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Carnavalize

Arte: Vitor Melo.

Por Thomas Reis
com colaboração de Leonardo Antan


Em mais uma homenagem, o Carnavalize saúda os 110 anos do nascimento de João Rubinato. Talvez pelo nome seja difícil identificar o personagem, mas ele foi um grande sambista, boêmio, compositor, ator e cantou São Paulo e o Bixiga como ninguém... Já sabem quem é? 

João Rubinato deu vida ao emblemático personagem da cultura brasileira: o “pai do samba paulista”.  Isso mesmo, estamos falando de Adoniran Barbosa, o paulista que desmentiu Vinicius de Moraes e mostrou que, além "da garoa", São Paulo é terra de samba também.

Com o chapéu de aba quebrada para o lado, a borboleta encantada no pescoço e o cigarro preso aos dedos, de João Rubinato só restava a voz rouca maltratada pelo tempo e pelas altas doses da vida boêmia de Adoniran Barbosa, que vivia pelas ruas, cantarolando por todos os lados, acompanhado pelo som que saía de uma caixa de fósforo qualquer. 


Após ser “gongado” várias vezes no show de calouros da Rádio Cruzeiro, foi cantando Noel Rosa que venceu o programa e acabou sendo contratado pela emissora. O artista chegou até mesmo ouvir que sua voz era boa para acompanhar defunto, e, ainda assim, não desistiu. 

O sucesso na música não veio de uma hora pra outra e foi no Carnaval que ele começou a ver sua vida mudar. Em 1935, venceu o concurso de músicas carnavalescas realizado pela prefeitura de São Paulo com “Dona boa”, uma marchinha leve e sem vergonha que caiu na boca do povo!

Se a vida de cantor não emplacou, Adoniran soube como ninguém criar tipos. Ao trabalhar com o produtor Osvaldo Moles, começou a criar diversos personagens populares que retratavam o cotidiano de SP. Foi aí, de fato, que o sucesso e o reconhecimento do seu talento começaram a chegar.



Na música, as coisas começaram a mudar quando ele resolveu retratar as transformações da capital paulista. Assim nasceu “Saudosa Maloca”, que deu origem ao programa “Histórias das Malocas”, no qual Adoniran vivia o malandro “Charutinho”, um verdadeiro sucesso ao longo de 10 anos. 



Em suas composições, Adoniran tentava se aproximar da linguagem paulistana popular, foi assim que seu amigo Ernesto se tornou Arnesto e ganhou um samba em sua homenagem, outro sucesso. Poucos músicos foram tão bons cronistas do seu tempo quanto o compositor.

Simultaneamente ao sucesso musical, o sambista levava uma carreira sólida como ator. Um marco foi o filme “O cangaceiro”, quando interpretou Mané Mole. O personagem caricato foi aclamado pela crítica, sendo considerado um dos destaques do filme que concorreu no Festival de Cannes.


A grande parceria de sua vida foi Matilde de Lutiis, sua esposa e maior fã.  Ela recebeu de seu amado uma aliança feita com a corda do cavaquinho e foi a inspiração de mais um grande sucesso, “Prova de Carinho”. O singelo anel foi protegido com carinho até o final de sua vida. 



O grande triunfo da sua carreira se deu em 1964, quando o grupo Demônios da Garoa, para o qual Adoniran vivia compondo, gravou Trem das Onze. O sucesso foi colossal,  ganhando até versão em italiano. A música foi ainda premiada como a música do carnaval do Rio de Janeiro, em 1965. A cidade dos bambas se curvou diante do paulista boa praça. Assim, o distante bairro de Jaçanã entrou para a geografia afetiva da música popular brasileira. 



Da parceria com Elis Regina, nasceu uma profunda amizade que levou felicidade para o coração do já velho Adoniran e rendeu a gravação definitiva de “Tiro ao Álvaro”. A música já tinha sido composta vinte anos antes, mas foi em 1980 que explodiu pelo país na voz da Pimentinha!



Com o tempo passando e a idade chegando, o velho boêmio foi se sentindo cada vez mais deixado de lado na rádio. Em meio à desvalorização, o espírito de artista, que nunca sossegou, falou mais alto e no auge de seus 60 e tantos anos foi pedir emprego na TV Tupi. 

Lá, conseguiu o papel na novela Mulheres de Areia para interpretar o pescador Chico Belo. Depois disso, foram mais quatro novelas na sequência. Adoniran sempre foi um artista completo e disso ninguém tinha dúvidas.


Aos 62 anos, com a popularidade resgatada e a inspiração a flor da pele, sentiu os primeiros sinais de fraqueza de sua saúde. Inventou a boemia diurna, regada a whisky, cigarro e caminhadas pelo centro de SP. Gostava do contato com as pessoas.  

Clementina de Jesus foi uma das grandes amizades que Adoniran fez ao longo da vida, e teve o prazer de gravar uma das últimas canções compostas pelo sambista.



Adoniran acompanhou os avanços imparáveis de São Paulo, mas no meio do progresso foi forçado a parar, enquanto sua amada cidade seguia. Acometido por um enfisema pulmonar, partiu no dia 23 de novembro de 1982. O luto tomou a terra da garoa. Foi-se seu grande artista. 

No carnaval paulista, o sambista foi homenageado meses antes de sua morte pela Colorado do Brás, em 1982: “Chegou a hora amor/Chegou, chegou/O trem das onze/ Vai partir e já me vou/ Meu amor”. Em 1998, voltou a ser lembrado pelo Rosas de Ouro com o enredo “Samba da Garoa”. 

Uma homenagem ao grupo que fez sucesso com as músicas compostas por Adoniran também esteve presente no último título dos Gaviões, em 2003, dividindo os versos com seu amigo de Vila Isabel: “Rio de Janeiro… samba de Noel/ Terra da garoa… Adoniran… o menestrel”.


Adoniran teve a sensibilidade de converter em poesia toda a transformação pela qual passava a cidade de São Paulo. Aliando o cômico e o melancólico como  poucos em suas obras, viveu e se inspirou nas ruas para ser o maior cronista da capital paulistana. 
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O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal.

