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Carnavalize

 


Por Redação Carnavalize


Uma das escolas que mais brigou pelo título da Série Ouro nos últimos anos foi a Unidos de Padre Miguel. Com o retorno do carnavalesco Edson Pereira, responsável por grandes carnavais à frente do boi vermelho, a escola de Padre Miguel se colocou novamente na disputa pela vaga no Grupo Especial. Com o enredo “Iroko, é tempo de xirê”, a agremiação optou por uma abordagem da árvore-orixá, que muito dialoga com o desfile “Ossain”, assinado pelo mesmo carnavalesco, em 2017. 

A comissão de frente de David Lima representou os guardiões do tempo, os quais, durante a performance, se integravam com um gigantesco e belíssimo elemento cenográfico, em forma de árvore sagrada. Ela executava, inclusive, diversos movimentos, encantando o público. Em síntese, uma comissão digna de Grupo Especial, com figurinos e coreografia de primeira categoria. Por sua vez, o experiente casal de mestre-sala e porta-bandeira, Vinicius Antunes e Jéssica Ferreira, mostrou grande sintonia, desde a forma como se olhavam. A indumentária era exuberante, em tons claros. A coreografia limpa, perfeitamente executada, contendo uma variedade de passos e giros alternados. A dupla ocupou todo o espaço da pista, sendo, ainda, significativamente aplaudida. Definitivamente, uma das melhores da Série Ouro e do carnaval carioca.

Parte da apresentação da Comissão de Frente da escola (Foto: Thomas Reis)

Esbanjando requinte, o conjunto visual da UPM impressionou. A escola deu uma aula de figurinos, que eram extremamente ricos em formas, cores, materiais, volumetria. Soluções variadas foram adotadas pelo carnavalesco. O conjunto alegórico, do mesmo modo, não deixou a desejar, se demonstrando coeso, criativo e bem acabado. O enredo, todavia, ficou um pouco abaixo do conjunto plástico, se perdendo enquanto uma narrativa afro que não se aprofunda em determinados conceitos. Assim, termina apelando à tradicional lista de chamada de orixás.

Uma das belas alegorias da UPM (Foto: Vítor Melo)

A bateria de Mestre Dinho sustentou brilhantemente o belíssimo samba-enredo da escola. O reforço de Guto no microfone de Diego Nicolau ressaltou a qualidade da elogiada obra, construída em tom menor, com um refrão explosivo em tom maior. A transição dos últimos versos da segunda parte do samba para o refrão principal foi um verdadeiro show. E os componentes da agremiação abraçaram o seu hino, cantando e dançando com entusiasmo. Ou seja, o que se viu foi uma harmonia robusta.

O único destaque negativo da UPM foi a evolução, vez que a escola acabou, infelizmente, abrindo um clarão bem no meio da pista do Sambódromo. Mesmo assim, com uma apresentação consistente em praticamente todos os quesitos, a agremiação entrou com força na briga pelo título da Série Ouro.



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por Bernardo Pilotto

Nesse dia 12 novembro de 2020, a Unidos de Padre Miguel comemora mais um aniversário. Fundada em 1957 a partir do bloco de carnaval do mesmo nome, a escola da Zona Oeste, nos últimos anos, ficou no “quase” para chegar ao Grupo Especial por diversas vezes. 

Nos anos 1950, dois blocos dividiam as atenções do carnaval na Zona Oeste: o “Mocidade do Independente” e o “Unidos de Padre Miguel”. O último, por suas cores, era também conhecido como “Boi Vermelho”. Em 1955, o “Mocidade” se transformou em escola de samba, movimento seguido pelo “Unidos” apenas dois anos depois, com poucos dias de diferença da fundação das duas escolas. 

O primeiro desfile da UPM foi no carnaval de 1959, quando já se consagrou campeã do Grupo 2. Apresentando-se entre as principais escolas em 1960 e 1961, a escola não conseguiu se firmar e acabou sendo rebaixada, voltando ao grupo de elite do carnaval apenas em mais 3 ocasiões: 1964, 1971 e 1972. 

Com o crescimento da Mocidade Independente nos anos 1970, a UPM ficou em segundo plano nas atenções dos foliões do bairro, entrando num período em que na maioria das vezes não emplacou grandes desfiles. Por conta disso, a agremiação chegou a desfilar na terceira divisão no final dos anos 1980. Em 1990, teve seu pior momento, quando não se apresentou. 

Por conta da sua ausência, a escola teve que retornar ao “Grupo de Avaliação”, a quinta divisão dos desfiles no Rio de Janeiro. Tentando retomar seus bons desfiles dos primeiros anos de existência, a Unidos foi se reestruturando e pouco a pouco subindo de divisão, até que em 2010 chegou ao Grupo A. 

O rebaixamento em 2010 não teve o mesmo efeito que os reveses de outros momentos tiveram e a escola voltou à Séria A já em 2013, com a criação da Lierj e a fundição de dois grupos. A partir de 2014, começou a figurar entre as grandes do grupo. 

Com ótimos enredos, boa estrutura financeira e sambas que caíram no gosto popular, a UPM foi vice-campeã do principal grupo de Acesso em 4 ocasiões. E mesmo quando não ficou com o vice a escola quase “chegou lá”: em 2017, por exemplo, sua porta-bandeira Jéssica torceu o joelho durante o desfile. A apresentação, até então arrebatadora, acabou perda notas no segmento do casal e em evolução, que a deixou em 4º lugar, impossibilitando o campeonato. 

