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Carnavalize

Por Leonardo Antan, Felipe de Souza e Beatriz Freire
A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Depois da estreia com o carnavalesco Jorge Silveira, seguimos rumo à Série A. Campeão do grupo em 2017, com um desfile no Império Serrano sobre o poeta Manoel de Barros, o jovem Marcus Ferreira tem trajetória experiente no grupo de acesso, passando por diversas escolas. Após o título, o trabalho do artista ganhou um novo patamar e encara o desafio de assumir a Acadêmicos da Rocinha, que também vem de uma apresentação elogiada, assinada por João Vitor Araújo. Conversamos sobre os preparativos para este ano, as dificuldades da criação com a crise financeira e os momentos mais marcantes da sua carreira. Vem conferir.


CARNAVALIZE: O barracão é o seu espaço de produção de alegorias e fantasias, tudo é confeccionado aqui dentro ou ainda há algo que venha de fora? 

MARCUS: As únicas alas que não são feitas aqui são as alas comerciais; a escola tem quatro delas. O restante é produzido aqui dentro com o apoio da quadra também. Eu sempre mando algumas peças do carnaval que eles estão reproduzindo lá e já vem pronto.

CARNAVALIZE: E você fiscaliza todo o processo de produção, de adaptação dos protótipos, substituição de materiais para que qualquer contratempo que haja seja resolvido da melhor forma…

MARCUS: É um facilitador esse ano porque está tudo aqui, então até que não estou tendo problemas com substituição, mas, às vezes, sobra um pouquinho de uma ala, aí a gente joga pra cá… faz pequenos recortes e remaneja os materiais.

CARNAVALIZE: Como foi o processo de construção das alegorias? Foi focado num projeto de execução original ou houve um pensamento nas peças que você já tinha disponíveis para reaproveitar? 

MARCUS: Eu acho que o carnaval da Série A é um processo criativo que já vislumbra o que a gente ganha do Especial, acredito que praticamente 100% do grupo faça o reaproveitamento. Aqui, na Rocinha, eu queria trazer um carnaval maior esse ano, carros com mais volume, mais peças, já tendo em vista que a escola veio de um grande carnaval no último ano e que eu vim de um campeonato com o Império Serrano. Desde maio a gente está nesse processo de construção do carnaval, visando fazer um desfile com uma qualidade melhor.

Marcus Ferreira em meio a uma das alegorias para 2018 (Fonte: Reprodução/Acadêmicos da Rocinha)
CARNAVALIZE: O enredo de 2018 é sobre a xilogravura e você já havia desenvolvido um enredo na União do Parque Curicica, intitulado "Corações Mamulengos". A relação com linguagens mais populares tem sido uma característica dos seus últimos trabalhos. Como isso tem se tornado exatamente um traço da sua personalidade como carnavalesco? 

MARCUS: Eu procuro sempre pensar em temas diferentes para o carnaval, eu acho que um bom carnaval parte de uma temática apropriada, de um tema bem escolhido. Quando eu fiz o carnaval da Curicica, conversando com a diretoria, na época, eles me pediram um enredo que tivesse uma linguagem diferente e que possivelmente focasse no Nordeste. Na época, eu tinha teatro dos mamulengos e foi um dos carnavais que mais me diverti fazendo. Dentro de todas as limitações da escola, mas que gostei muito de realizar

E ano passado, no Império Serrano, a gente tinha um contato com a Secretaria de Cultura do Mato Grosso do Sul e eles sugeriram que fizéssemos um carnaval sobre o Manoel de Barros, já que é um grande ícone do estado, e aí tentei dar aquele viés de brasilidade. Era um enredo pautado em cima do quintal dele mas com um olhar sobre tudo que ele via no meio natural do Pantanal sul-matogrossense; então, eu também dei um olhar mais, digamos, regionalista.

O abre-alas do desfile campeão de 2017 (Fonte: O Globo)
E esse ano, vindo pra Rocinha, eu apresentei três temas para a escola, um de temática nordestina e outros dois não. Por ser uma comunidade também de nordestinos, o presidente Ronaldo falou de imediato: "esse é o enredo da Rocinha". Dentre os três, era mesmo o que eu tinha em mente fazer e ele também optou pelo "Madeira Matriz". Os outros dois também eram ideias bacanas, mas acho que por desejo, esse ano queremos mostrar uma estampa diferente. Apesar de nordestino, o carnaval da Rocinha não tem uma cara de Nordeste, ele fala sobre artes plásticas. Então, eu queria muito realizar esse carnaval.

