável da realidade brasileira. Somos desde sempre o celeiro do mundo, ou seja, nossos recursos naturais servem a mesa de famílias não só no Brasil, mas continentes afora. Motivo de orgulho? Na disputa por reconhecimento internacional, despontam à frente aquelas nações que têm a oferecer no cenário globalizado mais valor agregado – com tecnologia de ponta, inovação e ciência –  do que simplesmente ser o grande pasto mundial ou as abelhinhas que produzem e levam o mel... para bem longe. Não à toa, o enredo foi patrocinado pelo agronegócio, que continua fazendo cada vez mais ricos os riquíssimos. Ironia das ironias: o desfile foi campeão com todos os méritos na pista e eternizou um dos mais belos sambas-enredo da história recente do Carnaval. Quer algo mais brasileiro do que essas contradições?
 
7. Histórias pra ninar gente grande (Mangueira 2019)

 
Trecho da comissão de frente da Mangueira. Foto: Mauro Pimente /AFP.

Mas esse grande caldeirão de contradições, potências e subjetividades pode, sim, entrar em ebulição, fazendo transbordar as memórias subterrâneas que insistiram em silenciar. Bem vivos os personagens que a história oficial não conta – os heróis dos oprimidos –, também foram capazes de levar ao campeonato quem lhes deu voz: Estação Primeira de Mangueira, no ano de 2019. Tudo isso mostra que o embate nunca deixou de existir em nossa sociedade e estamos ainda longe de um consenso acerca de nossa formação identitária. Na Sapucaí, ganham espaço tanto as homenagens à cultura afro-brasileira quanto enredos menos engajados, todos eles disputando os corações dos sambistas. Com relação a certezas, parece possível arriscar uma: quanto vivam as escolas de samba, seguirão sendo peça fundamental para compreender o processo permanente de construção da identidade brasileira, defronte tantos paradoxos que moldam o que ela é.


Referências:

http://www.portelaweb.org/outros-carnavais/decadas-de-20-e-30/carnaval-de-1935
http://encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276730355_ARQUIVO_ANPUH2010_textodacominicacao_LuizAnselmoBezerra.pdf
O Brasil do Samba-Enredo, livro de Monique Augras
Dissertação "Chapa-branca: farda e fantasia nos enredos da Beija-Flor (1973-1975)", de Carlos Carvaho.




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Mês a mês mergulhando em diversos universos particulares que formam as complexas organizações que são as escolas de samba, o Carnavalize decidiu derrubar o protocolo social convencional de evidenciar mulheres apenas em março, quando comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Por isso, a partir de agosto, todas às segundas-feiras, nossos leitores acompanharão em nosso site um novo capítulo de uma série pensada para enaltecer, contar histórias, lembrar figuras e propor reflexões acerca do papel feminino no carnaval. 
Arte: Lucas Monteiro

Texto: Luise Campos
Revisão: Beatriz Freire



“Dona da casa, me dá licença / Me dê seu salão para eu vadiar”


O samba urbano carioca, este fenômeno que catalisou agrupamentos, reuniões, festas e organizações que deram origem às escolas de samba que hoje são – com a devida permissão do chavão – o maior espetáculo da Terra, foi gestado em ventre de mulher. Isso porque consagrou-se como consenso que foi Tia Ciata a grande matriarca de todos nós, sambistas apaixonados. (Como você pode conferir no primeiro texto da nossa série.)

Para além do fato de ser ela apenas uma das que foram as grandes personagens do movimento cultural surgido da inventividade do povo negro ex-escravizado – e, portanto, já louvando todas as outras “tias” que não têm seus nomes registrados nos compilados mais famosos –  venho destacar um viés dessa narrativa que me servirá de mote para começar a falar dessas mulheres. Dessa forma, questiono: quantas vezes Ciata não funcionou como metonímia de sua casa? Ou seja, não é raro que, quando se pense em sua contribuição para o surgimento desse complexo cultural de saberes e significados que hoje chamamos de samba, vem à mente que foi em sua residência o local onde se deram tais dinâmicas sociais.

Fosse isso e já seria grande o feito. Afinal, casa é acolhida. E elas efetivamente receberam a comunidade que se juntava em torno delas, reforçando laços de sociabilidade e identidade por meio de festas e batuques que ali aconteciam. No entanto, o fato histórico, é bom lembrar, se compõe de versões, prismas e camadas: ao passo que se busca conhecê-lo, se revelam sempre novas possiblidades de leitura para um acontecimento. Ciata de Oxum, mais do que líder comunitária e espiritual, foi também a idealizadora de ranchos carnavalescos como o “O Macaco é Outro”, além de ter passado a comandar o “Rosa Branca”. Além disso, há indícios de que tenha sido uma das compositoras de “Pelo Telefone”, obra que é considerada como o primeiro samba registado com essa classificação pela indústria fonográfica.

Fato é que a presença notável das mulheres em todas as frentes dos movimentos de sambistas é real. Jurema Werneck é uma das autoras que, chamando a atenção para que o samba foi uma construção coletiva de diversos gêneros desde sua origem, chegando a afirmar que grande parte das escolas de samba tiveram representantes femininas como fundadoras. Logo, se vê que elas não foram perdendo espaço ao longo do tempo; na verdade, elas sempre estiveram ali, o que nos faz pensar num apagamento nada inocente de suas marcas e vestígios na história.

Portanto, nossa tarefa aqui é apontar algumas dessas representantes que se tornaram mais conhecidas, em nome de todas as outras que, a despeito de existirem, lhes foi outorgado o anonimato. A lista, é claro, não pretende ser exaustiva; é sabido que pesquisas futuras descobrirão mais nomes ainda desconhecidos e, por outro lado, há aquelas cuja trajetória não daremos conta de registrar neste modesto texto. Mas que, ao menos, todas as mulheres se sintam tanto representadas quanto inspiradas pelas histórias das que aqui estão.


O mundo a partir de África e o tambor que fez a gira girar – em São Paulo


Uma mulher bem sabe ser capaz de criar um mundo. Tanto é que, inspirada por uma visita à Praça Onze, no Rio de Janeiro, Deolinda Madre, ou Madrinha Eunice volta para sua casa, em São Paulo, com uma ideia na mala: fundar uma escola de samba. E assim foi. Em 9 de fevereiro de 1937 nasce Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Escola de Samba Lavapés, que passou a ser presidida por ela e é hoje a mais antiga em atividade na capital paulista. Além disso, convém assinalar, a agremiação é também uma das pioneiras da cidade: a “Primeira de São Paulo”, fundada por Eupídio de Faria, havia nascido apenas dois anos antes, em 1935.

