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Carnavalize

Por Felipe Tinoco



“Quando a gente chega do carnaval, o porteiro do meu prédio já pergunta: e aí, o que tem no próximo ano?”, disse Rodrigo, rindo. “Eu ainda nem escovei os dentes, mal cheguei dos desfiles”, completou Priscilla. Juntos há mais de vinte anos, o casal de coreógrafos mais aclamado pelo público e pelos julgadores recebeu o Carnavalize para uma entrevista no barracão da Estação Primeira de Mangueira.

Na sala, além dos dois, estavam duas demonstrações do sucesso da união. A primeira, o filho Davi, de cinco meses, que no meio da entrevista foi trocado de roupa pelo pai quase tão rapidamente quanto as meninas do popular “Segredo” (Unidos da Tijuca, 2010). A segunda são as falas de uma dessas meninas, carinhosamente chamada de Gabi, hoje braço-direito dos coreógrafos. A produtora é só elogios: “eles são incríveis, trabalham muito, têm um olhar muito especial. Respeitam muito todos os integrantes, sabem a medida certa entre exigir e abraçar. São poucos diretores que têm uma qualidade tão grande quanto eles dois”.

Essas espontaneidade e genuinidade que caracterizam o vínculo profissional e pessoal de Priscilla Mota e Rodrigo Negri dão o tom do nosso bate-papo. Confira a última entrevista da temporada da nossa série de Processos da Criação!


Carnavalize: Vocês conseguiram 8 anos consecutivos fechar o quesito, algo que é raro em qualquer setor das escolas de samba. Ao que vocês atribuem esse sucesso com o júri?

Priscilla: Bom, aqui no barracão já se dá para ter uma noção disso. É mão na massa. Não tem essa de achar que é só fazer sucesso, deu tudo certo e relaxar com o sucesso. A receita é esquecê-lo e partir do zero a cada ano. Estar na Mangueira esse ano tem a ver com isso, com a gente se reinventar e sair da zona de conforto, estar dentro de um projeto desafiador, dar uma sacudida na nossa própria carreira.
Rodrigo: A mão na massa é mesmo muito importante. A gente cuida de todo o detalhe da comissão de frente, desde figurino até tripé - esse ano inclusive há uma cenógrafa acompanhando a gente. Há diversos detalhes muito pessoais, que nós, ao lado do dia a dia com nossos bailarinos, sabemos o que é melhor para cada momento.
P: E a comissão de frente é uma obra aberta. A gente finaliza o projeto, deixa tudo pronto, mas todo dia a gente ensaia e todo dia a gente quer aprimorar alguma coisa. A coreografia pronta não nos libera para ir no cinema, a gente fica pensando em casa o que se pode melhorar. Agora mesmo fizemos alguns ajustes no carro, sentamos com o Leandro para rever alguma coisa do figurino. Até a sirene tocar e o portão azul abrir, a gente está arrumando coisa, consertando, aprimorando. Nós somos artistas, e na hora que cristalizarmos na nossa própria criação, tem alguma coisa errada.
R: Nós ensaiamos demais com o grupo também. Até brincam com eles (os bailarinos): “ah, vocês trabalham com a Priscilla e o Rodrigo? Pelo amor de Deus, eles ensaiam demais!”. E é essa a receita do sucesso, trabalho, não tem como contar só com a sorte. A gente trabalha em cima dos imprevistos que podem acontecer na hora, e antecipa o que pode dar errado, tentando ajustar essas coisas.


Carnavalize: Como vocês começaram a trabalhar no carnaval? O trabalho que realizam com as escolas de samba é muito diferente do trabalho que vocês fazem fora da Sapucaí?

P: Então, a gente sempre amou carnaval.
R: A gente assistia os desfiles nas arquibancadas, comprava fantasia de ala, desfilava.
P: Alguns amigos coreógrafos começaram a nos chamar para desfilar em carros com coreografia, pintava convite para desfilar em queijo... Chegamos a desfilar na Lins Imperial, no Grupo B. Quando começamos a fazer comissão de frente, paramos de curtir carnaval. Em 2005, um coreógrafo que era do Municipal nos chamou para trabalhar na comissão de frente da Tradição. Ele assumiu o posto faltando um mês para o carnaval e precisava de bailarinos profissionais para conseguir realizar o trabalho tão rapidamente. O Rodrigo acabou indo de assistente e eu de bailarina. No ano seguinte, o coreógrafo foi chamado para a Tijuca e me convidou para ser assistente dele, enquanto o Rodrigo foi componente na comissão do Salgueiro, no carnaval do Microcosmos, pois ele queria ter a experiência de desfilar. Então, depois do carnaval de 2007, o Lobato (coreógrafo) saiu para a Viradouro. A Lucinha Nobre, que era porta-bandeira da escola e nossa amiga, acabou sugerindo que o Rodrigo viesse para a Tijuca e nós ficássemos responsáveis pela comissão de 2008, nosso primeiro ano.
R: No teatro tem ensaio geral, que conta com toda equipe e estrutura. Mas essa disciplina do ensaio do teatro é muito presente no nosso trabalho com o carnaval. Se estiver chovendo, a gente dá um jeito, espera a chuva parar. Às vezes não tem ninguém na Cidade do Samba, só a gente (risos). Aí a gente cobre o carro, mas pode acontecer isso tudo no dia, lá na avenida, então a gente treina para isso.
P: Sobre a relação entre os diferentes trabalhos, o carnaval nos ajuda a ser “safo”. Se acontece um problema, a gente não sofre o problema, a gente resolve. Carnaval é puro imprevisto, e a gente precisa se programar para que tudo dê certo. Por mais que nós ensaiemos muito, o Sambódromo tem desnível, é aberto à chuva, tudo pode acontecer. A gente deixa o carro no sábado de carnaval lindo, maravilhoso, mas não sabe o que pode acontecer com o carro no trajeto dele daqui (Cidade do Samba) até a Presidente Vargas. A gente tem que chegar junto com ele e ver se está tudo certo. Em teatro não se tem esses perrengues. Já do intercâmbio do ballet para o carnaval, a disciplina e o ensaio é o que trazemos.

