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Carnavalize

Por Redação Carnavalize


Um dos principais carnavalescos a se destacar na última década, construindo uma forte personalidade em seus desfiles é Alex de Souza. O artista, que teve passagens marcantes em escolas como Rocinha, União da Ilha e Vila Isabel, vem traçando um estilo marcado pelo bom gosto e pelo requinte de suas criações. Pra encerrar nossa #SérieCarnavalescos, relembramos a trajetória desse grande profissional e seus casamentos mais marcantes.

A formação de Alex deu o tom a algumas de suas principais características. De um lado, o diploma de Técnico em Mecânica, lhe deu um olhar prático e tecnicista sobre a criação. Do outro, o carnavalesco também atuou no mundo da Moda, trabalhando em fábricas têxteis e como assistente de estilo, adquirindo experiência em aliar cores e texturas, como faria em seus carnavais.

Já a carreira nos bastidores da festa começou em 1991, quando foi auxiliar do carnavalesco Renato Lage, na Mocidade Independente, desenhando os figurinos de luxo e composições de alegorias por anos. Estreou como carnavalesco em 1996, atuando na União de Jacarepaguá, pelo Grupo D. Dois anos depois já estava na Série A assinando carnavais na Em Cima de Hora, onde conquistou um expressivo terceiro lugar.

Conceituado nas áreas técnica e artística, teve tais qualidades a seu favor ao definir um estilo mais clean e elegante, sendo reconhecido por suas fantasias grandiosas que abusam de enormes volumes, para aumentar o componente e ocupar toda a avenida. Nas alegorias, desenvolveu um estilo arrojado e limpo, como do seu mestre Renato Lage, mas acrescentando garbo e sinuosidade, típica dos traços curvilíneos dos movimentos "art nouveau" e "art deco", do início do século XX. Já nos quesitos narrativas, Alex de Souza sempre se mostrou competente em desenvolver enredos com narrativas simples e históricas, mas bem amarradas e com início, meio e fim bem definidos.

Oscilando entre resultados mais altos e medianos, Alex sempre se destacou em seus quesitos. Relembre com a gente suas passagens por agremiações dos últimos doze anos. 

Rocinha 2004-2006

O abre-alas de 2004 já trazia o estilo de cores leves e estética "art nouveau" de Alex.

Depois de três anos fazendo expediente na Leão de Nova Iguaçu, à época pela Série A, em 2004,  Alex assumiu a criação na Acadêmicos da Rocinha, então comandada pelo empresário Maurício Mattos. Estreando pela escola de São Conrado, o carnavalesco assinou um desfile que homenageou  Joãosinho Trinta, com o enredo "O Mago do Novo, João do Povo", na ocasião dos 70 anos do artista. O desfile viajou pela valorização do Brasil no repertório de João, seus desfiles mais antológicos, a vida de bailarino e até mesmo sua participação no nascimento da própria Rocinha – onde comandou os três primeiros carnavais da escola. O homenageado veio no último carro, trazendo os bons ares de um desfile bem recebido pelo público, que teve fantasias e alegorias luxuosas, como pedia o carnavalesco-tema do enredo. O resultado foi um terceiro lugar que brindou a união de Alex com a escola, o melhor resultado de seus sete carnavais até ali.

A belíssima abertura de 2005 da Rocinha (Foto: Carlos Magno)
No ano seguinte, o artista comandou uma mensagem de esperança com o enredo "Um Mundo Sem Fronteiras", numa época em que a comunidade-sede da agremiação passava por um período muito violento. O desfile mostrou a união de um mundo em que não existissem barreiras raciais, físicas, que fosse auxiliado pela tecnologia para estreitar e dinamizar relações com a globalização, unindo os povos de forma fraterna. A escola passou deslumbrante na Avenida, apostando em fantasias grandiosas e bem acabadas. O abre-alas foi um dos destaques, em formatos arrojados, com belíssima iluminação e uso de efeitos especiais. Surpreendendo com uma grande apresentação, a Rocinha consagrou-se campeã da Série A.

A integração da primeira ala com o abre-alas é recorrente na trajetória de Alex.

Estreando no grupo especial, Alex seguiu apostando num enredo com mensagem crítica. Assim, sendo a segunda escola a desfilar no domingo, a Rocinha apresentou "Felicidade não tem preço", sobre a relação do homem com o dinheiro. A narrativa teria a simplicidade característica da assinatura das temáticas de Alex, com histórias simples mas bem amarradas. Num excelente trabalho plástico do artista, ele apostou numa abertura luxuosa, que trazia o lendário pote de ouro após o fim de arco-íris. Quase todas as alegorias tiveram acoplamentos e eram grandiosas, com traços cleans e fácil leitura. As fantasias já começavam a desenhar o estilo volumoso que seria uma das características de Alex. 

Infelizmente, apesar do sucesso nos quesitos ligados ao carnavalesco, a escola desfilou sob forte chuva, que fez com que as fantasias pesassem ainda mais e vários carros apresentaram problemas na parte mecânica, prejudicando o cortejo. Ademais, a escola estourou em seis minutos o tempo de desfile, e o prejuízo na quarta de cinzas custou a permanência da escola no Grupo Especial. A partir dali, Alex encerrava a parceria com a Rocinha e rumaria para a Mocidade.

Vila Isabel 2008-2010

Mais uma bela abertura de Alex em 2008 (Foto: Widger Frota)
Após uma rápida passagem na verde-e-branco da Zona Oeste, num enredo sobre o artesanato brasileiro, Alex desembarcou num dos redutos mais boêmios do Rio de Janeiro. Logo no ano em que pintou na terra de Noel, o carnavalesco assinou o enredo “Trabalhadores do Brasil”. O desfile da Vila Isabel contou com a assinatura histórica e objetiva das narrativas do carnavalesco ao falar da história brasileira desde antes da chegada dos colonizadores, do trabalho escravo, até os dias atuais.

Com uma abertura que apostou em tons leves, tendo como destaque uma grande ala de baianas num degradê que retrava o mar indo até o abre-alas grandioso. Do conjunto alegórico, se destacaram o carro que abordou o trabalho escravo e a resistência negra nos quilombos e o traço arrojado e tecnológico das últimas alegorias, uma lembrando o governo Vargas e outra a indústria automobilística contemporânea. Com o resultado plástico ofuscado pela má condução da escolha do samba, junção à época, ficou-se esperando mais da escola, que chegou apenas em nono lugar.


Para o ano seguinte, uma chegada surpresa mudaria os rumos do povo de Noel e o trabalho de Alex. Com os preparativos para o desfile de 2009 já em andamento, Paulo Barros, após uma saída conturbada da Viradouro, se uniu ao time da Vila. A combinação inusitada do artista das alegorias humanas e do profissional de traços mais elegantes mudaria a trajetória de ambos para sempre. Num belo desfile sobre o centenário do Teatro Municipal, batizado de "Neste palco da folia, é minha Vila que anuncia: Theatro Municipal - A centenária maravilha”, Alex trouxe acabamento e requinte para as alegorias coreografadas de Barros, num ótimo casamento que mostrou ainda indumentárias bem desenvolvidas, inseridas ao enredo sendo, sem dúvidas, um dos pontos altos do desfile.


O abre-alas representou bem essa inusitada junção: em dois módulos acoplados, a primeira parte trazia uma representação do famoso "bota-abaixo" que marcou a construção da Avenida Rio Branco, obra clara de Paulo. Já o segundo chassi, com uma bela coroa, trazia o estilo "art nouveau" de Alex, típico do período retratado, com formas vazadas e tons claros. Pensando alegoricamente, o carro “A Construção de um Sonho: Theatro Municipal do Rio de Janeiro” trazia a cara do artista, por ser impecavelmente concebido, luxuoso e opulento.


A parceria que surgiu de maneira inusitada marcaria tanto a trajetória de ambos que as influências seriam vistas nos desfiles solo deles. Barros voltou à Tijuca, contando com acabamento e cuidado maior com as alegorias, aprendido ano antes. Isso foi crucial para o campeonato do Borel no antológico "É Segredo". Já Alex permaneceu na azul e branco, prestando uma aguardada homenagem ao maior poeta da agremiação azul celeste e branco.

Com o enredo “Noel: a presença do poeta da Vila”, a escola fez uma apresentação aquém das expectativas, mas de altíssimo teor emocional. Não era pra menos! Embalada por um dos melhores sambas do ano, a escola tornou a apresentar irregularidades em suas fantasias, o que, aliado ao pouco impacto visual das alegorias daquele ano, não atingiu o ápice que se esperava. Favorita no pré-carnaval, a escola fez uma boa apresentação embalada por um samba de Martinho da Vila e conquistou um quarto lugar, encerrando de forma honesta a primeira passagem do carnavalesco por aquelas bandas.

União da Ilha 2011-15



Nos cinco anos em que esteve na União da Ilha, Alex fez sua passagem mais marcante e com identificação em uma escola do grupo especial. Com a missão de substituir Rosa Magalhães, que garantiu a permanência da agremiação na elite da folia, o carnavalesco foi um dos grandes responsáveis em colocar de novo a tricolor insulana como protagonista depois de tanto tempo afastada dos holofotes, trazendo de volta o espírito jovem e simpático da escola.

