• Home
  • Quem somos?
  • Contato
  • Lojinha
  • Exposições
  • Selo Literário
  • Apoiadores
Tecnologia do Blogger.
facebook twitter instagram

Carnavalize

 
Por Bernardo Pilotto:

Fundada a partir da fusão de 3 blocos carnavalescos que agitavam uma das maiores favelas da América Latina, a Acadêmicos da Rocinha completa hoje 32 anos um tanto distante de seus melhores momentos. Com o último lugar no desfile da Série em 2020, a escola vai desfilar na Intendente Magalhães no próximo ano e precisará se reconstruir, tal como já fez em outras momentos.

Assim como outras escolas cariocas, a Rocinha teve uma ascensão fulminante em seu começo. Com a participação do consagrado carnavalesco Joãosinho Trinta em seus primeiros desfiles, a agremiação foi logo campeã de grupos inferiores em 1989, 1990 e 1991, chegando ao Grupo A (nome da segunda divisão à época) em 1992. Depois de se estabilizar no grupo, a escola foi vice-campeã do carnaval de 1996 e conquistou o direito de desfilar entre as maiores do carnaval em 1997.  

Abertura da útlima passagem da Rocinha no Grupo Especial, em 2006. Foto: reprodução Liesa.

Na sua estreia no Grupo Especial, a Rocinha optou por um enredo polêmico: a escola se aproveitou do fim da proibição de temas estrangeiros para os enredos e trouxe para o desfile o universo infantil dos parques da Disney, com A Viagem Fantástica do Zé Carioca à Disney. Ainda que não tenha sido eliminada tal qual a Vizinha Faladeira em 1939 (quando a agremiação da Zona Portuária apresentou o enredo Branca de Neve e os sete anões e foi desclassificada devido ao regulamento da época), a Rocinha não foi bem em seu cortejo e acabou ficando em último lugar, voltando para o Grupo A.  
  
Nos anos seguintes, a escola alternou bons e maus desfiles, chegando a desfilar pelo Grupo B em algumas ocasiões. Em 2006 desfilou novamente pelo Grupo Especial, tendo novamente ficado em último lugar, voltando ao Grupo A.  
  
Desde então, a escola obteve sua melhor colocação em 2017, com um 6º lugar. É deste ano também o enredo da escola que mais chamou atenção, com a homenagem a Viriato Ferreira, um importante personagem do carnaval carioca. Viriato foi importantíssimo figurinista de carnavalescos como Rosa Magalhães, na Imperatriz, e Joãosinho Trinta, na Beija-Flor, por onde assinou as roupas de Ratos e Urubus, em 1989. Como carnavalesco, Viriato desenvolveu trabalhos na Portela (com destaque para o título de 1980), Santa Cruz e Imperatriz Leopoldinense.  

O belo desfile da Rocinha, em 2017, em homenagem a Viriato Ferreira. Foto: Fat Press / Liesa.
  Nesses últimos anos, a Rocinha também foi celeiro de carnavalescos que hoje estão em importantes escolas do Grupo Especial. Foi assim com Alex de Souza (atualmente no Salgueiro), Fábio Ricardo (responsável pela Mocidade Independente para 2021), Marcus Ferreira (campeão do carnaval com a Viradouro) e João Vitor Araújo (recentemente contratado pela São Clemente).
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Por Redação Carnavalize


Um dos principais carnavalescos a se destacar na última década, construindo uma forte personalidade em seus desfiles é Alex de Souza. O artista, que teve passagens marcantes em escolas como Rocinha, União da Ilha e Vila Isabel, vem traçando um estilo marcado pelo bom gosto e pelo requinte de suas criações. Pra encerrar nossa #SérieCarnavalescos, relembramos a trajetória desse grande profissional e seus casamentos mais marcantes.

A formação de Alex deu o tom a algumas de suas principais características. De um lado, o diploma de Técnico em Mecânica, lhe deu um olhar prático e tecnicista sobre a criação. Do outro, o carnavalesco também atuou no mundo da Moda, trabalhando em fábricas têxteis e como assistente de estilo, adquirindo experiência em aliar cores e texturas, como faria em seus carnavais.

Já a carreira nos bastidores da festa começou em 1991, quando foi auxiliar do carnavalesco Renato Lage, na Mocidade Independente, desenhando os figurinos de luxo e composições de alegorias por anos. Estreou como carnavalesco em 1996, atuando na União de Jacarepaguá, pelo Grupo D. Dois anos depois já estava na Série A assinando carnavais na Em Cima de Hora, onde conquistou um expressivo terceiro lugar.

Conceituado nas áreas técnica e artística, teve tais qualidades a seu favor ao definir um estilo mais clean e elegante, sendo reconhecido por suas fantasias grandiosas que abusam de enormes volumes, para aumentar o componente e ocupar toda a avenida. Nas alegorias, desenvolveu um estilo arrojado e limpo, como do seu mestre Renato Lage, mas acrescentando garbo e sinuosidade, típica dos traços curvilíneos dos movimentos "art nouveau" e "art deco", do início do século XX. Já nos quesitos narrativas, Alex de Souza sempre se mostrou competente em desenvolver enredos com narrativas simples e históricas, mas bem amarradas e com início, meio e fim bem definidos.

Oscilando entre resultados mais altos e medianos, Alex sempre se destacou em seus quesitos. Relembre com a gente suas passagens por agremiações dos últimos doze anos. 

Rocinha 2004-2006

O abre-alas de 2004 já trazia o estilo de cores leves e estética "art nouveau" de Alex.

Depois de três anos fazendo expediente na Leão de Nova Iguaçu, à época pela Série A, em 2004,  Alex assumiu a criação na Acadêmicos da Rocinha, então comandada pelo empresário Maurício Mattos. Estreando pela escola de São Conrado, o carnavalesco assinou um desfile que homenageou  Joãosinho Trinta, com o enredo "O Mago do Novo, João do Povo", na ocasião dos 70 anos do artista. O desfile viajou pela valorização do Brasil no repertório de João, seus desfiles mais antológicos, a vida de bailarino e até mesmo sua participação no nascimento da própria Rocinha – onde comandou os três primeiros carnavais da escola. O homenageado veio no último carro, trazendo os bons ares de um desfile bem recebido pelo público, que teve fantasias e alegorias luxuosas, como pedia o carnavalesco-tema do enredo. O resultado foi um terceiro lugar que brindou a união de Alex com a escola, o melhor resultado de seus sete carnavais até ali.

