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Carnavalize


Texto de Felipe Tinoco e Leonardo Antan.
Revisão de Beatriz Freire.
Visual e artes de Vítor Melo.

O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna estreando um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!

Após os desfiles de 2010 e a consagração da Unidos da Tijuca, no histórico “É Segredo!”, tendências, apostas, inovações, quedas e ascensões deram a tônica de uma década muito badalada, com direito ao rebrotar do gênero samba-enredo e do surgimento de uma geração criativa de novos artistas.

É por isso que, a partir de hoje e durante as próximas semanas, para animar a sua quarentena, todas as segundas, quartas e sextas-feiras serão destinadas a lembrar os acontecimentos e causos fundamentais do Sambódromo, com vários #TOP10 que relembram fortes momentos!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal. Confira abaixo o cronograma da série:


Para começar nosso passeio pelos últimos anos 10 anos de folia, decidimos sair logo da missão mais difícil: as apresentações mais marcantes desse período. Algumas podem não ter sido as campeãs de seu ano, ou a escola que defendeu de forma mais técnica quesito a quesito. Todas as apresentações escolhidas, porém, não ficaram devendo em emoção e simbolismo, além de registrarem conjunturas importantes para cada agremiação e para a história da festa como um todo. São apresentações que reúnem grandes sambas, o talento criativo de seus carnavalescos e a atuação de grandes profissionais, entre compositores, intérpretes, mestres de baterias, casais de mestre-sala e porta-bandeira e coreógrafos de comissão de frente.

Então chega de papo e vamos conferir o primeiro (e mais polêmico) TOP10 da #SérieDécada: os desfiles mais marcantes do Grupo Especial carioca. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)

Ps.: se quiser ver lindas fotos de cada um dos desfiles, clique nas primeiras palavras de suas análises. Com exceção do ano 2011, todos os desfiles possuem um álbum individual de fotos da Riotur.


Acadêmicos do Salgueiro 2011 
(Salgueiro apresenta: O Rio no Cinema)

O Oscar sempre vai para a Academia, mas o título, não! Apesar da apresentação estética monumental preparada por Renato e Márcia Lage, em um dos shows visuais típicos das melhores apresentações da dupla, embalada por um samba que se destacava no CD do ano e um enredo divertido, repleto de identidade, concebido em parceria entre os carnavalescos e o Departamento Cultural da escola, sob a figura de João Gustavo Melo... os salgueirenses saíram desapontados daquele carnaval.

O tão famoso "King Kong no relógio da Central" / Foto: AF Rodrigues/Riotur
O Salgueiro cantou as principais obras do cinema que tiveram a cidade do Rio de Janeiro sob pano de fundo: Carlota Joaquina, Central do Brasil, Orfeu, Madama Satã, Tropa de Elite, dentre outros filmes. Ao fazer figurinos mais leves, a escola apostou no gigantismo dos belíssimos carros alegóricos. Ao menos três deles tiveram dificuldades para se locomover da pista e entrar no joelho da Avenida, como a icônica alegoria que trazia a impressionante escultura do “King-Kong no relógio da Central”, com a funkeira Valesca Popozuda vestida de banana como destaque. As dificuldades fizeram com que a agremiação ultrapasse o tempo máximo de desfile em 10 minutos, além de gerar correrias e buracos na Avenida. O desfile se tornou exemplo de problemas de evolução, quesito tão caro ao Salgueiro em sua história recente, e novamente tirou o favoritismo da branca e encarnada. A apresentação ainda faturou o 5º lugar e se tornou inesquecível: vale a vaga no TOP10!


Unidos de Vila Isabel 2012 

(Você Semba Lá.... Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola)

Nos seus tambores, o sonho viveu em Vila Isabel no segundo ano da década. Se muitos dos olhos estavam voltados à simbologia do inovador samba da Portela de 2012, na Marquês de Sapucaí o sucesso da obra composta para a coirmã - também azul e branca da Zona Norte - por André Diniz, Arlindo Cruz, Artur das Ferragens, Evandro Bocão e Leonel (in memoriam) confirmou sua força e deu o tom à última apresentação da noite de domingo de carnaval em homenagem a Angola. A forte parceria de compositores contagiou com força a comunidade do Morro dos Macacos em diversos versos. Na sua segunda parte, a canção propunha um contracanto, entoado por Tinga a plenos pulmões, e respondido com vibração pelos componentes, que incorporaram Kizomba.


