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Carnavalize

Já parou pra pensar no quanto se lutou para acordar num simples domingo como esse e, em poucos segundos, exercer o maior direito que a democracia nos concede? Não!? E parar pra pensar na voz e participação que o carnaval teve nisso tudo? Ditadura, democracia... Corrupção. Ahn! Também não? Nessa final de semana especial, a "Carnavápolis", do Léo Antan, e a "Sambalizando", do Vitor Melo, se uniram para contar um pouco dessa história. 

                               

Até hoje você não sabe o porquê da proibição de qualquer instrumento de sopro nas baterias ou o motivo da obrigatoriedade das divinas baianas das escolas? Simples. Herança. - Mas herança? Como assim? Desde de seu começo, o samba, em si, tinha como principal objetivo o cultivo às suas origens, sua raiz. Ressaltar a cultura negra, valorizar seu batuque, suas influências. E era necessário, afinal o samba era tido como um ritmo negro marginalizado. 

Como o sambista não é bobo nem nada, para conseguir se manter no cenário nacional e, de fato, sobreviver; cada vez mais, as escolas assumem seu lado negociador, que as mantém vivas até hoje. As agremiações foram se adequando nos mais diferentes períodos e assim sobrevivendo. Na Era Vargas, por exemplo, os enredos patrióticos serviam para construir e fortalecer a ideia nacionalista tão forte no governo vigente - todo aquela concepção ufanista. A Majestade do Samba, nossa tão querida Portela - diversas vezes campeã nessa época - era a escola que melhor sintetizava essa fase histórica, sempre exaltando a tão querida pátria. Cantavam-se heróis brancos, as roupas eram de nobres, mas o ritmo e a força do tambor não escondiam a negritude da festa. 




E numa reviravolta da cor, o divisor de águas dessa tentativa de "enbraquecimento" só veio com o Quilombo dos Palmares salgueirense e mestre de todos nós, Fernando Pamplona. Professor universitário, de esquerda, participante dos centros de culturas populares, o também cenógrafo trouxe sua ideologia através de figuras não tão conhecidas da história brasileira à época como Zumbi, Xica da Silva, Chico Rei. O canto do negro ecoava na essência e na aparência. Numa voz só.

Com o golpe de 1964, as escolas se dividiram, como toda a sociedade. De um lado, a força e a coragem do Império Serrano em 1969 ao cantar os "Heróis da Liberdade" clamando em seu samba "A revolução em sua legítima razão". A censura torceu o nariz e a palavra revolução deve que ser trocada por evolução, mas que não escondeu o caráter político do samba. Coincidentemente, durante o desfile, aviões da força aérea sobrevoaram todo o cortejo da Serrinha numa tentativa de calar a escola.



Enquanto do outro lado, assim como nas primeiras décadas da folia, exaltar o opressor se tornou uma possibilidade em busca da afirmação. Foi cantando o regime, que a Beija-Flor em 1973 conseguiu a ascensão ao grupo principal da folia, onde está hoje. Nos anos seguintes, com o "Grande decênio" e "Brasil anos 2000", a apologia continuou nos versos; "Quem viver verá/Nossa terra diferente/A ordem do progresso/Empurra o Brasil pra frente", "Sim, chegou a hora/Da passarela conhecer/A ideia do artista/Imaginando o que vai acontecer/No Brasil no ano 2000".

Nem tudo eram flores, mas em 1980 a ditadura estava mais aberta ao diálogo e surgiam os prenúncios de um anseio político: ANISTIA! O grito das ruas foi para a avenida através do gênio Fernando Pinto no enredo "Tropicália Maravilha", pela Mocidade Independente de Padre Miguel, que além de todo o movimento tropicalista também tocava na volta dos presos políticos exilados. Ai de mim que mal sonhava... Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado, o sonho de um sonho magnetizado. As mentes abertas, sem bicos calados, juventude alerta. Os seres alados. Sonho meu... Eu sonhava que sonhava, sonhei... Ainda que não diretamente e com certo receio, a Vila, em 1980, também já falava sobre o regime ditocrático e por todo anseio à liberdade. Todos queriam sonhar esse sonho de um país democrático. 