A belíssima abertura de 2005 da Rocinha (Foto: Carlos Magno)
No ano seguinte, o artista comandou uma mensagem de esperança com o enredo "Um Mundo Sem Fronteiras", numa época em que a comunidade-sede da agremiação passava por um período muito violento. O desfile mostrou a união de um mundo em que não existissem barreiras raciais, físicas, que fosse auxiliado pela tecnologia para estreitar e dinamizar relações com a globalização, unindo os povos de forma fraterna. A escola passou deslumbrante na Avenida, apostando em fantasias grandiosas e bem acabadas. O abre-alas foi um dos destaques, em formatos arrojados, com belíssima iluminação e uso de efeitos especiais. Surpreendendo com uma grande apresentação, a Rocinha consagrou-se campeã da Série A.

A integração da primeira ala com o abre-alas é recorrente na trajetória de Alex.

Estreando no grupo especial, Alex seguiu apostando num enredo com mensagem crítica. Assim, sendo a segunda escola a desfilar no domingo, a Rocinha apresentou "Felicidade não tem preço", sobre a relação do homem com o dinheiro. A narrativa teria a simplicidade característica da assinatura das temáticas de Alex, com histórias simples mas bem amarradas. Num excelente trabalho plástico do artista, ele apostou numa abertura luxuosa, que trazia o lendário pote de ouro após o fim de arco-íris. Quase todas as alegorias tiveram acoplamentos e eram grandiosas, com traços cleans e fácil leitura. As fantasias já começavam a desenhar o estilo volumoso que seria uma das características de Alex. 

Infelizmente, apesar do sucesso nos quesitos ligados ao carnavalesco, a escola desfilou sob forte chuva, que fez com que as fantasias pesassem ainda mais e vários carros apresentaram problemas na parte mecânica, prejudicando o cortejo. Ademais, a escola estourou em seis minutos o tempo de desfile, e o prejuízo na quarta de cinzas custou a permanência da escola no Grupo Especial. A partir dali, Alex encerrava a parceria com a Rocinha e rumaria para a Mocidade.

Vila Isabel 2008-2010

Mais uma bela abertura de Alex em 2008 (Foto: Widger Frota)
Após uma rápida passagem na verde-e-branco da Zona Oeste, num enredo sobre o artesanato brasileiro, Alex desembarcou num dos redutos mais boêmios do Rio de Janeiro. Logo no ano em que pintou na terra de Noel, o carnavalesco assinou o enredo “Trabalhadores do Brasil”. O desfile da Vila Isabel contou com a assinatura histórica e objetiva das narrativas do carnavalesco ao falar da história brasileira desde antes da chegada dos colonizadores, do trabalho escravo, até os dias atuais.

Com uma abertura que apostou em tons leves, tendo como destaque uma grande ala de baianas num degradê que retrava o mar indo até o abre-alas grandioso. Do conjunto alegórico, se destacaram o carro que abordou o trabalho escravo e a resistência negra nos quilombos e o traço arrojado e tecnológico das últimas alegorias, uma lembrando o governo Vargas e outra a indústria automobilística contemporânea. Com o resultado plástico ofuscado pela má condução da escolha do samba, junção à época, ficou-se esperando mais da escola, que chegou apenas em nono lugar.


Para o ano seguinte, uma chegada surpresa mudaria os rumos do povo de Noel e o trabalho de Alex. Com os preparativos para o desfile de 2009 já em andamento, Paulo Barros, após uma saída conturbada da Viradouro, se uniu ao time da Vila. A combinação inusitada do artista das alegorias humanas e do profissional de traços mais elegantes mudaria a trajetória de ambos para sempre. Num belo desfile sobre o centenário do Teatro Municipal, batizado de "Neste palco da folia, é minha Vila que anuncia: Theatro Municipal - A centenária maravilha”, Alex trouxe acabamento e requinte para as alegorias coreografadas de Barros, num ótimo casamento que mostrou ainda indumentárias bem desenvolvidas, inseridas ao enredo sendo, sem dúvidas, um dos pontos altos do desfile.


O abre-alas representou bem essa inusitada junção: em dois módulos acoplados, a primeira parte trazia uma representação do famoso "bota-abaixo" que marcou a construção da Avenida Rio Branco, obra clara de Paulo. Já o segundo chassi, com uma bela coroa, trazia o estilo "art nouveau" de Alex, típico do período retratado, com formas vazadas e tons claros. Pensando alegoricamente, o carro “A Construção de um Sonho: Theatro Municipal do Rio de Janeiro” trazia a cara do artista, por ser impecavelmente concebido, luxuoso e opulento.


A parceria que surgiu de maneira inusitada marcaria tanto a trajetória de ambos que as influências seriam vistas nos desfiles solo deles. Barros voltou à Tijuca, contando com acabamento e cuidado maior com as alegorias, aprendido ano antes. Isso foi crucial para o campeonato do Borel no antológico "É Segredo". Já Alex permaneceu na azul e branco, prestando uma aguardada homenagem ao maior poeta da agremiação azul celeste e branco.

Com o enredo “Noel: a presença do poeta da Vila”, a escola fez uma apresentação aquém das expectativas, mas de altíssimo teor emocional. Não era pra menos! Embalada por um dos melhores sambas do ano, a escola tornou a apresentar irregularidades em suas fantasias, o que, aliado ao pouco impacto visual das alegorias daquele ano, não atingiu o ápice que se esperava. Favorita no pré-carnaval, a escola fez uma boa apresentação embalada por um samba de Martinho da Vila e conquistou um quarto lugar, encerrando de forma honesta a primeira passagem do carnavalesco por aquelas bandas.

União da Ilha 2011-15



Nos cinco anos em que esteve na União da Ilha, Alex fez sua passagem mais marcante e com identificação em uma escola do grupo especial. Com a missão de substituir Rosa Magalhães, que garantiu a permanência da agremiação na elite da folia, o carnavalesco foi um dos grandes responsáveis em colocar de novo a tricolor insulana como protagonista depois de tanto tempo afastada dos holofotes, trazendo de volta o espírito jovem e simpático da escola.

