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Carnavalize

por Leonardo Antan




No último dia 25 foi aniversária dela, a deusa da Passarela. A maior escola dos últimos quarenta anos, nas últimas quatro décadas todos os seus 15 títulos. A Beija-flor não é uma escola de meio termos, ou você ama ou odeia. Escolha seu lado. Bata no peito e mostre seu valor, ou pegue a fila para fazer suas reclamações. De todos os títulos, muitos enredos se destacam. A força africana deu a escola nilopolitana grandes momentos. Sem dizer os enredos CEP, como levantamos na última lista, foram aproximadamente sete desde 1998. Mas em todas as narrativas da escola, seja uma cidade, hábitos culturais ou até "um astro da comunicação" uma característica chama a atenção: a ancestralidade. Contar uma história na Beija-Flor é viajar através do tempo, buscar a origem inicial de tudo. 

Então o enredo é banho? Ótimo. Vamos descobrir o primeiro banho da humanidade. Cavalo? OK. Qual a origem milenar do animal? 

É a sina milenar da Deusa da Passarela. Por isso, nós separamos os cincos desfiles que a Beija-Flor foi ainda mais Beija-Flor e abusou do Egito, Fenícios, Gregos sabe-se lá mais o que em seus desfiles. Apertem os cintos, a viagem vai começar!


1986 - O Mundo é uma Bola


"É milenar a invenção do futebol..."


Se podemos achar um culpado por essa sina ancestral, ele só pode ser um: Joãosinho Trinta. Esse revolucionário da folia transformou a escola nessa potência que ela é hoje. Lá em 1976, fez a inexpressiva agremiação de Nilópolis ganhar seu primeiro carnaval. No ano seguinte, ele já deu o tom ao contar a história do carnaval, começou nas antigas civilizações. Em 1986, a missão era contar a história do futebol em ano de Copa do Mundo. Apesar do futebol moderno só ter nascido (oficialmente) na Inglaterra no século XIX, o genial J30 afirmou "é milenar a invenção do futebol". E fez um grande passeio pelos antecedentes do esporte mais amado pelos brasileiros. Passando pelo Ásia, Roma e a Idade Média. Com um desfile inesquecível, marcado pela forte chuva que molhou até os joelhos dos componentes, a escola fez aquela apresentação com a raça que só ela tem. Afinal, a Beija-Flor é raça. E o mundo é uma bola.

2006 - Poços de Caldas derrama sobre a Terra suas águas milagrosas. Do caos inicial à explosão da vida... Água - A nave-mãe da existência


"Do caos inicial a explosão da vida..."

Duvido que você tenta lido o nome do enredo até o final! Além da sina milenar, a Beija-Flor gosta de de um nome pomposo. E gigantesco. Vinte anos depois de cantar as origens milenares do futebol, a Beija-Flor fez outra longa viagem e, dessa vez, foi longe mesmo, até as origens do nosso planeta. O enredo que pretendia fazer uma homenagem a cidade mineira de Poços de Caldas, viajou milênios até o caos inicial a explosão da vida para louvar a água, nave-mãe da existência. Nesse rocambole teve Atlântida, rei Netuno, mensagem ecológica, muita pena de pavão e o luxo que lhe é peculiar. A confusão não deu muito certo e após o tricampeonato, a Deusa da Passarela amargou apenas a quinta colação.

2009 - No chuveiro da alegria, quem banha o corpo lava a alma na folia


"Lá no Egito começou o hábito de se banhar..."


Depois de mais um bicampeonato, a rainha de Nilópolis voltou aos nossos primórdios, agora atrás das origens do hábito de se banhar. O início não podia ser outro: o mítico Egito, com direito a abre-alas ostentação. Apesar do tom sempre sisudo, a Comissão de Frente foi um dos destaques por sua apresentação irreverente, que misturava uma pirâmide egípcia com uma deliciosa "farofa" num praia brasileira. O enredo seguiu seu tempo épico e viajou ao Oriente, à idade da trevas, às tribos indígenas, à França e terminou numa festa em louvação aos orixás ligados à água, naquela macumba deliciosa. Nada mais Beija-Flor. Orixás, Egito e muita riqueza.