Comissão de frente e cabeça de um desfile inesquecível. / Foto: Rafael Moraes/Riotur
Se musicalmente a apresentação foi extremamente bem servida, a estética e o visual do desfile não ficaram para trás. As alegorias e fantasias criadas por Rosa Magalhães ousaram nas formas das fantasias e no uso de diversos tecidos com estampas referentes à região do país celebrado, criando imagens marcantes para o desfile. Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente, apresentou um dos melhores trabalhos de sua carreira e a melhor comissão do ano, com uma savana que escondia a fauna angolana. Mentor do enredo e considerado como Embaixador Cultural do Brasil na Angola, Martinho da Vila encerrou a apresentação no sétimo carro sob a luz do sol e o céu azul, dando a certeza de um desfile que combinou diversos ingredientes necessários para se considerar postulante ao título e memorável aos torcedores da Vila e aos amantes do carnaval. Terminou em 3º, mas marcou a década!


Unidos de Vila Isabel 2013 
(A Vila canta Brasil, celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um)

Festa no Arraiá! Depois de gerar ótimos frutos no ano anterior, a parceria entre a Vila Isabel e Rosa Magalhães voltou a encantar o público em 2013. Novamente genial, após um enredo com a cara de Vila Isabel, a artista soube desenvolver uma narrativa leve para um tema espinhoso patrocinado pelo agronegócio. A saída foi passear pela vida do homem do campo, com sua prosódia, seus costumes, sua forma de alimentar e viver. Dando ainda mais lirismo ao que foi contado, um daqueles sambas-enredos raros e antológicos surgiu na inspiração de uma super parceira que repetiu a maioria dos nomes do ano precedente: Martinho da Vila, Arlindo Cruz, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel.

Detalhes de um carnaval primoroso de Rosa Magalhães e da Vila Isabel. / Foto: Marco Antonio Cavalcanti/Riotur
A obra musical explodiu dentro e fora da bolha do carnaval nos meses que antecederam a folia, com milhares de visualizações no YouTube. A azul e branco de Noel encerrou os desfiles naquela segunda-feira já aclamada, brindando a continuação do excelente trabalho de uma equipe coesa da agremiação que ainda contava com intérprete Tinga, o casal Rute Alves e Julinho Nascimento, os diretores Júnior Schall e Wilsinho, além dos coreógrafos Marcelo Misailidis, na comissão de frente, e Carlinhos de Jesus, responsável pelas movimentações visuais na bateria e em alegorias. Um verdadeiro arraial na Avenida coroou o protagonismo do samba-enredo, de uma forma que há muito tempo não se via, e deu o título incontestável à escola.


União da Ilha 2014 
(É brinquedo, é brincadeira: a Ilha vai levantar poeira)

Hoje a Ilha vem brincar, amor... Depois de quatro desfiles no Grupo Especial, a União da Ilha marcou de vez sua permanência na elite do samba em um grande reencontro com suas características mais famosas. A escola da simpatia e da alegria encantou o público com muita criatividade e leveza no delicioso e nostálgico enredo desenvolvido por Alex de Souza com brilhantismo.

O belíssimo abre-alas da Ilha: a fábrica de brinquedos insulana. Foto: Riotur / Marco Antonio Cavalcante
Relembrando os brinquedos e brincadeiras que marcaram época, a tricolor fez todo mundo voltar a ser criança no seu desfile repleto de elementos visuais de fácil leitura, muita riqueza de detalhes e bom gosto. O samba-enredo traduzia com beleza e encantamento o tema proposto e foi muito bem interpretado por Ito Melodia, acompanhado pela bateria do Mestre Thiago Diago e a animação dos componentes da escola e do público da Avenida. Na comissão de frente de Jaime Arôxa, uma estrutura fazia uma bailarina e um soldadinho de chumbo rodopiarem e, em frente ao júri, distribuir presentes à frisa. A escola terminou em 4º lugar naquele ano, com o gosto de que poderia ter sido mais, mas com a certeza e muito orgulho de sua melhor apresentação em muitos carnavais.