Para o próximo carnaval, a UPM vai trazer o enredo "Iroko - É tempo de Xirê" e pretende deixar a sina de “bater na trave” definitivamente de lado. Edson Pereira retorna à agremiação ao lado de sua equipe criativa que assinará o desfile junto com o carnavalesco.  


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Por Redação Carnavalize

Dando continuidade à nossa série Processos da Criação, o Carnavalize entrevista João Vitor Araújo, responsável pela parte artística do desfile da Unidos de Padre Miguel por dois anos consecutivos. 

O jovem carnavalesco vem de dois excelentes desfiles recentes na Série A e conta para o site detalhes de sua trajetória, da realidade vivida na concepção dos desfiles no grupo e no cenário contemporâneo, além da maneira como desenvolve e encara seu trabalho. 

Então se liga e confere o bate papo do site com um dos nomes de maior destaque da nova geração de carnavalescos da nossa folia!


Carnavalize: Como foi seu início no carnaval? Você era aderecista e chegou a trabalhar com desataques de luxo. Como foi essa trajetória de assistente até chegar ao posto carnavalesco? 

João Vitor: Na verdade, eu não tinha grandes pretensões no carnaval. Eu sempre fui bom, muito habilidoso com fantasias, peças menores, delicadas…. Tudo bem que eu não comecei fazendo fantasia, eu comecei na bancada. Só que eu sempre fui apaixonado por isso, sempre gostei de desenhar, mas via a carreira de carnavalesco como algo muito distante. Era tanta gente boa no mercado na época, tanto os que estavam no auge quanto os que estavam chegando. Eu pensei “até eu conseguir alguma coisa, já terei quarenta, cinquenta, sessenta anos de idade”, então a minha pretensão de fato era abrir um ateliê e trabalhar com confecção de fantasias, que era uma coisa que eu gostava; tinha muita habilidade e, de certa forma, é um setor do carnaval bem rentável. Só que a coisa foi mudando de figura e a cada ano eu fui ganhando mais responsabilidade dentro dos barracões com os carnavalescos que eu trabalhei anteriormente e eu comecei de fato a aprender a fazer de tudo um pouco. Eu posso dizer a vocês que eu já fiz de tudo nessa vida de barracão, já passei por todos os setores. Então ninguém me passa a perna no barracão de escola de samba (risos). Ferreiro não me engana, carpinteiro também não, aderecista, chapeleiro, costureiro…. De tudo eu já fui, então sei como acontece esse processo.

C: E houve alguma dificuldade maior nesse processo?

A grande prova de fogo para mim foi a Viradouro, quando cheguei como diretor artístico em 2012 para produzir o carnaval de 2013, mas anteriormente eu já tinha fechado contrato com uma escola do Espírito Santo, a Independente de São Torquato, como carnavalesco oficial. Não deu certo. Digo abertamente porque foi uma escola que não me deu um real e no final até passagens eu comprava com o meu dinheiro para poder trabalhar e achei aquilo um absurdo; realmente larguei o trabalho no meio do caminho porque aquilo foi algo surreal. 

Fiquei triste porque deixei enredo e projeto bacanas na escola, mas nem tudo foi em vão. Foi a partir desse trabalho que conheci o Gusttavo Clarão, que era presidente da Viradouro, e me deu a oportunidade de ingressar na agremiação como carnavalesco. Foi preciso que eu saísse das minhas origens, do Rio de Janeiro e passar por outro estado para ganhar essa oportunidade na minha cidade.

"O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo."

C: Você falou sobre esse olhar apurado que ganhou por já ter passado por todos os setores de uma escola de samba, algo de grande importância para um carnavalesco. Como foi esse processo de transitar por todos os setores e como isso é uma ajuda para o seu papel atual? 

JV: Em determinados anos eu tive que trabalhar em escolas bem pobres e quando você trabalha em uma escola pobre precisa botar a mão na massa, entende que precisa ajudar os outros profissionais, e por isso eu comecei a observar como aquilo tudo era feito. Claro que eu não sou um expert, que eu não tenho a capacidade de erguer um carro alegórico na máquina de solda sozinho, eu não sou dessa área, mas eu entendo. Não vou pegar uma tico-tico para serrar madeira para erguer uma alegoria toda na carpintaria porque eu não sou marceneiro, entende? Mas eu conheço o trabalho, eu sei mais ou menos como funciona. 


C: Seu olhar como artista foi moldado para olhar o barracão do carnaval como um todo… 

JV: Sim, como um todo, porque isso é importante, é muito necessário. O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo. Na verdade, não é, porque basta você ter boas ideias. O Joãosinho Trinta não desenhava, mas ele sabia o que queria; isso é muito mais importante do que desenhar rosto bonito com feições quase reais, que é o que menos importa. O que vale é ter boas ideias e ter uma pessoa de confiança para desenhar para você, para elaborar um texto, criar um figurino…. O essencial é saber o que você quer. 