CARNAVALIZE: O enredo da Curicica em 2016, os Mamulengos, retrata o nordeste, mas é um Nordeste completamente diferente da xilogravura. Os dois propõem temas parecidos mas com possibilidade de soluções muito diferentes. Como é o processo de construção dessa estética? E como aliar esse processo de busca de referências a uma estética apurada e menos tradicional?

MARCUS: A minha ideia era fazer um carnaval diferente, eu acho que é dever do artista do carnaval motivar o carnaval carioca, trazer uma estética diferente, ou um enredo diferente. Então o pensamento de construção do desfile da Rocinha foi em cima disso. Ano passado eu até fiz um carnaval muito tradicional no Império Serrano, de fantasias e alegorias mais tradicionais. Pra esse ano, pensando pra 2018, eu queria trazer inovações em termos da fantasia, indumentária, corte de figurino, de modelagem e de estampa também, porque as fantasias da Rocinha são super simples em termos de material, mas eu queria dar esse requinte. São fantasias que mostram o enredo principalmente através da estamparia, da cor, da base do carnaval preto e branco, como é xilogravura. Meu processo criativo foi em cima disso, de pensar o novo.

CARNAVALIZE: Então basicamente a gente tem o preto e branco como base e você vai brincar em cima dessa paleta de cores durante o desfile?!

MARCUS: A minha ideia inicial era trazer a escola toda preta e branca, eu imaginava que a xilogravura se baseava nessas cores, então faria a escola toda nesse tom. Mas conversando como o J. Borges, ele me falou uma frase que eu achei emblemática: ele passou a fazer a xilogravura preta e branca, mas as mulheres sempre pediam um toque colorido. Como, por exemplo, um cortador de cana onde o desenho em si mantinha o preto e branco, mas a cana era verde. Ou o vendedor de bola, onde só a bola é colorida. Então assim nasceu o conceito do enredo da Rocinha.

Detalhes das alegorias para o desfile da Rocinha em 2018 (Fonte: Facebook)
CARNAVALIZE: Partindo pra uma segunda parte da entrevista, vamos focar mais em diferentes partes da sua carreira. Você iniciou a carreira na Mocidade de Vicente de Carvalho, na Intendente Magalhães, e pra 2018 você também assina a Curicica, na série B. Qual a principal diferença do processo criativo pra Intendente, que é um carnaval com mais dificuldades ainda que a Série A, e como esses problemas moldam seu trabalho?

MARCUS: Eu acho que a visibilidade da Série A traz uma maior cobrança, mas a luta na Intendente é maior. Esse ano o carnaval da Curicica é planejado com cara de série A, então acho que é basicamente isso. O carnaval da Série A é maior, o recurso na Intendente é mais escasso, com a ajuda de parceiros a gente tá conseguindo viabilizar. 

CARNAVALIZE: E o atraso da verba prejudicou bastante o processo?

MARCUS: Assim, se a verba já tivesse saído, o carnaval da Rocinha já estaria pronto. Mas a gente conseguiu caminhar bem sem ela.

CARNAVALIZE: Você inicia sua carreia na Estácio,  com dois carnavais, 2011 e 2012. Como foi essa estreia na escola e na Sapucaí? Quais as dificuldades e facilidades daqueles processos?

MARCUS: Quando eu assumi a Estácio, foi meio que no susto. Porque eu estava vindo de uma série C na época, subi pra B e fiz lá a Mocidade de Vicente de Carvalho, abrimos o grupo. Estava fazendo um curso na Argentina antes do presidente Marquinhos chegar com a proposta. E eu pensei "caramba, vou pular pra Série A", pois até então eu havia feito séries B e C. Aí aceitei e fiz, foi bom na época, a escola estava com bastante dificuldade, mas houve muito empenho. Eles me pediram um enredo que tivesse esse viés de religiosidade, um pouco de romantismo.

Abre-alas da Estácio de Sá em 2011, do desfile "Rosas" assinado por Marcus.