São Clemente 2015 
(A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça Pé de Boi)

É o mestre... Veio mais uma vez do talento e bom gosto inegáveis da professora Rosa Magalhães um outro desfile que marcou a década: seu terceiro na lista. Depois de uma passagem nada harmoniosa na Estação Primeira de Mangueira, a artista surpreendeu a todos dando expediente na agremiação de Botafogo e escolheu para a estreia um enredo para nenhum sambista colocar defeito: uma homenagem a Fernando Pamplona. 
Belíssima homenagem da Rosa Magalhães ao seu professor, Fernando Pamplona. Foto: Gabriel Santos/Riotour
Baseada na autobiografia do cenógrafo e carnavalesco, a artista, uma grande herdeira do mestre, provou mais uma vez a sua capacidade de se reinventar com uma apresentação bela e repleta de bom gosto, passeando pela infância de Pamplona e seu medo de assombrações até suas principais contribuições ao Salgueiro, ao carnaval e à arte brasileira. O emocionante samba foi muito bem interpretado por Igor Sorriso, que deixou de ser promessa e se tornou uma realidade na festa e brilhou ao lado da bateria de mestres Gil e Caliquinho. Eles prepararam uma bossa no refrão do meio, em referência aos carnavais de homenagens às figuras negras do Salgueiro, que animou a Avenida. Outro destaque do time da preto e amarela foi o casal Fabrício Pires e Denadir Garcia, que também garantiu boas notas a escola. Pena que elas não foram o suficiente para uma melhor colocação da agremiação, que terminou em um inexplicável 8º lugar, longe do retorno ao Sábado das Campeãs. 


Estação Primeira de Mangueira 2016 
(Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá)

Uma escola com milionárias dívidas, vinda de um 10º lugar no carnaval precedente, um carnavalesco estreante no Grupo Especial após faturar o 7º lugar na Série A. A princípio, esse pode ser um cenário assustador para muitos torcedores, mas foi justamente nesse contexto que a Mangueira fez um dos melhores desfiles da década. O artista Leandro Vieira soube contornar a pressão dos mangueirenses apaixonados e fazer um desfile autoral, com conjunto de fantasias e alegorias lindíssimos como não se via na escola há pelo menos oito anos. O desenrolar inventivo do enredo, percorrendo a religião, a origem e a obra da história de Maria Bethânia, propôs um desenvolvimento que fugiu da obviedade das narrativas biográficas.

A vocação verde e rosa à homenagem: escola e Maria Bethânia estavam sinergicamente conectados. Foto: Gabriel Nascimento/Riotour
Além disso, após uma grande safra de sambas, a escola cantou uma obra marcante que relembrou sucessos da carreira da intérprete, com Ciganerey em uma segura apresentação solo no microfone, após o precoce falecimento do saudoso Luizito no pré-carnaval. A bateria, vestida de Fera Ferida, também conseguiu conquistar o júri e não repetir o decréscimo dos dois anos anteriores. Após perder pontos apenas no quesito comissão de frente, a Mangueira se sagrou campeã do carnaval depois de 14 anos de jejum. Daquele desfile, além da felicidade contagiante de Bethânia, do encanto da santamarense, da força dos seus orixás, e do despontar de Leandro como novo e determinante talento da década, uma figura não sai da cabeça de ninguém. Vestida de iaô, a belíssima porta-bandeira Squel desfilou careeeeca! Deslumbrante, Squel!