C: O carnavalesco é muito mais o profissional que organiza todas as funções, que orquestra tudo isso… 

JV: Sim, ele é o diretor de arte. Exatamente como os grandes estilistas aí fora fazem. Você sabe bem que a Stella McCartney não desenha nada há muito tempo, assim como a Donatela e tantos outros, entende? É dessa forma que acontece no carnaval. Até hoje, eu consigo tocar meu projeto sozinho, desenho, mas quanto maior a responsabilidade menos tempo você começa a ter com esse tipo de atividade porque você precisa dar atenção. Por exemplo: hoje eu trabalho com quatro carros alegóricos; se eu chego no Especial, já são seis, sete, oito alegorias para desenhar. Então você tem um tempo muito curto para trabalhar naquele projeto o tempo inteiro. Daí já surge a necessidade de ter um assistente de figurino, projetista, etc., e por aí vai. Acontece e não é demérito nenhum. 

As fantasias do desfile da Portela de 2016 foram criadas por João Vitor.

"Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos."

C: Você já passou exatamente por esses dois lados: já foi assistente, inclusive desenhou para o Paulo Barros no meio do processo em que você já tinha assinado carnavais solos. Como funciona estar submetido à ideia de uma pessoa enquanto assistente e ter o seu próprio processo criativo, no seu barracão e com seus profissionais? O que você tirou de lição dessas experiências? 

JV: Foi uma lição muito boa. O engraçado é que muita gente me perguntou sobre isso, sobre como é ser carnavalesco um ano e depois ser assistente. Eu falo a verdade: eu precisava de dinheiro, precisava trabalhar e me sustentar; o carnaval anterior tinha sido muito complicado, eu não recebi o combinado como todo mundo já sabe e saí praticamente com uma mão na frente e outra atrás. Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer, precisava trabalhar com quem fosse, pagar minhas contas atrasadas, pelo menos viver de forma digna e com a cabeça fria. E foi uma experiência incrível porque existe o João Vitor Araújo antes da Portela e o João Vitor Araújo depois dela. O mais interessante é que já trabalhei com tantos carnavalescos, mas o que importa é você trabalhar com eles, atender as necessidades deles e ainda assim conseguir deixar aquela empreitada para seguir o seu rumo com a sua personalidade. 


C: Falando sobre essa tal personalidade, você se preocupava em passar alguma característica sua mesmo como assistente? 

JV: Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos. Ele é o carnavalesco top, o mais famoso da atualidade, e eu o vi passando por perrengues que às vezes nem eu havia passado, mas ele agia de forma muito natural e objetiva sobre tal problema. Aí eu paro para pensar: se ele, que é o Paulo Barros, está passando por isso, eu vou passar por muito mais. Eu passei a observar como ele tratava aqueles problemas, como ele reagia àquelas dificuldades e o carnaval que ele fazia não ficava para trás pela existência delas. Isso me deu gás, fôlego, energia e experiência e sempre me perguntam por que o carnaval da Rocinha no ano seguinte foi tão bem-sucedido…. Foi experiência, organização, matemática, tudo isso que aprendi por um ano inteiro na Portela me serviu. Parecia que eu estava realmente aprendendo dentro de uma sala de aula e a prova aconteceu no ano seguinte. 


C: Aquele foi um carnaval que definiu a sua carreira, né? 

JV: Exatamente. Eu renasci naquele carnaval. 


C: Dentre esses profissionais que fazem parte da construção de um desfile, sempre chamou atenção você trabalhar com um enredista. Agora você está com o João Gustavo Melo. Como é essa troca de criação? 

JV: Eu acho um barato porque chega um determinado momento que fica impossível trabalhar sozinho. Eu sou muito proativo, me disponho a fazer muitas coisas. Tem carnavalescos que contratam uma equipe para fazer protótipo, para fazer desenho…. Eu não tenho isso porque gosto de fazer as minhas coisas, então tudo acontece ao mesmo tempo. Com isso, eu não consigo dar conta de tudo, e aí é a hora que eu me reúno com uma pessoa de confiança – hoje eu trabalho com o Gustavo, que é um amigo de muitos anos que eu sempre quis trabalhar – e enquanto ele trabalha de um lado, eu trabalho de outro. Eu gosto muito do trabalho dele porque tem uma visão de carnaval de quem é expert, trabalhou muitos anos no Salgueiro, na Viradouro, em São Paulo e olho para ele e questiono se aquilo está bom ou não e ele dará a opinião dele se sim ou não. É muito bom trabalhar com pessoas que conduzem o projeto dessa forma e foi uma delícia porque apresentei a eles o enredo e as possibilidades e viemos montando esses pilares. 


C: E esse processo de escolha de enredo? Parece ser sempre um ponto de partida seu, correto? 

JV: Sim, é muito de acordo com a escola. Quando fiz o Viriato na Rocinha, todo mundo dizia que ele seria caro, que a escola não tinha grana. “Quem disse que Viriato é caro? Viriato era caro quando estava com Joãosinho Trinta. Mas seus carnavais solo eram simples e de bom gosto, era uma boa modelagem, paleta de cores”, eu respondi. Isso foi me ajudando a montar aquele carnaval e equilibrá-lo de forma elegante. Deu certo lá. Quando cheguei na UPM, fui buscar no histórico da escola tudo que ela já havia apresentado nos anos mais bem-sucedidos para que eu pudesse seguir uma linha. No primeiro ano é complicado mudar o estilo; eu tinha várias ideias mas eu não posso fazer uma mudança muito brusca na escola por conta do costume do público, do desfile, e cheguei à conclusão do enredo indígena com o Eldorado Submerso. Esse ano, já mais à vontade com a escola, a história do Dias Gomes, sendo muito cultural e rica, me permite viajar por uma estética menos cara, com mais mensagem. Podem dizer que foge ao que a apresenta a UPM, mas aí é que entra o ponto de que é preciso imprimir um estilo, uma personalidade na escola, e a escolha agradou de certa forma. É muito de acordo com o momento, com a comunidade e envolve sentimento e energia. Eu tinha mil possibilidades para o carnaval de 2019 e Dias Gomes, de fato, era o melhor, era o que a escola precisava no momento. 