2013 - Amigo fiel - Do Cavalo do Amanhecer ao Mangalarga marchador


"Venho de longe de uma era milenar"


O enredo era improvável: o cavalo Mangalarga machador. O desenvolvimento não poderia seguir outra linha. Dessa vez não foi Egito, mas também nem tão longe até a explosão inicial, ficamos ali pela pré-história mesmo, com os primeiros animais que se assemelhavam ao cavalos de hoje. Daí pro Mangalarga, a história seguiu, cumprindo umas escalas essenciais como Grécia, Idade Média, pra então desembarcar em terras brasileiras. O samba dizia "Se a memória não me falha chegou a hora de gritar é campeã", com a ousadia e marra que só Nilópolis pode ter. Mas a morna apresentação, só garantiu o vice-campeonato.

2014 - O astro iluminado da comunicação brasileira


"E viajar no tempo, no som um sentimento..."


Logo depois de procurar a origem ancestral do Cavalo, o pacote de milhagem não acabou. Um simples enredo em homenagem ao Boni, figura fundamental para a televisão brasileira, que poderia ter gerado um divertido passeio pelas grandes produções globais, foi além. Mas muito além. Lá numa era milenar. O enredo virou a história da comunicação, algo grande demais para apenas oito setores  A viagem foi extensa e começou lá nos Assírios, Fenícios, passou como sempre pela Grécia, Egito, até nos últimos setores finalmente desembarcar na televisão brasileira. O samba dispensa apresentações e a colocação também, a pior da escola desde 1992.



Milenar, ancestral, valente, guerreira, nilopolitana. Seria a busca pela origem milenar uma tentativa pela afirmação da Beija-Flor? Como se a soberana precisasse disso. A azul e branco é uma das maiores escolas da nossa folia, um exemplo de competência e samba. A marca do carnaval é ela.


Bye bye. Evoé!


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Você se lembra da sua primeira vez no Sambódromo? Seja aqui no Rio, na Marquês, em São Paulo, no Anhembi ou em qualquer outro estado que também cultive um dos nossos maiores patrimônios culturais, o  carnaval. Para nós, que amamos essa festa e toda essa atmosfera que a envolve, acredito não existir alguém que não lembre sem um certo tom e ar nostálgicos de sua primeira vez, afinal, diz-se que da primeira vez ninguém se esquece. E, como a voz do povo é a voz de Deus, vamos em busca de descobrir se os personagens da folia lembram de sua primeira vez, não só como artistas da festa, mas também, de quando eles eram como nós, foliões.



Igor da Silva Moreira. E aí - sabe quem é? Com a foto, ali em cima, fica bem mais fácil, né!? Dono de uma das vozes mais badaladas e premiadas do carnaval nos últimos tempos, Igor Sorriso, como é popularmente conhecido, hoje em dia, já é figurinha carimbada nas noites de desfiles - não só na Marquês, como no carnaval da Terra da Garoa, Uruguaiana e outros carnavais mundo afora. Será, entretanto, que sempre foi assim? Será que sempre esteve na Marquês? Vem com a gente! 

Sonhar não custa nada... Ou quase nada!

Qualquer um amante de samba sonha em estar - não importando em qual setor, ou arquibancada - queremos estar no Sambódromo e com o "Pretinho" não era diferente. “Eu sempre tive muita vontade de ir pra Sapucaí, mas não tinha condição financeira, então, a primeira vez que minha mãe deixou eu ir com meus amigos foi em 2003... Pra ficar ali no Setor 0." 