A união entre a escola e o artista já começou com um apresentação marcada por dificuldades. O desfile sobre a teoria das espécies do naturalista Charles Darwin foi prejudicado por um incêndio que atingiu o barracão da Cidade do Samba. Junto de Grande Rio e Portela, a Ilha perdeu grande parte de suas fantasias e alegorias há menos de um mês do carnaval.

Os tons leves, as transparências, as formas sinuosas e simples: marcas das alegorias de Alex.

Felizmente, a agremiação conseguiu superar as dificuldades e fez uma grande apresentação na segunda-feira de carnaval. As poucas alegorias que foram atingidas conseguiram ser reconstruídas a tempo e as fantasias sofreram grandes simplificações. No desfile, predominaram figurinos formados por macacões de malha colorida que cobriam os componentes, somados a volumes adquiridos por adereços como golas, chapéus e esplendores. A escola desfilou da maneira leve que lhe é característica e, apesar de não concorrer no julgamento oficial, faturou um Estandarte de Ouro de Melhor Escola.


Nos anos seguintes, Alex seguiu apostando no resgaste da identidade insulana e fez belas homenagens a momentos históricos da agremiação. Em 2012, ao contar a história da Inglaterra num link com os jogos olímpicos daquele ano, tornou a carnavalesca Maria Augusta, responsável pelos desfiles mais marcantes da tricolor, soberana maior da apresentação, presente na comissão de frente. No desfile, um pede-passagem com o nome da agremiação em bolas brancas lembrava os elementos usados nos desfiles da carnavalesca pela União da Ilha. Já em 2013, a abertura do desfile que homenageou Vinícius de Moraes trouxe uma grande barca em estilo "art nouveau" remetendo à que a agremiação já havia apresentado em 1982, no marcante desfile "É Hoje".

A barca do abre-alas de 2013 lembrava a alegoria marcante de trinta anos antes.
Os dois desfiles apostaram numa linguagem mais simples, adequada ao estilo da escola. Apesar disso, as narrativas eram bem desenhadas, trazendo elementos da cultura pop num diálogo com o público. Também herança da parceria com Paulo Barros em 2009, as alegorias trouxeram o uso de coreografias e elementos vivos. Infelizmente, a escola falhou em outros quesitos, com samba medianos e problemas de harmonia, prejudicando a busca por melhores posições nestes dois desfiles.


O traço elegante não se perde em meia a tecnologia e iluminação das alegorias de Alex.

Em 2014, Alex realizaria a apresentação mais marcante de sua carreira e da trajetória recente da União da Ilha, num ápice do processo de resgaste da identidade da escola. Com "É Brinquedo, é brincadeira. A Ilha vai levantar poeira!", o artista valorizou ainda mais seu estilo pop e contemporâneo. Diferente do estilo mais espetacular de Paulo Barros, que traz esses elementos da cultura de massa de maneira mais seca e simples, o estilo de Alex era mais bem acabado ao apresentar personagens de filmes e da cultura popular, apostando em requinte e acabamento.




Com fantasias grandiosas que cobriam os componentes por inteiro e os transformava em ursinhos, palhações, figuras de filmes e videogames, a União literalmente brincou na avenida com um samba que arrematou pelo estilo leve, numa grande interpretação de Ito Melodia. Surpreendendo a todos, a escola conquistou um quarto lugar e voltou no sábado das campeãs após vinte anos sem realizar o feito.

As asas das ninfas do abre-alas de 2015 lembra belos vitrais.
No ano seguinte, o profissional seguiu apostando na temática leve e resgatou os temas críticos, como os que fez na Rocinha. O enredo "Beleza Pura?" passeou de maneira bem humorado pelos padrões de beleza da história humana, brincando com os contos de fadas, o universo da moda, das academias e das celebridades. As alegorias trouxeram a assinatura clean e requintada do artista, mas as fantasias acabaram pesando ainda mais pelo estilo já volumoso de Alex. Apesar do bom trabalho em enredo e quesitos plásticos, a escola não fez uma apresentação tão empolgante quanto no ano anterior. Um decepcionante nono lugar acabou dando fim ao feliz casamento entre a União da Ilha e o carnavalesco.

Vila Isabel 2016-17

O seca sertaneja retratada com uma forte iluminação e tons leves.
Com o fim do casamento com a tricolor, Alex voltou a escola que lhe firmou com um dos grandes profissionais do grupo. Para 2016, ele contou com o luxuosíssimo auxílio de Martinho da Vila para a concepção do enredo "Memórias do 'Pai Arraia' - Um sonho pernambucano, um legado brasileiro", em homenagem aos 100 anos de vida do político de esquerda Miguel Arraes, famoso por ser governador de Pernambuco. A narrativa trazia também referências evidentes ao estado do homenageado, como a literatura de cordel, na comissão de frente, e o carnaval nordestino, ao final do desfile.

O cortejo foi aberto com um plástica característica do carnavalesco, que com elementos visuais de tons terrosos e claro, a elegância e uma assinatura clássica ao tratar da seca nordestina, tema difícil de materializar de maneira bela. Nesse primeiro setor do enredo, se destacou ainda a representação de carcaças de animais, principalmente no abre-alas, para ilustrar o cenário da obra, no conhecido traço "art nouveau" de Alex, marcando pela limpeza e sinuosidade. A fim de retratar a população campesina, o carnavalesco utilizou palafitas e manguezais, representando o Acordo do Campo, promovido pelo homenageado enquanto governador, com a figura central do caranguejo na segunda alegoria. A bela fantasia das baianas, um destaque positivo do desfile, representou os canaviais. 


Ainda tratando da obra política de Miguel, a escola trouxe o Movimento de Cultura Popular, responsável por unir intelectuais para a promoção de uma educação de qualidade no estado, com objetivo de alfabetizar adultos. Na passagem da Vila, pode-se observar o terceiro setor com alas representando disciplinas escolares e a quarta alegoria, "Servindo de Lição", fazendo jus à obra educacional do homenageado. Ainda se tratando do MCP, o projeto detinha o ideal de divulgação da cultura nordestina para os habitantes da região, sendo contado no desfile nas duas últimas alegorias.  

De modo objetivo, Alex soube driblar a narrativa clichê para construir a ideologia do político pernambucano nos carros. O chão da escola, vibrante com o belo enredo, esbarrou no excesso sobre as fantasias, que promoveu dificuldades para a evolução de alguns componentes e descontos na quarta-feira de cinzas. Ao final da apuração, a escola amargou a 8ª colocação, deixando a sensação para o grande público de que poderia ter voltado ao sábado das campeãs.

Invés dos tons terrosos normalmente ligados à África, Alex optou por uma abertura preta e prata para lembrar os "tumbeiros".

Seguindo o padrão temático da Vila Isabel, Alex de Souza trouxe “O Som da Cor” para o carnaval 2017. O enredo era uma ponte entre os estilos musicais da América, partindo da negrura dos tambores africanos, representada na comissão de frente assinada por Patrick Carvalho. Problemática no pré-carnaval, a Vila enfrentou muitas dificuldades financeiras e de barracão para colocar seu carnaval na rua. O desfile tornou-se reflexo disso: muitos problemas de acabamento nas alegorias e reproduções aquém do esperado retiraram a escola do bairro de Noel da briga por uma melhor posição. 

Dessa forma, pode-se destacar do cortejo a concepção e idealização do enredo, que prometia fazer uma viagem por referências musicais na América Latina. Tal ideia foi clara no que tange à chegada dos tambores africanos pelos escravos, influenciando a formação de diversos ritmos. No desfile, a apresentação de ritmos como Tango, Pop (numa ideia de realização duvidosa) e da música afro-brasileira, que trouxe à tona o samba, evidenciou problemas de acabamento. A Vila amargou a briga pelo rebaixamento, terminando em 10ª, acima apenas de Unidos da Tijuca e Paraíso do Tuiuti.

Salgueiro 2018

A imponente abertura em tons quentes deste ano, com a cara do Salgueiro.  (Foto: O Globo)

De mudança, Alex chegou à rua Silva Teles após o fim do longínquo casamento do Salgueiro com Renato e Márcia Lage. Com a alta expectativa da escola retomar a temática negra, coube ao departamento cultural, junto ao carnavalesco, promover o enredo "Senhoras do Ventre do Mundo", tema que fazia referência ao carnaval de 2007, "Candaces", num desfile de resultado injusto aos olhos dos salgueirenses. Com a promessa de um carnaval competitivo apesar da crise, a presidente Regina Celi concedeu a Alex boas condições de trabalho, o que acarretou num belo desfile.

Trazendo o "Éden Africano" na abertura do cortejo, o carnavalesco soube trabalhar bem com as cores da escola, impactando pela grandiosidade do abre-alas da Academia. A primeira alegoria da escola trouxe a figura da Grande Mãe com o ventre que daria origem à Terra a partir da África. Num tema que demonstrou força ao representar a ancestralidade, a escola valeu-se de referências a deusas e rainhas africanas nos primeiros setores, inserindo referências históricas, como é possível observar no segundo setor setor: mulheres que, como diz o samba, foram 'generais contra o invasor', o colonizador europeu.