A união entre a escola e o artista já começou com um apresentação marcada por dificuldades. O desfile sobre a teoria das espécies do naturalista Charles Darwin foi prejudicado por um incêndio que atingiu o barracão da Cidade do Samba. Junto de Grande Rio e Portela, a Ilha perdeu grande parte de suas fantasias e alegorias há menos de um mês do carnaval.

Os tons leves, as transparências, as formas sinuosas e simples: marcas das alegorias de Alex.

Felizmente, a agremiação conseguiu superar as dificuldades e fez uma grande apresentação na segunda-feira de carnaval. As poucas alegorias que foram atingidas conseguiram ser reconstruídas a tempo e as fantasias sofreram grandes simplificações. No desfile, predominaram figurinos formados por macacões de malha colorida que cobriam os componentes, somados a volumes adquiridos por adereços como golas, chapéus e esplendores. A escola desfilou da maneira leve que lhe é característica e, apesar de não concorrer no julgamento oficial, faturou um Estandarte de Ouro de Melhor Escola.


Nos anos seguintes, Alex seguiu apostando no resgaste da identidade insulana e fez belas homenagens a momentos históricos da agremiação. Em 2012, ao contar a história da Inglaterra num link com os jogos olímpicos daquele ano, tornou a carnavalesca Maria Augusta, responsável pelos desfiles mais marcantes da tricolor, soberana maior da apresentação, presente na comissão de frente. No desfile, um pede-passagem com o nome da agremiação em bolas brancas lembrava os elementos usados nos desfiles da carnavalesca pela União da Ilha. Já em 2013, a abertura do desfile que homenageou Vinícius de Moraes trouxe uma grande barca em estilo "art nouveau" remetendo à que a agremiação já havia apresentado em 1982, no marcante desfile "É Hoje".

A barca do abre-alas de 2013 lembrava a alegoria marcante de trinta anos antes.
Os dois desfiles apostaram numa linguagem mais simples, adequada ao estilo da escola. Apesar disso, as narrativas eram bem desenhadas, trazendo elementos da cultura pop num diálogo com o público. Também herança da parceria com Paulo Barros em 2009, as alegorias trouxeram o uso de coreografias e elementos vivos. Infelizmente, a escola falhou em outros quesitos, com samba medianos e problemas de harmonia, prejudicando a busca por melhores posições nestes dois desfiles.


O traço elegante não se perde em meia a tecnologia e iluminação das alegorias de Alex.

Em 2014, Alex realizaria a apresentação mais marcante de sua carreira e da trajetória recente da União da Ilha, num ápice do processo de resgaste da identidade da escola. Com "É Brinquedo, é brincadeira. A Ilha vai levantar poeira!", o artista valorizou ainda mais seu estilo pop e contemporâneo. Diferente do estilo mais espetacular de Paulo Barros, que traz esses elementos da cultura de massa de maneira mais seca e simples, o estilo de Alex era mais bem acabado ao apresentar personagens de filmes e da cultura popular, apostando em requinte e acabamento.




Com fantasias grandiosas que cobriam os componentes por inteiro e os transformava em ursinhos, palhações, figuras de filmes e videogames, a União literalmente brincou na avenida com um samba que arrematou pelo estilo leve, numa grande interpretação de Ito Melodia. Surpreendendo a todos, a escola conquistou um quarto lugar e voltou no sábado das campeãs após vinte anos sem realizar o feito.

As asas das ninfas do abre-alas de 2015 lembra belos vitrais.
No ano seguinte, o profissional seguiu apostando na temática leve e resgatou os temas críticos, como os que fez na Rocinha. O enredo "Beleza Pura?" passeou de maneira bem humorado pelos padrões de beleza da história humana, brincando com os contos de fadas, o universo da moda, das academias e das celebridades. As alegorias trouxeram a assinatura clean e requintada do artista, mas as fantasias acabaram pesando ainda mais pelo estilo já volumoso de Alex. Apesar do bom trabalho em enredo e quesitos plásticos, a escola não fez uma apresentação tão empolgante quanto no ano anterior. Um decepcionante nono lugar acabou dando fim ao feliz casamento entre a União da Ilha e o carnavalesco.

Vila Isabel 2016-17

O seca sertaneja retratada com uma forte iluminação e tons leves.
Com o fim do casamento com a tricolor, Alex voltou a escola que lhe firmou com um dos grandes profissionais do grupo. Para 2016, ele contou com o luxuosíssimo auxílio de Martinho da Vila para a concepção do enredo "Memórias do 'Pai Arraia' - Um sonho pernambucano, um legado brasileiro", em homenagem aos 100 anos de vida do político de esquerda Miguel Arraes, famoso por ser governador de Pernambuco. A narrativa trazia também referências evidentes ao estado do homenageado, como a literatura de cordel, na comissão de frente, e o carnaval nordestino, ao final do desfile.

O cortejo foi aberto com um plástica característica do carnavalesco, que com elementos visuais de tons terrosos e claro, a elegância e uma assinatura clássica ao tratar da seca nordestina, tema difícil de materializar de maneira bela. Nesse primeiro setor do enredo, se destacou ainda a representação de carcaças de animais, principalmente no abre-alas, para ilustrar o cenário da obra, no conhecido traço "art nouveau" de Alex, marcando pela limpeza e sinuosidade. A fim de retratar a população campesina, o carnavalesco utilizou palafitas e manguezais, representando o Acordo do Campo, promovido pelo homenageado enquanto governador, com a figura central do caranguejo na segunda alegoria. A bela fantasia das baianas, um destaque positivo do desfile, representou os canaviais. 


Ainda tratando da obra política de Miguel, a escola trouxe o Movimento de Cultura Popular, responsável por unir intelectuais para a promoção de uma educação de qualidade no estado, com objetivo de alfabetizar adultos. Na passagem da Vila, pode-se observar o terceiro setor com alas representando disciplinas escolares e a quarta alegoria, "Servindo de Lição", fazendo jus à obra educacional do homenageado. Ainda se tratando do MCP, o projeto detinha o ideal de divulgação da cultura nordestina para os habitantes da região, sendo contado no desfile nas duas últimas alegorias.  

