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Carnavalize

 


por Talitha Dejesus


“Assim como as palavras, as pessoas que as escrevem não podem ser apagadas.” 
(Carolina Maria de Jesus, 1960)


Dia 14 de março é o dia do nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus e nada mais justo do que celebrar sua vida e seu legado. Você pode estar se perguntando: ‘’Qual a ligação da escritora com o Carnaval ou com o samba?’’, mas ao longo desse texto você vai compreender…

Antes de fazer esse paralelo da história da escritora com o universo do Carnaval, precisamos entender quem foi essa mulher e a importância dela para a cultura brasileira. A intenção aqui não é contar sua biografia, mas sim exaltar sua contribuição para a literatura brasileira e levantar reflexões sobre a vida e o legado dessa figura multifacetada que foi escritora, poetisa, compositora, sambista e muito mais. 

Vinte e seis anos após a Abolição da Escravatura, nasce Carolina na cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Neta de escravizados e filha de lavadeira, frequentou a escola por apenas dois anos, onde pegou o gosto pela leitura e escrita. Ela chegou a São Paulo quando a cidade estava em processo de modernização e viu as primeiras favelas aparecendo. Construiu o seu barraco e, em 1947, se alojou na favela do Canindé. Lá, trabalhou como catadora de papel para sustentar a si e a seus três filhos que criava sozinha.

Carolina ficou mundialmente conhecida por seu livro ‘’Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada’’. O best-seller, publicado em 1960, relata suas vivências na favela e sobre como sobreviveu à fome. Nele, ela descreve a dor, o sofrimento e as angústias dos favelados de forma única, retratando a realidade assim como ela é, o que até hoje segue sendo um relato atual da condição de vida das favelas brasileiras. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.

 
Carolina em 1961, antes de embarcar para o Uruguai para lançar o best-seller Quarto de Despejo.(Foto: Acervo Estadão)


Sabemos que a história dos negros e das mulheres sofre tentativas de apagamento diante de uma sociedade racista e machista. Carolina também foi vítima desse processo de invisibilidade, de forma dupla, por ser mulher e negra. 

O que poucos sabem é que Carolina, para além do Quarto de Despejo, publicou ainda em vida mais três livros e deixou guardadas mais de cinco mil páginas manuscritas, totalizando 58 cadernos que contêm sete romances, mais de sessenta textos com características de crônicas, fábulas, autobiografia e contos, além de mais de cem poemas, quatro peças de teatro, doze marchinhas de Carnaval e, em 1961, chegou a gravar um disco com canções compostas por ela mesma.

Apesar de silenciada, depois do estrondoso sucesso, ela se mantém como uma importante representante da literatura brasileira, tendo sua escrita como ferramenta de denúncia, protesto e desabafo. 

A autora também anuncia os dilemas de ser mulher: quando criança, desejou mudar de gênero e sonhou em se tornar homem. Isso não aconteceu porque queria mudar seu corpo, mas por conhecer as barreiras que lhe trariam sua condição feminina. Em seus escritos, também podemos encontrar muitas marcas de oralidade, que entendemos como uma herança africana. Ao relatar as suas próprias histórias cotidianas, ela reverencia os griôs – em alguns povos da África, eles são contadores de histórias que têm o compromisso de preservar e transmitir conhecimento e cultura. 

 
Carolina às margens do rio Tietê. (Foto: Reprodução)

A escritora era moradora da favela do Canindé, próxima ao rio, e era ali onde ela lavava suas roupas e pegava água para seu consumo e de seus filhos. Alguns trechos de seu best seller relatam a relação da autora com o Tietê. 

A ascensão da literatura negra e da literatura feminina foi fundamental para sua retomada ao cenário literário e acadêmico. Seus livros passaram a ser tema de teses e dissertações nas universidades e se tornaram leituras obrigatórias em escolas e vestibulares.
Como forma de manter seu legado, podemos encontrar muitas homenagens à autora em documentários, peças de teatro, pinturas, grafites, poemas, reportagens, feiras literárias, nomes de ruas e bibliotecas e muito mais…

Levando em consideração as origens da festa carnavalesca, é muito comum sermos presenteados com enredos sobre ancestralidade, religiões de matrizes africana e homenagens a personalidades negras, como é o caso de Carolina Maria de Jesus, que já foi homenageada no Sambódromo do Anhembi e na Marquês de Sapucaí. 

Como forma de reverenciar essa figura gigante, fã da folia e reforçar seu legado cultural e social, vamos relembrar desfiles em que a escritora foi homenageada: 

Desfile da Renascer em 2017. Foto: Ana Cristina Victória

Em 2017, pelo grupo de Acesso A, a escola de samba Renascer de Jacarepaguá desfilou com o enredo ‘’O Papel e o Mar’’, baseado num curta-metragem com o mesmo nome que narra um encontro imaginário entre a escritora e o almirante negro João Cândido, líder da Revolta da Chibata.

Foto: O Globo.


No Carnaval de 2018, Carolina foi homenageada pelo Salgueiro, dentro do enredo ‘’Senhoras do Ventre do Mundo’’, que fazia um tributo à mulher negra, representando desde rainhas guerreiras a figuras contemporâneas da força feminina. O carro que encerrou o desfile trazia uma releitura da obra Pietá, de Michelangelo, que em sua versão original representa Jesus Cristo morto nos braços de Virgem Maria e, no desfile da agremiação, era uma mulher negra vestida com textos da escritora retirados do livro "Quarto de Despejo".



Levando o campeonato do Carnaval carioca em 2019, com ‘’História pra ninar gente grande’’ a Estação Primeira de Mangueira também prestou homenagem à Carolina. A ala “São Verde e Rosa as Multidões” representou as multidões de moradores de comunidades espalhadas pelo Brasil, com homens e mulheres carregando bandeiras de grandes personalidades, como por exemplo, o da escritora. 

Foto: Riotour.

“Nas encruzilhadas da vida, entre becos, ruas e vielas, a sorte está lançada: Salve-se quem puder!” foi o enredo da União da Ilha no Carnaval de 2020. Apesar do rebaixamento, o desfile tratou o tema importante da exclusão e invisibilidade social e mostrou que o caminho para vencer as mazelas é a educação. Com isso, a escola trouxe um elemento cenográfico no início do desfile homenageando a escritora em sua comissão de frente. 

Também em 2020, mas dessa vez no Sambódromo do Anhembi, Carolina foi reverenciada dentro do desfile da escola de samba Tom Maior. Com o enredo ‘’É Coisa de Preto’’, a escola teve como proposta enaltecer a negritude e lembrar como o povo negro contribuiu com o desenvolvimento da sociedade. Enaltecendo figuras negras que o racismo estrutural tentou ofuscar, Carolina foi uma das homenageadas em uma ala, que tinha como figurino páginas de um livro e, no chapéu, reprodução dos barracos da favela do Canindé. 

‘’Salve o povo da rua. 
Abre caminhos pro destino abençoar
Sou eu, Carolina de Jesus 
A voz da pele preta a ecoar.’’

 

Esse é o trecho do samba enredo da Colorado do Brás para o próximo Carnaval. A escola levará para a avenida o enredo “Carolina - A Cinderela Negra do Canindé”, que será desenvolvido pelo carnavalesco André Machado, em sua estreia na agremiação. 

Carolina nunca parou de escrever e nunca parou de dizer. Suas obras se tornaram a impressão da voz negra e feminina e daqueles que, por muito tempo, foram invisibilizados. Seu legado se perpetuou através do tempo para que nunca se esqueçam de que ela foi uma mulher negra resistente e representante da cultura brasileira, dentro e fora do nosso país. 

A vivência de Carolina é um grito de socorro que precisa ser ouvido, afinal, quantas Carolinas não existem por esse nosso Brasil? 





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Sinopse do enredo do Império da Tijuca pro carnaval 2021

“SAMBA DE QUILOMBO: A RESISTÊNCIA PELA RAIZ”

IMPÉRIO DA TIJUCA – CARNAVAL 2021


Estou chegando. Venho com fé, respeito mitos e tradições. Trago um canto negro e aquela gente de cor, com a imponência de um rei, vai pisar na passarela. Vamos esquecer os desenganos, viver a alegria que sonhamos, mas depois da ilusão...será que o samba ainda está em nossas mãos?