A década de 1980 seguiu e com ela veio o grito: "Diretas já"! Com a redemocratização, a política entrou em cena mais do que nunca nos desfiles. Já consolidadas como grande espetáculo e sem a necessidade de se firmar, as escolas deixaram de lado a postura subserviente e colocaram a boca no trombone. O pioneiro não podia ser diferente, considerado o mestre da crítica carnavalesca, Luiz Fernando Reis, foi o primeiro a tratar da ditadura explictamente numa alegoria em 1984. Aliás, ficou conhecida por essa vertente crítica juntamente com a São Clemente, conquanto, essa bem menos debochada e mais "sisuda" do que a primeira era. "




E por falar em Saudade..., a saudade do tempo em que se diretamente escolhia o presidente, foi um desfile divisor de águas, consagrado por público e crítica, foi o verdadeiro lançador de tendências para o ano seguinte. Com um novo sol a brilhar, como cantava a irreverente Caprichosos em seu enredo contra o imperialismo americano, 1986 foi o ano de gozar a liberdade com o fim da opressão. Quase todas escolas cantaram diretamente o novo cenário, ou faziam alguma citação em sua letra. A liberdade era tanta que numa antípoda ideológica, usufruindo de toda sua liberdade de expressão veio a Unidos da Tijuca com "Cama, mesa e banho de gato". Quando se imaginaria um enredo desses durante o regime? Incogitável. 

Para brindar a década mais política e contestadora do carnaval, onde as escolas nunca estiveram tão em ressonância com a vontade popular, 1989 foi marcado por uma disputa que de certa maneira sintetizava o passado e presente do carnaval. De um lado, a história didática e polida de "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós", que sintetizava todo o lado oficial que a festa sempre teve. Do outro, numa atitude revolucionária, toda a podridão das estranhas do Brasil em "Ratos e urubus larguem minha fantasia", nas mãos de Joãosinho Trinta e da Beija-Flor que antes havia louvado a ditadura, mostrando com o jogo tinha virado. Infelizmente, a oficialidade venceu, mas ainda ecoava naquele o ano o grito pelos direitos na Vila Isabel, fechando com chave de ouro um período histórico da nossa folia. "Direito é direito, está na declaração. A humanidade é quem tem razão..."




"Gip, gip, nheco, nheco... Por favor não apague a luz! Goze desta liberdade nos braços da Santa Cruz". Em 1990, a Santa Cruz também cantou (ou contou) "Os Heróis da Resistência" em um de seus sambas mais conhecidos, a escola relembrava o Pasquim, jornal alternativo que fazia oposição ao duro regime. Nas últimas duas décadas, política e carnaval pareceram se distanciar. O grito forte se perdeu e mesmo com novos cenários e escândalos, as agremiações voltaram a mostrar seu lado mais negociador. Embora já vivermos em um regime totalmente democrático e liberto, não se vê tantos enredos com esses ofícios. Alguns, esporadicamente, pipocam por aí, mas nada com tanta força.

Não estamos aqui para fazer um relato que abranja todo o contexto histórico-político que o carnaval vivenciou, cantou ou passou. A política no carnaval não se manifesta apenas em enredos que falem abertamente dos nossos governantes e seus anseios. Todos os desfiles são políticos e falam de seu contexto. Tudo em nossa vida é política. Por isso, a importância de valorizar nas urnas toda a luta pela democracia, pela liberdade que foi acarretada durante tantos anos. Se a festa que nós amamos tomava seu partido e se mostrava consciente, nós também devemos. Independente de ideologia, lado ou candidato, não temos o direito, mas sim o dever de votar consciente. Pensar sempre no melhor que possa ser para nossa cidade, estado e sociedade. Consciência é a palavra fundamental. CONFIRMA. 








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Depois de dois textos que explicito alguns dos momentos mais marcantes que vivenciei na Marquês, resolvi mudar um pouco as tangentes desta coluna dominical. Dissertarei, opinarei e mais algum qualquer verbo terminado no futuro do indicativo sobre desfiles pré-escolhidos por mim (e, principalmente, por vocês). E não teria um outro desfile melhor para iniciar esses relatos que pretendo escrever. A priori, escolherei apenas este desfile e os próximos vocês escolherão, por aqui (nos comentários), no nosso Twitter ou, até mesmo, pelo nosso facebook. Tentarei passar uma visão "leiga", torcedora e singular do que vivi e senti ao lembrar dos desfiles, sempre falando de qual lugar assisti ao desfile. Esse de 2010, por exemplo, foi do termômetro da Sapucaí, o famoso Setor 1.