C: Já que você desenha suas próprias fantasias, de onde vêm as referências para elas diante de cada enredo? São de dentro ou de fora do carnaval? 

JV: É de fora do carnaval. Eu sou muito ligado à moda, então eu tenho os estilistas favoritos, aqueles que me inspiram. Também gosto de ópera. Hoje eu tenho pouquíssimos livros aqui (no barracão) por conta do problema com chuva, tenho pavor que meus livros fiquem danificados, mas estou sempre comprando livros de óperas, de concertos, musicais e são eles que me inspiram. Claro que sempre adequo ao tema proposto e assisto desfiles antigos. Tenho referência de Rosa, de João (Trinta), do Viriato Ferreira, mas procuro trazer um pouco dessa característica do que eu gosto, do que eu curto, que é a moda.




C: Falando da famigerada crise, como esse momento de escassez interfere diretamente no seu trabalho? 

JV: Eu já sabia que seria assim mas não que seria tão agressiva. Duzentos e cinquenta mil reais para uma escola da Série A é covardia. Exigem da gente - da UPM e de todo o grupo - um padrão elevado, e é impossível fazer essa comparação de dizer que a Série A é o novo Grupo Especial. Não é. Não temos estrutura alguma para esse tipo de comparação. Parte desse valor já estava prometido como carta de crédito, a sorte é que eu tinha um almoxarifado “rico” de carnavais anteriores, a escola tinha um acervo muito bom de casais de mestre-sala e porta bandeira também. Ano passado, quando eu fiz o Eldorado, eu ergui uma estrutura para que ela fosse reaproveitada e, modéstia à parte, eu sei me virar muito bem. 


C: O fato de ter sido um carnaval muito caro gerou muitas possibilidades? 

JV: Sim, sim. Nós vendemos muita coisa, arranjamos um dinheiro legal e o que restou eu consegui extrair bastante coisa. 


C: Você acha que esse cotidiano interfere no seu processo final, então? Parte de uma ideia inicial mas você não tem medo de mudar esse projeto durante um tempo? 

JV: Não, porque faz parte. Na verdade, o carnaval do Eldorado foi o meu segundo projeto na íntegra. O da Rocinha foi o primeiro porque foi exatamente aquilo que eu havia planejado dentro das possibilidades da escola. Anteriormente, eu desenhava seis índios e levava dois, fazia três piratas e não ia nenhum, então não tenho do que reclamar (risos). Mas faz parte da materialização do projeto de todo artista; tem que dar um jeito. 

"Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos."

C: Você falou sobre as referências de moda e transparece a nós o seu apego pelo figurino. Você guarda suas melhores ideias para as alas? 

JV: Eu tenho apego pelo figurino. É engraçado, todo mundo fala disso, geralmente as fantasias, pelo fato de serem em grande quantidade, vira uma coisa maçante e fica um pouco impossível manter a qualidade visual em quarenta, cinquenta fantasias. Eu tenho realmente um apego muito grande, eu gosto de me vestir, gosto de modelar, gosto de ter aquele carinho e contato com o tecido, com a textura e realmente eu tenho carinho e facilidade para tal. Às vezes chegam e dizem “que figurino lindo!”, e falam em João Vitor Araújo porque eu abraço cada um deles, abraço todos, mas sem perder o foco das minhas alegorias. Eu sou apaixonado por isso aqui.



C: Você está indo para o quinto carnaval, e apesar de ser um número relativamente pequeno, já mostra um imaginário dos seus carnavais. Como você enxerga a identidade que está criando? 

JV: É bacana porque são cinco carnavais marcantes, para o melhor e para o pior. No primeiro eu consegui o título de cara, no seguinte a escola foi rebaixada, no terceiro foi um sucesso – a escola não ganhou, mas a repercussão foi boa e jamais imaginada por mim - e na UPM idem ano passado. Tenho certeza que mesmo com toda dificuldade nós conseguiremos levar um carnaval de excelência para a Avenida. E eu digo de coração: eu não sei definir meu estilo. Isso eu deixo para vocês (risos). Eu não sei te dizer, porque ano passado fiz uma temática amazonense, nesse é literário, um outro ano foi carnavalesca de fato, literalmente falando…. Então eu não sei. Trabalhei com Paulo em um estilo futurista, logo acho que mesmo como assistente já transitei um pouquinho por todas as características. 


C: Mas você confirma que sua principal característica é o requinte? 