Quem conseguiria imaginar... "Caramba! Eu com muita vontade, a gente (ele e os amigos) até pesquisou com alguns cambistas pra ver se nosso dinheiro dava pra entrar, mas a gente não tinha muita grana, né!?" Sabe-se que, embora seja o carnaval uma festa feita pelo povo e, por essência, dele também, muito dos preços não são tão acessíveis assim; Mas não é algo que pretendemos debater hoje. "Acabou que a gente ficou ali no Setor 0 mesmo, no viaduto assistindo aos desfiles" - risadinha.

Visão parcial do "Setor 0"

Só de estar nessa atmosfera, independente do lugar, visão ou posição,  já seria algo especial e o intérprete mais sorridente do carnaval também achou isso... "...e mesmo assim (estar no Setor 0) foi uma sensação única... Foi emocionante, foi emocionante!" E se de alguns lugares dentro da própria Marquês não se dá para ouvir a largada, o esquenta da bateria ou, até mesmo, o grito de guerra, Igor, que já demonstrava um certo carinho pelo carro de som, acompanhou tudo de "camarote"! "...e eu que sempre fui muito mais ligado ao carro do som, ao canto... Ali de fora, deu pra ouvir tudo, a largada, tudo, emocionou." 


Quando eu soltar a minha voz...

"No mesmo ano, eu comecei a cantar samba-enredo...". Igor disse que sempre foi mais ligado ao carro de som, à voz, todavia, quem podia esperar que já no ano seguinte de sua primeira vez na Marquês, soltaria esse vozeirão extremamente conhecido atualmente na Sapucaí? "No  ano seguinte, foi meu primeiro desfile, na Aprendizes do Salgueiro, 2004. Era cantor de apoio do Tuninho Jr.". Se sentiu falta do tão caloroso e popular Setor 0 não podemos dizer, mas que tinha motivo para esbanjar um dos sorrisos mais conhecidos do carnaval por um bom tempo... Ah! Ô se tinha! 

Tão bom cantarolar, me emocionar...

"Então em um ano, um  misto de várias emoções ligadas à Marquês de Sapucaí e eu me recordo que no desfile da Aprendizes (do Salgueiro) de 2004, eu me emocionei ali, na largada, porque era uma cena muito emblemática pra mim, né!?" Uma carreira tão premiada em constante ascendência não poderia ter iniciado de outro jeito, a não ser tão emblematicamente, de um ano ao outro. "Sempre via a largada dos caras... e eu tava ali, mesmo sendo cantor de apoio, estava ali, participando daquilo, dando início a minha carreira, então fiquei muito feliz, extasiado... Realizado!"

Essa foi a "primeira vez" do "Pretinho" - como ele mesmo se chama - intérprete premiado e em franca ascensão, o intérprete mais sorridente do carnaval, atualmente, canta e encanta todos com sua potência vocal e interpretação inconfundíveis lá pela Terra de Noel, mas tem fãs por todo o Brasil e mundo afora. E não poderíamos terminar de forma diferente... 

Aí sim, meus pretinhos!

Quer ler meu relato sobre minha primeira vez e como escolhi, pelo resto de minha vida, o meu Torrão Amado? Aqui.




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por Leonardo Antan e Vitor Melo



1 - Renato Rui de Souza Lage nasceu e cresceu no subúrbio carioca, especificamente, no bairro de Madureira. 

2 - Começou a carreira profissional ainda adolescente como office boy na extinta TV Continental.


3 - Com vocação para desenho desde novo, foi na TV que seu talento chamou atenção e ele começou a fazer charges para os jornais da emissora.

4 - O primeiro desfile que Renato lembra de ter visto foi no ano de 1965, do Acadêmicos do Salgueiro, que ganhou aquele ano com "História do Carnaval Carioca". Nascia ali seu amor pela academia.


5 - Renato sempre foi fã de desenhos em quadrinhos, principalmente do cartunista Henfil, ícone brasileiro ligado ao Pasquim.


6 - Foi trabalhando na TVE como ilustrador de programas educacionais que conheceu a mítica figura de Fernando Pamplona, que vendo o talento do garoto o chamou para sua equipe de decoração de rua. 