Foi no domingo. Domingo, isso mesmo. Foi do domingo que saiu o desfile da década, do dia que, hoje em dia, nem o carnavalesco mais medalhão quer desfilar. Pode-se dizer que só fazendo mágica, uma escola levaria neste dia, e foi isso que fez a Tijuca. Mágica, magia. Ilusão. Fez história. É inesquecível para quem estava lá como eu, quem viu pela tevê e, digo mais, foi tão incrível, que até alguém, se acompanhasse pelo rádio, não se esqueceria; Rascunharei um pouco sobre o dia de domingo, em si, até chegar a apoteose do dia (o trocadilho, perodem-no).

A tricolor insulana subira após oito longos anos injustos até voltar e permanecer no pantheon do carnaval carioca até os dias de hoje, com o enredo "Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis". E o fez, nada mais nada menos, com Rosa Magalhães, em um desfile super agradável, com fantasias e alegorias perfeitamente acabadas (como é de praxe da professora), superando, na quarta-feira de cinzas, o México vermelho e branco de Niterói - que também será lembrada aqui. Não entrarei em muitos detalhes dos desfiles que antecederam o escolhido para não alongar muito o relato. 

Após o levíssimo e alegre desfile da Ilha, que ressuscitava suas origens e principais características eternizadas em seus atemporais desfiles, veio a Imperatriz. Com o tema "Brasil de todos os Deuses", num desfile problemático, todavia, com poucos belíssimos nuances plásticos visuais. Com o gigantes carros e, um deles até acoplado, deram diversos problemas de manobras e locomoção atrapalhando demais a evolução, numa noite em que a harmonia também não foi lá essas coisas. Vale lembrar que o sambaço, meu preferido no CD - tirando o salgueirense, claro - não rendeu nem perto do esperado para aquela belíssima obra.

E lá vinha o azul pavão e amarelo ouro tijucano que escreveu o nome de Paulo Barros na história (posso falar isso, né!?). Eu, que engrossava o mar de bandeirinhas tijucanas distribuídas pelo Setor 1, já balançava anestesiado aos gritos de "É campeã!" apenas com o esquenta da Pura Cadência antes de ir pro recuo, o Setor 1 tem dessas... Risos. Uma escola, entretanto, que arrancou gritos desse tipo apenas com a bateria e a maravilhosa Dama da Máfia, Adriane Galisteu, não estava vindo para brincadeira, né!?




Eu ainda não havia participado dessa profecia em forma de coro. Admito. Àquela altura, ainda havia, em meu peito, a esperança da minha escola, também tijucana, bater o Tambor novamente e se sagrar bi-campeã! Mas... Por pouco tempo! A bateria ia indo pro recuo, e começava a entrar aquele elemento alegórico da comissão, a principio, estranho, mas intrigante. Ao fundo, já se via aquele fantástico abre-alas, a Biblioteca de Alexandria em chamas. Estava ali a iminência do momento mais fantástico que presenciaria de um desfile. O que foi aquela comissão de frente? Me lembro até hoje, olhava pra minha vó, olhava pra Marquês, pra minha vó, pra Marquês. "Tá vendo!?", "É isso mesmo!?", "Como assim?". Eles diziam no samba que meu olhar iludiriam e não é que o fizeram? Os integrantes daquela histórica comissão trocavam seus figurino seis, SEIS, S-E-I-S vezes durante a apresentação. A essa hora, o ditado popular ganhava vida e se a voz do povo é a voz de Deus, o Setor 1 acabava de sacramentar, novamente, a escola campeã de 2010.




