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Carnavalize



Uma escola inovadora, vanguardista, acusada de perder as raízes do carnaval, que promovia verdadeiros espetáculos fazendo alguns sambistas virarem o nariz. Poderia ser a Tijuca dos anos 2000, a Mocidade dos anos 90, a Beija-Flor dos anos 80. Mas é a Vizinha Faladeira, nos longínquos anos de 1930. Dona de um campeonato e de posições honrosas nos primeiros desfiles organizados, a Vizinha se consagrou como uma verdadeira protagonista dos primeiros concursos entre escolas de samba, rivalizando com a Portela o título de maior escola de sua época. O resultado da briga já podemos imaginar, já que uma ganhou vinte e um títulos e a outra enrolou a bandeira em 1940. Uma disputa icônica que hoje vamos contar um pouco na Carnavapólis. Na nossa cidade, a Vizinha ocupa um terreno de luxo num bairro nobre do samba.

O surgimento das escolas de samba é algo controverso e cheio de polêmicos. Pouco se sabe por exemplo da origem do termo, a clássica versão de Ismael Silva é altamente questionável, visto que o termo já aparece em 1925 no conto “A morte da porta estandarte”, de Anibal Machado, e a fundação da Deixa Falar aconteceu três anos depois, em 28. O fato é que as escolas tem seu primeiro concurso organizado em 1932, pelo jornal Mundo Esportivo, e logo dois anos já são oficializadas e possuem sua entidade reguladora. Num contexto em que elas ainda buscavam definir quem eram, a Vizinha se tornaria uma verdadeira rebelde, disposta a questionar e testar os mais diferentes formatos. Se opondo as regras estabelecidas e propondo diversas novidades, se tornando mal vista por suas concorrentes e exemplo do que uma escola de samba não deveria ser.

Fundada em 1932, no bairro da Saúde, a Vizinha Faladeira é a única representante da zona portuária carioca, região que viu nascer o samba em seus terreiros, sendo uma das primeiras escolas de samba da cidade. O nome curioso teria sido uma "homenagem" às duas fofoqueiras do bairro que ficavam da sua janela tomando conta dos sambistas. Sua ostentação visual numa época em que os aspectos mais valorizados eram o ritmo, lhe rendeu o maravilhoso apelido de "Vizinha Rica", fazendo os "verdadeiros" sambistas torcerem o nariz para a escola "diferentona".

Os desfiles na Praça Onze eram marcados por sua simplicidade e exaltados por seus aspectos musicais. Não havia ainda um desfile em cortejo, as escolas concentravam na Praça Onze e iam se apresentando para os jurados em cima de um tablado, onde cantavam sambas que não necessariamente tinham a ver com as fantasias e enredos que apresentavam. A Vizinha balançou as apresentações, propondo uma série de inovações.

Em 1933, no segundo concurso das agremiações, realizado pelo jornal "O Globo", a escola foi desclassificada por apresentar o que pode ser considerada a primeira comissão de frente da história, formada por automóveis abertos de luxo. A comissão já era quesito naquela época dos desfiles dos ranchos, vistos como espetacularizados e elitizados, mas era novidade para as escolas. No ano seguinte, mais novidades, cumprindo o pedido de não usar carros, a Vizinha teve uma ideia bem básica, e substituiu os veículos de rodas por cavalos. Mas a ousadia não parou por aí, ela iluminou ainda mais a Praça Onze usando luzes em seu desfile quase setenta anos antes da moda do led. O desfile tinha a assinatura dos cenógrafos Irmãos Garrido que ficaram responsáveis pelo visual. Era a primeira vez que se contratava artistas de fora para ocupar tal função.