Portela 2017 
(Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar) 

Após um ano disputado e de desfiles surpreendentes, o carnaval viveu um de seus momentos mais tristes em 2017. O ano marcado por acidentes e fatalidades, entretanto, também é lembrado pelo esperado fim do jejum portelense de vitórias, após mais de três décadas. Vivendo uma fase de reestruturação, a azul e branco vinha de três ótimas apresentações que garantiram seu retorno ao protagonismo na festa. Nos bastidores dessa mudança, estava a simbólica liderança de Marcos Falcon, que acabou falecendo precocemente naquele pré-carnaval, fazendo Luiz Carlos Magalhães assumir a presidência poucos meses do desfile.

Detalhes de uma das alegorias assinadas por Paulo Barros no desfile da Portela em 2017. Foto: Fernando Maia/Riotour

Além dessa fatalidade nos bastidores, a Portela não saía dos holofotes pela figura de seu carnavalesco. Ninguém menos que Paulo Barros foi para o seu segundo ano na escola. Depois de falar de viagens, uma inspiração na icônica música de Paulinho da Viola em homenagem a azul e branco rendeu um enredo que navegou pelos grandes rios da humanidade. Assim como no ano anterior, o artista soube dosar seu estilo mais inventivo com a pompa portelense - tendo dessa vez o auxílio de Paulo Menezes para esboçar figurinos luxuosos e criativos.

Ala que se repetiu durante o desfile, dando bacana visual do rio que se deixou passar. Foto: Fernando Grilli/Riotour
Em uma disputa acirrada, o samba-enredo eleito foi o da parceria de Samir Trindade, o qual embalou o desfile com a animação e a emoção necessárias ao entrelaçar a narrativa a uma homenagem a grandes baluartes portelenses. Outros trunfos foram a evolução e a harmonia da escola, que se provaram das mais competentes da década. Um senão, porém, foi a comissão de frente, feita às pressas pela dupla de coreógrafos que assumiu a função há poucas semanas do desfile. Jejum quebrado na quarta-feira de cinzas, o ano da Portela não acabou ali: com a divulgação das justificativas das notas, a revelação de uma anotação problemática de um julgador de enredo fez a Mocidade Independente de Padre Miguel abrir um recurso e reivindicar a divisão do título. Dessa forma, o ano terminou com duas campeãs, o que não acontecia desde 1998.


Paraíso do Tuiuti 2018 
(Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?) 

Após fazer um desfile criativo mas marcado por um terrível acidente no ano anterior, quando a Paraíso do Tuiuti virou a curva da Sapucaí em 2018 ninguém imaginava o que estava por vir. Cotada para o rebaixamento diante do então modus-operandi da folia, a agremiação havia feito um pré-carnaval discreto e optado por encomendar seu samba-enredo a grandes compositores como Cláudio Russo, Moacyr Luz e outros nomes consagrados da escola, gerando uma obra que soube traduzir com criatividade e beleza as dores do tema abordado.

Sem duvidas, a comissão de frente do Tuiuti em 2018 é a imagem desse marcante desfile. Foto: Gabriel Nascimento/Riotour
Narrada pelo talentoso Jack Vasconcelos, que vinha se destacando em suas criações, a história da escravidão humana ao longo dos tempos começou já impactando com uma comissão de frente arrebatadora. Coreografado por Patrick Carvalho, o grupo mostrou a transformação de escravizados em Pretos Velhos e arrancou aplausos e lágrimas da plateia. A plástica bem amarrada do desfile entrou em sintonia com a vibração do belo samba e da grande atuação dos intérpretes, acompanhados pela bateria do Mestre Ricardinho. Não bastasse todas essas qualidades, o enredo perpassou a contemporaneidade, abordando o difícil momento político no qual o Brasil se encontrava - e encontra, sob outras figuras. Apontando que a escravidão estava longe de acabar, "manifestoches" e vampirões com faixas presidenciais foram os grandes destaque da alegoria “Neotumbeiro”, que rompeu a bolha do carnaval, conquistando as redes sociais e a imprensa internacional. A grande repercussão do desfile, que ecoou no seu momento histórico e social preciso, ajudou o Paraíso do Tuitui a conquistar um vice-campeonato inédito no maior desfile de sua trajetória. 


