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Carnavalize


Por Redação Carnavalize

Em uma viagem de São João de Meriti para Salvador, a Unidos da Ponte, terceira escola a desfilar pela Série Ouro, propôs o enredo "Santa Dulce dos Pobres - O anjo bom da Bahia", assinado pela dupla de carnavalescos Guilherme Diniz e Rodrigo Marques. O desfile rendeu homenagem à primeira santa nascida no Brasil com a promessa de espalhar o trabalho de amor da Irmã Dulce pela Avenida.

O experiente sambista Valci Pelé, responsável pela coreografia da comissão de frente da Unidos da Ponte, apresentou a escola em dois atos. No primeiro, apareciam pessoas humildes sendo acariciadas pela Santa Dulce, ao redor dela. Já no segundo, os pedintes se transformam em anjos e a Santa surge no telhado do elemento alegórico, que não foi propriamente um primor estético. A transformação levantou a arquibancada, apesar de não ser nada muito inovador. Esteticamente, a comissão não dialogou com a cabeça da escola, que era, sobretudo, branca e dourada. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emanuel Lima e Camyla Nascimento, formado após o acidente de Yuri, o ocupante oficial do posto, mostrou entrosamento, vez, inclusive, que se trata de um casal que já dança junto na Portela. Ademais, estavam muitíssimo bem vestidos e optaram por uma coreografia tradicional. Infelizmente, Camyla acabou tropeçando em frente à primeira cabine, sendo estimulada pelo público a se reerguer. Nesse acidente, a bandeira se prendeu em seu adereço de cabelo. 

Grande momento da comissão da Ponte (Foto: Thomas Reis)


O desenvolvimento do enredo foi bastante burocrático, focado mais no aspecto religioso, ligado fortemente ao catolicismo. Ocorre que a pegada religiosa culminou em uma estética um pouco quadrada em alguns momentos. As alegorias da Ponte foram, no geral, bem regulares. O destaque ficou por conta do último carro, bem solucionado em cores e materiais. O segundo carro, por sua vez, se destacou pela iluminação. Sobre o conjunto de fantasias, o que mais incomodou talvez foi a aposta em costeiros bastante repetitivos, que investiram no uso do acetato em sua maioria.

Escola apostou no dourado na cabeça do desfile (Foto: Vítor Melo)


O intérprete Charles Silva emprestou sua voz ao samba-oração, que se comprovou pouco empolgante ao longo do cortejo, enquanto a bateria do Mestre Branco Ribeiro passou sem maiores problemas pela Sapucaí, optando por não entrar no recuo quando a escola se mostrava um pouco apertada no cronômetro. A harmonia também ficou bem aquém do desejável. 

A evolução foi o calcanhar de Aquiles da agremiação, que cometeu, infelizmente, muitos erros no quesito. Além do desfile morno, a escola sofreu com suas alegorias. O abre-alas parou em certo momento e abriu um clarão diante do módulo 4. Isso se repetiu com a alegoria seguinte. Muitos buracos foram vistos na reta final da Sapucaí. Por conta desses problemas, a Ponte precisou arrumar uma verdadeira correria para sair dentro do tempo.

Com uma evolução desastrosa e estourando o tempo em 1 min, a escola encerrou a sua apresentação com 56 min. Com todos esses erros, a Ponte deve disputar as últimas posições na terça-feira.





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Texto: Beatriz Freire, João Vitor Silveira e Thomas Reis


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrinchamos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize). 

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Para o nosso último texto (coro de lamento), contamos com a colaboração de três padrinhos: Renato Cabral, Vitor Vieira e Danielle Souza estão representados por União da Ilha 1990 (Sonhar com rei dá João), Renascer de Jacarepaguá 2009 (Como vai, vai bem? Veio a pé ou de trem?) e Império Serrano 2017 (Meu quintal é maior que o mundo). Agradecemos mais uma vez aos nossos padrinhos e madrinha pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Como um dos maiores expoentes da cultura brasileira, desde o rebaixamento para a Série A em 2009, o Menino de 47 passou alguns anos tentando beliscar novamente uma vaga no Grupo Especial. A passagem pelo segundo grupo rendeu bons momentos de conexão com suas raízes, como quando homenageou Dona Ivone Lara, a jóia rara do samba, em 2012, passou uma mensagem de fé, em 2015, e também quando reverenciou Silas de Oliveira, no carnaval de 2016. Estes dois últimos, aliás, eram os pontos de uma trilogia pensada para o Império Serrano de 2015 a 2017, fundamentada sobre três ideias: a fé, a raiz e a herança, respectivamente. 


Menino Bernardo em meu ser, reinvento o meu Pantanal


Assim, no ano de seus 70 anos de existência, em 2017, até se cogitou fazer uma homenagem própria à escola da Serrinha para que a sequência finalmente fosse finalizada (a herança). Mas, no final das contas, os olhos se voltaram para a os feitos de Manoel de Barros, usando a obra homônima do poeta, para Marcus Ferreira, que chegou à agremiação naquele ano, desenvolver o enredo “Meu quintal é maior que o mundo”.

“Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.”
(Manoel de Barros, do "Livro das Ignorãças", 
Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1993, pág. 107.)


A logo oficial do enredo desenvolvido por Marcus Ferreira.

O enredo conduzido por Marcus se propôs a versar de forma poética sobre a trajetória de um dos maiores literatos da contemporaneidade, o poeta brasileiro Manoel de Barros. Foi a partir do seu olhar poético sobre sua terra que a história ganhou a Sapucaí. De origem mato-grossense, nascido em Cuiabá, o homenageado sempre teve seu olhar voltado para a região do Pantanal, muito presente em todas as suas obras. Desta forma, o ainda jovem carnavalesco buscou, por meio da subjetividade presente na obra de Manoel e no seu amor por sua terra, o fio condutor da narrativa. A viagem pantaneira contava com o auxílio mais que especial de Bernardo, um dos principais personagens da obra do poeta, que exprimia toda sua brasilidade e mística rural.

Sobre Bernardo:
Espécie de totem, deus, guardião da natureza sagrada. Mítico que domina o mundo natural pantaneiro.
Fazedor de amanhecer. Guardador das águas. Encantador de pássaros.
Matuto pantaneiro, meu fazendeiro.
"Reizinho" do meu quintal.
Bernardo: meu outro eu.

A narrativa foi dividida em quatro partes embasadas em todo o regionalismo do poeta. O primeiro setor demarcava o “Fazedor de amanhecer”, percorrendo toda a origem da terra pantaneira que se estende para além dos limites da fronteira brasileira, tomando parte das regiões da Bolívia e do Paraguai. O segundo setor partia para “O guardador de águas”, passando pelo "Mundo natural do pantaneiro"; no terceiro, e por fim, desaguava em "Um pantaneiro a lutar". 
 

