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Carnavalize

 



 A Profecia das Águas


Presságio... Diante do espelho ondulante das águas, a menina courana sentiu a vida passar diante de si. Uma gota se transformou em oceano, fazendo o real transbordar em vertigem. 
Em transe, percebeu-se tragada por um assombroso redemoinho em meio a um dilúvio brutal. Então defrontou-se com o reflexo de uma mulher misteriosa, de manto reluzente e coroa luminosa, como que a protegendo da própria sina. E, de súbito, viu-se emergir em uma arca resplandecente sobre a qual flutuaria plácida a cortar a fúria das ondas.

A menina chorou frente àquela revelação. Dali em diante, tudo se desfez em mar revolto, apagando as memórias dos seus primeiros anos. Foi rebatizada em águas cariocas, no outro lado do Atlântico. E desse bárbaro ritual de esquecimento, brotou uma nova Rosa, preta e cálida: a Rosa mística do Brasil.
🌹 Auri Sacra Fames – A Fome de Ouro
Ainda jovem, seguiu em romaria vigiada, por léguas e léguas mata adentro. Vendida às Minas Gerais, foi obrigada a peregrinar com os cativos pela Serra da Mantiqueira, longo percurso que a assombrava com visões de paraísos e infernos. Entre bruma e poeira, cortava as alterosas cravejadas de sonho e temor.
Nas freguesias mineiras, a sociedade devota do ouro e dos diamantes era sustentada pela depravada escravização na colônia. Cortejos de penitentes saíam pelas vielas do arraial entoando ladainhas. Pediam perdão por muitos pecados, menos o de submeter outros seres humanos a condições degradantes em nome da adoração às pedras e aos metais preciosos. Pacto social que envolvia todo um sistema forjado no privilégio, na degeneração moral e violação da dignidade dos corpos pretos. 
Mas havia as frestas sociais. Enquanto servia de oferenda àquela civilização de escândalos e perversões, Rosa acumulou um tanto de joias para se enfeitar e sedas para se cobrir. Os parcos ganhos eram ostentados nos batuques do Acotundá. Na magia da noite escura, encandeada de luar e fogueira, a preta girava saia, saudava as almas e soprava aos ares a fumaça do cachimbo, religando-se à ancestralidade que brotava no terreirão da Fazenda Cata Preta, onde era cativa. 
Até que o corpo deu sinais de desgaste. E Rosa se desfez de tudo. Distribuiu aos seus o pouco que havia recolhido, como fez Maria do Egito, a santa meretriz que foi alçada ao altar celestial após doar aos desvalidos toda a riqueza de uma vida. Mais tarde, deixaria de ser a Courana para ser Rosa Egipcíaca, transitando entre a devoção e o misticismo.
🌹 Ventanias, Visões e Possessões 
Feitiçaria ou teatro? A freguesia alvoroçada se dividia em opiniões ao testemunhar as possessões da mulher, ocorridas entre rezas e sessões de exorcismo comandadas pelo padre português Francisco Gonçalves Lopes, o “Xota-Diabos”. 
Visagens chegavam a Rosa em ventanias ruidosas que apoquentavam sua mente dividida entre os solfejos dos anjos e os gritos dos malignos. Em êxtase espiritual, ela era saliva e fogo, arrepio e suor, lágrima e vulcão. Sentia, atordoada, a presença de sete demônios pairando sobre si em vertiginosas espirais, possuída tal qual Maria Madalena. 
Mas, assim como a personagem bíblica, a africana tinha também a alma acalentada pelo amor Divino. E os ventos agora lhe sopravam de volta ao litoral. 
🌹 A Flor do Rio 
Vivendo a debulhar as contas do Rosário, retornou ao Rio de Janeiro por onde desfilava como dileta serva de Deus. Sob o pálio da devoção a Santana, avó de Cristo, a negra cruzava a fé dos brancos com os cultos ancestrais aos mais velhos, herança da sua origem na costa africana. Rosa impressionava o universo religioso da cidade com seus dons premonitórios, jejuns e flagelações, tornando-se foco de curiosidade e admiração. Um passo para ser cultuada como Santa.
Levada pelo dever de perpetuar os pensamentos devocionais, alfabetizou-se nas letras divinas e passou a escrever compulsivamente. Foi assim que colocou no papel aquele que é considerado o primeiro livro a ser escrito por uma mulher negra no Brasil. Desta forma, derramava pelas suas mãos o bendizer da palavra revelada nos pergaminhos mais sublimes. 
Sentia na pele e no coração as dores das mulheres afastadas do convívio familiar. Assim, a visionária ergueu o Recolhimento, mosteiro com que ela havia sonhado como arca protetora a abrigar almas cujos corpos femininos eram negados pela sociedade. 
O poder da vidência não cessava e Rosa sonhou com a imagem de cinco corações radiosos e brilhantes. Cada vez mais santa no altar popular, foi se tornando mais mística, mais etérea e mais misteriosa. Elo entre Deus e a humanidade, a beata com dons paranormais seria desposada em um grandioso devaneio apocalíptico.
🌹 A Derradeira Profecia
Revelação. Rosa fechou os olhos e pressentiu um dilúvio de força descomunal que lavaria os pecados da humanidade. Estava novamente frente à imagem que tanto a impressionou na infância: a mesma mulher misteriosa de manto reluzente, protetora do seu destino. Debaixo do majestoso véu das virtudes, revelou-se a face verdadeira: era o próprio rosto de Rosa. 
Águas em turbilhão sairiam como veios da terra. E daquele reino sobrenatural emergiria não uma, mas duas arcas, flutuando entre a história e o delírio. Em uma, estava ela, no esplendor do seu último desvario; na outra, o rei Dom Sebastião, desaparecido em épica batalha em nome de Cristo. 
O enlace com o Rei dos Encantados consumaria a união mística para fundar o grande Império Brasileiro. Rosa, enfim, seria o rastro de salvação dos eleitos no triunfante evento do fim dos tempos, inundando as almas de esperança. Assim, cumpriu o enredo de uma vida e agora estava liberta para se tornar a própria Santa na qual se refletia. 
🌹 Uma Santa Negra no Céu
E lá no firmamento, aonde as águas do dilúvio a arrebataram, um concerto de marimbas e candombes a aclamou em sua saga de fé. Guardas da Santa Coroa, empunhando fitas e bandeiras, uniram-se em batuques para louvar à Santíssima africana que um dia viveu cercada de mistérios e virtudes em uma terra tão plena de vícios quanto de credos. 
Folguedos desfilaram em louvor à mulher que virou divindade, em sagrado cortejo de canonização popular. Nos jardins do Palácio Celeste, ela se enxergou em cada rosa que desafia a sorte, insiste em rachar o chão e brota da aridez. 
E no altar do Divino, todo enfeitado de flor, a mais bela Rosa orna a coroa do Senhor. 
Não é uma rosa qualquer. É a Rosa que o povo aclamou! 

