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Carnavalize

 


Texto: Talitha Dejesus 

Oxum: a orixá das águas doces é a deusa do amor, da beleza, fertilidade, ternura e riqueza. Representa sensibilidade, delicadeza e paixão para motivar a essência da vida. É ela a responsável por nos acolher durante as tempestades emocionais, nos tranquilizando e orientando os caminhos a seguir.

Mas qual a relação de Oxum com as escolas de samba? Todos sabemos da influência dos negros e das religiões de matrizes africanas no carnaval que conhecemos hoje, e não por acaso, enredos com temáticas sobre a negritude são recorrentes na nossa folia. E, graças a Oxalá, porque a gente adora um enredo afro, né?

Seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, é quase certo que todo ano vai haver a presença de um orixá nos enredos e consequentemente nos sambas. Por isso, listamos enredos paulistanos recentes que trouxeram Oxum à Avenida. Bora relembrar? Ora yê yê ô Oxum!

 
Nenê de Vila Matilde - 2006 


O abre-alas da escola daquele carnaval. Foto: Keiny Andrade/Folha Imagens.

O enredo deste ano, “Mamma Bahia - Ópera Negra, Lídia de Oxum’’, foi inspirado na ópera que foi apresentada em 1994, na Bahia. É considerada a primeira montagem de uma ópera afro-brasileira e uma demonstração de força do povo negro, visto que o gênero musical, em sua maioria, é elitista e muitas vezes inacessível. O enredo é incrível, e apesar do triste desfile, a Nenê contava com um dos melhores sambas do ano.
 

X9 Paulistana - 2015

Alegoria da escola representando Oxum! Foto: Reprodução/Grito de Carnaval.

Após uma tempestade que prejudicou algumas escolas no Carnaval de 2014, a X9 Paulistana decidiu exaltar a chuva no enredo do ano seguinte. No desfile, o destaque ficou para o icônico intérprete Royce do Cavaco cantando o enredo ‘’Sambando na Chuva, num Pé D’Água ou na Garoa. Sou a X-9 numa Boa’’, que transitava por tudo ligado a chuva, como por exemplo, cigarras, o dilúvio bíblico e a Arca de Noé, chuva de arroz em casamentos e a importância da água no mundo, em um momento em que São Paulo passava por uma crise hídrica. Além disso, a escola trouxe os orixás ligados à água. E lá estava Oxum…


Camisa Verde e Branco - 2016

Ivi Pizzott, rainha de bateria do Camisa Verde e Branco em 2016. Foto: Léo Franco/AGNews.

Nem só de Grupo Especial vive Oxum. Em 2016, ela passou pelo grupo de Acesso com o Camisa Verde e Branco. O enredo ‘’Nas águas sagradas de Oxum, Iemanjá e Oxalá, Camisa Verde dá um banho de alegria!” contava a história do banho desde as antigas civilizações até sua presença no dia a dia e também a relação dos Orixás com as águas. 


Vai-Vai - 2017

Comissão de frente da Vai-Vai. Oxum era a orixá de Mãe Menininha. Foto: Reprodução/ BOL Fotos.

“No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu…Menininha, mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil” foi o enredo do Vai-Vai para 2017, homenageando um dos nomes mais importantes do candomblé no Brasil. Dessa vez, Oxum apareceu por ser a orixá da cabeça da ialorixá. Empolgando as arquibancadas como sempre, as alas e alegorias da escola representaram os elementos da natureza e sua ligação com os orixás. A homenagem a Oxum veio na comissão de frente e também no último setor que retratava a água. 


Colorado do Brás - 2018

A porta-bandeira da Colorado do Brás no ensaio técnico da escola. Foto: Felipe Araujo.


Após 25 anos fora do Grupo Especial, a Colorado do Brás voltou à elite paulistana com o enredo ‘’Axé, Caminhos que levam a fé.’’. O tema abordava a cultura do Candomblé desde a criação do mundo por meio de suas tradições aos ensinamentos dos orixás. Junto com o desfile, um pedido de bênçãos e paz no que a escola chamou de ‘’banho de Axé’’. Não poderia faltar Oxum, evidentemente!


Mancha Verde - 2019

Oxum da abertura da campeã Mancha Verde de SP!. Foto: Fábio Tito/G1.

Consagrando-se campeã do Carnaval de São Paulo pela 1ª vez, a escola de samba Mancha Verde contou a história de Aqualtune. "Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra", desenvolvido pelo consagrado Jorge Freitas, retratou a vida da negra que nasceu princesa no Congo e foi trazida ao Brasil para ser escravizada. Oxum veio representada na comissão de frente ao lado de Xangô e de guerreiros guardiões que celebraram a chegada da herdeira ainda no Congo.


Mocidade Alegre - 2020 

Representação de Oxum na alegoria da Mocidade Alegre no último carnaval. Foto: Magaiver Fernandes.

“Do Canto das Yabás, Renasce uma Nova Morada” trouxe uma celebração à vida e à natureza através das orixás femininas do panteão afro-brasileira de tradição nagô-iorubá. O desfile emocionou a comunidade e o público presente no Anhembi e marcou um momento de transição da Mocidade. O enredo exaltou a força e o poder feminino por meio das yabás como Iemanjá, Obá, Nanã, Ewá e nossa estrela do texto de hoje, Oxum.






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A coluna #ColabLize é um espaço aberto a seguidores do Carnavalize e pesquisadores de carnaval para divulgar seus escritos sobre nossa folia. Quer enviar algum texto que verse sobre a festa? Mande para nós no e-mail contato@carnavalize.com. A #ColabLize vai ao ar quinzenalmente, sempre aos sábados!


Texto: Anderson Ferreira


Certamente o título causa uma estranheza numa primeira leitura, mas essa miscelânea de referências é comum nos desfiles das escolas de samba.

Mesmo com as incertezas que pairam o próximo carnaval, já podemos observar que os enredos considerados “afro” serão, além de maioria, os destaques da festa. Esse fato gera uma emoção no mundo do samba, sobretudo porque (1) os temas trazem discussões importantes para o nosso tempo, (2) tocam no coração do componente e (3) possuem o costume de conceber bons sambas. Por outro lado, eles também estimulam uma preocupação: de que forma as pessoas negras, as culturas africanas e afro-brasileiras serão tratadas na avenida? 