A minha história já fala por mim

A Comissão de Frente coreografada por Júnior Scapin. Foto: Wigder Frota. 


Sob o comando de Júnior Scapin, nome conhecido do quesito, o corpo de baile se apresentou em dois atos, com o título “poesia é voar fora da asa”. Em um primeiro momento, os componentes trajavam vestes indígenas, associando o Pantanal a esta figura nativa. Um tripé com um ipê, árvore-símbolo da região, acompanhou o grupo que em um segundo momento fazia acontecer a transformações de pajés feiticeiros em animais pantaneiros. Ao final da apresentação, a figura de Manoel surgia pela abertura de uma janela que acompanhava a frase da cabeça do samba. 

O primeiro casal de porta-bandeira e mestre-sala da Serrinha. Foto: Wigder Frota.

Raphaela Caboclo, em dado momento da sua vida, passou mais tempo como porta-bandeira da Serrinha – independente do posto de terceira, segunda ou primeira – do que longe da dedicação à condução do manto sagrado imperiano. Em 2017, formava, pelo terceiro ano seguido, dupla com Feliciano Júnior; a cumplicidade e o entrosamento eram tantos que pareciam ter aprendido a se movimentar juntos naquela dança desde sempre. Em vestes sem as tradicionais penas utilizadas, mas feitas de capim barba de bode, os dois jovens e experientes talentos representavam o índio e a perdiz, personagens de “O primeiro poema” - curiosamente o último poema do livro “Menino do mato”, de autoria do homenageado. Graciosos em uma apresentação não menos que perfeita, os guardiões abriram os caminhos para a comunidade de Madureira passar. 


O nosso verde fez o céu emocionar


Do ponto de vista estético, o reizinho de Madureira cumpriu muito bem o proposto. O conjunto alegórico se destacou por apresentar cinco carros imponentes, com cores vívidas e bem decorados, que se mantiveram equilibrados desde o abre-alas até a última alegoria. Por falar no abre-alas (Meu quintal é minha aldeia), esta foi a alegoria que mais se destacou, sobretudo por sua estética diferenciada, dividida ao meio por duas tonalidades: uma metade o ouro do Eldorado, a outra marrom do pantanal brasileiro, carregando toda a mitologia que se perpassou pela região. 

O abre-alas evocava o Eldorado. Foto: Fernando Grilli.

A alegoria levou à Avenida o símbolo máximo do Império, a coroa. Na ocasião, em especial, o carnavalesco buscou resgatar o primeiro modelo da coroa, concebido na fundação da escola, em alusão aos 70 anos completados em 2017. A segunda alegoria, “Caracol é uma casa que anda”, foi um banho de cores cítricas para representar a natureza da região centro-oeste do país com um toque poético bem compatível com o homenageado. Apesar do toque criativo e das boas soluções estéticas, a alegoria apresentou alguns problemas de execução decorativa, com algumas madeiras à mostra. 

Para fechar a narrativa, contou-se com mais duas alegorias. O terceiro carro, “Passarinhos construíam casas na aba do seu chapéu de palha”, trazia em sua parte frontal uma enorme escultura de Bernardo, o personagem de Manoel, que conduzia a história contada pela verde e branco. Os tons cítricos que permearam todo o desfile se fizeram presente nesta alegoria também; com uma iluminação robusta, o carro ganhou vida, mas o excesso de adereços em determinados pontos acabam poluindo um pouco a construção. 

A segunda alegoria lembrava o verso "Caracol é casa". Foto: Wigder Frota.

No entanto, nada comprometeu a beleza estética da alegoria. Por fim, mais uma imponente alegoria, “O Pantaneiro encontra o seu ser”, com destaques coloridos, um certo excesso de adereços e, mais uma vez, o símbolo da escola, desta vez no centro carro e com movimento giratório. O equilíbrio entre as cores e a iluminação das alegorias merece ser reverenciado por ter dado vida e dinamismo ao bom conjunto alegórico apresentado pela escola. 

O equilíbrio entre as alegorias não se fez presente por entre as alas, apesar do desempenho positivo e o cumprimento do proposto com excelente adequação ao enredo, as fantasias alternaram entre soluções criativas e outras nem tanto. Se por um lado as fantasias não eram tão luxuosas, por outro, a utilização das cores foi muito acertada. A escola formou um belo tapete, voltado especialmente para o verde, amarelo e laranja, com ressalvas em tons terrosos e de palha. De maneira geral, o visual conseguiu retratar muito bem o tom artístico do poeta e toda sua leitura do pantanal brasileiro, sua terra, seu quintal. A estética da escola se fez poesia, assim como as obras de Manoel de Barros, e versou muito bem sobre as terras do centro-oeste brasileiro. 


Você já sabe quem sou pelo toque do agogô


O samba do ano de 2017 é mais um a compor a galeria de grandes sambas do Império Serrano. A composição tem diversos trechos poéticos e de muita beleza, além de transições melódicas bem interessantes. A estrutura de utilizar um refrão de meio mais longo e sem repetição foi uma saída criativa para poder fugir da fórmula padronizada que tomou o gênero do samba-enredo ao longo dos anos. O samba foi muito bem conduzido na Avenida pelo intérprete Marquinhos Art’Samba, que defendia o pavilhão da Serrinha pela primeira vez, tendo uma boa identificação com sua comunidade já na sua estréia.
 
O samba composto por: Lucas Donato, Tico do Gato, Andinho Samara, Victor Rangel, Jefferson Oliveira, Ronaldo Nunes, André do Posto 7, Vagner Silva, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante e Totonho, um verdadeiro time de futebol, foi bem aceito ao vencer a disputa, muito pelo refrão de cabeça, icônico. Eram elementos da obra a exaltação da história do Menino de 47, além da reverência a uma das grandes características da bateria do Império Serrano: o característico toque de agogô. (saiba mais na série Batuques.)

Um ritmista da bateria sinfônica em 2017. Acervo Império Serrano.