Uma das grandes imagens do carnaval de 2018. (Foto: O Globo)
A chegada da negritude feminina ao Brasil também é representada posteriormente, de modo que profissão e religiosidade daquelas vindas da África são pontos cruciais no enredo de Alex. Para finalizar o desfile, a Academia buscou na figura de literatas, como Carolina de Jesus, a ponte para homenagear as mulheres que fizeram e fazem história no Salgueiro. Dessa forma, a última alegoria trouxe uma das mais belas imagens do carnaval de 2018, em que a figura da Pietà, escultura de Michelangelo, é retratada com escritos do livro "Quarto de Despejo".

Apesar da belíssima homenagem à figura feminina, que deu ao salgueirense o gosto do título, a escola terminou a apuração na terceira colocação, perdendo a primeira posição no último quesito. De todo modo, Alex de Souza demonstrou sua fibra ao vibrar com a Academia e teve seu contrato renovado. Para 2019, a escola levará "Xangô", um tributo ao orixá que guia os caminhos na alvirrubra do Andaraí.


Vivendo um momento esperado de valorização do seu trabalho com o casamento com o Salgueiro, Alex só confirma porque é um dos grandes nomes revelados do carnaval da última década. Soube se adaptar a festa e apresentar uma assinatura pessoal, atualizando o estilo tecnológico e clean de seu mestre Renato Lage, com um toque sinuoso e particular inspirado nos movimentos "art nouveau" e "deco". Atento a mudança, a parceria com o balado Paulo Barros trouxe o frescor contemporâneo e pop ao estilo de Alex, que ganhou ainda mais força ao dialogar com a cultura de massa e fazer bom uso de alegorias coreografadas.

Sabendo cumprir com competência todos as funções de um carnavalesco, Alex é um dos raros profissionais atuais que alia narrativas próprias e bem desenvolvidas com fantasias e alegorias com um traço só dele, dominando todas as áreas artísticas da linguagem de uma escola de samba. Um carnavalesco completo e fundamental dos dias atuais. 

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Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos está dominando o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!





Felizmente, a cada década, o carnaval se renova e novos profissionais chegam a folia trazendo novos estilos e formas de construir a linguagem dos desfiles das escolas de samba. Nos últimos anos, diversos artistas talentosos ascenderam a função de carnavalesco, com ideias novas e transformadoras para a nossa festa. Seja em enredo, alegoria ou fantasias, alguns nomes se destacaram não só com bons resultados, mas ao desenhar um estilo com o frescor necessário a uma festa que urge por inovação e renovação. 

Para essa lista, reunimos nomes que surgiram nos últimos oito anos nas folias brasileiras e se destacaram de diversas formas, alguns até títulos já ganharam apesar da pouca experiência. Seja primeiro como desenhistas e figurinistas, todos chegaram ao posto de artista principal e se destacaram e então vem saber mais sobre eles com a gente.


João Vitor Araújo




João Vitor é um nome de peso e de muita representatividade na nossa folia, por ser um dos poucos carnavalescos negros em destaque atualmente. João esbanja talento, bom gosto e ótimos resultados na carreira. Metido na festa momesca desde cedo, ele começou atuando como aderecista em diversos barracões, confeccionando também figurinos de luxo em ateliês do ramo. Foi assistente do carnavalesco Max Lopes até conseguir a primeira chance solo, em 2014, quando assinou na Viradouro o enredo "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar", que cantou a Cidade Sorriso, Niterói, passando por suas ligações com o Rio de Janeiro. Já demonstrando bom gosto e maturidade artística, o apuro estético aliado a força da comunidade da escola deu o título do carnaval daquele ano.

Desfile da Viradouro em 2013 (Foto: Extra)
A escola voltou ao Grupo Especial em 2015, ainda sob comando de João, com o enredo "Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça", uma demonstração da importância da negritude na formação do povo brasileiro. Apesar do digno desfile que a Sapucaí aguardava, a escola se viu prejudicada pela chuva que a castigou durante sua passagem. A vermelho e branco do Barreto homenageou curandeiros, malandros, amas de leite – representada em uma linda alegoria em tons de verde – e cantou a junção de dois belos sambas de Luiz Carlos da Vila, um dos maiores compositores de todos os tempos. Debaixo de tanta água, as fantasias e alegorias não tiveram os efeitos esperados, além de um dos carros ter entrado na Avenida com uma escultura danificada, o que acabou resultando na volta da escola à Série A.

Rocinha em 2017.

Em 2016, João atuou como assistente de Paulo Barros na Portela, e em 2017 retornou à atuação direta. Na Rocinha assinou uma bela homenagem a Viriato Ferreira, com o enredo "No Saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira". João viajou pelas passagem de Viriato em três escolas principais, Portela, Beija-Flor e Imperatriz, num desfile que azul, prateado e verde não faltaram na paleta de cores. A evolução da escola com relação ao carnaval anterior foi discrepante e a apresentação arrancou aplausos e a simpatia do público. Não só destes, mas também dos jurados, que reagiram positivamente e entregaram à Rocinha o sexto lugar da classificação geral da Série A.



Em 2018, talvez um dos casamentos mais coerentes do carnaval tenha sido celebrado: a convite da Unidos de Padre Miguel, que vem de grandiosos desfiles, João Vitor assumiu o enredo "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Paritintin". A escola, desde o pré-carnaval, foi uma das mais aguardadas e era considerada rival direta da Viradouro em um verdadeiro duelo de titãs. A apresentação começou grandiosa, e o luxo se fez presente nas alegorias e fantasias produzidas por João, além do excelente desenvolvimento cromático da apresentação. O abre-alas, em tons de dourado, e com muita água, impactou a Avenida e fez os componentes verdadeiramente embarcarem no enredo. Boquiaberto, o público aclamou o desfile, que terminou com um merecido vice-campeonato. Em 2019, João comanda uma homenagem a Dias Gomes, com o enredo "Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência".


Leandro Vieira




Leandro é desses que chegam quietos e arrebatam. Não a toa é um dos grandes carnavalescos da atualidade, mesmo tendo apenas quatro carnavais em sua carreira, como ele mesmo, com ares modestos, faz questão de lembrar. Formado em Belas Artes, trabalhou mais de dez anos como desenhista de outros profissionais, como Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo, entre outros. Em 2015, Leandro assumiu pela primeira vez o posto de carnavalesco oficial em uma escola de samba. A Caprichosos de Pilares, à época na Série A, ganhou do artista o enredo "Na minha mão é + barato", que contava a história dos mercados brasileiros desde a colônia até os presentes dias. A mistura de crítica com humor deu o tom ao desfile da escola, que construiu assim sua identidade com auge nos anos 80 e nos carnavais de Luis Fernando Reis.



O colorido e a beleza de fantasias e alegorias não permitiam a quem assistia imaginar que o "jeitinho" foi peça-chave para o desfile da escola: saber inventar sem gastar muito foi e continua sendo um dos maiores artifícios do jovem carnavalesco. Além dos ambulantes, do vendedor de mate das areias cariocas e dos comerciantes do famoso Saara, Leandro não deixou de lado o comércio interno das próprias escolas de samba, que o trecho do refrão principal do samba fez questão de indagar: "quem dá mais no mestre-sala / quanto vale a tradição?". No fim das contas, a escola terminou com um positivo sétimo lugar e uma lembrança feliz do ótimo trabalho que o carnavalesco fez. Os bons frutos do carnaval vieram na virada de temporada: a Mangueira, uma das mais tradicionais da elite carioca, buscara o jovem artista para assinar o seu desfile em 2016. E assim foi feito.


Em seu primeiro ano como carnavalesco da elite da folia, o segundo de sua carreira até então, batizou de "Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oyá" o enredo que homenageou uma das maiores cantoras do Brasil, que outrora já havia desfilado pela escola quando junto aos companheiros de Doces Bárbaros pintou e bordou na Sapucaí, em 1994. Tudo se desenhou de forma muito bonita: apesar de novato, Leandro entendeu bem a identidade da escola e, ao encerrar os desfiles de 2016, emocionou toda a Avenida. Squel, a porta-bandeira da escola, fez-se na Avenida uma iaô belíssima e apareceu careca junto ao antigo parceiro de dança, Raphael Rodrigues. Daí pra frente foi só emoção: toda a simbologia de elementos importantes da vida pessoal, religiosa e artística de Bethânia esteve retratada no desfile através de diversas referências artísticas. Com tudo isso, é claro, que a verde-e-rosa explodiu com o público na pista e nas arquibancadas. No fim das contas, o feito inédito do "estreante" foi confirmado na quarta de cinzas: Leandro e a Mangueira eram campeões.



