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Carnavalize

por Leonardo Antan e Beatriz Freire.




Todo ano pipocam enredos afro em suas mais variadas vertentes. Também anualmente o famoso "mito das três raças" é exaltado através da mestiçagem cordial. Branco, negro e índio vivendo em aparante harmonia. Mas muito além do dia 19, é bom lembrar a menos falada das etnias fundadoras do Brasil. Em comparação ao números de enredos afros, os índios são bem menos falados de maneira comparativa. Antes da invasão portuguesa, as civilizações indígenas viviam em milhões por aqui. Muito além do mito do bom selvagem, eram diferentes povos com costumes e hábitos diferentes e modos de organização social bem estruturados. Em louvação a eles, saudando o verdadeiro dono da terra, vem com a gente homenagear os índios brasileiros com grandes sambas e desfiles que exploraram a temática.


O verde do Xingu


O parque do Xingu é uma das mais importantes concentrações de povos indígenas do Brasil atualmente. Se estendendo por todo o norte do país, a diversidade étnica do parque demarcado pelos irmão Villas-Bôas já foi cantada várias vezes pela Sapucaí com diferentes abordagens:

Como era verde meu Xingu - Mocidade 1983

"Deixe nossa mata sempre verde, deixe nosso índio ter seu chão"



⁠⁠⁠O primeiro enredo a abordar diretamente o local foi desenvolvido pelo mais indianista dos carnavalescos. Tropicalista e desbundado, Fernando Pinto foi um dos artistas que mais levantou a bandeira dos povos brasileiros. Foram ao todos três de seus 15 enredos assinados no especial. "Como era Verde meu Xingu" clamava pelo cuidado da natureza antes de "estar em moda falar de ecologia". A visão trazia o índio vivendo feliz nas matas mas também engajado na luta contra a invasão portuguesa. Com pegada surrealista, a mãe natureza recrutava camaleões guerreiros para lutar contra os colonizadores e desmatadores. Apesar da boa apresentação, garantiu apenas o sexto lugar. Após esse desfile, as peças da escola foram expostas numa galeria de arte em Ipanema, com grande sucesso de público segunda jornais da época. 

Xingu, o pássaro guerreiro - Tradição 1985

"Caraíba quer civilizar o índio nu, caraíba quer tomar as terras do Xingu"



⁠⁠⁠Fundada a partir de uma dissidência da Portela, a Tradição foi fundada em 1984 e realizou seu primeiro desfile no ano seguinte na avenida Rio Branco, no grupo 2B. O enredo escolhido foi o mesmo Xingu, cantando em verso e prosa nos versos dos grandes João Nogueira Paulo César Pinheiro. Abordando também a invasão caraíba, mas com pegada mais mitológica, o desfile foi assinado pela grande carnavalesca Maria Augusta. A junção dá beleza dá obra musical com o trabalho estético da artista teria resultado um desfile monumental e imbatível que desbancou as concorrentes com folga. Era o primeiro dos três títulos seguidos da azul e branco até ela chegar ao especial em 1988.

Xingu, o clamor que vem da floresta - Imperatriz 2017

"Sou o filho esquecido do mundo, minha cor é vermelha de dor"




Ainda na temática sobre o importante parque, a Imperatriz Leopoldinense retratou a fauna e a flora além da resistência da cultura indígena da região amazônica, que causou grande polêmica antes da folia. Mostrando rituais, templos sagrados e a ameaça aos índios, a escola de Ramos emocionou o público com o carro que trazia o Raoni, líder dos caiapós é símbolo da luta pela preservação da Amazônia. Em seu desenvolvimento, Cahê Rodrigues apostou em uma linha levemente maniqueista, colocando em extremos o branco como mau e o índio como bom; apesar disso, o desfile foi, esteticamente, bem resolvido e com bons momentos.

O samba entoado por Artur Franco era bonito e rendeu bem mais que o esperado na Avenida, cantando as dores e a perseverança desses povos. Apesar do sétimo lugar, a Imperatriz eternizou um desfile de alto caráter educativo e, sobretudo, conscientizador. O clamor da floresta ecoou na Sapuca.