Eu já estava na primeira semana de agosto, então já fiquei na Argentina pensando o que eu poderia fazer pro carnaval da Estácio, até que surgiu o enredo "Rosas", que é um carnaval que eu guardo com bastante carinho. Tanto da escola, tanto do que pudemos realizar aquele ano. E aí, em 2012, eu continuei a pedido da diretoria e fizemos Luma de Oliveira. Foi um carnaval um pouco dificultoso, mas que eu conquistei todas as notas máximas em enredo, que era bastante contestado. Consegui chegar a uma leitura pra fugir do óbvio de uma biografia clássica, através de um poema do João Bosco, que, na época, deu um caminho ao enredo.  

CARNAVALIZE: E aí veio Jacarezinho em 2013, Renascer em 2014. Passou um ano na Intendente em 2015 novamente e aí você chega na Curicica em 2016, nessa carnaval que já comentamos, que é também um ponto de virada da sua carreira. É um desfile onde você conquista uma maturidade artística do processo, do comando de uma escola, que você consegue colocar mais a sua cara? Como você enxerga esse desfile na sua carreira?

MARCUS: Foi um desfile que também foi uma virada pra Curicica, né!? A escola tinha vindo de um carnaval muito traumático no ano anterior, por falta de fantasia. Então foi um carnaval bem planejado, o único empecilho foi um carro que não desfilou, quebrou dentro do barracão. Então a gente acabou ficando em décimo lugar por conta disso, porque senão chegaríamos muito mais a frente. Mas foi um carnaval que eu guardo com bastante carinho por tudo que eu pude realizar nesse processo - também de muita reciclagem.

Eu ouvi uma frase do Chico Spinoza que, pra ele, tinha sido o melhor carnaval da Série A daquele ano. Eu perdi vários prêmios aquele ano é por conta da falta da alegoria, é um quadro que conta muito. Mas depois eu fiquei sabendo através dos premiadores que era o enredo mais votado, mas pela falta do carro acabou não ganhando. Foi algo que assim me desmotivou muito, eu cheguei cedo na concentração e me disseram que a alegoria teve um problema mecânico. E era o carro mais bonito da escola, era todo feito de fuxico. Quando as pessoas entravam no barracão, ele era o que mais chamava atenção.

Abertura da elogiada apresentação de 2016 (Fonte: O Globo)

CARNAVALIZE: Você acha que essa foi a maior dificuldade da sua carreira, entre tantos que você já viveu na Série A? Essa foi a mais marcante? 

MARCUS: Acho que da minha carreira, as maiores dificuldade foram duas, foi quando eu fui carnavalesco da Renascer de Jacarepaguá, onde eu tive muita dificuldade de tentar finalizar o carnaval da escola e ano passado no Império Serrano também, pela cobrança que existia do público no entorno da escola, além das dificuldades históricas que todo mundo sabe que o Império passa. E havia também uma cobrança de título. Talvez o carnaval do ano passado tenha sido um dos mais baratos da minha carreira em termos de equivalência, com o tempo eu fui adquirindo essa manobra de fazer um carnaval vistoso com pouco recurso. 

CARNAVALIZE: Como pra esse ano, né...!? Vendo o seu trabalho nas redes sociais, como as fantasias têm volume, há um requinte mesmo não sendo materiais caros. É um conjunto que pode dar muito resultado na avenida...

MARCUS: As pessoas me perguntam "A Rocinha tá linda, vai dar para reproduzir?". E estamos conseguindo, sim, fielmente. Às vezes falta um tecido ou outro, aí a gente muda pela mesma qualidade, faltou um amarelo eu coloco verde pois já tem na fantasia. Todos os meus amigos também então partindo pra isso, mas em termos de qualidade e volume, tem sido uma surpresa pra mim. A gente está conseguindo até em alegorias fazer um carnaval com carinho. Estamos caminhando bem. A minha parte de decoração e aplicação nos carros está com 90% pronto. É um trabalho que eu faço sempre, já deixo tudo adiantado pra esperar a madeira e o ferragem.

CARNAVALIZE: Pra finalizar, você conseguiu mexer muito na estrutura das alegorias? Você gosta de mexer? 

MARCUS: Esse ano eu estou mexendo em dois carros, o abre-alas e o segundo carro. Os outros, resolvi crescer, porque não se tem dinheiro nem tempo, pelo atraso e diminuição de verba. É melhor você finalizar um carnaval do que cortar, ainda mais sendo até a realidade das escolas do Especial.