Em 2017, "Só com a ajuda do santo" tratou da forma como o povo lida com a religiosidade, de suas diversas formas, seja no catolicismo, na crendice popular, no candomblé e na umbanda ou mesmo de modo a misturar em um só credo todas essas possibilidades. Embalado pela expectativa de um bicampeonato, Leandro mostrou-se calmo e confiante em seu trabalho durante todo o tempo. No dia do desfile, com mais um samba que ajudou a manter o componente e as arquibancadas acesas, a Mangueira passou belíssima. E em cada alegoria e fantasia vinha o reconhecimento de uma crença, mas foi o Cristo-Oxalá, a representação do sincretismo, uma das imagens mais bonitas e significativas do carnaval daquele ano e da história de Leandro, da Mangueira e das escolas. São Jorge e Santo Antônio, imagens de tanta devoção, não foram esquecido e as baianas, que traziam nas saias sacos de Cosme e Damião, foram gratas surpresas também. Além disso, o segundo casal da Mangueira, formado por Débora e Renan, simbolizou o encontro por um pescador da imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma das indumentárias mais bonitas e simbólicas do desfile. Apesar de tanto bom gosto, a escola abriu um buraco de quase 100 metros quando o carro que trazia a cantora Alcione empacou na Avenida, o que gerou perdas em evolução. Mesmo assim, o quarto lugar, posição final da escola, foi positivo e há até que considere que deixou gosto de um bicampeonato moral. 



Em 2018, numa onda crítica ao prefeito e à imposição de uma agenda neopentecostal, do corte de verbas para as escolas de samba sombreado por um discurso demagogo e com o pedido de deixar a rua livre pro povo passar, a Mangueira contou o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". A escola pediu passagem para que a rua, casa do povo e palco da nossa principal festa, fosse livre para (re)viver toda a subversão e brincadeira que o carnaval propõe. Logo na comissão de frente, a mesa do bar se transformava em grades de uma cadeia e trazia claramente um painel que formava a frase: "deixa nosso povo passar". Daí pra frente foi só dedo na ferida, do jeito inteligente e debochado que Leandro gosta e sabe fazer: muito bumbum de fora, a rememoração do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos, o dia de malhar judas (e Crivella), os pierrôs que em tantos festejos já sofreram pelas colombinas e o bloco dos sujos no final. O conjunto alegórico era totalmente diferente do que já passou, mesmo em desfiles anteriores do carnavalesco, mas trazia claramente sua assinatura. As fantasias traziam tons pastéis em muito verde e rosa, que também já virou característica do carnavalesco, além dos costeiros em acetato. O resultado final colocou a escola em quinto lugar. Para 2019, ainda à frente da escola, Leandro Vieira assina o enredo "História para ninar gente grande", uma viagem pelo "lado B" de personagens e da história do Brasil.

Jorge Silveira




Lá de Niterói vem mais um nome que ganhou destaque nos últimos anos. Jorge Silveira, indo para o seu segundo carnaval pela elite carioca, já trabalhou com nomes como Max Lopes e Jaime Cezário antes de passar a assinar sozinho seus desfiles. Foi em São Paulo, pela Dragões da Real, que conquistou espaço de prestígio entre os grandes artistas da festa da terra da garoa. Na tricolor desde 2015, conquistou um expressivo vice-campeonato no ano de 2017, com o enredo "Dragões canta Asa Branca", uma homenagem à inesquecível e emocionante música de Luiz Gonzaga. As alegorias, ponto marcante da assinatura de Jorge, chamaram a atenção pela beleza e movimentos coreográficos. Os carros do pau-de-arara e o do mandacaru foram pontos altos da apresentação, ricos em detalhes e um ótimo meio de se comunicar com as arquibancadas, muito embalada pela emoção e catarse para com a lida de um povo que, em busca de dias melhores, se despede de seu chão para que um dia retorne em condições melhores. 


No Rio, não foi diferente: em seu primeiro ano solo, pela Unidos do Viradouro, em 2017 na Série A, Jorge desenvolveu o enredo "E todo menino é um rei...". Com uma temática leve, a proposta da escola niteroiense era brincar e levar à Sapucaí a emoção dos nostálgicos tempos de criança. Jorge, conhecido pelo traço cartoonesco de seus desenhos, deitou e rolou com sua criatividade. O colorido tomou conta da Avenida e não demorou muito para o público se render à escola, a começar pela alegoria do 'menino Rei', personagem central do enredo, que trazia enormes piões que giravam, a coroa e o nome da Viradouro, além de Dominguinhos do Estácio, que por anos defendeu a escola.  Os carros do Batman e dos doces foram outros dois que chamaram a atenção do público. Nas fantasias, de clara leitura, veio a lembrança das brincadeiras e dos personagens inesquecíveis que marcaram a infância de muitas gerações, como o Super Mario Bros e as brincadeiras de boneca e de bola.


Foi na virada para o carnaval de 2018, porém, que Jorge viu o sonho alcançar degraus ainda mais altos: o convite para estrear oficialmente pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro veio da São Clemente. Na preto e amarelo da Zona Sul, Jorge teve a felicidade, enquanto egresso da Escola de Belas Artes da UFRJ, de homenagear os 200 anos da instituição que o formou como uma grande galeria a céu aberto, enredo que já havia sido apresentado – e consagrado campeão – no Carnaval Virtual, laboratório importante na carreira do artista.



Em "Academicamente Popular", foi impossível negar que a São Clemente apresentou alegorias diferentes dos últimos carnavais da escola, que cresceram em tamanho, o grandioso abre-alas, todo em branco e detalhes dourados, chamou a atenção e a alegoria do modernismo, com serpentes pretas, a xilogravura de Goeldi e os balanços e pipas de Portinari no centro, foi a que mais surpreendeu o público. As fantasias, por sua vez, formaram o conjunto mais bonito da escola nos últimos anos, com cores bonitas e muito bem acabadas. No fim das contas, a São Clemente acabou prejudicada em alguns quesitos, como Comissão de Frente, e outros que surpreenderam negativamente na abertura dos envelopes, como Fantasias, terminando em 11º lugar, escapando por um triz da zona de rebaixamento, que acabou descartada por uma virada de mesa em reunião da Liesa. 

Para o carnaval 2019, Jorge assume o projeto que resgata o grito crítico da São Clemente, marca indissociável da escola, e reeditará "E o Samba Sambou", um dos carnavais mais conhecidos da escola e o que rendeu a ela a melhor colocação de sua história. Com a sinopse em mãos, já aguardamos ansiosos toda a ousadia, coragem e irreverência que ele pode nos presentear!


Márcio Gonçalves e Sidnei França 



A dupla chegou oficialmente a Mocidade Alegre em 2009 para fazer parte da comissão de carnaval da escola junto de Fabio Lima e Flavio Campello, e de cara já conquistou o título do carnaval daquele ano. No ano seguinte, a comissão manteve o ótimo desempenho, dessa vez sem a presença de Flavio Campello, e conquistou o vice-campeonato. 

Em 2011, viria o desafio de assinar o primeiro carnaval como dupla na escola. Com o enredo “Carrossel das Ilusões” a dupla conquistou o 7º lugar; apesar do ótimo desfile, a classificação ficou prejudicada em função da quebra de um carro que nem chegou a entrar no Anhembi. Em 2012 viria a redenção: a dupla seria responsável por um dos desfiles mais marcantes da história do Carnaval de São Paulo na última década. “Ojuobá - No Céu, os Olhos do Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, Um Obá Muito Amado!" foi o enredo que deu o primeiro título a dupla, um desfile técnica e plasticamente impecável, marca da escola, que presenteou o público com um cortejo inesquecível, fruto de um enredo magnífico.



A dupla deu a escola um tricampeonato com os títulos consecutivos de 2012 a 2014, marcando assim seu nome na história da Morada do Samba e do Carnaval de São Paulo. Os dois seguiram juntos na escola até 2015, quando conquistaram o vice-campeonato no ano em que homenagearam a grande atriz Marilia Pera. Márcio Gonçalves seguiu para a Dragões da Real em 2016, onde ficou até o Carnaval de 2018, conquistando bons resultados na tricolor. No ano de 2019 estará de volta à comissão de carnaval da Morada, trazendo o enredo "Ayakamaé: as águas sagradas do sol e da lua".


No ano de 2016, Sidnei França começou a voar sozinho na própria Mocidade Alegre, seguindo para a Vila Maria em 2017, escola na qual o carnavalesco assinou uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, e vai para o seu segundo ano como o carnavalesco dos Gaviões da Fiel, tendo como enredo a reedição de "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente". Os dois são verdadeiramente grandes nomes que surgiram nos últimos anos no Carnaval de São Paulo e se firmaram como dois ótimos prospectos da nova geração de artistas da folia paulistana. 

Leonardo Bora e Gabriel Haddad




Finalizando com uma dupla que tem conquistados a todos: Leonardo Bora e Gabriel Haddad formam uma parceria pra lá de talentosa que estreou em 2018 na Sapucaí. Antes disso, passaram pela Intendente Magalhães, sendo campeões duas vezes consecutivas em uma comissão de carnaval na Mocidade Unida do Santa Marta, em 2012 e  2013. Atuantes no Carnaval Virtual, assinaram desfiles solo em várias agremiações cibernéticas. Trabalharam também como assistentes de outros profissionais da folia, como Alexandre Louzada e Eduardo Gonçalves.