De modo objetivo, Alex soube driblar a narrativa clichê para construir a ideologia do político pernambucano nos carros. O chão da escola, vibrante com o belo enredo, esbarrou no excesso sobre as fantasias, que promoveu dificuldades para a evolução de alguns componentes e descontos na quarta-feira de cinzas. Ao final da apuração, a escola amargou a 8ª colocação, deixando a sensação para o grande público de que poderia ter voltado ao sábado das campeãs.

Invés dos tons terrosos normalmente ligados à África, Alex optou por uma abertura preta e prata para lembrar os "tumbeiros".

Seguindo o padrão temático da Vila Isabel, Alex de Souza trouxe “O Som da Cor” para o carnaval 2017. O enredo era uma ponte entre os estilos musicais da América, partindo da negrura dos tambores africanos, representada na comissão de frente assinada por Patrick Carvalho. Problemática no pré-carnaval, a Vila enfrentou muitas dificuldades financeiras e de barracão para colocar seu carnaval na rua. O desfile tornou-se reflexo disso: muitos problemas de acabamento nas alegorias e reproduções aquém do esperado retiraram a escola do bairro de Noel da briga por uma melhor posição. 

Dessa forma, pode-se destacar do cortejo a concepção e idealização do enredo, que prometia fazer uma viagem por referências musicais na América Latina. Tal ideia foi clara no que tange à chegada dos tambores africanos pelos escravos, influenciando a formação de diversos ritmos. No desfile, a apresentação de ritmos como Tango, Pop (numa ideia de realização duvidosa) e da música afro-brasileira, que trouxe à tona o samba, evidenciou problemas de acabamento. A Vila amargou a briga pelo rebaixamento, terminando em 10ª, acima apenas de Unidos da Tijuca e Paraíso do Tuiuti.

Salgueiro 2018

A imponente abertura em tons quentes deste ano, com a cara do Salgueiro.  (Foto: O Globo)

De mudança, Alex chegou à rua Silva Teles após o fim do longínquo casamento do Salgueiro com Renato e Márcia Lage. Com a alta expectativa da escola retomar a temática negra, coube ao departamento cultural, junto ao carnavalesco, promover o enredo "Senhoras do Ventre do Mundo", tema que fazia referência ao carnaval de 2007, "Candaces", num desfile de resultado injusto aos olhos dos salgueirenses. Com a promessa de um carnaval competitivo apesar da crise, a presidente Regina Celi concedeu a Alex boas condições de trabalho, o que acarretou num belo desfile.

Trazendo o "Éden Africano" na abertura do cortejo, o carnavalesco soube trabalhar bem com as cores da escola, impactando pela grandiosidade do abre-alas da Academia. A primeira alegoria da escola trouxe a figura da Grande Mãe com o ventre que daria origem à Terra a partir da África. Num tema que demonstrou força ao representar a ancestralidade, a escola valeu-se de referências a deusas e rainhas africanas nos primeiros setores, inserindo referências históricas, como é possível observar no segundo setor setor: mulheres que, como diz o samba, foram 'generais contra o invasor', o colonizador europeu.

Uma das grandes imagens do carnaval de 2018. (Foto: O Globo)
A chegada da negritude feminina ao Brasil também é representada posteriormente, de modo que profissão e religiosidade daquelas vindas da África são pontos cruciais no enredo de Alex. Para finalizar o desfile, a Academia buscou na figura de literatas, como Carolina de Jesus, a ponte para homenagear as mulheres que fizeram e fazem história no Salgueiro. Dessa forma, a última alegoria trouxe uma das mais belas imagens do carnaval de 2018, em que a figura da Pietà, escultura de Michelangelo, é retratada com escritos do livro "Quarto de Despejo".

Apesar da belíssima homenagem à figura feminina, que deu ao salgueirense o gosto do título, a escola terminou a apuração na terceira colocação, perdendo a primeira posição no último quesito. De todo modo, Alex de Souza demonstrou sua fibra ao vibrar com a Academia e teve seu contrato renovado. Para 2019, a escola levará "Xangô", um tributo ao orixá que guia os caminhos na alvirrubra do Andaraí.


Vivendo um momento esperado de valorização do seu trabalho com o casamento com o Salgueiro, Alex só confirma porque é um dos grandes nomes revelados do carnaval da última década. Soube se adaptar a festa e apresentar uma assinatura pessoal, atualizando o estilo tecnológico e clean de seu mestre Renato Lage, com um toque sinuoso e particular inspirado nos movimentos "art nouveau" e "deco". Atento a mudança, a parceria com o balado Paulo Barros trouxe o frescor contemporâneo e pop ao estilo de Alex, que ganhou ainda mais força ao dialogar com a cultura de massa e fazer bom uso de alegorias coreografadas.

Sabendo cumprir com competência todos as funções de um carnavalesco, Alex é um dos raros profissionais atuais que alia narrativas próprias e bem desenvolvidas com fantasias e alegorias com um traço só dele, dominando todas as áreas artísticas da linguagem de uma escola de samba. Um carnavalesco completo e fundamental dos dias atuais. 

Share
Tweet
Pin
Share
1 Comments





Apresentação 

Tatuagem emocional. Tudo está marcado por melanina entre células. A cor impressa na pele denuncia nossa etnia, sinaliza onde está fincada nossa raiz, revela até nossa cultura matriz. Cor da pele retrata histórias, resgata memórias, nos permite transportar afetivas tradições como fruto duma longa trajetória.

Discriminar povos pela cor da pele é algo irracional. Arremessar bananas aos irmãos negros como se este ato preconceituoso fosse uma grande ofensa não deve mais gerar abalo moral, pois segundo estudos científicos baseados na teoria evolucionista iniciada pelo inglês naturalista Charles Darwin, macacos e humanos possuem um parente ancestral em comum. Ambos fazem parte da superfamília dos primatas.

Muito embora Darwin tenha razão, afinal de contas todos nós somos iguais perante leis determinadas pela evolução das espécies, ainda hoje há quem sofra na pele, por pura ignorância alheia, constrangedores atos racistas. Rocinha, subversiva, inverte essa lógica preconceituosa lançando bananas aos primatas ainda primitivos, homens mentalmente apequenados envenenados pelo racismo. Dessa forma, nossa escola deseja valorizar ações afirmativas no sentido de que todo cidadão negro se imponha enquanto agente transformador, também desenvolva sua autoestima e reconheça seu próprio valor.