No primeiro desfile oficial, em 1935, a escola seguiu com suas ousadias, com fantasias feitas de lamê e veludos, tecidos caros para a época. Dois anos depois se sagraria a grande campeã do carnaval com mais um espetáculo, intitulado “Uma bandeira só”. Aberto por um automóvel, seguido por seis homens fantasiados e montados a cavalo. À frente da bateria, um grupo de músicos, quase uma orquestra completa. As fantasias eram luxuosas e resistentes à chuva que castigou na hora da apresentação. A vitória foi indigesta para as concorrentes que reivindicaram que a escola havia desrespeitado as "tradições". A Vizinha não estava dentro da proposta de uma forma de carnaval ligada ao ritmo negro do samba com apresentações singelas, que se opusessem  aos desfiles dos ranchos e grandes sociedades, que ocupavam o protagonismo da folia com desfiles realmente grandiosos e luxuosos. A agremiação da zona portuária usava elementos exatamente destes carnavais.


Em 1939 ocorreria um dos episódios mais icônicos da história, a Vizinha desfilaria com “Branca de Neve e os sete anões”, o enredo sobre o recém lançado desenho da Disney seria visto como tema estrangeiro e a escola seria desclassificada. O desfile foi algo espetacular pra época, com 400 integrantes, comissão de frente trajando terno de flanela e polainas, bateria fantasiada, carro alegórico com luzes e crianças vestidas de anões em volta da Branca de Neve. A desclassificação seria uma polêmica e tanto. O fato foi que houve uma confusão com a entidade organizadora da festa que não liberou o regulamento oficial até o dia do desfile. Com as regras do ano anterior não citava a proibição de temas estrangeiros, a Vizinha argumentou que havia se baseado nele. Mas as rivais já não viam a agremiação com bons olhos se aproveitaram do fato para desclassifica-la. Acusando de fazer o carnaval perder sua essência nacional.

Revoltada com o fato, a agremiação da zona portuária iria fazer um grande protesto no desfile de 1940. Com o enredo “Carnaval para o povo”, ela passaria por trás da comissão julgadora, dando as costas e se virando para o público e abrindo a faixa dizendo “Devido às marmeladas, adeus carnaval. Um dia voltaremos.” E voltaram quase 50 anos depois, em 89. Hoje, a Vizinha Rica está em plena ascensão nos grupos da Intendente Magalhães.



*Texto baseado no artigo "Incômoda Vizinhança", de Felipe Ferreira e Gabriel Turano. E na dissertação "Devido às marmeladas, adeus carnaval. Um dia voltaremos: escola de samba e cultura popular no Rio de Janeiro dos anos 19130", de Gabriel Turano. Ambos disponíveis online.


Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, cursa História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.



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por Leonardo Antan


O Rio de Janeiro é marcado por desigualdades. As favelas surgidas em meio a bairros nobres já se tornaram imagens icônicas que representam uma cidade partida. O desfile das escolas de samba, como reflexo do lugar no qual habitam, refletem muito bem tais contradições. Se a antítese "morro e asfalto" já se tornou icônica no imaginário carioca, no carnaval, podemos falar numa dicotomia que possuí o mesmo efeito: "Sapucaí e Intendente", os dois lados da folia carioca.

A 'prima rica' é dona de um palco só dela e atraí todos os olhares dos sambistas apaixonados e turistas, com camarotes lotados de celebridades, desfiles transmitidos ao vivo para o mundo todo, alegorias impactantes e está cravada numa das principais vias da cidade... Longe dali, no coração do subúrbio, a outro 'prima' tem uma vida sofrida, com estrutura precária, uma série de dificuldades, escolas que desfilam singelas e lutam para se manter em pé. O que poucos sabem é que uma tem muito a aprender com a outra... 

Apesar de ter seu próprio palco, a 'rica' ainda sofre. Ela também tem suas dificuldades, um entorno bem perigoso e de difícil acesso, um viaduto que insiste em atrapalhar, uma má valorização da mídia e pessoas que a acusam de ter se 'espetacularizado' demais. Um público distante e frio, cinza como as arquibancadas de concreto. Já a 'pobrezinha', não é tão coitada como pensam. Apesar da situação difícil, as escolas dão um exemplo verdadeiro de como é ser brasileiro e superar as dificuldades. Apesar da falta de estrutura, muitas escolas dão um show de samba no pé, animação e simplicidade. Fazendo balançar as arquibancadas de metal bem próximas a passarela. Muitos dizem que a Intendente inveja a prima rica, mas não seria a esnobe que teria que descer do salto e aprender um pouco com a pobreza?