Saídos da comissão do Santa Marta, montaram a dupla em 2015 para assinar o carnaval da Acadêmicos do Sossego, naquela ano na Série B da folia carioca. No ano seguinte, conduziriam a escola de Niterói à Sapucaí com uma homenagem a Manoel de Barros, em belo desfile para o grupo.
Mas foi no último carnaval que a dupla despontou, assumindo a função de carnavalescos da Acadêmicos do Cubango. Para 2018, a dupla preparou o enredo "O Rei que Bordou o Mundo", uma homenagem à vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, figura importante da arte contemporânea, que oscilava entre a lucidez e o delírio da loucura.


O desfile teve início na bússola-mandala do Bispo na comissão de frente e a primeira alegoria já trouxe uma das peças mais conhecidas de Arthur, passando pela sua peregrinação, a vida no manicômio, até a sua origem quilombola, onde um manto rodava solitário no alto da alegoria, como se ele, abençoando a apresentação, estivesse – e estava! – presente. As cores passaram pelo vermelho, o tradicional verde e branco e também pelo creme, em fantasias de clara leitura e beleza plástica. Sem muitas discussões, a Cubango fez uma das melhores apresentações das duas noites, quiçá dos dois grupos, e a aura bela do desfile revelou não só a grandiosidade do homenageado, mas, também, o talento dos jovens meninos. Em 2019, Gabriel e Leonardo seguem no comando do carnaval da escola e levarão público o enredo "Igbá Cubango - a alma das coisas e a arte dos milagres".




Nossa missão enquanto apreciadores do carnaval é sempre resgatar a folia de antigamente e reverenciar novos nomes que estão a surgir no imaginário carnavalesco. Que o futuro da festa seja brilhante, com esses e tantos outros nomes despontando e engrandecendo ainda mais nossa festa.

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Por Leonardo Antan e Thiago Avis

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Continuando a lembrar nomes menos valorizados da festa, mas que construíram também um estilo marcante, voltamos hoje aos anos 90 para falar de um carnavalesco que desenvolveu grandes desfiles da década. Entretanto ofuscado pelo histórico embate entre Rosa Magalhães e Renato Lage pelas primeiras posições, que marcou o período. Mais abaixo da tabela, o que não significa que eram ou melhores ou piores, artistas como Oswaldo Jardim construíram belos carnavais na contra-mão das linguagens dominantes, com personalidade própria. 

Conhecido mais genericamente como o "Rei da Espuma", por consequência do material de mais destaque ao longo de seus carnavais, Oswaldo construiu um jardim de ideias inteligentes em sua trajetória, marcado por soluções particulares, que marcaram bem sua personalidade artística. Desde do uso do multicolorido tropical e uma estética menos acadêmica, voltada a referências populares e da cultura de massa, como as histórias em quadrinhos e desenhos animados. Contrariando um estilo de carnaval que chamamos "barroco", abusando de linhas e formatos simples que desenhavam curvas e movimentos retilíneos.

Desfile do Império Serrano em 1989.

Em sua breve passagem pelo Império Serrano, em 1989, conduzindo o enredo "Jorge Amado Axé Brasil", apresentou uma estética bem próxima do que ele havia feito lá pelas bandas do Estácio de Sá anos antes quando estreou como carnavalesco principal. Na bela homenagem ao escritor, já deu indícios de como marcaria sua personalidade ao utilizar a linguagem das escolas de samba a seu modo, destacando-se pelo uso de colorido limpo e vibrante, com cores fortes, em qual cada ala formava um “blocão” de um tom cromático. As fantasias já teriam a assinatura marcante do carnavalesco, que se repetiria depois em diversos outros cortejos. Figurinos leves e balançantes, que se opunham ao estilo mais carregado de alguns outros profissionais. Grandes volumes formados de franjas, ráfias e tiras cortadas davam um tom corpuloso, mas leve, que servia bem aos componentes para pularem e se movimentarem com fluidez pela Sapucaí. Mesmo com tantas qualidades, a apresentação da Serrinha, infelizmente, foi esquecida historicamente, muito também por ter vindo logo depois do antológico "Ratos e Urubus" da Beija-Flor.

Na década de 1990, Oswaldo desenvolveria seus carnavais mais significativos e que repercutem até hoje em basicamente três agremiações vizinhas. Primeiro, na Unidos da Tijuca, sua grande parceria, onde assinou cinco carnavais, entre 1991 e 1999, dando uma personalidade jovem à escola, que ganharia novos contornos com a chegada de Paulo Barros anos antes. Outra passagem memorável de sua carreira foi na Vila Isabel, em 1993 e 1994, numa época em que a escola de Noel não teve tanto destaque como protagonista do carnaval. Sendo assim, a Vila teve nos desfiles assinados por Jardim suas apresentações mais marcantes naquela década.

Foto de Júlio Cesar Guimarães (O Globo)

Como no belíssimo, "Gbala, viagem ao tempo de criação", que apostou mais uma vez na sua estética colorida tropical e de alegorias marcantes, com o uso de esculturas cartunescas. Um desfile arrebatador e cheio de formas diferenciadas, embalado pelo belo samba de Martinho da Vila. De inesquecível, ficou uma alegoria com um assinatura bem ao estilo do artista, os carros monocromáticos, como o que falava da criação do homem pelo barro e tinha componentes em sintonia com as cores terrosas. Estética depois apropriada pela Unidos da Tijuca, em dois momentos, na homenagem ao Mestre Vitalino de 2012, e no abre-alas de 2016, marcando como Oswaldo deixou legado e ainda hoje é referenciado por suas criações originais.

Outra característica marcante das alegorias de Jardim foram os usos de materiais alternativos e poucos usuais na confecção dos desfiles à época. Não só as famosas esculturas de espuma, que se tornaram sua marca absoluta, a forragem de esculturas com diferentes materialidades apareceu em algumas apresentações assinadas por ele, como o uso do chamado "papel água", de aspecto furta-cor, que tinha sua tonalidade alterada pela luz, e leve. Nas esculturas, se destacavam o tom cartunesco de suas criações já citados aqui também, inspirados em desenhos e quadrinhos.

A inspiração popular é inclusive destacada por Fátima Bernardes ao apresentar o desfile de 1994 da Vila Isabel, que contava a história do bairro sede da agremiação. A jornalista destaca o interesse do artista em contar o enredo com toque de animação e HQs, seja pelas curvas e traços mais finos, seja pelo multicolorido simples e vibrante, que podia não representar a fidelidade histórica dos figurinos, mas os traziam para um universo mais lúdico.

Mangueira em 1996 (Foto de Widger Frota)
O último casamento marcante de Oswaldo nessa década foi com a verde e rosa do morro de Mangueira, durando dois anos. Primeiro, em 1996, com "Os tambores da Mangueira na terra da encantaria", sobre as lendas do Maranhão, que ganharam outro enfoque e visual nas mãos do artista, transformando o tema em um lindo desfile a luz do sol, com alegorias elaboradas e ao mesmo tempo leves por conta da espuma empregada. Destacando-se mais uma vez pelo uso de materiais diferenciados e os desenhos das alegorias muito singulares naquele período. As alegorias desse desfile são uma beleza à parte, como a marcante alegoria do sapo literalmente verde-e-rosa do segundo setor. Outro ponto interessente foi o uso inteligente do verde e rosa, de maneira menos carregada e extremamente bem resolvido cromaticamente. Com a força da comunidade mangueirense, a escola conquistou um honroso quarto lugar. 

Já no ano seguinte, em 1997, Jardim provou que o "Olimpo é verde e rosa" numa homenagem à trajetória dos Jogos Olímpicos e apelo ao sonho brasileiro de sediar as competições em 2004. Mas uma vez, destacou-se o bom gosto no desenvolvimento plástico, gerado pelas imagens como o olimpo de cores alaranjadas da segunda alegoria da escola, bem ao estilo monocrático que o artista gostava de empregar.

Abre-alas da Tijuca em 1999.
Falando em cores únicas que formavam alas e setores inteiros, é impossível esquecer a apresentação de 1999, no histórico "O Dono da Terra", na Unidos da Tijuca. Aliado ao antológico samba-enredo e uma comunidade aguerrida, que literalmente pulou na avenida, a apresentação foi um das memoráveis do grupo de acesso até hoje. A qualidade de escola era digna de um desfile no grupo especial, pelo uso de diversas características já citadas do artista, que se reforçaram em um dos seus melhores trabalhos.

Nas alegorias e fantasias, penas de pato e, novamente, a espuma deram a tônica. Os figurinos, mais uma vez, apostaram em grandes volumes feitos de matérias leves, com franjas e tiras cortadas, contemplando o aspecto volumétrico, mas sem pesar no ombro dos componentes. A segunda alegoria, o Tatu, era revestido de lama e plantas, que ornavam o carro com galhos de árvores naturais, um visual impactante para os padrões da época. Além disso, o abre-alas que trazia um pavão camuflado em meio a uma explosão vibrante de amarelo. Outros destaques foram a ala de baianas e o último carro, que abusavam das cores da bandeira nacional num bonito jogo cromático. 