A bateria do Império Serrano, que inclusive deu um show com um dos melhores anos recentes da Sinfônica do Samba, conduzida pelo Mestre Gilmar, desfilou com uma cadência daquelas pela pista. Gilmar, inclusive, falou um pouco conosco sobre sua perspectiva sobre o desfile de 2017:

“Nós vínhamos de um desfile no ano de 2016 onde as características da bateria tiveram que mudar um pouco por conta do samba. A diretoria pediu que acelerasse o andamento por conta do samba, e eu falei muitas vezes que não daria certo, a bateria do Império não teria um bom desempenho com um andamento acelerado, porém eu sigo ordens. Foram dois 10 e duas notas inferiores naquele ano. Para 2017, comecei os trabalhos com novos pensamentos, toda minha diretoria entendeu que seria importante mudar em tudo. Dei oportunidade a novos diretores, ensaiamos por módulos, cada dia um naipe, limpamos literalmente os toques que achamos errados no desfile. Os ritmistas estavam meio desanimados por conta do desfile anterior. Então privamos em bossas simples mas com um ritmo firme, a bateria é muito acostumada a fazer bossas, e fazer ritmo por muitos ensaios foi bem desafiador. Daí veio a escolha de samba e uma final linda, unanimidade a escolha, acho que todos queriam o samba.
Samba lindo, melodias diferentes porém ajudando muito os desenhos de cada instrumento.”

Ainda que tenha tido um foco bem grande no ritmo, a Sinfônica apresentou bossas maravilhosas no desfile, que exaltaram todas as características principais de sua orquestra: o toque das caixas, a afinação dos surdos, os seus tamborins e o naipe de agogôs. O Mestre fala um pouquinho mais sobre o trabalho até chegar no desfile:

“Continuei trabalhando ritmo, só ritmo. Quando achamos que estava quase bom, começamos a fazer bossas, mas bossas simples, deixando o samba por si abrilhantar tudo. Fizemos ensaios maravilhosos na quadra e fora dela, principalmente o ensaio técnico, que foi impecável, até na vestimenta. Pela primeira vez tiramos o verde e branco e colocamos preto, e no dia ensaio técnico vi que estávamos no caminho certo. Então foi só esperar o desfile e repetir o mesmo desempenho. Se você ver o desfile, eu sambei o tempo inteiro, eu nunca tinha desfilado tão tranquilo e irreverente, os ritmistas rindo. Saímos da Sapucaí com a certeza de um ótimo desfile, todos os ritmistas se abraçando, gritando, foi muito foda.”



O resultado final do trabalho daquele ano foi visto já ao final do desfile, visto que toda a equipe de bateria ficou satisfeita com a capacidade que tiveram de vir de um ano adverso e fazer as mudanças e o trabalho necessário para recuperar o ritmo e as características do Império Serrano. Para coroar esse trabalho, ainda veio o gabarito na quarta-feira de Cinzas. Mestre Gilmar finaliza comentando um pouco sobre o resultado: 

“Minha satisfação como Mestre foi enorme. Dedico aquele desfile a todos os ritmistas que aceitaram o desafio de um desfile direcionado ao samba, onde procuramos deixar ele por si só abrilhantar a festa, e então foi só esperar a apuração. Sem dúvida nenhuma, foi o melhor ano meu como Mestre, ali eu vi que a  mudanças para o bem de toda agremiação, e tinham que ter acontecido.”

 
Reizinho de tantas vitórias


A quarta-feira de cinzas de 2017 reservava momentos especiais para Madureira. Apesar do favoritismo da Unidos de Padre Miguel, o Império Serrano apresentou um desempenho arrebatante nas notas, tendo sido descontada apenas nos quesitos Alegorias e Adereços e Mestre-Sala e Porta-Bandeira, penalizada em 0,1 décimo em cada um deles, além de um completo gabarito em Enredo, Harmonia e Bateria. Sendo assim, a Serrinha garantiu o título no Grupo de Acesso de 2017, carimbando sua vaga no grupo Especial para 2018. A consonância com o título da Portela em 2017 rendeu uma festa completa em Madureira.

Depois de tantos anos, enfim a Serrinha pode se reencontrar com o Grupo Especial. Em um carnaval envolto de emoções, em um ano especialmente difícil tanto na Série A quanto no Grupo Especial, a esperança parecia sinalizar um retorno quando o anúncio do campeonato foi feito. De mãos dadas com a coirmã, Portela, o Império Serrano ainda recebeu o convite para que seu casal desfilasse ao lado dos defensores portelenses no sábado das campeãs. Nas páginas verde e brancas, basta abrir o livro e ver que o Menino de 47 e Manoel fazem parte de um pedacinho da história um do outro. 



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Arte: Lucas Monteiro.

Texto: Beatriz Freire, João Vítor Silveira e Thomas Reis
Revisão: Luise Campos

"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando por antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro cortejo de informações sobre a apresentação escolhida! Durante o mês de setembro, a cada segunda-feira, destrincharemos um desfile escolhido pelo público a partir de enquetes realizadas em nosso Instagram (sigam @igcarnavalize) e também no Twitter (@carnavalize).

Nossa temporada de retomada da série abarca um processo imprescindível de contribuição dos padrinhos e madrinhas que impulsionam o trabalho do Carnavalize. Para o nosso segundo texto, João Neto indicou três desfiles que compuseram a votação. Vejam só como ele nos colocou em briga de gente grande: Beija-Flor 2001 (“A saga de Agotime - Maria Mineira Naê”), Salgueiro 2007 (“Candaces”) e Vila Isabel 2012 (“Você semba de lá que eu sambo de cá - O canto livre de Angola”). Agradecemos mais uma vez ao nosso padrinho pela luxuosa contribuição e convidamos todos a conhecerem nosso instrumento de apadrinhamento. 

Em 2001, a Beija-Flor de Nilópolis completava 25 anos da conquista do primeiro título de sua história, no ano de 1976 (“Sonhar com rei dá leão”). Até ali, já havia alçado voos tão altos que, ao todo, nas duas décadas e meia que se passaram, colecionava seis campeonatos para chamar de seus. A competitividade veio, para além do suporte de sua patronagem, com Joãosinho Trinta, que, na explosão de sua carreira carnavalesca, mudou os rumos da agremiação nilopolitana. 

Os carnavais anteriores foram marcados por ótimas colocações, sempre muito disputadas com a Imperatriz, uma das grandes potências de toda a década de 1990. Mordida pelo vice-campeonato no ano anterior, a Beija-Flor apostou todas as suas fichas em busca da vitória naquele ano: com um enredo “afro”, já era manhã de segunda-feira – a escola encerrava o domingo de desfiles – quando Nilópolis adentrou a Sapucaí sob a luz do sol e os olhos das arquibancadas lotadas para contar a história de Agotime. 


Foto: Wigder Frota. 


VAI SEGUINDO O SEU DESTINO (DE LÁ PRA CÁ)


O retorno às origens africanas foi pensando pela Comissão de Carnaval composta por Laíla, Cid Carvalho, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Shangai e Nelson Ricardo. A equipe, que já estava no comando do carnaval da escola há 4 anos, teve a inspiração para o enredo quando desenvolviam “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu” em 1998, como nos contou o carnavalesco Fran Sérgio.