Se aquela comissão de frente já deixou o Sambódromo pegando fogo, o abre-alas tijucano consolidou o fato, numa alegoria espetacular, o incêndio era retratado de forma incrível, dezenas de turbinas de ventilador e máquinas de fumaças davam um cenário genial. A segunda alegoria não ficava nem um pouco para trás, a alegoria representando os jardins suspensos da Babilônia contava com milhares de  mudas de plantas naturais, era linda. Ou melhor, é linda. A terceira alegoria representando os segredos da arqueologia também era bastante interessante. Outro ponto alto - o que já se torna, um tanto quanto, pleonástico ao se falar desse desfile - é o grande Cavalo de Troia. Os grandes heróis "esquiando", acho que o Homem-Aranha escalava, faz mais sentido. E, é claro, que The King of Pop não ficaria de fora, o misterioso Paulo Barros fez questão de representar seu ídolo, fazendo o Moonwalk ao relembrar da conhecida, todavia misteriosa Área 51 americana.


Admito, não lembrava muito das fantasias em si. A não ser a aquela que, para mim, fora a mais a interessante e criativa, o Triângulo das Bermudas, mas revendo o desfile, percebi muitas outras interessantes demais, como as que representava a Área 51 e o Túmulo da Cleópatra. Já falei, lá acima, sobre a fantasia da rainha de bateria, entretanto, não havia comentado da impactante coreografia da bateria, vestidos de chefões da máfia, fazendo com que se abrisse um espaço para subido do tripé, um carro antigo, dando o realce merecido para que a rainha comandasse sua trupe rítmica. Apesar de não ter comprometido em nada, ao meu gosto, a Pura Cadência comandado pelo Mestre Casagrande passou um pouco acelerado (à época, admito, novamente, não ter me incomodado, não sabia diferenciar surdo de caixa, mas hoje em dia, percebo que passou freneticamente... rs).

Esse texto ficou um pouco extenso, mas não que queira manter isso para os outros, fiz desse jeito para que demonstre bem a maneira que quero seguir com essas. Para meus próximos relatos, gostaria que vocês escolhessem os desfiles, estou na Sapucaí desde 2008. De 2008 à 2016, podem escolher o desfile que queiram desse período. Mandem-nos aqui pelo comentários do site, pelo nosso twitter, pelo meu twitter pessoal, por onde quiserem. Espero que tenham gostado desse novo modelo, talvez tenham percebidos algumas conjugações acerca desse desfile no presente, acredito que desfiles como esses eternizam-se, suspiram e vivem até hoje. Foi segredo... E tornou-se história!


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Não é de hoje que eu digo que a dispersão é meu lugar cativo na Marquês de Sapucaí e será nela d'onde tirarei a inspiração e, de fato, as memórias que escreverei. É na dispersão que todo o trabalho, ano, desfile é levado ao êxito - no caso de um baita desfile. Mas também às lágrimas, quando alguma coisa não sai como o esperado. Essas, aliás, serão muito citadas por aqui hoje. Já vou parando com a enrolação, hoje vou falar sobre a escola que mexe com o âmago de qualquer um, costumo dizer que não existe um "carioca" (as aspas pois considero todos cariocas por amarem tanto quanto nós o maior espetáculo de nossa cidade, do país e DO MUNDO) que o coração bata mais forte quando escute um dos, e olha que não são poucos, hinos da azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira. Não há. Garanto-lhes.

Já ficou claro que falarei da tradição, da maior campeã de todos os tempos, da nossa Águia altaneira. "Tá bom, Vitor, já pode parar com a enrolação". Ok, perdoem-me, mas é que "se eu for falar da Portela não vou terminar". Eu tenho azul e branco no coração e, cada vez mais, sinto que é a segunda escola dele. Sim, já enrolei muito, vamos ao que interessa! Já ficou claro pelo título que vamos falar de 2016, né? Não!? Vish... Assim que foi anunciada a contratação do genial Paulo Barros para comandar o carnaval portelense nesse ano, eclodiram dúvidas de como seria esse casamento. Até eu fiquei meio receoso - admito. O transgressor, inovador, badalado carnavalesco estava indo para nada mais nada menos que a Majestade do Samba, onde o ar exala tradição, onde não se tolerava um pingo fora dos "îs".