Uruçumirim, paraíso tupínambá ⁠⁠⁠- Caprichosos 1979

"Campos do céu são a glorificação aos índios guerreiros que defenderam a nação"


⁠⁠⁠Muito antes de ser a escola da irreverência e da crítica, a Caprichosos de Pilares deu aula de história quando estava no grupo 1B, equivalente a Série B hoje. Numa obra composta por um dos maiores compositores da história da escola, Carlinhos de Pilares, a agremiação escolheria um momento pouco abordado do período colonial. A invasão francesa no Rio de Janeiro, vista através do povo tupinambá, que ficou no meio da disputa entre lusitanos e franceses. O episódio que ficou conhecido como Revolta dos Tamoios e teve como líder o cacique Cunhambebe é belamente contado nessa obra. Obra menos conhecida na discografia em geral das escolas, e dessa lista, que merece ser mais divulgada.

Iracema, a virgem dos lábios de mel - Beija Flor 2017

"Bem no coração dessa nossa terra, a menina moça e o homem de guerra"


Inspirada no romance de José de Alencar, a Beija-Flor inovou ao levar pra Avenida a história de Iracema no último carnaval. A escola nilopolitana optou pela substituição das alas convencionais por tribos e cenas teatralizadas, em que eram retratados trechos da história da índia que viveu uma grande paixão com o português Martim; no entanto, essa ausência das alas e o descuido com o todas das simples fantasias genéricas sobre os indígenas, gerou a repetição do enredo que parecia ter muitos momentos iguais durante a apresentação da escola.

O samba da Beija-Flor foi sucesso no pré-carnaval e eleito pela crítica especializada como o melhor do ano de 2017. O sucesso da obra narrativa, muito fiel ao livro, aconteceu muito pela roupagem que os compositores conseguiram dar a ele, fazendo uma espécie de "macumba indígena". Os versos "vou cantar juremê" e "pega no amerê, areté, anama" estavam na ponta da língua do público presente no domingo, e o desfile, apesar do sexto lugar, rendeu belas cenas ao amanhecer.


O Dono da Terra - Unidos da Tijuca 1999

"Hoje a Tijuca canta, sacode e balança esta cidade, viaja no conto do índio"



Depois do rebaixamento no ano de 98, a Unidos da Tijuca escolheu contar na Sapucaí o índio da Terra Brasilis, do período pré-cabralino. A estética de Oswaldo Jardim agradou os jurados e o público, num desfile considerado impecável, de excelente abordagem e embalado por um samba antológico que exaltava a natureza, os mitos e as crenças indígenas.

Oswaldo foi importante nome do carnaval na década de 90 e, apesar de não alcançar resultados muito expressivos nesses anos, tinha um estilo próprio muito marcado pelo uso de espumas e pelas suas fantasias coloridas, facilmente observadas, inclusive, em "O Dono da Terra". Na quarta de cinzas, muito aclamada, a escola tijucana foi consagrada campeã do grupo A com todas as notas máximas e retornaria ao grupo especial. Marcado na história da agremiação e gravado na mente de quem presenciou, o carnaval tijucano de 99 deu seu recado. 


Tupinicopolis - Mocidade 1987

"Minha cidade, minha vida, minha nação, que faz mais verde meu coração"




⁠⁠⁠O filho da terra Brasilis Fernando Pinto revolucionaria todos os padrões históricos ao dar ao povo nativo brasileiro sua própria cidade em 1987. Em um jogo de contradições deliciosos, índios de patins fariam suas compras ao melhor estilo capitalista em lojas e estabelecimentos batizados com símbolos da cultura tupi-brasileira, como Saci, Iara, Boitatá e etc. O delicioso jogo de relações faria uma crítica ao sistema capitalista patriarcal através do olhar distante que geralmente é tratado a questão indígena, o colocando numa perspectiva atual. Mas também chamaria atenção para a preservação da cultura nativa e a demarcação de suas terras.

O samba-enredo infelizmente não ficaria a altura do trabalho estético do artista e seria acusado de fazer a escola perder o título para a Mangueira. A obra entretanto apesar dos problemas teria uma frase que sintetizaria o enredo de forma genial: "a oca virou tava, a taba virou Metrópole".  A crítica e o desfile continuam necessários e atuais até hoje, trinta anos depois.