Assinando ainda o desfile da Vila Isabel em 2000, o carnavalesco encerrou a carreira precocemente. No âmbito pessoal, Oswaldo teve uma vida conturbada e que acabou tirando esse grande artista cedo da festa, falecendo em 2003, sem o reconhecimento que merecia. Fora da avenida, Jardim apresentava os saudosos concursos de destaques do Hotel Glória, transmitidos pela extinta Rede Manchete de televisão, além de ter trabalhado também como cenógrafo.

Oswaldo no desfile de 1999 (Foto de Widger Frota)

Mesmo não tendo sido consagrado campeão e seu estilo estético ser aclamado como grande referência, Oswaldo Jardim aparece ainda hoje nas avenidas do Brasil, mostrando seu legado e poder criativo de um estilo bem definido e criado com apuro e personalidade seja na simplicidade das fantasia e no uso da espuma, seja das formas cartunescas, no uso das cores e tantas outras de suas características. 

Hoje e sempre, viva Oswaldo e seu jardim tropical.
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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

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Mesmo longe dos holofotes e da mídia, alguns carnavalescos conseguem delinear sua carreira com personalidade através dos desfiles que assinam. É o caso de Mauro Quintaes, que apesar de atuar há mais de vinte anos na festa tem seu estilo e trabalho pouco reconhecidos, em passagens marcantes nos grupos especial e de acesso, entre o Rio e São Paulo.

Quintaes começou a carreira trabalhando como assistente de Max Lopes, na Vila Isabel, na década de 80, seguindo como auxiliar do "Mago das Cores" até o início dos anos 90, quando juntos foram responsáveis pelos carnavais que levaram a Viradouro para o grupo especial, onde lá escola permaneceu. Em 94, com a chegada de Joãosinho Trinta a vermelho e branco de Niterói, Mauro continuou na agremiação, auxiliando o lendário artista maranhense. No ano seguinte, colaborou com outra escola do lado de lá da Baía de Guanabara, quando foi um dos agentes importantes para a ascensão da Porto da Pedra, estreando como artista principal.

Destacando-se como revelação logo em seus primeiros carnavais, garantiu boas posições em três casamentos seguidos com escolas alvirrubras. Caracterizando-se pelo estilo arrojado, alegorias modernosas e cenográficas, em um estilo de carnaval mais limpo, inspirado pelo High-Tech de Renato Lage, Mauro construiu um requinte marcante na passagem para o século XXI. Apesar de importante até os meados do início dos anos 2000, o artista patinou por posições medianas durante a última década e, sem espaço na folia do especial carioca, oscilou entre os grupos de acesso, tendo sua importância menos reconhecida.

Por isso, vamos relembrar agora os grandes carnavais desse artista e entender um pouco de como o carnavalesco desenvolveu sua identidade estética nas principais escolas por onde passou. Vem com a gente! 


Porto da Pedra 1995-98


A abertura da Porto da Pedra em 1996 (Foto Widger Frota)

Inspirada no sucesso da Viradouro, a Porto da Pedra deixou o carnaval do outro lado da ponte e veio tentar a sorte em terras cariocas. Com a força da comunidade de São Gonçalo e muito bem estruturada, a vermelho e branco teve no talento de Mauro Quintaes, em início de carreira, um de seus principais trunfos para se firmar na folia da Sapucaí. Dividindo o expediente em sua estreia como carnavalesco principal, Mauro foi responsável, em 1995, pelo carnaval da Caprichosos, no grupo especial, e deu a vitória ao Tigre no mesmo ano, no acesso. 

Para a estreia do Tigre no grupo principal, o enredo fez uma viagem pelos principais carnavais do globo em "A folia no mundo - Um carnaval dos carnavais". Apesar do tema muito explorado, a narrativa trouxe o frescor e a simpatia de um samba animado, muito bem defendido por Wantuir. Com uma entrada que apostou nas cores da escola, Quintaes começou a desenvolver seu estilo cenográfico, apostando em carros de formas limpas e bem desenhadas, aliado a um excelente acabamento. Contrapondo ao estilo clean das alegorias, as fantasias apostaram na volumetria e nos enormes esplendores, que fizeram a escola ganhar "mais corpo".

O abre-alas mesclou vermelho ao rosa. 

Embalada pelo inesquecível refrão "endiablado, eu tô", a comunidade de São Gonçalo comeu o asfalto da Sapucaí e aliou a beleza plástica à força necessária de uma agremiação que queria se firmar no grupo. Elogiada na transmissão da TV, a escola recebeu um inesquecível comentário de Fernando Pamplona, com seu estilo sempre perspicaz, que ao tratar da bela apresentação, resumiu: "ninguém é vermelho e branco impunemente", fazendo referência ao seu Salgueiro. A Porto da Pedra não só garantiu a permanência entre as grandes, mas faturou um honroso nono lugar.

"Doido para ganhar o carnaval", a Porto "mostrou as garras na avenida" com ainda mais força no ano seguinte, realizando o que seria um dos maiores desfiles da história da escola até hoje. Iniciando o que pretendia ser uma trilogia sobre grupos marginalizados pela sociedade, o enredo passeou por grandes personalidades e personagens da ficção considerados "loucos". Batizada de "No reino da folia, cada louco com sua mania", a apresentação repetiu a fórmula de um desfile com força nos quesitos de chão e um samba valente e animado, em consonância a bela plástica de Quintaes.



Assim como no ano anterior, o carnavalesco sobre trabalhar as cores da escolas nos primeiros setores para depois explodir em tons mais diversos. Com uma linda abertura, o abre-alas trouxe um delirante hospício, tendo um grande tigre em destaque e um letreiro que apresentava a agremiação. O conjunto alegórico foi dos melhores do ano, destacando-se por diferentes estilos de carros que seriam típicos do carnavalesco em seus carnavais seguintes, marcados pela arquitetura sempre definida e pelo bom aspecto de cenário, como no setor que lembrava "O Fantasma da Ópera". Sem exagerar na volumetria, as alegorias começavam, geralmente, com uma base bem desenhada e baixa que ia crescendo e formando diferentes palcos, com uma boa utilização dos "queijos" dos destaques para dar um aspecto arrojado, de formas vazadas, que fugiam de um estilo mais entulhado tradicional da estética chamada "barroca".

Foto: O Globo.

Ainda em 97, o samba-enredo conduziu bem a apresentação dando um toque mais leve ao tema e apresentando de maneira inteligente os personagens contados no enredo, que ousou mesclar nomes de fácil comunicação, como Raul Seixas e o Menino Maluquinho, à personagens menos conhecidos, como o bailarino russo Nijinsky e Bispo do Rosário, que começava a ser reconhecida no mundo das artes. A apresentação marcante e simpática alcançou um inesquecível quinto lugar, garantindo a volta da escola nas campeãs um ano após ascender, sendo o melhor posição conquistada pela escola alvirrubra até hoje na folia carioca. 

Depois dos "loucos", foi a vez dos "ladrões". Mergulhando em uma linha bem humorada e crítica, "Samba no pé e mãos ao alto, isto é um assalto!" lembrou grandes assaltos e marginais da história mundial. Novamente, a abertura foi um dos pontos altos da apresentação, trazendo uma divertida comissão de frente "aprisionada". Depois do hospício do cortejo anterior, o abre-alas representou uma lúdica prisão, trazendo outra vez um enorme e afirmativo tigre, num cenário moderno e traçado.

Foto: Hipolito Pereira (O Globo)

O primeiro setor apostou, mais uma vez, na mescla dos tons vermelhos com rosa e lilás, assim como as fantasias, que seguiram grandiosas, com enormes golas e esplendores volumosos. Já os carros alegóricos não tiveram o mesmo nível do ano anterior. De todo modo, um dos destaques positivos do conjunto foi o reforço de um estilo de alegoria pouco utilizada no geral, mas marcante: a de formas assimétricas. Quase sempre, todo desfile até ali e nos anos seguintes, Mauro apostou num carro que se destacava do conjunto por dois lados díspares, fugindo as formas mais harmônicas. Em 95, foi no setor que trazia a folia de Trindade; no ano seguinte, o que lembrou "O Fantasma da Ópera"; e naquela ocasião, o setor abordava o sedutor Casanova, ladrão de corações no enredo.

O desfilou contou ainda com passagens divertidas, apostando na criação de cenas através de alas coreografadas, que traziam um aspecto crítico ao abordar o tema. A última alegoria clamou pela justiça e pelo fim da impunidade aos criminosos, e se destacou pelo aspecto moderno formado por diferentes níveis, além de uma forte iluminação neon. Sem dúvidas, uma assinatura inconfundível do artista. 