Não estou aqui para falar do pré-carnaval. Vamos aos desfile, em si, conquanto não esteja pra falar principalmente dele também. Sobre o casamento de Paulo Barros e Majestade do Samba, deixo para quem tem mais autoridade que eu quando se trata de Portela. Soou a sirene da Sapucaí e iniciara o desfile da azul e branco, de cara veio aquela polêmica, mas grandiosa comissão de frente, aquele elemento que mais parecia um abre-alas de causar inveja em certas escolas... O desfile da Portela, em si, dispensa comentários, foi um show. Por mais que em algumas alegorias houvesse reciclagens de ideias, foi um show. Até as criticadas baianas, davam um interessante visual ao evoluírem. O navio que balançava. O "Gulliver", que mesmo não tão bonito visualmente, impressionava. Os dinossauros comendo as menininhas, a briga pelo Eldorado. Até a Águia bem peculiar, ao meu gosto, não tira a magia desse desfile fantástico para mim. Que senão venceu, deveria estar em segundo lugar na apuração. Isso, todavia, não vem ao caso, já passou. 


O desfile passara pelo módulo 3, onde eu estava, e fui correndo pra dispersão, não poderia perder a saída do meu desfile, até então, predileto do carnaval 2016. Chegando lá, ainda falta bastante escola pra passar, uns 20 minutos se me lembro. Aquele ótimo samba era cantado tão alto por aquelas arquibancadas mais recuadas que até um desses críticos ao carnaval, apaixonar-se-ião. Era lindo, foi lindo. Aliás, é lindo. Pois não esquecerei nunca o que foi a dispersão naquele dia. Os dirigentes choravam, mas choravam de molhar a pista mais até do que aquele infame Posseidon - perdoe-me a piada. Eles se olhavam, abraçavam-se e a única coisa que se ouvia era "Chegou nossa vez". Não haveria algum maluco que ousasse a discordar. Era emocionante até pra mim que não sou "diretamente portelense". Eu que estava com minha camisa de linho e meu chapéu Panamá - pelo enredo salgueirense - aproveitei para me infiltrar, os diretores estavam com roupas que lembravam, até certo ponto, a minha. Agradecia e parabenizava a todos que passavam por mim. "Belo desfile, meu irmão". "Chegou nossa vez!". E acho que nunca senti emoção parecida com a que pulsava em meu peito igual aqueles minutos - me arrepio, só de lembrar cada abraço caloroso e intenso que recebia de diversos integrantes... De baianas a ritmista. Dos diretores às passistas! Foi fantástico e único.


As arquibancadas àquela altura já estavam enlouquecidas e começavam a gritar "É campeã... É campeã!" ao aproximar do batuque inconfundível que só a Tabajara do Samba possui. Cantando em plenos pulmões o sambaço da azul e branco ia moldando um filme que nunca esquecerei. E eu? Eu já nem voz mais tinha, mas ainda estava por lá, não sairia de um dos momentos mais mágicos que presenciei no carnaval assim tão facilmente. Aos poucos, o mar azul e branco se dispersava, e eu que voltava pro setor 8 onde estava, pensava "É... Finalmente acabará o jejum de Oswaldo Cruz e Madureira", não há quem discordasse àquela altura, mas aí veio a Menina dos olhos de Oyá e todos já sabemos o que aconteceu... Enquanto vinte e uma estrelas brilharem em meu olhar, eu, em toda minha vida, estou fadado a lhe amar! Salve a Portela, salve a Águia altaneira de Oswaldo Cruz e Madureira!


Espero que gostem desse relato de um dos momentos mais mágicos que vivi, tomara que tenha conseguido sintetizar o mix de sentimentos e lembranças que me passaram pela cabeça. O vídeo abaixo foi gravado por mim no momento que a Tabajara chegava à dispersão. O som está meio estourado (até hoje não sei o porquê), mas ainda dá pra ouvir as arquibancadas saudando a Majestade com os gritos de "É campeã!".










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E lá ia eu, que aqui vos subscrevo com ligação direta entre meus dedos e o rufar do furioso tambor que levo ao peito, pisar pela primeira vez na Marquês de Sapucaí – que, até então, só tinha visto pela tevê. Eram lá pra dia X de fevereiro de dois mil e oito e estava que não cabia mais em mim. Era um misto de ansiedade, fascínio e amor que aprenderia a cultivar por isso aqui. Sempre ganhei os CD’s dos sambas de enredo e os escutava todo o período do pré carnaval. Admito. À época ainda não tinha uma escola pela qual bravejava mil juras de amor igual hoje em dia.