"A mão na massa é mesmo muito importante. A gente cuida de todo o detalhe da comissão de frente, desde figurino até tripé"

Carnavalize: O carnaval tem um processo de escolha de enredo, lançamento de sinopse, definição do samba... Em que momento vocês concebem a coreografia e como é esse processo? Costuma ser diferente de ano a ano?

R: Tem diferença de ano a ano, nunca é igual. Não há uma regra, depende muito do enredo e da ideia que ele proporciona para gente de ideia.
P: O samba também nos inspira muito. Há sambas que pensamos “caramba, de onde vamos tirar (a coreografia)?”. Esse ano está sendo ótimo, a gente queria que o samba fosse maior, para a gente ficar mais tempo na cabine, porque é muito bonito, o enredo é tão incrível. Para esse carnaval, nós sentamos com o Leandro, que explicou o enredo todo e já saímos daqui com várias caraminholas na cabeça. Demora um pouquinho para a gente entender para aonde vai; sobre o que a comissão falará, qual caminho tomaremos, se falaremos de algum setor ou faremos uma síntese do enredo... A gente já pensa no conceito, no que vamos fazer, com essas informações. Com a definição do samba, a gente cria a coreografia propriamente, o movimento, como a gente organiza o que a gente pensou. Mas dentro de todo projeto, a coreografia é 10%. Para a gente é a parte mais fácil por conta da nossa formação como bailarinos. Tudo que envolve a coreografia, o entra e sai do carro, a parte técnica, a logística, a cenografia, o figurino que às vezes é um efeito e você precisa ficar em cima para dar tudo certo... A produção sempre é mais trabalhosa que a coreografia.
R: A coreografia serve para costurar o nosso pensamento, a nossa ideia. Há coreógrafos que gostam de coreografias que visualmente parecem muito difíceis. Os nossos bailarinos se esforçam muito, é difícil, mas a coreografia tem mais essa função de costurar nosso conceito. E o grupo é muito rápido, a gente já trabalha junto há mais de 10 anos, e eles dão sugestões, solucionam algumas coisas.


Carnavalize: E como funciona o processo de concepção em dupla, com duas cabeças pensantes?

Gabi: Existe uma palavra: cumplicidade. Onde um acaba, o outro começa. Onde um termina, o outro chega. Eles são um elo. É cabeça e coração e coração e cabeça, é impressionante.
R: Às vezes um preciso estourar e é preciso respeitar isso. O respeito é muito importante.
P: Tecnicamente, se eu pudesse separar, ele cria e eu organizo. Tirando toda a parte do processo, da colaboração de todo mundo que chega e faz comentários para somar. A gente foi ensaiar no Sambódromo anteontem e eu fiquei olhando para os empurradores que foram levar o carro, que nunca assistiram o ensaio, para ver a reação deles. Também achei legal que uma funcionária do Sambódromo me ligou para elogiar o ensaio. Tudo que vem de fora agrega. Ontem eu mostrei o vídeo (da comissão) para a minha mãe pela primeira vez e ela perguntou “por que eles estão de costas?”. A gente viu de novo e resolveu mudar, colocar de frente (esses componentes). Tudo ajuda.
R: Essa coisa que a Pri falou que eu gosto de criar é relacionado com movimentação, coreografia, que fica mais comigo. E ela organiza, porque eu tenho preguiça dessa coisa de organizar, de “fulano de tal, fila aqui”, “desenho para lá”, ensaiar “braço”. Isso fica mais com a Pri, uma coisa meio tia (risos).


Carnavalize: Vocês conseguem ensaiar na Sapucaí com o carro?

P: Muito raramente a gente leva o carro, mas esse ano a gente está levando bastante. O Leandro é um cara que tem uma cabeça muito ‘pra frente’ em relação a isso e a gente já levou o carro para ensaiar quatro vezes. É uma demanda, precisa de gente para levar, tem a coisa do trânsito.... É um esforço. Aqui na Mangueira a galera quer muito ganhar, então há esse comprometimento forte.


Carnavalize: Há nitidamente um clima muito bom entre vocês e todo o elenco e há diversos rostos que se repetem todo ano nas comissões de vocês. Como funciona esse trabalho em conjunto com eles?

P: Harmonia é fundamental. A gente não consegue trabalhar num ambiente ruim. Alguns bailarinos estão conosco há muito tempo, e quando precisamos de mais gente, pedimos indicações dos próprios bailarinos. Eu nunca peço bailarino bom, peço bailarino gente boa. Ensaiando, a gente vai fazer a pessoa executar bem a coreografia.
R: A nossa cartela de bailarino é muito grande, a gente já trabalhou com diversas pessoas. Só no Segredo (Unidos da Tijuca, 2010), foram mais de trinta bailarinos. O legal do nosso grupo também é que muita gente para e continua conosco de outras formas. A própria Gabi, a Amanda que nos apoiará no desfile e já foi componente durante quatro, cinco anos... Há vários eventos que o pessoal participa com a gente também, diversas outras coisas.
P: Na Dance Solutions (empresa dirigida pelo casal), a gente faz muitos eventos artísticos para o meio corporativo. Essa galera que trabalha com a gente acaba fazendo isso também, o próprio show da Ivete... O carnaval é uma vitrine, e vai fidelizando, porque gostam do nosso trabalho e da nossa experiência com produção.
R: Nós fizemos trabalhos para Bradesco, Coca-Cola, Renault, apresentações para Michelle Obama, para o Lula, participamos de diversos programas de TV, na Xuxa, na Ana Maria Braga, no Fantástico. Vários eventos esportivos também, como Liga Mundial de Judô, Liga Mundial de Vôlei, Copa, Olimpíadas... Além de uma experiência muito legal em Angola, no concurso de Miss do país, coreografando o Segredo com pessoas de lá que não eram bailarinas.