Deolinda, fundadora da Lavapés (arquivo pessoal)


Até o ano de 2019, a Lavapés só havia sido dirigida por duas mulheres: Deolinda e Rose Marcondes, sua neta. Em 1995, com o falecimento da avó, Rosemeire toma a frente da agremiação e mantém seu legado. Em 2003, a escola perdeu seu barracão e a preparação do Carnaval passou a acontecer na residência da então presidenta. Quase um século depois, é a casa que abriga a fantasia da representatividade e do lugar no mundo por meio da cultura de tantos descendentes daqueles sambistas de primeira hora.

Hoje, a agremiação é presidida pelo ator Ailton Graça, que lança mão de seu prestígio como artista para obter recursos para a escola. Em 2020, a Lavapés Pirata Negro, como agora é chamada, foi campeã do grupo de acesso II, desfilando no Carnaval de bairros organizado pela Uesp, com o enredo “O mundo a partir de África e o tambor que faz a gira girar”, que não à toa nos apropriamos no título desta seção do presente artigo.

Na esteira de Madrinha Eunice vieram muitas: hoje, o Carnaval de São Paulo conta com um número muito maior de mulheres presidentes do que o Rio de Janeiro, por exemplo. Com trajetórias de sucesso, temos Angelina Basílio, à frente da Rosas de Ouro há quase duas décadas, ganhando um campeonato e três vices no Grupo Especial; a multicampeã Solange Cruz, na Mocidade Alegre desde 2003, já havendo conquistado seis vezes o título; Luciana Silva, da Tom Maior desde 2011; Érica Ferro, que assumiu a Camisa Verde e Branco em 2018, assim como Sheila Mônaco, em 2017, na Pérola Negra. Tudo isso sem falar na lendária Dona Guga, do Morro da Casa Verde, que liderou a escola de 1991 até 2017 e hoje é presidente de honra.


“Veio, no calcanha, de Além Paraíba / Dançando uma xiba, arrastando a sandália”


Voltando para o Rio de Janeiro, mas vindo dos lados do Sul Fluminense, chegamos à Serrinha, morro da Zona Norte carioca, que foi o berço de uma das escolas de samba mais notórias do panteão das agremiações carnavalescas: o Império Serrano. Em São José do Além Paraíba, estado de Minas Gerais, nasce Eulália do Nascimento, no ano de 1909, vindo morar ainda criança em Madureira. Ali, sua família construiu uma sólida tradição de participação e liderança em festejos de cultura popular. Após passagem na antecessora Prazer da Serrinha, um grupo decide fundar uma nova escola. É de Molequinho, irmão de Eulália, o relato que dá conta de como culminou o processo que vinha se desenrolando desde 1946:


“Felizmente no dia 23 de março do ano de 1947, reunimo-nos na casa de Eulália, uma das grandes figuras do Império Serrano, com o propósito da fundação da nossa escola.
Naquela data histórica, e com a presença de consagrados sambistas, foi solicitado aos presentes que apresentassem para discussão o nome que se daria à escola recém-nascida, e as cores de seu pavilhão.
Foi proposto por mim o nome de IMPÉRIO SERRANO, o qual foi aceito por unanimidade; propus também a cor azul e amarelo ouro, não sendo aprovado. A cor verde e branca, que tanto nos tem abrilhantado, foi escolhida pelo Antenor (...)”  
(Trecho do livro "Serra, Serrinha, Serrano", de Rachel Valença e Suetônio Valença)



Voltando a falar de registros históricos e apagamentos, surge a surpresa: dos 31 nomes que constam da ata de fundação da agremiação, não se vê o de Eulália do Nascimento ou de qualquer outra mulher. Consta, por outro lado, o de José do Nascimento Filho, seu esposo, quem, a bem da verdade, era muito menos atuante do que ela em assuntos de samba – sua influência maior era no jongo.

Ainda assim, é de Eulália a carteirinha de número 1 do Império Serrano, onde jamais deixou de desfilar até o fim de sua vida. Viveu até os 97 anos de idade, muito mais do que seu marido, falecido em 1953 – motivo pelo qual, devido ao luto, deixou de desfilar na escola que se confunde com sua vida, ao que consta, foi a única vez em que isso aconteceu. No ano de 2018, a rua Balaiada, onde fica a casa em que morou toda a vida, no alto de morro da Serrinha, passou a ser chamada de rua Tia Eulália, se juntando a tantas outras que há homenageavam anteriormente outros sambistas lugar, como as ruas Mano Décio da Viola, Compositor Silas de Oliveira e Antônio dos Santos Fuleiro. 

A história de Tia Eulália, certamente, não é o único caso de uma fundadora que não teve seu nome dos documentos oficiais – apesar de, no caso dela, a força de sua figura tenha feito com que, ainda assim, seu reconhecimento como líder seja incontestável. Desta forma, passamos a falar daquelas que, ainda que não tenham participado do nascimento das agremiações, chefiaram-nas com rigor e pulso firme: as presidentes.

Tia Eulália no Morro da Serrinha, em 1992, na rua que levaria seu nome em 2018. Foto: Madureira, ontem e hoje.


Há muito pouco em termos de registro formal, crônico problema no que se refere ao tema cultura popular e memória, mas, até onde se sabe, podemos apontar uma possível pioneira no âmbito da presidência feminina nas escolas de samba do Rio de Janeiro: Carmelita Brasil. Líder da Unidos da Ponte durante o longo período que vai de 1959 a 1979, ela foi a responsável por registrar os estatutos da agremiação em 1957, fazendo com que a agremiação se filiasse à AESCRJ e passasse a desfilar dois anos depois no Rio de Janeiro.

Num momento em que não havia, como hoje, a estrutura gigantesca que fez com que as tarefas sejam muito bem divididas em distintos setores de uma agremiação, ela foi, como era comum, responsável pelos enredos e sambas de enredo da Ponte desde o início de seu mandato até o ano de 1964. Vale destacar, ainda, que ela foi também uma das fundadoras da escola e, como é de se esperar, era conhecida por ser rígida e mandona – de que outra maneira uma mulher poderia alcançar tal feito?


Therezinha Monte: a enamorada do samba


Outra história marcante é a de Therezinha Monte, que reivindica (por que não?) sua cota de primazia: se não foi a primeira presidente mulher da folia carioca, foi a primeira delas a ocupar esse cargo sendo eleita. Esteve à frente da Unidos do Cabuçu de 1982 até 1998, ano em quando começa a se despedir da escola que amargava cada vez mais dificuldades financeiras. Mas, nesse período, levou a escola à glória, conduzindo-a ao Grupo Especial, onde ficou por seis anos. Além disso, pode-se dizer que foi a inventora do enredo patrocinado. Num esforço de angariar recursos para fazer bons e competitivos desfiles, lançou mão de parcerias comerciais que se estendem até os dias de hoje nas escolas de samba.