“Esse enredo começou com a gente preparando, em 1997, o carnaval de 1998, que era: “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu”, uma história da pajelança cabocla, protagonizado pela dona Zeneida Lima, que é a pajé (...) e dona Zeneida já falou com a gente sobre a história da tataravó dela que era a rainha Agotime (...). E já ficamos encantados ali com a história e ficamos dois anos (1999 e 2000) amadurecendo essa ideia, essa pegada africana, uma homenagem aos voduns, aos ancestrais da Agotime e ao culto de Dahomé.”  

O enredo foi uma espécie de encantaria que envolveu a todos que assistiam o cortejo da azul e branca nilopolitana. Percorrendo a história da rainha Agotime de Abomey, antiga capital do Reino de Dahomé - atual Benin -, contou-se que a líder foi traída, escravizada e enviada ao Brasil. Ela, que era a segunda esposa do rei Agongolo, vivia no palácio Dãxome com seu enteado Adandozan (primogênito do rei) e seu filho Gezo. Próximo de sua morte, o monarca reuniu seu povo no mercado Adjahito para anunciar que seu segundo filho iria sucedê-lo no trono após sua morte. Entretanto, o ordenamento de Agongolo não foi cumprido, e Adandozan se apropriou de forma tirânica do governo de Dahomé. 

Agotime, conhecida por cultuar os voduns seus reis ancestrais mortos, foi acusada de feitiçaria pelo novo rei e vendida no grande porto de escravizados em Whidah. Lançada ao porão de um navio negreiro, cruzou o oceano, como havia sido previsto pelo seu Vodun como sua missão, e rumou para o Brasil. Ancorada em seu compromisso espiritual de renascer em outras terras o culto a Xelegbata, a rainha resistiu às dores, ao sofrimento e a humilhação, trazendo consigo os saberes ancestrais do povo de Dahomé e o culto aos voduns. 

O desembarque em solo tupiniquim foi em Itaparica, na Bahia, onde encontrou com muitos africanos escravizados, mas nenhum da mesma região ou religião que a sua. Foi através do contato com os povos Nagô que Agotime se aproximou dos orixás e por meio deles descobriu a localização de seu povo em São Luís do Maranhão. Sua gente foi denominada de Negros-Minas e estavam desamparados e sem local para cultuar sua religião. Diziam aguardar um sinal dos ancestrais para isso. Ou seja, mesmo sem saber, esperavam por Agotime. 

Entendendo que sua saga estava próxima do desfecho tão sonhado, a rainha chega ao Maranhão sentindo os espíritos de seus ancestrais africanos, ouvindo ecoar os tambores de Dahomé e, em um ritual de celebração, a escravizada retoma seu posto de rainha. Acolhendo seu povo e seguindo as orientações do Vodun, funda a “Casa das Minas” em São Luís do Maranhão. Sua missão enfim, estava concretizada. No terreiro em que resiste a tradição africana e o culto aos Voduns, a rainha passou a se chamar Maria Mineira Naê, cumprindo o seu destino. 

A história contemplada pela escola foi conduzida pelos relatos da pajé Zeneida Lima, então neta de Agotime. Ainda que muitas polêmicas envolvam a veracidade dos relatos, não há dúvidas sobre o fato de que a saga encantou a todos na Avenida, bem ao estilo místico da narrativa. O encontro entre a Deusa da Passarela e a Rainha Agotime foi repleto de feitiçaria, misticismo e deslumbramento, digno da grandeza de suas altezas. O enredo muito bem amarrado e repleto de minúcias não só embeveceu o público, mas também conquistou notas máximas dos jurados e levou o Estandarte de Ouro do quesito. 


E NA LUZ DE SEUS VODUNS/ EXISTIA UM RITUAL DE FÉ


Na comissão de frente comandada pela bailarina e coreógrafa Ghislaine Cavalcanti, viu-se a encenação do ritual da pantera negra: quatorze mulheres que dançavam ao ritmo do tambor  mina-jeje acompanhavam a personagem central que representava Agotime. Durante quase toda a apresentação, a rainha era representada em vestes douradas e com uma máscara sobre o rosto. Quando era “escondida” pelas suas guardiãs, retornava à cena como uma pantera, simbolizando o ritual inspirado na dança dos povos jeje e no culto aos voduns. 

Foto: Fernando Quevedo | O Globo

Do ponto de vista estético, a escola apresentou um dos desfiles mais opulentos e ricos que já tomou a Sapucaí. Rompendo a Avenida ao amanhecer do dia 26 de fevereiro de 2001, a Beija-Flor fascinou o público com sua exuberância e as tonalidades utilizadas em suas alegorias e fantasias; o contraste entre as cores da Deusa da Passarela e o céu clareando gerou imagens lindíssimas do desfile. 

O conjunto alegórico composto por 7 carros era imponente, gigantesco e muito bem trabalhado. A começar pelo abre-alas, que tomou grande parte do tapete branco com suas três estruturas acopladas, representando “O palácio de Dãxome - O clã real”, que, segundo a lenda, foi edificado sobre a barriga da serpente. Em sua decoração, a farta utilização de palhas, presas e peles de animais chamava muita atenção, juntamente com os adereços dos destaques e os totens típicos da região espalhados pela alegoria. 

Apesar de toda imponência do abre-alas, o carro que mais impactou a todos foi o terceiro: “A Feitiçaria”, e essa comoção não foi exclusividade dos foliões que estavam na Avenida. Fran Sérgio conta que os próprios funcionários do barracão sentiam a intensidade da alegoria: “Tínhamos figuras muito fortes nesse carnaval (...) tinha uma escultura de um bode, no carro da feitiçaria, que falava realmente do culto da rainha que vem para o Brasil com ela; e as pessoas, os funcionários do barracão, tinham um tipo de medo do bode porque era um bode preto, era uma escultura que você olhava e parecia que ela estava olhando para você. Então esse enredo tinha muito misticismo, muita força, essa magia africana que contagiava a gente no barracão. Nós sentíamos essa energia pulsando dentro do barracão.”. 

Além do famoso bode já citado que abre a alegoria, esta era composta por 700 velas dentro de recipientes com água; suas cores eram fortes e vibrantes, em tons vermelho e preto. Em seu ponto mais alto, estava a destaque central com um costeiro colossal. Para muitos, o carro era uma espécie de ebó que percorreu a Sapucaí, ostentando oferendas e sacrifícios. 