Estação Primeira de Mangueira 2019 
(História pra ninar gente grande)

Se o carnaval de 2016 revelou Leandro Vieira como um dos grandes artistas em ascensão e proporcionou uma nova roupagem à Mangueira, os anos seguintes coroaram a relação entre o carnavalesco e a escola. E essas considerações foram arrematadas após o carnaval de 2019. Inspirado em uma história alternativa à oficialidade dos livros didáticos, Leandro apresentou a versão anti-hegemônica do Brasil plural. No enredo, trouxe o olhar da população de diferentes etnias sobre os períodos de nossa história: a invasão que não foi descobrimento, o massacre indígena, a potência dos negros que resistiram à escravidão e formaram o país, a força de quem foi de aço nos anos de chumbo.

A incontestável vitória verde e rosa com um carnaval para a história. Foto: Dhavid Normando/Riotour
Nesse desfile, o carnavalesco reafirmou sua qualidade em criar signos e símbolos de forte apelo. Se não foi o carnaval mais requintado e luxuoso da Mangueira nos anos de Leandro Vieira, a originalidade ao retratar os heróis clássicos e os heróis propostos pela escola nos elementos visuais se harmonizaram com a narrativa adotada pela agremiação e a defesa das pautas ali colocadas. A força estética do desfile passava do Monumento às Bandeiras manchado de sangue, do casal Squel Jorgea e Matheus Olivério em uma brilhante apresentação, até as bandeiras de grandes personalidades brasileiras que encerraram o desfile. Na comissão de frente dos excepcionais Priscilla Mota e Rodrigo Negri, mais uma imagem marcante: os novos protagonistas da história ganharam os lugares dos nanicos nos retratos do tripé - de onde surgia a estudante Cacá Nascimento para erguer a faixa de “PRESENTE”, em referência à Marielle Franco, citada no samba. Este, que estourou a bolha carnavalesca antes mesmo de ganhar a disputa, era o melhor do ano, com letra inspiradíssima e assinado por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Danilo Firmino, Márcio Bola, Silvio Moreira Filho (Mama) e Ronie de Oliveira, além de contar com a autoria de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. A escola fechou a apuração com a nota máxima, em 270 pontos, e a certeza de que o país se orgulhava da história dos índios, negros e pobres.


Grande Rio 2020 
(Tatalondirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias)

Uma década de reencontros e da chegada de uma nova e brilhante geração ao carnaval foram determinantes para construir essa última década. No encerramento da lista, mais uma escola retorna ao seu brilho essencial e esses preceitos se renovam na apresentação da Grande Rio de 2020. Após altos e baixos, vinda de um 9º lugar e de uma virada de mesa, a tricolor resolveu apostar em uma dupla de talentos que havia brilhado na Série A e na Intendente Magalhães: Leonardo Bora e Gabriel Haddad.

De volta às origens, a escola buscou na própria história a retomada de sua identidade. Foto: Fernando Grilli/Riotour 
Responsáveis por desfiles de forte apelo artístico e densidade cultural, os artistas escolheram um enredo poderoso para a estreia e homenagearam o babalorixá Joãosinho da Gomeia, famoso por seu terreiro no município natal da escola. O enredo de forte identificação com sua comunidade teve ainda uma disputada escolha de samba que terminou exaltando a força de duas palavras: Pedra Preta - o caboclo guia espiritual do homenageado, muito bem colocado na letra da parceria vencedora liderada por Derê. Para completar a formação do time da agremiação de Caxias, estavam os veteranos e premiados Beth e Hélio Bejani, na comissão de frente, o intérprete Evandro Malandro, o casal Taciana e Daniel e o mestre Fafá. Após um grande pré-carnaval, a escola viu o título escapar mais uma vez por um problema no abre-alas, quando complicações para colocar seus destaques ocorreram. Empatada com a campeã Viradouro e consagrada vice-campeã, detalhes de evolução não tiraram o brilho criativo do desfile que apostou em adereços artesanais e muitas referências artísticas em uma narrativa muito bem desenvolvida sobre a rica história do homenageado. 