Digo isso porque a possibilidade de algum enredo cair no lugar comum é grande. Acostumou-se a relacionar pessoas negras aos mesmos signos, sobretudo as tradições Yorubás. A Grande Rio no carnaval de 2020 fora uma exceção. A pesquisa de Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinicius Natal referencia os diversos povos que matizaram as culturas afro-brasileiras e afro-indígenas e que baixavam no culto de Joãosinho da Goméia. Diferente, por exemplo, da Imperatriz Leopoldinense no ano de 2015, que fez um belíssimo desfile intitulado “Axé-Nkenda”, propondo um diálogo de alguns símbolos esteticamente já conhecidos como movimentos artísticos da África contemporânea ou “África pop”, mas que infelizmente, na mistura, foram além. Sendo Nelson Mandela o fio condutor, grande líder sul-africano, de uma região onde se destacam os povos Xhosa e Zulu, ficou confusa a presença de elementos como a capoeira, o acarajé e a orixá Oyá, do panteão iorubano. Perdeu-se uma bela oportunidade de focalizar em culturas africanas tão pouco evidenciadas e discutidas nas escolas, nas galerias de arte e rodas de conversas. Esse também pode ser o fato pelo qual há uma pequena manifestação negativa quando um enredo “afro” é lançado. 

Algumas pessoas comentam nas redes sociais: “afro de novo”, “macumba de novo”, etc. É importante ressaltar que os elementos chamados de forma pejorativa e racista de “macumba” são os pilares das escolas de samba, ou seja: quanto mais macumba, melhor. E também é mais positiva a repetição desses enredos que tratam sempre do panteão iorubano do que as temáticas brancas, europeias e patrocinadas as quais já protagonizaram desfiles não tão legais. Porém, é compreensível esse tipo de comentário quando pensamos nos mesmos personagens que conduzem as narrativas “afro”, causando em inúmeros casos um esvaziamento de sentidos. É sabido que as escolas possuem seus padroeiros, mas quantas vezes Oxum e Oyá não ficaram perdidas em um enredo? E Ogum e Oxóssi que desfilaram ao lado de pessoas que talvez fossem suas inimigas? Ou uma saudação a uma entidade só para completar a rima do samba? Faz-se necessário empretecer algumas coisas:

1. Não existe uma “cultura africana” ou o país África. Existem culturas de povos do continente africano. Existem muitas Áfricas, como bem lembrou a Beija Flor em 2007. Assim como no Brasil temos algumas semelhanças por sermos brasileiros e brasileiras, mas não podemos dizer que uma pessoa do sul do país pratica as mesmas manifestações culturais de alguém do norte. O mesmo deve ser entendido ao tratar do continente africano. 

2. Também devemos observar isso com as culturas afro-brasileiras. Pode haver símbolos que se conectam nos cultos praticados na diáspora, mas não é tudo a mesma coisa. Nesse contexto eu gosto de usar o exemplo da Portela em 2020 ao tratar dos indígenas da etnia tupinambá e sua forte presença na formação da cidade do Rio de Janeiro. A agremiação apresentou o recorte muito bem definido. A carnavalesca Márcia Lage em suas entrevistas sempre pontuava que a referência estética utilizada na plástica era toda tupinambá, diferente da forma genérica que já vimos muitos enredos de temáticas indígenas passarem na avenida. 

3. Não é porque a pessoa é negra que automaticamente ela é filha de um orixá. Ela pode ser praticante do candomblé de Angola e filha de um Nkisi, entidades das culturas banto (Congo/Angola), como nos ensinou o carnaval da Ilha do Governador em 2017 ou a Beija-Flor em 2001 com Agotime e o Voduns do Candomblé Jejê. 

4. As pessoas negras também podem não ter relação com nenhuma religião de matrizes africanas. O que nos revela uma das faces do racismo no Brasil, mas que também não pode ser uma regra ter um cargo dentro do candomblé. Talvez o Salgueiro, em 2020, não soubera desenvolver o enredo sobre o Benjamin de Oliveira porque o palhaço não era uma pessoa negra esperada pelo censo comum.

É interessante a justificativa de que no mundo carnavalesco ou carnavalizado tudo pode. Os diferentes podem se encontrar na avenida. Mas até que ponto não estamos perpetuando alguns estereótipos? Será que isso nos evidencia um olhar embraquecido através do qual “negros” são todos iguais? Uma ótica colonizadora que coloca todas as culturas em um mesmo barco? 

Precisamos matizar o que caracteriza um enredo ser “afro”. Outro dia li um texto no Carnavalize sobre os toques das baterias de algumas agremiações e olha que interessante: dos mesmos tambores ressoam toques diferentes. E os sons desses tambores ressoam em outras manifestações afro-brasileiras não somente nos desfiles das escolas de samba. Ou seja, corpos negros (tambores) produzem conhecimentos de outros tipos e lutam para estarem presentes em outros e mais lugares. Não seria o momento de expressar isso também nas pesquisas, nas letras e nos elementos plástico-visuais? Uma possível resposta que gera outra pergunta: não seria o momento das (os) artistas negras (os) estarem à frente de algum projeto para que o pensamento seja empretecido de fato? Isso pode e deve fomentar outros textos.




Portelense apaixonado pelo carnaval, Anderson Ferreira é ator, pesquisador, figurinista e contador de histórias. Mestrando em Artes da Cena pelo Programa de Pós-graduação em Artes da UFMG pesquisa as relações entre manifestações performativas afro-brasileiras, principalmente os Teatros Negros e os Desfiles de Escola de Samba. Recentemente criou a @quesitofantasia, na qual registra, com textos e imagens, algumas das indumentárias que já passaram pela Sapucaí.


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Arte: Lucas Monteiro.

Texto: Beatriz Freire, João Vítor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos

"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize).

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Para o nosso segundo texto, João Neto indicou três desfiles que compuseram a votação. Vejam só como ele nos colocou em briga de gente grande: Beija-Flor 2001 (“A saga de Agotime - Maria Mineira Naê”), Salgueiro 2007 (“Candaces”) e Vila Isabel 2012 (“Você semba de lá que eu sambo de cá - O canto livre de Angola”). Agradecemos mais uma vez ao nosso padrinho pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Em 2001, a Beija-Flor de Nilópolis completava 25 anos da conquista do primeiro título de sua história, no ano de 1976 (“Sonhar com rei dá leão”). Até ali, já havia alçado voos tão altos que, ao todo, nas duas décadas e meia que se passaram, colecionava seis campeonatos para chamar de seus. A competitividade veio, para além do suporte de sua patronagem, com Joãosinho Trinta, que, na explosão de sua carreira carnavalesca, mudou os rumos da agremiação nilopolitana. 

Os carnavais anteriores foram marcados por ótimas colocações, sempre muito disputadas com a Imperatriz, uma das grandes potências de toda a década de 1990. Mordida pelo vice-campeonato no ano anterior, a Beija-Flor apostou todas as suas fichas em busca da vitória naquele ano: com um enredo “afro”, já era manhã de segunda-feira – a escola encerrava o domingo de desfiles – quando Nilópolis adentrou a Sapucaí sob a luz do sol e os olhos das arquibancadas lotadas para contar a história de Agotime. 