A dona Sapucaí recebe cifras milionárias de governo público, televisão, patrocínio... Mas quem sabe poderia perder alguns cifrões para aprender a valorizar quem dá seu sangue por ela. Poderosa, conta com uma Cidade só dela, com verdadeiras fábricas carnavalescas. E a outra tem só um barracão pra todo mundo, sem estrutura ou segurança, que abriga escolas de quatros grupos diferentes, uma do lado da outra, trocando esculturas, emprestando um soldador... Uma típica família suburbana que vive no mesmo quintal.

Muitas são as histórias por trás das dificuldades na Intendente: fiação que atrapalha fazendo os destaques dos carros terem que se abaixar durante o desfile, componentes garimpados ali mesmo na concentração, dificuldades financeiras e administrativas. Alguns tormentos que a 'rica' conhece muito bem.

Duas primas com muito mais semelhanças do que se pensa. Duas faces da mesma moeda, que tem muito a aprender uma com outra. Não há coitadismo. Uma não é 'verdadeiro' lugar onde o samba resiste e a outra não é só palco de desfiles gigantescos. As duas guardam seu lado rico e pobre. São populares em seu íntimo. Expressões máximas de um mesmo carnaval, de uma mesma gente. Duas sabedorias que devem ser compartilhadas e somadas. Uma diferença que precisa ser minimizada e repensada. Assim como morro e asfalto. Intendente e Sapucaí.



Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, cursa História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.
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Olha quem voltou? Pois é! estava sumida mas agora estou de volta e com uma nova entrevista babadeira para o Carnavalize!

Saindo um pouco dos carnavalescos, decidi ir atrás de outros artistas que fazem o carnaval. Pensei então em entrevistar alguma porta-bandeira da folia paulistana. Como faço um curso de porta-bandeira na Vila Maria, com Lais Moreira - sim, eu faço. Nova Selminha Sorriso define - aproveitaria para, além de entrevistar, conseguir algumas dicas de quem já tá por aí rodando - literalmente - por anos e anos. Mas, quem? Poxa, olha o tanto de portas-bandeiras talentosas que o carnaval paulistano tem. Não sabia quem Pensei bem, e resolvi não começar pelas já consagradas do quesito aqui de Sampa, mas sim por quem ainda não era tão conhecida. Falo isso por mim mesma: eu não conhecia Waleska até ela ser apresentada como 1ª porta-bandeira da Tucuruvi - escola que passei a admirar muito, pois é lá que um do meus grandes ídolos, como vocês sabem, Wagner Santos trabalha. Logo depois que a conheci, após seu anúncio, comecei a acompanhar as redes sociais dela. Isso desde que ela foi apresentada na escola até os dias de hoje. Como eu já estava simpatizando muito com a figura, não tive dúvidas de que deveria ser com ela essa entrevista.

Fui então conversar com a Waleska. Gente, que doce de menina. Sério. Falei, ela leu e logo topou. Sem titubear. Pra minha surpresa ela ainda disse que já nos conhecia e nos adorava. Elogiou o modo que tratamos o carnaval, com mais humor e zoação. Ela AMA os nossos gifs - modéstia parte, são ótimos mesmo, né? Chora concorrência! Enfim, já ali eu estava muito certa de que acertei em cheio na escolha.

Como moramos em Guarulhos, marcamos na cidade mesmo, num parque. Encontrei com ela e a simpatia e o carisma daquela menina eram gritantes. Fiquei mais encantada ainda. Antes de começar a entrevista, batemos um papo sobre o carnaval e o meu curso e me senti muito confortável ao conversar com ela. Não fiquei nervosa, ansiosa e isso influenciou para fazer uma excelente entrevista!