Detalhe do abre-alas (Foto Widger Frota)

Na pista, em relação aos outros anos, a obra musical sofreu queda de qualidade, ainda que fosse simpática e animada, apostando em versos polêmicos que brincavam com os jurados do carnaval. Com menos força e ainda querendo alfinetar a liga, a emergente Porto da Pedra saiu da posição de destaque para um rebaixamento injusto, dando fim ao casamento entre a escola e o carnavalesco. Com isso, a trilogia dos marginalizados, que se encerraria com um desfile sobre as prostitutas, não foi concluída.


Salgueiro 1999-2002


Depois da passagem pela Porto da Pedra, que recebeu o jovem carnavalesco para sua estreia, foi outra alvirrubra a casa de Mauro. Em 1999, o carnavalesco começou uma bem sucedida parceria com a Academia do Samba em uma homenagem aos 400 anos da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Batizado de “O Salgueiro é sol e sal nos quatrocentos anos de Natal”, o enredo de Mauro teve auxilio de Luis Fernando Abreu para desenvolver o tema sobre a capital nordestina.


Abre-alas do desfile de 1999 (Foto: Widger Frota)

Na quarta escola a desfilar no domingo de carnaval, o artista deu um salto no que vinha desenvolvendo até então. Continuando "em casa" com o uso dos tons quentes, as fantasias grandiosas formaram um lindo tapete, aproveitando de maneira intensa as cores da agremiação. O abre-alas iniciou o cortejo de maneira impactante, com destaques para o letreiro trazendo o nome da escola. O uso desse artifício seria outra aposta corriqueira de Quintaes, em diferentes passagens de sua trajetória. Depois de alegorias mais compactas, o carnavalesco apostou em carro maiores e mais encorpados.

Apesar da boa plástica, problemas de evolução causados por um enorme contingente atrapalharam uma melhor apresentação da escola, que desfilou no melhor estilo "São Silveste", como conhecemos bem. Apesar disso, a quarta de cinzas trouxe um quinto lugar honroso, que estendeu o início deste casamento por mais um ano.

Abertura do desfile de 2000.

Em 2000, com a obrigatoriedade de contar os 500 anos do descobrimento da Terra Brasilis, coube por sorteio à agremiação passear pela transferência da corte portuguesa em “Sou rei, sou Salgueiro, meu reinado é brasileiro”. Numa apresentação cercada de expectativa, o carnavalesco deu conta mais uma vez do recado, apostando em um bom conjunto alegórico, como já era característico.

Os carros chamaram atenção não só pela beleza, mas por marcarem a sequência de uma proposta mais grandiosa do carnavalesco, sem perder sua assinatura clean. Como já havia acontecido, um dos destaques foi o carro assimétrico do conjunto daquele ano, que representava a Missão Artística Francesa de maneira impactante. Outra marca do artista apareceu na última alegoria que, assim como em outros anos, apostou no neon e uma inspiração "high-tech", para representar uma futurista caravela.


A nave futurista que encerrou o desfile de 2000. (Foto: Widger Frota)

Nas fantasias, muitas plumas foram vistas, em uma bela paleta de cores, mas sem trazer dificuldades de evolução pelo peso das vestes. Apesar das qualidades plásticas, a escola, novamente muito inchada, desfilou com o incrível número de 5.500 componentes e teve que apertar o passo para cruzar o fim da Marquês a tempo. Apesar de aclamado pelo público ao fim da boa apresentação, o Salgueiro conquistou uma modesta sexta colocação. 

Para 2001, uma ajudinha de cerca de R$ 1 milhão do Mato Grosso do Sul foi bem-vinda em outro passeio geográfico dessa parceria. Com "Salgueiro no Mar de Xarayés, é Pantanal, é Carnaval", a ideia do carnavalesco foi tentar sair do lugar comum de mostrar apenas a natureza local e abordar também a cultura do Centro-Oeste. A divisão do desfile começou com a representação do mar de Xarayés do título, que nada mais era o nome pelos quais os índios chamavam a região, passando depois pelos guaicurus e incas, pelo folclore e o artesanato.

Abertura da apresentação de 2001 (Foto LIESA)

Mesmo imaginando-se que as cores típicas da natureza predominariam, Mauro soube combiná-las muito bem ao vermelho e branco da Academia. Mais uma vez, se destacou o abre-alas projetado pelo profissional, com um grande tuiuiú, evidenciado por uma iluminação intensa e de formas vazadas. Para completar, lindos infláveis formavam as "costas" do carro. Mesmo com uma apresentação menos explosiva da comunidade, a Academia foi bem na apuração e conquistou o quarto do grupo especial, seu melhor resultado nos último anos e a melhor marca da carreira de Mauro desde sua estreia. 

Voando rumo a posições mais ambiciosas, em 2002, mais uma patrocínio generoso chegou para a agremiação, desta vez da TAM, para o desenvolvimento de "Asas de um sonho. Viajando com o Salgueiro, o orgulho de ser brasileiro", sobre a relação do homem com o desejo de voar. O desfile contaria a história dos pioneiros da aviação e seria uma homenagem ao comandante Rolim Amaro, que falecera pouco tempo antes.

(Foto: Widger Frota)

O enredo marcaria a estreia da parceria do artista com João Gustavo Melo, enredista que assinaria a maioria das narrativas de Quintaes a partir dali e daria personalidade aos temas do artista. Diferentemente de outros nomes, Mauro se caracteriza por ser um carnavalesco menos ligado ao desenvolvimento do enredo e sua importância narrativa, mas soube aglutinar um profissional importante que cumpriu essa função.

Voltando ao desfile, o abre-alas gigante também chamou atenção, como de costume, mas sem o brilho de antes. O conjunto alegórico e a paleta de cores passaram muito bem novamente, abusando mais uma vez no neon no carro da "Odisseia Espacial".

A alegoria sobre a navegação especial. (Foto: Widger Frota)

Aliado a estética, menos inspirada que os anos anteriores, o samba-enredo também não empolgou e o passo acelerado dos componentes, que já havia virado tradição, prejudicaram o cortejo de maneira considerável. Correta, mas sem brilho, a apresentação conquistou um justo sexto lugar, marcando a despedida de Mauro da Academia do Samba. 


Viradouro 2003-2005



Não abandonado o vermelho e branco, Mauro atravessou a Ponte Rio-Niterói para assinar a terceira alvirrubra seguida em sua carreira. Voltando como artista principal para a escola que ajudou a trazer para o Especial década antes, o artista apostou num enredo que cairia como um luva para um carnavalesco marcado pelos carros cenográficos: o teatro.

(Foto: Widger Frota)

A arte da atuação foi celebrada por uma de suas mais ilustres figuras: Bibi Ferreira. O enredo atravessou a grande carreira da atriz, lembrando seus papéis mais marcantes até uma homenagem a Procópio Ferreira, importante figura da cena teatral e pai da homenageada. Com experiência avançada em aliar o vermelho e branco, Quintaes mais uma vez brincou com a combinação no tapete da escola.

Abusando da pegada teatral, os carros voltaram a investir em um tamanho mais compacto e com aspecto cênico, dentro do enredo. Sempre apostando na abertura como um grande momento, o luxuoso abre-alas dourado representou o musical “O Avarento”, que apesar do barroco, não perdeu a limpeza sem excessos, característica do traço do artista nas alegorias. A alegoria em si marca uma boa síntese do estilo desenvolvido por Mauro nesse momento da festa, que ainda vivia os ecos do embate entre Rosa Magalhães e Renato Lage nos anos 90, onde os estilos batizados genericamente de "rococó" e "high-tech" se enfrentavam. Nessa dicotomia posta, Mauro foi um dos grandes nomes a misturar as duas vertentes de maneira inteligente, mesmo que às vezes ficasse uma nítida afinidade maior ao estilo do ex-carnavalesco da Mocidade. Quintaes sabia dosar um estética mais barroca quando o enredo pedia, sem perder a mão, como foi no caso do carro que abriu a apresentação daquele ano. 

A  alegoria que encerrou o desfile da Viradouro. (Foto: Andrei S)

Foi exatamente essa capacidade de mesclar os dois artistas mais importante da década passada que fez de Mauro um dos principais carnavalescos em atividade naquela início de século, se mantendo atualíssimo e original. Além disso, a Viradouro ainda contava com um super time, formado pelo grande Dominguinhos do Estácio, que defendeu muito bem o belo e poético samba daquele ano, e a bateria excelente de Mestre Ciça, já se destacando pelas bossas originais. Com tantos atributos, a Viradouro fez uma das grandes e memoráveis apresentações do ano, merecendo bem mais que o sexto lugar conquistado no resultado final.

O círio de Nazaré de 2004. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, a sequência de bons carnavais continuou ao prestar uma homenagem ao Círio de Nazaré. A ideia original era fazer um novo samba-enredo sobre uma das maiores manifestações religiosas do mundo, mas a disputa musical foi cancelada em plena atividade. Com a liberação da LIESA para as reedições, a Viradouro foi um das agremiações a apostar na medida, trazendo de volta a obra de Dário Marciano, Nilo Mendes e Aderbal Moreira, apresentada pela Unidos de São Carlos, em 1976. Assim, o desfile ampliou a obra musical, abordando além da romaria, as lendas e a cultura paraense em "Pedi pra Pará Parou, com a Viradouro eu vou pro Círio de Nazaré".