Foto: Cezar Loureiro | O Globo

Outra alegoria digna de ser evidenciada é a quinta. “A Bahia - Encontro com os Nagôs” conta a chegada da rainha em condições de escravizada no Brasil, que foi representada por uma belíssima construção artística em tonalidades claras entre branco e prata que contrastava com a luz do dia. Em tons coloridos e vívidos, os destaques de composições vestidos de orixás davam o toque pontual àquela concepção incrível, algo bem similar a estética desenvolvida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora na Grande Rio em 2020. 

No todo, o conjunto alegórico apresentado pela escola de Nilópolis foi marcado pela sua robustez, sua riqueza de detalhes e por destaques volumosos que tiveram a capacidade de refletir muito bem a narrativa do enredo. Em determinados pontos, é possível observar o excesso de adereços e a falta de rigor estético, mas nada que comprometesse todo aquele feitiço que pairou sobre o Rio de Janeiro naquela manhã. E, falando nisso, a alegoria “A Feitiçaria”, por ironia do destino a mais bela do cortejo, como mencionamos acima, teve um pedaço danificado. A perda da peça, fato que, no conjunto do desfile, pareceu insignificante, custou caro à Beija-Flor na quarta-feira de cinzas.  

A riqueza das alegorias esteve presente também por entre as alas. Volumosas, com cores vibrantes e seguindo o embalo que tomava os componentes, as fantasias foram mais um quesito impecável da escola. O primeiro destaque vai para a “Ala das Pretas-Velhas”. Para além da indumentária, a passagem das senhoras negras integrantes da comunidade nilopolitana trouxe consigo um enorme valor simbólico. Não à toa, para muitos que assistiam o desfile, algumas delas - senão todas - estavam incorporadas. A ala já vinha gerando discussões muito antes do desfile, pois muitos duvidavam que as mulheres já idosas conseguiriam atravessar toda a Avenida seguindo a coreografia com a coluna curvada para frente. O Diretor de Carnaval, Laíla, conduziu incansáveis ensaios para que tudo saísse conforme o previsto... e foi o que aconteceu! Lá estavam elas à frente do abre-alas, com cachimbo, bengala e guia no pescoço, abrindo os caminhos para aquele grandioso cortejo. 

Foto: Wigder Frota

Além disso, em todo o corpo de desfilantes da escola notou-se alas muito volumosas e ricamente trabalhadas em materiais e, principalmente, em cores, as principais aliadas da escola naquele desfile sob a luz do sol. Impressionou pela quantidade de componentes e criatividade a ala das baianinhas, intitulada “As sinhazinhas do bumba-meu-boi”. Com uma quantidade considerável de alas coreografadas, a escola mostrou excelente desempenho de harmonia e evolução e, mesmo sendo obrigada a apertar o passo nos minutos finais por conta de sua extensão, ninguém deixou de vibrar com o samba, muito menos de realizar os passos delimitados. 


O RUMO DE SEU POVO ENCONTROU


De luvas douradas nas mãos, coisa que já não se vê mais nos dias de hoje, Selminha Sorriso empunhou o pavilhão azul e branco ao lado de Claudinho, já companheiro de muitos carnavais, sem deixar escapar o mastro que ostentava a identidade e garra nilopolitanas. As luvas, a título de curiosidade, foram pouco tempo depois escanteadas após um “comum acordo” entre as porta-bandeiras, tendo em vista que o suor fazia as mãos escorregarem. A dupla estava lindamente trajada com indumentárias dignas da realeza daometana, com a riqueza das estampas que reproduziam as peles de zebras. O garbo inconfundível do casal abrilhantou ainda mais a presença das cores e símbolos da escola para mostrar que o percurso Daomé-Bahia-Maranhão desembarcou em Nilópolis para saudar a sacerdotisa Agotime. Como de costume, Selminha e Claudinho conduziram o beija-flor de sua bandeira como um amuleto por toda a Avenida, em uma linda apresentação para as cabines de jurados. 

Foto: Wigder Frota.


SOU BEIJA-FLOR E O MEU TAMBOR/ TEM ENERGIA E VIBRAÇÃO


Histórico. É uma boa palavra para definir o samba-enredo que a Beija-Flor levou para a Avenida no carnaval de 2001. A composição de Déo, Caruso, Cleber e Osmar foi completamente arrebatadora, conquistando o público desde o pré-carnaval e coroando a sua grandeza com uma performance incrível na Sapucaí. A obra contou com a interpretação magistral de Neguinho da Beija-Flor, que ia para o seu vigésimo sexto ano seguido à frente do carro de som nilopolitano, junto com seu fiel escudeiro Gilson Bacana. Considerado por muitos o melhor samba do carnaval de 2001 e um dos grandes sambas da década, ele conseguiu concatenar com perfeição os trechos e as passagens do enredo, sendo uma belíssima representação da totalidade do desfile.

O grande desempenho do samba foi, ainda, propiciado pelo excelente trabalho da bateria Soberana de mestre Paulinho Botelho e de mestre Plínio - o hoje mais longevo mestre em atividade pela mesma escola, com 24 anos na escola de Nilópolis. Diferente do que acabou se tornando a tendência daquela década, em que belas obras acabaram sendo atrapalhadas pelo andamento acelerado das baterias, a orquestra da Beija-Flor conseguiu manter uma bela cadência num andamento favorável ao samba poético que tinham em mãos, de forma que o hino da escola pôde brilhar em todo o seu esplendor no desfile. 

Para além do reconhecimento do andamento ideal para o samba que possuíam, os mestres Plínio e Paulinho Botelho conseguiram levar para a Avenida uma bateria bem condizente com o enredo que a escola trabalhava, contando com alguns ritmistas com instrumentos totalmente conectados com a temática africana, como o atabaque e o xequerê. Além disso, um dos grandes destaques da bateria foi a bossa realizada após sair do refrão de meio do samba, entrando na segunda do samba e executando um ritmo afro no qual os surdos e os tamborins puderam brilhar. 


A Beija-Flor foi a última escola do domingo de Carnaval e deixou a Marquês de Sapucaí como a franca favorita ao título após desfilar com o dia já amanhecendo. A escola arrebatou o público e encerrou o desfile aos gritos de “É Campeã!”. Mas, para a tristeza e frustração da comunidade nilopolitana, a Quarta Feira de Cinzas reservava uma ingrata surpresa. Mesmo com um desfile arrebatador, que empilhou notas 10 em todos os quesitos, um 9.5 em Alegorias e Adereços foi determinante para que a Imperatriz, com um perfeito 300, chegasse ao título do carnaval de 2001, repetindo as posições anteriores e fazendo com que a Beija-Flor de Nilópolis amargasse o terceiro vice-campeonato seguido para a escola de Ramos.  