 Autor do Enredo e Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Inspirado no livro “Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil”, de Luiz Mott 
Texto: João Gustavo

 Referências: 


ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. O Reino Encantado: crônicasebastianista. Editor do Organizador, 2017.
ANTAN, Leonardo.  Laroyê, Xica da Silva: narrativas encruzilhadasde uma incorporação no carnaval carioca. Nova Iguaçu: Carnavalize,2021. 
MARANHÃO, Heloísa.  Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Rio deJaneiro: Rosa dos Tempos, 1997.
MOTT, Luiz.  Rosa Egipcíaca:  uma santa africana no Brasil. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1993.
MOTT, Luiz.  Acotundá: raízes setecentistas do sincretismo religiosoafro-brasileiro, In Escravidão, Homossexualidade e Demonologia. S.Paulo: ícone, 1988, pp. 87-118.
PERES, Eraldo.  FÉsta Brasileira: folias, romarias  e congadas. SãoPaulo: Editora Senac, 2010. 
SIMAS, Luiz Antônio. Almanaque de Brasilidades: um inventário doBrasil popular. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018. 
SOUSA, Giulliano Glória de. Negros feiticeiros das Geraes: práticasmágicas africanas e repressão em Minas Gerais na segunda metadedo século XVIII. Anais da Anpuh. Mariana (MG), 2012.




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Por Redação Carnavalize


A grande missão de preservar um título chegou para a Viradouro. Após o campeonato do carnaval de 2020, a escola manteve integralmente a equipe para brigar pelo bicampeonato. Muito falada durante todo o pré-carnaval pelo seu samba em forma de carta, a escola levou para a Sapucaí o enredo intitulado “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, sobre o carnaval de 1919, ocorrido após a gripe espanhola, com traços de comparação ao cenário causado pela pandemia do coronavírus.

Os coreógrafos Alex Neoral e Márcio Jahu apostaram em uma comissão de frente apoiada em um gigantesco elemento alegórico, um pouco “trambolhoso”. Entretanto, o desenrolar da coreografia aconteceu no chão. No primeiro ato, um pierrot protegia um baú enquanto batalhava com a gripe espanhola. Os integrantes do corpo de baile vestiam preto e tinham rostos de caveira. Em um segundo momento, o Pierrot tirava uma chave da caixa, a morte desaparecia e surgiam foliões com uma carta na mão. O globo do tripé, então, ficava branco, prateado. E a chave (drone) sobrevoava, chegando às mãos do rei momo, quando explodiam foguetes e componentes abriam a cartinha com dizeres “Carnaval, te amo”. No geral, a comissão se exibiu de modo correto, em que pese, comparativamente, seja inferior a outras que passaram na mesma noite. Por sua vez, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves, ostentou uma indumentária preta com detalhes prateados. A dupla estava entrosada e dançou bem. Infelizmente, o mestre-sala acabou perdendo o sapato ao final da apresentação diante do primeiro módulo de julgamento, o que deve acarretar, pelo regulamento, a perda de um décimo.

Enorme elemento alegórico da Comissão de Frente (Foto: Thomas Reis)

No que diz respeito ao enredo, chamou a atenção o interessante trabalho de pesquisa de imagem e construção. O desfile passeou por manifestações culturais da elite e populares. O desenvolvimento foi, em suma, satisfatório, bastante criativo. A abertura do cortejo foi ousada, em preto, monocromática. O conjunto de fantasias se mostrou consistente e o de alegorias deixou um pouco a desejar, com soluções visuais pouco inspiradas, principalmente com relação à segunda e à terceira. O quinto setor, do obaluaê, se destacou positivamente, com um carro lindíssimo. O final também, com a alegoria que trouxe a barca de Niterói se dirigindo ao Rio. 

Detalhes de alegoria da Viradouro (Foto: Leonardo Antan)

A bateria do Mestre Ciça passou reta, pelo setor 3, sem repetir com frequência sua tão esperada paradinha. Os ritmistas não se apresentaram para o módulo de jurados, realizando a bossa entre as cabines no meio da avenida. O andamento acelerado dificultava o canto de alguns trechos do samba-enredo e culminou em uma harmonia apenas regular, sem explosão.

A evolução da agremiação não sofreu com grandes perrengues, sendo a passagem tranquila, porém fria, sem muita vibração. 

Alternando entre quesitos bons e outros regulares, a Viradouro deve brigar para voltar no Sábado das Campeãs.


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"Depois da energia elétrica, da energia atômica,
Só uma terceira energia chamada alegria
Poderia realizar grandes eventos."
(A genialidade profética de João Jorge Trinta)


Corações à espera:
– Que será do carnaval?, questionam os sambistas na festa da penha, no oito de dezembro de 1918, séc. XX.

  David Butter, jornalista e pesquisador do carnaval, descreve:

"à época, a festa da penha era um terreno de teste para canções, onde se esbarravam figuras das sociedades, dos ranchos, dos blocos e da incipiente música popular brasileira. Para lá, mudava-se por alguns dias, a pequena África, com as tias baianas e suas barracas."

  O matinal o Paiz, em 03 de março de 1919, descreve:
"O carnaval não morreu. Vingou-se gloriosamente das restrições que o passado lhe impôs na guerra e prestou um ótimo serviço de fazer escurecer a visita macabra da ´espanhola`."

  Extinta a dor da primeira guerra mundial. Asfixiada a gripe espanhola.
  Findo o ano de 1918.
  1919.

"E o mundo não se acabou."
(O carnaval de 1919 foi uma das inspirações para o compositor Assis valente – Música eternizada na voz inesquecível de Carmem Miranda).


Os cronistas dos principais jornais da cidade assinam como pierrot as notícias matinais que prenunciam a chegada do carnaval. No jornal o malho, a charge do cartunista hélios seelinger revela em nanquim traços de saudosos foliões esquecidos do imaginário popular. Momo deixa de ser tratado como rei, é elevado aos céus para ser glorificado como deus, no dia 1º de março de 1919.

Confino a tristeza, me despeço das trevas. Rompo o isolamento de uma infinda solidão. Calçadas testemunham passos contidos, janelas se entreabrem. Inebrio-me com os ares do marca-meu-coração. A casa das fazendas pretas retira os fardos de um luto elegante, que vestiu a dor dos últimos tempos – em seu lugar o lume dos brocados, das rendas e cetins. Entrelaço o olhar nas fitas métricas da boutique le France, recebendo os primeiros foliões. Céu desenhado por varais de ventarolas da casa buis, na rua do ouvidor. A nova dama do cabaré se faz presente nas esquinas da avenida Mem de Sá, seguindo o legado da cafetina Alice Cavalo de Pau, dizimada pela gripe. Sou um pierrot em recesso das redações de jornais. Faço parte da nata da sociedade que se prepara para o último baile pré-carnavalesco do clube dos democráticos. Evoco a vingança da vida!


"…assim é que é, viva a folia!
Viva momo, viva a troça!
Não há tristeza que possa suportar tanta alegria."
(Canção de baile do pré-carnaval dos democráticos, autor desconhecido, 1919).


O carioca instaura a desforra da peste na primeira manhã de um carnaval. Ensaio um canto a contemplar a concentração dos préstitos das grandes sociedades: a barca da vitória, do clube dos Democráticos; a hespanhola, do Tenentes do diabo e o icônico chá da meia-noite, dos Fenianos. Parto no bonde da vingança para a praça da república, conduzido pelo popular jamanta – desvairado folião a retomar a nossa delirante fantasia de viver, levada por espíritos revoltosos. Esbarro nas cocotas emplumadas e me embriago num ardente xarope de calibrina. Desfaço a melancolia de uma face mal-ajambrada, que revela o sorriso envolto à alegria do bloco carões mascarados.