Uma das fantasias da Rocinha para 2018, intitulada "Plantio da cana".
Agradecemos demais a disponibilidade e simpatia de Marcus por ter nos recebido no barracão e trazer pra vocês mais sobre a visão desse artista da festa e seus processos de criação. Até o carnaval, toda sexta traremos mais entrevistas com outros carnavalescos. Até breve! 
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Todo dia vaza uma nova notícia de uma alegoria, ala, fantasia que trará uma crítica a algum político ou fato social recente. Com isso, as redes sociais se inflamam, todo mundo comemora e elogia. Dos treze enredos para este ano, os mais comentados e tietados entre a mídia e as conversas de grupo no WhatsApp são os de Mangueira, Beija-Flor e Paraíso do Tuiuti, justamente os ditos "críticos". Num cenário político conturbado nas mais diferentes esferas, é de se esperar que o carnaval lave nossa alma e seja nossa válvula de escape. Se todo mundo gosta tanto do lado irreverente das escolas, por onde ele andava então?

É bem verdade que apesar do senso comum, as escolas nunca foram contestadoras. A irreverência é um tom do carnaval como festa, mas as escolas, em si, sempre escolheram a mediação, de 1932 a 1980, as grandes narrativas optavam pela História oficial, salvando poucos exceções. Foi no início dos anos 80, com a redemocratização e o apelo pelas "Diretas Já" que as escolas mergulharam na crítica se alinhando à sociedade. Então, veio Luiz Fernando Reis e sua Caprichosos, a São Clemente e chegando a Ratos e Urubus. Só pra citar os mais famosos, mas nessa onda até escolas adesistas, em outrora, mergulharam na crítica - como Portela e Imperatriz. 

Hoje, em 2018, com um adeus dos enredos patrocinados e maior liberdade criativa, a festa encontra num momento de crise a chance perfeita para se reinventar. Entre narrativas e homenagens e um enredo supostamente CEP, que ainda teima aparecer, os que ganham destaques na mídia e na boca do povo são as temáticas que vão de encontro ao sabor da sociedade. A Mangueira canta uma ode ao carnaval se colocando contra as políticas públicas de Marcelo Crivella, a Beija-Flor faz uma crítica social usando como fio-condutor o livro Frankenstein enquanto a Paraíso do Tuiuti conta a história da escravidão chegando aos dias de hoje perguntando se a prática exploradora ainda não acabou. As criações de carnavalescos corajosos se aliam a grandes sambas, que rompem a estrutura usual e se consagram também entre os favoritos dos amantes da festa. 

A pergunta que não quer calar é: se todos clamavam por essas narrativas e sentem saudades delas, por onde elas andavam? Os mais saudosistas podem dizer que "no meu tempo que era bom", outros podem dizer que o cenário político não era dos mais acalorados com uma democracia estabelecida... e as escolas também não o que tinham o que reclamar, além dos grandes patronos, não era difícil conseguir um gordo patrocínio de uma marca de iogurte, por exemplo. Os tempos, entretanto, mudaram...

Especulações à parte, é simples entender porque as narrativas sumiram do espetáculo. Sim, as escolas são fruto de sua sociedade e falam dos seus momentos, mas pensem em todos os desfiles críticos que puder. Quais deles foram campeões? Pense no maior deles: Ratos e Urubus. Esse perdeu para "Liberdade Liberdade", que preferiu seguir a narrativa da dita história oficial. Os grandes desfiles da Caprichosos e da São Clemente não passaram de um quinto lugar; e, até mesmo, as escolas mais tradicionais que aderiram a onda e mergulharam na crítica, nenhuma se sangrou campeã. Alguns até podem citar Beija-Flor 2003 como exceção a regra, mas nem ele é exatamente anti-governista, visto que o Lula tinha acabado de se reeleger democraticamente. Sendo assim, o enredo era absolutamente adesista ao momento do país de então. Será que hoje aquele desfile com enorme escultura do Lula seria campeão?

É verdade que as escolas são preocupadas demais com o resultado oficial, vivem em função dele, não, do processo e da mensagem que podem propagar. Não é chutar o balde, muito menos "vamos desfilar e resultado que se dane". Pensar, porém, menos que só a classificação pode fazer bem às escolas. Basta o júri consagrar um novo nome e várias escolas vão atrás, copiando o estilo e a temática. A festa parece querer ter sempre um estilo só e não vários, quando pode ser a pluralidade sua maior qualidade, assim exatamente como eram na década de 80.