Foi em sua gestão, ainda, que personagens vivos começaram a ser homenageados em enredos – e as “celebridades” passaram a ser figurinhas fáceis na Marquês de Sapucaí. Destaca-se o enredo sobre Beth Carvalho, que levou a escola ao campeonato do Grupo 1B. Quis o destino que o momento mais glorioso de Therezinha à frente de sua Cabuçu fosse rendendo flores em vida a uma mulher. 

Therezinha Monte desfila pela Cabuçu em 1987, no enredo sobre Roberto Carlos. Acervo pessoal.


Após deixar a presidência, voltou a desfilar como enredo. Em 2004, a escola de bairro de Lins de Vasconcelos contou a história de “Therezinha Monte, a guerreira do samba e seus 20 anos de folia na Cabuçu” pelas mãos do carnavalesco Luiz Carlos Guimarães. A personagem foi aclamada, como não poderia deixar de ser: era querida tanto pelos componentes da escola mais humildes quanto pela cúpula de dirigentes da folia durante todo o tempo em que esteve na agremiação. Porém, o desfile não foi bem-sucedido, alcançando um decepcionante 11º lugar que rebaixaria a escola para o Grupo C. O que não apaga em nada o legado da presidente que se dedicou de corpo e alma à sua escola e à sua comunidade.


Ruça: a chefe da Kizomba 


Depois de Therezinha, outras mulheres alcançaram o cargo de maior importância em uma escola de samba. Elisabeth Nunes fez história no Salgueiro, assumindo a escola em 1986; Pildes Pereira, na Unidos de Vila Isabel, em 1987. Mas, neste mesmo ano, assumiu a presidência Lícia Maria Caniné, a Ruça, ficando na escola até 1990, aquela que entrou para a história por ser responsável por um título histórico da agremiação das bandas de Noel: em 1988, a azul e branco foi campeã com “Kizomba, festa da raça”, desfile que é considerado como um dos mais marcantes da história.

Ruça era casada com Martinho da Vila, que foi o criador do enredo campeão e era seu parceiro nos assuntos da escola. Ele, um dos maiores expoentes da cultura brasileira, pode não ter ficado satisfeito em ver sua brava companheira sofrendo do apagamento a que nos referimos tantas vezes nesse texto, dessa vez na transmissão televisiva do histórico cortejo, momentos antes de a escola entrar na Avenida. Ali, Ruça se transformou simplesmente na “mulher de Martinho da Vila”, não sendo mencionado em nenhum momento da entrevista o fato de que era ela a presidente da agremiação.  

Reprodução da transmissão televisiva da TV Globo.

Após o lendário campeonato da agremiação, a presidenta seguiu na liderança por ainda mais dois marcantes carnavais, em enredos ligados fortemente a pautas sociais. Depois do grito negro no centenário da abolição, veio "Direito é direito", em 1989, sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e "Se essa terra fosse minha", em 1990, em defesa da reforma agrária, projeto constitucional de 1988 que até hoje não vingou. Não à toa: Ruça e Martinho pertenciam, à época, ao Partido Comunista Brasileiro, chegando a se opor formalmente à Liga Independente das Escolas de Samba, o Capitão Guimarães, que também já havia liderado a escola do bairro de Noel. Além de boas colocações, os desfiles ajudaram a moldar uma Vila Isabel historicamente sempre engajada nas questões políticas (saiba mais).


“O mundo do samba precisa aprender a respeitar uma mulher”


Final de samba-enredo do Acadêmicos do Salgueiro. Expectativa máxima de todo o público para conhecer a obra que a vermelha e branca da Silva Teles levaria para a Avenida Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2016. O enredo “Ópera dos Malandros” havia proporcionado uma safra de sambas da melhor qualidade e a ansiedade tomava conta da quadra para o anúncio da parceria campeã. Já era quase dia claro quando a presidente da agremiação, Regina Celi, toma o microfone para fazer dar o resultado, não sem antes começar seu discurso com a frase: “o mundo do samba precisa aprender a respeitar uma mulher”. O desabafo tinha um motivo: um áudio vazado de WhatsApp em que sua vida sexual era motivo de questionamento acerca do possível ganhador da disputa.

Se, por um lado, nenhuma novidade há com relação a rusgas e desentendimentos nos concursos de samba-enredo e seus resultados, fica claro que, ao se tratar de uma presidente do gênero feminino, a questão vai além. Alguém se lembra de um homem ter sua gestão administrativa em alguma agremiação ser questionado por causa de algum possível envolvimento amoroso? De fato, notícias de anedotas nesse sentido não faltam, as quais sempre acabam fazendo parte das folclóricas anedotas que envolvem a festa.

Para além das polêmicas – que não foram poucas – que envolveram seus anos à frente da Academia do Samba, teve uma trajetória vitoriosa: assumiu a presidência em 2009, já sendo campeã com o enredo “Tambor” e mantendo a escola na liderança no ranking da LIESA por anos, dada a regularidade das boas apresentações da agremiação. Em 2018, deixa a agremiação em mais um episódio conturbado, graças a uma eleição questionada nos Tribunais de Justiça do Rio de Janeiro. 

Atualmente, no Rio de Janeiro, temos poucas representantes femininas à frente de uma escola de samba. Recentemente, Vera Lúcia Corrêa, que presidia o Império Serrano, deixou a escola após o último Carnaval. Nos grupos de acesso, para citar exemplos, estiveram à frente Kátia Paz, da jovem Renascer de Jacarepaguá, e Tatiana Irineu, do Arranco do Engenho de Dentro, com a responsabilidade de levar à frente o legado de uma escola de samba de um bairro tradicionalíssimo para a história dos certames carnavalescos. O mesmo Arranco hoje tem à frente Diná Santos – é nos grupos menores que as mulheres presidentes, atualmente, se fazem representar. Menção honrosa também para Elizabeth da Cunha, a Betinha, presidente do Acadêmicos do Vigário Geral, escola da Série A do Carnaval carioca. Porém, ainda que recentemente tenhamos visto nomes como Neide Coimbra e a própria Vera (Império Serrano), Chininha (Mangueira) e Beta (Vila Isabel), chegamos a 2020 sem nenhuma mulher presidente no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Que as donas da casa possam, cada vez mais, sentar à sala e participar do banquete principal.

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval


Referências bibliográficas
 
Alma de Cabrocha: uma autobiografia cheia de samba, de Therezinha Monte
Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, de Rachel Valença e Suetônio Valença
O samba segundo as ialodês: mulheres negras e a cultura midiática, de Jurema Pinto Werneck (tese de doutorado)
https://medium.com/@raphasalomo/a-lavap%C3%A9s-no-abre-alas-4a37c8163fa3
https://almapreta.com/editorias/realidade/lavapes-escola-de-samba-mais-antiga-de-sp-vence-carnaval-tradicional-dos-bairros
https://oglobo.globo.com/rio/celina/mulheres-vencem-machismo-em-disputa-de-samba-enredo-das-escolas-do-grupo-especial-24029820


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Por Leonardo Antan, com colaboração de Any Cometti
Revisão: Felipe Tinoco
Artes: Vítor Melo


Salve a Estação Primeira! Depois dos sambas de Oswaldo Cruz e dos ilustres do Morro do Salgueiro,nossa parada de hoje na #SérieBaluartes é no mais famoso dos morros cariocas, aqueles com os típicos barracões de zinco. De uma Mangueira que dá fruta em verde e rosa, preparamos um verdadeiro dossiê sobre as principais figuras que construíram a história da “escola mais famosa do planeta”. 