Foto: Wigder Frota. 


VAI SEGUINDO O SEU DESTINO (DE LÁ PRA CÁ)


O retorno às origens africanas foi pensando pela Comissão de Carnaval composta por Laíla, Cid Carvalho, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Shangai e Nelson Ricardo. A equipe, que já estava no comando do carnaval da escola há 4 anos, teve a inspiração para o enredo quando desenvolviam “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu” em 1998, como nos contou o carnavalesco Fran Sérgio.

“Esse enredo começou com a gente preparando, em 1997, o carnaval de 1998, que era: “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu”, uma história da pajelança cabocla, protagonizado pela dona Zeneida Lima, que é a pajé (...) e dona Zeneida já falou com a gente sobre a história da tataravó dela que era a rainha Agotime (...). E já ficamos encantados ali com a história e ficamos dois anos (1999 e 2000) amadurecendo essa ideia, essa pegada africana, uma homenagem aos voduns, aos ancestrais da Agotime e ao culto de Dahomé.”  

O enredo foi uma espécie de encantaria que envolveu a todos que assistiam o cortejo da azul e branca nilopolitana. Percorrendo a história da rainha Agotime de Abomey, antiga capital do Reino de Dahomé - atual Benin -, contou-se que a líder foi traída, escravizada e enviada ao Brasil. Ela, que era a segunda esposa do rei Agongolo, vivia no palácio Dãxome com seu enteado Adandozan (primogênito do rei) e seu filho Gezo. Próximo de sua morte, o monarca reuniu seu povo no mercado Adjahito para anunciar que seu segundo filho iria sucedê-lo no trono após sua morte. Entretanto, o ordenamento de Agongolo não foi cumprido, e Adandozan se apropriou de forma tirânica do governo de Dahomé. 

Agotime, conhecida por cultuar os voduns seus reis ancestrais mortos, foi acusada de feitiçaria pelo novo rei e vendida no grande porto de escravizados em Whidah. Lançada ao porão de um navio negreiro, cruzou o oceano, como havia sido previsto pelo seu Vodun como sua missão, e rumou para o Brasil. Ancorada em seu compromisso espiritual de renascer em outras terras o culto a Xelegbata, a rainha resistiu às dores, ao sofrimento e a humilhação, trazendo consigo os saberes ancestrais do povo de Dahomé e o culto aos voduns. 

O desembarque em solo tupiniquim foi em Itaparica, na Bahia, onde encontrou com muitos africanos escravizados, mas nenhum da mesma região ou religião que a sua. Foi através do contato com os povos Nagô que Agotime se aproximou dos orixás e por meio deles descobriu a localização de seu povo em São Luís do Maranhão. Sua gente foi denominada de Negros-Minas e estavam desamparados e sem local para cultuar sua religião. Diziam aguardar um sinal dos ancestrais para isso. Ou seja, mesmo sem saber, esperavam por Agotime. 

Entendendo que sua saga estava próxima do desfecho tão sonhado, a rainha chega ao Maranhão sentindo os espíritos de seus ancestrais africanos, ouvindo ecoar os tambores de Dahomé e, em um ritual de celebração, a escravizada retoma seu posto de rainha. Acolhendo seu povo e seguindo as orientações do Vodun, funda a “Casa das Minas” em São Luís do Maranhão. Sua missão enfim, estava concretizada. No terreiro em que resiste a tradição africana e o culto aos Voduns, a rainha passou a se chamar Maria Mineira Naê, cumprindo o seu destino. 

A história contemplada pela escola foi conduzida pelos relatos da pajé Zeneida Lima, então neta de Agotime. Ainda que muitas polêmicas envolvam a veracidade dos relatos, não há dúvidas sobre o fato de que a saga encantou a todos na Avenida, bem ao estilo místico da narrativa. O encontro entre a Deusa da Passarela e a Rainha Agotime foi repleto de feitiçaria, misticismo e deslumbramento, digno da grandeza de suas altezas. O enredo muito bem amarrado e repleto de minúcias não só embeveceu o público, mas também conquistou notas máximas dos jurados e levou o Estandarte de Ouro do quesito. 


E NA LUZ DE SEUS VODUNS/ EXISTIA UM RITUAL DE FÉ


Na comissão de frente comandada pela bailarina e coreógrafa Ghislaine Cavalcanti, viu-se a encenação do ritual da pantera negra: quatorze mulheres que dançavam ao ritmo do tambor  mina-jeje acompanhavam a personagem central que representava Agotime. Durante quase toda a apresentação, a rainha era representada em vestes douradas e com uma máscara sobre o rosto. Quando era “escondida” pelas suas guardiãs, retornava à cena como uma pantera, simbolizando o ritual inspirado na dança dos povos jeje e no culto aos voduns. 

Foto: Fernando Quevedo | O Globo

Do ponto de vista estético, a escola apresentou um dos desfiles mais opulentos e ricos que já tomou a Sapucaí. Rompendo a Avenida ao amanhecer do dia 26 de fevereiro de 2001, a Beija-Flor fascinou o público com sua exuberância e as tonalidades utilizadas em suas alegorias e fantasias; o contraste entre as cores da Deusa da Passarela e o céu clareando gerou imagens lindíssimas do desfile. 

O conjunto alegórico composto por 7 carros era imponente, gigantesco e muito bem trabalhado. A começar pelo abre-alas, que tomou grande parte do tapete branco com suas três estruturas acopladas, representando “O palácio de Dãxome - O clã real”, que, segundo a lenda, foi edificado sobre a barriga da serpente. Em sua decoração, a farta utilização de palhas, presas e peles de animais chamava muita atenção, juntamente com os adereços dos destaques e os totens típicos da região espalhados pela alegoria. 

Apesar de toda imponência do abre-alas, o carro que mais impactou a todos foi o terceiro: “A Feitiçaria”, e essa comoção não foi exclusividade dos foliões que estavam na Avenida. Fran Sérgio conta que os próprios funcionários do barracão sentiam a intensidade da alegoria: “Tínhamos figuras muito fortes nesse carnaval (...) tinha uma escultura de um bode, no carro da feitiçaria, que falava realmente do culto da rainha que vem para o Brasil com ela; e as pessoas, os funcionários do barracão, tinham um tipo de medo do bode porque era um bode preto, era uma escultura que você olhava e parecia que ela estava olhando para você. Então esse enredo tinha muito misticismo, muita força, essa magia africana que contagiava a gente no barracão. Nós sentíamos essa energia pulsando dentro do barracão.”. 