A entrevista foi muito descontraída e legal de fazer, como não conhecia muito sobre sua história no mundo do carnaval, foi muito interessante saber como a Waleska começou, como ela se encantou pela arte da porta-bandeira e por quais agremiações passou. E também teve aquele momento de porta-bandeira para porta-bandeira, que sem dúvidas levarei para sempre as suas palavras como fonte de força para nunca desistir.



Waleska parece que tem o dom de brilhar, porque a entrevista, vídeo e fotos foram fáceis de fazer. Ela tem uma luz própria e consegue chamar atenção por onde passa, além de ser linda, é muito comunicativa e sempre está conversando. De sobra apareci no snapchat dela - divulguei o Carnavalize, porquê não perco um jabá dos bons - e a convidei para conhecer o projeto Mulekada da Vila, onde tem o curso de mestre-sala e porta-bandeira mirim.





Antes de nos despedir, ela disse que se precisasse de qualquer coisa era só chamar, pois estava disposta a nos ajudar! Um amor né? Fui embora muito feliz de ter conhecido uma porta-bandeira tão simpática e talentosa como a Waleska Gomes e ter aprendido um pouco mais com ela. Além disso, animada e ansiosa para que vocês também à conhecesse melhor e se encantassem também.


Ouça a entrevista na íntegra abaixo:



Bom gente, estou meio sumida por conta da faculdade, mas quando vocês menos esperarem eu apareço com uma nova entrevista. Aqui é assim, eu mostro que babado é esse de samba no pé jornalismo amador. A quase repórter fica por aqui. Beaj!

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por Leonardo Antan



A lista de melhores sambas-enredos de todos os tempos é gigante. Sempre difícil apontar qual o maior hino da história carnavalesca. Não faltaram poetas que nos brindaram com verdadeiras obras-primas dotados de muita beleza e lirismo. Mas a cada ano, novos sambas surgem e muitos deles são esquecidos facilmente. Os mais belos recebem diversões premiações e troféus. Mas além deles, um ou outro também entra para a memória do sambista, não exatamente por sua riqueza melódica... Quer dizer, talvez exatamente por ela... pela falta dela, quero dizer.

Justamente pela falta de qualidades, um samba pode permanecer no imaginário carnavalesco. Hoje, na estreia do nosso top 7, vamos fazer uma antologia dos piores sambas que já passaram pela Sapucaí e nunca mais saíram do nosso imaginário. Alguns a gente ama odiar e outros possuem tantos versos inesquecíveis que a gente acaba amando mesmo. Venha conferir:





7 - Rocinha 2014 - Do paraíso sonhado, um sonho realizado. Sorria, a Rocinha chegou à Barra



Geralmente um samba de qualidade questionável acompanha um desfile também não muito bom, foi o que aconteceu com a Rocinha em 2014. Depois de apresentações leves e bem divertidas, a borboleta tentou manter a mesma pegada num enredo sobre a Barra da Tijuca, mas a tragédia já estava anunciada desde a escolha do tema.

O trilha sonora do desfile tenta vender esse grande bairro como um verdadeiro paraíso. E os cariocas sabem que de paraíso ele não tem nada. Talvez valesse uma menção a distância que o bairro tem de qualquer lugar. Mas a letra começa com a bela frase "Vou transpor o túnel e me encantar"... Encantar? Na Barra? Só se for com os milhões de shoppings, os únicos atrativos do lugar. A genialidade não acaba por aí se segue com pérolas como "Barra... recebe o mundo soberana / Dá esse orgulho a quem te ama". Terminando com um refrão animado que junta Rock com samba. Péssimo, mas divertidíssimo. Uma pérola trash.


Frase memorável:




6 - Vila Rica 1995 - Deu pano pra manga




Alguém falou em pérola trash? Sim e não podemos esquecer esta verdadeira joia rara, que de tão trash já virou um "cult" do carnaval. Nos 1990, algumas escolas pequenas deram uma passeada no Especial e nos brindaram com desfiles memoráveis. A mais notária dessas foi a participação da então recém-criada Unidos da Villa Rica. Bloco carnavalesco de Copacabana transformado em escola em 1990 que em apenas cinco anos de existência conseguiu chegar no grupo principal. 