Nas ondas da avenida beira-mar, dou cor à angústia em folhas de papel crepom. Contemplo corsos engarrafados de flertes e melindrosas. Autos que figuram deusas ávidas, despertando o olhar sensual do jovem Nelson Rodrigues. Bandas marciais fanfarram por coretos e boulevards ao denotarem o traço art decò de J. Carlos. Numa das esquinas da Rio Branco, de um bar, exclama um folião: – chegou o caveirinha! Mestre que driblou a morte a desfraldar seu pavilhão, no primeiro desfile do cordão da bola preta. Peço exílio a milhares de corações aglomerados no bloco do eu sozinho – cortejo que rendeu ao folião Júlio Silva, 53 memoráveis carnavais. Nas matinês, o moleque mestiço com chapéu de jornal tico-tico, em que retrato o rio em palavras e desenhos. O beijo na serpentina declara um amor que se desdobra nas batalhas de flores da avenida central.

Reside em mim a eterna fantasia de um palco reanimado. Pernaltas vibram cornetas, que prenunciam os bilhetes dos grandes bailes de clubes e theatros. Escadarias conferem um refinado bailado, sacadas preenchem vivências que revelam a fúria de uma metrópole em festa. Orquestras animam valsas, dando um baile em qualquer tristeza. Bombons adoçam sentimentos. Na luz da ribalta, o equilíbrio dos artistas do circo american-france. Figuras macabras de um salão (diabinhos, morcegos, bruxas) curvam-se à sombra de aplausos aos heróis da cruz vermelha. Descortino lembranças heroicas de vestes bordadas por sagradas mãos do caldeirão da praça onze.

O  carnaval é do corpo e o samba é de alma preta. Na pequena África, reverencio as tias curandeiras que extirparam o mal da gripe de centenas de baianos e mestiços. Borboletas negras clamam a transformação para uma sociedade igualitária. Guerreiros paladinos empunham lanças tribais pela legitimidade do samba – que se faz o principal gênero musical do carnaval. O folclórico grupo caxangá, de João Pernambuco, germina a criação dos oito batutas. Entraram Donga, China e Pixinguinha – a primeira linhagem de sambistas. O lenço negro caído dos sobrados dá lugar ao colorido de estandartes dos ranchos. Evoco o senhor da cura! Cubra-nos com suas palhas! Que teu xaxará afaste de vez todas as mazelas que vierem tocar os sambistas.

O único contágio possível? A alegria.

"A alegria estava entre nós,
Era dentro de nós que estava a alegria.
A profunda e silenciosa alegria."
("Sonhos de uma terça-feira gorda", de Manuel Bandeira).
 

Ar libertário na manhã de um último dia de carnaval. Um rio em transe, de almas cantantes, em uma catarse de alegria.  ´´desmascaro“ um rio que o próprio rio não conhecia – esperança para os dias atuais. Volto aos dias calorosos, dos abraços afetuosos como todo carioca preza. Corpos que se transpassam, mãos que se unem nos reencontros familiares– folião-original a exorcizar toda saudade. Figuram tribos ébrias, corações perambulantes em estado de graça. Euforia que não derrubou a sabedoria dos foliões mais antigos a procurar, na quarta de cinzas, os seus. Pulsa no epicentro da capital, o destemidos do conselheiro, que clama revanche a se ouvir do outro lado da baía de Guanabara.

Aportam na enseada os revanchistas da cidade sorriso, lançados dos corredores da barca xix, Nictheroy-Rio. Alguns ensaiam um funambulesco banho de mar. Outros desembarcam sonhos de uma apoteótica travessia de balão. Sob um sol estridente, esvaíam-se cantoria adentro, embalados pelas composições do poeta barretense zé de matos. O rio de janeiro, memorável, desperta com a emoção que formaria, mais tarde, o chão da unidos do Viradouro.

Adormeço em meio aos últimos foliões resignados: eram trapeiros que carregavam palmos de confetes e serpentinas de uma troça sem fim. Quarenta toneladas de uma folia que teve papel histórico. Retomar a vida pela alegria no maior carnaval de todos os séculos.

"Na quarta-feira de cinzas,
O rio despertou convicto
De que vivera
O maior carnaval de sua história."
("Metrópole à beira-mar, o rio moderno dos anos 20", de Ruy Castro).


Estou me guardando para quando o carnaval chegar.
(Autoria enredo, texto) Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon – carnavalescos

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Por Bernardo Pilotto:

Naquele ano de 1946, o sambista Nelson Jangada andava insatisfeito com o Bloco União do Viradouro, do qual era um entusiasta. Nelson era um importante baluarte do samba na cidade de Niterói e uma referência para o Morro da União, no bairro Santa Rosa. Foi então que, em um 24 de junho, dia de S. João Batista, padroeiro da cidade, ele teve a iniciativa de fundar a Unidos do Viradouro, em conjunto com outros sambistas, como Nelson Braga, Lindolfo dos Santos e Dona Nazaré.

Na cidade, já existiam diversas manifestações carnavalescas, como blocos, banhos de mar à fantasia, batalhas de confete e até escolas de samba (a Combinado do Amor, por exemplo, foi fundada em 1936 e a Sabiá, em 1938), mesmo ainda não existindo uma competição entre elas. No carnaval de 1946, aconteceu o primeiro desfile com competição entre as escolas e isso certamente influenciou para que Jangada e sua turma resolvessem fundar a Viradouro.

Nesse momento, Niterói era a capital do estado do Rio de Janeiro, já que a cidade do Rio de Janeiro ficava no Distrito Federal, por ser a capital do Brasil. Mesmo após a mudança da capital para Brasília, essa situação se manteve até 1975, quando o estado do Rio de Janeiro se fundiu com o estado da Guanabara (que substituiu o Distrito Federal) e então Niterói deixou de ser a capital.

Sendo capital, Niterói ganhava bastante atenção e investimento. O desfile das escolas de samba da cidade era considerado o segundo maior do país e havia uma grande rivalidade entre a Viradouro (18 vezes campeã) e a Acadêmicos do Cubango (11 vezes campeã). Com a fusão dos estados, Niterói teve uma diminuição dos investimentos que recebia e isso se refletiu no carnaval.

Diante desse cenário, a Viradouro resolveu se arriscar no carnaval do Rio de Janeiro. Em 1986, começou na última divisão e foi subindo, chegando ao Grupo Especial em 1991. E nas suas primeiras participações ela logo conquistou corações, chegando ao 7º lugar nesse primeiro ano e fazendo um grande desfile em 1992, atrapalhado por um carro alegórico que pegou fogo perto do Setor 11.

Seguindo sua trajetória ousada, contratou Joãosinho Trinta para o desfile de 1994. E logo na sequência, três anos depois, chegou ao seu auge: conquistou seu primeiro título do mais importante desfile de escolas de samba.

O primeiro campeonato teve muitas questões marcantes, como a paradinha funk na bateria do Mestre Jorjão, um carro abre-alas todo escuro (simbolizando o big bang que criou o universo) e a voz marcante de Dominguinhos do Estácio. Depois de ter sido a grande agremiação do carnaval de Niterói, a Unidos do Viradouro agora conquistava o título também entre as grandes escolas.

A agremiação seguiu disputando o topo das posições nos anos seguintes, estando 9 vezes no Desfile da Campeãs em 10 carnavais. Nesse momento, a escola começou a passar por uma crise política que acabou gerando desfiles bem abaixo do que a agremiação vinha produzindo e que culminaram com o seu rebaixamento em 2010.