Além do famoso bode já citado que abre a alegoria, esta era composta por 700 velas dentro de recipientes com água; suas cores eram fortes e vibrantes, em tons vermelho e preto. Em seu ponto mais alto, estava a destaque central com um costeiro colossal. Para muitos, o carro era uma espécie de ebó que percorreu a Sapucaí, ostentando oferendas e sacrifícios. 

Foto: Cezar Loureiro | O Globo

Outra alegoria digna de ser evidenciada é a quinta. “A Bahia - Encontro com os Nagôs” conta a chegada da rainha em condições de escravizada no Brasil, que foi representada por uma belíssima construção artística em tonalidades claras entre branco e prata que contrastava com a luz do dia. Em tons coloridos e vívidos, os destaques de composições vestidos de orixás davam o toque pontual àquela concepção incrível, algo bem similar a estética desenvolvida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora na Grande Rio em 2020. 

No todo, o conjunto alegórico apresentado pela escola de Nilópolis foi marcado pela sua robustez, sua riqueza de detalhes e por destaques volumosos que tiveram a capacidade de refletir muito bem a narrativa do enredo. Em determinados pontos, é possível observar o excesso de adereços e a falta de rigor estético, mas nada que comprometesse todo aquele feitiço que pairou sobre o Rio de Janeiro naquela manhã. E, falando nisso, a alegoria “A Feitiçaria”, por ironia do destino a mais bela do cortejo, como mencionamos acima, teve um pedaço danificado. A perda da peça, fato que, no conjunto do desfile, pareceu insignificante, custou caro à Beija-Flor na quarta-feira de cinzas.  

A riqueza das alegorias esteve presente também por entre as alas. Volumosas, com cores vibrantes e seguindo o embalo que tomava os componentes, as fantasias foram mais um quesito impecável da escola. O primeiro destaque vai para a “Ala das Pretas-Velhas”. Para além da indumentária, a passagem das senhoras negras integrantes da comunidade nilopolitana trouxe consigo um enorme valor simbólico. Não à toa, para muitos que assistiam o desfile, algumas delas - senão todas - estavam incorporadas. A ala já vinha gerando discussões muito antes do desfile, pois muitos duvidavam que as mulheres já idosas conseguiriam atravessar toda a Avenida seguindo a coreografia com a coluna curvada para frente. O Diretor de Carnaval, Laíla, conduziu incansáveis ensaios para que tudo saísse conforme o previsto... e foi o que aconteceu! Lá estavam elas à frente do abre-alas, com cachimbo, bengala e guia no pescoço, abrindo os caminhos para aquele grandioso cortejo. 

Foto: Wigder Frota

Além disso, em todo o corpo de desfilantes da escola notou-se alas muito volumosas e ricamente trabalhadas em materiais e, principalmente, em cores, as principais aliadas da escola naquele desfile sob a luz do sol. Impressionou pela quantidade de componentes e criatividade a ala das baianinhas, intitulada “As sinhazinhas do bumba-meu-boi”. Com uma quantidade considerável de alas coreografadas, a escola mostrou excelente desempenho de harmonia e evolução e, mesmo sendo obrigada a apertar o passo nos minutos finais por conta de sua extensão, ninguém deixou de vibrar com o samba, muito menos de realizar os passos delimitados. 


O RUMO DE SEU POVO ENCONTROU


De luvas douradas nas mãos, coisa que já não se vê mais nos dias de hoje, Selminha Sorriso empunhou o pavilhão azul e branco ao lado de Claudinho, já companheiro de muitos carnavais, sem deixar escapar o mastro que ostentava a identidade e garra nilopolitanas. As luvas, a título de curiosidade, foram pouco tempo depois escanteadas após um “comum acordo” entre as porta-bandeiras, tendo em vista que o suor fazia as mãos escorregarem. A dupla estava lindamente trajada com indumentárias dignas da realeza daometana, com a riqueza das estampas que reproduziam as peles de zebras. O garbo inconfundível do casal abrilhantou ainda mais a presença das cores e símbolos da escola para mostrar que o percurso Daomé-Bahia-Maranhão desembarcou em Nilópolis para saudar a sacerdotisa Agotime. Como de costume, Selminha e Claudinho conduziram o beija-flor de sua bandeira como um amuleto por toda a Avenida, em uma linda apresentação para as cabines de jurados. 

Foto: Wigder Frota.


SOU BEIJA-FLOR E O MEU TAMBOR/ TEM ENERGIA E VIBRAÇÃO


Histórico. É uma boa palavra para definir o samba-enredo que a Beija-Flor levou para a Avenida no carnaval de 2001. A composição de Déo, Caruso, Cleber e Osmar foi completamente arrebatadora, conquistando o público desde o pré-carnaval e coroando a sua grandeza com uma performance incrível na Sapucaí. A obra contou com a interpretação magistral de Neguinho da Beija-Flor, que ia para o seu vigésimo sexto ano seguido à frente do carro de som nilopolitano, junto com seu fiel escudeiro Gilson Bacana. Considerado por muitos o melhor samba do carnaval de 2001 e um dos grandes sambas da década, ele conseguiu concatenar com perfeição os trechos e as passagens do enredo, sendo uma belíssima representação da totalidade do desfile.

O grande desempenho do samba foi, ainda, propiciado pelo excelente trabalho da bateria Soberana de mestre Paulinho Botelho e de mestre Plínio - o hoje mais longevo mestre em atividade pela mesma escola, com 24 anos na escola de Nilópolis. Diferente do que acabou se tornando a tendência daquela década, em que belas obras acabaram sendo atrapalhadas pelo andamento acelerado das baterias, a orquestra da Beija-Flor conseguiu manter uma bela cadência num andamento favorável ao samba poético que tinham em mãos, de forma que o hino da escola pôde brilhar em todo o seu esplendor no desfile. 

Para além do reconhecimento do andamento ideal para o samba que possuíam, os mestres Plínio e Paulinho Botelho conseguiram levar para a Avenida uma bateria bem condizente com o enredo que a escola trabalhava, contando com alguns ritmistas com instrumentos totalmente conectados com a temática africana, como o atabaque e o xequerê. Além disso, um dos grandes destaques da bateria foi a bossa realizada após sair do refrão de meio do samba, entrando na segunda do samba e executando um ritmo afro no qual os surdos e os tamborins puderam brilhar. 