A poesia do negro partideiro ficou pra escanteio quando “visual virou quesito”. Valendo apenas quem se veste mais bonito as custas de muito dinheiro. Falsos valores escritos por “brancas mãos” de intelectuais e acadêmicos que invadiram nossos terreiros. Carnaval virou mercado, produto de Estado. Mas não me incomodem, por favor. Samba é verdade do povo, ninguém vai deturpar seu valor!
        Nasci manifesto, preto protesto à luz de Candeia, na viola de Paulinho, na poesia de Nei e Moreira. Batizado pela resistência e bravura de Palmares, da união e insatisfação de irmãos baluartes. Compositores “quilombolas” cantando com pés no chão fundaram a “Nova Escola”.
Em meu pavilhão, o branco inspirado na simplicidade da paz, sintetizando um mundo de amor, simbolizado no dourado e lilás. Aqui todos podem colaborar, mas ninguém pode imperar. A sabedoria é meu sustentáculo e meu princípio é o amor. Sou a casa da nossa cor, que carrega no peito a ancestralidade e tradição, desabrocha sua arte e lugar de fala, no corpo, na voz e nas mãos.
Se manifesta no girar da baiana; no versar de um partideiro. Por poemas, filmes e melodias; pelos debates e discursos no terreiro. Movimento pelo compositor, por reconhecimento das barreiras que preto enfrenta nesse país. Mas exaltando toda a riqueza de nossa raiz e compreendendo que o samba é quem faz nossa gente mais feliz. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem, sendo lar de sambista e centro das artes da negritude.

Logo oficial do enredo do Império da Tijuca pro carnaval 2021

No barato tecido, um folclore negro colorido, na cultura popular ancestral, a estampa do sorriso. Cortejam Afoxés e Macaratus, bailam jongueiros e Lundus. No balanço de um samba de Caboclo, na ginga de um capoeira; no miudinho de um Partido Alto, num pandeiro, tamborim e viola que toque a noite inteira. Não me apavora nem rock, nem rumba e pra acabar com tal de “soul” basta um pouco de macumba! Girem saias e guias, ecoem louvores e cantares aos santos, deuses e orixás pelos heróis de nossa liberdade. Salve Dandara, Ganga Zumba, Luiza Mahin, Maria Felipa, Manoel Congo. Valeu, Zumbi!

Sai pelas ruas do centro e dos subúrbios com minhas baianas rendadas, sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito, carregando no peito minhas origens através de enredos. Fiz “Apoteose das mãos” em meu primeiro cortejo, ao som de Martinho devolvi ao estandarte a história das origens negras “Ao povo em forma de arte”. Pelos versos de Luiz Carlos, cantei Solano Trindade; pelos versos de tantos mestres celebrei Zumbi e comemorei os noventa anos da liberdade.

Plantei a semente, cultivei a raiz, flori e deixei herança. Sou Quilombo! Eu sou o povo, sou canto, sou dança! Sou Candeia! Sou voz que não cansa de lutar para negro alcançar seu dia de graça. Então, não negue a raça! É hora de fazer Kizomba mais uma vez para a Conceição padroeira abençoar seus filhos quilombolas, que hoje também são da Formiga e desfilam na avenida todo o nosso cantar. E é por isso que eu canto...

Axé, Tijuca! Ora yê yê ô!


Por Guilherme Estevão

*Inserções feitas no texto com trechos do Manifesto do G.R.A.N.E.S Quilombo; músicas “Dia de Graça”, “Nova Escola”, “Sou Mais samba” de Candeia; “Ao povo em forma de arte” de Martinha da Vila,  “Solano, Poeta do Povo” de Luiz Carlos da Vila e “Visual” de Beth Carvalho.


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"Quem nunca? Que atire a primeira pedra! "

Fala sério aqui com a gente, "de boas", "numa boa", francamente: quem nunca saiu dos trilhos, perdeu o prumo, deu detalhe, rodou a baiana, chutou o balde e o pau da barraca, armou um barraco ou mesmo deu uma virada de mesa? Um deslize, uma gafezinha qualquer ou uma falta de educação das grossas mesmo? Quem nunca? Eu, você, todo mundo, pelo menos uma vez, já esqueceu etiquetas, manuais e regulamentos e atravessou o samba na passarela dessa vida.

Que atire a primeira pedra quem nunca. Ou melhor, atirar pedra, não, porque aí já é falta de educação outra vez.

Tão humano quanto o ato bíblico de atirar a primeira pedra são os nossos maus hábitos que expressam impaciência, egoísmo, descuido, intolerância, "jeitinho". ou até falta de informação.

Furar fila, fingir estar dormindo pra não ceder o banco do ônibus pra idoso ou gestante, colar chiclete embaixo da mesa, lançar a guimba do cigarro na calçada ou aderir àquele pacote do "gatonet" chegam a ser "fichinha" perto de uma série de atitudes questionáveis. E aí cada um (do alto do seu telhado de vidro) lança aquela velha máxima: "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

O motivo do nosso enredo é educação, só que a gente resolveu falar dela pelo viés irreverente e crítico da FALTA de educação, de coisas que fazemos que comprometem o nosso dia-a-dia, a nossa convivência e o nosso futuro.

Quem nunca lançou a latinha de refrigerante pela janela do carro, avançou o sinal vermelho, dirigiu com aquela dose de cervejinha na ideia ou acima da velocidade permitida?

Do preguiçoso que entra na via sem ligar a seta e do apressadinho que pensa que buzina é almofada até a madame ou executivo de carrão que dá "conferência" pelo celular (e não "tá nem aí" que o sinal abriu), é deseducada a vida no trânsito, camarada! Haja direção defensiva!

Nas vias das redes sociais, meio capaz de unir as pessoas aos quatro cantos do mundo, quem nunca largou o pé do freio e destilou (ou sofreu) uma indireta, um "piti"? Quem nunca testemunhou, pelo menos, xingamentos e toda sorte de discriminação (racismo, homofobia, assédio, bullying) através de postagens de quem quer impor a própria opinião e se vale do mundo movediço dos perfis virtuais? E na corrida por likes, têm aqueles que reproduzem qualquer coisa que chame a atenção, nem se dando ao trabalho de ler e de checar a informação.

No país do carnaval, de mais de duzentos milhões de carnavalescos, quem nunca saiu detonando um enredo nas redes de "amigos" sem mesmo ler a sua sinopse ou aguardar o seu desenvolvimento na Avenida?

Ainda sobre o uso das novas tecnologias, quem nunca falou alto ao celular dentro do ônibus, do trem ou da van lotada? Cá entre nós, hein, ninguém merece saber que o passageiro ao lado saiu com a mulher do vizinho noite passada ou ter que acompanhar o vídeo do "sem noção" sem fone de ouvido, não é mesmo? E haja capacidade de armazenamento do celular pra suportar tantas "fofurices" e correntinhas diárias a nos desejarem bom dia, boa noite, boa semana, boa sexta, feliz sábado. Ufa! Esses novos "brinquedinhos" deviam vir com um manualzinho de ética, fala sério!

E quem nunca se livrou daquela inofensiva sacola de lixo no rio perto de casa? Aquela sacolinha plástica que você descarta e ela ainda leva anos e anos pra se decompor. De sacolinha em sacolinha os rios "enchem o saco"! E aí é sacolinha, sacolão, tampa de privada, sofá. enchentes, transbordarmentos, desabrigados, mortos. Uma avalanche de tristeza!

Mas nem tudo é desgraça já que nossas faltas também gostam de uma farra. Nas festividades e encontros populares (nos estádios de futebol, no réveillon, no carnaval.), "ninguém é de ninguém", e na praça, na praia, na rua o que é público também parece não ser; consciência toma sumiço e juízo de multidão não tem dono: malandro sarra na moça em condução lotada, chafarizes de mijões regam a cidade, falso torcedor sai de casa pra brigar, monumentos são destruídos, fachadas sofrem pichações que distorcem a beleza da cidade e comprometem a arte do povo grafiteiro.