Arte e visual: Vítor Melo/Carnavalize | Foto: G1/Globo.com
                                                                                                           Por Juliana Yamamoto e Leonardo Antan
                                                                                                          Revisão: Felipe Tinoco

Essa foi sem dúvidas uma década e tanto para o carnaval de São Paulo. Além de se mostrar cada vez mais competitivo, os desfiles do Anhembi cresceram também em importância no cenário nacional, ganhando cada vez mais destaque e repercussão e revelando talentos que se projetaram pelo país afora. Esteticamente e estruturalmente, a folia paulistana também cresceu e muito com o aumento de investimento e de apoio de infraestrutura dos governantes locais. Prova disso foi a inauguração da Fábrica do Samba, na qual se reúnem os barracões das agremiações do Grupo Especial. Com uma disputa cada vez mais equilibrada, surgiram ainda um número expressivo de três campeãs inéditas nesses últimos anos: Tatuapé em 2017, Mancha Verde em 2019 e Águia de Ouro em 2020. 

Essas informações reiteram que, ainda que se preservem algumas polêmicas na apuração e críticas à folia da cidade, o carnaval da Terra da Garoa está entre os maiores do Brasil E é assim, nesses 10 anos de folia, que o Sambódromo do Anhembi foi presenteado com inesquecíveis e marcantes apresentações. A seleção abaixo apresenta algumas campeãs, outras não - mas todos são desfiles que se destacaram por sua força, com a colaboração de um grande samba-enredo e também a competência de profissionais nos quesitos. 

Chega de papo e venha conferir os 10 desfiles que elencamos como os mais marcantes do Grupo Especial do Sambódromo do Anhembi na década de 2011 a 2020! (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Vai-Vai 2011 
(A Música Venceu)

Feliz da vida, lá vem o Bixiga! O som de doces violinos se juntou à batida ancestral da bateria Pegada de Macaco para louvar um dos maiores nomes da música clássica brasileira. Mostrando que "A música venceu" em seu enredo, a escola do povo levou para a Avenida a história de vida e de superação do maestro João Carlos Martins. Embalada por um dos melhores e mais emocionantes sambas-enredos da década, a Saracura foi a penúltima a desfilar na sexta-feira, com o sol já raiando. A obra musical misturava todo o lirismo que o enredo pedia com a garra característica do exemplo de comunidade da Bela Vista. Ambos os aspectos deram o tom para arrebatar o Anhembi.

Detalhes do abre-alas do Vai-Vai que possuía mais de 70 metros. Foto: G1 (Globo)
Na parte plástica, a batuta ficou por conta do experiente carnavalesco Alexandre Louzada em sua estreia na folia paulistana. Por isso, não faltaram grandiosas alegorias no cortejo: só o abre-alas possuía mais de 70 metros. Apesar do carro ter sofrido uma pequena avaria na lateral ao entrar no Sambódromo, não comprometeu a emocionante apresentação. Outro destaque foi a Comissão de Frente, com elementos que lembravam a obra de Salvador Dalí. Ela trouxe ainda símbolos que marcaram a vida do artista como a música, a política, as mulheres e o futebol. Na parte musical, a bateria comandada pelo Mestre Tadeu também brilhou com seus 300 ritmistas e o samba defendido pelo carro de som comandado pelo intérprete Wander Pires. Eles ajudaram a conduzir a preta e branca para seu 14º título do carnaval de São Paulo.

Mocidade Alegre 2012 
(Ojuobá – No Céu, os Olhos o Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, um Obá Muito Amado!)

Tenho sangue guerreiro, sou Mocidade… Não dava para falar dessa década na folia paulista sem lembrar da agremiação que mais faturou títulos por lá. Depois uma apresentação problemática em 2011, a Morada do Samba escolheu um enredo em comemoração ao centenário do escritor Jorge Amado, tendo como fio condutor o livro “Tenda dos Milagres”, de 1969. Mergulhando na cultura baiana, na narrativa proposta não faltaram elementos do candomblé, da capoeira e da luta contra a intolerância religiosa - os quais integram o universo do livro que Jorge mais gosta de ter escrito.

O suntuoso e imponente abre-alas da Morada do Samba. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP/Veja
Se no Anhembi o que se viu foi uma apresentação inesquecível, poucos se lembram que em janeiro de 2012 um incêndio atingiu o barracão da escola no qual algumas alegorias e esculturas foram danificadas. A diretoria e a comunidade se uniram para terminar o carnaval e mesmo com o contratempo a agremiação do bairro do Limão apresentou um magnífico desfile, evidenciando a força dos seus quesitos e, principalmente, da comunidade. Um dos sambas mais fortes da história da Mocidade Alegre foi a trilha sonora do desfile marcado pela emoção e superação, muito bem embalado pela bateria Ritmo Puro, que ousou com paradinhas que levantaram o público. No visual da apresentação, o trabalho da dupla de carnavalescos Sidnei França e Márcio Gonçalves foi impecável e se destacou pela impactante abertura em tons de vermelhos e alaranjados. Tantas qualidades resultaram não só em um desfile para lá de marcante, como também no incontestável campeonato.

Acadêmicos do Tucuruvi 2013 
(Mazzaropi: o adorável caipira. 100 anos de alegria)

Sai da frente a alegria vai passar! Depois de apresentações mais emocionantes e imponentes, trazemos um pouco de leveza para a lista. Foi com um visual colorido e alegre que o Acadêmicos do Tucuruvi levou para a Avenida uma grande homenagem ao humorista Mazzaropi, que no ano anterior havia comemorado o seu centenário. O desfile marca o belo casamento entre a azul e branco e o carnavalesco Wagner Santos. À época, o artista estava indo para o seu quarto ano na escola, por onde seguiria por mais alguns carnavais.

O abre-alas do Tucuruvi representava o circo, parte importante da vida de Mazzaropi. Foto: Reprodução Jovem Pan.
Contando a história do ator que levou multidões ao cinema brasileiro, o enredo abordou a carreira profissional do artista, suas paixões pessoais e fatos marcantes da sua trajetória. Os carros alegóricos representavam as cinco áreas de atuação sobre as quais o homenageado passeou: o circo, o teatro de rua, o rádio, o programa Rancho Alegre e o cinema. Wagner abusou das cores e apresentou um visual bonito, com a irreverência que fazia jus ao homenageado. Esse tom também foi percebido no excelente samba-enredo de letra descontraída, comprado pela arquibancada e muito bem conduzido pelo intérprete Igor Sorriso, estreante na Terra da Garoa. Foi tanta leveza que o “Zaca” deslizou no sambódromo, divertindo e  encantando o público como se fosse uma obra do Caipira mais amado do Brasil. Pena que o final dessa história não foi tão feliz e os jurados não enxergaram tantas qualidades na comédia estrelada pelo Tucuruvi. A agremiação terminou em um modesto 6º lugar.