A Beija-Flor foi a última escola do domingo de Carnaval e deixou a Marquês de Sapucaí como a franca favorita ao título após desfilar com o dia já amanhecendo. A escola arrebatou o público e encerrou o desfile aos gritos de “É Campeã!”. Mas, para a tristeza e frustração da comunidade nilopolitana, a Quarta Feira de Cinzas reservava uma ingrata surpresa. Mesmo com um desfile arrebatador, que empilhou notas 10 em todos os quesitos, um 9.5 em Alegorias e Adereços foi determinante para que a Imperatriz, com um perfeito 300, chegasse ao título do carnaval de 2001, repetindo as posições anteriores e fazendo com que a Beija-Flor de Nilópolis amargasse o terceiro vice-campeonato seguido para a escola de Ramos.  

Mesmo sem a vitória, Agotime é um daqueles desfiles que ganhou, acima de tudo, as páginas da história carnavalesca. Até hoje lembrado como uma das melhores apresentações – e mais injustas derrotas para muitos – da Deusa da Passarela, o desfile mobilizou uma estética rica, criativa, excelente samba e um enredo indiscutivelmente abraçado pela comunidade nilopolitana. A saga milenar da escola, mais do que buscar uma história antiga para contar, invocou uma personagem não ensinada nas salas de aula, cumprindo, assim, o papel cultural e educacional das escolas de samba que se interessam a colocar nas devidas molduras os nomes que combinaram de não nos contar algum dia. Ressoou no Maranhão, na Sapucaí e no país inteiro. 

Confira o depoimento do carnavalesco Fran Sérgio sobre esse desfile inesquecível:





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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.

Foto: Fernando Grilli/Riotur
Sempre bem quistos no carnaval, os enredos de temática "afro" se tornaram garantia de bons sambas, com pegada e força para embalar um bom desfile. Historicamente ligadas às religiões afro-brasileiras, as escolas de samba demoraram a levar esta temática de fato para suas apresentações. A forte negociação com o poder público acabou por fazer as agremiações cantarem a história oficial branca durante muito tempo. Por isso, foi apenas em 1966 que o nome de um orixá apareceu num samba-enredo pela primeira vez, quando a São Clemente e o Império Serrano inseriram "Iemanjá" em suas letras. 

Louvando as temáticas de raízes africanas, preparamos essa lista cheia de axé, focando nos enredos biográficos dos orixás, que se tornaram muitos comuns na Série A nos últimos anos, mas que já foram contados há décadas. Então, prepare o terreiro e vem com a gente nesse xirê.

Arranco 1977 - Logun, príncipe de Efan


Foi só em 1977 que se registrou o primeiro samba-enredo biográfico sobre um orixá afro-brasileiro, segundo o livro "Samba de Enredo: história e arte", de Luiz Antônio Simas e Alberto Mussa. A história se torna ainda mais curiosa por se tratar de uma das divindades menos conhecidas em terras brasileiras. 

Logunedé, que significa feiticeiro de Edé, é o filho de Oxóssi e Oxum, nasceu no gênero masculino mas ganhou o poder de se transformar para o feminino. Na versão cantada pela azul e branco do Engenho de Dentro, Logun seria um bastardo condenado após a morte de Xangô, marido da deusa das águas doces. O obra tem uma belíssima letra e garantiu não só um honroso vice-campeonato para a agremiação na segunda divisão da folia carioca, como também o Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo naquele ano. 

Imperatriz 1979 - Oxumaré, a Lenda do Arco-íris


Dois anos depois, finalmente, um orixá teve sua história contada numa escola do primeiro grupo. E esse suposto pioneirismo aconteceu por uma escola inusitada, a Imperatriz Leopoldinense, que é pouco ligada historicamente a temas "afro". A Rainha de Ramos levou para a Avenida "Oxumarê, a Lenda do Arco-íris", um enredo que tinha como figura principal um dos mais conhecidos orixás, simbolizado pelo arco-íris e por uma grande serpente, que liga os reinos de Orun e Ayê (terra e céu). 

O desfile trouxe os príncipes africanos em sua comissão de frente, moças e alas nas sete cores do arco-íris e, claro, a roda da fortuna de Oxumarê, já que o intuito era trazer a lenda do arco-íris sob a perspectiva da tradição afro no Brasil. No final, o resultado conferiu à escola um sétimo lugar e a Avenida reverenciou as cores do majestoso orixá! Arroboboi!

Império da Tijuca 2015 - O Império nas águas doces de Oxum 

Fonte: G1

Dando um grande salto no tempo, desembarcamos no Morro da Formiga, que logo após a ligeira passagem pelo grupo especial levou à Sapucaí toda a riqueza, beleza e fertilidade de Oxum, mãe do ouro, da beleza e dos amores. O enredo, desenvolvido por Junior Pernambucano, foi batizado de "O Império nas Águas Doces de Oxum". A trajetória da iabá começa em seu nascimento no ventre de Odudúa e passa por suas águas doces, símbolo da fertilidade, onde reina soberana e dança com seu abebê encantado, sempre formosa e discreta. 

A rainha das águas doces foi representada por Érika Januza no desfile oficial e a escola, no fim das contas, conquistou um modesto sexto lugar no seu primeiro ano de volta à Série A, mas encantou com majestosa passagem, digna da homenageada. Ora, ieie ô! Salve Oxum!

Alegria da Zona Sul 2016 - Ogum

Foto: Widger Frota

Ogum é um dos orixás masculinos mais difundidos no imaginário brasileiro, talvez por seu forte sincretismo com santos igualmente muito cultuados. No Sudeste, possui forte ligação com o popular São Jorge, enquanto na região Nordeste, com Santo Antônio. Ogum é o orixá guerreiro, senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Era ele mesmo quem forjava suas ferramentas, tanto para a caça, quanto para a agricultura e para as batalhas.

A história do orixá foi narrada pela Alegria da Zona Sul em 2016, assinada pelo carnavalesco Marco Antônio Falleiros, passando desde a origem do guerreiro até toda sua atuação entre Orun e Ayê, terminando, obviamente, com sua ligação ao santo guerreiro católico. Com um desfile agradável, que se destacou pelo samba valente e forte, a vermelho e branco da Zona Sul terminou na modesta décima posição. Ogunhê!

Renascer de Jacarepaguá 2016 - Ibejís, nas brincadeiras de crianças: Os orixás que viraram santos no Brasil.

Foto: G1
Os Ibejis são entidades pouco conhecidas, mas que no Brasil ganharam novas proporções com o desenvolvimento do sincretismo afro-católico. As divindades gêmeas foram aglutinadas na figura de São Cosme e Damião, num complexo e fascinante processo de troca cultural. A mistura acabou por fazer do Brasil um dos poucos lugares do mundo onde os santos católicos são representados com feições infantis, sem ainda falar na inclusão de Doum nessa mistura boa, mais fortemente na umbanda. 