Mesmo sem a vitória, Agotime é um daqueles desfiles que ganhou, acima de tudo, as páginas da história carnavalesca. Até hoje lembrado como uma das melhores apresentações – e mais injustas derrotas para muitos – da Deusa da Passarela, o desfile mobilizou uma estética rica, criativa, excelente samba e um enredo indiscutivelmente abraçado pela comunidade nilopolitana. A saga milenar da escola, mais do que buscar uma história antiga para contar, invocou uma personagem não ensinada nas salas de aula, cumprindo, assim, o papel cultural e educacional das escolas de samba que se interessam a colocar nas devidas molduras os nomes que combinaram de não nos contar algum dia. Ressoou no Maranhão, na Sapucaí e no país inteiro. 

Confira o depoimento do carnavalesco Fran Sérgio sobre esse desfile inesquecível:





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Por Leonardo Antan


Numa noite com desfiles de alto nível, as escolas de samba fizeram seu primeiro dia de apresentações na Sapucaí este ano. Das setes a se exibirem na noite, o que se viu foram trabalhos plásticos interessantes e de teor elaborado e criativo, mesmo com a crise financeira. Marcando assim uma noite competitiva em que desfilaram escolas tradicionais da folia carioca. 

Abrindo a festa, a Estácio de Sá fez uma ótima abertura com a batuta criativa da renomada carnavalesca Rosa Magalhães. A artista fez uma interessante e bem executada apresentação sobre a história da Pedra, desde a antiguidade às viagens espaciais. Um belo trabalho em fantasia também impulsionou o conjunto da escola, que teve problemas apenas em poucos quesitos. Logo depois, a noite seguiu vermelho e branco com a Viradouro. A escola de Niterói fez uma apresentação luxuosa e grandiosa, defendendo bem seus quesitos. O destaque, entretanto, foi a parte musical da agremiação. O já famoso Ensaboa animou a Sapucaí com uma ótima harmonia da alvirrubra. Além disso, um dos grandes destaques  foi a bateria do mestre Ciça, executando uma bossa de timbal tocada por duas mulheres que vinham montadas em um tripé, no meio dos ritmistas, e arrancou aplausos das arquibancadas.

A atual campeã do carnaval foi a terceira escola a se apresentar. A releitura da história de Jesus da Mangueira trouxe um visual mais tradicional e que recontou passagens bíblicas com o apuro estético irretocável de Leandro Vieira. A Comissão de Frente do casal Segredo (Rodrigo Neri e Priscila Motta) foi o grande destaque da apresentação, apostando em imagens impactantes. A bateria passou correta e apesar do samba com uma bela letra, a verde e rosa não explodiu e fez um desfile mais técnico. Permanecendo nas comunidades próximas a região de São Cristóvão, a Paraíso do Tuiuti se exibiu na sequência. O enredo sobre diferentes Sebastiões (o rei e o santo) foi um dos pontos altos da escola, que teve um bom trabalho do carnavalesco João Vitor Araújo em fantasias e alegorias. O senão da escola foi mais uma vez problemas em evolução e harmonia, quesitos que devem tirar pontos preciosos da azul e amarela. 

É pedra preta! Fazendo todo mundo incorporar, a Grande Rio fez a mais impressionante apresentação da noite. Começando por uma belíssima comissão de frente, uma ótima performance de seu casal e uma das mais belas aberturas dos últimos anos, a tricolor se credenciou na briga pelo título. O trabalho estética da dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad se mostrou irretocável, se pautando em referências artísticas que trouxeram alegorias e fantasias requintadas e de extremo bom-gosto, mesclando formas artesanais e tons opacos. Apesar, problemas de pista prejudicaram a evolução da tricolor da baixada. 

Logo depois, a União da Ilha apostou uma forte crítica social para sua apresentação. Num estilo mais realista, a escola tentou trazer imagens de impactos que se mostraram de gosto duvidoso e apelaram para o sensacionalismo. Na falta de um enredo bem desenvolvido e uma sequência interessante de alas e alegorias, os únicos destaques positivos da agremiação insulana foi o canto valente e forte de sua comunidade e a atuação impecável de sua bateria. A evolução da tricolor também foi problemática, fazendo a escola estourar em um minuto o tempo máximo regulamentar. 

Da Ilha vamos à Madureira, a Portela transformou a Sapucaí numa grande aldeia indígena para encerrar os cortejos de domingo, com o dia já amanhecendo. A dupla de carnavalescos Renato e Márcia Lage apostaram numa estética mais tradicional e opulenta. Na pista, mais uma atuação irretocável em quesitos como harmonia e evolução, como desfila bem a azul e branco. Os únicos senões da apresentação foi a fraca Comissão de Frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, já que Lucinha enfrentou sérios problemas na segunda cabine de jurados, apesar da sua experiência. 

No geral, o que se viu foi uma noite de alta qualidade artística, sobretudo na aposta de desfiles com linguagens completamente diferentes e interessantes entre si. Ganha a festa com apresentações de tão alto nível e com apostas estéticas e musicais que valorizam as personalidades das agremiações e seus artistas. A diversidade é fundamental.

Você pode ouvir nossas impressões sobre os desfiles no nosso podcast, disponível em várias plataformas digitais:

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Confira como cada escola se apresentou em todos os quesitos:


Estácio de Sá: tirando pedras do próprio caminho, escola faz bela abertura



Viradouro: alvirrubra ensaboa a Avenida em apresentação exuberante


Mangueira: em bela homenagem a Jesus, verde e rosa emociona em apresentação morna



Tuiuti: em homenagem a seu padroeiro, escola se põe na briga pelo sábado


Grande Rio: problemas de evolução podem prejudicar plástica requintada e excelente samba



 União da Ilha: forte chão e crítica controversa dão o tom no desfile insulano



Portela: cortejo técnico exalta Guajupiá




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Por Leonardo Antan


Depois de uma primeira noite abaixo da expectativa, as escolas da Série A se dividiram de maneira bem delimitadas em diferentes níveis de apresentações. Enquanto algumas escolas sobraram na disputa, outras apresentaram problemas em vários quesitos. Assim como na sexta, a chuva oscilou a noite toda e caiu apenas timidamente em algumas ocasiões, prejudicando pouco os cortejos.

A Acadêmicos do Sossego abriu a noite com uma apresentação irregular. Com um mal desenvolvido enredo sobre Os Tambores de Olokun, a escola teve ainda uma plástica da azul e branco que oscilou durante seu desfile. Se destacou o bom trabalho da bateria do mestre Laion, que manteve a levada corretamente. Logo depois, a Sapucaí levou um grande sacode com a surpreendente apresentação da Inocentes de Belford Roxo. Depois de vários anos com desfiles mornos, a tricolor empolgou a plateia numa simpática homenagem a jogadora Marta. O samba chiclete foi entoado com empolgação, além de um criativo e competente trabalho nos aspectos visuais do talentoso Jorge Caribé. 