Menções honrosas:

Apesar de pouco abordado no contexto geral dos desfiles, a temática rendeu grandes desfiles. A lista não pretende ser universal mas tratou de um recorte tentando abranger os mais diferentes períodos temporais e diferentes agremiações. Outros grandes sambas sobre os nativos brasileiros, são:

- Todo dia era dia de Índio, (União da Ilha em 1995)
- Raízes (Vila Isabel em 1987)
- Curumim, Chama Cunhatã Que eu Vou Contar (Paraíso do Tuiuti 2015)
- Eu Sou Índio, Eu Também Sou Imortal (Vila Isabel 2000)
- Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e Tabajères (Imperatriz 1994)
- O mundo místico dos caruanas nas águas do Patu Anu (Beija-Flor, 1998)




O índio é elemento fundamental para a formação sociocultural do país, inquestionavelmente. Com o papel de ensinar e alertar, é indispensável que as escolas de samba continuem abordando a temática em seus desfiles, mas de uma forma que desconstrua a imagem que a população geral tem dos nossos nativos, como bom-selvagem, escondendo seu instinto que é naturalmente guerreiro. É preciso abordar as mais diferentes etnias e crenças, mostrando a pluralidade desses povos, não os uniformizando. Afinal, antes do chegada portuguesa, "todo dia era dia de índio".



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Reza a lenda que existiu um deus todo poderoso, de voz de trovão que reuniu junto a si um séquito de deuses singulares que mudariam para sempre a história da nossa folia momesca. Eles fizeram do morro do Salgueiro o seu Olimpo. O deus de trovão se juntou a um certo Arlequim, deus do barroco e da História. Não demorou e o panteão logo aumentou. Vieram colombinas, rosas, reis-mendigos, robôs e índios. Uma verdadeira academia da folia, que juntos, fizeram grande confusão. Colocaram o carnavalesco com o principal artista da festa, o deus maior de cada escola. Transformaram aqui e acolá com seus mitos e lendas. Exaltando o negro pro mundo inteiro cantar, com uma estética nova e revolucionária.

Meu Torrão Amado

Imagem do desfile de 1970 

O Acadêmicos do Salgueiro revela em sua história as raízes da negritude. Em sua estreia, no ano de 1954, a vermelho-e-branco da Tijuca garantiu o terceiro lugar, com o enredo "Romaria à Bahia", exaltando Salvador, a capital negra do Brasil. Três anos depois, o Salgueiro desfilou com "Navio Negreiro", mas ainda apresentando a negritude sob uma ótica oficial e conciliadora. Era célula pátria da escola marcada pelo branco, vermelho e negro, destinada a mudar para sempre a festa carnavalesca. 

Uma viagem pitoresca e fundamental – O desfile atrasou, seu coração Salgueirou

Ala de damas leva representações das obras de Debret no desfile de 1959.

Depois disso, em 1959, o Salgueiro levaria à Rio Branco o enredo intitulado "Viagem Pitoresca Através do Brasil", que se tornaria conhecido como Debret, autor do livro homônimo. O desfile salgueirense foi assinado pelo casal de artistas plásticos Dirceu e Marie Louise Nery. Jurado naquele ano, um certo Fernando Pamplona, após quatro horas de atraso no início das apresentações, se maravilhou ao ver o artista franco-brasileiro no lugar dos heróis de “capa e espada”. O encantamento  fez Pamplona dar uma nota maior para a "Academia" do que para a campeã Portela. Tal fato o fez ser convidado por Nelson Andrade, então presidente da agremiação, para ser carnavalesco da escola.

Pernambuco foi o palco da história

Guerreiro africano leva o estandarte com o enredo de 1960.