Toda essa relação complexa de troca e negociação entre as culturas europeias e africanas foi contada na apresentação da Renascer de Jacarepaguá em 2016, no desfile assinado por Jorge Caribé, que possui reconhecida experiência na temática. O desfile foi leve e empolgante, como pedia a temática, embalado por um samba leve, encomendado a grandes compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo e Teresa Cristina, no modelo que a vermelho e branco segue desde 2014.

Unidos de Padre Miguel 2017 - Ossain, o poder da cura 

Foto: Riotur

Um dos carnavais recentes mais marcantes contando a história de um orixá foi o desenvolvido pela Unidos de Padre Miguel em 2017. A escola, que tem se fixado pela estética afro, optou por louvar um membro pouco difundido do panteão africano. Ossain é orixá ligado às folhas, à cura e à força da floresta, e, embora fundamental, acabou se tornando pouco difundido pelos terreiros brasileiros. 

O desfile maravilhoso foi o último do bem-sucedido casamento da escola de Padre Miguel com Edson Pereira, apostando em grandes esculturas e alegorias monumentais muito bem elaboradas. Apesar de toda a beleza e força, é impossível esquecer do trágico incidente que marcou a apresentação: a queda da primeira porta-bandeira que acarretou na torção de sua perna, durante sua dança para o módulo duplo - já extinto - de julgadores. Vale lembrar que o orixá é, por vezes, representado exatamente com apenas uma perna só. Arrepiante!

 Império da Tijuca 2018 - Olubajé: um banquete para o rei 

Última alegoria do Imperinho do desfile de 2018 (Foto: Carnavalesco)

Atotô! 2018 marcou o primeiro ano da escola da Tijuca após o seu longo e bem sucedido casamento com o carnavalesco Junior Pernambucano, especialmente ligado aos grandes desfiles com temática afro. Mas mesmo com a saída do artista, o Morro da Formiga se apresentou apostando na magia dos orixás, sob comando de Sandro Gomes e Jorge Caribé. 

"Olubajé, um Banquete para o Rei" foi o enredo que saudou Olubajé com uma grande homenagem, desde o seu nascimento, passando pela transformação em um bom caçador e encerrando com um lindo banquete em plena Sapucaí, com, claro, banho de pipoca no final! A estética da agremiação surpreendeu por sua beleza e força, contando o enredo de maneira digna e com um grande samba composto por uma parceira encabeçada por Samir Trindade. 

Foto: Rádio Arquibancada
Apesar de um discurso que critica os enredos sobre as macumbas brasileiras por sua repetição temática e visual, em alguns casos, é sempre importante as escolas de samba reafirmarem suas raízes africanas, sobretudo num cenário intolerante e segregador. Mas sem nunca deixar de procurar novas soluções estéticas e narrativas para temas já conhecidos por parte do público. Nós que adoramos um xirê estamos sempre preparados para incorporar na avenida e ver ainda muitos orixás sendo celebrados na Sapucaí! Axé! 

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Reza a lenda que existiu um deus todo poderoso, de voz de trovão que reuniu junto a si um séquito de deuses singulares que mudariam para sempre a história da nossa folia momesca. Eles fizeram do morro do Salgueiro o seu Olimpo. O deus de trovão se juntou a um certo Arlequim, deus do barroco e da História. Não demorou e o panteão logo aumentou. Vieram colombinas, rosas, reis-mendigos, robôs e índios. Uma verdadeira academia da folia, que juntos, fizeram grande confusão. Colocaram o carnavalesco com o principal artista da festa, o deus maior de cada escola. Transformaram aqui e acolá com seus mitos e lendas. Exaltando o negro pro mundo inteiro cantar, com uma estética nova e revolucionária.

Meu Torrão Amado

Imagem do desfile de 1970 

O Acadêmicos do Salgueiro revela em sua história as raízes da negritude. Em sua estreia, no ano de 1954, a vermelho-e-branco da Tijuca garantiu o terceiro lugar, com o enredo "Romaria à Bahia", exaltando Salvador, a capital negra do Brasil. Três anos depois, o Salgueiro desfilou com "Navio Negreiro", mas ainda apresentando a negritude sob uma ótica oficial e conciliadora. Era célula pátria da escola marcada pelo branco, vermelho e negro, destinada a mudar para sempre a festa carnavalesca. 

Uma viagem pitoresca e fundamental – O desfile atrasou, seu coração Salgueirou

Ala de damas leva representações das obras de Debret no desfile de 1959.

Depois disso, em 1959, o Salgueiro levaria à Rio Branco o enredo intitulado "Viagem Pitoresca Através do Brasil", que se tornaria conhecido como Debret, autor do livro homônimo. O desfile salgueirense foi assinado pelo casal de artistas plásticos Dirceu e Marie Louise Nery. Jurado naquele ano, um certo Fernando Pamplona, após quatro horas de atraso no início das apresentações, se maravilhou ao ver o artista franco-brasileiro no lugar dos heróis de “capa e espada”. O encantamento  fez Pamplona dar uma nota maior para a "Academia" do que para a campeã Portela. Tal fato o fez ser convidado por Nelson Andrade, então presidente da agremiação, para ser carnavalesco da escola.

Pernambuco foi o palco da história

Guerreiro africano leva o estandarte com o enredo de 1960.

Se hoje Zumbi dos Palmares tem estátua, um feriado e é figura garantida nos principais livros de História, o cenário em 1960 era bem diferente. Poucos conheciam o herói negro, principalmente nas escolas de samba, que só cantavam fatos e mitos da narrativa oficial "branca". Foi com a chegada do Zeus salgueirense, Fernando Pamplona, que enfim o quadro se inverteu. Com um enredo sobre o "Quilombo dos Palmares", estava lançada a pedra fundamental da revolução em vermelho, branco e negro. Apesar de outras escolas terem abordado de alguma maneira símbolos negros, tanto no Rio e como em São Paulo, nenhuma agremiação fez disso seu discurso apoiado em uma série de renovações estéticas como o Salgueiro.

Nesse quilombo tem magia

O abre-alas da Academia de 1960.

A estética do Quilombo de Palmares foi o resumo da afrobrasilidade. A primeira alegoria vinha carregada por atabaques gigantes representando os sons do candomblé e do jongo, símbolos da herança africana. Cabe ressaltar que os componentes tratavam as alegorias pelo nome de Enredo, pois achavam que os elementos eram os verdadeiros responsáveis pela história que seria contada. Para ilustrar o desfile, além dos tambores e lanças, a setorização do desfile foi disposta com a representação do "Cativeiro", "Luta" que mostrava a essência guerreira em busca da liberdade, "Palmares - O reinado de Nzambi", com o Maracatu de Pernambuco e "Nação Livre", com alas populares, damas e as famosas bandeiras brancas da paz. Estandartes carregavam frases, dentre elas a que virou o lema da Academia: "nem melhor, nem pior, apenas diferente".