A noite seguiu com a Bangu, mais uma apresentação marcada por problemas no grupo. Com um enredo inexpressivo e batido sobre a África, a escola apresentou um conjunto alegórico fraco e onde se repetiram grandiosas esculturas mal-acabadas. A bateria do mestre Capoeira foi um quesito que destacou na vermelho e branco, uma pegada forte e uso de atabaques. O nível voltou a subir com a correta apresentação da Santa Cruz. Com um enredo leve sobre a cultura nordestina, o carnavalesco Cahê Rodrigues conseguiu construir um interessante conjunto alegórico que foi prejudicado apenas pelos erros de evolução da verde e branco da Zona Oeste. 

O meu sonho de ser feliz, vem de lá... Depois de uma longa estadia no grupo especial, a Imperatriz Leopoldinense voltou a reencontrar sua boa forma em uma apresentação quase irretocável. Apesar de pequenos defeitos em alegorias, a escola fez um belíssimo desfile que contou com o já conhecido bom-gosto do bicampeão Leandro Vieira. A escola de Ramos sobrou na pista em comparação com todas as outras apresentações. 

Sem deixar o nível cair, a Unidos de Padre Miguel provou sua força mais uma vez. A escola com o enredo sobre a capoeira teve um trabalho plástico inspirado, mas cometeu pequenos deslizes que a afastam de uma briga pelo título. O samba-enredo da vermelho e branco também deixou a desejar e é outro quesito onde ela pode perder décimos. Encerrando a noite, o Império da Tijuca fez um belo enredo sobre edução. O trabalho estético oscilou entre excelentes alegorias e fantasias mais fracas, que prejudicaram a força da escola, assim como seu samba-enredo burocrático. 

Após um ano de superação, as escolas de samba da Série A se dividiram em grupos bem definidos daquelas que brigam pelo rebaixamento, o meio da tabela e o campeonato. Mostrando assim uma disputa desequilibrada e problemática. Apesar disso, a importância da resistência dessas agremiações é vital para manutenção da arte carnavalesca. 

Confira como foram as apresentações em detalhes



#Carnaval2020 - Em desfile irregular, Sossego apresenta enredo confuso mas bateria se destaca



#Carnaval2020 - Simpática homenagem à Marta empolga na Inocentes



#Carnaval2020 - Unidos de Bangu: com enredo africano, bateria se destaca em desfile mediano



#Carnaval2020 - Santa Cruz: escola faz desfile surpreendente com animado enredo nordestino



#Carnaval2020 - Imperatriz: Rainha de Ramos brilha em apresentação irretocável



#Carnaval2020 - Unidos de Padre Miguel: apesar de pequenos deslizes, escola ginga na Sapucaí com bela plástica



#Carnaval2020 - Império da Tijuca: escola encerra Série A com bela mensagem sobre educação

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Após vencer o campeonato de 1985 com icônico enredo "Ziriguidum 2001 - O carnaval nas estrelas", o carnavalesco Fernando Pinto despediu-se da Mocidade por algumas desavenças com a diretoria da verde e branca. Entretanto, após o fracasso da apresentação de 1986, com o estranho enredo "Bruxarias e histórias do arco da velha", o artista tropicalista marcou seu reencontro com Padre Miguel. Para tentar alçar um voo de proporção ainda maior que a viagem sideral de outrora, Fernando criou um enredo ainda mais ousado e delirante. Nascia, assim, a metrópole retrô-futurista, símbolo do Tupi Power: a grande Tupinicópolis.

Fernando Pinto voltaria à temática indígena quatro anos após tê-la abordado de maneira pioneira, num grito de preservação ecológica em "Como Era Verde Meu Xingu", e de maneira idílica em "Viagem Encantada Pindorama Adentro", em 1973, no Império Serrano. Dessa vez, a ideia era ilustrar uma cidade comum, semelhante a qualquer outra brasileira, exceto fato de ser dominada por índios. Todos os elementos de uma grande metrópole foram representados nas alegorias e alas, aliando ícones da nossa cultura com a temática indígena. Assim, nascia a lendária cidade do terceiro milênio. 

Com cocar na cabeça e patins nos pés, venha passear por esse mundo incrível a partir de agora, na descrição do desfile de ponta a ponta.


"Vejam quanta a alegria vem aí, é uma cidade a sorrir"





A ironia festiva que marcaria o desfile já dava  o ar de sua graça na Comissão de Frente, em que enormes caciques de terno, óculos escuros e malas de couro saudavam o público. A junção de símbolos tão díspares, num misto de crítica social e celebração, pautariam um desfile dúbio e com forte herança do movimento tropicalista, que marcou a arte brasileira nos anos de 1960. O abre-alas marcaria uma grande inovação, apostando numa abertura monumental, já que cinco chassis diferentes formavam uma grande alegoria acoplada e que trazia a primeira visão geral da Taba de Pedra. Depois de inventar o acoplamento na inesquecível Nave Mãe, de 1985, o carnavalesco voltaria a investir na grandiosidade de seus carros. 

Num processo narrativo simples mas cheio de camadas, a cidade indígena passava diante dos olhos do espectador numa série de fragmentos e imagens que parecem ilusórias e alucinógenas. Placas de trânsitos, operários, trabalhadores, caipiras e esportistas; tinha todo tipo de gente em Tupinicópolis. Nas alas, a aposta foi em grandes esplendores de fácil leitura para facilitar a comunicação de tamanha multiplicidade cultural. Era um limiar muito tropicalista, entre a crítica e celebração da sociedade capitalista e consumista, abrindo múltiplas camadas de interpretação. 


"E a oca virou taba, a taba virou metrópole, eis aqui a grande Tupinicópolis"



Alguns dos maiores destaques do desfile seriam as divertidas marcas locais criadas por Fernando Pinto, abusando de sua irreverência, com nomes de elementos culturais indígenas associados a outras referências dos mais diversos tipos. Nesse processo de justaposição de significados, sugiram as mais inusitadas misturas, como o Supermercado Casas da Onça, em referência a Casas da Banha; o Shopping Boitatá, que representou uma das alegorias mais bonitas daquele desfile, repletos de eletrodomésticos, e produtos divertidos como o xampu Jurema Maracujá. Um grande chafariz de verdade chamava atenção no meio da alegria que apresentava o consumo agressivo e contraditório. Outra febre de consumo era a Farmácia Raoni, repleta de chás para diversas doenças e de várias pajelanças, foi representada em uma das várias alegorias. A ala dos tupiterapeutas, uma mistura de médico e pajé, veio na sequência.