“Orgulho de ser NiteróI
Reluz no Rio
O meu tesouro
De braços abertos
Olhai por nós
Canta, Viradouro!”

("Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar" - Dudu Nobre / Diego Tavares / Zé Glória / Paulo Oliveira / Dílson Marimb /, Junior Fragga / D. Oliveira / Arlindo Neto / LC / William Neves)

O carnaval de 2014 marcou uma nova fase na história da escola. Com um enredo em que reafirmava o orgulho em representar a cidade de Niterói, a Viradouro foi vencedora da Série A e obteve o direito de voltar ao Grupo Especial no ano seguinte. Mesmo com um novo rebaixamento em 2015, com um desfile muito prejudicado pela chuva, marcou seu espaço.

Em 2016, novamente fez um grande desfile, ficando em 3º lugar na Série A, quase alcançando um novo acesso. Embalado por um grande samba-enredo, escolhido em vários lugares como o melhor de todo o carnaval daquele ano, a Viradouro trouxe uma mensagem firme, posicionando-se contra a intolerância religiosa. Em 2017, também forte na disputa, ficou com o vice do grupo.

Após finalmente conquistar o Acesso em 2018, logo em seu retorno ao Grupo Especial foi vice-campeã. Para o carnaval de 2020, voltou a apostar em um enredo autor de uma dupla nova de carnavalescos, Marcus Ferreira e Tarcisio Zanon. Com um samba que colou, a Viradouro trouxe para a avenida o vitorioso enredo “Viradouro de Alma Lavada”, sobre as ganhadeiras de Itapuã, na Bahia. A escola cativou o público a tal ponto que seu intérprete, Zé Paulo Sierra, deixava de cantar um trecho do refrão do samba e isso não prejudicava a harmonia, já que o sambódromo cantava em uníssono.

Além de um bom samba e um ótimo enredo, o aspecto administrativo também ajudou a escola, que se organizou financeiramente nos últimos anos, tanto pelo apoio de um patrono, quanto pelo apoio financeiro dado pela Prefeitura de Niterói (algo que as escolas da cidade do Rio de Janeiro deixaram de contar). Foram esses fatores somados que garantiram o segundo título da agremiação.

Para o próximo carnaval, a escola largou novamente na frente, com o anúncio do enredo "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria", que vai abordar o carnaval de 1919, o primeiro ocorrido após a pandemia de Gripe Espanhola, que em 1918 infectou cerca de metade da população carioca.

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Por Leonardo Antan



Uma novata com pose de veterana. Desde que deixou a festança de Nitéroi e cruzou a ponte rumo ao carnaval carioca, a Viradouro trouxe consigo uma bagagem que lhe deu corpo para conseguir feitos impressionantes e se fixar no imaginário carnavalesco. Apesar de frequentar o carnaval da capital há pouco mais de vinte e poucos anos, a vermelho e branco está presente nas rodas de conversa e nas antologias de grandes desfiles e sambas. Com uma torcida que rompeu as barreiras de sua cidade e se espalha pelo Brasil, a escola vive uma fase turbulenta, oscilando entre os grupos, mas mantém no inconsciente dos foliões o seu tamanho e a presença de sua comunidade valente, além da sede de bons resultados.

Para celebrar uma das grandes agremiações das últimas décadas, separamos cinco apresentações memoráveis do furacão alvirrubro que ajudam a sintetizar a sua história no carnaval da Sapucaí. Vem, pois o amor está no ar!


BRAVO, BRAVÍSSIMO - DERCY, O RETRATO DE UM POVO (1991)

A homenageada Dercy Gonçalves em destaque no desfile da Viradouro (Foto: Acervo OGlobo)

Embalada pela ascensão ao Grupo Especial, em 1991 a Viradouro investiu em uma homenagem à Dercy Gonçalves, com o enredo "Bravo, Bravíssimo! Dercy Gonçalves - o retrato de um povo", contando a história da atriz. Dercy se tornou reconhecida pela irreverência e pelo humor diferenciado e único, com o uso rotineiro dos palavrões como sua verdadeira assinatura. O desfile desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, que já estava na escola desde o carnaval anterior, foi de muito bom gosto e tudo saiu como o planejado, salvo por um problema pequeno de evolução ocasionado pela chuva, e outros deslizes que não comprometeram tanto a apresentação da escola de Niterói. 

Fato é que a atriz, por si só, era um monumento: aos 83 anos, a Dercy, sempre jovem e dona de si, abaixou o decote do vestido e passou com os seios desnudos pela Sapucaí, acenando e mandando beijos ao público. E no peito aberto da homenageada veio o amor e a boa sorte: a Viradouro terminou em sétimo lugar, garantindo com muita folga e conforto a permanência que duraria muitos anos na elite carioca e assinando no livro de sua própria história uma página inesquecível.




TREVAS! LUZ! A EXPLOSÃO DO UNIVERSO (1997)

Os delírios de João 30 no único campeonato da escola de Niterói (Foto: Acervo OGlobo)

Investindo na chegada do maior nome da folia de então, a agremiação viu todos os holofotes se virarem para ela com a contratação de Joãosinho Trinta. O carnavalesco onírico e das formas gigantescas foi aos poucos moldando e adaptando a Virando para sonhar cada vez mais alto. Em 97, a escola estava em seu quarto carnaval assinado pelo artista, um ano após o fracasso de uma apresentação que prometia uma releitura de Aquarela do Brasil, com diversos falhas. Em outros aspectos, também, aquele foi um carnaval de superação para a alvinegra; João sofreu uma isquemia e perdeu o movimento de um lado do corpo. Entrando na avenida longe de ser protagonista, todo o público se surpreendeu com o imenso abre-alas negro que despontou. Era o "nada". 

Em meio ao momento de disputa artística entre Rosa e Renato, João deu uma tacada de mestre, reinventou-se e reconquistou o papel de destaque categórico com a estética daquele carnaval. A Viradouro fez uma apresentação de alto nível nos quesitos plásticos, aliado a um samba animado que prometia uma "explosão de alegria" na voz sempre marcante de Dominguinhos do Estácio. Na bateria, outro trunfo daquela apresentação: a paradinha funk de mestre Jorjão trouxe o ritmo que tomava conta dos bailes da cidade para Sapucaí. Foi impossível não se acabar. Com apresentação avassaladora, coroou-se quase uma ressurreição de um artista genial e o primeiro título da novata escola, apenas sete desfiles depois de chegar ao grupo principal.




PEDIU PRA PARÁ, PAROU! COM A VIRADOURO EU VOU PRO CÍRIO DE NAZARÉ (2004)

Mauro Quintaes foi responsável por assinar a reedição (Foto: Wigder Frota)

Mantendo-se sempre entre as primeiras posições, a Viradouro se fixou pouco a pouco no imaginário da festa como escola encorpada e sempre na busca de bons resultados. Em 2004, o cenário não era diferente, já que a vermelho e branco vinha de uma boa apresentação em homenagem à Bibi Ferreira. Os trabalhos estavam sob a batuta de Mauro Quintaes, um dos artistas mais relevantes e criativos da época, que assinou boas apresentações na Porto da Pedra e no Salgueiro nos anos anteriores. O pré-carnaval, no entanto, gerou um pequeno quiproquó. A escola começou os trabalhos com a promessa de um novo tributo para a maior festa da fé no país, o Círio de Nazaré, que seria embalado por um samba original. Porém, em meio ao receio sobre a preparação de uma nova obra e com a liberação da LIESA do uso das reedições de composições antigas, a diretoria da Viradouro voltou atrás e anunciou o uso de "Festa do Círio de Nazaré", famoso samba da Unidos do São Carlos de 1976. 