 


Menções honrosas

Haja desfile bom! Para conseguirmos chegar a esses dez, muitos ficaram de fora! Mas não tema: separamos algumas outras grandes apresentações que deixaram seu lugar no coração do sambista e ganham nossa menção honrosa.

Unidos da Tijuca 2012 (O dia em que toda realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão)

Salgueiro 2014 (Gaia, a vida em nossas mãos)

Portela 2014 (Um Rio de mar a mar: do Valongo à glória de São Sebastião)

Beija-Flor 2015 (Um Griô conta a história: uma olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial… Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade)

Salgueiro 2015 (Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí)

Portela 2016 (No voo da Águia, uma viagem sem fim)

Mocidade 2017 (As Mil e Uma Noites de uma Mocidade prá lá de Marrakesh)

Mangueira 2017 (Só com a ajuda do Santo)

Viradouro 2019 (VIRAVIRADOURO)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos seus desfiles marcantes do Grupo Especial?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidade… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
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Por Leonardo Antan e Felipe Tinoco:

Entre os dia 31 de março e 1º de abril, dia da mentira, “comemora-se” o aniversário do golpe que iniciou o período da Ditadura Civil-Militar do Brasil, iniciada em 1964. Por isso, preparamos um texto especial sobre a relação das escolas de samba com o regime militar! Para lembrar: #DitaduraNuncaMais

Já em 1967, 3 anos após o golpe, o Salgueiro seguia as tendências revolucionárias das mentes de Arlindo Rodrigues e Pamplona. O enredo "A história da liberdade no Brasil" falou das muitas revoltas populares que aconteceram no país. Os ensaios no Clube Maxwell foram visitados pelo DOPS.


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Em 1969, alguns meses depois da decretação do AI-5, o Império Serrano desfilou com “Heróis da Liberdade”, em defesa da democracia. A letra sofreu censura: “é a revolução em sua legítima razão” virou “é a evolução em sua legítima razão”. Salve a Serrinha!

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Em 1972, a Vila Isabel também cantou de forma valente o belo samba de Martinho em “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”. Passando pela luta indígena e por movimentos abolicionistas, o desfile formou a roda para contar a história da liberdade - algo tão em falta durante a ditadura.

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Entretanto, na década de 70, apesar do clima de luta conta o regime civil-militar, agremiações tentaram surfar a favor do governo ditatorial. Alguns sambas e enredos tinham óbvias alusões ao clima ufanista. À época, a Beija-Flor foi quem que mais ficou marcada por isso.

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A escola de Nilópolis fez uma trilogia de temas ufanistas: Em 73, “Educação para o desenvolvimento”. Em 1974, “Brasil ano 2000”, retratando a imagem do Brasil no futuro graças ao “milagre brasileiro”. E “O grande decênio”, de 1975, comemorando dez anos do golpe.

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Em 1975, o Salgueiro partiu em uma turnê pela Europa. O que ninguém sabia é que os componentes foram acompanhados secretamente pela censura federal, que acusava a agremiação de estar sob influência comunista. Saiba mais na reportagem de João Gustavo Melo: 
http://abre.ai/salgueiro1975

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Em 1980, na Mocidade, Fernando Pinto reinterpretou a história brasileira sob o olhar tropicalista. O setor final trazia a discussão da anistia que agitava o país. O grito de alerta surgiu em alegoria, com o congresso composto por onças ferozes, feijões e “oncetes” dos partidos.

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No mesmo ano, a Vila Isabel trouxe uma obra icônica contra a censura assinada por Martinho. O samba-enredo “Sonho de um sonho”, inspirado em versos de Carlos Drummond de Andrade, trouxe críticas ao regime e clamava pela liberdade, ousando com o verso “a prisão sem tortura”.

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Já em 1981, assinada por Renato Lage, a Tijuca homenageou o livro “Manuscrito Holandês”, de Manoel Cavalcanti Proença. A história da luta do herói caboclo Mitavaí contra o terrível Macobeba se tornou metáfora para falar da repressão política, do povo oprimido e de sua luta.