A conta vem depois, quando a gente descobre que o que é público é nosso e é a gente que paga. Na pátria do carnaval e das chuteiras, o futebol nos traz imagens pertinentes: bola murcha, gol contra, impedimento. Ah, e um cartão vermelho para as faltas daqueles que se escondem na multidão.

Como se vê, no trânsito, nas redes virtuais, no meio ambiente, nos encontros das massas etc e tal, estamos meio mal.
.
#SóQueNão.

Nossa conduta não é de todo ruim. Afinal, somos seres inteligentes, sempre capazes de aprender. A última parte do nosso enredo é uma ode às maravilhas que o Conhecimento é capaz de edificar, aos monumentos que são o respeito ao outro e aos códigos coletivos, à convivência harmoniosa de contrários, à ética, à preservação ambiental, à construção de novas realidades por meio do estudo, da leitura, da pesquisa e da inovação.

Albert Einstein, o grande físico, já dizia que "a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original." É assim que o tema da Educação nos inspira e se funde à ESCOLA de Samba G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio (com seu saber cultural, afetivo, informal e ancestral, de "tias", "tios", "pais" e "mães", professores nossos do dia-a-dia), deixando um rastro positivo à comunidade de Caxias e aos Pimpolhos da Grande Rio, futuro da arte do samba e da humanidade.

E quem nunca fez uma faxina profunda, animada por aquela batucada estridente que enlouquece a vizinhança? O final do nosso desfile reserva uma "limpeza" geral, "enxaguando" nossos maus hábitos, removendo metafórica e alegremente as "crostas" que nos impedem a uma evolução "nota 10". Afinal, entendemos que uma das grandes potências do carnaval é a possibilidade de aprendizado através da alegria, do movimento e do encontro dos corpos e da criatividade das mentes - sentido pedagógico este que congrega as diferenças e revitaliza o Ser.

O momento simbólico de aprendizado do nosso enredo não é, evidentemente, a imagem da "lavagem cerebral", que fomenta a solidão da ignorância, o desmazelo com o meio ambiente, o fundamentalismo de ideias ou qualquer tipo de polarização norteada pelas faltas de gentileza, empatia e compreensão, mas uma purificação que expande a consciência, dá-lhe Saber, lava a alma e eleva o Espírito.

(Antes de terminar, vale lembar: "educação" vem do latim "educare", que deriva de EX (que significa "fora"), junto a DUCERE ("guiar, instruir, conduzir"). Portanto, educar-se é conduzir-se para fora, sair do isolamento de si e dos próprios (maus) hábitos, ou, se quisermos, é superar os limites de nossa "caverna" escura, alegoria platônica).

Ainda temos jeito - aquele "jeitinho" que brasileiro adora e que também pode ser para o bem. Podemos aprimorar o indivíduo e as relações coletivas e ainda tentar deixar o Planeta da forma como o recebemos: maravilhoso, abundante, generoso e cuidadosamente pensado para nos "darmos bem" por aqui, sobre a Bola!

Refinar a mente, os hábitos e a vida para que sigamos em frente, com harmonia, na linguagem, na comunicação, no dia-a-dia é passo essencial para um final de Enredo feliz, alegre e pleno, aqui e no futuro, que pertencerá aos Bem Educados.

Proposição/Argumento: Renato Lage e Márcia Lage
Texto/Desenvolvimento: Izak Dahora

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“Cada macaco no seu galho. Ó, meu Pai, me dê o pão que eu não morro de fome!”
Através dos “olhos” do pavão, animal que traz a visão de Deus pela alma e elimina o mal com suas garras, a Unidos da Tijuca vai passar uma mensagem de esperança em dias melhores por meio da história e simbologia do pão. Assim como no pavilhão tijucano, o pavão guiará a escola a revelar a trajetória do alimento mais popular do planeta.
Em tempos de ódio gratuito, intolerância para todos os lados, e do politicamente correto, o enredo se utiliza de um ditado popular para sinalizar que, se cada um fizer a sua parte, o mundo há de ser mais justo. A agremiação frisa aqui que a expressão “cada macaco no seu galho” utilizada no tema nem de longe lembra o significado primitivo do termo, que era usado para discriminar a população negra. Dentro do contexto do desfile da Tijuca, o ditado assume o sentido irreverente característico dos cariocas. Ou seja, é “cada um no seu quadrado” em busca de uma sociedade melhor.
Essência de todas as escolas de samba, os negros foram (e são) o pilar desta festa. Portanto, seria contraditório denegrir quem fez e faz pelo maior espetáculo da Terra.
O título do enredo ainda traz uma frase de clamor pelo pão que alimenta, seja o corpo ou a alma. Desde a sua descoberta, ele vem curando as necessidades de muitos, fortalecendo a construção de sociedades. O pão é o fio condutor que nos levará até os dias atuais.
Afinal, de acordo com o historiador alemão Heinrich
Eduard Jacob, “nenhum outro produto, antes ou depois da
sua descoberta, dominou o mundo antigo, material e espiritualmente, como o pão foi capaz de fazer”.
Desenvolvimento
Através dos “olhos do Criador”, revejo o surgimento do alimento mais importante e sagrado do mundo. Na Mesopotâmia, um dos berços da civilização, o homem primitivo percebe que a simples exposição ao sol de um punhado de cereal, batizado como trigo, faz nascer uma massa intrigante. A “descoberta” dali para frente alimentaria a humanidade.
Foram os egípcios que, com inteligência e sagacidade, iniciaram o processo de fermentação dessa massa, dando origem ao Pão. Ele rapidamente ganhou traços simbólicos, seja como moeda de troca ou instrumento político.
Do pão, foi mantido um Império. Reis e rainhas caíram. Revoltas e revoluções surgiram.
O povo explorado, muitas vezes escravizado, sempre trabalhou pelo alimento de cada dia. O humilde proletário, que madruga atrás de condução, também está em busca de uma vida melhor. E é na fé que esse homem se sustenta. Fé encontrada no filho de Deus, que se fez carne entre os pecadores. O Cordeiro de Deus deixou-nos o exemplo da multiplicação e partilha do amor com os irmãos.
Assim como Jesus Cristo, outras santidades dão verdadeiras lições de que, se cada um fizer a sua parte, mesmo que pequena, fabricaremos, amassaremos a mistura, que ao crescer, salvará nosso mundo da fome de alimento, e de sentimentos.
Até porque vivemos em uma realidade tão cruel, em que muitos ainda não têm acesso ao básico para viver. Os abusos de poder massacram os desfavorecidos. Estamos
no forno, assando, sofrendo, queimando no descaso de quem deveria olhar pela prosperidade de todos.
Ah se todos fizessem a sua parte…
Se os ardilosos com seu egoísmo e ambição fossem extintos…
O ditado popular “Cada macaco no seu galho” nunca foi tão essencial como agora. Não no seu significado primitivo, que era usado para discriminar a população negra – povo que é a essência das nossas escolas de samba. Se cada um dentro do seu ofício fizer o melhor, teremos o nosso pão e não morreremos de fome.
É preciso colocarmos no coração verdadeiramente a mensagem do Pão da Vida para podermos viver nas glórias de um Paraíso Real.
Enquanto não desfrutamos desta abundância, sei que tudo poderá me faltar: água, pão… Mas nada tirará o meu ânimo de viver. Nada! Porque sei que nunca me faltará o teu amor, Pai. Amor que gerará filhos, nascidos sem dor. Filhos que crescerão como homens de bem, direitos. Direitos que serão ensinados para vivermos em um mundo melhor.
Ouço o teu clamor, por isso, cubro-te de amor e fé pois este é o verdadeiro alimento da sua alma.
Unidos pela arte e cultura popular
Coordenação geral: Laíla
Diretor de carnaval: Fernando Costa
Carnavalescos: Annik Salmon, Fran Sérgio, Hélcio
Paim e Marcus Paulo
Desenvolvimento: Annik Salmon, Fernando Costa, Fran Sérgio, Hélcio Paim, Igor Ricardo, Laíla, Marcus Paulo
Pesquisa e texto: Igor Ricardo
Agradecimento