Recebendo a difícil missão de encerrar os desfiles de segunda, a novata brindou com uma apresentação pra lá de conceitual com toques renascentistas e barrocos, que parecem mais sensíveis ao olhos do grande público. O enredo falava sobre "tecidos" e o samba curtinho tinha um refrão animado e inspirado. A primeira frase já trazia impacto com "Tecendo nas malhas do tempo", o ritmo seguia trazendo palavras que agregavam um valor a composição como entrelaçar e rudimentar, mas finalizava essa primeira parte com a brilhante rima entre amor e flor. O destaque final fica para a citação ao uso do jeans. Um verdadeiro clássico.

Frase memorável:




5 - Mocidade 2004 - Não Corra, Não Mate, Não Morra - Pegue Carona Com a Mocidade! Educação No Trânsito



Outra escola que encerrou o carnaval e entrou pros anais de sambas infames, foi a Mocidade Independente. Até o ano anterior (2003), a estrela era uma das grandes escolas da época, figurinha fácil nas campeãs e dona de três campeonatos na década passada. Mas o ano de 2004, entrou pra história da agremiação marcando o início de uma crise que dura até hoje. Lá se vão doze anos que a escola não consegue uma vaga entre as seis primeiras.

Essa crise não poderia ter começado com um hino melhor, quero dizer pior. Num enredo social, a Mocidade buscava fazer um alerta sobre educação no trânsito. Com a difícil missão de musicar uma verdadeira cartilha de trânsito, os compositores nos brindaram com frases motivacionais e tentaram deixar mais leve um assunto muito sério, como na frase "Um descuido é fatal". Na segunda parte, a letra tentava um apelo mais emocional, exaltando a vida, com o memorável trecho "A vida é um presente / Chegou a hora de mudar / Sai desse "pega" moleque / Pisa no breque / Tem alguém a te esperar". Uma aula de cidadania, não de samba. 

Frase memorável:



4 - Salgueiro 2015 - Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí



Um clássico recente, mas não menos memorável. A vermelho e branco da Tijuca sempre nos brindou com verdadeiros hinos do nosso carnaval, mas há dois anos também nos deu de "presente" o samba que mais gerou piadas no mundo carnavalesco. Apesar de ter funcionado na avenida, nunca esqueceremos essa obra que nós fez apertar tantas vezes o botão de "próximo" quando ouvíamos o CD daquele ano.

Uma trilha sonora que fugiu a regra de que samba ruim, gera desfile ruim. Se a música não era das mais inspiradas, os carnavalescos da Academia fizeram um dos seus trabalhos mais bonitos dos últimos anos, com alegorias lindíssimas que não foram o suficiente pra nós fazer esquecer frases como "Da fome nasce a criatividade". (??? Oi?) Foram vários memes divertidíssimos gerando até o apelido da presidenta da agremiação Regina Celi, a nossa eterna Sinhá.

Frase memorável:



3 -  Beija-Flor 2014 - O astro iluminado da comunicação brasileira




Outro hino que fez história nos últimos anos, foi o sonífero grande samba da Soberana de Nilópolis que homenageou José Bonifácio, nosso eterno Boniiiiiii. Um hino nascido de um enredo rocambolesco, que ao invés de falar do homenageado resolveu contar toda a história da comunicação desde os povos antigos. Era tanta informação que faltou setor no desfile e teve que ser condessado em poucas estrofes pelos compositores. Como essa raça sofre na mão dos carnavalescos "genais", viu.

Surgiram daí pérolas inesquecíveis, como os versos "Sonhar o sonho de um sonhador" e "Mostra, que babado é esse de samba no pé". O samba se arrastou na avenida, num desfile digno de troféu Ortobom que acabou dando a agremiação a sua pior posição nas últimas décadas, um justo sétimo lugar.