Mocidade Alegre 2014 
(Andar com Fé Eu Vou, Que a Fé Não Costuma Falhar)

Depois de 2012, a Mocidade Alegre reaparece na lista com o último título de um tricampeonato que se encerrou em uma emocionante apresentação cujo tema era Fé. Muito inspirada na figura da presidente Solange Bichara, famosa por seus terços nas apurações, a vermelho, verde e branco do Limão falou de todo o tipo de fé no enredo que novamente contou com a assinatura de Sidnei França e Márcio Gonçalves. Abordando as diferentes maneiras de vivenciá-la, a Morada do Samba mostrou a religiosidade de várias partes do mundo e, notadamente, do Brasil.

Detalhes do abre-alas da Mocidade que trouxe elementos que representam a fé. Foto: Flavio Moraes/G1 (Globo)
Um dos destaques foi a comissão de frente comandada pelo coreógrafo Robério Theodoro. Ela representou o poder da sedução, com parte dos bailarinos vendados, guiados apenas pela voz do coreógrafo. Ainda que tenha gerado uma bela imagem, foi outro o grande marco daquele desfile: uma coreografia ousada que envolveu toda a escola, quando os componentes se ajoelhavam em determinados momentos do samba. A bateria do Mestre Sombra abusou novamente de bossas e paradinhas características. Outro destaque ficou com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emerson e Karina, que conquistou a nota máxima. Apesar de não ser uma unanimidade como 2012, o desfile possuí consistência técnica de sobra que contribuiu para o derradeiro título da escola na década.

Vai-Vai 2015 
(Simplesmente Elis - A fábula de uma voz transversal do tempo)

Carnaval, a Bela Vista está em festa! Depois da bela homenagem ao maestro João Carlos Martins, foi apostando em mais um tributo a um grande nome da música brasileira que a Escola do Povo voltou a fazer uma apresentação para lá de emocionante. A escolhida na ocasião foi ninguém menos que Elis Regina, considera por muitos a maior cantora brasileira e com uma forte ligação com o bairro do Bixiga. Nos anos 70, ela gravou sambas do compositor Adoniran Barbosa, que se tornou o maior símbolo do bairro. O enredo optou por não contar simplesmente a biografia da homenageada, relembrando as grandes e inesquecíveis canções eternizadas na voz da Pimentinha. Se o samba-enredo corria o risco de virar uma colcha de retalhos com tantas citações, a missão foi muito bem cumprida pela parceira vencedora da disputa que ousou ao criar um refrão que lembrava a canção "Maria, Maria", de Milton Nascimento. Sambão garantido, a comunidade do Bixiga fez seu dever de casa mais uma vez e contagiaram o Anhembi sob a brilhante condução do intérprete Gilsinho.

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira do Vai-Vai, Pingo e Paulinha. Foto: Alexandre Schneider/UOL
Mais uma vez, a preto e branco não deixou a dever em emoção, como na bela Comissão de Frente da agremiação que contou com a presença de ninguém menos que Maria Rita, filha caçula da homenageada. Além dela, os outros herdeiros da cantora, João Marcelo e Pedro Mariano, também marcaram presença. Se comunicação com o público não faltou tanto pela obra musical quanto pelo enredo de fácil assimilação, a escola deixou a desejar nos quesitos plásticos, principalmente em alegorias. Apesar de problemático, o visual assinado por Alexandre Louzada, que dessa vez assinou com André Marins e Delmo de Moraes, não tirou a escola da disputa com uma apresentação muito mais ilustre nos quesitos musicais e de pista. Desbancando a tricampeã Mocidade Alegre, que também fez um ótimo carnaval, o Vai-Vai acabou conquistando o seu décimo quinto título da escola nos braços de seu povo.


Império de Casa Verde 2016 
(Império dos Mistérios)

Uma nação guerreira, a grande estrela desse carnaval! Parecia que esse verso do samba-enredo do Império de Casa Verde premeditava o que aconteceria naquele ano de 2016. Neste carnaval, a grande estrela da folia paulistana foi o renascimento da agremiação. A escola havia marcado sua identidade com grandiosos e luxuosos desfiles na década anterior, conquistando nada menos que um bicampeonato no período 2005-2006. O espírito opulento do Tigre, que estava adormecido, foi retomado com a chegada do carnavalesco Jorge Freitas à agremiação.

O carnavalesco Jorge Freitas trouxe de volta o luxo característico do Império. Foto: Jefferson Pancieri/ SPTuris
O enredo abordava os grandes mistérios da humanidade, passando pelo lado inexplicável da fé, da vida após a morte e da origem da humanidade. Com carros extremamente luxuosos e impecáveis fantasias, o casamento entre Jorge Freitas e o Império não poderia ter se iniciado de forma mais interessante. O abre-alas imponente possuía nada menos que 75m de comprimento e 15m de altura. Além de apresentar o melhor visual das duas noites, a comunidade da Casa Verde mostrou a sua força. Junta ao excelente desempenho da Barcelona do Samba, o chão colaborou ainda mais para a quebra do jejum que já durava dez anos, garantindo o terceiro título da história da agremiação.


Dragões da Real 2017 
(Dragões canta Asa Branca)

Vem forrozear que o sanfoneiro vai tocar! Mesmo com pouca idade, a Dragões da Real se mostrava destinada a uma trajetória grandiosa na folia paulistana. A agremiação formada pela torcida organizada do time São Paulo se fixou no Grupo Especial logo na primeira metade da década e aos poucos foi conquistando posições e mais destaque. Assim, a competência da tricolor se confirmou com uma das grandes apresentações da década. Após temáticas mais lúdicas, a inspiração veio de um clássico de Luiz Gonzaga e a famosa Asa Branca guiou um enredo que homenageou o Nordeste do Brasil (que segurou o país nas costas nas eleições do ano seguinte).