Se hoje Zumbi dos Palmares tem estátua, um feriado e é figura garantida nos principais livros de História, o cenário em 1960 era bem diferente. Poucos conheciam o herói negro, principalmente nas escolas de samba, que só cantavam fatos e mitos da narrativa oficial "branca". Foi com a chegada do Zeus salgueirense, Fernando Pamplona, que enfim o quadro se inverteu. Com um enredo sobre o "Quilombo dos Palmares", estava lançada a pedra fundamental da revolução em vermelho, branco e negro. Apesar de outras escolas terem abordado de alguma maneira símbolos negros, tanto no Rio e como em São Paulo, nenhuma agremiação fez disso seu discurso apoiado em uma série de renovações estéticas como o Salgueiro.

Nesse quilombo tem magia

O abre-alas da Academia de 1960.

A estética do Quilombo de Palmares foi o resumo da afrobrasilidade. A primeira alegoria vinha carregada por atabaques gigantes representando os sons do candomblé e do jongo, símbolos da herança africana. Cabe ressaltar que os componentes tratavam as alegorias pelo nome de Enredo, pois achavam que os elementos eram os verdadeiros responsáveis pela história que seria contada. Para ilustrar o desfile, além dos tambores e lanças, a setorização do desfile foi disposta com a representação do "Cativeiro", "Luta" que mostrava a essência guerreira em busca da liberdade, "Palmares - O reinado de Nzambi", com o Maracatu de Pernambuco e "Nação Livre", com alas populares, damas e as famosas bandeiras brancas da paz. Estandartes carregavam frases, dentre elas a que virou o lema da Academia: "nem melhor, nem pior, apenas diferente".

"Você tem vergonha de ser negro?"

Imagens do desfile de 1960.

Foi a pergunta que Pamplona fez, "na lata", para um componente salgueirense antes do desfile de 1960. O cenógrafo e professor teve dificuldades de convencer os desfilantes, em sua maioria negros, a saírem como guerreiros africanos. Para eles, aquela fantasia não "pegava bem" para brincar os outros dias de folia. Junto à Pamplona nessa difícil missão, estavam Arlindo Rodrigues, fazendo os figurinos femininos e Newton Sá, os étnicos. Na maioria dos lugares se credita ainda a participação do casal Nery, responsável pelo desfile do ano anterior sobre Debret, o que não é verdade.

Onde o erudito se mistura ao popular, cenário perfeito para um novo carnaval 

Arlindo Rodrigues foi o grande parceiro criativo de Pamplona e responsável por desfiles solos marcantes.

Após o sucesso do desfile de 60, a chegada do grupo de Pamplona inauguraria o protagonismo do negro nos enredos salgueirenses e, posteriormente, nas demais agremiações. “Quilombo”,  deu início à revolução em um desfile com estética e abordagem diferenciadas, seguido por personagens então desconhecidos como Xica da Silva e Chico Rei. Mais tarde, vieram exaltações à Bahia, seus deuses afro-brasileiros e festejos. Tidos como intelectuais, não era a primeira vez que pessoas de foras assinavam um carnaval. A prática, que era comum nos ranchos, se consolidou, colocando o carnavalesco como o diretor principal da festa. 

"Quilombo" exaltou o orgulho negro


A estética da máscara africana do diretor Abdias Nascimento lembra a do Salgueiro da época.

O Salgueiro não estava sozinho na luta pela valorização do negro. Lá fora, eclodia um momento de independência africana, com várias colônias conquistando sua autonomia, culminando num processo de valorização da cultura do continente. Enquanto isso, por aqui, símbolos como o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, e movimentos unificados da negritude, como a Associação  Cultural do Negro (ACN), reivindicavam o protagonismo e a conquista de direitos igualitários. 

A corte de Xica

A ala da "Corte da Xica da Silva" dançando o minueto em 1963.

Outro marco deste processo da valorização africana foi a lendária Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Municipal. Ficando famosa por coreografar a primeira ala de passo marcado da história, comandando a corte de Xica da Silva num momento apoteótico, Mercedes já vinha marcando presença na Academia desde 1960. Naquele ano, a bailarina desfilou com seu grupo, distribuindo colares africanos para o público. 


No seio da mais alta nobreza

Fotos da decoração africana assinada por Pamplona 1959, no Municipal.