Frase memorável:



2 - Porto da Pedra 2012 - Da seiva materna ao equilíbrio da vida




Exemplo máximo de como a cultura de enredos patrocinados pode ser nociva para as escolas, o eterno "Iogurte" da Porto da Pedra azedou na Sapucaí. (Piada velha, mas irresistível) A difícil missão de transformar o laticínio em enredo acabou custando a escola de São Gonçalo seu lugar no especial, que ela vinha conseguindo manter por quase uma década.

Não sabemos qual foi ao certo o iogurte que a Porto homenageou, mas a julgar pelo samba é bem provável ser Activia. Mas a verdade é que a canção teve a difícil missão de dar conta da salada que era o enredo que passava por Roma, Grécia, Tigres e Mercadantes. Não bastando isso, a letra ainda tinha que "vender o produto", fazendo mais parecer um jingle publicitário com as frases "Leveza, o equilíbrio se traduz em beleza / Do dia a dia me refaz / Iogurte é leite, tem saúde e muito mais." 


Frase memorável:



1 - Unidos da Tijuca 1986 - Cama, mesa e banho de gato



Muitos afirmam ser o pior samba que a Sapucaí já viu... Mas assim como o título de melhor de todos, o de pior é ainda mais concorrido. Nós não afirmamos, mas também não negamos. Mas poucas obras reuniram tantas qualidades enojáveis numa única letra. Destilando machismo, homofobia, infidelidade e outras coisas mais.


Vale uma contextuação geral, já que o ano era 1986. O primeiro carnaval após vinte anos de ditadura militar e as escolas gozavam de uma liberdade nunca antes experimentada, de criticar e falar dos temas mais inusitados. Foi nessa onda que surgiu a ideia da Unidos da Tijuca de falar dos setes pecados capitais, mas o samba acabou focando mais na luxúria. Mesmo de qualidade questionável, esta obra-prima conta com uma irreverência e sagacidade geniais que são quase impossíveis de não arrancar algumas risadinhas na primeira ouvida.

É tanta frase memorável, que decidimos emoldurar esse samba inteiro. Ouça acompanhando a letra.




O nosso 7x1 Carnavalize fica por aqui, a gente sempre espera que vocês tenham se divertido com a gente, em breve novas listas. Saravá!





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Não é de hoje que eu digo que a dispersão é meu lugar cativo na Marquês de Sapucaí e será nela d'onde tirarei a inspiração e, de fato, as memórias que escreverei. É na dispersão que todo o trabalho, ano, desfile é levado ao êxito - no caso de um baita desfile. Mas também às lágrimas, quando alguma coisa não sai como o esperado. Essas, aliás, serão muito citadas por aqui hoje. Já vou parando com a enrolação, hoje vou falar sobre a escola que mexe com o âmago de qualquer um, costumo dizer que não existe um "carioca" (as aspas pois considero todos cariocas por amarem tanto quanto nós o maior espetáculo de nossa cidade, do país e DO MUNDO) que o coração bata mais forte quando escute um dos, e olha que não são poucos, hinos da azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira. Não há. Garanto-lhes.

Já ficou claro que falarei da tradição, da maior campeã de todos os tempos, da nossa Águia altaneira. "Tá bom, Vitor, já pode parar com a enrolação". Ok, perdoem-me, mas é que "se eu for falar da Portela não vou terminar". Eu tenho azul e branco no coração e, cada vez mais, sinto que é a segunda escola dele. Sim, já enrolei muito, vamos ao que interessa! Já ficou claro pelo título que vamos falar de 2016, né? Não!? Vish... Assim que foi anunciada a contratação do genial Paulo Barros para comandar o carnaval portelense nesse ano, eclodiram dúvidas de como seria esse casamento. Até eu fiquei meio receoso - admito. O transgressor, inovador, badalado carnavalesco estava indo para nada mais nada menos que a Majestade do Samba, onde o ar exala tradição, onde não se tolerava um pingo fora dos "îs".