JV: Ah, eu gosto. Quem não gosta? Eu adoro acabamento, um espelho, um galão a mais. Eu gosto do requinte, da coisa boa, mas o trabalho não é caro; ele é bem feito. Só que eu não gosto daquela coisa entulhada. Mesmo bem requintado, ele é limpo, tem uma mensagem atrás daquela estética visual. Não é porque eu tenho dez esculturas boas e um carro vazio que vou botar as dez ali para impressionar. Impressionar quem? 


C: Para encerrar, você tem em longo prazo sonhos e projetos para realizar na carreira? 

JV: Olha, eu vou ser muito sincero, eu quero ganhar na Mega Sena da Virada e largar o carnaval (risos). Eu digo isso todo ano, meus planos de 2019 foram todos virados para o prêmio da Mega Sena. É uma profissão maravilhosa, só que o carnaval está sofrendo muito, levando uma surra ano após ano. Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos. Eu amo isso aqui e espero que as coisas melhorem.
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Por Felipe de Souza e Leonardo Antan


No Rio, o samba fez escola e virou dos maiores espetáculos da terra. Mas bem longe das praias de água salgada e do litoral, uma outra manifestação cultural se tornou um dos maiores festejos do Brasil. Em Parintins, as tradicionais festas do "boi bumbá" ganharam aspectos espetaculares e protagonismo em meio ao cenário cultural do país. Em julho, quando os tambores do samba-enredo estão longe da avenida, o Brasil ouve ecoar as toadas dos bois Garantido e Caprichoso. A ligação de troca entre os dois espetáculos é histórica, foram os parintintins os responsáveis por difundir as esculturas articuladas e os movimentos surpreendentes nas alegorias. Até hoje, equipes da 'Ilha da Magia', como é conhecida Parintins, trabalham na festa em diversos barracões em Rio e São Paulo, dando vida às esculturas gigantescas. De cá, também saíram profissionais e artistas que brilham no Bumbodrómo.

Celebrando essa união, transformando passista em cunha poranga, relembramos as vezes que nossas escolas renderam homenagem aos bois. Confira:


Salgueiro 1998 - "Parintins, A Ilha do Boi-Bumbá: Garantido x Caprichoso, Caprichoso x Garantido"


O Salgueiro homenageou a 'Ilha da Magia' num desfile em 1998, exaltando o festival folclórico e toda sua mística, como as lendas indígenas e a rivalidade entre os bois vermelho e azul. Num samba bem animado, ao estilo da Academia no sucesso pós-Ita, a escola fez um desfile assinado por Mário Borriello, com alegorias grandiosas e articuladas, bebendo nas características da festa folclórica do Norte. Com um grande contingente, o Salgueiro fez uma contagiante apresentação, comandado pelo intérprete Quinho e pela Bateria Furiosa, comandada por mestre Louro.



Portela 2002 - "Amazonas, esse desconhecido! Delírios e verdades do Eldorado Verde"

A águia teve desenvolvimento de artistas parintinenses (foto extraída de Ouro de Tolo)
O universo místico da maior floresta do mundo voltou a embalar uma agremiação carioca em 2002, quando a Portela prestou homenagem ao estado do Amazonas, num cortejo assinado por Alexandre Louzada. A águia, símbolo da azul e branco, foi elaborada por artistas do festival e contou com movimentos impressionantes. A escola contou todas as riquezas e a história do estado mais verde do país. Ao final do desfile, a escola trouxe para a Marquês os bois Garantido e Caprichoso, numa belíssima e importante troca cultural.


Salgueiro 2009 - "Tambor"

Salgueiro homenageou os tambores amazônidas em seu carnaval campeão (Foto: Ricardo Almeida)
Ao contar a mística e o complexo cultural que envolvem os instrumentos percussivos, o Salgueiro não esqueceu dos nossos maiores eventos artístico-culturais. Além de passear por diversos festejos folclóricos, o carnaval assinado por Renato e Márcia Lage contou com uma bela alegoria representando o Festival de Parintins. Dividido em duas cenas, o carro tinha a frente e as costas idênticas cenograficamente mudando apenas as cores típicas dos dois bumbás, com um grande palco onde os bois branco e negro se apresentavam.


Grande Rio 2012 - "Eu acredito em você! E você?"

David Assayag, uma das grandes figuras do Festival 
Ao cantar a superação em suas diversas formas no ano de 2012, a Grande Rio rendeu tributo a diversas personalidades da história brasileira. Um desses homenageados foi David Assayag, importante levantador de toadas do Festival, que é deficiente visual. O cantor começou sua trajetória no Boi Garantido, cantando por mais de dez anos na instituição. Em 2010, mudou-se para o Caprichoso, num troca cercada de polêmica. No desfile da caçulinha da Baixada, David veio de destaque num tripé que trazia os dois bois, numa bela homenagem ao show do folclore nacional.


Unidos de Padre Miguel 2018 - “O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin”


A UPM conquistou o vice-campeonato da Série A em 2018 (Foto: Fernando Grilli/RioTur)
No último carnaval, a Unidos de Padre Miguel, capitaneada por João Vitor Araújo, trouxe para a Avenida uma narrativa folclórica inspirada na obra de Milton Hatoum, "Órfãos do Eldorado". Trazendo muito luxo num cortejo digno de campeonato, a escola contou o mergulho nas águas amazônidas, que daria no Eldorado Submerso, Parintins. Na plástica, além de grandes esculturas repletas de efeitos e movimentos, a última alegoria da escola trouxe os dois bois para o samba. 