No tabuleiro da baiana tem?… Bananas para o preconceito! Carnaval é cenário propicio para embananar qualquer realidade. Eis porque cada banana citada, simbolicamente relançada, tomará o contorno da valorosa identidade afro-brasileira manifestada através da dança, da música, das artes cênicas, dos esportes, dos místicos rituais, da luta por justiça almejada por negras mães Marias lata d’água, do majestoso legado cultural deixado pelos escravos, que embora vivessem em condições degradantes, jamais esqueceram sua negra nobreza trazida na pele desde África.

Sinopse

Embora não tenhamos evoluído de macaco algum, apenas sejamos com ele parentes de um ancestral peludo em comum, Charles Darwin hoje se espantaria caso testemunhasse alguém, por puro preconceito, jogar bananas para depreciar irmãos de pele negra. Quem manifesta preconceito racial esquece-se duma inusitada bananosa descrita na teoria evolucionista defendida pelo aventureiro inglês naturalista: tanto os macacos como os homens pertencem ao mesmo grupo evolutivo, o supergrupo dos primatas. Temos raízes primatas sim, tanto quanto silvestres chimpanzés, inclusive nossos genes são 98% idênticos, fato comprovado pela engenharia genética. Então, por que bananas atiradas aos povos de origem negra? Somente por uma questão de pele?

Originariamente pertencermos ao planeta primata. Braços dados ou não, somos todos iguais e habitantes de uma embananada selva erguida por pedras, tão tecnológica quanto caótica, onde ações intolerantes registradas pela História evidenciam escancarada discriminação racial. Em particular no Brasil, atos preconceituosos contra afrodescendentes mancham esta nação mulata desde os tempos coloniais escravocratas.

Em pleno século XXI preconceito é prova do quanto alguns humanos continuam primatas primitivos na mentalidade. Eis porque a luta antirracismo precisa ter caráter de constante ativismo social na construção duma legitima identidade negra.

Quando Darwin assegura que macacos e homens possuem um parente primata em comum ele permite justificar que bananas atiradas aos cidadãos negros também possam ser relançadas, como efeito moral afirmativo, contra quem os discrimina. “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, sempre haverá guerra”… Guerra de bananas!

Banana ouro… Naquele anacrônico Brasil colonial os africanos aqui desembarcaram na condição de escravos, entretanto, nobres negros se rebelaram revelando o real significado de símbolos monárquicos adotados nos quilombos, irmandades e festivas manifestações populares. Essa nobreza negra tatuada na pele desde África, continente marcado por grandiosos reinados, foi instrumento relevante para superar atrocidades no ambiente humilhante da escravidão e, tempos depois, no dissimulado racismo à brasileira. Assim, Chico escravizado “deu bananas” ao garimpo onde era explorado, pois nas Minas Gerais virou rei após comprar alforrias com o ouro em seus cabelos guardado. Nobremente paramentados, alegres cortejos de ex-escravos saiam às ruas para celebrar com danças, batuques e cantos sagrados a coroação do Rei do Congo, nosso tradicional congado. Outro séquito afro abrasileirado, embalado pelas alfaias de baque virado, reverencia a corte real dos maracatus cujos Reis e Rainhas, abrigados debaixo duma suntuosa sombrinha com franjas douradas, empunham cetros e cabeças coroadas. Negro escravo vestido como nobre refletia “banana deboche” aos olhos dos senhores fidalgos.

Banana prata… Injustiçada, proibida, estigmatizada, importantes expressões culturais traçadas pelos artistas afro-brasileiros resistiram aos grilhões do nefasto preconceito após percorrer uma longa trajetória até alcançar autonomia, reconhecimento e criatividade própria. Arte negra: vivifica palavras versadas transcritas em primorosas obras literárias; projeta dramaticidade exibida na glamourosa tela; esbanja talento quando protagoniza personagens famosos em telenovelas; atrai holofotes midiáticos sobre astros-reis dos verdes gramados. Dentre valorosos campos artísticos dois cenários foram igualmente pródigos ao estrelato negro: o morro carioca, onde brotaram sambas e as “escolas”, agremiações que davam aos músicos um senso de legitimidade e permitiu romper com as segregadoras barreiras sociais porque daquele torrão fecundo desceram batucadas inspiradas por poetas bambas, muitas delas improvisadas, eternizando estrelas como Ciata, que “pelo telefone” foi denunciada, mas ao chefe da polícia “deu bananas” pra não deixar a chama do sambista malandro ser apagada. Outro cenário exuberante protagonizou espetáculos iluminados pela mágica ribalta dos palcos: TEN, Teatro Experimental Negro, idealizado por Abdias do Nascimento, um grande expoente na luta contra o racismo e a marginalização das populações afrodescendentes. Este projeto inclusivo iniciado em 1944 discutia a valorização social do negro no teatro e na dramaturgia brasileira levando ao tablado operários, empregadas domésticas, faveladas e funcionários públicos modestos, todos recrutados por Abdias, cuja aspiração era compor elencos negros para delinear um novo estilo dramatúrgico, com uma estética própria.

Banana da terra… Tal qual um Baobá frondoso nossa gente crioula floresceu em terrenos controversos desse Brasil moderno para fazer amadurecer novas consciências, ramificar autoestimas, desabrochar militantes ávidos por plantarem sementes afirmativas. Agora, ações antirracistas acontecem livremente nas ruas, nas praças, nas escolas, no trabalho, no interconectado ambiente virtual, sobretudo nas favelas, verdadeiras senzalas urbanas onde negras mães Marias continuam erguendo suas latas d’água e seguem evocando justiça em direção ao novo dia; onde jovens negros denunciam cruéis realidades ao ressoar tambores que abalam estruturas impostas pela conservadora sociedade. Mas seja na favela, seja em qualquer lugar, preconceito racial não conseguirá inferiorizar quem tem cabeça feita para ostentar cabelo, cabeleiras, cabeludos com seus poderosos blacks subversivamente descabelados. Tampouco fará intimidar filhos devotos irmanados pela fé matriz, aqueles que carregam poder no axé, que até ofertam bananas em alguidás pedindo proteção aos orixás porque neles encontram forças para lutar: “Salve Nosso Senhor Jesus Cristo, Epa Babá, Oxalá! Salve São Jorge Guerreiro, Ogum, Ogumhê, meu Pai! Salve Santa Bárbara, Èparrei Oyá, minha mãe Iansã! Salve São Pedro, Kawô Cabecilê, Xangô! Salve Nossa Senhora da Conceição, Odofiaba, Yemanjá”!