Carnavalize: Vocês são conhecidos por trazerem elementos visuais de forte impacto para o desfile desde a troca de roupas, até as cabeças caindo, a mola do Gonzagão. Em 2016, a própria Ivete fazia esse papel de impacto e por si só já causava explosão. Primeiro vocês pensam na ideia da comissão e depois nesse elemento, ou ele é pensado desde o início?

P: Depende. Ultimamente tem sido depois, mas na época da Tijuca foi predominantemente antes, após a cobrança do segredo, quando ficamos até estigmatizados por isso. Não é que não queremos ser identificados como casal segredo, casal que faz mágica, mas há projetos e projetos, enredos e enredos. Em 2012 era simples, só as molas, e foi um dos anos que eu mais me diverti. Deu muito certo pelo conjunto da obra.  A gente não pensa mais no efeito antes da ideia.
R: É, às vezes cabe. A gente pode estar vendo um espetáculo e pensar como aquilo se encaixaria num desfile, como foi com a bola (Grande Rio, 2016), quando assistimos o Força Bruta. Encontramos por coincidência os responsáveis, que eram argentinos, em um evento da Globo que a gente estava fazendo e se preparando no camarim ao lado do deles. Quando fomos nos apresentar, eles já nos conheciam, conheciam nossos trabalhos, e foi uma parceria bem legal.

"Sobre a Mangueira, a gente percebeu aqui como a equipe está em prol do trabalho. Se a gente precisa arrumar um ferro que soltou, na hora resolverão. Não tem aquilo de “segura um pouquinho que depois eu resolvo” e não resolve."

Carnavalize: Na avenida, a Priscilla costuma comandar os bailarinos e o Rodrigo, a ficar no radinho. Quem é responsável pelo o quê na passada pela Sapucaí?

R: A Pri vem com a função de puxar o andamento do desfile, comandar e fazendo os sinais referentes às coreografias, de parada ou a de júri. E eu venho acompanhando o tripé, que normalmente tem alguma manobra, precisa parar para a entrada dos bailarinos... Eu venho nesse backstage, que é a parte mais tensa. Eu não posso me desgrudar, preciso estar muito concentrado, para observar as marcações das caixas da avenida. Dificilmente eu consigo relaxar. A Pri vem no comando e disfarçando no sorriso (risos).
P: No ano do Ayrton Senna (Unidos da Tijuca, 2014), o carro de corrida quebrou. Eu olhava para ele (Rodrigo) e ele estava tenso, e eu vinha com sorriso coreografado.
R: Normalmente eu venho em contato com a Gabi, e ela vem dentro do tripé, organizando tudo e resolvendo os problemas que possam surgir. Nesse carnaval de 2014, todo processo foi complicado porque o carro de Fórmula 1 deu um monte de problema nos ensaios. No dia do desfile, depois que a gente resolveu todos os problemas, o pneu furou. Quando vimos, começamos a correr atrás de um outro pneu. O engenheiro do carro conhecia uma borracharia, a gente conseguiu trocar lá e pronto, tudo resolvido. No primeiro julgador, o carro funcionou. Mas o piloto do carro sugeriu desligá-lo entre cada cabine para não ter problema com o fato dele esquentar dentro do tripé. Aí eu falei pra Gabi: “Gabi, prepara jurado, liga o carro”, para a gente se apresentar para outra cabine. Ela foi e me falou “o botão entrou, o carro não ligou”.
P: A gente tirou a nota máxima, o júri amou, mas sabe quanto o botão custava? Cinco reais.
R: Eu falei “dá um jeito, abre o carro”. Tiraram a carenagem com as mãos para tentar fazer uma ligação direta. No terceiro jurado, perguntei pra Gabi e ela disse que não ligou. Eu sei que terminou o desfile, quando passou no quarto julgador, a Gabi falou “ligou!” (risos). Ali já não adiantava mais. A gente saiu arrasado daquele desfile, mas a comissão segurou na raça, com a execução e a coreografia perfeitas.
P: Quando terminou aquele desfile, eu falei “eu não quero mais fazer carnaval, chega, para mim deu”.


Carnavalize: Isso influenciou a saída de vocês da Tijuca?

P: A gente não saiu porque o carro deu problema, foi uma série de questões. Quando há um desgaste artístico, não tem como você se segurar. É natural, isso acontece com o tempo. Por isso acho que para o artista é muito importante você estar sempre renovando o ciclo e fazendo aquilo que acredita, sem sofrer. Quando está sofrendo, tem que parar. Para o Rodrigo era mais tranquilo, mas eu sofria.
R: Lá a gente sofria pela pressão e achamos melhor mudar os ares e fomos para a Grande Rio.

"Para além de saber o que dá certo, a gente sabe muito mais o que dá errado. Por exemplo, não acompanhar um projeto, deixar o barracão tocar e não estar perto... Não dá certo."

Carnavalize: Há um intercâmbio entre os coreógrafos de comissão de frente? Como funciona essa relação entre vocês?

P: A gente troca bola meio no muro das lamentações. A gente não pede ajuda para não “abrir” (contar os detalhes da comissão), mas a gente tem vários amigos que fazem comissão, minha irmã (Claudia Mota) faz, a gente chora pitanga junto... Somos muito amigos do Jorge (Teixeira) e do Saulo (Finelon) e todo ano quando acaba a gente fala “chega, último ano”. Dois meses depois já estamos nos perguntando “e aí, já começou? Como está?” (risos).