7 - Sua chegada nas escolas de samba aconteceu para o carnaval de 1977, quando Pamplona o convidou para desenhar as alegorias daquele ano para o enredo "Do Cauim ao Efó, com moça branca, branquinha". Ele permaneceu com o mestre e também fizeram juntos o desfile de 78.


8 - Assinou seu primeiro desfile solo em 1980, na Unidos da Tijuca. Onde assinou três carnavais, na época seus enredos foram assinados com Luiz Lobo e Paulo Sérgio Cardoso. O mais famoso dele foi o de 1981, "Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar."


9 - Quando a Tijuca estava no acesso, Renato Lage contou com uma equipe luxuosa na escola, ninguém menos que o diretor Laíla e Neguinho da Beija-Flor. O resultado não podia ter sido outro: um título para o Borel.


10 - Laíla e Renato são, inclusive, grandes amigos até hoje, o diretor da escola nilopolitana sonha com Lage na sua escola. Tanto que já realizou o convite duas vezes, no carnaval de 1996 e mais recentemente. 


11 - Lage nunca gostou muito de desenhar figurino, sua maior paixão são mesmo as alegorias. Mas atualmente ele acabou se acostumando a riscar as fantasias. 


12 - Uma das maiores inspirações de Lage é passar um dia no SAARA, importante polo de comércio popular do Rio. É nas lojas que ele imagina várias quinquilharias virando verdadeiras obras de arte, como o famoso Pierrô feio de copinhos.


13 - Ele conheceu Lilian Rabello, sua primeira mulher e parceira, num barracão lá no início da década de 1980. A parceria entre eles durou mais de uma década, ela escrevia os enredos e ele desenhava. 


14 - Lage já desfilou em uma alegoria sua, por puro acidente. Foi em 1986, no desfile "Eu quero" do Império Serrano. O que infelizmente não achamos registros.



15 - O carnavalesco diz que não é muito fã de enredos históricos, sua preferência é por temáticas mais cotidianas e atuais, os chamados enredos "abstratos". 


16 - Além dos enredos históricos, homenagens também não são as temáticas preferidas do artista. Ele conta que só realizou o desfile de 1999 em homenagem ao maestro Villa-Lobos por apelo de Márcia Lage, que é fã do músico.  



17 - Sua maior referência no mundo do carnaval é o trabalho do mestre Arlindo Rodrigues, pelas cores e estética desse artista, que colocou em cena o barroco no desfiles. Saiba mais sobre Arlindo aqui.


18 - Apesar de ter se consagrado nos anos 1990 com uma estética que ficou conhecida como "High-Tech", ele detesta ser limitado por essa denominação. 



19 - Além do Rio, Renato já assinou grandes apresentações no carnaval paulistana. A melhor delas na Império de Casa Verde em 2007, sendo considerado um dos maiores desfiles da história recente da folia paulista. Depois disso, retornou em 2012 para a Império da Zona Norte e mais recentemente este ano (2016) para homenagear a França na Vai Vai.


20 - Em 2001, o penúltimo carnaval seu na Mocidade, o carnavalesco estava com dificuldades em desenvolver o enredo sobre Paz. Quem ajudou a achar o caminho certo foi a carta de um padre. 



+1 - Macobebas, baianas, fetos, globos, meninos no video game, pierrôs, tambores... São tantas alegorias inesquecíveis desse artista que nós até já fizemos uma lista só pra elas, que você confere aqui. Não é à toa que Lage é um dos principais artistas da nossa folia na história e um dos melhores carnavalescos em atividade... Com seu jeito rabugento, esse mestre conquista mais a todos nós a cada ano que passa. 


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A relação do carnaval com a televisão é complexa. Nem sempre a Rede Globo dá a atenção necessária às agremiações por diversas questões que não cabem ser discutidas nesse texto. Apesar de tudo, as escolas e o universo do samba já estiveram presentes em diversas novelas da emissora. Nesse texto, separo 7 produções que dedicaram espaço (umas mais e outras menos) para o assunto.