Além desses desfiles, os dois bois já brilharam também no Anhembi, cabe menção a algumas aparições do Festival de Parintins em São Paulo, como em X-9 Paulistana 1997 ("Amazônia, a Dama do Universo"), Império de Casa Verde 2006 ("Do Boi Místico ao Boi Real - De Garcia D´Ávila na Bahia ao Nelore - O Boi que come capim - A Saga pecuária no Brasil para o Mundo"), Rosas de Ouro 2013 ("Os condutores da alegria numa fantástica viagem aos Reinos da Folia"). No Rio, recentemente, a Mocidade Independente de Padre Miguel em 2018 também teve um momento em menção ao festival, em "Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você"..

O Festival de Parintins 2018 acontece nas noites de 29 e 30 de junho e 1º de julho. A festa folclórica tem transmissão da TV Cultura. Não deixe de celebrar e prestigiar a cultura brasileira!
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(Este enredo é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Ou não…)

“Meus conterrâneos, minhas concidadãs!

Neste espaço sapucaisticamente concebido para laurear os grandes vultos e acontecimentos deste pujante Brasil, elevo minha voz entusiasticamente para galardoar a obra de um apoteótico romancista, novelista e teatrista. Seu nome é no plural. Sim, no plural, porque não era apenas um. Era um bocado de gente que morava dentro de uma cabeça trepidante que vivia maquinando os causos e as astúcias de gente como eu, ou você, ou você e eu, e vice-versa. Um audaz dramaturgo cognominado Dias Gomes! Um valoroso artista, que com inventividade, prodigiosidade e, por que não dizer, vanguardisticidade, fez com que as histórias do seu povo corressem léguas e léguas por esse país de auriverde pendão.

Mas botando de lado os entretantos e partindo logo pros finalmentes, eu venho até vocês para fazer baixar neste sacralíssimo terreiro as distintas personalidades que esse luzente autor trouxe para a imortalidade dos nossos palcos e para a vitaliciedade das nossas telas. Vejo esculpido e encarnado em cada um dos senhores e senhoras a marca presente em todo ombro humilde que carrega a sua cruz pelas beiras das estradas da vida. Sim! Eu vejo a imagem e semelhança do fiel pagador de promessa de quem a sanha intolerante deu cabo na porta da igreja de Santa Bárbara, no preciso momento em que o despossuído cidadão cumpria a digna missão que Iansã lhe determinou: entrar na casa do Senhor com o símbolo da sua penitência e repartir o pouco que tinha com os desamparados. Até posso ver, meus abismadíssimos senhores e minhas perplexíssimas senhoras, o corpo estendido no chão, tombado e depois triunfalmente elevado como o Salvador entre dois pedaços de madeira cruzados, ao som dos din-din-don-dons dos berimbaus dos capoeiristas e do coro das filhas e das mães de santo. E em verdade eu vos digo: Oyá por nós, minha Santa Bárbara! Esse povo não sabe o que faz…

E meus engalanados compatriotas e minhas licorosas citadinas, ainda nessa peleja dos divinísticos contra os profanísticos da fé, se Deus e o Diabo descerem à Terra, sem guarda-chuva, sem bandeira, bem ou mal, certamente haverão de acertar as contas com seus santos. (Ou com seus demônios, que seja). Foi o que aconteceu lá nas plagas de Asa Branca, o berço do herói, onde o mito Roque Santeiro ressuscitou sem ter morrido, assim como a Porcina foi viúva sem nunca ter sido. Enquanto isso, na morna e cheirosa Sucupira, a brejeira Pérola do Norte, o povo não tinha nem onde cair morto. Literalmente! Por não contar com um cemitério para enterrar seus funéreos cidadãos, teve finado que seguiu por aí balançando a própria difuntice tendo que ser enterrado em município estrangeiro. Criou-se então uma justa demanda, mas que por falta de cadáver, acabou virando um elefante funesto e branco, como muita coisa que acontece numa terra acolá que eu não vou nem me atrever a dizer o nome. Numa cova bem cavada jaz a decência da política, na qual os que deveriam zelar pelo bem do povo acabam por acender uma vela pra Cristo e outra pra Judas a fim de salvar a própria pele e guarnecer o próprio bolso. Mas nada de revolta popular! Como disse um dia alguém que perdeu a inexorável chance de ser nominalmente citado nesta parabolagem pra dormitar bovino, eu brado: “Sucupira: Ame-a ou Deixe-a!” Então, deixa tudo torto mesmo e bora tocar pra frentemente.

Pegando o rumo pra cidade grande, o que se avista, minha urbanística e modernística plateia? Não sabem não? Pois eu digo a vocês! Uma paisagem tomada de alterosas edificações feitas de cimento, aço e poderoso capital. Ali se viu mais um bate-estaca e menos um sobrado. Mais uma obra de monumental imponência e menos uma vegetação! Uma vertiginosa plantação de vidro e pedra se levantando do chão para agredir o espaço, erguendo mais alto a voz do vil metal, que dá o seu recado natural: este mundo nada mais é que um grande latifúndio. É muita terra pra pouco dono! Eis que então a batida ritmada da construção se confundiu em dado instante com o prugurundum do surdo que marca o tempo do samba. A Bandeira 2 rodou freneticamente no asfalto quente onde o corretor zoológico virou o Rei de Ramos, do Carnaval, das cabrochas, dos milhões de gigantes a construir. Assim falou Martim Cererê, o profeta do impoluto destino brasileiro que um dia haverá de prosperar baseado na sua miscigenada genealogia. Mas enquanto esse dia não chega, vamos nós vivendo o nosso realismo fantasticamente.