No que se trata de baluartes, a Velha Manga conhece muito bem a importância dessas personalidades que fazem parte da história das escolas e empregaram seu amor e dedicação a esses pavilhões. A Mangueira criou, inclusive, uma espécie de Academia Mangueirense. Inspirado no modelo da Academia Brasileira de Letras, com cadeiras a serem ocupadas por esses sambistas, a lista completa dessas personalidades está disponível no site da escola e alguns deles terão suas histórias contadas nos próximos tópicos. Então, afine seu Surdo Um, respeite os tamborins, porque chegou… A Mangueira chegou, ô! A gente vai tentar dar conta da história daquela que é tão grande que não cabe explicação. 



A fundação da escola de samba que se tornaria a mais querida do planeta remonta a outros grupos carnavalescos que já existiam nas várias localidades do bairro. Mas o embrião definitivo foi o Bloco dos Arengueiros, fundado após Cartola e Zé Espinguela serem expulsos de outros grupos por serem galanteadores demais e não seguirem à risca a moral e os bons costumes estabelecidos. Foram tantas as rivalidades que Cartola tentou colocar um fim na competição entre os conjuntos locais com “Chega de Demanda”, fazendo enfim surgir a Estação Primeira de Mangueira. Foi assim batizada por ser a primeira estação ferroviária após a saída da Central do Brasil - na época, ainda D. Pedro II. 

O já citado duas vezes é um dos maiores ícones da história mangueirense, se não for o maior. Agenor de Oliveira, o Cartola, não nasceu no lendário morro, mas sim distante dali, por Laranjeiras. Era no bairro da zona sul, inclusive, que se sediava o Rancho do Arrepiado de onde o sambista se inspirou nas cores que eternizaram o pavilhão da escola. Uma outra versão da história diz ainda que o verde e rosa eram inspirados no time Fluminense, que tem sede no mesmo bairro. A vida do compositor foi produtiva e extensa, mas marcado por muitos amores, sobretudo Deolinda e Zica, inspirações românticas que o ajudaram a lhe tornar um dos maiores poetas da língua portuguesa, com clássicos como “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho”.

Cartola em seu último desfile pela Estação Primeira, carnaval de  1978. Foto: Anibal Philot
Na semente dessa árvore frondosa da cultura brasileira está ainda outro sambista fundamental: Zé Espinguela. Não só um patriarca da escola, mas um pai-de-santo respeitoso. Negro, magricelo, macumbeiro, jongueiro e sambista, foi ele o idealizador do bloco que acolheu os sambistas rejeitados pelos grupos de “família”. Líder por natureza, organizou o que são consideradas as primeiras disputas não oficiais entre escolas de samba, realizadas pelo jornal A Nação, reunindo ainda um grupo de Oswaldo Cruz e Estácio. Outra grande contribuição sua foi a mediação cultural que realizou entre os sambistas e o maestro modernista Heitor Villa-Lobos, quem ajudou, por sua vez, a valorizar o samba nos salões nobres do país. 

Um outro grande compositor da santíssima trindade de fundadores da Estação Primeira é Carlos Cachaça. Ao lado de Cartola, foi um dos mais importantes poetas a ajudar na construção do imaginário da comunidade mangueirense. São deles clássicos como “Alvorada”, “Tempos idos” e “Quem me vê sorrindo”. Nos primeiros anos da agremiação, assumiu a função de orador oficial e redator dos comunicados enviados à imprensa, enquanto conciliava o trabalho na ferroviária e o casamento com Clotilde, a Menininha, irmã de Dona Zica. Permaneceu em atividade na escola até sua morte, em 1999, tornando-se o primeiro presidente de honra da verde e rosa, em 1995.

Autor de sambas-enredos no final dos anos 20 e nas décadas seguintes, Carlos Cachaça foi o principal parceiro de Cartola. Foto: J.A Fonseca/Folha Imagem
Primeiro líder da Mangueira e fundador da escola, Saturnino Gonçalves viveu entre o seu bairro de origem, o Estácio, e a Mangueira. Foi marceneiro hábil e presidiu a verde e rosa desde sua fundação até falecer precocemente em 1935, vítima de tuberculose. Fechando o time de ilustres fundadores da escola estão ainda Babaú da Mangueira, Arthur Gonçalves, Antonico, Fiúca, Chico Porrão, Homem Bom, Gradim, Manoel Joaquim, Maçu da Mangueira, Pimenta e Rubens.




Antes da Estação Primeira ser a maior representante do morro, uma outra agremiação também existiu por ali: a Unidos de Mangueira, que tinha como cores o azul e o rosa, e ficava no Santo Antônio, uma localidade histórica do bairro. Havia uma rivalidade entre essa região e o famoso Buraco Quente, no qual ficava a sede da escola fundada por Cartola. Sendo absorvida pela Estação Primeira rapidamente, vieram desta organização rival nomes que se tornaram fundamentais para todo a comunidade, como o maior baluarte vivo da verde e rosa: Nelson Sargento.

Atual presidente de honra da escola, Nelson Sargento nasceu em um outro morro famoso, o do Salgueiro, mas se mudou para o que lhe deu fama aos dez anos. O sobrenome foi conquistado pela alta patente que conseguiu no tempo em que serviu ao exército brasileiro. A alcunha militar se tornou famosa ao integrar o time do musical Rosa de Ouro, na década de 1960. Anos antes, ele foi um dos autores de “Cântico da Natureza”, seu primeiro sucesso, samba-enredo mangueirense de 1955. O autor do antológico “Agoniza mas não morre” ainda tem uma carreira como artista plástico, já tendo exposta suas pinturas pelo mundo afora.  