Obrigado, meu Deus, obrigado por mais esse dia. Obrigado pela minha família, pela oportunidade de mais uma vez te encontrar de braços abertos para carregar em teu colo os meus desejos, as minhas dores, os meus desafios. Obrigado, meu Deus, por iluminar meu caminho, protegei minha casa, minha mulher, protegei meus filhos. Cubra-me de amor e fé porque esse é o verdadeiro alimento da minha alma. Iluminai a cabeça daqueles que vivem na escuridão, consolai aqueles que tanto precisam do teu amor. Proteja aquele que vai em busca do pão de cada dia, mas sobretudo cubra de graças aquele que se levanta para ir em busca de um emprego. Que o clarão do dia que está para chegar, traga o sol da tua bondade e aqueça o nosso coração. Sei, meu Deus, que pode me faltar a água, o pão, um teto, um abraço, mas sei que nada disso é tão importante que me tire o ânimo e a alegria de viver. Sei que nesta vida tudo poderá me faltar. O que nunca me faltará é o Teu Amor, Pai.
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Após longa travessia pelos oceanos, centenas de milhares de Africanos desembarcam nos Portos do Rio de Janeiro, Paraty, Mangaratiba e Cabo Frio. Seu destino, o Vale do Café Sul Fluminense. A pé, enfrentando todas as intempéries climáticas, marcham sobre sol e chuva, pés descalços e com fome, rumo ao grande Vale de terras férteis, verdes matas, mas também de dor e escravidão; lar de seus lamentos, sua labuta e saudade. Assim o negro chega ao Vale do Paraíba, posteriormente conhecido como o Vale do Café. Esse plantado e colhido por mãos escravas.

 “O Nêgo tá cansado de trabaiá... Trabaia... Trabaia Nêgo...” 

Graças a sua chegada e ao ouro negro por eles cultivado, nasce uma áurea e aristocrática sociedade escravagista com toda pompa, luxo e alta cultura, como deveria ser uma próspera sociedade nobiliárquica rural.

O Vale é tomado por arte em forma de concertos, óperas, poesias, festas, ourivesaria, valsas, polcas, saraus... Corte; oriundos do escorrer do sangue vermelho/negro a banhar cafezal. Mas, assim como esta sociedade branca escravocrata introduzia em seus costumes a cultura europeia, o negro africano miscigenava sua herança cultural com a da nova terra... 

"Foi na beira do rio, Aonde Oxum chorou... Chora iê iê ô, Chora os filhos seus..." (Ponto de Oxum)

 Assim brota a pluralidade que encontramos hoje em nosso Vale com ritmos sincopados em seus lundús, maxixes, jongos, figurinos multicores. Exú, Obaluaiyê, Ogum, Oxumarê, Iroko, Iansã, Xangô, Obá, Oxóssi, Logun Edé, Ossain, Oxalá, Oxum, Yemanjá, Nanã, Ybeji, coloridas e poderosas divindades da natureza e a crença em ervas, rezas e benzedeiras, força da raça que não se deixou intimidar com a chibata algoz de seus senhores.

 "Na hora em que a terra dorme, 
enroladas em frios véus, 
eu ouço uma reza enorme 
enchendo o abismo dos céus..." 
 (Castro Alves) 

O Vale se transformou... O cafezal virou cidade, a história e o turismo e a dor de outrora, poeira ao vento. A cultura se expande sobre a influência de imigrantes que vieram atrás do sonho dourado nas terras Sul Fluminense, pisando em chão negro e magicamente gerar filhos genuínos brasileiros, resultantes da mistura de raças. 

Nasce o novo dono do Vale... 

Sua arte é múltipla! Nela destacam-se o jongo, calango, maculelê, caninha verde, capoeira, sociedades musicais, Folias de Reis, viola sertaneja, choro, serestas, orquestras, balé, canto lírico, artes plásticas e o samba onde sua origem se dá nos Quilombos das Serras Fluminenses e cantado por sua filha maior, Clementina de Jesus. 

"Não cadeia Clementina... Fui feita pra vadiá..." ( Clementina de Jesus) 

 O artesanato e a culinária somados a todas essas manifestações artísticas e folclóricas atraem turistas do mundo inteiro, gerando renda e progresso. 

Na religiosidade encontramos as quermesses e novenas dedicadas aos Padroeiros de cada Altar Matriz com seus belíssimos jardins aos pés. N. S. da Conceição, N. S. da Guia, N. S. da Glória, São Sebastião, N. S. da Piedade, Santa Teresa D'Ávila, Santana, N. S. da Soledade, São Pedro e São Paulo, Santo Antônio e Santa Cruz, formam a Ciranda de fé que cada cidade ostenta como seus protetores. No entorno desses altares em ouro com seus anjos barrocos, os terreiros de Umbanda e Candomblé com seus pés descalços e o ocultismo místico, curam, rezam e Benzem ao som de atabaques e pontos mágicos; herança negra com seu sincretismo cultural. 

"A Treze de Maio, Na Cova da Iria, No Céu Aparece, A Virgem Maria..." (Hino Católico)
  
Hoje o Vale é pecuário, agronegócio. Festa de Peão e rodeio. Muito do que consumimos nas grandes cidades foram sementes e embriões enraizados em pastagens que outrora, foram antigos cafezais. 

A indústria de minério, têxtil, automobilística, o comércio em grande escala fazem do Vale hoje, uma máquina próspera e de grande renda que emprega seus filhos e cria oportunidades de crescimento sócio urbano.

A educação é presente nas redes Municipais e Estaduais com ensino público de qualidade, assim como uma infinidade de escolas particulares com propostas educativas de grande relevância. Universidade e Faculdades são um capítulo à parte devido a infinidade de cursos oferecidos. No Vale encontramos o grande Hospital Escola Severino Sombra que atende toda a população não só da região como de vários municípios do Grande Rio.

O Vale possui a sua rede de TV própria que reflete ao mundo a beleza do Vale do Café, gerando notícias e programas que mostram o seu povo com toda a sua diversidade cultural. A TV Rio Sul como grande agente divulgador da cultura do Vale do Paraíba Sul Fluminense e Sul do Estado do Rio de Janeiro. 

Passando todos esses anos desde a chegada do negro em nossa região, a Império da Tijuca traz para a Avenida Marquês de Sapucaí esse lindo rosário de pérolas em que cada município do Vale do Café, colore sua conta com o que seu povo tem de mais puro e belo, o AMOR! 

Fernando A. Portugal – Diretor Cultural 
Jorge Caribé - Carnavalesco 

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(Este enredo é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Ou não…)

“Meus conterrâneos, minhas concidadãs!

Neste espaço sapucaisticamente concebido para laurear os grandes vultos e acontecimentos deste pujante Brasil, elevo minha voz entusiasticamente para galardoar a obra de um apoteótico romancista, novelista e teatrista. Seu nome é no plural. Sim, no plural, porque não era apenas um. Era um bocado de gente que morava dentro de uma cabeça trepidante que vivia maquinando os causos e as astúcias de gente como eu, ou você, ou você e eu, e vice-versa. Um audaz dramaturgo cognominado Dias Gomes! Um valoroso artista, que com inventividade, prodigiosidade e, por que não dizer, vanguardisticidade, fez com que as histórias do seu povo corressem léguas e léguas por esse país de auriverde pendão.