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A Tijuca foi acompanhada pelo governo nesse carnaval. Segundo o relatório da censura: “Foi constatada a atuação de comunistas com o propósito de que o enredo veiculasse uma mensagem política”.  A história completa está na reportagem de João Gustavo Melo: 

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Por sua vez, Luiz Fernando Reis foi um dos principais carnavalescos a trazer pautas políticas e sociais para seus enredos. Em 1984, a Caprichosos trouxe um grito pelo voto direto em uma alegoria com caricaturas de políticos da época, como Paulo Maluf, Ulysses e Tancredo Neves.

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Em 1985, em período próximo ao fim da ditadura, a provocativa Caprichosos de Pilares, sob a batuta de Luiz Fernando, levou à Sapucaí “E por falar em saudade...”. No samba: “diretamente, o povo escolhia o presidente”, evocando novamente as eleições diretas e a importância do voto!

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Em 1986, primeiro carnaval após o fim oficial do regime, a Serrinha traduziu todo o sentimento de esperança da redemocratização com o "Eu quero", de Renato Lage e Lilian Rabello. A simbólica letra de Aluísio Machado criticava os “20 anos que alguém comeu".

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Em 1990, a Santa Cruz rememorou os tempos de regime por meio de "Os Heróis da Resistência" em um de seus sambas mais conhecidos. A escola exaltava o periódico O Pasquim, jornal alternativo que fazia oposição ao duro regime, famoso por suas entrevistas com artistas e intelectuais.

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Outro desfile que lembrou um dos heróis contra a ditadura aconteceu em 96, quando o Império Serrano homenageou o sociólogo Herbert de Souza, saudoso Betinho. O tema destacou a sua firme luta pela liberdade e pelos direitos durante a ditadura - além da sua campanha contra a fome.

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Em 2010, ao contar a história da música brasileira, a Mangueira não esqueceu as páginas duras da censura contra as artes. A quarta alegoria lembrou CenSolange, uma das funcionárias mais célebres da ditadura. A bateria também fez uma performance sobre a repressão.

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Em 2016, ao trazer as manchas do Brasil no seu complexo enredo, a Mocidade não esqueceu de dedicar um setor aos anos de chumbo e suas mazelas por meio das belas canções de protesto de Chico Buarque, Geraldo Vandré e Caetano Veloso.

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Uma curiosidade entre a relação das escolas e da censura era a necessidade de aprovar os croquis de fantasias e alegorias dos carnavalescos entregues ao regime federal. Os desenhos ganhavam um carimbo de APROVADO pelos censores. A prática seguiu até a 2ª metade da década de 80.




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Encerrando a thread, em 2019, logo após um ano em que a nossa democracia foi colocada em cheque por forças reacionárias, a Mangueira exalta “quem foi de aço nos anos de chumbo” e lembra o que a ditadura foi: assassina. Na imagem, a grande Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel:

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Por Bernardo Pilotto:


“No livro da nossa história tem conquistas a valer

Juro que nem posso me lembrar

Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”

(“Passado de Glória” - Monarco)


Hoje é um dia especial para todas e todos que gostam de carnaval e de todo o complexo cultural que o envolve: foi nesta data que, em 1923, a Portela foi fundada. Maior campeã do carnaval, com 22 títulos, a Majestade do Samba chega aos 97 anos, continuando a ser uma escola de vanguarda. E essa é uma característica marcante da escola desde a sua fundação.


Originada como um bloco carnavalesco, o Conjunto Osvaldo Cruz, a agremiação ainda mudou de nome por duas vezes antes de ganhar o título de Portela, uma referência à estrada onde estava localizada. Depois de um curto período se chamando Quem Nos Faz É o Capricho, os sambistas adotaram Vai Como Pode como denominação. Mas, ao buscar seu registro oficial, tiveram que abandonar a expressão, visto que o delegado Dulcídio Gonçalves, responsável pela Delegacia de Costumes, considerou o nome inadequado. Ao perguntar de onde eram os sambistas, o delegado sugeriu então que a escola se chamasse Portela.