A Viradouro despontou na avenida com uma impactante abertura, apostando em vertentes cênicas. A comissão de frente assinada por Déborah Colcker investiu em uma coreografia arrojada e forte, seguida por uma procissão de foliões que remetia o Círio. Nas alegorias e alas, Mauro fez um dos grandes trabalhos de sua carreira, com carros bem desenhados e originais. A escola fez uma grande apresentação, e, por meio do bom uso do samba e da beleza plástica, foi coroada com um honroso quarto lugar na classificação geral.





A VIRADOURO VIRA O JOGO (2007)


Em 2007, a Viradouro trouxe os diversos jogos para a Sapucaí (Foto extraída de Flickr)

Repetindo uma história já conhecida, a Viradouro voltou a atrair as atenções quando contratou o carnavalesco mais badalado e em alta daquele momento. Depois de um período memorável de três desfiles na Unidos da Tijuca, que mudou o patamar da azul e amarela do Borel, Paulo Barros se tornou a grande revelação da folia carioca. Com a pressa de vôos mais altos para a escola e para o artista, a comunidade entrou na avenida apostando alto no enredo sobre os jogos. 

Barros prometeu um show de inovações, que começou com uma simpática comissão de frente, uma porta-bandeira com uma saia curta em forma de roleta de jogos com rajadas de fogo e um abre-alas apostando na já consagrada característica do carnavalesco: o uso de elementos humano. O grande coringa do desfile, entretanto, envolvia a bateria! Os ritmistas comandados por mestre Ciça cruzaram parte da avenida em cima de uma imensa alegoria que simbolizava o jogo de xadrez. Com um samba animado, cantado por Dominguinhos do Estácio, a Viradouro fez uma boa e divertida apresentação. Um desdobramento mais relevante que o sexto lugar conquistado, o refrão "esse jogo vai virar, eu quero ser o vencedor" permanece no imaginário momesco. 




SOU A TERRA DE ISMAEL. GUANABARAN VOU CRUZAR, PARA VOCÊ TIRO O CHAPÉU, RIO EU VIM TE ABRAÇAR (2014)


Com João Vitor Araújo, a Viradouro conquistou o título da Série A em 2014 (Foto: Jornal Extra)

Já caminhando para o quarto carnaval fora do Grupo Especial, em 2014 a Viradouro comandada pelo jovem carnavalesco João Vitor Araújo estava decidida a fazer um carnaval que a impulsionasse de volta ao rol das doze grandes. "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar" foi o enredo que transitou entre a Cidade Sorriso e o Rio de Janeiro, levando ao público a história de Araribóia e as ligações com a cidade vizinha. Ainda que iniciante, o carnavalesco mostrou muito bem seu apuro estético e maturidade artística, indispensáveis para a conquista do título na quarta-feira de cinzas. Guanabaran marcou a volta da escola para 2015, ano em que novamente foi rebaixada por inúmeros problemas debaixo de um dilúvio. 



Retornando ao grupo especial e apostando na recontratação de Paulo Barros dez anos após a primeira passagem do artista pela agremiação, a Viradouro chega para o próximo ano com altas expectativas e promessas de alcançar grandes voos. Estruturada e com apoio de seus dirigentes e sua já conhecida comunidade leal e apaixonada, a escola vive uma boa fase e pretende resgatar o orgulho de uma campeã.
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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos está dominando o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!



Mesmo longe dos holofotes e da mídia, alguns carnavalescos conseguem delinear sua carreira com personalidade através dos desfiles que assinam. É o caso de Mauro Quintaes, que apesar de atuar há mais de vinte anos na festa tem seu estilo e trabalho pouco reconhecidos, em passagens marcantes nos grupos especial e de acesso, entre o Rio e São Paulo.

Quintaes começou a carreira trabalhando como assistente de Max Lopes, na Vila Isabel, na década de 80, seguindo como auxiliar do "Mago das Cores" até o início dos anos 90, quando juntos foram responsáveis pelos carnavais que levaram a Viradouro para o grupo especial, onde lá escola permaneceu. Em 94, com a chegada de Joãosinho Trinta a vermelho e branco de Niterói, Mauro continuou na agremiação, auxiliando o lendário artista maranhense. No ano seguinte, colaborou com outra escola do lado de lá da Baía de Guanabara, quando foi um dos agentes importantes para a ascensão da Porto da Pedra, estreando como artista principal.

Destacando-se como revelação logo em seus primeiros carnavais, garantiu boas posições em três casamentos seguidos com escolas alvirrubras. Caracterizando-se pelo estilo arrojado, alegorias modernosas e cenográficas, em um estilo de carnaval mais limpo, inspirado pelo High-Tech de Renato Lage, Mauro construiu um requinte marcante na passagem para o século XXI. Apesar de importante até os meados do início dos anos 2000, o artista patinou por posições medianas durante a última década e, sem espaço na folia do especial carioca, oscilou entre os grupos de acesso, tendo sua importância menos reconhecida.

Por isso, vamos relembrar agora os grandes carnavais desse artista e entender um pouco de como o carnavalesco desenvolveu sua identidade estética nas principais escolas por onde passou. Vem com a gente! 


Porto da Pedra 1995-98


A abertura da Porto da Pedra em 1996 (Foto Widger Frota)

Inspirada no sucesso da Viradouro, a Porto da Pedra deixou o carnaval do outro lado da ponte e veio tentar a sorte em terras cariocas. Com a força da comunidade de São Gonçalo e muito bem estruturada, a vermelho e branco teve no talento de Mauro Quintaes, em início de carreira, um de seus principais trunfos para se firmar na folia da Sapucaí. Dividindo o expediente em sua estreia como carnavalesco principal, Mauro foi responsável, em 1995, pelo carnaval da Caprichosos, no grupo especial, e deu a vitória ao Tigre no mesmo ano, no acesso. 

Para a estreia do Tigre no grupo principal, o enredo fez uma viagem pelos principais carnavais do globo em "A folia no mundo - Um carnaval dos carnavais". Apesar do tema muito explorado, a narrativa trouxe o frescor e a simpatia de um samba animado, muito bem defendido por Wantuir. Com uma entrada que apostou nas cores da escola, Quintaes começou a desenvolver seu estilo cenográfico, apostando em carros de formas limpas e bem desenhadas, aliado a um excelente acabamento. Contrapondo ao estilo clean das alegorias, as fantasias apostaram na volumetria e nos enormes esplendores, que fizeram a escola ganhar "mais corpo".

O abre-alas mesclou vermelho ao rosa. 

Embalada pelo inesquecível refrão "endiablado, eu tô", a comunidade de São Gonçalo comeu o asfalto da Sapucaí e aliou a beleza plástica à força necessária de uma agremiação que queria se firmar no grupo. Elogiada na transmissão da TV, a escola recebeu um inesquecível comentário de Fernando Pamplona, com seu estilo sempre perspicaz, que ao tratar da bela apresentação, resumiu: "ninguém é vermelho e branco impunemente", fazendo referência ao seu Salgueiro. A Porto da Pedra não só garantiu a permanência entre as grandes, mas faturou um honroso nono lugar.