Carnavalize: As comissões geralmente dialogam com o restante na escola e isso envolve uma conversa com os outros profissionais. Vocês trabalharam com o Luiz Carlos Bruno, com o Paulo Barros, o Fabinho, o casal Lage e agora com o Leandro. Existe uma diferença muito grande em trabalhar com profissionais tão distintos? E como fazer para que exista ao mesmo tempo autonomia no trabalho de vocês e que a comissão não seja só um apêndice da escola, sem dialogar com seu restante?

P: Eu acho que é importante viver o dia a dia das escolas. É que nem água, você vai se moldando àquela estrutura. Ao mesmo tempo a gente tem um estilo de trabalhar - não só de resultado, mas também de percurso até o dia do desfile - muito particular e que a gente respeita. Há coisas que a gente se molda à escola e há coisas que a escola se molda no nosso ritmo. Para além de saber o que dá certo, a gente sabe muito mais o que dá errado. Por exemplo, não acompanhar um projeto, deixar o barracão tocar e não estar perto... Não dá certo. A gente cobra muito para conseguir passar curtindo na avenida, em um trabalho que a gente saiba que não tem risco de dar errado. A gente quer muito aprender com todos eles - e por isso a gente está aqui para trabalhar com o Leandro -, a gente aprendeu muito com todo eles e, depois de 12 anos de carreira, a gente aprendeu o que dá errado e a dizer alguns “não” a determinadas coisas.
R: A gente gosta de acompanhar o processo, ver os desenhos do carnaval, não só os da comissão de frente. Isso serve como referência para gente, ajuda a definir a nossa ideia. Aí a gente pensa se seguiremos algum setor da escola, se faremos uma síntese do enredo. A gente adora conversar com os carnavalescos até fechar o nosso pensamento.

Além da harmonia, a sintonia do casal é o grande trunfo de seus trabalhos. 

Carnavalize: E como está sendo trabalhar na Mangueira e o que motivou a vocês a virem para cá?

P: Primeiro que quando a gente se desligou da Grande Rio eu já estava grávida de um mês e eu pensei em não fazer carnaval. Mas aí começou, todo mundo ligando, vários presidentes e diretores ligando. O único carnavalesco, o único artista que ligou para gente, foi o Leandro. Para nós, muito mais do que nosso nome, salário e passe, a gente quer ser feliz.
R: É importante esse bate-bola entre os artistas, enriquece dos dois lados. A gente já ouviu tanto que nós somos caríssimos, gente perguntando como a Mangueira está conseguindo pagar... É engraçado (risos).
P: Normalmente quando alguém chama para contratar, liga, no pós-carnaval rola aquela dança de cadeiras, perguntam quanto a gente ganha, quanto custo um projeto nosso e o que se precisa fazer para estarmos em uma escola. E isso foi a última coisa que falamos com o Leandro, que estava interessado em entender como a gente trabalhava. Primeiro foi um casamento artístico e depois que rolou toda negociação.
R: Sobre a Mangueira, a gente percebeu aqui como a equipe está em prol do trabalho. Se a gente precisa arrumar um ferro que soltou, na hora resolverão. Não tem aquilo de “segura um pouquinho que depois eu resolvo” e não resolve. Ligam dizendo quando acabam e ainda perguntam se precisa de mais alguma coisa. A gente sentiu essa diferença aqui na Mangueira, para que tudo dê certo. Cada uma tem suas particularidades, mas isso foi uma coisa que sentimos aqui.
P: A gente tem muita gratidão por onde a gente passou porque as escolas que nós trabalhamos nos fizeram ser quem somos hoje, de aprendizado, de tudo, de tudo. A gente aprendeu com cada pessoa que a gente trabalhou, tanto na Tijuca quanto na Grande Rio. É a soma, a gente vai somando. E chegou um momento que a gente viu o carnaval do Leandro e queria trabalhar com ele, para trocar, aprender, para viver a experiência e a emoção da Mangueira. A gente não tinha vivido essa experiência de estar em uma escola que tivesse uma nação, que fosse uma representatividade cultural no âmbito nacional. Com todo respeito pelas escolas que a gente passou, é um diferencial pela comoção nacional que é a torcida da Mangueira e a sua representatividade na nossa cultura. Então eu acho que a gente está construindo nossa história com experiências muito boas.

"É muito bom a gente ter que voltar para nossa criatividade, sim, e isso é uma coisa que a Mangueira está ajudando bastante a gente. É um momento complicado do país, não dá para gente enlouquecer e ser artista mimado."

Carnavalize: Vocês trabalharam com alguns enredos mais abstratos (como coleções, espaço, segredo, medo no cinema e baralho) algumas homenagens (como Chacrinha, Senna e Ivete), os famosos CEPs (como Alemanha e Santos) e agora estão diante de, sem dúvidas, o tema mais político e denso dos carnavais que já fizeram. Como foi conceber esse projeto?

P: Foi difícil. Não foi fácil até achar o que a gente iria fazer. A gente não tem um desfile para contar uma história, a gente tem alguns minutinhos. É pouco para pensar a mensagem inteira do desfile da Mangueira, mas acho que a gente foi muito feliz na nossa escolha porque... Não posso falar! (risos). A gente foi por um caminho muito legal. Como artista, esse enredo nos tirou da zona de conforto completamente. Os outros enredos eram mais diretos. Agora, a gente pensou “qual a mensagem que queremos passar?”, “como essa mensagem chegará?”, dois minutos só... Complicadíssimo.
R: Mesmo assim dará para identificar nossa marquinha, sabe? A gente tentou se moldar, reinventar, mas querendo que as pessoas continuem a identificar que ali é o nosso trabalho.