Minha mãe, a primeira referência que tive de carnaval, sempre me presenteava com camisas das escolas. 2008, entretanto, não era um ano qualquer. Seria meu primeiro ano na passarela, disse a ela que escolhesse, com carinho, a camisa de seu primogênito. Coincidência ou não, ainda acredito que tenha sido Pamplona, lá de Orum, o arquitetador de tudo isso. Meu samba preferido daquela maravilhosa safra era o salgueirense o qual escutava tanto aos dias que já tinha gravado até os cacos do Quinho na primeira semana com o CD – E olha... Não eram poucos!


Eis que minha mãe traz a camisa: “Filho, achei a sua cara!”. Àquele ano, a Academia do Samba falaria sobre o Rio, suas riquezas, suas belezas e tudo o que só a Cidade Maravilhosa pode esbanjar. A camisa trazida era a salgueirense, mas não por ter certa predileção pela vermelha e branca tijucana, todavia, por estar, na parte de trás da camisa, estampado o rubro-negro de meu time, já escolhido, Flamengo. Então fui, com as minhas duas paixões estampadas em mim, uma que nasceu comigo, meu time. E outra que aprenderia a amar, respeitar e cultivar mais que quaisquer outras coisas.



(A criativa, alegre e belíssima comissão de frente salgueirense de 2008 ).


E lá fui eu, ostentando o vermelho e branco mais lindo de meu pavilhão e a combinação rubro-negra mais sinérgica da face da terra com minha vó para o Setor 1... E de trem. Não existiria setor melhor para minha primeira vez! Tudo começou no trem com a essência suburbana, a essência do carnaval viva e latente. Passavam-se as estações: Santa Cruz... Campo Grande... Oswaldo Cruz... E Madureira. Quase chegando ao Centro.... A magia aconteceu – que mesmo a "tanto tempo" vivendo nessa atmosfera, ainda consegue hoje, enquanto “rabisco” essas linhas, deixar-me arrepiado!


A porta do trem se abriu, não lembro exatamente em qual estação, e um mar vermelho e branco entrou no trem. Plumas, componentes, ritmistas e passistas. Um detalhe. Naquela época, não o conhecia, mas um dos que entrariam, era nada mais, nada menos que o Mestre Marcão, que venero hoje em dia, à época não fazia ideia de quem fosse. Aos poucos, aqueles tantos surdos, caixas, tamborins e repeniques balbuciavam, cada vez mais forte, o belo samba que a Academia levava à Sapucaí. Não sei se estou conseguindo retratar o quão afetivo e fascinante foi para mim nestas linhas, mas foi, de fato, fascinante. Num sopro de magia, o vagão em que estava – claro, aqueles que sabiam – cantavam o sambaço salgueirense acompanhados, mesmo que por apenas alguns ritmistas, da bateria mais Furiosa que existe e das passistas que sambavam e ensinavam aos “gringos” que se entreolhavam totalmente embasbacados.


E o meu Salgueiro cantou, fazendo que um Rio de amor literalmente desaguasse em mim. Os “tons”, versificados em poesia, irradiavam uma beleza que encantaria qualquer um. Afinal, sou rei da boêmia, carioca e sou da Lapa. Perdoe-me, mas tiro onda do meu jeito, vivo em um eterno carnaval! Aqui, entre morros e ladeiras, onde a brisa embala as ondas do mar, essa gente tão animada faz o turista morrer de saudade, e o Redentor abençoado faz daqui maravilhosa cidade. E assim meu coração batia no compasso do surdo vermelho e branco, eu via o carnaval suspirar, à minha frente, nos versos que por uma metalinguagem viva e latente transcenderia em qualquer um a essência do carnaval “E o suburbano improvisando muito bem/Vai batucando/Na lotada ou no trem”. E no calor do meu Salgueiro, cantando minha emoção, via que também era raiz desse chão... Salve o Rio de Janeiro e nunca se faça esquecer: O sol, no fim de tudo, sempre irá bronzear!




(Infelizmente não achei nenhuma das foto que tirei em 2008 para ilustrar como queria, deixando uma das belíssimas alegorias desse ano).