"Doido para ganhar o carnaval", a Porto "mostrou as garras na avenida" com ainda mais força no ano seguinte, realizando o que seria um dos maiores desfiles da história da escola até hoje. Iniciando o que pretendia ser uma trilogia sobre grupos marginalizados pela sociedade, o enredo passeou por grandes personalidades e personagens da ficção considerados "loucos". Batizada de "No reino da folia, cada louco com sua mania", a apresentação repetiu a fórmula de um desfile com força nos quesitos de chão e um samba valente e animado, em consonância a bela plástica de Quintaes.



Assim como no ano anterior, o carnavalesco sobre trabalhar as cores da escolas nos primeiros setores para depois explodir em tons mais diversos. Com uma linda abertura, o abre-alas trouxe um delirante hospício, tendo um grande tigre em destaque e um letreiro que apresentava a agremiação. O conjunto alegórico foi dos melhores do ano, destacando-se por diferentes estilos de carros que seriam típicos do carnavalesco em seus carnavais seguintes, marcados pela arquitetura sempre definida e pelo bom aspecto de cenário, como no setor que lembrava "O Fantasma da Ópera". Sem exagerar na volumetria, as alegorias começavam, geralmente, com uma base bem desenhada e baixa que ia crescendo e formando diferentes palcos, com uma boa utilização dos "queijos" dos destaques para dar um aspecto arrojado, de formas vazadas, que fugiam de um estilo mais entulhado tradicional da estética chamada "barroca".

Foto: O Globo.

Ainda em 97, o samba-enredo conduziu bem a apresentação dando um toque mais leve ao tema e apresentando de maneira inteligente os personagens contados no enredo, que ousou mesclar nomes de fácil comunicação, como Raul Seixas e o Menino Maluquinho, à personagens menos conhecidos, como o bailarino russo Nijinsky e Bispo do Rosário, que começava a ser reconhecida no mundo das artes. A apresentação marcante e simpática alcançou um inesquecível quinto lugar, garantindo a volta da escola nas campeãs um ano após ascender, sendo o melhor posição conquistada pela escola alvirrubra até hoje na folia carioca. 

Depois dos "loucos", foi a vez dos "ladrões". Mergulhando em uma linha bem humorada e crítica, "Samba no pé e mãos ao alto, isto é um assalto!" lembrou grandes assaltos e marginais da história mundial. Novamente, a abertura foi um dos pontos altos da apresentação, trazendo uma divertida comissão de frente "aprisionada". Depois do hospício do cortejo anterior, o abre-alas representou uma lúdica prisão, trazendo outra vez um enorme e afirmativo tigre, num cenário moderno e traçado.

Foto: Hipolito Pereira (O Globo)

O primeiro setor apostou, mais uma vez, na mescla dos tons vermelhos com rosa e lilás, assim como as fantasias, que seguiram grandiosas, com enormes golas e esplendores volumosos. Já os carros alegóricos não tiveram o mesmo nível do ano anterior. De todo modo, um dos destaques positivos do conjunto foi o reforço de um estilo de alegoria pouco utilizada no geral, mas marcante: a de formas assimétricas. Quase sempre, todo desfile até ali e nos anos seguintes, Mauro apostou num carro que se destacava do conjunto por dois lados díspares, fugindo as formas mais harmônicas. Em 95, foi no setor que trazia a folia de Trindade; no ano seguinte, o que lembrou "O Fantasma da Ópera"; e naquela ocasião, o setor abordava o sedutor Casanova, ladrão de corações no enredo.

O desfilou contou ainda com passagens divertidas, apostando na criação de cenas através de alas coreografadas, que traziam um aspecto crítico ao abordar o tema. A última alegoria clamou pela justiça e pelo fim da impunidade aos criminosos, e se destacou pelo aspecto moderno formado por diferentes níveis, além de uma forte iluminação neon. Sem dúvidas, uma assinatura inconfundível do artista. 

Detalhe do abre-alas (Foto Widger Frota)

Na pista, em relação aos outros anos, a obra musical sofreu queda de qualidade, ainda que fosse simpática e animada, apostando em versos polêmicos que brincavam com os jurados do carnaval. Com menos força e ainda querendo alfinetar a liga, a emergente Porto da Pedra saiu da posição de destaque para um rebaixamento injusto, dando fim ao casamento entre a escola e o carnavalesco. Com isso, a trilogia dos marginalizados, que se encerraria com um desfile sobre as prostitutas, não foi concluída.


Salgueiro 1999-2002


Depois da passagem pela Porto da Pedra, que recebeu o jovem carnavalesco para sua estreia, foi outra alvirrubra a casa de Mauro. Em 1999, o carnavalesco começou uma bem sucedida parceria com a Academia do Samba em uma homenagem aos 400 anos da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Batizado de “O Salgueiro é sol e sal nos quatrocentos anos de Natal”, o enredo de Mauro teve auxilio de Luis Fernando Abreu para desenvolver o tema sobre a capital nordestina.


Abre-alas do desfile de 1999 (Foto: Widger Frota)

Na quarta escola a desfilar no domingo de carnaval, o artista deu um salto no que vinha desenvolvendo até então. Continuando "em casa" com o uso dos tons quentes, as fantasias grandiosas formaram um lindo tapete, aproveitando de maneira intensa as cores da agremiação. O abre-alas iniciou o cortejo de maneira impactante, com destaques para o letreiro trazendo o nome da escola. O uso desse artifício seria outra aposta corriqueira de Quintaes, em diferentes passagens de sua trajetória. Depois de alegorias mais compactas, o carnavalesco apostou em carro maiores e mais encorpados.

Apesar da boa plástica, problemas de evolução causados por um enorme contingente atrapalharam uma melhor apresentação da escola, que desfilou no melhor estilo "São Silveste", como conhecemos bem. Apesar disso, a quarta de cinzas trouxe um quinto lugar honroso, que estendeu o início deste casamento por mais um ano.

Abertura do desfile de 2000.

Em 2000, com a obrigatoriedade de contar os 500 anos do descobrimento da Terra Brasilis, coube por sorteio à agremiação passear pela transferência da corte portuguesa em “Sou rei, sou Salgueiro, meu reinado é brasileiro”. Numa apresentação cercada de expectativa, o carnavalesco deu conta mais uma vez do recado, apostando em um bom conjunto alegórico, como já era característico.

Os carros chamaram atenção não só pela beleza, mas por marcarem a sequência de uma proposta mais grandiosa do carnavalesco, sem perder sua assinatura clean. Como já havia acontecido, um dos destaques foi o carro assimétrico do conjunto daquele ano, que representava a Missão Artística Francesa de maneira impactante. Outra marca do artista apareceu na última alegoria que, assim como em outros anos, apostou no neon e uma inspiração "high-tech", para representar uma futurista caravela.


A nave futurista que encerrou o desfile de 2000. (Foto: Widger Frota)

Nas fantasias, muitas plumas foram vistas, em uma bela paleta de cores, mas sem trazer dificuldades de evolução pelo peso das vestes. Apesar das qualidades plásticas, a escola, novamente muito inchada, desfilou com o incrível número de 5.500 componentes e teve que apertar o passo para cruzar o fim da Marquês a tempo. Apesar de aclamado pelo público ao fim da boa apresentação, o Salgueiro conquistou uma modesta sexta colocação. 