Então de lá  pra cá, dos anos 1980 à 2018, o que mudou em mais de 30 anos na festa?

Vale esclarecer que são momentos sociais dispares, apesar de parecidos. Mas vale a expectativa de tempos conturbados socialmente que respingam na folia o desejo de tempos melhores. E fazem com que a festa dialogue com a sociedade. Sabemos que, antes, o sabor de novos tempos abafou a irreverência e o tom chapa branca retornou. Será que atualmente será igual? O que mudou?

Primeiro de tudo, o momento das escolas perante a sociedade. Em 1984, as agremiações ganharam um palco fixo pros desfiles e, no ano seguinte, a LIESA foi criada para gerir o espetáculo, ou seja, as escolas gozavam de poder e prestígio como nunca antes. Essas não eram mais uma simples festa popular, era sim promovida à grande espetáculo, não precisavam mais do apoio de ninguém. Hoje, elas até queriam algum apoio, mas o cenário é quase o completo inverso pra não dizer o mínimo, sem verba do poder público e não mais tão queridas pelo grande público e quase desprezadas pela mídia - a não ser a especializada em sua cobertura durante todo o ano. Cantar o que o povo quer é ouvir a solução pra se tornar mais popular?

Segundo ponto. A principal diferença entre esses dois momentos, no carnaval, talvez seja as escolas que capitanearam isso tudo. Se lá, as pequenas e estão inexpressivas Caprichosos e São Clemente foram as peitudas pioneiras, hoje escolas consagradas assumem a ponta. A Mangueira vem renovada após título recente com o traço de um carnavalesco, cada vez mais, consagrando-se e a, mesmo com resultados irregulares desde 2014, Beija-Flor. Será que a força dessas escolas faz a onda se arrastar mais fácil para os outros grupos?

Por fim, a estética pode ser um ponto decisivo. Já que os estilos de Luiz Fernando Reis e da São Clemente não se tornaram famosos exatamente pelo luxo e pela pompa, valia mais a animação e o samba no pé. E talvez esse impeditivo estético seja o responsável pelo fracasso de uma época. Numa festa onde o luxo é a opulência de uma linguagem hegemônica, a simplicidade e um outro belo que prezava pela comunicação acabou ruindo. Joãosinho Trinta foi um dos responsáveis e acabou tomando do próprio veneno.

Hoje, o cenário pode mudar, Leandro Vieira é um dos carnavalescos mais aclamados da folia por seu primor estético, será que com seu talento ele finalmente consegue aliar crítica e beleza, subvertendo a história? Se dará uma contradição? Afinal o samba diz "que se faltar fantasia", "pouco me importa o brilho e a renda"... É possível relegar os quesitos estéticos atualmente? Como aliar discurso e estética? 

Em Nilópolis e em São Cristóvão, o desafio é o mesmo. A Beija-Flor ainda é famosa por seu luxo e pompa, como resposta deve apostar na cenografia, em efeitos e teatralização pra contar sua história. Já Jack Vasconcelos, carnavalesco do Paraíso do Tuiuti parece apostar na crueza e na mensagem direta como antigamente, segundo fotos de fantasias que circulam no pré-carnaval. 

Em meio a esse turbilhão, o Brasil vive um momento tão intenso como em 1985, os enredos críticos retornam e as perguntas que não querem calar são: Como viverá a nossa festa? Será que finalmente um desfile crítico ganhará? Será que será consolidada uma nova ordem?

Por enquanto, é tudo só especulação, verdade é que vem um ano dos mais difíceis e urgem os tempos de renovação. Infelizmente, pode estar na mão dos jurados, responsáveis pelo resultado nu e cru da folia, o destino da nossa festa.






Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, faz mestrado em História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.

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A Edimusa – Editora Musical Escola de Samba, com o apoio da LIESA, está disponibilizando através do site LiesaNet, os vídeos das gravações dos sambas de enredo das Escolas do Grupo Especial para o Carnaval 2018. As trilhas de áudio são as mesmas do CD oficial, que está sendo vendido desde o final de novembro nas principais lojas do país. 