Carnavalize: Como enxergam o panorama atual do quesito, diante das crises existentes no carnaval? Acham que a apresentação das comissões de frente condiz com a realidade das escolas?

P: Muito complicado. O quesito realmente está em um momento de transição e tentando se encontrar. A culpa também é nossa (dos profissionais de comissão de frente). Houve uma fase em que o céu era o limite, e agora a gente tem essa realidade financeira do carnaval. É muito bom a gente ter que voltar para nossa criatividade, sim, e isso é uma coisa que a Mangueira está ajudando bastante a gente. É um momento complicado do país, não dá para gente enlouquecer e ser artista mimado.
R: A gente tem que saber até onde a gente pode ir. Não adianta a gente ficar sonhando e o negócio não vai acontecer. Vamos até onde a gente consegue, até onde a gente pode ir. Foi esse o nosso pensamento em relação ao projeto desse ano.
P: A gente já viveu de tudo, então para gente é tranquilo. Mas a realidade é outra. A gente já tem experiência de lidar com essas situações, então se nos derem muito dinheiro a gente fará, se derem pouco dinheiro a gente fará.


Carnavalize: E a realidade do julgamento, consideram válida e com critérios bem definidos?

P: Cada ano é um projeto diferente. Ano passado, o Renato Lage vinha com telão de led, vinha com vários neons, era uma escola tecnológica. Por que não apostar em uma ideia tecnológica se o desfile pede isso? Foi assim também no ano da bola. Era um projeto internacional, tem transportadora... Mas era tudo dentro da realidade. Se você se justifica sua ideia, sendo grande ou pequena, está tudo certo. O que não pode, na minha opinião, é trazer um elemento gigantesco só por ser grande, com gratuidade. Por outro lado, o jurado às vezes espera da gente coisas que o enredo não pede. É complicado estar na nossa pele e dar um buffet que agrade a todos, e a gente conhece nossos jurados, conhecemos o que eles gostam.
R: A gente carrega isso (a expectativa) um pouco. Há uma comparação de nós com nós mesmos. Os critérios de julgamento acabam nebulosos.


Carnavalize: Já desistiram de algum projeto e alguma ideia por conta de risco?

P: Não desistimos de nenhum projeto, mas eu teria desistido do carro (Unidos da Tijuca, 2014) pelo risco. E outro que foi muito arriscado e eu não faria de novo foi o Thor (Unidos da Tijuca, 2013), com os bailarinos lá em cima.

"Não é que não queremos ser identificados como casal segredo, casal que faz mágica, mas há projetos e projetos, enredos e enredos."

Carnavalize: A chegada do Davi deve impactar em diversos aspectos a vida de vocês! Estão sentindo alguma diferença no próprio processo de criação da comissão de frente com o guri no mundo?

P: Eu acho que foi muito bacana porque eu estava grávida no carnaval passado, e a gente tentou engravidar durante alguns anos em um período que não atrapalhasse. Eu não queria estar com um mês de gestação na avenida, subindo em tripé, mas está aí, deu tudo certo. Conseguimos passar por aquele carnaval, estamos conseguindo passar por esse, e está super tranquilo. Achei que seria um caos, mas eu estou muito mais calma com ele.


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por Beatriz Freire e Léo Antan.

"Do Setor 1 à apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando dos antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro desfile de informações sobre a apresentação escolhida.




Em 2010, ano de virada da década, a escola do Borel levou à Sapucaí o enredo "É Segredo", disposto a mexer com os olhos, as reações e a imaginação do público. A linha da história a ser contada passou por grandes segredos do mundo e suas respostas – ou a falta delas, além de vestígios do desconhecido, mágicas, chaves e fórmulas secretas, pergaminhos misteriosos, decifração de questionamentos... enfim, tudo que tentamos desvendar. Numa ilusão de ótica, a Unidos da Tijuca instigou as arquibancadas e fez daquele domingo de carnaval mais uma página riquíssima em seu livro e na história da Marquês de Sapucaí. Hoje, o Carnavalize te conta todos os segredos decifrados – ou não – desse desfile marcante do povo do Borel. 


Cinzas na poeira da memória...


O desfile tijucano de 2009, assinado por Luiz Carlos Bruno.
A azul e amarelo não vinha de um bom resultado do carnaval de 2009. A agremiação amargou um nono lugar após um desfile irregular sobre a relação do homem com o céu. Desde 2006, quando perdeu Paulo Barros, o Pavão conseguiu ficar a frente de seu ex-carnavalesco em 2007 em 2008, com desfiles leves e eficientes assinados por Luiz Carlos Bruno. Barros retornou à escola após uma rápida passagem pela Vila Isabel em 2009, quando se juntou a Alex de Souza já no meio da preparação para o enredo sobre o centenário do Teatro Municipal. 

A volta do casamento criou expectativa no mundo do samba, porém a escola foi sorteada como a terceira de domingo, o que diminuía as chances da briga por boas posições, em tese. No pré-carnaval, um enredo sobre o Cirque Du Soleil chegou a ser ventilado na mídia, mas negado para o anúncio da linha sobre os grandes mistérios da humanidade, sugerido a Paulo Barros por um menino em sua rede social. 



O seu olhar vou iludir!