O abre-alas da Dragões da Real foi um dos grandes destaques do desfile. Foto: Acervo/Reprodução Dragões da Real
Assinada por uma comissão de carnaval formada por Jorge Silveira, Márcio Gonçalves, Dione Leite e Rogério Félix, a agremiação da Vila Anastácio impressionou com suas alegorias e recursos criativos que renderem um belíssimo efeito. Além do visual, a vermelho e branco conquistou o público presente por meio do animado samba-enredo inspirado na música que foi eleita pela Academia Brasileira de Letras como uma das mais marcantes do século 20. A bateria comandada pelo Mestre Tornado ousou em paradinhas e bossas, elevando ainda mais o nível da apresentação. A comissão de frente representando o esforço dos sertanejos para conseguir plantar também causou forte comoção. A Dragões, então, escreveu seu nome na história no Anhembi com um desfile emocionante e valente. Uma pena foi que a alegria se tornou um lamento sertanejo na apuração. Inexplicavelmente, a escola perdeu o título na última nota no quesito samba-enredo para o Acadêmicos do Tatuapé, faturando apenas o vice-campeonato. A colocação não tirou o brilho de um desfile inesquecível da comunidade de gente feliz e arretada.

Acadêmicos do Tatuapé 2018 
(Maranhão: os tambores vão ecoar na terra da encantaria)

A segunda metade da década de 2010 foi marcada pela competência de uma agremiação: Acadêmicos do Tatuapé. A história vitoriosa começou anos antes, em 2016, quando a azul e branco surpreendeu ao conquistar o vice-campeonato homenageando a coirmã carioca Beija-Flor de Nilópolis. No ano seguinte, o esperado primeiro título da história da escola foi conquistado em cima do desfile da Dragões comentado anteriormente. Depois, porém, para quem achava que tinham sido dois acasos, o resultado de 2018 acabou com as dúvidas e firmou o estilo de desfilar mais técnico do bairro da Zona Leste.

Detalhes do abre-alas da escola da Zona Leste. Foto: Reprodução LigaSP
Após uma passagem marcante no Tucuruvi, o carnavalesco Wagner Santos fez sua estreia pela agremiação e levou um Maranhão multicolorido ao público. No desfile foram abordados diversos aspectos da cultura do estado, como suas lendas e sua música. O carnavalesco, que é maranhense, já havia abordado o tema em 2010 pelo Tucuruvi, mas conseguiu apresentar originalidade na apresentação. Além do belo trabalho plástico, uma das principais forças no desfile foi o samba-enredo, considerado um dos melhores da safra. Ele foi onduzido pelo carismático e talentoso Celsinho Melody, uma revelação da década que também brilhou no Sambódromo carioca. A bateria do Mestre Higor se destacou com paradões e bossas ao ritmo de reggae, muito popular no Maranhão. A comunidade novamente deu conta do recado e mostrou que estava confiante em busca do segundo título. No desfile imponente e técnico, o carnaval de São Paulo se deparou com a confirmação de uma nova estrela. 

Gaviões da Fiel 2019 
(A saliva do santo e o veneno da serpente)

“Sou Gavião você pode acreditar”. Os Gaviões da Fiel tentavam voltar aos seus tempos áureos buscando as primeiras posições. Para isso, a escola decidiu apostar em uma reedição do enredo de 1994, que naquele ano os levou ao vice-campeonato. “A saliva do santo e veneno da serpente” foi assinada pelo carnavalesco Sidnei França e encerrou o carnaval de 2019 com um desfile arrebatador. A reedição contou a história, as lendas, os benefícios e malefícios do tabaco. Sidnei recontou o tema apresentado há 25 anos pelo carnavalesco Raul Diniz com seu toque. Algumas adaptações nas alegorias foram feitas, mas a essência do enredo se manteve a mesma.

O abre-alas do Gaviões representa o medo e a fé. Foto: Marcelo Brandt/G1
A trilha sonora do desfile foi a principal atração. O samba-enredo é até hoje cantado pela torcida do Corinthians nos estádios, construindo sua grande popularidade. “Sarava, saravá, salve o santo guerreiro” foi entoado pela arquibancada no Sambódromo, fortalecendo ainda mais a apresentação. O público vinha abaixo com a escola a cada verso defendido pelo intérprete Ernesto Teixeira. Durante a apresentação, por alguns momentos o cantor dizia: “esse ano vai dar, eu falei”. A bateria do Mestre Ciro foi uma das melhores da noite e recriou as mesmas bossas apresentadas vinte e cinco anos antes. As alegorias, por sua vez, não apresentaram uma regularidade durante o desfile. Entretanto, isso não atrapalhou o espetáculo apresentado pela agremiação alvinegra. Assim, o carnaval de 2019 foi encerrado com uma apresentação estupenda, arrebatando todos que estavam presentes. Pena que a emoção do desfile não foi o suficiente para conquistar integralmente o polêmico júri paulistano, que deu apenas o 9º lugar a Gaviões.

Mocidade Alegre 2020 
(Do Canto das Yabás, Renasce Uma Nova Morada)

Nossa Morada renascerá… Depois de conquistar seu tricampeonato, a Mocidade Alegre patinou entre apresentações que não mostraram a mesma força de antes. Após complicações, a escola pisou no Anhembi em 2020 buscando renascer e, para isso, resolveu apostar novamente em um dito enredo afro. Reforçando o time de carnavalesco da alvirrubra, Edson Pereira se juntou a Márcio Gonçalves e Paulo Brasil na assinatura do cortejo. O enredo “Do canto das Yabás, renasce uma nova Morada” foi responsável por encantar o Anhembi na apresentação plasticamente irretocável e com a força característica e única da Morada do Samba.

“Nas águas de Iemanjá” foi um dos carros que mais chamou a atenção no desfile. Foto: Juliana Yamamoto/Carnavalize
A narrativa exaltava o poder das orixás femininas – as yabás - para reconstruir o planeta. Através do canto das divindades, existia a esperança para que a humanidade melhorasse e retomasse sua conexão com Olorum, o criador do mundo, possibilitando com que a Terra voltasse a ser um paraíso. O samba-enredo forte e muito bem interpretado por Igor Sorriso embalou uma apresentação esteticamente impressionante, com destaques para o Abre-Alas com a Morada de Olorum e o segundo carro "Nas Águas de Iemanjá". Este contou com 5 mil litros de água reutilizada em fontes e bolhas.

Mais uma vez, a Ritmo Puro levantou as arquibancadas e arrepiou o público com várias paradinhas e bossas. A comunidade do bairro do Limão também teve um excelente desempenho na busca pelo campeonato. Uma apresentação irretocável em todos os quesitos mostrou a força da Morada e a força das mulheres, que representavam 70% dos componentes no desfile. A agremiação não foi campeã - terminou na 3º colocação - mas nos presenteou com um espetáculo e com a certeza que a Mocidade Alegre renasceu.