Apesar da intenção de comercialização do produto, assim como se foi feito nos anos de 2015 e 2016, um empasse com o Ministério da Justiça acabou impedindo. Para atender as exigências do Ministério, que só liberaria o produto após a verificação da classificação indicativa, haveria uma grande demora para o produto chegar ao mercado, deixando de ser atrativo comercialmente.

Capa do material disponibilizado no YouTube e provavelmente do DVD que seria comercializado

As imagens foram gravadas pela equipe da Diamante Produart, nos estúdios montados na Cidade do Samba. As Escolas foram liberadas para levar a quantidade de componentes que desejassem. E foram as próprias agremiações, através das direções de Carnaval, Harmonia e Bateria, as responsáveis pela produção visual do que cada uma apresentou, desde figurinos a coreografias. Assim como no CD, os sambistas que fizeram parte das gravações assinaram documentos que permitem o uso de imagem e voz, mesmo não havendo a comercialização do DVD. 


Confira os clipes:

Portela

Mocidade

Salgueiro

Mangueira

Grande Rio

Beija-flor

Imperatriz Leopoldinense

União da Ilha

São Clemente

Vila Isabel

Unidos da Tijuca

Paraíso do Tuiuti

Império Serrano


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Por Redação Carnavalize



A Rádio Arquibancada, importante referência da transmissão independente da folia, caminha, em 2018, para o seu sétimo Carnaval. Como sempre, levaremos para o nosso apaixonados público as emoções dos desfiles das escolas de samba com a nossa marca tradicional: leveza, informações precisas, opinião e, acima de tudo, isenção e respeito à nossa maior festa.

Como órgão de imprensa independente, a Rádio Arquibancada se manteve, até hoje, graças aos esforços de seus idealizadores e de vários colaboradores. Porém, com o crescimento de seu trabalho para outras praças (Uruguaiana e Porto Alegre) e com as naturais exigências de levar sempre o melhor para o seu público, sentiram a necessidade de, pela primeira vez, pedir a nossa ajuda, apaixonados pelo carnaval, para que possam trazer o belo trabalho de sempre de uma forma mais qualificada.

Para quem não conhece esse tipo de financiamento coletivo, chama-se crowdfunding e está bastante em alta nos dias atuais. Existem várias formas de ajudar e participar, com algumas recompensas de acordo com a quantia oferecida.

Preços e recompensas:


R$ 30 ou mais
Melhores momentos da transmissão + agradecimento
Receba uma gravação com os melhores momentos de nossa transmissão e tenha seu nome publicado em nosso site, em uma página especial de agradecimentos!

Entrega prevista:
mar/2018

R$ 60 ou mais
Melhores momentos da transmissão dos últimos 5 anos + agradecimento
Receba uma série histórica de gravações com os melhores momentos das nossas transmissões de 2014 a 2018 e tenha seu nome publicado em nosso site, em uma página especial de agradecimentos!

Entrega prevista:
mar/2018

R$ 100 ou mais
Camisa da Rádio Arquibancada + Melhores momentos dos últimos 5 anos + agradecimento especial
Contribuindo nesta faixa, você terá em suas mãos uma grande novidade: a camisa exclusiva da Rádio Arquibancada, que lançaremos em breve. Com um design todo especial, você andará na moda em todos os lugares onde irá. Você também receberá nossa super coleção dos melhores momentos de nossas transmissões dos últimos 5 anos e um agradecimento especial, em vídeo!

Entrega prevista:
abr/2018

R$ 500 ou mais
Participe de um Debate Arquibancada + Camisa + Melhores momentos dos últimos 5 anos + agradecimento especial
Já pensou em participar de um Debate Arquibancada e falar sobre sua maior paixão ao vivo para milhares de amantes do Carnaval? Nesta faixa, você garante sua participação em um debate da temporada do Carnaval 2019! Além disso, ganha uma camisa da Rádio Arquibancada, os melhores momentos dos últimos 5 anos e um agradecimento especial, em vídeo!

Entrega prevista:
dez/2018

Acesse a página do projeto e participe, clicando aqui.