O discurso de negritude de Pamplona é absolutamente afinado com a sua época. Figura declaradamente de esquerda, era frequentador do meio universitário, onde ocorriam essas discussões  - por ser professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA) - e integrante da União Nacional dos Estudantes (UNE), como ele mesmo declara em sua biografia. A valorização do negro nos enredos do Salgueiro “ensinaria” a manifestação a ter orgulho de origem ancestral africana, como o próprio assume em seu relato pessoal. 


Fotos da decoração de rua com temática africana de 1961.

E ele traduzia esses pensamentos em suas produções como decorador e cenógrafo. Já em 1954, participou do concurso que iria escolher a decoração do prestigiado baile do Theatro Municipal, com uma proposta que tinha como inspiração a Bahia e seus orixás. Ele perderia a competição naquele ano, mas sairia vencedor quatro anos, com “Carnaval afro-brasileiro’. Nas suas famosas decorações de rua, ele voltaria a explorar esses universos muitas vezes, como em 1961.

É fantástico, virou Hollywood isso aqui



Cartazes de filmes e séries hollywoodianos sobre o continente negro.

Apesar de todo esse discurso nacionalista e popular, a possível inspiração para a formação da "África Salgueirense" veio da capitalista indústria norte-americana. Nos anos 50 e 60, havia um popular nicho de filmes que criavam uma mística em torno do continente negro, com uma temática rústica, de muitas estampas geométricas e caráter místico. Alguns cartazes de filmes da época exemplificam bem essa hipotética influência.

A Xica que manda ou "Enredo de merda, Arlindo"

A eterna imagem de Isabel Valença como Xica da Silva com a Candelária ao fundo, em 63.

Pamplona deu um pequeno adeus e foi passar o carnaval na Alemanha em 1962, deixando seu parceiro e fiel escudeiro Arlindo Rodrigues no comando dos trabalhos. Para 63, o também cenógrafo do Municipal escolheu a então desconhecida Xica da Silva como enredo. Pamplona não achou que a história da mulata que trocou "os gemidos da senzala pela fidalguia do salão" daria bom desfile. Mas Arlindo persistiu: "é negro, de luta e conquista social, da nossa linha". E então surgiu um dos momentos mais importantes do carnaval contemporâneo. Mesmo não aprovando o enredo naquele momento, Pamplona ganharia a fama como o único responsável pela criação e concepção do desfile, em detrimento de seu verdadeiro autor, Arlindo Rodrigues. 

Xica da Silva já te seduziu

Detalhe do elemento alegórico usado em 1963, logo atrás da ala do minueto.


Espécie de desfile manifesto, Xica da Silva é um marco para entender a narrativa carnavalesca contemporânea, pois foi ali que ela se estabeleceu, dada por Arlindo e não por Pamplona. Cenógrafo do Municipal, Arlindo Rodrigues traz toda a linguagem teatral para o cortejo carnavalesco, transformando-o, de fato, numa ópera popular. O enredo passa a contar uma narrativa com início, meio e fim, numa construção bem definida e de fácil decodificação pelo público da época. O luxo, o esplendor e o requinte são marcas das fantasias e alegorias apresentadas. A escola passa a ter roupas inspiradas no tempo em que o enredo se passa, criando uma unidade narrativa literário-visual. Por fim, o uso da ala coreografa afirma o diálogo direto com as artes cênicas.

Já bebi, sambei com Chico-Rei

Imagens da apresentação de 64, criticada pelo excesso de coreografias.

Desde 61, quando Pamplona descobriu a história de Chico Rei pesquisando para o enredo sobre Aleijadinho, ele alimentou o desejo de contar a história. Até a realização, passaram-se 3 anos, quando em 1964, finalmente, a Academia versou sobre o personagem. Embalados por um belíssimo samba de Djalma Sabiá, o desfile rendeu a marcante cena da lavagem da cabeça de Chico Rei numa pia.  O excesso de coreografias porém, fez a escola ser penalizada e perder o campeonato. 

Choveram críticas ao professor


Fernando Pamplona com projetos de suas decorações de rua.

O grande número de coreografias, mais todas as inovações chefiadas por Pamplona e Arlindo renderam um debate acalorado. Não faltou quem acusasse a turma de estar destruindo a festa e acabando com a tradição, caso do já citado Nilton Sá. O debate em torno das transformações acontece até hoje, porém, para muitos, apenas o tempo pôde revelar a genialidade e a necessidade de tantas transformações.