O desfile começou já emocionante com uma abertura de efeito, em que se destacou a belíssima coreografia de Déborah Colker para a comissão de frente, que trouxe elementos tradicionais como a famosa "corda" de maneira ressignificada. Logo depois, uma ala trouxe um grande contingente simulando uma enorme procissão de maneira singela, arrancando aplausos da Sapucaí. O talento de Mauro em aliar o barroco e o moderno, mais uma vez, se destacou, como no segundo carro da escola, que trouxe a Catedral da Sé em uma cenografia de escadas que trazia o esplendor barroco dourado da igreja através de uma luz neon amarela.


A moderna alegoria que lembrava uma igreja barroca. 

Num dos melhores conjunto alegóricos de sua carreira, o artista apresentou suas características já tradicionais em outras lindíssimas alegorias. Um dos destaques foi a representação do Arraial, que não trouxe os tradicionais "queijos" para as composições, mas uma arquitetura bem traçada, abusando da iluminação. O carnavalesco soube, ainda, driblar muito muito bem a proibição do uso de imagens sacras que havia na época. Finalizando o conjunto plástico, as fantasias de muito bom gosto apostaram em formas volumosas e grandes golas. Credenciado ao título, o desfile marcou o ápice do casamento entre escola e carnavalesco, conquistando um quarto lugar.

Após duas excelentes apresentações, a relação entre a agremiação de Niterói e o profissional se encerrou em 2005, com um desfile complicado e marcado por falhas, contrariando o enredo "A Viradouro é Sorriso". A apresentação sobre o sorriso teve como o ponto alto, novamente, a abertura, com a excelente comissão de frente assinada por Colker, e um grande sapato de palhaço alegórico, que completava a "cabeça da escola" no lindo abre-alas.

A abertura da Viradouro em 2005. (Foto: Widger Frota)

O letreiro característico de Mauro veio, nesse ano, em uma boa e original solução, formado por composições à frente da primeira alegoria. Infelizmente, falhas mecânicas impediram o segundo carro de adentrar a pista, desfalcando a apresentação. Apesar de bem vestida e com alegorias divertidas, como a que trazia o sorriso de Monalisa em diversos estilos artísticos, a escola não foi bem, já que a falha técnica acabou influenciando vários quesitos, fazendo a escola da Cidade Sorriso conquistar apenar um oitavo lugar, bem abaixo das expectativas do pré-carnaval.

São Clemente 2008-2010


Depois de breves passagens pela Mocidade e Rocinha, Mauro vestiu as cores da escola da Zona Sul para comemorar os 200 anos da chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro, se juntando aos carnavalescos Milton Cunha e Fábio Santos na missão de fazer a São Clemente permanecer na elite após a vitória no acesso. O enredo "O Clemente João VI no Rio: a redescoberta do Brasil…" contou os feitos do monarca em terras cariocas a partir da visão de Dona Maria I, a Louca, de maneira irreverente e bem humorada.

O desfile da São Clemente de 2008. (Foto: Widger Frota)

O casamento de Quintaes com outros artistas resultou em alegorias mais carregadas e com uma volumetria maior do que o tradicional traço arrojado do artista. O desfile contou com altos e baixos e, apesar do rebaixamento, Mauro seguiu nas bandas de Botafogo para 2009, para uma homenagem a Benjamin de Oliveira, primeiro palhaço negro. A escola entrou atrasada na Avenida, mas conseguiu se apresentar bem. E mesmo no acesso, o estilo cênico de Quintaes se destacou numa apresentação leve e bem desenvolvida plasticamente, que aliou as cores tradicionais da agremiação a tons de vermelho, laranja e até mesmo o dourado, que coloriram elementos circenses.

O desfile da São Clemente em 2009. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, o enredo "Choque de Ordem na Folia" trouxe de volta os marcantes ares críticos da agremiação, lembrando o inesquecível "E o samba sambou..." ao apontar o dedo para tanta "desordem" no carnaval. Atualíssimo à época, o enredo usou como mote o programa que marcou o mandato de Eduardo Paes, como prefeito do Rio de Janeiro. Com um samba muito agradável, a escola começou numa crítica social e de costumes, até chegar aos rumos que a folia carioca tomava.

Foto: O Globo

Do conjunto, a segunda alegoria com um simpático gato, que fazia referência a gíria que significa roubo de energia, se destacou. Com um desfile simples, cênico e bem humorado, a escola fez uma grande apresentação. No final da quarta-feira de cinzas, apenas um envelope reservou uma nota diferente de dez e a escola retornou ao grupo especial, onde se mantém até hoje. Ali, chegava ao fim mais um casamento, e Mauro, com uma grande oportunidade, rumaria para a Zona Norte para representar outra escola tradicionalíssima: a Mangueira.

Unidos da Tijuca 2015-2017


Depois de três carnavais fora da elite carioca, com passagens por Império Serrano e a União do Parque Curicica, o carnavalesco chegou à Unidos da Tijuca integrando a comissão de carnaval que tinha a difícil missão de substituir Paulo Barros após três títulos na azul e amarelo. Mauro foi o único nome "de fora" da agremiação a formar o time, que promoveu profissionais que já trabalhavam nos barracões tijucanos, como o ferreiro Hélcio Paim, a desenhista Annik Salmon e o aderecista Marcus Paulo.

A abertura do enredo sobre a Suíça.

Com o time definido, a escola optou por um enredo CEP sobre a Suíça, onde Clóvis Bornay conduziria os foliões por uma viagem encantada a partir das histórias que seu pai, nascido no país, contava. A narrativa passeou pelo chocolate, dragões, o relógio e os gelados alpes. Dando nova personalidade, a comissão soube incorporar o estilo de Barros com alegorias humanas e coreográficas, somadas a fantasias criativas e bem acabadas. O destaque ficou por conta das belas baianas, que representavam a neve, todas de branco e prateado. Na apuração, a escola conseguiu um quarto lugar, se mantendo à frente da Mocidade, escola de Paulo Barros à época, que terminou em sétimo. 

Letreiros: uma das marcas dos abre-alas de Quintaes. (Foto: Widger Frota)

Ainda brincando com o atlas, Mauro e a Unidos da Tijuca seguiram viagem novamente, agora mais perto, no interior do Mato Grosso, para contar a história de Sorriso, capital do agronegócio. Com um samba inspirado, a escola cantou a lida sertaneja, o solo que trazia a fertilidade e a prosperidade do homem do campo. O desfile começou impactante, num bem resolvido abre-alas que apostou em tons terrosos, relacionando o surgimento da vida com o barro. As alegorias apresentaram o enredo de maneira leve e as fantasias cumpriram bem seu papel. Impecável nos quesitos de pista, a azul e amarela terminou brindada com um vice-campeonato, melhor resultado da carreira de Mauro.

Foto: O Globo.
Com um bom momento depois do vice-campeonato, a Unidos da Tijuca resolveu homenagear a música norte-americana a partir da comemoração dos cinquenta anos do encontro de Pixinguinha e Louis Armstrong, no enredo "Música na alma, inspiração de uma nação". Os dois músicos seriam os condutores do enredo que passaria dos cantos dos lamentos dos cativos antes da libertação até o jazz e os fenômenos atuais da música estadunidense.

Entretanto, a agremiação, por um triste infortúnio, se viu protagonista de uma das mais lamentáveis cenas do carnaval carioca em todos os seus anos: uma alegoria desabou em plena Avenida e alguns desfilantes ficaram machucados. O desfile, inexplicavelmente, continuou depois da prestação de socorro e a escola se viu desnorteada. O que se decidiu na quarta de cinzas foi que o rebaixamento estava cancelado e, mesmo se não estivesse, a escola terminaria em décimo primeiro lugar. Em uma situação desgastante com tantos trâmites e investigações após o acidente, a escola se viu abalada e teve de buscar se reestruturar, o que custou a permanência de alguns profissionais, inclusive a de Quintaes, que encerraria ali a sua passagem pela escola do Borel.



(Foto: Widger Frota)


Afastado do grupo especial carioca desde então, Mauro Quintaes encontrou espaço para expressar sua arte do lado de lá da ponte aérea. Construindo uma carreira no Anhembi, com passagens por Gaviões da Fiel, Tom Maior e Unidos do Peruche. Para 2019, inicia uma parceria com a Dragões da Real, escola em ascensão que busca seu primeiro título. O enredo escolhido é "A invenção do tempo. Uma odisseia em 65 minutos".


De estilo próprio e bem marcado, o carnavalesco desenhou uma trajetória importante para a folia brasileira, ao aliar bom gosto e modernidade. Destacado pela personalidade arrojada de suas alegorias, Quintaes fugiu do barroco exagerado convencional, se tornando nome importante da festa até meados do anos 2000. Mesmo que tenha perdido a força em apresentações medianas, vale a reverência a este grande nome na nossa série.


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