E no final desse sarapatel temperado de dendê, eu convido cada um de vocês a vir bulir no caldeirão do mistério… Abra o olho e venha ver as coisas do arco da velha que se sucederam em Bole-Bole, a cidade do absurdo. Um pedaço de lugar em que tudo podia acontecer, até mesmo uma alucinada contenda histórica que mobilizou toda a população local. Divididos em dois blocos, os mudancistas e os tradicionalistas, os polarizados bole-bolenses se digladiaram para decidir se o nome da cidade mudaria ou não para Saramandaia. Enfim, sendo saramandaísta ou bole-bolista, o fato é que se tratava de uma terra de gente muito peculiar. Lá havia homem que virava lobisomem, dama ardente que pegava fogo, tinha o coronel que botava formiga pelas ventas e até a redondística e circunferente dona que não parava de comer. E no meio desse bole e rebola no bole-bole-bolacho, tudo era mistério no voar do enigmático herói que nasceu com um par de asas. Um sujeito de mentalidade alada, que botou a imaginação pra correr céu, assim como o artista que criou toda essa gente de forma genial, extraordinária, e como não dizer… estupendamente engenhosa!

E terminando sem mais retardamentos nem atrasamentos, eu me despeço com uma mensagem sobre todos aqueles que desafiarem a capacidade de criação popular da nossa gente: ELES SÃO MUITOS, MAS NÃO PODEM VOAR!”

“Eis aqui o berço do autor
Que inventou uma terra terna e vil
Um lugar talhado em fé e dor?
Ou apenas um espelho do Brasil?

E quando vier a cena derradeira
O povo unido a lutar sem medo
Derrotando a fúria traiçoeira
Desfilará o seu mais belo enredo

Por fim restará a esperança
Na alma desta incansável audiência
Afinal toda e qualquer semelhança
Não terá sido mera coincidência!”

Viva Dias Gomes!

Enredo de: João Vitor Araújo
Texto: João Gustavo Melo

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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.

Foto: Fernando Grilli/Riotur
Sempre bem quistos no carnaval, os enredos de temática "afro" se tornaram garantia de bons sambas, com pegada e força para embalar um bom desfile. Historicamente ligadas às religiões afro-brasileiras, as escolas de samba demoraram a levar esta temática de fato para suas apresentações. A forte negociação com o poder público acabou por fazer as agremiações cantarem a história oficial branca durante muito tempo. Por isso, foi apenas em 1966 que o nome de um orixá apareceu num samba-enredo pela primeira vez, quando a São Clemente e o Império Serrano inseriram "Iemanjá" em suas letras. 

Louvando as temáticas de raízes africanas, preparamos essa lista cheia de axé, focando nos enredos biográficos dos orixás, que se tornaram muitos comuns na Série A nos últimos anos, mas que já foram contados há décadas. Então, prepare o terreiro e vem com a gente nesse xirê.

Arranco 1977 - Logun, príncipe de Efan


Foi só em 1977 que se registrou o primeiro samba-enredo biográfico sobre um orixá afro-brasileiro, segundo o livro "Samba de Enredo: história e arte", de Luiz Antônio Simas e Alberto Mussa. A história se torna ainda mais curiosa por se tratar de uma das divindades menos conhecidas em terras brasileiras. 

Logunedé, que significa feiticeiro de Edé, é o filho de Oxóssi e Oxum, nasceu no gênero masculino mas ganhou o poder de se transformar para o feminino. Na versão cantada pela azul e branco do Engenho de Dentro, Logun seria um bastardo condenado após a morte de Xangô, marido da deusa das águas doces. O obra tem uma belíssima letra e garantiu não só um honroso vice-campeonato para a agremiação na segunda divisão da folia carioca, como também o Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo naquele ano. 

Imperatriz 1979 - Oxumaré, a Lenda do Arco-íris


Dois anos depois, finalmente, um orixá teve sua história contada numa escola do primeiro grupo. E esse suposto pioneirismo aconteceu por uma escola inusitada, a Imperatriz Leopoldinense, que é pouco ligada historicamente a temas "afro". A Rainha de Ramos levou para a Avenida "Oxumarê, a Lenda do Arco-íris", um enredo que tinha como figura principal um dos mais conhecidos orixás, simbolizado pelo arco-íris e por uma grande serpente, que liga os reinos de Orun e Ayê (terra e céu). 

O desfile trouxe os príncipes africanos em sua comissão de frente, moças e alas nas sete cores do arco-íris e, claro, a roda da fortuna de Oxumarê, já que o intuito era trazer a lenda do arco-íris sob a perspectiva da tradição afro no Brasil. No final, o resultado conferiu à escola um sétimo lugar e a Avenida reverenciou as cores do majestoso orixá! Arroboboi!