A história da folia contada através da própria folia


Imagens do desfile de 1965 sobre a folia carioca.
"Vamos dar uma Shakespeare em Hamlet, o teatro dentro do teatro, o carnaval dentro do carnaval". Foi assim que Pamplona convenceu Arlindo a fazer o desfile de 1965 sobre "A História do Carnaval Carioca", baseado no fundamental livro de Eneida de Morais lançado tempos antes. Pro quarto centenário da cidade, era obrigatória a apresentação de um enredo sobre o aniversário do Rio, exigência que os gênios salgueirenses souberam driblar muito bem.


Preto velho Benedita já dizia: “Felicidade também mora na Bahia.”

Desfilante salgueirense de 1969. 

Sem contar com a previsão do resultado daquele ano, o desfile de 1969 gerou polêmica na comunidade salgueirense. Rezava a lenda que a Bahia dava azar e que, portanto, não deveria ser o tema. Nelson de Andrade, patrono da época reforçou a tese e disse que “dezessete escolas já tentaram falar da Bahia e nenhuma delas passou do terceiro lugar”. Contrariando boatos, a Academia mostrou que tinha santo forte e mordeu a taça de campeã daquele ano com um desfile memorável, embalado pela voz de Elza Soares, encarregada de puxar o samba da escola.

Yemanjá enriquecendo o visual

Não há registro que dê conta do que seria a beleza da Yemanjá do desfile de 1969.

Além da Xica, outra imagem produzida pela comissão se eternizaria na mitologia carnavalesca. A representação de Yemanjá, com apenas 3 metros e todos adereçada em espelhos se tornaria a primeira grande alegoria da nossa folia. Reza a lenda que já passava das nove da manhã quando a escultura representando a orixá das águas salgadas passou na concentração do desfile do Acadêmicos do Salgueiro, fazendo os cansados componentes se levantarem, maravilhados. Toda decorada com espelhos cortados em círculos presos por fios de náilon, a representação da divindade foi elaborada por Arlindo. O efeito teria sido tão deslumbrante que a tecnologia fotográfica da época não deu conta de captar o registro. As fotos realizadas por um repórter da revista Manchete saíram borradas pelas ilusões óticas causadas pelos espelhos.

Tira da cabeça o que do bolso não dá

As belas baianas salgueirenses.

Ainda naquele ano, Pamplona e Arlindo Rodrigues, além do compromisso com a Academia do Samba, tinham a responsabilidade da decoração do Copacabana Palace naquele carnaval. Sem muitas alternativas com a falta de dinheiro para o desfile do Salgueiro, a saída que a dupla achou foi fazer muitos ornamentos nas cores da escola para o baile do hotel, que aconteceria um dia antes da apresentação da agremiação. No domingo, a Avenida era preenchida pela reutilização já planejada dos ornamentos do baile do luxuoso hotel carioca. 

Pega no ganzê, pega no ganzá

Elemento alegórico usada na apresentação de 1971.

O enredo sobre a inusitada visita de um rei africano à corte do holândes Mauricio de Nassau, em Pernambuco, surgiu de pesquisas universitárias de Maria Augusta para concorrer ao Prêmio Medalha da Escola de Belas Artes, o que hoje equivale ao mestrado. A estética africana daquele ano abusaria ainda mais do vermelho e branco e das estampas geométricas com usos de grandes elementos alegóricos. Outro fator decisivo para o sucesso da Academia naquele ano foi o samba composto por Zuzuca: o simples refrão "pega no ganzê, pega no ganzá", repetido inúmeras vezes ao longo da música seria entoado pelas massas, marcando uma transformação no gênero. A obra do Salgueiro trouxe rapidez e empolgação, deixando de lado as letras longas e dolentes.

Tempo de consciência negra

Alegoria do desfile de 1989 do Salgueiro, assinado por Luiz Fernando Reis. 