Não estou aqui para falar do pré-carnaval. Vamos aos desfile, em si, conquanto não esteja pra falar principalmente dele também. Sobre o casamento de Paulo Barros e Majestade do Samba, deixo para quem tem mais autoridade que eu quando se trata de Portela. Soou a sirene da Sapucaí e iniciara o desfile da azul e branco, de cara veio aquela polêmica, mas grandiosa comissão de frente, aquele elemento que mais parecia um abre-alas de causar inveja em certas escolas... O desfile da Portela, em si, dispensa comentários, foi um show. Por mais que em algumas alegorias houvesse reciclagens de ideias, foi um show. Até as criticadas baianas, davam um interessante visual ao evoluírem. O navio que balançava. O "Gulliver", que mesmo não tão bonito visualmente, impressionava. Os dinossauros comendo as menininhas, a briga pelo Eldorado. Até a Águia bem peculiar, ao meu gosto, não tira a magia desse desfile fantástico para mim. Que senão venceu, deveria estar em segundo lugar na apuração. Isso, todavia, não vem ao caso, já passou. 


O desfile passara pelo módulo 3, onde eu estava, e fui correndo pra dispersão, não poderia perder a saída do meu desfile, até então, predileto do carnaval 2016. Chegando lá, ainda falta bastante escola pra passar, uns 20 minutos se me lembro. Aquele ótimo samba era cantado tão alto por aquelas arquibancadas mais recuadas que até um desses críticos ao carnaval, apaixonar-se-ião. Era lindo, foi lindo. Aliás, é lindo. Pois não esquecerei nunca o que foi a dispersão naquele dia. Os dirigentes choravam, mas choravam de molhar a pista mais até do que aquele infame Posseidon - perdoe-me a piada. Eles se olhavam, abraçavam-se e a única coisa que se ouvia era "Chegou nossa vez". Não haveria algum maluco que ousasse a discordar. Era emocionante até pra mim que não sou "diretamente portelense". Eu que estava com minha camisa de linho e meu chapéu Panamá - pelo enredo salgueirense - aproveitei para me infiltrar, os diretores estavam com roupas que lembravam, até certo ponto, a minha. Agradecia e parabenizava a todos que passavam por mim. "Belo desfile, meu irmão". "Chegou nossa vez!". E acho que nunca senti emoção parecida com a que pulsava em meu peito igual aqueles minutos - me arrepio, só de lembrar cada abraço caloroso e intenso que recebia de diversos integrantes... De baianas a ritmista. Dos diretores às passistas! Foi fantástico e único.


As arquibancadas àquela altura já estavam enlouquecidas e começavam a gritar "É campeã... É campeã!" ao aproximar do batuque inconfundível que só a Tabajara do Samba possui. Cantando em plenos pulmões o sambaço da azul e branco ia moldando um filme que nunca esquecerei. E eu? Eu já nem voz mais tinha, mas ainda estava por lá, não sairia de um dos momentos mais mágicos que presenciei no carnaval assim tão facilmente. Aos poucos, o mar azul e branco se dispersava, e eu que voltava pro setor 8 onde estava, pensava "É... Finalmente acabará o jejum de Oswaldo Cruz e Madureira", não há quem discordasse àquela altura, mas aí veio a Menina dos olhos de Oyá e todos já sabemos o que aconteceu... Enquanto vinte e uma estrelas brilharem em meu olhar, eu, em toda minha vida, estou fadado a lhe amar! Salve a Portela, salve a Águia altaneira de Oswaldo Cruz e Madureira!


Espero que gostem desse relato de um dos momentos mais mágicos que vivi, tomara que tenha conseguido sintetizar o mix de sentimentos e lembranças que me passaram pela cabeça. O vídeo abaixo foi gravado por mim no momento que a Tabajara chegava à dispersão. O som está meio estourado (até hoje não sei o porquê), mas ainda dá pra ouvir as arquibancadas saudando a Majestade com os gritos de "É campeã!".










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