Evolutivo é perceber essa batalha travada no presente se constituir em ações normativas pelo livre direito das futuras gerações poder transmitir negras heranças na pele, na alma, na voz… Porque ser negro não é um problema, ser negro é a solução.

Yes, nós damos bananas! Bananas jogadas aos homens primatas ainda primitivos involuídos pelo preconceito racial. Parafraseando Martin Luther King, Rocinha também acalenta um esperançoso sonho. O sonho de ver qualquer cidadão negro julgado por sua personalidade, jamais pela cor impressa em sua pele. E como sonhos possuem asas, voemos alto como livres borboletas por sobre a Sapucaí, palco fantasioso onde uma irreverente bananada carnavalesca lançada pela consciente negritude sambista, soará como manifesto antirracista: “Tire seu preconceito do caminho que eu quero desfilar com a minha cor”.

Por Junior Pernambucano. 
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Por Leonardo Antan, Felipe de Souza e Beatriz Freire
A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Depois da estreia com o carnavalesco Jorge Silveira, seguimos rumo à Série A. Campeão do grupo em 2017, com um desfile no Império Serrano sobre o poeta Manoel de Barros, o jovem Marcus Ferreira tem trajetória experiente no grupo de acesso, passando por diversas escolas. Após o título, o trabalho do artista ganhou um novo patamar e encara o desafio de assumir a Acadêmicos da Rocinha, que também vem de uma apresentação elogiada, assinada por João Vitor Araújo. Conversamos sobre os preparativos para este ano, as dificuldades da criação com a crise financeira e os momentos mais marcantes da sua carreira. Vem conferir.


CARNAVALIZE: O barracão é o seu espaço de produção de alegorias e fantasias, tudo é confeccionado aqui dentro ou ainda há algo que venha de fora? 

MARCUS: As únicas alas que não são feitas aqui são as alas comerciais; a escola tem quatro delas. O restante é produzido aqui dentro com o apoio da quadra também. Eu sempre mando algumas peças do carnaval que eles estão reproduzindo lá e já vem pronto.

CARNAVALIZE: E você fiscaliza todo o processo de produção, de adaptação dos protótipos, substituição de materiais para que qualquer contratempo que haja seja resolvido da melhor forma…

MARCUS: É um facilitador esse ano porque está tudo aqui, então até que não estou tendo problemas com substituição, mas, às vezes, sobra um pouquinho de uma ala, aí a gente joga pra cá… faz pequenos recortes e remaneja os materiais.

CARNAVALIZE: Como foi o processo de construção das alegorias? Foi focado num projeto de execução original ou houve um pensamento nas peças que você já tinha disponíveis para reaproveitar? 

MARCUS: Eu acho que o carnaval da Série A é um processo criativo que já vislumbra o que a gente ganha do Especial, acredito que praticamente 100% do grupo faça o reaproveitamento. Aqui, na Rocinha, eu queria trazer um carnaval maior esse ano, carros com mais volume, mais peças, já tendo em vista que a escola veio de um grande carnaval no último ano e que eu vim de um campeonato com o Império Serrano. Desde maio a gente está nesse processo de construção do carnaval, visando fazer um desfile com uma qualidade melhor.

Marcus Ferreira em meio a uma das alegorias para 2018 (Fonte: Reprodução/Acadêmicos da Rocinha)
CARNAVALIZE: O enredo de 2018 é sobre a xilogravura e você já havia desenvolvido um enredo na União do Parque Curicica, intitulado "Corações Mamulengos". A relação com linguagens mais populares tem sido uma característica dos seus últimos trabalhos. Como isso tem se tornado exatamente um traço da sua personalidade como carnavalesco? 

MARCUS: Eu procuro sempre pensar em temas diferentes para o carnaval, eu acho que um bom carnaval parte de uma temática apropriada, de um tema bem escolhido. Quando eu fiz o carnaval da Curicica, conversando com a diretoria, na época, eles me pediram um enredo que tivesse uma linguagem diferente e que possivelmente focasse no Nordeste. Na época, eu tinha teatro dos mamulengos e foi um dos carnavais que mais me diverti fazendo. Dentro de todas as limitações da escola, mas que gostei muito de realizar

E ano passado, no Império Serrano, a gente tinha um contato com a Secretaria de Cultura do Mato Grosso do Sul e eles sugeriram que fizéssemos um carnaval sobre o Manoel de Barros, já que é um grande ícone do estado, e aí tentei dar aquele viés de brasilidade. Era um enredo pautado em cima do quintal dele mas com um olhar sobre tudo que ele via no meio natural do Pantanal sul-matogrossense; então, eu também dei um olhar mais, digamos, regionalista.

O abre-alas do desfile campeão de 2017 (Fonte: O Globo)
E esse ano, vindo pra Rocinha, eu apresentei três temas para a escola, um de temática nordestina e outros dois não. Por ser uma comunidade também de nordestinos, o presidente Ronaldo falou de imediato: "esse é o enredo da Rocinha". Dentre os três, era mesmo o que eu tinha em mente fazer e ele também optou pelo "Madeira Matriz". Os outros dois também eram ideias bacanas, mas acho que por desejo, esse ano queremos mostrar uma estampa diferente. Apesar de nordestino, o carnaval da Rocinha não tem uma cara de Nordeste, ele fala sobre artes plásticas. Então, eu queria muito realizar esse carnaval.

CARNAVALIZE: O enredo da Curicica em 2016, os Mamulengos, retrata o nordeste, mas é um Nordeste completamente diferente da xilogravura. Os dois propõem temas parecidos mas com possibilidade de soluções muito diferentes. Como é o processo de construção dessa estética? E como aliar esse processo de busca de referências a uma estética apurada e menos tradicional?