Pai Herói, trama de Janete Clair, atualmente sendo reprisada pelo Canal Viva, tem parte da sua ação passada em Nilópolis. E é impossível falar de Nilópolis sem falar daquela que a fez ainda mais famosa: a Beija-Flor. É a escola, inclusive, um dos motivos pelo qual a autora escolheu a localidade: naquela época a Beija-Flor vinha de seu primeiro tricampeonato, capitaneada por Joãosinho Trinta (e, infelizmente, no ano em que a novela foi ar, a escola ficou com a vice). Apesar de a agremiação não ter tanto espaço na trama, foi no desfile de 1979 que se deu o desfecho da personagem Ana Preta, interpretada brilhantemente por Gloria Menezes. Ela realizava seu sonho de desfilar pela escola e como destaque. A produção da novela, inclusive, usa partes reais do desfile da Beija-Flor daquele ano na cena. E, como novela é novela, do alto do carro alegórico, Ana Preta flerta com um senhor que está na arquibancada, interpretado por Reginaldo Faria. Confira a cena abaixo.



Partido Alto foi uma novela de Glória Perez e Aguinaldo Silva. A produção se passava no bairro Encantado, do Rio de Janeiro, e um dos seus protagonistas era um bicheiro, Célio Cruz, interpretado por Raul Cortez. Era ele quem também mandava e desmandava na escola de samba da novela, a Acadêmicos do Encantado. Na primeira cena da produção que separei, vemos a reunião de Célio com os compositores da escola durante o anúncio do enredo e entrega da sinopse. Confira.


Vimos na cena anterior o personagem de José Mayer, Piscina. Ele é um compositor que nunca conseguiu ganhar o samba na escola e se apaixona pela mesma mulher que o bicheiro manda-chuva. Antes de fugir do Brasil para se livrar da prisão, Célio manda matarem seu rival. E adivinhem quando isso é feito? Sim, no dia do desfile. A cena, que, apesar de trágica, é bem bonita, você pode conferir a seguir.


Se você quer ver em detalhes como o mundo do samba e das escolas foi retratado nessa novela, é fácil: basta pedir a reprise no site do VIVA, clicando aqui. E, ah, é bom lembrar que a abertura era embalada por Enredo do Meu Samba, na voz marcante de Sandra de Sá.


Felicidade foi uma novela de Manoel Carlos para as 18 horas exibida entre os anos de 1991 e 1992. A produção foi baseada em alguns contos de Aníbal Machado. Um deles, A Morte da Porta-Estandarte. Este conto serviu para inspirar a história da personagem Tuquinha, interpretada por Maria Ceiça. Aqui, diferente da novela anterior, não houve tanta importância da escola de samba para o desenvolvimento da trama, mas é na quadra da Estácio de Sá que foi gravada uma das cenas mais importantes da novela. Tuquinha desde criança sonhava em ser a primeira porta-bandeira de uma escola de samba. Quando consegue, enfim, realizar esse sonho, num ensaio geral da agremiação, Tide, seu ex-namorado possessivo, a mata. A cena é forte, mas ao mesmo tempo bem poética (e embalada por um dos sambas mais famosos da história da Estácio). Assista a seguir.


Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva, próxima trama a ser reapresentada pela Globo no Vale a Pena Ver de Novo, talvez seja a memória carnavalesca mais presente na cabeça das pessoas quando se fala em novela. Isso porque o desfile da escola de samba fictícia, Vila de São Miguel, em homenagem à popularíssima personagem de Susana Vieira, Maria do Carmo, deu o que falar na época. A direção da novela conseguiu harmonizar muito bem as cenas reais do desfile (a produção gravou durante o desfile da Grande Rio, que ainda contava com muitos globais naquela época, a maioria do elenco da novela, inclusive) usadas na trama com as fictícias. Confira a cena e aproveite para relembrar o bom samba sobre ‘Do Carmo’, a senhora do destino que é força, é fé.