Mas botando de lado os entretantos e partindo logo pros finalmentes, eu venho até vocês para fazer baixar neste sacralíssimo terreiro as distintas personalidades que esse luzente autor trouxe para a imortalidade dos nossos palcos e para a vitaliciedade das nossas telas. Vejo esculpido e encarnado em cada um dos senhores e senhoras a marca presente em todo ombro humilde que carrega a sua cruz pelas beiras das estradas da vida. Sim! Eu vejo a imagem e semelhança do fiel pagador de promessa de quem a sanha intolerante deu cabo na porta da igreja de Santa Bárbara, no preciso momento em que o despossuído cidadão cumpria a digna missão que Iansã lhe determinou: entrar na casa do Senhor com o símbolo da sua penitência e repartir o pouco que tinha com os desamparados. Até posso ver, meus abismadíssimos senhores e minhas perplexíssimas senhoras, o corpo estendido no chão, tombado e depois triunfalmente elevado como o Salvador entre dois pedaços de madeira cruzados, ao som dos din-din-don-dons dos berimbaus dos capoeiristas e do coro das filhas e das mães de santo. E em verdade eu vos digo: Oyá por nós, minha Santa Bárbara! Esse povo não sabe o que faz…

E meus engalanados compatriotas e minhas licorosas citadinas, ainda nessa peleja dos divinísticos contra os profanísticos da fé, se Deus e o Diabo descerem à Terra, sem guarda-chuva, sem bandeira, bem ou mal, certamente haverão de acertar as contas com seus santos. (Ou com seus demônios, que seja). Foi o que aconteceu lá nas plagas de Asa Branca, o berço do herói, onde o mito Roque Santeiro ressuscitou sem ter morrido, assim como a Porcina foi viúva sem nunca ter sido. Enquanto isso, na morna e cheirosa Sucupira, a brejeira Pérola do Norte, o povo não tinha nem onde cair morto. Literalmente! Por não contar com um cemitério para enterrar seus funéreos cidadãos, teve finado que seguiu por aí balançando a própria difuntice tendo que ser enterrado em município estrangeiro. Criou-se então uma justa demanda, mas que por falta de cadáver, acabou virando um elefante funesto e branco, como muita coisa que acontece numa terra acolá que eu não vou nem me atrever a dizer o nome. Numa cova bem cavada jaz a decência da política, na qual os que deveriam zelar pelo bem do povo acabam por acender uma vela pra Cristo e outra pra Judas a fim de salvar a própria pele e guarnecer o próprio bolso. Mas nada de revolta popular! Como disse um dia alguém que perdeu a inexorável chance de ser nominalmente citado nesta parabolagem pra dormitar bovino, eu brado: “Sucupira: Ame-a ou Deixe-a!” Então, deixa tudo torto mesmo e bora tocar pra frentemente.

Pegando o rumo pra cidade grande, o que se avista, minha urbanística e modernística plateia? Não sabem não? Pois eu digo a vocês! Uma paisagem tomada de alterosas edificações feitas de cimento, aço e poderoso capital. Ali se viu mais um bate-estaca e menos um sobrado. Mais uma obra de monumental imponência e menos uma vegetação! Uma vertiginosa plantação de vidro e pedra se levantando do chão para agredir o espaço, erguendo mais alto a voz do vil metal, que dá o seu recado natural: este mundo nada mais é que um grande latifúndio. É muita terra pra pouco dono! Eis que então a batida ritmada da construção se confundiu em dado instante com o prugurundum do surdo que marca o tempo do samba. A Bandeira 2 rodou freneticamente no asfalto quente onde o corretor zoológico virou o Rei de Ramos, do Carnaval, das cabrochas, dos milhões de gigantes a construir. Assim falou Martim Cererê, o profeta do impoluto destino brasileiro que um dia haverá de prosperar baseado na sua miscigenada genealogia. Mas enquanto esse dia não chega, vamos nós vivendo o nosso realismo fantasticamente.

E no final desse sarapatel temperado de dendê, eu convido cada um de vocês a vir bulir no caldeirão do mistério… Abra o olho e venha ver as coisas do arco da velha que se sucederam em Bole-Bole, a cidade do absurdo. Um pedaço de lugar em que tudo podia acontecer, até mesmo uma alucinada contenda histórica que mobilizou toda a população local. Divididos em dois blocos, os mudancistas e os tradicionalistas, os polarizados bole-bolenses se digladiaram para decidir se o nome da cidade mudaria ou não para Saramandaia. Enfim, sendo saramandaísta ou bole-bolista, o fato é que se tratava de uma terra de gente muito peculiar. Lá havia homem que virava lobisomem, dama ardente que pegava fogo, tinha o coronel que botava formiga pelas ventas e até a redondística e circunferente dona que não parava de comer. E no meio desse bole e rebola no bole-bole-bolacho, tudo era mistério no voar do enigmático herói que nasceu com um par de asas. Um sujeito de mentalidade alada, que botou a imaginação pra correr céu, assim como o artista que criou toda essa gente de forma genial, extraordinária, e como não dizer… estupendamente engenhosa!

E terminando sem mais retardamentos nem atrasamentos, eu me despeço com uma mensagem sobre todos aqueles que desafiarem a capacidade de criação popular da nossa gente: ELES SÃO MUITOS, MAS NÃO PODEM VOAR!”

“Eis aqui o berço do autor
Que inventou uma terra terna e vil
Um lugar talhado em fé e dor?
Ou apenas um espelho do Brasil?

E quando vier a cena derradeira
O povo unido a lutar sem medo
Derrotando a fúria traiçoeira
Desfilará o seu mais belo enredo

Por fim restará a esperança
Na alma desta incansável audiência
Afinal toda e qualquer semelhança
Não terá sido mera coincidência!”

Viva Dias Gomes!

Enredo de: João Vitor Araújo
Texto: João Gustavo Melo

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VIRAVIRADOURO!
Cresci ouvindo as histórias que Vovó me contava desde muito pequeno. Lembro-me bem de uma das últimas noites em que sentei ao seu lado para ouvi-la sem hora para terminar. O tempo parecia não existir, mas a verdade é que ele havia me alcançado e, sem que

eu percebesse, toda a fantasia dos tempos de criança se desfez. Até que… naquela noite inesquecível, ela me chamou mais uma vez e, com um olhar misterioso, disse: “Venha… quero lhe mostrar um segredo!”.

De uma pesada gaveta da estante, sacou um antigo volume de capa de couro escura, com o título: VIRAVIRADOURO! O LIVRO SECRETO DOS ENCANTOS. E ordenou: “Preste bem atenção… porque essa é a palavra mágica que transformará nosso conto em encanto. E tudo o que acontecer daqui por diante deve ficar entre nós…”, e soltou uma gargalhada impressionante… Vovó, uma bruxa??? O que se passou a partir daquele momento é o que vamos descobrir agora.

Sentei curioso, ao seu lado, com saudades de ouvi-la contar mais uma das deliciosas aventuras que animaram a minha infância. Vovó começou: “Conhecemos histórias muito antigas, que chegam até nós através de livros e de contadores. Elas guardam mistérios sem fim!”, disse, enquanto abria as páginas do PRIMEIRO CAPÍTULO. E pôs-se a ler, apontando o título: “ENCANTADORES podem realizar desejos impossíveis ou lançar terríveis maldições. O pouco que se sabe sobre eles está oculto em livros muito antigos; habitam um universo enigmático e mágico. Você nunca deve zombar ou duvidar da força que possuem”. E lançou um feitiço:

“Se um Deus quiser, faz a terra tremer… ao gênio da lâmpada, você contará seus desejos; o encanto da fada faz a sorte mudar; cuidado com o diabo e sua maldição; mas é com a bruxa que começa a viração: Viraviradouro vai virar!”.

Essa palavra mágica abre os caminhos por onde entram os ENCANTADORES. Deuses, gênios, fadas madrinhas, demônios e bruxas surgem de todos os cantos e dos contos, para mostrar seus incríveis poderes capazes de provocar grandes transformações. Eles saem do livro e viram aventura na vida, na Avenida.