Menções honrosas:

Não faltaram apresentações grandiosas e marcantes no Anhembi na última década e, por isso, a seleção não foi nem um pouco fácil. Procuramos traçar um panorama que mostrasse as transformações e o crescimento da folia paulistana, embaladas pelo investimento e o aperfeiçoamento de sua infraestrutura. Como comentado, esses aspectos contribuíram para o aumento da competitividade da festa, que coroou ainda o surgimento de novas protagonistas. Já que citar apenas dez desfiles era missão difícil, separamos alguns outros espetáculos que também valem ser relembrados como destaques dos últimos anos. 

Rosas de Ouro 2012 (O Reino de Justus)

Águia de Ouro 2013 (Minha missão: O canto do povo, João Nogueira)

Mocidade Alegre 2015 (Nos palcos da vida, uma vida no palco… Marília!)

Acadêmicos do Tatuapé 2017 (Mãe-África conta a sua história: Do berço sagrado da humanidade ao abençoado menino da terra do ouro)

Império de Casa Verde 2018 (O povo, a nobreza real)

Mancha Verde 2019 (Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra)

Águia de Ouro 2020 (O Poder do Saber – Se saber é poder… Quem sabe faz a hora, não espera acontecer)

Dragões da Real 2020 (A Revolução do Riso: A arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria).

Para você, qual seria o #TOP10? Qual desfile colocaria ou tiraria da nossa lista principal? Comente com a gente! #CarnavalizeSP.

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
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Arte: Reprodução/LigaSP

JANEIRO 2019
Sexta - 11/01 
23:00 - CAMISA VERDE E BRANCO

Sabado - 12/01 
19:15 - LEANDRO DE ITAQUERA
20:30 - INDEPENDENTE TRICOLOR
21:45 - NENÊ DE VILA MATILDE

Domingo - 13/01 
20:30 - IMPÉRIO DE CASA VERDE

Quinta - 17/01 
21:45 - UNIDOS VILA MARIA

Sexta - 18/01 
21:45 - COLORADO DO BRÁS
23:00 - UNIDOS DO PERUCHE

Sábado - 19/01 
19:15 - PÉROLA NEGRA
20:30 - MOCIDADE ALEGRE
21:45 - TOM MAIOR
23:00 - MANCHA VERDE
00:15 - ROSAS DE OURO
01:30 - VAI VAI

Domingo - 20/01
19:15 - ESTRELA DO TERCEIRO MILÊNIO
20:30 - BARROCA ZONA SUL

Sexta - 25/01 
18:00 - AMIZADE ZONA LESTE
19:15 - LEANDRO DE ITAQUERA
20:30 - UNIDOS DO PERUCHE
21:45 - INDEPENDENTE TRICOLOR
23:00 - NENÊ DE VILA MATILDE

Sábado - 26/01
19:15 - CAMISA 12
20:30 - IMPERADOR DO IPIRANGA
21:45 - CAMISA VERDE E BRANCO
23:00 - GAVIÕES DA FIEL

Domingo - 27/01 
18:00 - MORRO DA CASA VERDE
19:15 - SANTA BÁRBARA
20:30 - PRIMEIRA DA CIDADE LÍDER

FEVEREIRO 2019 

Sexta - 01/02 
20:30 - COLORADO DO BRÁS
21:45 - MOCIDADE ALEGRE
23:00 - X9 PAULISTANA

Sábado - 02/02 
17:00 - UIRAPURU DA MÓOCA
18:00 - BARROCA ZONA SUL
19:15 - ÁGUIA DE OURO
20:30 - UNIDOS DE VILA MARIA
21:45 - TOM MAIOR
23:00 - IMPÉRIO DE CASA VERDE

Domingo - 03/02 
18:00 - MOCIDADE UNIDA DA MÓOCA
19:15 - DRAGÕES DA REAL
20:30 - ACADÊMICOS DO TUCURUVI
21:45 - INDEPENDENTE TRICOLOR

Quinta - 07/02 
21:45 - ROSAS DE OURO
23:00 - CAMISA VERDE E BRANCO

Sexta - 08/02 
21:45 - PÉROLA NEGRA
23:00 - NENÊ DE VILA MATILDE

Sábado - 09/02 
16:00 - TORCIDA JOVEM
17:00 - DOM BOSCO DE ITAQUERA
18:00 - LEANDRO DE ITAQUERA
19:15 - UNIDOS DO PERUCHE
20:30 - ÁGUIA DE OURO
21:45 - X9 PAULISTANA
23:00 - GAVIÕES DA FIEL
00:15 - VAI VAI

Domingo - 10/02 
16:00 - TRADIÇÃO ALBERTINENSE
17:00 - ESTRELA DO TERCEIRO MILÊNIO
18:00 - IMPERADOR DO IPIRANGA
19:15 - MOCIDADE UNIDA DA MÓOCA
20:30 - ACADÊMICOS DO TATUAPE
21:45 - COMBINADOS DE SAPOPEMBA
23:00 - INDEPENDENTE TRICOLOR

Quinta - 14/02 
20:30 - PRIMEIRA DA CIDADE LÍDER
21:45 - GAVIÕES DA FIEL

Sexta - 15/02 
20:30 - BARROCA ZONA SUL
21:45 - TOM MAIOR
23:00 - IMPÉRIO DE CASA VERDE
00:15 - VAI VAI

Sábado - 16/02 
18:00 - COLORADO DO BRÁS
19:15 - UNIDOS DE VILA MARIA
20:30 - MOCIDADE ALEGRE
21:45 - MANCHA VERDE
23:00 - ROSAS DE OURO

Domingo - 17/02 
18:00 - ACADÊMICOS DO TUCURUVI
19:15 - DRAGÕES DA REAL
20:30 - ACADÊMICOS DO TATUAPE
21:45 - X9 PAULISTANA

Quinta - 21/02 
20:30 - ÁGUIA DE OURO
21:45 - ACADÊMICOS DO TATUAPE
23:00 - MANCHA VERDE
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Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!



Voltar no tempo e recordar grandes sambas que marcaram a história no samba paulistano é sempre um prazer, mas pode ser também uma nova oportunidade para conhecer e se apaixonar por canções que você talvez nunca tenha ouvido ou não saiba da existência, mas não ficam devendo em nada em poesia e beleza. O interesse pelo carnaval de São Paulo cresce a cada ano, mas pouco se conhece ainda sobre a história dos desfiles da Terra da Garoa, suas apresentações e sambas mais marcantes antes da virada do século XXI. 