Para 2001, uma ajudinha de cerca de R$ 1 milhão do Mato Grosso do Sul foi bem-vinda em outro passeio geográfico dessa parceria. Com "Salgueiro no Mar de Xarayés, é Pantanal, é Carnaval", a ideia do carnavalesco foi tentar sair do lugar comum de mostrar apenas a natureza local e abordar também a cultura do Centro-Oeste. A divisão do desfile começou com a representação do mar de Xarayés do título, que nada mais era o nome pelos quais os índios chamavam a região, passando depois pelos guaicurus e incas, pelo folclore e o artesanato.

Abertura da apresentação de 2001 (Foto LIESA)

Mesmo imaginando-se que as cores típicas da natureza predominariam, Mauro soube combiná-las muito bem ao vermelho e branco da Academia. Mais uma vez, se destacou o abre-alas projetado pelo profissional, com um grande tuiuiú, evidenciado por uma iluminação intensa e de formas vazadas. Para completar, lindos infláveis formavam as "costas" do carro. Mesmo com uma apresentação menos explosiva da comunidade, a Academia foi bem na apuração e conquistou o quarto do grupo especial, seu melhor resultado nos último anos e a melhor marca da carreira de Mauro desde sua estreia. 

Voando rumo a posições mais ambiciosas, em 2002, mais uma patrocínio generoso chegou para a agremiação, desta vez da TAM, para o desenvolvimento de "Asas de um sonho. Viajando com o Salgueiro, o orgulho de ser brasileiro", sobre a relação do homem com o desejo de voar. O desfile contaria a história dos pioneiros da aviação e seria uma homenagem ao comandante Rolim Amaro, que falecera pouco tempo antes.

(Foto: Widger Frota)

O enredo marcaria a estreia da parceria do artista com João Gustavo Melo, enredista que assinaria a maioria das narrativas de Quintaes a partir dali e daria personalidade aos temas do artista. Diferentemente de outros nomes, Mauro se caracteriza por ser um carnavalesco menos ligado ao desenvolvimento do enredo e sua importância narrativa, mas soube aglutinar um profissional importante que cumpriu essa função.

Voltando ao desfile, o abre-alas gigante também chamou atenção, como de costume, mas sem o brilho de antes. O conjunto alegórico e a paleta de cores passaram muito bem novamente, abusando mais uma vez no neon no carro da "Odisseia Espacial".

A alegoria sobre a navegação especial. (Foto: Widger Frota)

Aliado a estética, menos inspirada que os anos anteriores, o samba-enredo também não empolgou e o passo acelerado dos componentes, que já havia virado tradição, prejudicaram o cortejo de maneira considerável. Correta, mas sem brilho, a apresentação conquistou um justo sexto lugar, marcando a despedida de Mauro da Academia do Samba. 


Viradouro 2003-2005



Não abandonado o vermelho e branco, Mauro atravessou a Ponte Rio-Niterói para assinar a terceira alvirrubra seguida em sua carreira. Voltando como artista principal para a escola que ajudou a trazer para o Especial década antes, o artista apostou num enredo que cairia como um luva para um carnavalesco marcado pelos carros cenográficos: o teatro.

(Foto: Widger Frota)

A arte da atuação foi celebrada por uma de suas mais ilustres figuras: Bibi Ferreira. O enredo atravessou a grande carreira da atriz, lembrando seus papéis mais marcantes até uma homenagem a Procópio Ferreira, importante figura da cena teatral e pai da homenageada. Com experiência avançada em aliar o vermelho e branco, Quintaes mais uma vez brincou com a combinação no tapete da escola.

Abusando da pegada teatral, os carros voltaram a investir em um tamanho mais compacto e com aspecto cênico, dentro do enredo. Sempre apostando na abertura como um grande momento, o luxuoso abre-alas dourado representou o musical “O Avarento”, que apesar do barroco, não perdeu a limpeza sem excessos, característica do traço do artista nas alegorias. A alegoria em si marca uma boa síntese do estilo desenvolvido por Mauro nesse momento da festa, que ainda vivia os ecos do embate entre Rosa Magalhães e Renato Lage nos anos 90, onde os estilos batizados genericamente de "rococó" e "high-tech" se enfrentavam. Nessa dicotomia posta, Mauro foi um dos grandes nomes a misturar as duas vertentes de maneira inteligente, mesmo que às vezes ficasse uma nítida afinidade maior ao estilo do ex-carnavalesco da Mocidade. Quintaes sabia dosar um estética mais barroca quando o enredo pedia, sem perder a mão, como foi no caso do carro que abriu a apresentação daquele ano. 

A  alegoria que encerrou o desfile da Viradouro. (Foto: Andrei S)

Foi exatamente essa capacidade de mesclar os dois artistas mais importante da década passada que fez de Mauro um dos principais carnavalescos em atividade naquela início de século, se mantendo atualíssimo e original. Além disso, a Viradouro ainda contava com um super time, formado pelo grande Dominguinhos do Estácio, que defendeu muito bem o belo e poético samba daquele ano, e a bateria excelente de Mestre Ciça, já se destacando pelas bossas originais. Com tantos atributos, a Viradouro fez uma das grandes e memoráveis apresentações do ano, merecendo bem mais que o sexto lugar conquistado no resultado final.

O círio de Nazaré de 2004. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, a sequência de bons carnavais continuou ao prestar uma homenagem ao Círio de Nazaré. A ideia original era fazer um novo samba-enredo sobre uma das maiores manifestações religiosas do mundo, mas a disputa musical foi cancelada em plena atividade. Com a liberação da LIESA para as reedições, a Viradouro foi um das agremiações a apostar na medida, trazendo de volta a obra de Dário Marciano, Nilo Mendes e Aderbal Moreira, apresentada pela Unidos de São Carlos, em 1976. Assim, o desfile ampliou a obra musical, abordando além da romaria, as lendas e a cultura paraense em "Pedi pra Pará Parou, com a Viradouro eu vou pro Círio de Nazaré".

O desfile começou já emocionante com uma abertura de efeito, em que se destacou a belíssima coreografia de Déborah Colker para a comissão de frente, que trouxe elementos tradicionais como a famosa "corda" de maneira ressignificada. Logo depois, uma ala trouxe um grande contingente simulando uma enorme procissão de maneira singela, arrancando aplausos da Sapucaí. O talento de Mauro em aliar o barroco e o moderno, mais uma vez, se destacou, como no segundo carro da escola, que trouxe a Catedral da Sé em uma cenografia de escadas que trazia o esplendor barroco dourado da igreja através de uma luz neon amarela.


A moderna alegoria que lembrava uma igreja barroca. 

Num dos melhores conjunto alegóricos de sua carreira, o artista apresentou suas características já tradicionais em outras lindíssimas alegorias. Um dos destaques foi a representação do Arraial, que não trouxe os tradicionais "queijos" para as composições, mas uma arquitetura bem traçada, abusando da iluminação. O carnavalesco soube, ainda, driblar muito muito bem a proibição do uso de imagens sacras que havia na época. Finalizando o conjunto plástico, as fantasias de muito bom gosto apostaram em formas volumosas e grandes golas. Credenciado ao título, o desfile marcou o ápice do casamento entre escola e carnavalesco, conquistando um quarto lugar.