Vovó sorri, ao perceber minha alegria, e diz: “É com eles que começa toda a magia. Vamos ver o que traz o SEGUNDO CAPÍTULO”. E, virando as páginas mais uma vez, exclama: “Ah, os ENCANTADOS CONTOS DE FADAS! Quanta magia nos encanta desde que somos bem pequenos… Veja que linda moça dançando com seu amado, na noite do Baile Real. Parece uma princesa! Mas logo se quebrará o encanto e ela voltará a ser a pobre órfã entregue aos maus-tratos de sua madrasta. A próxima é a curiosa menina que se aventura no País das Maravilhas: experimentando de tudo, ela se transforma ao longo do caminho e até enfrenta uma rainha má. Quantas mudanças, não?”.

Pegando a folha envelhecida com a ponta dos dedos, Vovó passa mais uma página: “Esse aqui é o bichano esperto, que calça um par de botas para percorrer muitas léguas velozmente. O gatinho engana a todos e, com sua inteligência, conquista riquezas e muda o destino de seu dono”. O rosto de Vovó se ilumina, ao perceber quem está na página seguinte: “Olhe aqui, que belo soldadinho esculpido em chumbo! Lembra? Os brinquedos ganham vida durante a noite, e ele e sua bailarina de papel, enamorados, sofrem com a inveja de um cruel feiticeiro e acabam desaparecendo nas chamas de uma lareira. Tão triste como o castigo da bruxa, que transforma um príncipe arrogante em horrível besta e todos os criados de seu castelo em objetos falantes e encantados, até que ele aprenda a amar e ser amado. Mas o final dessa história é feliz… Eles se apaixonam e o feitiço se desfaz…”.

E continua: “Veja aqui, o TERCEIRO CAPÍTULO é sobre AMALDIÇOADOS e guarda uma perigosa magia. Muitos são os seres mitológicos condenados a viver o destino escolhido pela ira ou por capricho divino. Mais antigos do que a própria história, nobres ou pobres mortais, monstros ou heróis ousaram desafiar os deuses ou desejar mais do que deveriam, assim como o ambicioso rei que conquistou o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro e seu maior desejo virou sua maldição. Pobre coitado! Não podia se alimentar, nem abraçar seus entes queridos. Ah, sim… E essa é a habilidosa tecelã transformada em uma aranha, por ousar competir com a deusa das artes do Olimpo. Presa a sua teia, ela passou a fiar seus lindos e perfeitos bordados, cada vez mais e mais…”.

O que mais está escrito no VIRAVIRADOURO? “Quem pode nos dizer é Merlin, mestre na arte da magia. O poderoso mago conhece como ninguém os mistérios da vida e da morte, dos homens e dos deuses. Dizem que Merlin ajudou a escrever esse livro”, confessa Vovó, sussurrando em meus ouvidos. Será? A magia está no ar…

“Muito cuidado agora! Feche os olhos, não olhe diretamente para ela! Fuja do terrível encanto, para não virar pedra. Essa bela sacerdotisa foi transformada, pela deusa do seu templo, em um dos mais temidos monstros da mitologia grega, após ter sido seduzida pelo deus do mar.”

Então, Vovó me pergunta, desafiando minha curiosidade: “Você conhece o navio fantasma holandês, que causa medo aos navegantes há séculos? Essa é mais uma das terríveis maldições que atormentam os sete mares. Assustadores piratas são condenados a vagar pela eternidade, em busca de liberdade, por terem desafiado a vontade dos deuses”. Lembro-me de ter visto essa assombração num filme, aliás, como muitas outras histórias. Os fantasmas pareciam tão reais na tela do cinema! Vovó sorri novamente: “Todos metem muito medo”, diz enquanto espera a legião de seres do mal, que evoca ao virar mais uma página do livro.

A noite avança e já é madrugada quando chegamos ao QUARTO CAPÍTULO: CRIATURAS DA NOITE. Está escrito: “São os filhos da escuridão que vagam pela terra ou se escondem debaixo dela, criaturas que espreitam as sombras ou caminham famintas sob a luz da Lua; por ambição, vingança ou pacto com o demônio, perderam a paz e seguem penando para todo o sempre”.

Vovó continua a leitura: “O sarcófago range e a amaldiçoada múmia do antigo Egito acorda de seu sono eterno; a Lua cheia desperta a ira do lobisomem, que andava quieto, metido no corpo de um pobre coitado; e os vampiros vagam à procura do sangue de suas vítimas inocentes, que em pouco tempo se transformam para aumentar essa legião de mortos-vivos famintos!”. Diante de toda maldade do mundo, quis saber se existiam encantos para derrotar o medo. “Existem homens corajosos que lutam contra todo tipo de crueldade. Esse lendário caçador de monstros é um deles. Já ouviu alguma de suas extraordinárias aventuras? E existem tantos outros que não acreditam que o mal possa dominar o mundo. Alguns são tão fortes que entregam a alma ao diabo, porém usam seus poderes contra ele ao longo de muitos séculos e gerações! Sim, as assombrações também se renovam. Veja, esse é um dos meus favoritos! Quando o conheci, ele andava a cavalo”, disse, rindo, enquanto me mostrava a caveira incandescente. “Hoje só anda de motocicleta, hehe…”.

E a noite avança veloz, carregando nosso maior pesadelo… Será o fim? Não vamos voltar a sonhar? Vovó me abraça e sussurra: “Não podemos quebrar o encanto e deixar o mal dominar. Ele pode nos destruir e, então, tudo se acabará! A cada dia, perdemos nossa capacidade de acreditar na fantasia… Esquecemos como é bom ser criança e brincar com a imaginação!”.

Ao abrir o ÚLTIMO CAPÍTULO do livro de magia, Vovó me diz: “Observe o pássaro mitológico, símbolo da renovação, que sempre ressurge das cinzas, de onde nada mais parece existir. Consegue perceber que, assim como ele, a vida renasce em todos os seres da floresta encantada? Se você acreditar, poderá vê-los de novo!”. E lá estão eles e elas! Inquietos gnomos, agitadas fadas, elfos incansáveis que dominam a água, o ar, a terra e o fogo; surgem para reinventar a vida, renovar nossas forças e nossos sonhos.

Ah, então, Viraviradouro é a magia de quem só quer alegria para a vida virar! Divertir quem gosta de histórias, brincar com a memória e nos transformar. Queimar a semente do mal e renascer das cinzas, se não for por toda a vida, que seja na Avenida, numa noite de Carnaval! E Vovó me revela: “Essa é a última página do Livro de Encantos de mais uma história sem fim. Invente a sua, acredite e seja feliz! Viraviradouro vai virar!”.

Carnaval 2019

Isabel Azevedo | Simone Martins | Ana Paula Trindade | Paulo Barros


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Por Beatriz Freire, Felipe Tinoco e Leonardo Antan



A bateria sai do recuo, anunciando os últimos momentos desse nosso delicioso desfile que deu o tom do Carnavalize nas últimas semanas. A #SérieEnredos acaba com uma homenagem mais que justa para nossa amada festa por meio dela mesma. Então, folião, ainda não chore, que até o portão fechar, passarão nossas últimas alas e a alegoria final.

Nesse clima já saudoso, enredo que não termina em carnaval não tem graça, né? As escolas frequentemente dão um jeito de rodar uma temática e, ao fim, acabar falando de nós mesmos, dos sambistas, dos desfiles, do carnaval. Nós não faríamos diferente como nossa série especial. Da Candelária ao Sambódromo, listamos aqui alguns dos enredos mais marcantes que cantaram a folia e sua história. Prepare a sua fantasia para o último cortejo da #SérieEnredos e se deleite com os temas metalinguísticos, enredos que utilizaram o próprio carnaval para falar de carnaval!



“História do carnaval carioca” - Salgueiro 1965




É o pioneirismo que você quer, @? Não bastando o protagonismo do negro nos desfiles do Salgueiro durante a década de 1960, o grupo revolucionário liderado por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues inovou também ao contar a história do carnaval dentro do carnaval de maneira historiográfica. Já existiriam, à época, homenagens ao samba e um desfile mais genérico da Mangueira de 1960, mas nada com proposta mais certeira como essa da Academia. O diferencial foi a inspiração no seminal livro de Eneida de Morais, que batizou o enredo, sendo uma das primeiras obras brasileiras a se dedicar exclusivamente à história da folia.