Duas Caras, também de Aguinaldo Silva, passava-se na fictícia Portelinha, uma comunidade à margem da sociedade tradicional criada por Juvenal Antena, papel de Antônio Fagundes. O nome, claro, veio em homenagem à Portela (o que rendeu à equipe da novela um prêmio criado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues àquela época). A comunidade possuía a sua própria escola de samba, a Nascidos da Portelinha. Muito da ação de Duas Caras se passava na quadra da escola, tendo a produção abordado, mesmo que de forma mais simples, alguns assuntos dos bastidores da mesma, como escolha de carnavalesco, rainha de bateria, entre outras coisas, desaguando, claro, no grande momento para uma agremiação: o dia do desfile. A cena do desfile em si na Sapucaí ficou muito aquém do desejado e do apresentado anteriormente em Senhora do Destino, por exemplo, mas valeu a intenção, não é mesmo? E além da cena do desfile da Nascidos, também fomos presenteados com alguns trechos do desfile da Portela naquele ano (com direito a close no então Presidente Nilo, tá, meu bem?), visto que Juvenal Antena havia sido convidado para desfilar na escola. Você pode conferir as duas cenas abaixo.





Lado a Lado, novela das 18h vencedora do EMMY e escrita por Cláudia Lage e João Ximenes Braga, se passava no período pós-abolição da escravatura. E, entre as muitas questões sociais abordadas na trama, a formação das favelas foi uma delas. E, com elas, entre becos e vielas, o despontar do samba no Rio de Janeiro. É claro que a produção, por não se tratar de um documentário, usava de algumas licenças poéticas para contar sua história (na novela, o personagem Zé Maria, de Lázaro Ramos, foi um dos líderes da Revolta da Chibata, por exemplo). A trama de Lado a Lado começa (e literalmente, pois é a primeira cena da mesma) durante o carnaval de rua, no qual dois dos protagonistas se conhecem e se apaixonam à primeira vista (Isabel, personagem de Camila Pitanga, e Zé Maria). Confira a cena aqui.

Em oposição a essa alegria, tínhamos sendo retratado o desprezo das elites a esse novo ritmo que vinha surgindo. Como Constância, vilã interpretada por Patrícia Pillar, diz numa cena, “o tal do samba”, “a música de negros”, “a batucada de africanos e macumbeiros” que, segundo a personagem, nunca teria importância no cenário nacional. Veja o momento dessa fala no final da cena separada, clicando aqui.

E como carnaval nunca é demais nem na ficção, mais para o seu término, a novela também exibiu mais cenas do carnaval de rua da época _ quando, na época da exibição original, estávamos também em período de carnaval. Para ver essa cena, clique aqui.

E nunca é demais lembrar que a abertura de Lado a Lado era embalada por um dos maiores sambas de todos os tempos: Liberdade Liberdade, da Imperatriz Leopoldinense!

Império, por fim, também de Aguinaldo Silva (quase sempre ele!), igualmente teve desfile em homenagem ao protagonista da trama. Nesse caso, o Comendador, personagem de Alexandre Nero. Como a novela é bem recente, muitos devem se lembrar da União de Santa Teresa, escola da trama. A novela promoveu até concurso de samba-enredo (e foram pelo menos 20 sambas de verdade inscritos, acredite!) e um carnavalesco de verdade atuou na produção: Mário Borriello. O autor do samba campeão (“...um diamante de segredos e mistérios, é o Comendador e o seu Império”) teve direito à participação na novela e tudo na cena do anúncio (para ver essa cena, clique aqui).

No dia do desfile da escola, tiros na Sapucaí, remetendo à trama de Partido Alto. Para as gravações das cenas do derradeiro desfile, a produção da novela usou a Sapucaí no sábado de carnaval daquele ano, antes do desfile das escolas da Série A, e num ensaio técnico. Para ver essas cenas, clique aqui e aqui, na sequência.