Após construção tão mística, não só pelo "boca a boca", mas pela historiografia carnavalesca que surgiria depois, consolidando as transformações estéticas do grupo de artistas liderado por Pamplona e Arlindo como um o momento mais importante da história recente das escolas de samba e ponto de virada para a chegada da estrutura narrativa e estética que temos hoje. Todos os nomes surgidos após elas, seriam oriundos dessas espécie de "escola" carnavalesca que tinha como pais os cenógrafos do Municipal. Pode até ser que não sejam os primeiros enredos afros de fato ou os primeiros artistas de formação oficial a planejarem os desfiles das escolas. Mas eles fariam seu próprio panteão. 

Foi quando o Salgueiro se vestiu de vez com as vestes negras fazendo disso seu DNA mais profundo. Sempre louvando a sua própria história como em 86, 89 e 2003. E a força africana como 78, 2007, 2009, 2014, entre tantos outros. E bebendo de novo e de novo na fonte negra-africana, onde o rio vermelho, branco e negro começou a jorrar.


O Dossiê Carnavalize é uma trabalho coletivo de Leonardo Antan, Beatriz Freire, Guilherme Peixoto e Vitor Melo. 


Fontes Consultadas

Para a construção deste dossiê, foram utilizados os livros "Pra tudo começar na quinta-feira ", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato; "Livro de ouro do carnaval carioca", escrito por Felipe Ferreira; "Explode coração: histórias do Salgueiro", de Leonardo Bruno; e "O encarnado e o branco", de Fernando Pamplona, além da série de reportagens "Carnaval Histórico", do jornal Extra e assinadas por João Gustavo Melo e Leonardo Bruno.

Foram consultados ainda os artigos acadêmicos "As Áfricas de Pamplona e o Debret da Trinca: 'figurinos' monumentais do carnaval carioca", de Helenise Monteiro Guimarães; "As escolas de samba e o movimento negro nos anos 1960: uma página em branco da historiografia brasileira" e "Nem melhor, nem pior, apenas uma Escola diferente: Os Acadêmicos do Salgueiro e as transformações estéticas e ideológicas na cultura brasileira", ambos escritos por Guilherme José Motta Faria.


   
 




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Nunca o mercado da folia esteve tão em polvorosa e com tudo acontecendo tão rápido. Não faz nem uma semana que os envelopes com as notas foram abertos e a dança das cadeiras já começou freneticamente, tanto que nossa cotação teve que voltar com força total. Vem com a gente num retrospecto de tudo que já foi confirmado e as novidades dos últimos dias para você não ficar desatualizado e poder palpitar à vontade com os amigos nos grupos!


     Em Alta - Contratados: 



A primeira grande mudança da folia aconteceu com um de seus principais nomes na atualidade, após conseguir quebrar o longo jejum da Portela, o midiático Paulo Barros resolveu alçar novos desafios e seguir rumo ao bairro de Noel. A Vila que amargou a décima posição após um desfile complicado, está de olho também em outros nomes para reforçar seu time e deve contratar em breve novos profissionais. Em entrevista, Paulo Barros disse que sua primeira possibilidade de enredo, seria um novo "fim do mundo". E você, o que faria se fosse Paulo? 



A atual campeão do Carnaval não demorou a se mexer e foi logo faturando uma das principais artistas da nossa folia. Após uma estadia de três carnavais na São Clemente, a nossa professora, Rosa Magalhães está de mudança pra Madureira. Não custa lembrar, mas Rosa é sete vezes campeãs da festa nas últimas quatro décadas, mostrando sua capacidade de renovação e adequação de seu estilo barroco a uma pegada atual e contemporânea.  Juntas, a elegante Rosa e a tradicional Majestade do Samba devem brilhar novamente. Quem não ficou feliz foi a pessoal de Botafogo. 




Outra contratação que surpreendeu tem a ver com outro nome histórico da nossa folia, após 15 carnavais no Salgueiro, Renato Lage e Márcia Lage se mudaram da Tijuca para Caxias. A tricolor Grande Rio dispensou o carnavalesco Fábio Ricardo após quatro carnavais e garantiu o mago High-Tech, que estava sendo disputado por outras duas agremiações. A chegada de Renato com sua experiência e talento deve fazer bem para os dois, para o artista, a oportunidade de se reinventar e dar seu nome a uma escola estruturada e que sonha com o título. 