Outro grande baluarte da Velha Manga e que também veio da localidade de Santo Antônio foi Tantinho da Mangueira, falecido recentemente, e que desde pequeno frequentava rodas de partido-alto pela comunidade. Aos 13 anos, entrou para a Ala dos Compositores após passar em um teste feito por Cartola. Foi autor do samba-enredo para o carnaval de 1977, ao lado de Jajá. Gravou ao menos três álbuns sobre ou dedicados a nomes famosos do morro. O artista participou também do grupo Originais do Samba, de Mussum, mas decidiu sair quando projeto começou a fazer sucesso e viajar pelo país. Integrou durante anos a Velha Guarda Show da escola, grupo musical de baluartes nos moldes do que a Portela instaurou em 1970. Em 2017, protagonizou o documentário “Memória em verde e rosa”, de Pedro Von Krüger, que registrou depoimentos de grandes nomes das rodas de samba da Estação Primeira, como Broto, Neném Macaco, Raymundo de Castro, Carlinhos do Pandeiro, Jorge Catacumba, Amauri Raposo, Seu Nêgo, Waldir Marcelino e Jaguara. 


Nelson Sargento é sempre uma das figuras mais aguardadas do desfile de Mangueira. Foto: Brenno Carvalho/O Globo
Um dos grandes poetas da primeira geração da escola foi Padeirinho, também nascido em Laranjeiras como Cartola. Chegou na verde e rosa em 1947, na Ala de Compositores. Venceu os concursos de 1956 (Grande presidente) e de 1972 (Rio, carnaval dos carnavais). Dividindo-se entre o trabalho de estivador, deixou como legado uma discografia de mais de trezentas composições que abordam o cotidiano da comunidade, uma das mais famosas e emblemáticas nesse sentido é “Linguagem do Morro”. Foi ainda percussionista de mão cheia, exímio partideiro  e mestre do samba sincopado. 

Hélio Turco é o honroso possuidor do título de compositor que mais assinou sambas na Mangueira. Nascido no agradável bairro zona nortista do Grajaú, mudou-se para outro ícone de região - a Mangueira - aos seis meses de idade. Seu nome artístico foi adquirido em função de um tio, dono de um armarinho, o qual ele acabou herdando junto ao nome. Integrou a Ala de Compositores em 1957 ao lado de outro grande poeta da escola, Jurandir. Em 59, assinou pela primeira vez um samba enredo e daí não parou mais. Foram mais de quatorze composições desse poeta que se tornaram verdadeiros clássicos do repertório mangueirense, como Memórias de um preto velho (1954), Braguinha (1984), Cem anos de liberdade (1988) e Sinhá Olímpia (1990). Seguindo atuante na escola, ele encabeçou uma das parcerias finalistas em 2020. A última composição assinada pelo sambista é de 1992, em homenagem a Tom Jobim. 

O principal parceiro de Hélio é outro recordista da verde e rosa. Jurandir ganhou onze vezes o concurso de sambas de enredo da agremiação - oito dessas vezes ao lado de Hélio. A primeira obra de avenida sua a vencer a disputa foi a homenagem ao maestro Villa-Lobos, em 1966. Além de compositor, Jurandir foi uma das grandes vozes da agremiação na pista. Na época em que o disco oficial dos sambas-enredo saía pela gravadora Top Tape, Jurandir sempre gravava os sambas de sua autoria, já que o titular Jamelão era impedido de colocar sua voz por motivos contratuais. Foi assim que ele assumiu uma responsabilidade enorme em 1985, único ano em que Jamelão não interpretou o samba da Mangueira durante mais de cinquenta e seis anos. Jurandir foi ainda a principal voz da Velha Guarda Show da Mangueira.

Tantinho foi um dos maiores compositores da história mangueirense. Foto: Keiny Andrade/Folhapress
Com a virada do século XXI, um novo recordista surgiu: Lequinho. Já estreando com o pé-direito, o primeiro samba composto por ele para ir à avenida foi o clássico “Vou invadir o nordeste”, de 2002, em parceria com Amendoim. Desde então, foi campeão em mais oito ocasiões. Na lista de grandes compositores da verde-e-rosa estão ainda nomes como Batista da Mangueira, Darci da Mangueira, Alvinho, Bizuca, Rubem da Mangueira, Jajá, Alemão do Cavaco e muitos outros. 


Não tem como falar da Mangueira sem citar o maior intérprete e um dos maiores cantores da nossa música, José Bispo Clementino dos Santos. Ou melhor, Jamelão. Seu timbre potente e grave era a característica fundamental para a personalidade do cantor. Não só sua voz, mas seu profissionalismo, sua dedicação e seu amor genuínos e profundos à Estação Primeira de Mangueira também. Além do famoso mau-humor e a maneira como se colocava ao rejeitar o título de puxador, toda a sua composição é marcante e repletas de memória. O cantor emprestou sua voz para a verde e rosa por incríveis 57 carnavais, recorde absoluto entre as escolas de samba. Sua última passagem pela Sapucaí foi no carnaval de 2006, prestes a completar 93 anos de vida. É um dos recordistas de Estandarte de Ouro, com seis prêmios. Em 2013, ano do centenário de Jamelão, a Unidos do Jacarezinho o homenageou com o enredo “Puxador, não. Intérprete!”, e relembrou a vida e os elementos do artista, como a superstição do uso de vários elásticos em sua mão e sua carreira fora da avenida, quando se entregou à gravação de sambas-canções, as ditas músicas de dor de cotovelo. 

Achar alguém para substituir a voz potente de Jamelão parecia impossível, né? Se substituir, então, não era o caso, fazer história de outra forma foi a solução. Assim, em 2007, a responsabilidade foi dada a um gogó de ouro! Luizito iniciou sua carreira na Caprichosos de Pilares, quando foi o cantor da escola entre 1994 e 96, e chegou à Mangueira dois anos depois. Tornou-se o principal “apoio” de José Bispo no carro de som da verde e rosa. Como cantor oficial, permaneceu na agremiação por 9 carnavais, até 2015, quando ganhou o Estandarte de Ouro por sua atuação, falecendo precocemente no decorrer da preparação do carnaval para o ano seguinte. No imaginário folião, além de seu talento, está eternizado seu grito de guerra, que você com certeza lerá agora com a voz dele na cabeça: “Chegou a garra, chegou a emoção, chegou a escola de samba mais querida do Planeta. Chegou a Estação Primeira de Mangueira!”.

O maior de todos em um de seus rompantes de extremo bom-humor, se é que vocês nos entendem. Foto: Divulgação O Globo
Para acompanhar vozes tão potentes e históricas, não poderia haver nesta escola de samba uma bateria tão histórica como a Tem que respeitar meu tamborim. Além do seu Surdo Um tão famoso, que é o símbolo que estampa o pavilhão verde e rosa, o segmento de ritmistas da agremiação tem personalidades fundamentais. Foi no dia 3 de março de 1959 que Seu Tinguinha, Mestre Waldomiro, Raymundo de Castro e outros abnegados fundaram a Ala da Bateria da Mangueira para que os ritmistas se organizassem para os desfiles. A iniciativa pioneira veio de Tinguinha, tocador de tamborim e responsável por reunir os ritmistas que se apresentavam em festas e eventos sociais fora da quadra. O sambista tratou de ajudar os parceiros de bateria a melhorarem a beca para fazerem feio entre as rivais. Tinguinha foi responsável ainda pela inclusão do tairol na bateria, instrumento que vinha dos famosos festejos da Folia de Reis, que até hoje existem no morro. A presença de outras manifestações culturais é uma das maiores características da Derradeira Estação, uma mistura de calango, folia de reis e macumba.