"Você tem vergonha de ser negro?"

Imagens do desfile de 1960.

Foi a pergunta que Pamplona fez, "na lata", para um componente salgueirense antes do desfile de 1960. O cenógrafo e professor teve dificuldades de convencer os desfilantes, em sua maioria negros, a saírem como guerreiros africanos. Para eles, aquela fantasia não "pegava bem" para brincar os outros dias de folia. Junto à Pamplona nessa difícil missão, estavam Arlindo Rodrigues, fazendo os figurinos femininos e Newton Sá, os étnicos. Na maioria dos lugares se credita ainda a participação do casal Nery, responsável pelo desfile do ano anterior sobre Debret, o que não é verdade.

Onde o erudito se mistura ao popular, cenário perfeito para um novo carnaval 

Arlindo Rodrigues foi o grande parceiro criativo de Pamplona e responsável por desfiles solos marcantes.

Após o sucesso do desfile de 60, a chegada do grupo de Pamplona inauguraria o protagonismo do negro nos enredos salgueirenses e, posteriormente, nas demais agremiações. “Quilombo”,  deu início à revolução em um desfile com estética e abordagem diferenciadas, seguido por personagens então desconhecidos como Xica da Silva e Chico Rei. Mais tarde, vieram exaltações à Bahia, seus deuses afro-brasileiros e festejos. Tidos como intelectuais, não era a primeira vez que pessoas de foras assinavam um carnaval. A prática, que era comum nos ranchos, se consolidou, colocando o carnavalesco como o diretor principal da festa. 

"Quilombo" exaltou o orgulho negro


A estética da máscara africana do diretor Abdias Nascimento lembra a do Salgueiro da época.

O Salgueiro não estava sozinho na luta pela valorização do negro. Lá fora, eclodia um momento de independência africana, com várias colônias conquistando sua autonomia, culminando num processo de valorização da cultura do continente. Enquanto isso, por aqui, símbolos como o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, e movimentos unificados da negritude, como a Associação  Cultural do Negro (ACN), reivindicavam o protagonismo e a conquista de direitos igualitários. 

A corte de Xica

A ala da "Corte da Xica da Silva" dançando o minueto em 1963.

Outro marco deste processo da valorização africana foi a lendária Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Municipal. Ficando famosa por coreografar a primeira ala de passo marcado da história, comandando a corte de Xica da Silva num momento apoteótico, Mercedes já vinha marcando presença na Academia desde 1960. Naquele ano, a bailarina desfilou com seu grupo, distribuindo colares africanos para o público. 


No seio da mais alta nobreza

Fotos da decoração africana assinada por Pamplona 1959, no Municipal.

O discurso de negritude de Pamplona é absolutamente afinado com a sua época. Figura declaradamente de esquerda, era frequentador do meio universitário, onde ocorriam essas discussões  - por ser professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA) - e integrante da União Nacional dos Estudantes (UNE), como ele mesmo declara em sua biografia. A valorização do negro nos enredos do Salgueiro “ensinaria” a manifestação a ter orgulho de origem ancestral africana, como o próprio assume em seu relato pessoal. 


Fotos da decoração de rua com temática africana de 1961.

E ele traduzia esses pensamentos em suas produções como decorador e cenógrafo. Já em 1954, participou do concurso que iria escolher a decoração do prestigiado baile do Theatro Municipal, com uma proposta que tinha como inspiração a Bahia e seus orixás. Ele perderia a competição naquele ano, mas sairia vencedor quatro anos, com “Carnaval afro-brasileiro’. Nas suas famosas decorações de rua, ele voltaria a explorar esses universos muitas vezes, como em 1961.

É fantástico, virou Hollywood isso aqui



Cartazes de filmes e séries hollywoodianos sobre o continente negro.

Apesar de todo esse discurso nacionalista e popular, a possível inspiração para a formação da "África Salgueirense" veio da capitalista indústria norte-americana. Nos anos 50 e 60, havia um popular nicho de filmes que criavam uma mística em torno do continente negro, com uma temática rústica, de muitas estampas geométricas e caráter místico. Alguns cartazes de filmes da época exemplificam bem essa hipotética influência.

A Xica que manda ou "Enredo de merda, Arlindo"

A eterna imagem de Isabel Valença como Xica da Silva com a Candelária ao fundo, em 63.

Pamplona deu um pequeno adeus e foi passar o carnaval na Alemanha em 1962, deixando seu parceiro e fiel escudeiro Arlindo Rodrigues no comando dos trabalhos. Para 63, o também cenógrafo do Municipal escolheu a então desconhecida Xica da Silva como enredo. Pamplona não achou que a história da mulata que trocou "os gemidos da senzala pela fidalguia do salão" daria bom desfile. Mas Arlindo persistiu: "é negro, de luta e conquista social, da nossa linha". E então surgiu um dos momentos mais importantes do carnaval contemporâneo. Mesmo não aprovando o enredo naquele momento, Pamplona ganharia a fama como o único responsável pela criação e concepção do desfile, em detrimento de seu verdadeiro autor, Arlindo Rodrigues. 

Xica da Silva já te seduziu

Detalhe do elemento alegórico usado em 1963, logo atrás da ala do minueto.


Espécie de desfile manifesto, Xica da Silva é um marco para entender a narrativa carnavalesca contemporânea, pois foi ali que ela se estabeleceu, dada por Arlindo e não por Pamplona. Cenógrafo do Municipal, Arlindo Rodrigues traz toda a linguagem teatral para o cortejo carnavalesco, transformando-o, de fato, numa ópera popular. O enredo passa a contar uma narrativa com início, meio e fim, numa construção bem definida e de fácil decodificação pelo público da época. O luxo, o esplendor e o requinte são marcas das fantasias e alegorias apresentadas. A escola passa a ter roupas inspiradas no tempo em que o enredo se passa, criando uma unidade narrativa literário-visual. Por fim, o uso da ala coreografa afirma o diálogo direto com as artes cênicas.

Já bebi, sambei com Chico-Rei

Imagens da apresentação de 64, criticada pelo excesso de coreografias.

Desde 61, quando Pamplona descobriu a história de Chico Rei pesquisando para o enredo sobre Aleijadinho, ele alimentou o desejo de contar a história. Até a realização, passaram-se 3 anos, quando em 1964, finalmente, a Academia versou sobre o personagem. Embalados por um belíssimo samba de Djalma Sabiá, o desfile rendeu a marcante cena da lavagem da cabeça de Chico Rei numa pia.  O excesso de coreografias porém, fez a escola ser penalizada e perder o campeonato. 