Regina Sinhá Celi que não é boba, ao perder seu grande nome, tratou de correr atrás de anunciar uma contratação de peso. Quem comandará a vermelho e branco esse ano, será o experiente Alex de Souza, recém saído da Vila Isabel. Mudança como há tempo não se via no Sal. Alex começou a carreira exatamente como assistente de Lage e já brilhou com grandes trabalhos na Ilha e na Vila em outros anos. Trata-se de um artista completo, que pesquisa, escreve e desenha. A Academia estará também muito bem servida. 




Na série A, as coisas estão mais devagar, mas há novidades também. Após levar a Rocinha do 13º para o 6º lugar, o talentoso João Vitor Araújo vai assumir o carnaval da Unidos de Padre Miguel, que perdeu o Edson Pereira para a Viradouro. De estilo requintado, João Vitor conta com a força e a garra da "tribo da Vila Vintém" para fazer um grande trabalho.

Mais um contratação recente do segundo grupo está relacionado a escola que subiu da Série B, na busca de se manter no grupo, a Unidos de Bangu contratou o experiente carnavalesco Cid Carvalho para comandar seu barracão. 


      Estáveis - Renovados: 


Uma das confirmações mais recentes, contrariando as especulações, a Comissão de Carnaval que vem dando as cartas na Tijuca nos últimos três anos deve seguir sem alterações para 2018. Hélcio Paim, Marcus Paulo e Annik Salmon já estão acertados com o presidente Horta. Apenas, Mauro Quintaes estaria viajando e ainda não acertou sua permanência, segundo informações do site Sambarazzo. 



Após uma estreia brilhante no grupo especial, com um trabalho estético primoroso, Severo Luzardo continua no girê da União da Ilha para a folia do ano que vem. O experiente figurinista segue na tricolor após a oitava posição e um trabalho elogiado. A Ilha, inclusive, está tranquila. Nomes importantes da escola, como o mestre Ciça, o intérprete Ito e o casal Dandara e Phelipe estão mais do que confirmados na agremiação. 



Campeã da Série A, o Império Serrano não fará grandes mudanças em sua equipe na busca para se manter na elite da folia carioca. O artista Marcus Ferreira segue no Reizinho de Madureira para sua estreia no grupo especial, após desenvolver o enredo sobre o poeta Manuel de Barros. Marcus já tem alguma experiência na folia, onde atua desde 2011. Tendo passado por escolas como Estácio de Sá, Renascer, Jacarezinho e Curicica.


   Especulações, quem falta: 


Apenas três escolas do especial estão atrás na contratação de carnavalescos. Após perder seu grande trunfo pela briga de boas posições, a São Clemente segue cabisbaixa sem Rosa Magalhães no seu time. Segundo boatos, fonte Arial, ao sair da preto e amarelo a professora teria deixado a indicação de Jorge Silveira, que assinou a Viradouro e a Dragões da Real este ano. 



O destino da bem sucedia comissão de carnaval da Beija-Flor, após vinte anos, também é incerto. O grande nome por trás do grupo, Fransergio está de saída de Nilópolis e a Soberana ainda não sabe como irá se estruturar. A escola pode optar por um novo nome que assinaria solo ou uma nova formulação da sua comissão, visto o poder de Laíla na agremiação e sua vontade de dividir os trabalhos sem uma grande estrela.

Outra escola que segue calada no pós-carnaval é o Paraíso do Tuiuti, a escola ainda não anunciou uma renovação ou demissão do artista Jack Vasconcelos que fez um trabalho competente em seus quesitos no enredo sobre o movimento tropicalista. A rádio corredor dá conta que ele deve seguir na azul e amarelo. A conferir. 



Com as bençãos de Rosas, nosso boletim de contratações fica por aqui e voltará em breve com novidades. Após as tragédias desse ano, o carnaval de 2018 promete vir com tudo, já dando fim aos maiores casamentos da nossa folia, que eram os do Salgueiro e da Beija-Flor. Como será a Academia sem Lage? E o destino da soberana de Nilópolis? Será um ano de transformações. Vamos aguardar. 

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