Para fazer tantas compras, a cidade tinha sua própria moeda! No momento seguinte do desfile, o Banco Tupinicopolitano foi mostrado. A moeda vigente no Brasil, então, foi colocada lado a lado do Guarani usado na cidade futurista, onde 500 cruzados valeriam apenas uma unidade da moeda indígena, numa crítica a inflação  que começava a assombrar os brasileiros.



A bateria se apresentou belamente vestida de fraques e cocares, com destaque, mais uma vez, para a inesquecível Monique Evans, representando Iracema II, como rainha dos ritmistas. Bira, Jorjão e Léo comandaram a Bateria Nota 10 (assim era chamada naquele tempo), que foi mais uma vez impecável, e Ney Vianna conduziu muito bem samba ao lado de David do Pandeiro. A roupa do grupo trazia uma peruca inspirada no visual cantora Tina Turner e da personagem Tina Pepper, vivida pela atriz Regina Casé na novela Cambalacho, em 1986. Mostrando como era grande o leque de referências de Fernando Pinto, vindo tanto do cinema quanto da televisão. 

"Boate Saci, Shopping Boitatá, Chá do Raoni e Pó de Guaraná..."



Como boa cidade globalizada, Tupinicópolis também tinha seu lazer e muitas foram as alegorias que marcaram o divertimento no lugar. O primeiro a passar na avenida foi o Tupinambá Esporte Clube, que veio representado em verde e amarelo, com bandeiras e uma réplica da taça Jules Rimet, símbolo do futebol. As figuras das Olimpíadas e da miss de Tupinicópolis também foram criações de Fernando. Grandes letreiros luminosos tomaram conta da paisagem do desfile, como de filmes de ficção científica e que começavam a tomar conta das metrópoles, neles se via representado locais como o Cine Marajoara (em cartaz, Iracema II), o Teatro Jacuí, Motel Karajás, as Saunas Amazonas, Gambá Drink’s, Boate Karajás e do Hotel Pirarucu, todos representando a agitada vida noturna da cidade.



Os prazeres da noite de Tupinicópolis trouxeram, ainda, o carro da Discoteca do Saci, com uma pista de patinação quadriculada, efeitos de fumaça, utilizada por índios-punks de patins, óculos escuros e cabelos espetados. O carro tinha um cenário vazado com grandes pistas de danças num formato pouco usado no carnaval carioca. A estrutura modernosa e a imagem síntese de nativos patinando como punks foi um dos grandes marcos do desfile. Depois, a ala do cassino abriu passagem para o carro do luxuosíssimo Cassino Eldorado, com jogos de azar, roleta, dados, cartas e espetáculos com shows de revista. O carro do Bordel da Uiara, o mais procurado pelos endinheirados, veio repleto de índias de topless, rodando bolsinha, com perucas coloridas, meia arrastão, plumas, óculos escuros e uma piranha na cabeça. Outra imagem irônica e multi-cultural que deu o tom da apresentação. 


"Até o lixo é o luxo quando é real, Tupi Cacique, poder geral"


Na sequência dos prazeres e do entretenimento, a força bélica e social da cidade desfile em alas e alegorias. A Prisão Jurupari trouxe prisioneiros com a inscrição 171 no uniforme. Nesse setor, esteve presente o casal de mestre-sala e porta-bandeira Roxinho e Irinéa, que acabou desfilando sem chapéu, o que foi levantado por Fernando Pamplona na transmissão da TV Manchete, fato que poderia custar pontos preciosos.



O pequeno setor que representava a força bélica do lugar começou com um grande letreiro apresentando a Tapioca dos Poderes, de onde surgiram as forças armadas de Tupinicópolis, representadas pelos carros do tatu guerreiro (exército), marreco bélico (marinha) e gaviavião (aeronáutica).



Uma das mais enigmáticas e emblemáticas alegorias do desfile surgiria logo depois. Um teclado de computador e uma tela com o busto de um Cacique representariam a soberania e sabedoria da cidade, programadores do grande cérebro tupiniquim (a Tupi informática). A ideia era mostrar que a grande força da cidade era, na verdade, um sistema operacional, ou seja, os computadores mandavam na cidade. Assim como a mais rebuscada das ficções científicas que faziam muito sucesso na década de 1980.



A ala seguinte trouxe a feijoada tupi na cabeça. Enquanto, as crianças passaram de garis com vassouras na mão. O último carro da escola, Tupilurb, o Lixo do Luxo, representando a limpeza da cidade, trouxe sucata de carros, tevês, geladeiras, escombros e uma réplica de pontos turísticos brasileiros de outrora, como o Cristo Redentor, Elevador Lacerda e Monumento aos Pracinhas; era o lixo do velho mundo. A última alegoria marcava um grande "plot-twist" da narrativa do desfile, mostrando que Tupinicópolis se passava séculos a frente do tempo atual. Na ficção inventada, os indígenas expulsavam os brancos do país e formaram seu próprio lugar. Era uma clara referência ao enredo do clássico filme "O Planeta dos Macacos", de 1968.

"Minha cidade, minha vida, minha nação, que faz mais verde meu coração"


Se no aspecto plástico e narrativa, Fernando Pinto havia criado um obra-prima pouco vezes vista na história do carnaval. O quesito de samba-enredo foi um dos mais discutidos daquela apresentação. Tudo começou já em uma disputa acirrada. A obra vencedora desbancou o favoritismo da parceria de Tiãozinho Mocidade, que havia composto o hino campeão de 1985. Optou-se uma canção mais descritiva, que embora alegre e com boa leitura sobre o enredo, deixava a desejar em riqueza melódica. Na apuração disputada, a verde e branco perdeu para a Mangueira por um ponto, num resultado controverso e discutido até hoje. Alguns apontam o samba como fator preponderante.



O segundo lugar ajudou a fixar a apresentação na memória afetiva de torcedores independentes e amantes do carnaval em geral. Até porque, ele seria o último preparado totalmente em vida pelo genial carnavalesco de cabelos cacheados. Em novembro daquele ano, na preparação para o desfile, Fernando Pinto morreria num acidente de carro na Avenida Brasil, voltando da quadra da Mocidade. Para se ter ideia de como a apresentação marcou diferentes estilos e gerações de carnavalescos, ele seria o favorito de artistas como Rosa Magalhães, Jorge Silveira e Paulo Barros. Ganhando ainda diversas releituras e referências no carnaval, como em desfiles na Renascer de Jacarepaguá, em 2010, e na Mocidade Independente, em 2014.
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