Após duas excelentes apresentações, a relação entre a agremiação de Niterói e o profissional se encerrou em 2005, com um desfile complicado e marcado por falhas, contrariando o enredo "A Viradouro é Sorriso". A apresentação sobre o sorriso teve como o ponto alto, novamente, a abertura, com a excelente comissão de frente assinada por Colker, e um grande sapato de palhaço alegórico, que completava a "cabeça da escola" no lindo abre-alas.

A abertura da Viradouro em 2005. (Foto: Widger Frota)

O letreiro característico de Mauro veio, nesse ano, em uma boa e original solução, formado por composições à frente da primeira alegoria. Infelizmente, falhas mecânicas impediram o segundo carro de adentrar a pista, desfalcando a apresentação. Apesar de bem vestida e com alegorias divertidas, como a que trazia o sorriso de Monalisa em diversos estilos artísticos, a escola não foi bem, já que a falha técnica acabou influenciando vários quesitos, fazendo a escola da Cidade Sorriso conquistar apenar um oitavo lugar, bem abaixo das expectativas do pré-carnaval.

São Clemente 2008-2010


Depois de breves passagens pela Mocidade e Rocinha, Mauro vestiu as cores da escola da Zona Sul para comemorar os 200 anos da chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro, se juntando aos carnavalescos Milton Cunha e Fábio Santos na missão de fazer a São Clemente permanecer na elite após a vitória no acesso. O enredo "O Clemente João VI no Rio: a redescoberta do Brasil…" contou os feitos do monarca em terras cariocas a partir da visão de Dona Maria I, a Louca, de maneira irreverente e bem humorada.

O desfile da São Clemente de 2008. (Foto: Widger Frota)

O casamento de Quintaes com outros artistas resultou em alegorias mais carregadas e com uma volumetria maior do que o tradicional traço arrojado do artista. O desfile contou com altos e baixos e, apesar do rebaixamento, Mauro seguiu nas bandas de Botafogo para 2009, para uma homenagem a Benjamin de Oliveira, primeiro palhaço negro. A escola entrou atrasada na Avenida, mas conseguiu se apresentar bem. E mesmo no acesso, o estilo cênico de Quintaes se destacou numa apresentação leve e bem desenvolvida plasticamente, que aliou as cores tradicionais da agremiação a tons de vermelho, laranja e até mesmo o dourado, que coloriram elementos circenses.

O desfile da São Clemente em 2009. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, o enredo "Choque de Ordem na Folia" trouxe de volta os marcantes ares críticos da agremiação, lembrando o inesquecível "E o samba sambou..." ao apontar o dedo para tanta "desordem" no carnaval. Atualíssimo à época, o enredo usou como mote o programa que marcou o mandato de Eduardo Paes, como prefeito do Rio de Janeiro. Com um samba muito agradável, a escola começou numa crítica social e de costumes, até chegar aos rumos que a folia carioca tomava.

Foto: O Globo

Do conjunto, a segunda alegoria com um simpático gato, que fazia referência a gíria que significa roubo de energia, se destacou. Com um desfile simples, cênico e bem humorado, a escola fez uma grande apresentação. No final da quarta-feira de cinzas, apenas um envelope reservou uma nota diferente de dez e a escola retornou ao grupo especial, onde se mantém até hoje. Ali, chegava ao fim mais um casamento, e Mauro, com uma grande oportunidade, rumaria para a Zona Norte para representar outra escola tradicionalíssima: a Mangueira.

Unidos da Tijuca 2015-2017


Depois de três carnavais fora da elite carioca, com passagens por Império Serrano e a União do Parque Curicica, o carnavalesco chegou à Unidos da Tijuca integrando a comissão de carnaval que tinha a difícil missão de substituir Paulo Barros após três títulos na azul e amarelo. Mauro foi o único nome "de fora" da agremiação a formar o time, que promoveu profissionais que já trabalhavam nos barracões tijucanos, como o ferreiro Hélcio Paim, a desenhista Annik Salmon e o aderecista Marcus Paulo.

A abertura do enredo sobre a Suíça.

Com o time definido, a escola optou por um enredo CEP sobre a Suíça, onde Clóvis Bornay conduziria os foliões por uma viagem encantada a partir das histórias que seu pai, nascido no país, contava. A narrativa passeou pelo chocolate, dragões, o relógio e os gelados alpes. Dando nova personalidade, a comissão soube incorporar o estilo de Barros com alegorias humanas e coreográficas, somadas a fantasias criativas e bem acabadas. O destaque ficou por conta das belas baianas, que representavam a neve, todas de branco e prateado. Na apuração, a escola conseguiu um quarto lugar, se mantendo à frente da Mocidade, escola de Paulo Barros à época, que terminou em sétimo. 

Letreiros: uma das marcas dos abre-alas de Quintaes. (Foto: Widger Frota)

Ainda brincando com o atlas, Mauro e a Unidos da Tijuca seguiram viagem novamente, agora mais perto, no interior do Mato Grosso, para contar a história de Sorriso, capital do agronegócio. Com um samba inspirado, a escola cantou a lida sertaneja, o solo que trazia a fertilidade e a prosperidade do homem do campo. O desfile começou impactante, num bem resolvido abre-alas que apostou em tons terrosos, relacionando o surgimento da vida com o barro. As alegorias apresentaram o enredo de maneira leve e as fantasias cumpriram bem seu papel. Impecável nos quesitos de pista, a azul e amarela terminou brindada com um vice-campeonato, melhor resultado da carreira de Mauro.

Foto: O Globo.
Com um bom momento depois do vice-campeonato, a Unidos da Tijuca resolveu homenagear a música norte-americana a partir da comemoração dos cinquenta anos do encontro de Pixinguinha e Louis Armstrong, no enredo "Música na alma, inspiração de uma nação". Os dois músicos seriam os condutores do enredo que passaria dos cantos dos lamentos dos cativos antes da libertação até o jazz e os fenômenos atuais da música estadunidense.

Entretanto, a agremiação, por um triste infortúnio, se viu protagonista de uma das mais lamentáveis cenas do carnaval carioca em todos os seus anos: uma alegoria desabou em plena Avenida e alguns desfilantes ficaram machucados. O desfile, inexplicavelmente, continuou depois da prestação de socorro e a escola se viu desnorteada. O que se decidiu na quarta de cinzas foi que o rebaixamento estava cancelado e, mesmo se não estivesse, a escola terminaria em décimo primeiro lugar. Em uma situação desgastante com tantos trâmites e investigações após o acidente, a escola se viu abalada e teve de buscar se reestruturar, o que custou a permanência de alguns profissionais, inclusive a de Quintaes, que encerraria ali a sua passagem pela escola do Borel.



(Foto: Widger Frota)


Afastado do grupo especial carioca desde então, Mauro Quintaes encontrou espaço para expressar sua arte do lado de lá da ponte aérea. Construindo uma carreira no Anhembi, com passagens por Gaviões da Fiel, Tom Maior e Unidos do Peruche. Para 2019, inicia uma parceria com a Dragões da Real, escola em ascensão que busca seu primeiro título. O enredo escolhido é "A invenção do tempo. Uma odisseia em 65 minutos".


De estilo próprio e bem marcado, o carnavalesco desenhou uma trajetória importante para a folia brasileira, ao aliar bom gosto e modernidade. Destacado pela personalidade arrojada de suas alegorias, Quintaes fugiu do barroco exagerado convencional, se tornando nome importante da festa até meados do anos 2000. Mesmo que tenha perdido a força em apresentações medianas, vale a reverência a este grande nome na nossa série.


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