Achei esse o tema perfeito para meu primeiro texto porque mostra, de fato, como soube que viveria essa “festa” pelo resto de minha vida. E mostra também o porquê e como escolhi a melhor escola de samba possível, meu Torrão Amado. É como costumo dizer: Todos nascem salgueirenses, alguns, entretanto, não se deram conta do que é viver! Brincadeira à parte, espero que gostem, abraços e até o próximo domingo.



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Olá amantes de carnaval! Não é que ganhamos uma cidade só nossa? A "Carnavápolis" vai ser um espaço semanal com textos mais históricos, curiosidades e fatos da nossa folia. Em breve, teremos outras colunas aqui no nosso site, então fiquem atentos. Sem mais delongas, vamos ao que interessa: hoje faremos um panorama sobre os chamados “enredos afros”.

Crescemos ouvindo que as escolas de samba são um produto legitimamente da cultura africana, mas não é bem assim. Assim como tudo neste país, as agremiações são produto de uma série de tensões culturais e muita “mistura”, herdando elementos europeus, ameríndios e africanos, obviamente. Outro engano é achar que os "enredos afros" estão presente desde os primeiros desfiles, na década de 1930. 

Nos primórdios, não havia a ideia de enredo e uma unidade entre a plástica e o samba como conhecemos hoje. A escola podia muito bem desfilar com roupas da corte francesa, ter o enredo sobre o folclore da Bahia e cantar em seus versos uma dor de cotovelo. Um verdadeiro samba do crioulo doido.

O que nos interessa é que as escolas surgem numa tentativa de levar o samba, então ritmo marginalizado, para o asfalto e fazê-lo reconhecido. Para ter essa aceitação, os temas cantados acabavam fazendo alusões a temas patrióticos, bem ao gosto do governo que buscava firmar uma identidade nacional. (Sabe "um tal" de Getúlio Vargas?) Buscando serem reconhecidos também pela intelectualidade modernista da época, os grupos negros e dos morros passaram a cantar a história oficial dos personagens brancos, como Princesa Isabel, Tiradentes, Dom João e tantos outros.


A mudança desse cenário, se deve ao pioneirismo de uma escola de samba que tem o seu DNA mais negro do que qualquer outra: o Acadêmicos do Salgueiro, que na década de 1950 apresentou dois enredos com pegada afro. Em 1957, "Navio Negreiro" e dois anos depois, "Viagens Pitorescas do Brasil". Este conquistou um certo professor das Escolas de Belas Artes, que junto com a agremiação mudaria de vez a história dos desfiles.


Quando desembarcou no Salgueiro na virada da década de 1960, Fernando Pamplona, influenciado por filmes de Hollywood e a independência de países africanos, proporia o que podemos considerar o primeiro enredo verdadeiramente “afro”: o então desconhecido “Quilombo dos Palmares” que traria como herói o também desconhecido, na época, Zumbi dos Palmares.


Pamplona não estaria sozinho nesse momento importante para a história do carnaval, ele traria consigo outros nomes que se tornariam imortais. Seu principal parceiro, o também cenógrafo Arlindo Rodrigues, o então bailarino Joãosinho Trinta e suas alunas Maria Augusta, Lícia Lacerda e Rosa Magalhães. Junto, o grupo faria uma verdadeira revolução, não só na estética da festa mas também nos enredos. O que vale uma coluna dedicada apenas ao assunto. O Salgueiro trouxe uma série de histórias negras e de personagens marginais estão anônimos. Como a célebre Xica da Silva, Chico Rei, Aleijadinho. Seria aí pautada a África que o carnaval “criou” e até hoje desfila na Sapucaí. Inspirado em filmes que faziam sucesso na época, a “África de Pamplona” abusava do vermelho e branco e de elementos geométricos, elementos ainda usados e reusados.



E se hoje num bom samba afro não pode faltar uma louvação aos orixás. Nem passava pela cabeça da época tocar no assunto religiosidade diretamente. Os primeiros sambas com citação a uma dessas divindades só aconteceria em 1966, trinta anos depois dos primeiros desfiles, quando o Império Serrano e a São Clemente citariam naquele ano Yemanjá em seus enredos sobre a Bahia. No ano seguinte, 1967, se cantaria a primeira louvação a um orixá, no samba da Unidos dos Lucas. Com a revolução salgueirense a pleno vapor e os bons resultados da escola, o discurso da negritude foi aos poucos incorporado e sendo usado para valorizar a face negra dos desfiles. Finalmente.