Esses são apenas alguns casos mais clássicos em que as novelas incorporaram a maior festa da cultura brasileira às suas tramas. Em breve, esta coluna volta para falar mais da relação TV e carnaval. Até lá!


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por Leonardo Antan e Vitor Melo.



Para fazer o maior espetáculo artístico-cultural do mundo é necessário um pouco de dinheiro - talvez muito. E como sabemos, nas últimas décadas, os enredos patrocinados tem pautado as agremiações as fazendo cantar sobre os mais variados assuntos. Dentre os patrocínios, os das cidades e estados brasileiros são os mais frequentes, tanto que até criamos uma denominação específica para eles: os enredos CEP. Essas temáticas começaram a ganhar força na segunda metade dos anos de 1990 e viraram tendência absoluta nos anos 2000, tanto no Rio, como em São Paulo.


Desde então, viajamos pelos sabores, festas, hábitos e comidas pelos quatro cantos do país. Separamos, então, uma lista com os sete melhores sambas gerados de enredos CEP. 

Fazer listas é sempre difícil e algo que gera controvérsias, logo, resolvemos abranger o maior número de escolas diferentes que se destacaram por seus enredos geográficos, selecionando apenas um samba de cada.


Caprichosos 2001 - Goiás

Logo nos primeiros anos do século XXI, a Caprichosos se notabilizou por dois enredos CEP que gerariam sambas divertidos e excelentes, bem ao estilo da azul de branco de Pilares. Entre Goiás e Porto Alegre, acabamos optando pelo estado do centro-oeste. O samba com pegada evolvente, narra as belezas do estado brasileiro através do amor por uma morena que enfeitiça o narrador. Dando um fio narrativo original a obra. Em 2002, a qualidade da obra também se destaca, no já citado enredo sobre Porto Alegre. Bom lembrar que foi um desfile CEP também que marcou  o último desfile da simpática escola no grupo especial, até agora, o enredo sobre o Espírito Santo já foi citado em outra lista nossa, neste caso, por não esconder seu patrocínio. Confira aqui.

 


Vila Maria 2007 - Cubatão

Quem diria que uma cidade que não tem atrativos turísticos como Cubatão geraria um belo samba? Mas a Vila Maria pelo talento do seu carnavalesco Wagner Santos soube driblar as dificuldades e transformar a história do município que foi prejudicado pelo avanço industrial na região num enredo bem desenvolvido que gerou um samba poético e forte alertando sobre as questões ambientais, destaque na safra paulistana daquele ano. O enredo impactou pelo bom trabalho plástico e a escola garantiu a segunda colocação. 



Mangueira 2013 - Cuiabá

É aquele ditado, não é mesmo? Com a velha Manga ninguém brinca. Depois de uma série de enredos musicais, a polêmica administração de Ivo Meirelles estava repleta de dívidas e o jeito foi optar foi pelo dinheiro da capital do Mato Grosso. Mesmo com o enredo sem tanto apelo poético, os compositores da verde e rosa não decepcionaram e fizeram um samba à altura da tradição dessa escola icônica. A narrativa do enredo era amarrada pela chegada poética do espero trem a cidade, que tinha como piloto ninguém menos que lendário mestre-sala Delegado. Apesar de terminar apenas no oitavo lugar, a escola ganhou o estandarte de melhor escola daquele ano.


Pérola Negra 2012 - Itanhaém

Alguém aí (não vale paulistas, hein!), sabe onde fica Itanhaém? Graças ao Google, podemos dizer que uma das cidades litorâneas de SP, ali na baixada santista. E também que é a segunda cidade brasileira mais antiga, vejam só. Mas bem, de certo é que o samba da Pérola Negra divulgou as belezas desse município pra Brasil inteiro cantar. E fez isso muito bem. O belo samba segue uma linha mega tradicional em enredos desse tipo: exaltando as belezas locais, os hábitos religiosos, as principais festas. A diferença é a qualidade da obra, que costura tudo de maneira poética. Infelizmente, a escola acabou sendo rebaixada pelo desfile, o que qualquer bom folião considera uma grande injustiça.