Como terceira de domingo, a Unidos da Tijuca entrou sem maiores expectativas do grande público, precedida por um desfile da Imperatriz sobre as religiões brasileiras. Entretanto, tudo mudou quando a comissão de frente já iniciou sua exibição no setor 1. O quê? Como? Nossa! Uau! Surpreendendo os espectadores, a comissão realizava trocas de roupas num piscar de olhos. Coreografado por Priscila Mota e Rodrigo Negri, bailarinos do Municipal que davam expediente no Borel desde 2008, o grupo era dividido em dois, que se revezavam nos truques de mágica. Com o apoio de um grande tripé cenográfico, que trazia a figura de um mágico, foi uma das primeiras comissões a trazer componentes escondidos do público que iam e voltavam conforme o andamento da coreografia. Composto por cerca de 30 pessoas, as mulheres realizavam uma passada inteira dos passos marcados e voltavam ao tripé para se arrumarem novamente, enquanto um novo grupo saia e se exibia. O truque da troca rápida de roupa foi importado de um show americano e era feito através de um figurino em várias camadas, que iam aparecendo e desaparecendo conforme a manipulação das bailarinas. 

O espetáculo surpreendeu a todos, marcando um novo período das aberturas das escolas, onde elas se consolidaram como um verdadeiro show de início, abusando dos truques de mágicas e ilusionismo, tendo como missão surpreender o público e deixar o clima lá no alto para o resto da escola. 

Após a histórica abertura, bailava o casal de mestre-sala e porta-bandeira, também uma novidade naquele ano. Marquinhos e Giovanna faziam sua estreia na Tijuca, após brilharem mais de uma década na Mangueira. Eles entraram no lugar da porta-bandeira Lucinha Nobre e do Mestre-Sala Ubirajara, que também se despediram após uma passagem vitoriosa por lá, com direito à várias premiações. O bailado do casal garantiu os 30 pontos válidos, não atingindo a nota máxima em apenas um 9,9 descartado. 


O desconhecido, no tempo perdido


A abertura da escola continuava impactante com o pirotécnico abre-alas criado por Barros para a apresentação. Nele, vinha representada a Biblioteca de Alexandria que se incendiava, queimando muitos segredos e histórias perdidas no tempo. Na frente, grandes esculturas gregas, como a famosa Laocoonte e seus filhos, foram reproduzidas fielmente. Juntos, abre-alas e comissão marcaram uma abertura já apoteótica, que surpreendeu e arrebatou o público, deixando a expectativa e animação nas alturas. 

A escola desfilou com 32 alas, 6 alegorias e 4 tripés, divididos em cinco setores, fora a abertura. O primeiro setor batizado de "Conta a lenda" fazia um passeio por segredos de antigas civilizações, antes da era Cristã. Com três elementos cenográficos que representavam a "Arca Sagrada", as "Minas do Rei Salomão" e o "Cavalo de Troia", este todo construído com pequenos pedaços de madeira de demolição, resultando um lindo trabalho estético. O setor era encerrado com a marcante alegoria que simbolizava os "Jardins Suspensos da Babilônia", onde foi usado um enorme número de plantas de verdade. 

"Vestígios" era o segundo setor, retratando mistérios perdidos no tempo. Um belo tripé chamado de "Onde Jaz a Rainha?", trazia um grupo coreografado como se estivessem puxando o túmulo de Cleópatra. Logo depois, o segundo casal representava os náufragos, com um visual inspirado no filme "Piratas do Caribe". O Egito vinha representado na terceira alegoria, que encerra o setor; "Em busca do tempo perdido" era um grande pergaminho com uma estrutura que girava a partir dos componentes que davam movimento ao carro. 

As seis alegorias criadas por Paulo Barros, mais dois tripés.




Depois dos reinos antigos, "A identidade secreta" era o tema do 3 setor da agremiação, explorando o universo de super heróis e da cultura pop. A bateria vinha vestida de Máfia, além das alas da Liga da Justiça e do Fantasma da Ópera levavam a alegoria "Na calada da noite, sempre alerta", que trazia uma grande rampa, onde ora subiam homens-aranhas e ora desciam batmans de esquis, numa coreografia que levantava o público. A "Investigação" era a proposta do próximo quadro, que trazia fantasias divertidas como a "Um triângulo de bermudas" e "Tem ET na área?", a mística Área 51 foi representada no quinta carro da escola tijucana. Com um formato quadrado, a alegoria ficou marcada ao trazer um sósia de Michael Jackson. 

A última alegoria da apresentação.
Para finalizar, a grande apresentação, o setor "A tentação é descobrir" brincava com elementos da natureza. A sexta e última alegoria, "O seu olhar vou iludir", buscava hipnotizar o público com sombrinhas que giravam em espiral. A grande massa de componentes também formava o pavão, símbolo da escola, na alegoria mais fraca daquele desfile. No mapa de notas, o Borel faturou 50 em fantasias e alegorias, enquanto no quesito enredo foram 4 notas máximas e apenas um 9,9 descartado. As alegorias se destacaram pelo acabamento bem realizado, muito diferentes do que Barros havia apresentado anteriormente. A proximidade com Alex de Souza na Vila, no ano anterior, deu ao carnavalesco pop mais requinte na criação dos adereços. 


Unidos da Tijuca, não é segredo eu amar você!

O samba composto Julio Alves, Marcelo e Totonho, foi entoado por Bruno Ribas em seu segundo ano pela escola tijucana, e tinha uma letra fácil, com um verdadeiro "refrão chiclete". A simplicidade da letra e a melodia básica, porém agradável, conquistou o público e cumpriu seu papel principal de animar as arquibancadas e garantir o canto constante dos desfilantes. Mais embalados pelo alvoroço do que propriamente pela estrutura da composição, o quesito samba-enredo perdeu apenas um décimo no dia de julgamento. O samba de "É Segredo" virou mais um daqueles fáceis e inesquecíveis que todo simpatizante da folia tem na pontinha da língua.