Choveram críticas ao professor


Fernando Pamplona com projetos de suas decorações de rua.

O grande número de coreografias, mais todas as inovações chefiadas por Pamplona e Arlindo renderam um debate acalorado. Não faltou quem acusasse a turma de estar destruindo a festa e acabando com a tradição, caso do já citado Nilton Sá. O debate em torno das transformações acontece até hoje, porém, para muitos, apenas o tempo pôde revelar a genialidade e a necessidade de tantas transformações.

A história da folia contada através da própria folia


Imagens do desfile de 1965 sobre a folia carioca.
"Vamos dar uma Shakespeare em Hamlet, o teatro dentro do teatro, o carnaval dentro do carnaval". Foi assim que Pamplona convenceu Arlindo a fazer o desfile de 1965 sobre "A História do Carnaval Carioca", baseado no fundamental livro de Eneida de Morais lançado tempos antes. Pro quarto centenário da cidade, era obrigatória a apresentação de um enredo sobre o aniversário do Rio, exigência que os gênios salgueirenses souberam driblar muito bem.


Preto velho Benedita já dizia: “Felicidade também mora na Bahia.”

Desfilante salgueirense de 1969. 

Sem contar com a previsão do resultado daquele ano, o desfile de 1969 gerou polêmica na comunidade salgueirense. Rezava a lenda que a Bahia dava azar e que, portanto, não deveria ser o tema. Nelson de Andrade, patrono da época reforçou a tese e disse que “dezessete escolas já tentaram falar da Bahia e nenhuma delas passou do terceiro lugar”. Contrariando boatos, a Academia mostrou que tinha santo forte e mordeu a taça de campeã daquele ano com um desfile memorável, embalado pela voz de Elza Soares, encarregada de puxar o samba da escola.

Yemanjá enriquecendo o visual

Não há registro que dê conta do que seria a beleza da Yemanjá do desfile de 1969.

Além da Xica, outra imagem produzida pela comissão se eternizaria na mitologia carnavalesca. A representação de Yemanjá, com apenas 3 metros e todos adereçada em espelhos se tornaria a primeira grande alegoria da nossa folia. Reza a lenda que já passava das nove da manhã quando a escultura representando a orixá das águas salgadas passou na concentração do desfile do Acadêmicos do Salgueiro, fazendo os cansados componentes se levantarem, maravilhados. Toda decorada com espelhos cortados em círculos presos por fios de náilon, a representação da divindade foi elaborada por Arlindo. O efeito teria sido tão deslumbrante que a tecnologia fotográfica da época não deu conta de captar o registro. As fotos realizadas por um repórter da revista Manchete saíram borradas pelas ilusões óticas causadas pelos espelhos.

Tira da cabeça o que do bolso não dá

As belas baianas salgueirenses.

Ainda naquele ano, Pamplona e Arlindo Rodrigues, além do compromisso com a Academia do Samba, tinham a responsabilidade da decoração do Copacabana Palace naquele carnaval. Sem muitas alternativas com a falta de dinheiro para o desfile do Salgueiro, a saída que a dupla achou foi fazer muitos ornamentos nas cores da escola para o baile do hotel, que aconteceria um dia antes da apresentação da agremiação. No domingo, a Avenida era preenchida pela reutilização já planejada dos ornamentos do baile do luxuoso hotel carioca. 

Pega no ganzê, pega no ganzá

Elemento alegórico usada na apresentação de 1971.

O enredo sobre a inusitada visita de um rei africano à corte do holândes Mauricio de Nassau, em Pernambuco, surgiu de pesquisas universitárias de Maria Augusta para concorrer ao Prêmio Medalha da Escola de Belas Artes, o que hoje equivale ao mestrado. A estética africana daquele ano abusaria ainda mais do vermelho e branco e das estampas geométricas com usos de grandes elementos alegóricos. Outro fator decisivo para o sucesso da Academia naquele ano foi o samba composto por Zuzuca: o simples refrão "pega no ganzê, pega no ganzá", repetido inúmeras vezes ao longo da música seria entoado pelas massas, marcando uma transformação no gênero. A obra do Salgueiro trouxe rapidez e empolgação, deixando de lado as letras longas e dolentes.

Tempo de consciência negra

Alegoria do desfile de 1989 do Salgueiro, assinado por Luiz Fernando Reis. 

Após construção tão mística, não só pelo "boca a boca", mas pela historiografia carnavalesca que surgiria depois, consolidando as transformações estéticas do grupo de artistas liderado por Pamplona e Arlindo como um o momento mais importante da história recente das escolas de samba e ponto de virada para a chegada da estrutura narrativa e estética que temos hoje. Todos os nomes surgidos após elas, seriam oriundos dessas espécie de "escola" carnavalesca que tinha como pais os cenógrafos do Municipal. Pode até ser que não sejam os primeiros enredos afros de fato ou os primeiros artistas de formação oficial a planejarem os desfiles das escolas. Mas eles fariam seu próprio panteão. 

Foi quando o Salgueiro se vestiu de vez com as vestes negras fazendo disso seu DNA mais profundo. Sempre louvando a sua própria história como em 86, 89 e 2003. E a força africana como 78, 2007, 2009, 2014, entre tantos outros. E bebendo de novo e de novo na fonte negra-africana, onde o rio vermelho, branco e negro começou a jorrar.


O Dossiê Carnavalize é uma trabalho coletivo de Leonardo Antan, Beatriz Freire, Guilherme Peixoto e Vitor Melo. 


Fontes Consultadas

Para a construção deste dossiê, foram utilizados os livros "Pra tudo começar na quinta-feira ", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato; "Livro de ouro do carnaval carioca", escrito por Felipe Ferreira; "Explode coração: histórias do Salgueiro", de Leonardo Bruno; e "O encarnado e o branco", de Fernando Pamplona, além da série de reportagens "Carnaval Histórico", do jornal Extra e assinadas por João Gustavo Melo e Leonardo Bruno.

Foram consultados ainda os artigos acadêmicos "As Áfricas de Pamplona e o Debret da Trinca: 'figurinos' monumentais do carnaval carioca", de Helenise Monteiro Guimarães; "As escolas de samba e o movimento negro nos anos 1960: uma página em branco da historiografia brasileira" e "Nem melhor, nem pior, apenas uma Escola diferente: Os Acadêmicos do Salgueiro e as transformações estéticas e ideológicas na cultura brasileira", ambos escritos por Guilherme José Motta Faria.


   
 




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