"Vamos dar uma de Shakespeare em Hamlet, o teatro dentro do teatro... o carnaval dentro do carnaval, pô". Assim, Pamplona convenceu o parceiro Arlindo para a escolha do tema. Foi uma saída genial dos carnavalescos para a obrigatoriedade de 1965, em que todas as escolas deveriam render homenagens ao aniversário de 400 anos do Rio de Janeiro. O desfile contou com a ajuda de nomes que se tornariam famosos no universo momístico; um tal de João Trinta ajudou nos adereços e Max Lopes, outro ainda desconhecido, foi diretor de ala.




Com o auxílio de tantos grandes profissionais, a Academia do Samba deu sequência a uma série de inovações que passaram por aspectos temáticos e visuais. O uso do bombom, hoje completamente banal, foi uma grande novidade introduzida pelo grupo nesse desfile. Também se destacou como uma forte imagem desse ano a comissão de frente formada por membros da comunidade, que traziam singelas burrinhas de vime, feitas por João - então "João das alegorias". 

O grande desfile acabou conquistando o público, mesmo após o burburinho no pré-carnaval contra a série de inovações que o Salgueiro pretendia promover e promoveu. Nomes mais tradicionalistas, como o jornalista Sérgio Bittencourt, fizeram duras críticas à escola e aos profissionais vistos como "estrangeiros" na produção do desfile. Apesar da polêmica, a agremiação conquistou público e júri com suas ousadias e desbancou o favorito Império Serrano com seu também imortal "Cinco bailes da história do Rio", de Ivone Lara e Silas, faturando o terceiro título da vermelho e branco da Tijuca. 

Anos mais tarde, em 72, no último carnaval com a participação de Arlindo e Pamplona juntos, o Salgueiro faria outra novidade com uso semelhante de metalinguagem: uma homenagem para sua madrinha Mangueira, em um belo exemplo de respeito e admiração entre as coirmãs. Ainda que o samba tenha ficado para a história da agremiação, o desfile não alcançou grandes resultados.


"Vovó e o rei da Saturnália na Corte egipciana" - Beija-Flor 1977





Nos devaneios de Joãosinho Trinta, Nilópolis pegou carona em uma viagem pela história do carnaval. O enredo contava as origens da festa e o Egito foi, segundo alguns estudiosos, um dos prováveis locais do início dos festejos. A Saturnália está ligada às comemorações da Roma antiga oferecidas ao deus Saturno, época na qual escravos eram livres, as regras sociais eram derrubadas e a festa era regada a bebidas e orgias. Entrudos e os bailes de Veneza também apareceram no enredo, que foi desenvolvido num dos grandes delírios típicos de João. Toda a epopeia momesca foi narrada por intermédio de uma vovó que, ao ver a azul e branco desfilar, recordava-se da folia como se estivesse vivido todos esses momentos. 

O desfile deu sequência à série de ousadias espetaculares do artista, apostando no luxo e na opulência, mesmo que com uso de materiais comuns e baratos. Essas características todas aliadas à famosa garra nilopolitana ajudaram a garantir o caneco da azul e branco, e a Deusa da Passarela triunfou pela segunda vez na sua história.


Bumbum Paticumbum Prugurundum - Império Serrano, 1982




Marcando a estreia da dupla Rosa Magalhães e Lícia Larceda como carnavalescas, o Império cantou a história das escolas de samba com um enredo sugerido por Fernando Pamplona, que mediou a contratação de suas discípulas pela Serrinha. O enredo foi batizado pelo mestre de "Praça Onze, Candelária e Sapeca aí”, delimitando os principais locais de desfiles, mas a dupla resolveu modificá-lo para o curioso título - uma onomatopeia que simboliza o som do surdo, inspirada em uma entrevista realizada com Ismael Silva. 

A narrativa passeou pelos grandes momentos da história das escolas desde a Praça Onze, passando pela série de inovações salgueirenses décadas antes e terminava em uma crítica ao desenfreado processo de crescimento das escolas. Para isso, as carnavalescas consideraram as agremiações como verdadeiras empresas ao cantar "super escolas de samba S/A, super alegorias". A crítica teve como protagonista Joãosinho Trinta, representado em uma das alegorias. Para arrematar, o grande samba de Aluísio Machado e Beto Sem Braço incendiou os componentes da Serrinha. O campeonato da escola veio com facilidade, desbancando outras favoritas e sendo privilegiada como a única agremiação a não descumprir a novidade do regulamento daquele ano, que proibia o uso de figuras vivas, como destaques e componentes, nas alegorias e tripés.


É hoje - União da Ilha 1982


Foto: Anibal Philot

1982 foi um ano de grandes enredos metalinguísticos! Além do campeão Império Serrano, outra instituição cultural teve sua canção consagrada. E como marcou! A obra musical de Didi e Mestrinho entrou para a eternidade se tornando um dos sambas-enredo mais famosos fora da folia, ganhando várias regravações e se tornando um verdadeiro clássico da MPB. Quanto ao enredo, ele foi desenvolvido pelo jovem carnavalesco Max Lopes, inspirado em livro homônimo escrito por Haroldo Costa, que contava com ilustrações do cartunista Lan. 

Apesar de ter apenas três carros alegóricos, o abre-alas, representando uma barca cheia de brincantes da Ilha para a avenida do Rio, ficou marcado na memória da folia e dos componentes da escola. Os demais elementos visuais beberam no estilo insulano do "bom, bonito e barato", concebido pela carnavalesca Maria Augusta, como alas vestidas de pierrôs, colombinas, baianas e fantasias típicas da folia. O samba antológico contribuiu ainda para uma grande apresentação da Ilha, que terminou apenas num modesto quinto lugar. Em 2008, a agremiação reeditou os famosos versos e também terminou na quinta colocação - mas no Grupo A, organizado pela extinta AESCRJ.


“Festa Profona” - União da Ilha 1989




A escola da alegria e da leveza não poderia deixar de ter como característica enredos ligados ao maior show da terra, né? Depois de contar sua própria história em 1980 e a folia contemporânea dois anos depois, a Ilha terminou a década fazendo um desfile ainda mais profundo na folia, com seu também inesquecível "Festa Profana". 

Passeando desde os tempos mais remotos, a agremiação insulana tentou achar uma origem para festa na Grécia e no Egito, passando ainda por Roma e Veneza até chegar ao Brasil e seu entrudo. A comissão de frente trazia componentes vestidos de Rei Momo, fazendo jus aos famosos versos "o rei mandou cair dentro da folia". O carnaval foi assinado pelo carnavalesco Ney Auan, que fez um bom trabalho plástico. O desfile ainda ficou famoso pela icônica genitália desnuda de Enoli Lara, desinibida em uma alegoria. 

O samba composto por J.Brito, Bujão e Franco - que não o assinou -, apesar de ser denominado como "marchinha sem vergonha" por Fernando Pamplona, embalou um grande e animado cortejo da tricolor insulana, tornando-se mais um dos grandes clássicos da agremiação a romper a vida útil do desfile, cantado em blocos e festas. Apesar do ano conturbado, protagonizado pelo embate entre Beija-Flor e Imperatriz, a Ilha ficou logo atrás das favoritas com um honroso terceiro lugar. Em 2005, a Porta da Pedra reeditou o memorável samba e, sob a batuta do carnavalesco Alexandre Louzada, conquistou o sétimo lugar da elite.


“O samba sambou” - São Clemente 1990


Foto: O Globo

Olha a crítica! A tradicional escola da zona sul carrega em seu DNA mais do que a simples irreverência: também o dedo na ferida, a acidez sutil de um discurso crítico que sempre caiu bem a ela. "O samba sambou" se tornou um dos enredos críticos mais conhecidos e aclamados da escola, ajudou a contar na Sapucaí a realidade dentro do mundo das escolas de samba. A narrativa foi uma das últimas escrita pela dupla que marcou época na preto e amarelo, Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa, e passeou por diversas incoerências e absurdos que faziam parte da espetacularização da folia das escolas. Como celebridades em busca dos holofotes da mídia até a mercantilização dos profissionais da festa e suas constantes mudanças de bandeira. Tudo junto e misturado para lembrar a nostalgia e os bons tempos dos antigos carnavais que mantinham a raiz do "verdadeiro samba".