Como a gente espera que todo mundo já tenha aprendido que São Paulo faz samba também, e muito bem, a gente separou uma lista de sambas clássicos e belíssimos da folia desde antes do Anhembi. Vamos passear por sambas de diferentes escolas, anos, enredos, estilos e muito mais. E aí, será que você conhece todos os sambas desse texto?  Se não conhece, venha em São Paulo para ver...

Colorado do Brás 1988 – Quilombo Catopés do Milho Verde

"Me abraça e faz as peles mais unidas 
Que beleza
Não criou raça, 
Deus apenas criou vidas"



"Quilombo espalhou suas raízes, e fez sua semente germinar, em ricas terras mineiras, do milho verde vem o canto pelo ar..." Se no Rio de Janeiro, o centenário da suposta "abolição da escravatura" rendeu obras também inesquecíveis, em São Paulo não foi diferente. Se por si só, enredos sobre a história do povo africano já apresentam uma força peculiar por toda a história vivida por eles, imagine num ano especial como esse. 

A trajetória de luta por liberdade e sofrimento pelo simples fato de ser diferente do que se julgava ser normal na época (e infelizmente até nos dias de hoje) é uma mancha na história desse país, mas se tem algo que esse samba conseguiu imprimir é a felicidade do povo negro em forma de letra e melodia. Porque sim, apesar de todo sofrimento vivido eles, nunca perderam essa essência de ser felizes, de cantar, dançar e de manter viva a esperança de dias melhores. A letra dessa obra composta por Dom Marcos, Edinho, Rona Gonzaguinha e Xixa passeia de maneira emocionante pelo movimento da diáspora, trazendo o cotidiano dos escravos na plantação e sua resistência através das manifestações culturais, fazendo por fim um clamor pelo fim do preconceito.


Rosas de Ouro 1992 - "Non Ducor Duco", qual é a minha cara?

"Meu sabiá, ô ô ô ô 
Soltou o trinar, cantou, cantou
Deu um show na passarela
Levantou a galera
Bateu asas e voou..."



"Bom é recordar, bom demais." Assim se inicia um dos sambas mais especiais e tradicionais da Sociedade Rosas de Ouro em sua história no carnaval paulistano. O enredo em homenagem a São Paulo, especialidade da casa nessa época, embalou um dos principais e mais lembrados títulos da agremiação. O samba tem toda uma cadência especial ao falar da capital, contando o enredo em forma de uma declaração de amor ao seu lugar, relembrando a nostalgia de coisas que se perderam no processo de evolução da cidade, de pequeno vilarejo a uma das maiores cidades do país.

A letre, composta por João do Violão e Miltinho, passeia ainda pelos principais logadouros do lugar, tendo tom crítico ao já avisar da poluição que atingia a metrópole, tanto no verso "o ar, cadê meu ar?" e idealizando um futuro melhor para o famoso rio da cidade: "Tietê, quero um dia beber você". Toda a bela poesia foi entoada por uma performance marcante de Royce do Cavaco, o sabiá da Roseira. O sabiá deu um show na passarela, levantou a galera, bateu asas e voou para um lugar especial na memória do sambista....    

Gaviões da Fiel 1995 - Coisa boa é para sempre

"Me dê a mão, me abraça
Viaja comigo pro céu 
Sou gavião, levanto a taça
Com muito orgulho pra delírio da Fiel"


Você achou que São Paulo não tinha o seu "Ita"? No melhor estilo de animação e empolgação do lendário hino salgueirense, lhes apresentamos um dos maiores sucessos do carnaval de São Paulo.  É um daqueles sambas que caíram no gosto popular de cara, se tornando famoso antes mesmo do carnaval, sendo cantado pela arquibancada antes, durante e depois do desfile - e até os dias de hoje nos estádios de futebol. 

A letra, composta por Grego, além de leve, divertida e festiva, te leva a relembrar e viajar pelo universo infantil, dos tempos de criança, não deixando de lembrar os antigos carnavais e a celebrar a Gaviões da Fiel que celebraria 25 anos no carnaval daquele ano. A canção fez tanto sucesso que rompeu as barreiras do Anhembi e foi regravada pelo mestre Jamelão, num belo gesto de valorização do carnaval paulistano por um dos maiores intérpretes do país. E como diz o mesmo: o que é bom pra sempre fica guardado na memória....  

Leandro de Itaquera 1989 – Babalotim: a História dos Afoxés

"Ô, ô,ô... Eu vim de longe, cruzei mares, quem diria
Ô, ô, ô... Sou afoxé irradiando energia"



Este é aquele samba clássico da história do samba paulistano, se você ainda não conhece essa obra-prima, agora é uma ótima oportunidade. Um samba-enredo irresistível de ponta a ponta, com refrães deliciosos e que te convidam a cantar e sambar. A letra é de beleza e poesia ímpares, o que engrandece ainda mais a obra. Brilhantemente interpretado por Eliana de Lima, o hino fez muito sucesso antes mesmo do desfile e na hora da apresentação oficial mobilizou as massas presentes, comandado não só pelos vocais marcantes da lendária interprete paulistana, mas pelo público presente na Avenida. 

A obra composta por Thiago Lee, Grupo Relíquia, Sandrinha e Clarice é mais uma a contar a história da diáspora africana da maneira mais valente e poética possíveis, sendo coroada por um dos refrões mais inesquecíveis da folia paulistana, o que fez toda diferente a ajudar em eternizar essa canção. O marco de Babalotim foi tão forte na história da Leandro de Itaquera e do carnaval paulistano que foi recentemente reeditado pela agremiação. Axé, Babalotim!


Vai-Vai 1998 – Banzai Vai-Vai

"Me beija na boca, amor 
Me faz um chamego eu quero sentir
Balançando a massa, é Vai-Vai que passa 
Sacudindo o Anhembi"



Achou que ia faltar a escola mais tradicional e conhecida do carnaval de São Paulo? Achou errado! E pra isso, apresentamos mais um grande sucesso popular e que literalmente "sacudiu o Anhembi". É bem verdade que o Vai-Vai, como a escola popular e vitoriosa que é, coleciona uma discografia das mais revelantes e marcantes do carnaval brasileiro como um todo. Mas essa composição de 1998 tem sua força especial por vários motivos. É aquele samba com a essência do componente do Bixiga, com aquele jeito Vai-Vai de ser. 