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por Beatriz Freire e Leonardo Antan




Uma das principais vocações das escolas de samba é contar histórias. Nos primeiros desfiles, entraram em cena a pompa histórica de enredos que contavam os casos oficiais, louvando grandes efemérides. Sempre negociadoras, as agremiações levavam temas bem ao sabor do governo populista de Vargas e outros presidentes. Entretanto, ao longo da história, as escolas souberam surpreender e contar novas versões da história oficial - seja apresentando novos heróis e personagens, até então esquecidos, seja trazendo fatos e causos que poucos conheciam. 

Nesse sentido, nossa viagem por esse 7x1 propõe uma lista de enredos que trouxeram novas visões das História brasileira dita oficial, subvertendo-as pelo caráter inovador ou crítico. Afinal, nem tudo confirma que Isabel foi mesmo a nossa heroína e que Tiradentes foi o homem que representou integralmente nossos ideais. 


Salgueiro 1963 - "Xica da Silva"

"Onde viveu a Xica que manda, deslumbrando a sociedade..."

A inesquecível ala da "Corte da Xica da Silva" dançando o minueto coreografado por Mercedes Batista.

Depois de revelar Zumbi dos Palmares em 1960, o Salgueiro de Pamplona e Arlindo três anos depois colocou nas páginas da História mais um ícone da nossa cultura negra. Contra à vontade de Pamplona, que estava viajando, Arlindo desenvolveu um desfile inesquecível. Ao tratar, pela primeira vez, de uma mulher, negra e ex-escrava como personagem central de um enredo, uma vez que apenas a História oficial e branca ainda era a fonte da qual os temas carnavalescos bebiam até então, a Academia fez história. O desfile ficou marcado pela estética inovadora de Arlindo Rodrigues, contando com a primeira ala de passo-marcado do Carnaval, a famosa ala do minueto, comandada por Mercedes Baptista. No fim das contas, a Presidente Vargas foi o palco do segundo campeonato da história da agremiação, colocando, nas paginas da história brasileira, Xica da Silva, que depois ficou nacionalmente através de música, filme e novela.

Mocidade 1980 - "Tropicália Maravilha"

"Baila no ar a poesia, a Mocidade irradia sua magia neste Carnaval..."

A "Brasiléia Desvaírada" encerrou o desfile de Fernando Pinto (Foto: Luiz Pinto)

Se em 1967 a Tropicália propôs uma celebração dos ícones nacionais de maneira irônica, o carnavalesco herdeiro dessa vertente artística do carnaval revisitaria o movimento em 1980, com sua "Tropicália Maravilha". O enredo, de autoria do genial Fernando Pinto, recontaria a história do Brasil de maneira subversiva e não com uma noção ufanista ao sabor do regime militar, como afirmou em entrevista ao jornal O Globo na época: "É a nossa concepção da História do Brasil, da descoberta até agora. Só que uma concepção crítica, brincando, como quem não quer nada". O enredo passeou por quadros bem humorados como "Ser ou não ser tupi até morrer" e "Oropa, França e Bahia" com referências ao movimento modernista, terminando em "Brasiléia Desvairada" que celebrava o momento histórico atual de maneira irônica clamando pela "Anistia" no último carro. 

Imperatriz 1988 - "Conta outra que essa foi boa"

"De 71 com a realeza, me mandou uma princesa que fingiu me libertar..."


Alegoria que ironiza a colonização de Luiz Fernando Reis

Rei da crítica carnavalesca nas escolas de samba, Luiz Fernando Reis fez história na Caprichosos de Pilares nos anos 80, idealizando enredos afinados com o momento político social e reivindicando um caráter mais debochado. Foi, entretanto, na sua primeira parada após a azul e branco que ele fez sua narrativa mais subversiva em relação à História brasileira. A Imperatriz em 1988 fazia um panorama sobre a piada e dedicava seu segundo setor aos principais eventos históricos nacionais, afirmando "A história oficial é uma piada". No desfile, vieram uma caravela de Cabral e uma Isabel que se transformava numa favela, questionando a abolição cem anos antes. Apesar da boa intenção, com uma chuva que prejudicou as fantasias e a falta de animação dos componentes que não compraram a briga do enredo, a Imperatriz fez um desfile que não fazia jus à sua identidade e terminou na última posição.

Portela 1989 - "Achado não é roubado"

"Ninguém sabe, ninguém viu. Eu queria é saber, saber, quem descobriu o meu Brasil..."