Quem liderou essa bateria por impressionantes cinquenta anos foi o Mestre Waldomiro. Descoberto por Cartola e levado para o ainda Bloco dos Arengueiros, o instrumentista havia despertado para seu talento musical na escola militar na qual estudou. Por meio de um concurso, foi escolhido para liderar os ritmistas da escola na década de 1930. A partir daí  foram cinco décadas em que ele tratou o couro dos tambores mangueirenses com uma receita cheia de ervas e saberes afro-brasileiros só dele. Aposentou-se após uma trajetória histórica em 1983, o último carnaval antes do Sambódromo. 

Mestre Waldomiro e Delegado no desfile de 1978. Foto: Autor Desconhecido
Para alinhar a harmonia entre os intérpretes e as batidas do surdo um, outro mangueirense fez história na agremiação, figura tão forte que tinha como apelido o nome do orixá da justiça: Xangô da Mangueira. Discípulo Paulo da Portela, Olivério Ferreira passou pela União de Rocha Miranda, a própria azul e branco de Paulo e a poética Lira do Amor antes de chegar até a verde e rosa. Começou como intérprete da escola para, em 1952, assumir a função do que hoje entendemos como “diretor de harmonia”. No cargo seguiu por mais de cinquenta anos, encerrando sua atuação em 2008. Na década de 1970, gravou quatro LPs e seguiu carreira fora do carnaval, tendo composições gravadas por cantores como Clara Nunes e Roberto Ribeiro. Sua herança e seu legado ainda bailam na Sapucaí ano a ano, já que sua neta Squel Jorgea e seu filho Matheus Olivério formam há quatro anos o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira - um cargo de tamanha responsabilidade visando o histórico da baluartes do quesito… Bora falar deles?



Se a arte do samba não se restringe só ao aspecto sonoro, também contempla os grandes artistas do gingado. A Estação Primeira tem uma galeria de sambistas de fazer inveja nesse aspecto. Esse seleto time começa com uma tradição de grandes porta-bandeiras e mestre-salas, que fizeram história nos desfiles da agremiação. 

Essa história se inicia com seu Maçu, um dos fundadores da Velha Manga e o primeiro grande mestres-sala da primeira década de desfiles. Foi o seu bailado que praticamente definiu o que entendemos hoje como característico dessa função ao cortejar e proteger a porta-bandeira com elegância e gingado. Filho de escravos e nascido em uma família pobre na zona oeste, logo ele encontrou no Morro da Mangueira o local onde construiria sua independência e onde escreveria sua história. Ao longo dos anos, ganhou o respeito da comunidade de tal forma que acabou como o presidente da Mangueira que ocupou o cargo por mais tempo: 17 anos. No fim da vida, virou zelador dos banheiros do Palácio do Samba - função que exercia com orgulho. 

A primeira grande baluarte na arte do bailado e pioneira de uma verdadeira linhagem foi a porta-bandeira Neide. Ela estreou em 1954 e, rapidamente, destacou-se por sua força e por sua elegância. Sempre impecável, desenvolveu uma maneira própria de bailar, com muitos rodopios inesperados, que a faziam girar e girar de um lado para o outro com o mastro sempre apontando para o alto. Na década de 60, rivalizou com Vilma Nascimento o posto de maior da avenida. Sua despedida foi tão linda quanto triste: sofrendo de um câncer no útero, a bailarina escondeu a doença por quatro anos, desfilando cada vez mais magra. Chegou ao ponto de ter de pedir para reduzirem o peso de sua fantasia pois já não aguentava os quilos do traje. Em uma daquelas ironias que o destino nos prega, em 1980, último ano dela na avenida, o quesito mais nobre da festa havia sido eliminado do julgamento. 

Quem bailou ao lado de Neide por mais vinte e um carnavais formando uma dupla antológica foi ninguém menos que Delegado, carinhosamente chamado de "mestre dos mestre-salas", que ganhou o apelido por “prender” as cabrochas na sua conversa.  Filho de um dançarino de valsa e de uma doceira, ele teve um irmão ritmista, responsável pelo surdo e uma irmã, Suluca, da ala das baianas. Com impressionantes 1,90 de altura, foi dono de um estilo cortês e galanteador que formam o fundamental modelo do que se espera de um mestre-sala. Cruzou a avenida como defensor do pavilhão mangueirense por nada menos do que 36 carnavais e em nenhum deles tirou uma nota diferente da máxima. Além disso, também assumiu cargos como diretor de bateria, harmonia e de ritmista na escola.

Delegado e Mocinha se apresentavam em um de seus históricos carnavais. Foto: Agência O Globo

Com a trágica partida de Neide, o mestre da dança não ficou muito tempo até achar uma substituta. Mocinha era filha de Angenor de Castro, um dos fundadores da Mangueira, e aprendeu a dançar com sua tia Raimunda, que foi a primeira porta-bandeira da história da escola. Estreou em 1939, ao treze anos, como segunda porta-bandeira. O destino a afastou da agremiação, só fazendo com que retornasse anos depoi, em 1960 como QUARTA porta-bandeira (sim, existiam quatro casais). Com seu talento, logo alcançou o posto de segunda defensora do pavilhão e foi como segunda que fez história enquanto Neide bailava como a estrela maior. Em 67, ao assumir o posto de porta-bandeira principal, não se bicou com o lendário Delegado, voltando ao segundo lugar no ano seguinte, e permaneceu por lá por mais de uma década. Em 1980, aos 54 anos, fez história ao ganhar a premiação maior do Estandarte de Ouro de melhor porta-bandeira mesmo não sendo a defensora titular do pavilhão. No ano seguinte, com o falecimento de Neide, ela assumiu o protagonismo absoluto. Participou dos lendários campeonatos de 1984 (Braguinha), 1986 (Caymmi) e 1987 (Carlos Drummond de Andrade). Despediu-se da avenida em 1988, com 62 anos. 

Na década de 1990, viu-se despontar um casal herdeiro dessa dinastia tão nobre e respeitada de bailarinos mangueirenses. Marquinhos e Giovanna começam sua história na versão mirim da Mangueira, em que deram seus primeiros passos juntos. Em 1995, estrearam como defensores de uma das mais tradicionais agremiações cariocas, com a mesma responsabilidade que tiveram Neide e Delegado. Eles não decepcionaram. Por vinte e dois carnavais ostentaram com maestria a linda bandeira de cetim em verde e rosa, faturando pela escola dois dos quatro títulos que conquistaram juntos, em 1998 e 2002. Giovanna ficou conhecida por sua dança forte e aguerrida, assim como um mastro alto para levar a bandeira que defende a um ponto elevado. 