Uma das imagens mais marcantes foi a comissão de frente, quesito que foi destaque como um todo na trajetória da escola em seus enredos críticos. O grupo trouxe fantoches de mestres-salas sendo manipulados pelos dirigentes. Já a letra do samba, escrita por Helinho 107, Izaías de Paula e seus parceiros, casou perfeitamente com o que se viu e sintetizou bem a crítica com belas passagens. Profética, a escola pareceu adivinhar os rumos daquilo que já se desenhava à frente dos sambistas há quase 30 anos, e conquistou um sexto lugar, sua melhor posição no Grupo Especial até hoje. Ainda atualíssimo. 


“Marquês que é Marquês, do saçarico é freguês” - Imperatriz Leopoldinense 1993 



Somos todos fregueses do saçarico, não é mesmo? A Imperatriz e nossa sempre deusa Rosa Magalhães também. Por isso, em 1993, com título baseado no Marquês de Sapucaí, burocrata que dá nome ao Sambódromo e que se tornaria bicentenário naquele ano, a carnavalesca e a Rainha de Ramos realizaram uma homenagem à história momesca, passando por todas suas formulações até a chegada dos desfiles sofisticados. Para isso, o enredo relembrou o entrudo, a serração da velha, os bailes de máscaras, os cordões e blocos, os ranchos e as grandes sociedades, realizando um retrato das origens e inspirações das escolas de samba. 

Chegando a nomes mais recentes, foram saudados artistas como Fernando Pinto, Joãozinho Trinta e Arlindo Rodrigues, por meio de referências aos seus mais emblemáticos trabalhos. Além disso, Viriato Ferreira foi homenageado no último carro, com uma faixa com os dizeres “No saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira”. A mesma frase dá título ao enredo da Acadêmicos da Rocinha de 2017, que exaltava o incrível artista falecido durante a preparação do desfile da Imperatriz de 1993, em setembro do ano anterior. Ele era figurinista de Rosa e, à época, chegou a realizar uma releitura de outro carnaval que participou e foi recordado no desfile em questão: “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” (Beija-Flor, 1989).


“Gosto que me enrosco” - Portela 1995




Abrindo as portas para folia, a tradicional Portela mostrou por que é uma das maiores escolas da folia carnavalesca. A maior campeã da festa vivia um grande jejum de títulos e oscilava entre boas e medianas posições quando realizou um carnaval que também protagonizou sua história. O enredo fazia parte de uma trilogia proposta por José Felix, que cantou a história do samba um ano antes, passaria pela folia naquele ano e se encerraria na apresentação seguinte sobre a música brasileira. A proposta da narrativa foi passear apenas pela história do carnaval no Rio de Janeiro, passando pelas grandes sociedades, o lendário Zé Pereira, os ranchos, blocos e cordões.

A parte plástica contou com muito requinte e luxo, apesar das alegorias não apostarem em uma grande volumetria, e sim em um aspecto mais cênico, pouco usual nos desfiles. A tradicional águia se vestiu especialmente para a apresentação, ganhando máscara e chapéu carnavalescos e um lindo ginzo no bico. O lirismo dessa junção tornou uma das mais belas aparições do símbolo portelense.

A apresentação foi coroada pelo grande samba composto por Noca da Portela, Colombo e Gelson, na interpretação memorável de Rixxa. A Portela saiu como favorita daquele ano, mas mas acabou perdendo para a Imperatriz, e sua já comentada era de ouro no casamento com Rosa Magalhães. O segundo lugar, a melhor posição da azul e branco até o desjejum de 2017, ainda machuca uma série de torcedores da escola.


“Das arquibancadas ao Camarote Número Um ‘Grande Rio’ de emoção na apoteose do seu coração” – Grande Rio 2010




Patrocinada por um camarote de cervejaria que controlava grande parte da área de elite da Marquês de Sapucaí, a Grande Rio promoveu uma homenagem à história do Sambódromo do Rio e de seus grandes carnavais em função do aniversário de 25 anos da inauguração da avenida. Para isso, o carnavalesco Cahê Rodrigues não só exaltou os grandes nomes da folia carioca, mas também os que ajudavam (ou ajudam) na realização da festa. Desde os funcionários de barracão até Oscar Niemeyer – que projetou esse marco arquitetônico da cidade – e Darcy Ribeiro – que dá nome à passarela e foi incentivador de sua construção durante o mandato do aliado e amigo Leonel Brizola, então governador do estado.

Como já mencionado, personagens que fizeram história foram lembrados, como Jamelão, Max Lopes, Fernando Pinto e demais carnavalescos, assim como diversos pavilhões e símbolos das principais agremiações do Rio de Janeiro. A narrativa abusou de imagens e momentos emocionantes repletos de simbologia que a Sapucaí presenciou a longo de sua história. Foi marcante também a última passagem de Joãosinho Trinta como folião do carnaval, sendo destaque do carro sobre o lendário “Ratos e urubus”. Desfiles marcantes, como Ita e Kizomba, até marcas contemporâneas, como o famoso carro do DNA de Paulo Barros, foram lembrados, criando referências de força cultural e comunicação com o público que garantiram o sucesso da apresentação. A Grande Rio conquistou um especial segundo lugar, logo atrás do campeão “É Segredo”, da Unidos da Tijuca.


“Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” – Mangueira 2018




Encerrando essa nostálgica e deliciosa viagem pela folia por meio da folia, o carnaval de 2018 também foi marcado pelo uso da metalinguagem. Comandado pelo talentoso Leandro Vieira, a Mangueira se inspirou em uma marchinha da década de 1940 e proporcionou um dos melhores temas do ano, repleto do tom crítico que permeou diversos momentos da Marquês de Sapucaí em 2018. O carnavalesco se motivou com as discussões proporcionadas pelo demagógico corte do repasse de verbas municipais promovido pelo bispo Marcelo Crivella e resolveu realizar uma exaltação da essência do carnaval, suas raízes, sua felicidade e folia e tudo aquilo que o faz relevante para a sociedade.

Foi nesse sentido que o enredo flertou de maneira constante com o tom anárquico e liberto do carnaval de rua, e a Mangueira desfilou repleta de componentes de blocos, arrastões e demais signos que transcendem ao teor utilitário e empresarial que muitas vezes limitam o carnaval. Foram lembrados, no decorrer da apresentação, o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça, os saberes dos bares, roupas de cetim barato e a origem dos desfiles das agremiações no centro do rio, assim como colombinas sem posses, pierrôs em desalinhos e diversos outros símbolos carnavalescos. O excelente enredo proporcionou para a agremiação o Estandarte de Ouro do quesito e auxiliou na conquista do quinto lugar, que deixou um gostinho de quero-mais para os torcedores e membros da verde-rosa.


"Entra, canta, gira, roda  
Que o barracão agora é teu
Carnaval é minha moda  
Todo ano o rei sou eu"

Para terminar, deixamos essa obra-prima do Arranco do Engenho de Dentro, de 1991 no grupo de acesso, que é pouco conhecida mas narra as dificuldades e bastidores da construção de um desfile com maestria. É uma forma de nos despedimos com alegria dessa temporada aqui no site.

Antes dos leitores sugerirem outras apresentações, a gente admite a dificuldade de conceber uma lista como essa! Fizemos uma seleção especial que passou por diferentes agremiações e décadas dos desfiles das escolas de samba. Não foi nada fácil largar apresentações e obras cativante no processo. Mas como a série é sobre os enredos, optamos pelos que tinham as narrativas e apresentações mais emblemáticas, deixando de lado clássicos como "Para tudo se acabar na quarta-feira". Esse e mais sambas sobre o carnaval você encontra na playlist abaixo, especialmente realizada nessa pegada metalinguística que encerrou a #SérieEnredos! Até a próxima!

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Desfile das Campeãs

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