A letra composta por Zeca, Zé Carlinhos e Afonsinho é um xodó da agremiação da Bela Vista, sendo o samba entoado em todos os ensaios e em todas as apresentações nas quadras das coirmãs. E como todo samba antológico que se preze, teve um intérprete que emprestou a força necessária aos versos da obra para eternizá-los, e nesse caso foi o inesquecível Thobias da Vai-Vai. A obra relatou com perfeição o enredo que levou o Criolé, mascote da escola, numa viagem pelo Japão, desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, que fez história na alvinegra. 


Cabeções da Vila Prudente 1981 - Do Iorubá ao reino de Oyó

"Xangô Ô Ô Ô Ô
Valei-me meu pai, valei-me Xangô"


Esse talvez seja o samba menos comentado da lista, de uma escola menos conhecida ainda, mas não por isso menos belo e marcantes ao ouvir a primeira vez. A Cabeções de Vila Prudente teve uma trajetória curta e com apenas duas passagens no Grupo Especial até agora, mas em 1981 deixou sua marca no samba paulistano, mesmo amargando um décimo lugar no grupo principal daquele ano. A escola que recentemente voltou à ativa após enrolar a bandeira nos brindou com esse hino da folia nacional e que se tornou um clássico.

Sambas de enredo sobre orixás são sempre especiais pela sua força ancestral, e com esse não poderia ser diferente ao contar a história de Xangô, o rei africano que se tornou divindade nas religiões afro-brasileiras. Apesar de curta para os padrões atuais, a letra composta por Dom Marcos não deixa faltar beleza e força em seus versos, cumprindo muito bem sua função de emocionar e inspirar. Valei-me meu pai, kaô!  


Camisa Verde e Branco 1982 - "Negros maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko"

"Ôô, ôô, a nossa escola
Enaltece a negra gente
Que nunca ficou chorando 
Sempre viveu cantando, fingindo contente"




"Achei uma bola de ferro, presa a ela uma corrente, tinha um osso de canela, deu tristeza em minha mente..." O que esperar de um samba que já começa dessa forma? É uma baita de uma pedrada na alma. Ao contar a dor da diáspora, o samba-enredo da Camisa Verde e Branco de 1982 evoca belas imagens da dor e sofrimento do trânsito entre África e Brasil. Chegando até os dias de hoje, o samba faz um verdadeiro clamor por igualdade racial, além de uma justa exaltação ao povo negro. 

A obra composta por Ataíde tem um refrão principal duplo, que dá um toque muito singular ao samba, sem falar que ele em sua totalidade é bastante valente em forma de letra e melodia. Exaltando a importância da negra raça também na contemporaneidade, a marcante canção deixa uma pergunta que até hoje ecoa na nossa sociedade: "Não nos leve a mal / Por que só no triduo de Momo/ Que o negro é genial?." Afinal, "negro paga imposto, negro vai a guerra, negro ajudou a construir a nossa terra..."

1970 - Desfile de carnaval no Vale do Anhangabaú.

Relembrar sambas antológicos do Carnaval é sempre um passaporte para uma viagem no tempo, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Listá-los é sempre tarefa árdua e que presume uma seleção, que com certeza não agradará a todos. Entretanto, são diversos os sambas que poderiam também estar presentes nessa lista, obras como: Gaviões da Fiel 1994, Mocidade Alegre 1980, Vai-Vai 1982, Nenê de Vila Matilde 2002 e muitos outros. 

Seja exaltando a beleza e a importância do povo negro, seja passeando pelos velhos tempos e por continentes distantes, o samba paulistano tem sua riqueza e importância na cultura nacional. Afinal, seu carnaval é também patrimônio da nossa gente. Esperamos que tenham curtido os sambas, que tenham descoberto novos hinos favoritos e que se aventurem a pesquisar e conhecer mais sobre a história do Carnaval de São Paulo. Até a próxima!   

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Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site aqui durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.
Foto: Alexandre Schneider/UOL
Nunca se falou tanto sobre os enredos críticos como no último Carnaval. Em meio ao momento social agitado, a volta da temática repercutiu bem e garantiu bons resultados no Rio de Janeiro. Sempre atreladas a seu tempo, as escolas de samba assumiram o papel de porta-vozes culturais, desfilando temas políticos em diversos momentos, seja retratando de variados problemas da nossa sociedade ou usando a crítica e irreverência para reflexão. A volta desses enredos busca resgatar a identidade cultural das agremiações, que se não se perdeu totalmente, mas tornou-se esquecida com o passar do tempo.

Além disso, a importância desse resgate é a volta da representação do povo e da sua realidade atual nos desfiles, formulando empatia entre as agremiações e o público, de modo que os espectadores se envolvam e sintam-se ainda mais representados pelas escolas de samba.

Mas apesar de famosos nas terras cariocas, quem disse que as escolas paulistanas também já não cantaram temas engajados em suas apresentações? É exatamente o que iremos desvendar. Vem com a gente!


Vai-Vai 2008 - "Acorda Brasil, a saída é ter esperança"

Alexandre Schneider/UOL
O desfile é baseado na peça “Acorda Brasil”, de Antônio Ermínio de Moraes, que retrata o cenário de um incêndio na comunidade de Heliópolis, no ano de 1996. O fogo causou comoção ao maestro Silvio Baccarelli, que resolveu montar uma escola de música na comunidade, nascendo assim o Instituto Baccareli, que deu origem a uma grande orquestra popular. Transformando e mudando o destino de muitos habitantes da periferia por meio da educação e da música. 

O renomado carnavalesco Chico Spinoza resolveu contar essa história real no carnaval do Vai-Vai em 2008, com a mensagem final de que a única forma de acordar e colocar o Brasil no rumo certo seria a educação. A combinação da “Escola do Povo” como porta-voz da população não tinha como dar errado e o grito de “Acorda Brasil” ecoou durante todo o desfile, arrebatando a arquibancada e conquistando o título daquele ano, fato raro em se tratando de enredos críticos no Carnaval. E com um dos melhores sambas de sua história, a escola deixou o seu recado: “Alô Brasil, o nosso povo quer mais educação pra ser feliz, com união vencer a corrupção, passar a limpo esse país...”.

Hoje, dez anos atrás continua tão atual, não é mesmo? Seguimos na esperança de que esse grito seja ouvido e o nosso país acorde.



Império Casa Verde 2018 - "O povo, a nobreza real"

Alisson Valério/Carnavalize
O mais recente enredo crítico do Carnaval de São Paulo não poderia ficar de fora, certo? Usando como pano de fundo o cenário da Revolução Francesa para falar sobre a realidade atual do Brasil - com muitos na pobreza e poucos na riqueza - a Império de Casa Verde coroou, em seu desfile de 2018, a nobreza real brasileira: o povo!