MARCUS: A minha ideia era fazer um carnaval diferente, eu acho que é dever do artista do carnaval motivar o carnaval carioca, trazer uma estética diferente, ou um enredo diferente. Então o pensamento de construção do desfile da Rocinha foi em cima disso. Ano passado eu até fiz um carnaval muito tradicional no Império Serrano, de fantasias e alegorias mais tradicionais. Pra esse ano, pensando pra 2018, eu queria trazer inovações em termos da fantasia, indumentária, corte de figurino, de modelagem e de estampa também, porque as fantasias da Rocinha são super simples em termos de material, mas eu queria dar esse requinte. São fantasias que mostram o enredo principalmente através da estamparia, da cor, da base do carnaval preto e branco, como é xilogravura. Meu processo criativo foi em cima disso, de pensar o novo.

CARNAVALIZE: Então basicamente a gente tem o preto e branco como base e você vai brincar em cima dessa paleta de cores durante o desfile?!

MARCUS: A minha ideia inicial era trazer a escola toda preta e branca, eu imaginava que a xilogravura se baseava nessas cores, então faria a escola toda nesse tom. Mas conversando como o J. Borges, ele me falou uma frase que eu achei emblemática: ele passou a fazer a xilogravura preta e branca, mas as mulheres sempre pediam um toque colorido. Como, por exemplo, um cortador de cana onde o desenho em si mantinha o preto e branco, mas a cana era verde. Ou o vendedor de bola, onde só a bola é colorida. Então assim nasceu o conceito do enredo da Rocinha.

Detalhes das alegorias para o desfile da Rocinha em 2018 (Fonte: Facebook)
CARNAVALIZE: Partindo pra uma segunda parte da entrevista, vamos focar mais em diferentes partes da sua carreira. Você iniciou a carreira na Mocidade de Vicente de Carvalho, na Intendente Magalhães, e pra 2018 você também assina a Curicica, na série B. Qual a principal diferença do processo criativo pra Intendente, que é um carnaval com mais dificuldades ainda que a Série A, e como esses problemas moldam seu trabalho?

MARCUS: Eu acho que a visibilidade da Série A traz uma maior cobrança, mas a luta na Intendente é maior. Esse ano o carnaval da Curicica é planejado com cara de série A, então acho que é basicamente isso. O carnaval da Série A é maior, o recurso na Intendente é mais escasso, com a ajuda de parceiros a gente tá conseguindo viabilizar. 

CARNAVALIZE: E o atraso da verba prejudicou bastante o processo?

MARCUS: Assim, se a verba já tivesse saído, o carnaval da Rocinha já estaria pronto. Mas a gente conseguiu caminhar bem sem ela.

CARNAVALIZE: Você inicia sua carreia na Estácio,  com dois carnavais, 2011 e 2012. Como foi essa estreia na escola e na Sapucaí? Quais as dificuldades e facilidades daqueles processos?

MARCUS: Quando eu assumi a Estácio, foi meio que no susto. Porque eu estava vindo de uma série C na época, subi pra B e fiz lá a Mocidade de Vicente de Carvalho, abrimos o grupo. Estava fazendo um curso na Argentina antes do presidente Marquinhos chegar com a proposta. E eu pensei "caramba, vou pular pra Série A", pois até então eu havia feito séries B e C. Aí aceitei e fiz, foi bom na época, a escola estava com bastante dificuldade, mas houve muito empenho. Eles me pediram um enredo que tivesse esse viés de religiosidade, um pouco de romantismo.

Abre-alas da Estácio de Sá em 2011, do desfile "Rosas" assinado por Marcus.

Eu já estava na primeira semana de agosto, então já fiquei na Argentina pensando o que eu poderia fazer pro carnaval da Estácio, até que surgiu o enredo "Rosas", que é um carnaval que eu guardo com bastante carinho. Tanto da escola, tanto do que pudemos realizar aquele ano. E aí, em 2012, eu continuei a pedido da diretoria e fizemos Luma de Oliveira. Foi um carnaval um pouco dificultoso, mas que eu conquistei todas as notas máximas em enredo, que era bastante contestado. Consegui chegar a uma leitura pra fugir do óbvio de uma biografia clássica, através de um poema do João Bosco, que, na época, deu um caminho ao enredo.  

CARNAVALIZE: E aí veio Jacarezinho em 2013, Renascer em 2014. Passou um ano na Intendente em 2015 novamente e aí você chega na Curicica em 2016, nessa carnaval que já comentamos, que é também um ponto de virada da sua carreira. É um desfile onde você conquista uma maturidade artística do processo, do comando de uma escola, que você consegue colocar mais a sua cara? Como você enxerga esse desfile na sua carreira?

MARCUS: Foi um desfile que também foi uma virada pra Curicica, né!? A escola tinha vindo de um carnaval muito traumático no ano anterior, por falta de fantasia. Então foi um carnaval bem planejado, o único empecilho foi um carro que não desfilou, quebrou dentro do barracão. Então a gente acabou ficando em décimo lugar por conta disso, porque senão chegaríamos muito mais a frente. Mas foi um carnaval que eu guardo com bastante carinho por tudo que eu pude realizar nesse processo - também de muita reciclagem.

Eu ouvi uma frase do Chico Spinoza que, pra ele, tinha sido o melhor carnaval da Série A daquele ano. Eu perdi vários prêmios aquele ano é por conta da falta da alegoria, é um quadro que conta muito. Mas depois eu fiquei sabendo através dos premiadores que era o enredo mais votado, mas pela falta do carro acabou não ganhando. Foi algo que assim me desmotivou muito, eu cheguei cedo na concentração e me disseram que a alegoria teve um problema mecânico. E era o carro mais bonito da escola, era todo feito de fuxico. Quando as pessoas entravam no barracão, ele era o que mais chamava atenção.

Abertura da elogiada apresentação de 2016 (Fonte: O Globo)

CARNAVALIZE: Você acha que essa foi a maior dificuldade da sua carreira, entre tantos que você já viveu na Série A? Essa foi a mais marcante? 