Império da Tijuca 2015 - O Império nas águas doces de Oxum 

Fonte: G1

Dando um grande salto no tempo, desembarcamos no Morro da Formiga, que logo após a ligeira passagem pelo grupo especial levou à Sapucaí toda a riqueza, beleza e fertilidade de Oxum, mãe do ouro, da beleza e dos amores. O enredo, desenvolvido por Junior Pernambucano, foi batizado de "O Império nas Águas Doces de Oxum". A trajetória da iabá começa em seu nascimento no ventre de Odudúa e passa por suas águas doces, símbolo da fertilidade, onde reina soberana e dança com seu abebê encantado, sempre formosa e discreta. 

A rainha das águas doces foi representada por Érika Januza no desfile oficial e a escola, no fim das contas, conquistou um modesto sexto lugar no seu primeiro ano de volta à Série A, mas encantou com majestosa passagem, digna da homenageada. Ora, ieie ô! Salve Oxum!

Alegria da Zona Sul 2016 - Ogum

Foto: Widger Frota

Ogum é um dos orixás masculinos mais difundidos no imaginário brasileiro, talvez por seu forte sincretismo com santos igualmente muito cultuados. No Sudeste, possui forte ligação com o popular São Jorge, enquanto na região Nordeste, com Santo Antônio. Ogum é o orixá guerreiro, senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Era ele mesmo quem forjava suas ferramentas, tanto para a caça, quanto para a agricultura e para as batalhas.

A história do orixá foi narrada pela Alegria da Zona Sul em 2016, assinada pelo carnavalesco Marco Antônio Falleiros, passando desde a origem do guerreiro até toda sua atuação entre Orun e Ayê, terminando, obviamente, com sua ligação ao santo guerreiro católico. Com um desfile agradável, que se destacou pelo samba valente e forte, a vermelho e branco da Zona Sul terminou na modesta décima posição. Ogunhê!

Renascer de Jacarepaguá 2016 - Ibejís, nas brincadeiras de crianças: Os orixás que viraram santos no Brasil.

Foto: G1
Os Ibejis são entidades pouco conhecidas, mas que no Brasil ganharam novas proporções com o desenvolvimento do sincretismo afro-católico. As divindades gêmeas foram aglutinadas na figura de São Cosme e Damião, num complexo e fascinante processo de troca cultural. A mistura acabou por fazer do Brasil um dos poucos lugares do mundo onde os santos católicos são representados com feições infantis, sem ainda falar na inclusão de Doum nessa mistura boa, mais fortemente na umbanda. 

Toda essa relação complexa de troca e negociação entre as culturas europeias e africanas foi contada na apresentação da Renascer de Jacarepaguá em 2016, no desfile assinado por Jorge Caribé, que possui reconhecida experiência na temática. O desfile foi leve e empolgante, como pedia a temática, embalado por um samba leve, encomendado a grandes compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo e Teresa Cristina, no modelo que a vermelho e branco segue desde 2014.

Unidos de Padre Miguel 2017 - Ossain, o poder da cura 

Foto: Riotur

Um dos carnavais recentes mais marcantes contando a história de um orixá foi o desenvolvido pela Unidos de Padre Miguel em 2017. A escola, que tem se fixado pela estética afro, optou por louvar um membro pouco difundido do panteão africano. Ossain é orixá ligado às folhas, à cura e à força da floresta, e, embora fundamental, acabou se tornando pouco difundido pelos terreiros brasileiros. 

O desfile maravilhoso foi o último do bem-sucedido casamento da escola de Padre Miguel com Edson Pereira, apostando em grandes esculturas e alegorias monumentais muito bem elaboradas. Apesar de toda a beleza e força, é impossível esquecer do trágico incidente que marcou a apresentação: a queda da primeira porta-bandeira que acarretou na torção de sua perna, durante sua dança para o módulo duplo - já extinto - de julgadores. Vale lembrar que o orixá é, por vezes, representado exatamente com apenas uma perna só. Arrepiante!

 Império da Tijuca 2018 - Olubajé: um banquete para o rei 

Última alegoria do Imperinho do desfile de 2018 (Foto: Carnavalesco)

Atotô! 2018 marcou o primeiro ano da escola da Tijuca após o seu longo e bem sucedido casamento com o carnavalesco Junior Pernambucano, especialmente ligado aos grandes desfiles com temática afro. Mas mesmo com a saída do artista, o Morro da Formiga se apresentou apostando na magia dos orixás, sob comando de Sandro Gomes e Jorge Caribé. 

"Olubajé, um Banquete para o Rei" foi o enredo que saudou Olubajé com uma grande homenagem, desde o seu nascimento, passando pela transformação em um bom caçador e encerrando com um lindo banquete em plena Sapucaí, com, claro, banho de pipoca no final! A estética da agremiação surpreendeu por sua beleza e força, contando o enredo de maneira digna e com um grande samba composto por uma parceira encabeçada por Samir Trindade. 

Foto: Rádio Arquibancada
Apesar de um discurso que critica os enredos sobre as macumbas brasileiras por sua repetição temática e visual, em alguns casos, é sempre importante as escolas de samba reafirmarem suas raízes africanas, sobretudo num cenário intolerante e segregador. Mas sem nunca deixar de procurar novas soluções estéticas e narrativas para temas já conhecidos por parte do público. Nós que adoramos um xirê estamos sempre preparados para incorporar na avenida e ver ainda muitos orixás sendo celebrados na Sapucaí! Axé! 

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