A bateria, por sua vez, ficou sob o comando do Mestre Casagrande. Honrando o apelido, a Pura
Cadência manteve um bom andamento e teve até paradinha especial para que os ritmistas "mafiosos" da bateria, reinada por Adriane Galisteu, pudessem passar junto a um elemento alegórico que simbolizava um carro antigo. A escola perdeu, desconsiderando a nota 9,7 do descarte, um décimo no quesito, resultado bem melhor que o ano interior. 

Em harmonia, conjunto e evolução, o Pavão também faturou ótimas notas, iniciando um processo de profissionalização da agremiação, que a transformaria numa escola técnica e defensora de quesitos, bem no modelo que a Imperatriz e, logo depois, a Beija-Flor consagrariam. Vale destacar, nesse sentindo, o trabalho sempre competente de Ricardo Fernandes, que foi um dos responsáveis pela organização desses quesitos na Imperatriz e repetiu a fórmula no Borel. 

Cuidado, o que se vê pode não ser... Será?

Mesmo depois de mais nove escolas desfilarem, a Unidos da Tijuca se fixou no imaginário do público. Depois do show de animação, era grande a expectativa por uma boa colocação entre as seis melhores. A quarta de cinzas trouxe, então, momentos de muita felicidade. Gabaritou quesitos como samba-enredo, harmonia, conjunto, evolução, mestre-sala e porta-bandeira, fantasias, comissão de frente, alegorias e adereços e enredo; para resumo: com os descartes, a escola do Borel perdeu apenas um décimo no quesito bateria, justamente o que lhe separou de fazer o tão sonhado desfile "tecnicamente perfeito", mas não lhe separou do tão sonhado campeonato. Após 76 anos sem vencer, a escola tijucana conquista seu segundo título da história, quebrando o enorme jejum e ressurgindo com força, ocupando sempre o papel de uma das protagonistas da folia.

Nas premiações, a agremiação faturou dois Estandartes de Ouro, um de melhor escola e outro de comissão de frente. Ganhou ainda diferentes troféus de desfile, comissão, carnavalesco e intérprete, em diferentes premiações, como Estrela do Carnaval, Tupi Carnaval Total, S@mba-Net, Tamborim de Ouro e Plumas e Paetês. Consolidando um desfile histórico da nossa folia, vivo até hoje na memória e responsável pela aproximação de várias gerações ao carnaval.

A tentação é descobrir! 

Além de uma análise completa da apresentação, o Carnavalize busca pessoas que viveram e presenciaram o desfile abordado para narrar sua experiência vivida. Convidamos uma integrante da icônica comissão daquele ano para contar como foi fazer parte desse momento histórico. Alessandra do Valle é bailarina do Municipal e realizou as rápidas trocas de roupas diante do público. Confira:
Alessandra do Valle fantasiada pra participar do desfile de 2010.


"Eu já tinha desfilado antes em carros coreografados então pra mim a sensação de pisar na avenida como comissão de frente seria mais ou menos a mesma. Só que não rs foi bem diferente! Primeiro porque tinha toda aquela tensão da troca dos vestidos. A gente ensaiou muito, mas na hora é tudo bem diferente, né. Quando eu cheguei na avenida e me deparei com aquela multidão de gente eu fiquei meio que em choque. Que energia boa que vem daquele lugar! 

Alessandra descreveu a sensação de ver o público reagir às coreografias:

Quando fizemos nossa apresentação no setor 1 foi uma das sensações mais incríveis que eu já vivi. As pessoas estavam perplexas querendo saber como a gente tinha feito aquilo. Saímos do setor 1 com os gritos de é campeã! Eu ria e chorava de emoção ao mesmo tempo! Depois do desfile a sensação de de ver cumprido foi mais maravilhosa ainda. Ganhamos todos os prêmios naquele ano, tivemos nota 10 de todos os jurados e continuamos fazendo  apresentações durante o ano todo. Participar dessa comissão de frente foi uma das maiores emoções que eu já vivi. É sempre muito bom trabalhar com pessoas alto astral e tão queridas como a Pri  e o Rodri. Amo todos os amigos que fiz lá. Foi muito maravilhoso fazer parte dessa família! 

Sou Tijuca, vou além...


"É Segredo!" marca o principal trabalho de Paulo Barros na Sapucaí, ao articular truques de mágica e figuras do imaginário pop, o carnavalesco estabeleceu uma relação direta com o público, com surpresas e truques inesperados. A Comissão de Frente se tornou uma das mais emblemáticas da folia, sendo ponto de virada para um novo momento do gênero dos desfiles atualmente, para o bem e para o mal. Apaixonando um público amplo, a agremiação Tijuca se tornou uma escola jovem e de novos torcedores, abrindo terreno para seus próximos títulos e fixando como uma das principais agremiações do século XXI.



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Depois de dois textos que explicito alguns dos momentos mais marcantes que vivenciei na Marquês, resolvi mudar um pouco as tangentes desta coluna dominical. Dissertarei, opinarei e mais algum qualquer verbo terminado no futuro do indicativo sobre desfiles pré-escolhidos por mim (e, principalmente, por vocês). E não teria um outro desfile melhor para iniciar esses relatos que pretendo escrever. A priori, escolherei apenas este desfile e os próximos vocês escolherão, por aqui (nos comentários), no nosso Twitter ou, até mesmo, pelo nosso facebook. Tentarei passar uma visão "leiga", torcedora e singular do que vivi e senti ao lembrar dos desfiles, sempre falando de qual lugar assisti ao desfile. Esse de 2010, por exemplo, foi do termômetro da Sapucaí, o famoso Setor 1.

Foi no domingo. Domingo, isso mesmo. Foi do domingo que saiu o desfile da década, do dia que, hoje em dia, nem o carnavalesco mais medalhão quer desfilar. Pode-se dizer que só fazendo mágica, uma escola levaria neste dia, e foi isso que fez a Tijuca. Mágica, magia. Ilusão. Fez história. É inesquecível para quem estava lá como eu, quem viu pela tevê e, digo mais, foi tão incrível, que até alguém, se acompanhasse pelo rádio, não se esqueceria; Rascunharei um pouco sobre o dia de domingo, em si, até chegar a apoteose do dia (o trocadilho, perodem-no).