Mas e grandes passistas? A verde e rosa também tem! E algumas vindas não só do lendário morro, mas apaixonados por essa agremiação que surgiram dos mais diversos cantos da cidade. Foi o caso, por exemplo, de Gigi da Mangueira, moradora de Ipanema e menina dos olhos verdes e da pele branca; o típico retrato da zona sul carioca. Mas Gigi trocava Ipanema pela Estação Primeira de Mangueira em ensaios e desfiles. Ganhava outro formato com o fervoroso requebro de seus quadris e, assim, estreiou na escola aos 16 anos incompletos em 1961. Sua dedicação e seu amor à Mangueira fizeram com que ela não desfilasse apenas no ano de 1968, pelo nascimento de seu segundo filho. Em 1983, Gigi despediu-se dos desfiles antes mesmo de pisar na Sapucaí, que seria construída no ano seguinte, mas eternizou seu nome no chão sagrado da verde-e-rosa e seguiu a vida para cuidar de uma linha de confecções. Fora da Avenida, fez carreira como atriz e dançarina no teatro e na TV.

Rosemary e Gargalhada, dupla com uma samba no pé inconfundível. Foto: Agência O Globo
Outra dona do gingado mangueirense foi Nãnãna da Mangueira, que iniciou como dançarina da agremiação em 1958. Em 1973, reinou à frente da bateria da Mocidade Alegre, em São Paulo, lançando moda ao desfilar sambando e tocando tamborim ao mesmo tempo. Nãnãna mostrou e ainda mostra, felizmente, as várias faces de uma mulher de sucesso e que faz jus ao carinhoso apelido de "Dama do Samba", seja cantando, compondo, ou dizendo no pé com seu gingado. Seguiu uma carreira nos microfones das rodas de samba e shows, ainda deixando como herança seus filhos também apaixonados pela escola: Vânia, Rose e Ivo Meirelles.

Além das grandes passistas femininas, o riscado dos malandros mangueirenses também se eternizam na Avenida. Estão nesta lista nomes como César Augusto da Graça Moutinho, conhecido como Índio da Mangueira, que mostra seu samba no pé há mais de cinquenta carnavais desfilando na agremiação. Além do eterno Gargalhada, famoso ao formar uma dupla histórica com a cantora Rosemary. Ele começou sua carreira ao lado de ninguém menos que Martinho da Vila na Aprendizes da Boca do Mato, na década de 1950. Fechando o time dessa ala, não tem como não citar Serginho Pandeiro, dono de mais de 30 anos de avenida. O seu gingado nos pés se alinha aos manejos das mãos e o codinome não é à toa: ele é dono de uma impressionante habilidade motora no comando do pandeiro, seu leal aliado. 



Foi em um domingo de carnaval que Eusébia da Silva de Oliveira, a Dona Zica, mudou-se com a família de Piedade para o Buraco Quente. Ainda criança, aos seis anos, conheceu um rapazote de onze chamado Agenor de Oliveira, mas foi somente quase trinta anos mais tarde, em 1951, que o rumo desses dois se cruzou de maneira definitiva, dando origem ao primeiro shipp que se tem notícia da cultura brasileira: o Zicartola. A junção deu nome ao lendário bar e restaurante que dona Zica tocou com o marido. Além dos ótimos quitutes preparados por ela, lá se reuniam sambistas, intelectuais, poetas e agentes culturais cariocas das mais diferentes esferas sociais. Após o falecimento de Cartola, em 1980, seguiu atuante na Estação Primeira, desfilando como baluarte e eterna primeira-dama da agremiação. Sua última passagem foi no título de 2002, quando desfilou desrespeitando ordens médicas e acabou agravando sua já frágil saúde. 

Filho do fundador da escola Saturnino Gonçalves, Dona Neuma foi uma das importantes do cotidiano de Mangueira. Sua casa na rua Visconde de Niterói, em que fica a sede da escola, tornou-se espécie de ante-sala da quadra de ensaios, por onde passaram as figuras mais ilustres da cultura nacional, e que serviu como um ponto social fundamental do bairro, onde ela alfabetizou muitas crianças. Desfilando na escola desde seus primeiros anos de vida, Neuma já foi baiana e depois a responsável por fundar o Departamento Feminino, inspirando-se no formato que a pioneira Em Cima da Hora havia feito em 1962. A ala do departamento passou a confeccionar suas próprias roupas para que as damas pudessem desfilar, reunindo mais de 200 nomes em alguns cortejos. Na década de 90, foi ainda responsável por renovar a ala de baianas das escolas, percebendo que as senhoras estavam deixando de se apresentar, seja pelas fantasias pesadas ou pelo avanço das igrejas neopentecostais. Assim, atraiu jovens moças para rodarem na avenida. 

Outro legado fundamental de Neuma foram suas filhas Guesinha e Chininha. A segunda se tornou presidente em um momento conturbado da escola, entre 2008 e 2009. Pode-se citar também uma grande baluarte mangueirense que integrou a ala do Departamento Feminino de Dona Neuma por muitos carnavais: Tia Suluca, já citada como irmã do mestre-sala Delegado. Ela desfila pela verde e rosa desde os sete anos de idade.

Dona Zica e Dona Neuma exibindo o sinérgico pavilhão verde e rosa. Foto: Divulgação O Globo
A força feminina de Mangueira está não só nas mulheres que cruzam os becos e as vielas da comunidades, mas em artistas tão apaixonadas pela agremiação, que dedicaram sua vida e  sua obra para exaltar a Estação Primeira. Uma dessas figuras é Leci Brandão, primeira mulher a integrar a Ala de Compositores da Verde e Rosa, na década de 1970. Apesar de nunca ter vencido uma disputa de samba-enredo, consolidou-se como uma importante compositora da música brasileira, além de ter atuado como comentarista dos desfiles, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. 

Criada na zona sul no auge da Bossa Nova, Beth Carvalho foi outra personalidade do samba muito ligada à Mangueira. A estrela foi vencedora do III Festival da canção e verdadeira madrinha de uma geração de sambistas surgidos no Cacique de Ramos. Apaixonou-se pela escola ainda criança e viveu uma história de amor pela verde e rosa que durou toda a sua vida. Seu último desfile pela escola foi em 2018, no Sábado das Campeãs daquele ano, já debilitada por problemas na coluna. 

Surgida no auge do sucesso fonográfico do samba na década de 1970, a jovem Alcione veio do Maranhão para o Rio para se tornar uma das maiores intérpretes do ritmo, com mais de cinquenta álbuns lançados e oito milhões de cópias vendidas. A primeira vez que a Marrom visitou a quadra da Estação Primeira de Mangueira foi em 1974, logo sendo convidada a desfilar. Na concentração, a ausência de um destaque levou a bela estreante ao alto de um carro alegórico. Em 1987, participou da fundação da escola de samba mirim Mangueira do Amanhã, e hoje é presidente de honra do grupo.