O carnavalesco Jorge Freitas acertou em cheio na escolha: um verdadeiro show de história e crítica. Plasticamente impecável (e que assim conseguiu driblar a afirmação que enredo critico geralmente tem a sua plástica comprometida), o desfile, mesmo não conquistando o título - ficando um pouco longe disso, no sétimo lugar - com certeza ficou marcado na memória de muita gente: “Sonhei um sonho onde há coragem pra mudar o mundo, a igualdade segue junto derrubando as Bastilhas. Um sonho sonhei em que a lei era dignidade, todo camponês se torna rei, nessa folia é realidade...”




Águia de Ouro 2006 – "Não tem desculpa"

Keiny Andrade/Folha Imagem
Como carnavalizar um tema difícil? A denúncia ao tráfico de crianças com finalidade de prostituição e pedofilia foi o enredo escolhido para o carnavalesco Victor Santos no Águia de Ouro, em 2006, buscando sensibilizar as pessoas sobre os direitos infantis e também do respeito a infância.

A comissão de frente mostrava um grande combate entre o pensamento infantil, representado por magos, contra o pensamento monstruoso, representado por guerreiros selvagens e primitivos, se encerrando com uma homenagem a todas às ONGs que lutam pelos direitos das crianças e prendendo os vilões em grades, deixando bem clara a mensagem do desfile, que viajou pela inocência do mundo infantil na sua luta contra os pensamentos cruéis e maldosos do mundo adulto. Um enredo pesado, um verdadeiro soco no estômago, mas que retratou esse grito por respeito aos direitos das crianças de uma forma muito bonita. O samba deixou o seu recado: “Não tem desculpa não, denuncia é a solução, pra quem tem culpa, sofrer a punição. ”




Tucuruvi 2001 - "São Paulo dá Samba, olha aí o Nosso Carnaval"
Evélson de Freitas/Folha Imagem


Túmulo do samba? Nada disso. O carnavalesco Marco Aurélio Ruffin resolveu mostrar que São Paulo dá samba e fez uma verdadeira exaltação à história do carnaval paulistano no desfile da Tucuruvi em 2001.

O desfile começou no samba paulistano, tendo um verdadeiro arauto do ritmo na sua comissão de frente, seguindo ali para contar a história do nascimento do carnaval em São Paulo, até a chegada do palco para provar a sua raiz, com a construção do Anhembi. Tema justamente do último carro, que infelizmente teve um problema e acabou não cruzando a avenida. Mas o que não comprometeu o desfile e a verdadeira declaração de amor ao samba da Terra da Garoa. Além disso, o hino da agremiação deixou o seu aviso a Vinícius de Moraes e a quem ousar chamar o Carnaval de São Paulo de túmulo do samba: "Se enganou, olha aí, não sou um túmulo, eu sou feliz, ganhei um palco pra provar minha raiz, deixei de ser marginal, segui outra diretriz, meu samba hoje é o orgulho do país”.



Gaviões da Fiel 2002 - "Xeque-Mate"

Rogério Cassimiro/Folha Imagem
É óbvio que esse desfile do mago Jorge Freitas, não poderia ficar de fora, né? Dessa vez pelos Gaviões da Fiel, ele transformou a avenida em um verdadeiro tabuleiro de xadrez. Dar um justo e merecido xeque-mate nas guerras, corrupções e impunidades era o objetivo dessa narrativa. O resultado seria transformar o nosso país em um lugar de paz, com mais moradia, mais educação e segurança: uma jogada de mestre.

A forte crítica arrebatou o público presente numa grande apresentação, que se tornou uma das mais memoráveis de São Paulo. E continua possuindo aplicabilidade no cenário contemporâneo, tanto na esfera política quanto na esfera social: "É hora da virada (vem amor), tenho fé e esperança (no coração), o meu país menino vai mudar, e a felicidade há de brilhar".

Seguimos com essa esperança e acreditando na mudança.



Nenê de Vila Matilde 1985 - "O dia que o cacique rodou a baiana, aí ó"

Se em terras cariocas os enredos críticos tiveram seu auge durante a década de 1980, durante a redemocratização, o carnaval paulistano também reverberou o cenário social agitado. A Nenê de Vila Matilde utilizou como fio condutor a eleição do primeiro indígena a se tornar deputado federal, o Cacique Juruna, para fazer uma crítica às desigualdades sociais, usando o carnaval como forma de despertar a mobilização social.

O samba fez ainda crítica a cultura de massa "alienante" na figura do personagem Macobeba, reivindicando, também, o lugar do negro na representação política, convocando todos a "rodarem a baiana". Representatividade que fala, né? Afinal como dizia a letra: "Negro também quer poder falar alto, rodar a baiana e chegar no Planalto." 

O desfile da azul e branco foi um sacode, não só garantindo o título para a agremiação, mas a chance de protagonizar um momento histórico, ao ir desfilar no Sambódromo do Rio de Janeiro, abrindo o desfile das campeãs daquele ano.



Escolher os desfiles críticos desse texto foi uma missão complicada! Optou-se pelos mais marcantes e os que ainda ressoam, se tornando ainda atuais no cotidiano do país. Caso você seja fã de enredos críticos e não conheça tantos desfiles de São Paulo com essa vertente, não precisa se preocupar! Segue uma lista de outros carnavais políticos para descobrir ainda mais a folia do Anhembi: 

Camisa Verde e Branco 1990 – “Dos Barões do Café a Sarney, Onde Foi Que Eu Errei”; 
Mocidade Alegre 1991 – “A história se repete”; 
Gaviões da Fiel 1992 – “Cidade Aquariana”; 
Unidos do Peruche 1995 – “Não Deixe o Samba Sambar”; 
Gaviões da Fiel 1997 – “O Mundo da Rua”; 
Rosas de Ouro 2000 – “Yes, nós temos mais que banana”; 
Vai-Vai 2000 – “Vai-Vai Brasil”; 
Império de Casa Verde 2005 – “Brasil: Se Deus é por nós, quem será contra nós?”; 
Vai-Vai 2009 – “Mens Sana et Corpore Sano - O Milênio da Superação”.


E fique ligado a "Série Enredos" vai encher o mês de maio do nosso site com matérias sobre os temas que as escolas levaram para a avenida, com textos novos toda quarta e sexta. Por isso, venha carnavalizar conosco. 

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