MARCUS: Acho que da minha carreira, as maiores dificuldade foram duas, foi quando eu fui carnavalesco da Renascer de Jacarepaguá, onde eu tive muita dificuldade de tentar finalizar o carnaval da escola e ano passado no Império Serrano também, pela cobrança que existia do público no entorno da escola, além das dificuldades históricas que todo mundo sabe que o Império passa. E havia também uma cobrança de título. Talvez o carnaval do ano passado tenha sido um dos mais baratos da minha carreira em termos de equivalência, com o tempo eu fui adquirindo essa manobra de fazer um carnaval vistoso com pouco recurso. 

CARNAVALIZE: Como pra esse ano, né...!? Vendo o seu trabalho nas redes sociais, como as fantasias têm volume, há um requinte mesmo não sendo materiais caros. É um conjunto que pode dar muito resultado na avenida...

MARCUS: As pessoas me perguntam "A Rocinha tá linda, vai dar para reproduzir?". E estamos conseguindo, sim, fielmente. Às vezes falta um tecido ou outro, aí a gente muda pela mesma qualidade, faltou um amarelo eu coloco verde pois já tem na fantasia. Todos os meus amigos também então partindo pra isso, mas em termos de qualidade e volume, tem sido uma surpresa pra mim. A gente está conseguindo até em alegorias fazer um carnaval com carinho. Estamos caminhando bem. A minha parte de decoração e aplicação nos carros está com 90% pronto. É um trabalho que eu faço sempre, já deixo tudo adiantado pra esperar a madeira e o ferragem.

CARNAVALIZE: Pra finalizar, você conseguiu mexer muito na estrutura das alegorias? Você gosta de mexer? 

MARCUS: Esse ano eu estou mexendo em dois carros, o abre-alas e o segundo carro. Os outros, resolvi crescer, porque não se tem dinheiro nem tempo, pelo atraso e diminuição de verba. É melhor você finalizar um carnaval do que cortar, ainda mais sendo até a realidade das escolas do Especial.

Uma das fantasias da Rocinha para 2018, intitulada "Plantio da cana".
Agradecemos demais a disponibilidade e simpatia de Marcus por ter nos recebido no barracão e trazer pra vocês mais sobre a visão desse artista da festa e seus processos de criação. Até o carnaval, toda sexta traremos mais entrevistas com outros carnavalescos. Até breve! 
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Mais Antigo

Visite SAL60!

Visite SAL60!

Sobre nós

About Me

Somos um projeto multiplataforma que busca valorizar o carnaval e as escolas de samba resgatando sua história e seus grandes personagens. Atuamos não só na internet e nas redes sociais, mas na produção de eventos, exposições e produtos que valorizem nosso maior evento artístico-cultural.

Siga a gente

  • twitter
  • facebook
  • instagram

Desfile das Campeãs

  • #SÉRIEDÉCADA: as 10 melhores comissões de frente do carnaval carioca da década
    A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as  segundas ,  quartas  e  sextas-feira...
  • Processos da criação: Jack Vasconcelos - Do traço à mensagem, um carnaval com conceito
    Por Redação Carnavalize A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, des...
  • Carnavápolis | Isso aqui é um pouquinho de Brasil iaiá
    O clima olímpico invadiu a nossa cidade do Carnaval também. O show inaugural das Olimpíadas chutou as bundas dos pessimistas e do ...
  • Unidos da Tijuca: "Música na alma, inspiração de uma nação"
    Esta é uma história de ficção livremente inspirada no encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong, acontecido em 27 de novembro de 19...
  • 7x1 Carnavalize | Sete sambas ruins que amamos odiar (Ou que amamos mesmo)
    por Leonardo Antan A lista de melhores sambas-enredos de todos os tempos é gigante. Sempre difícil apontar qual o maior hino da hi...
  • Do Setor 1 à Apoteose: Orfeu, o negro do carnaval - Viradouro 1998
    Por Beatriz Freire e Leonardo Antan "Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história...

Total de Carnavalizadas

Colunas/Séries

sinopse BOLOEGUARANÁ 7x1 carnavalize Carnavalizadores de Primeira Quase Uma Repórter 5x colablize série década artistas da folia giro ancestral SérieDécada quilombo do samba Carnavápolis do setor 1 a apoteose série carnavalescos série enredos processos da criação dossiê carnavalize Na Tela da TV série casais 10 vezes Série Batuques Série Mulheres Série Padroeiros efemérides minha identidade série baluartes série sambas

Carnavalizações antigas

  • ▼  2023 (38)
    • ▼  ago. (1)
      • Projeto "Um carnaval para Maria Quitéria" valoriza...
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (1)
    • ►  fev. (28)
  • ►  2022 (41)
    • ►  dez. (1)
    • ►  jul. (1)
    • ►  jun. (5)
    • ►  mai. (1)
    • ►  abr. (30)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (1)
  • ►  2021 (10)
    • ►  set. (4)
    • ►  jun. (1)
    • ►  mai. (1)
    • ►  mar. (2)
    • ►  fev. (2)
  • ►  2020 (172)
    • ►  dez. (8)
    • ►  nov. (17)
    • ►  out. (15)
    • ►  set. (13)
    • ►  ago. (19)
    • ►  jul. (16)
    • ►  jun. (15)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (11)
    • ►  mar. (10)
    • ►  fev. (33)
    • ►  jan. (5)
  • ►  2019 (74)
    • ►  dez. (2)
    • ►  nov. (5)
    • ►  ago. (4)
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (4)
    • ►  abr. (2)
    • ►  mar. (35)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (12)
  • ►  2018 (119)
    • ►  dez. (1)
    • ►  out. (6)
    • ►  set. (1)
    • ►  ago. (3)
    • ►  jul. (5)
    • ►  jun. (20)
    • ►  mai. (12)
    • ►  abr. (5)
    • ►  mar. (3)
    • ►  fev. (42)
    • ►  jan. (21)
  • ►  2017 (153)
    • ►  dez. (28)
    • ►  nov. (7)
    • ►  out. (8)
    • ►  ago. (5)
    • ►  jul. (12)
    • ►  jun. (7)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (7)
    • ►  mar. (7)
    • ►  fev. (49)
    • ►  jan. (13)
  • ►  2016 (83)
    • ►  dez. (10)
    • ►  out. (3)
    • ►  set. (9)
    • ►  ago. (22)
    • ►  jul. (39)

Created with by ThemeXpose