Em 1978, aconteceria um caso curioso. Duas escolas apresentariam o mesmo “enredo afro” sobre a criação do mundo com perspectiva diferentes. Pamplona, de volta ao Salgueiro após um pequeno hiato, desenvolveria “Do Yorubá a luz, a aurora dos Deuses” e seu discípulo Joãosinho Trinta, então bi-campeão na antes inexpressiva Beija-Flor cantaria o “A criação do mundo na tradição nagô”. A escola de Nilópolis sairia campeã da disputa, consolidando-se a nova potência do carnaval.




Dez anos depois, seriam comemorado os 100 anos da abolição da escravidão. Destacando-se, três desfiles com visões absolutamente divergentes. A Vila Isabel faturava seu primeiro título com uma grande comemoração e louvor a negritude. “Kizomba, a festa da Raça” foi um espetáculo de estética rústica e simples mas com a força de um samba num espetáculo raramente visto na Sapucaí. A vice Mangueira, ousou contestar os livros de história, algo impensável décadas antes, e entrou na Sapucaí ecoando a pergunta título do seu enredo: “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?”. Por fim, a imponente Beija-Flor de Joãosinho Trinta não abriu mão do luxo e da suntuosidade para contar a história do negro desde o antigo Egito, no criticado “Sou negro, do Egito a Liberdade”.


  

Na década de 1990, a temática ficaria adormecida nas grandes escolas, mas uma novata recém chegada ao grupo especial se consolidaria com a temática africana naquele momento. A Grande Rio nos brindou com grandes obras como “Águas para um rei negro”, em 1992, e o “Os santos que a África não viu”, em 1994.


Logo no início do século XXI, a Beija-Flor restabeleceria sua ligação com o continente negro se consagrando com uma protagonista do tema com “A saga de Agotime: Maria Mineira Naê”, um dos melhores desfiles afro de todos os tempos. Tornando a África amuleto da sorte e forte fator de identificação da escola nilopolitana. Gerando grandes sambas e desfiles inesquecíveis como nos anos de 2007 e 2015, ambos campeões.


Na década atual, os enredos afros seriam mais uma vez ressignificados. Já considerados então a mais pura “essência do carnaval” e garantia de um bom samba para todo mundo “incorporar” no terreiro. Surgiriam abordagens sem critério ou reflexão genuína, repetindo sempre os mesmos elementos e soluções estéticas, com as mesmas estampas geométricas de Pamplona que se juntariam agora com palhas e matérias rústicos.


Na Série A, a Cubango se tornaria um exemplo dessa tendência, apresentando enredos afros em sequência. Novidades para o tema só viriam em 2012, com a sempre inovadora e versátil Rosa Magalhães que daria uma nova roupagem a sua Angola na Vila Isabel e na tentativa de uma “África Pop” assinada por Cahê Rodrigues em 2015, na Imperatriz.


O comentarista e ex-carnavalesco Luiz Fernando Reis que já brindou o público com um grande desfile desta temática no Salgueiro em 1989 é adepto de uma fala polêmica ao questionar a validade desses "temas afro" no carnaval contemporâneo. Dizendo que hoje eles são usados a exaustão para gerar um bom samba e um trabalho plástico previsível. Visão que em parte tem de ser debatida. De fato, os enredos afros são usados sem serem repensados, apenas uma simples repetição de uma suposta estética africana que foi construída em décadas de desfiles. 


Se hoje consideramos a temática afro a mais genuína expressão carnavalesca, devemos tomar cuidado ao repetir discursos criados que podem ser facilmente contestados. A face negra é, com certeza, a mais importante da nossa folia, mas não a única. As escolas de samba sempre foram negociadores e como diz muito bem, o historiador Luiz Antônio Simas apesar de cantarem os heróis "brancos", em seu surgimento, as escolas de samba marcavam sua presença negra através da gramática dos tambores e de seu batuque inconfundível.




Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, cursa História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.


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