A tricolor insulana subira após oito longos anos injustos até voltar e permanecer no pantheon do carnaval carioca até os dias de hoje, com o enredo "Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis". E o fez, nada mais nada menos, com Rosa Magalhães, em um desfile super agradável, com fantasias e alegorias perfeitamente acabadas (como é de praxe da professora), superando, na quarta-feira de cinzas, o México vermelho e branco de Niterói - que também será lembrada aqui. Não entrarei em muitos detalhes dos desfiles que antecederam o escolhido para não alongar muito o relato. 

Após o levíssimo e alegre desfile da Ilha, que ressuscitava suas origens e principais características eternizadas em seus atemporais desfiles, veio a Imperatriz. Com o tema "Brasil de todos os Deuses", num desfile problemático, todavia, com poucos belíssimos nuances plásticos visuais. Com o gigantes carros e, um deles até acoplado, deram diversos problemas de manobras e locomoção atrapalhando demais a evolução, numa noite em que a harmonia também não foi lá essas coisas. Vale lembrar que o sambaço, meu preferido no CD - tirando o salgueirense, claro - não rendeu nem perto do esperado para aquela belíssima obra.

E lá vinha o azul pavão e amarelo ouro tijucano que escreveu o nome de Paulo Barros na história (posso falar isso, né!?). Eu, que engrossava o mar de bandeirinhas tijucanas distribuídas pelo Setor 1, já balançava anestesiado aos gritos de "É campeã!" apenas com o esquenta da Pura Cadência antes de ir pro recuo, o Setor 1 tem dessas... Risos. Uma escola, entretanto, que arrancou gritos desse tipo apenas com a bateria e a maravilhosa Dama da Máfia, Adriane Galisteu, não estava vindo para brincadeira, né!?




Eu ainda não havia participado dessa profecia em forma de coro. Admito. Àquela altura, ainda havia, em meu peito, a esperança da minha escola, também tijucana, bater o Tambor novamente e se sagrar bi-campeã! Mas... Por pouco tempo! A bateria ia indo pro recuo, e começava a entrar aquele elemento alegórico da comissão, a principio, estranho, mas intrigante. Ao fundo, já se via aquele fantástico abre-alas, a Biblioteca de Alexandria em chamas. Estava ali a iminência do momento mais fantástico que presenciaria de um desfile. O que foi aquela comissão de frente? Me lembro até hoje, olhava pra minha vó, olhava pra Marquês, pra minha vó, pra Marquês. "Tá vendo!?", "É isso mesmo!?", "Como assim?". Eles diziam no samba que meu olhar iludiriam e não é que o fizeram? Os integrantes daquela histórica comissão trocavam seus figurino seis, SEIS, S-E-I-S vezes durante a apresentação. A essa hora, o ditado popular ganhava vida e se a voz do povo é a voz de Deus, o Setor 1 acabava de sacramentar, novamente, a escola campeã de 2010.




Se aquela comissão de frente já deixou o Sambódromo pegando fogo, o abre-alas tijucano consolidou o fato, numa alegoria espetacular, o incêndio era retratado de forma incrível, dezenas de turbinas de ventilador e máquinas de fumaças davam um cenário genial. A segunda alegoria não ficava nem um pouco para trás, a alegoria representando os jardins suspensos da Babilônia contava com milhares de  mudas de plantas naturais, era linda. Ou melhor, é linda. A terceira alegoria representando os segredos da arqueologia também era bastante interessante. Outro ponto alto - o que já se torna, um tanto quanto, pleonástico ao se falar desse desfile - é o grande Cavalo de Troia. Os grandes heróis "esquiando", acho que o Homem-Aranha escalava, faz mais sentido. E, é claro, que The King of Pop não ficaria de fora, o misterioso Paulo Barros fez questão de representar seu ídolo, fazendo o Moonwalk ao relembrar da conhecida, todavia misteriosa Área 51 americana.


Admito, não lembrava muito das fantasias em si. A não ser a aquela que, para mim, fora a mais a interessante e criativa, o Triângulo das Bermudas, mas revendo o desfile, percebi muitas outras interessantes demais, como as que representava a Área 51 e o Túmulo da Cleópatra. Já falei, lá acima, sobre a fantasia da rainha de bateria, entretanto, não havia comentado da impactante coreografia da bateria, vestidos de chefões da máfia, fazendo com que se abrisse um espaço para subido do tripé, um carro antigo, dando o realce merecido para que a rainha comandasse sua trupe rítmica. Apesar de não ter comprometido em nada, ao meu gosto, a Pura Cadência comandado pelo Mestre Casagrande passou um pouco acelerado (à época, admito, novamente, não ter me incomodado, não sabia diferenciar surdo de caixa, mas hoje em dia, percebo que passou freneticamente... rs).

Esse texto ficou um pouco extenso, mas não que queira manter isso para os outros, fiz desse jeito para que demonstre bem a maneira que quero seguir com essas. Para meus próximos relatos, gostaria que vocês escolhessem os desfiles, estou na Sapucaí desde 2008. De 2008 à 2016, podem escolher o desfile que queiram desse período. Mandem-nos aqui pelo comentários do site, pelo nosso twitter, pelo meu twitter pessoal, por onde quiserem. Espero que tenham gostado desse novo modelo, talvez tenham percebidos algumas conjugações acerca desse desfile no presente, acredito que desfiles como esses eternizam-se, suspiram e vivem até hoje. Foi segredo... E tornou-se história!


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