Alcione e Leci Brandão em encontro de titãs na quadra de Mangueira. Foto: Divulgação Escola
Uma outra cantora muito ligada à escola mas que não veio do samba é a Rosemary, ícone da Jovem Guarda. Ela começou sua carreira na televisão por meios de de programas na TV Tupi e apresentou o programa Menina Moça. Desfila ininterruptamente na verde e rosa desde os anos 70, quase sempre como “Destaque de Chão” da escola. Em muitos dessas ocasiões teve como parceiro o grande passista Gargalhada. 



Em uma escola marcada por uma força tão dionisíaca, engana-se quem acha que por trás do toque da bateria e do bailar de grandes dançarinos não existiu um grande mestre do visual. Fora do saber acadêmico que tomou conta das agremiações com a chegada de Fernando Pamplona, Júlio Mattos foi um dos maiores carnavalescos da história da festa com sua formação forjada nos barracões da vida. 

Morador de uma favela próxima ao morro dos barracões de zinco, Júlio dividiu sua trajetória entre a Estação Primeira e o Paraíso do Tuiuti, agremiação que ajudou a fundar. O artista do povo chegou na velha Manga em 1963, já causando polêmica ao escolher o enredo “Exaltação à Bahia”, em uma época em que temas nordestinos e, principalmente, ligados ao estado mais negro do Brasil eram vistos com desconfiança e considerados azarados. Permaneceu por lá por dez anos, até 1974, com três títulos (67, 68 e 73) e quatro vices (63, 66, 69, 72). Uma segunda passagem aconteceu de 1977 a 1979, com um vice em 78. O último e vitorioso período foi entre 1986 a 1989, sendo responsável por mais um bi com os inesquecíveis desfiles sobre Dorival Caymmi e Carlos Drummond de Andrade. Em 88, concebeu o inesquecível (e atual) “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?”, protagonista do eterno e polêmico duelo com a imortal Kizomba da Vila. Por fim, veio o fatídico “Trinca dos Reis”, em 1989, que terminou em um desastroso décimo primeiro lugar, dando fim a um dos mais bem sucedidos casamentos do carnaval.

Júlio Mattos em um dos pré-carnavais que assinou frente à batuta criativa mangueirense. Foto: Tantos Carnavais
Se faz parte da identidade da Mangueira homenagear grandes nomes da música e da cultura brasileira, Júlio foi um dos responsáveis por imprimir tal marca à escola. Sua estética simples mas ao mesmo tempo bela e sofisticada trazia a leveza necessária para as componentes “dizerem no pé”. Ficou famoso também por sua capacidade de reutilizar e reciclar materiais de anos anteriores e transformá-los em novas peças. Foi, sem dúvida, um artista completo e dos mais brilhantes que o carnaval já teve. Saiu de cena de maneira discreta na década de 1990, mais especificamente em 94, após sofrer de um câncer.

Por falar em homenagens a grandes artistas da nossa cultura popular, outro criador que soube explorar essa vertente foi Max Lopes. Supercampeão da escola em 1984, com o enredo sobre Braguinha, havia começado sua ligação com o carnaval no Salgueiro dos anos 1960, quando foi chefe da ala da vermelho e branco e ajudou o grupo criativo liderado por Pamplona e Arlindo Rodrigues. Nos anos 2000, Max retornou para a escola com seu estilo luxuoso e barroco estabelecendo uma parceira de grandes desfile e que teve como seu ápice o título de 2002.


Uma das agremiações com um dos imaginários mais fortes e bem construídos da cultura brasileira, a Velha Manga não poderia deixar de ter um time de torcedores que se dedicam a espalhar a arte dos artistas da verde e rosa em suas obras. Estão nessa lista um seleto grupo de intérprete, cantores ou compositores que se tornaram o enredo da escola durante sua trajetória, como Braguinha, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e Maria Bethânia, nomes pra lá de fundamentais da história da música brasileira em diversos períodos. 

Nesta lista de personalidades está também Nelson Cavaquinho, um dos grandes letristas da nossa história, compositor de clássicos como “Folhas Secas”, “Juízo Final” e “A Flor e o Espinho”. Apesar do seu talento, o reconhecimento da sua trajetória foi tardio. Por falta de dinheiro, Nelson eventualmente "vendia" parcerias de sambas que compunha sozinho. Foi apenas na década de 1970 que seu repertório foi resgatado por figuras como Beth Carvalho e Elis Regina, no período em que também gravou seu primeiro álbum solo. No ano do seu centenário, em 2011, sua trajetória foi cantada no enredo "O Filho Fiel, sempre Mangueira", garantido o terceiro lugar pra Estação Primeira.

Maria e Chico, homenageados campeões durante o  Show de Verão Mangueira no Vivo Rio em 2017. Foto: Agência O Globo
Desse time, destacam-se dois artistas que compuseram um repertório de clássico da agremiação. Chico compôs o belíssimo “Estação Derradeira” dedicado a escola, além de ter gravado o disco “Chico Buarque da Mangueira”, homônimo ao enredo campeão de 1998 feito pela verde e rosa. Também homenageada em um carnaval vitorioso, a baiana Maria Bethânia se inspirou no título do enredo em sua homenagem para batizar o álbum “Mangueira, a menina dos meus olhos”, que resgatou algumas parceiras não-vitoriosas da disputa de 2016 e outros clássicos do repertório da escola. Irmão da cantora, Caetano Veloso foi um dos homenageados no carnaval de 1994 no inesquecível “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”.  Também mangueirense de coração, o tropicalista compôs “Onde o rio é mais baiano” para louvar a agremiação. 

Um dos grandes sambistas da história e dono das mais belas vozes da nossa música, Emílio Santiago foi outro grande torcedor da Estação Primeira, que não só cruzou a avenida com as cores da verde e rosa, como também regravou vários hinos da escola no seu histórico projeto Aquarela Brasileira. Nessa lista está ainda o humorista Mussum. Antes de ganhar fama nos Trapalhões e no conjunto Originais do Samba, ele já desfilava pela agremiação desde a década de 1960. Foi na mesma década que o artista plástico Hélio Oiticica também se tornou passista da instituição cultural, após viver um período entre os barracos da comunidade mais famosa do país. Foi dessa experiência que ele criou uma de suas obras mais importantes, como os parangolés e os penetráveis. Mais recentemente, o pagodeiro Alexandre Pires é outro ilustre nome da nossa música a também defender o pavilhão dessa gigante da nossa cultura, assim como Péricles, que também já defendeu o samba da Mangueira na avenida, em 2018.
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