Imperatriz 1995 - Ceará


Se a gente quiser achar um início para esse modelo de enredo, pesquisando um pouco, provavelmente chegaremos a esse desfile da Imperatriz. É verdade que tudo começou com a genialidade de Rosa Deus Magalhães ao descobrir essa curiosidade histórica que envolve jegues e camelos. Mas com o destaque da escola de Ramos na época, o patrocínio do estado veio muito bem a calhar. O enredo então que se chamava "Mais vale um jegue que carregue que um camelo que me derrube", ganhou o "lá no ceará" ao final. Falando de CEP, Imperatriz e Rosa Magalhães não dá pra esquecer as duas voltas que essa genia deu em 2002 e 2004, quando os enredos sobre Campos e Cabo Frio, viraram duas aulas sobre a antropofagia e a cor vermelha. A polêmica foi longa com direito a processo de Campo que acusava a escola de não cumprir o contrato. Não se brinca com Deus. Amém? Amém!



Grande Rio 2011 - Floripa

Sempre na busca de um trocado a mais, a tricolor de Caxias se notabilizou ao longo deste século pelas apresentações acerca de cidades brasileiras. Tudo começou lá em 2006, no delicioso samba sobre o Amazonas, um dos melhores da história recente da escola. Depois disso, foi um CEP atrás do outro. Em 2007, com homenagem a sua cidade natal, Duque de Caxias. No ano seguinte com Coari, município do Amazonas, famoso pelo refino de gás. E mais recentemente em 2014 e 2016, com as viagens por Maricá e Santos. Mais dentre todos esses, o samba que ficou eternizado na memória carnavalesca foi o do trágico ano de 2011, marcado pelo incêndio que destruiu o barracão da escola um mês antes do desfile. A valente canção sobre a capital de Santa Cantarina embalou um desfile emocionante e cheio de garra da escola. Será que se não fosse o fogo, a tricolor teria sido campeã? Nunca saberemos, mas a beleza da ilhas das Bruxas ficou eternizada nesses versos. 


Beija-Flor 1999 - Araxá



Quem disser que enredo CEP não gera bom samba, tem que consultar o histórico da maior campeã deste século. A sempre polêmica Beija-Flor emplacou o maior número de enredos CEP nos últimos dezenove carnavais. Começando lá com o título de 98, dividido com a Manga, sobre o estado do Pará. Desde então foram mais cinco enredos sobre localidades brasileiras, sem contar os de temática africana. A maioria deles, destacou-se por excelentes sambas, a tarefa de escolher um só foi pra lá de difícil. Como optar pelo samba valente que embalou o campeonato de 2004 sobre Manaus (avante a tribo beija-flor). Depois outro título com o desfile sobre Macapá em 2008 (o meu valor me faz brilhar). Fora os títulos, restam ainda a viagem mística a Poços de Caldas em 2006, a homenagem aos 50 anos de Brasília em 2010 e a comemoração ao aniversário de São Luís, em 2012. Dentre todos, escolhemos a belíssima obra de 1999 sobre a cidade mineira de Araxá (oba-oba), quase unanimidade do carnaval.



Bem, com essa lista a gente prova que essa história de que enredo sobre localidades não gera bom samba é um grande mito. Não estamos tão pouco defendendo essa linha temática, nós queremos mais é que as escolas se reinventem e busquem histórias novas e inspiradas. Afinal, uma hora vão acabar todas as cidades brasileiras capazes de virar um samba digno, não é mesmo? Mas é sempre interessante observar como essa tendência se consolidou nas última décadas, nos fazendo viajar do Oiapoque ao Chuí.  


Bye bye...



Até o próximo 7x1!

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