No período da redemocratização, entre o apelo pelas "Diretas já" e os ventos da nova democracia, marcou-se o único período histórico, no qual as agremiações mergulharam profundamente na crítica política. Capitaneados por Caprichosos e São Clemente, as narrativas contestadoras se consolidaram e foram se espalhando até por escolas que nunca tiveram essas características. Uma delas foi a majestosa Portela, uma das principais a apoiarem Vargas décadas antes. A águia de Madureira, num desfile pouco lembrado na sua história, contestou o Descobrimento do Brasil num delicioso samba de 1989. Com assinatura de Sylvio Cunha, o carnavalesco contestou a invasão portuguesa como pioneira e afirmou que outros povos também estiveram por aqui, como vikings, assírios, chineses, entre outros. Esquecido no tempo, o desfile antecedeu uma das apresentações mais subversivas da história...

Beija-Flor 1989 - "Ratos e urubus larguem minha fantasia"

"Sou na vida um mendigo, na folia eu sou rei..."

O final do desfile antológico lava literalmente a Sapucaí. 

No raiar de um novo dia, após a Águia de Madureira, quando ninguém esperava, centenas de mendigos invadiram a Sapucaí. Se subverter é a ordem, impossível esquecer Joãosinho Trinta, que já chegou na folia transformando o reino de França no Maranhão em 1974. Guiado pelo inesquecível Cristo Mendigo, censurado pela Igreja, a apresentação memorável fez uma crítica política, religiosa e social ao Brasil. Apesar do lixo, a escola apresentou muito luxo ao passear por diversos setores da nossa sociedade mostrando as mazelas das política, da igreja e até do sexo. No final, a Beija-Flor lavou a Sapucaí com um grande chafariz, trazendo Joãosinho vestido de gari literalmente limpando a avenida de tanta sujeira. 

São Clemente 2004 - "Boi voador sobre o Recife: o cordel da galhofa nacional"

"A São Clemente faz a gente acreditar que no brasil o que é sério é carnaval..."



Olha a crítica! Em 2004, em meio a um cenário político tenso no mundo dos ministros e dos demais engravatados, a escola da Zona Sul carioca partiu do século XVII para contar a trajetória da galhofa no Brasil, tendo como base o boi que voou sobre o Recife holandês de Maurício de Nassau, que construiu uma ponte e cobrou pedágio para recuperar os investimentos. Com uma narrativa delirante bem ao estilo de Milton Cunha, o enredo se mostrou subversivo ao olhar para a história brasileira não de forma engrandecedora e louvável muito menos contemplativa, mas procurando um olhar irreverente, criando pontes entre o passado e o que acontecia à época, que vê os desvios da trajetória política – e por que não também do caráter?! – da nação. O desfile assinado por Milton Cunha acabou rebaixado, mas se fixou na memória dos foliões e nos mostrou que até hoje, no Brasil, acreditamos que o que é sério é mesmo o carnaval.

Unidos de Padre Miguel 2016 - "O quinto dos infernos"

"Desde os tempos de Cabral, Meu Brasil cara de pau virou galhofa colonial.."



E já que o Brasil vai mal das pernas desde o início da colonização, não teve tema melhor para a Unidos de Padre Miguel levar à Avenida em 2016 do que uma sátira que mostrava como o nosso país chegou até o que conhecíamos naquele momento. O carnavalesco Edson Pereira se propôs a contar com o enredo "O Quinto dos Infernos" os capítulos marcantes que precederam o famoso "jeitinho brasileiro", o que daqui foi tirado para bancar a metrópole enquanto éramos colônia. A solução pra tudo isso foi brincar carnaval na Avenida ironizando figuras clássicos como D.João VI e Cabral, debochando e até rebatizando o lema da Inconfidência Mineira, como dizia o último verso do samba, de "liberdade ainda que folia".






Entre negociação e crítica, é lindo ver a pluralidades de estilos na pista. Não há história certa a ser contada, muito menos receita, então quanto mais versões e visões tivemos da História brasileira nos sambas e enredos das donas da folia, melhor.

É por isso, que é com felicidade que a gente comemora pra 2018 a volta das narrativas críticas em boas partes das agremiações do grupo especial. Muito além das narrativas oficiais, é necessário levar ao grande público novas formas de pensar ao público no grande divã do Brasil, a Marquês de Sapucaí.



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