Sob a liderança de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela, a agremiação teve papel de destaque na consolidação das escolas de samba e dos desfiles ainda nos anos 1930. Com grande poder de articulação, Paulo se tornou uma figura fundamental na negociação com os poderes instituídos, no diálogo com a imprensa e demais esferas com as quais as escolas precisavam conversar.


Paulo da Portela, um dos nomes mais importantes da história do samba e do carnaval. Foto: reprodução Acervo Portelense


Muito do carnaval que conhecemos hoje podemos colocar na conta dos portelenses. Foi, por exemplo, lá que surgiu o primeiro carro alegórico, em 1935, e também aquele que é reconhecido como o primeiro samba-enredo (Teste Ao Samba), em 1939. Até então, as escolas escolhiam um tema para o desfile e cantavam sambas que não necessariamente correspondiam ao tema. Parte deles era, inclusive, feita de versos de improviso. Mas, em 1939, os portelenses resolveram trajar os desfilantes com referências à educação e com isso tivemos de forma inédita um desfile com samba-enredo, fantasias e demais alegorias abordando o mesmo tema.


Com essa junção entre pioneirismo, grande capacidade de articulação e ainda um grupo de notáveis compositores, não é de se estranhar que a azul e branco tenha logo conquistado muitos títulos. No intervalo entre 1935 e 1960, a escola ganhou o carnaval por 15 vezes, incluindo aí um heptacampeonato nos anos 1940.


Nos anos e décadas seguintes, a Portela viu sua concorrência aumentar, com a entrada em cena na disputa por títulos do Salgueiro e posteriormente de Beija-Flor, Imperatriz e Mocidade Independente. Se nesses primeiros 25 anos a escola conseguiu 15 títulos, posteriormente foram “apenas” 7 títulos, com direito a grandes períodos de jejum.


A discussão sobre os rumos que a escola deveria seguir, muitas vezes feito num ambiente não exatamente democrático, foi responsável por algumas crises, como a que culminou na saída do grupo de Candeia em 1975 e outra que gerou a criação da Tradição em 1984.


Mesmo com momentos longe de seus melhores dias, a escola se manteve de pé. Além de seus sambas, criou identidade e referência pela presença da águia nos seus desfiles (desde 1968, a alegoria está presente), por grandes baluartes do carnaval (como Dona Dodô, Manuel Bam Bam Bam e Lucinha Nobre) e por sua velha guarda musical, tão caracterizada pela presença das pastoras (como Tia Surica e Tia Eunice). E, atualmente, podemos dizer que a Portela é vanguarda no processo de resgate do papel das escolas de samba como agremiações comunitárias.

A águia da Portela chegando à Apoteose no campeonato de 2017, após um longo jejum vivido pela agremiação. Foto: Gabriel Monteiro / Riotur


Hoje a Portela é uma escola que desfile porque existe e não o contrário. Em sua quadra acontecem eventos o ano todo, como a Feijoada da Família Portelense e o concurso de samba de terreiro, assim como cursinho pré-vestibular comunitário, aulas de idiomas, feiras literárias etc.


A escola também vem tendo papel fundamental na retomada do gênero samba-enredo. Em 2012, o enredo “...E o povo na rua cantando... É feito uma reza, um ritual…” foi acompanhado de um samba símbolo dessa retomada, pois trazia uma melodia mais cadenciada. E é muito simbólico que isso aconteça na agremiação que mais deixou sambas e sambistas como herança.


Sim, antes que esqueçamos, é importante lembrar que nem só dos 4 dias de carnaval e de seu desfile viveu a Portela ao longo desses 97 anos. É de lá que surgiram para o Brasil grandes nomes da nossa música. E, tantos outros, que de lá não surgiram, mas lá foram abrigados. Estamos falando de Heitor dos Prazeres, Alcides Malandro Histórico, Tia Surica, Antônio Caetano, Paulinho da Viola, Antônio Rufino, Monarco, João Nogueira, Teresa Cristina, Clara Nunes, Jair do Cavaquinho, Argemiro, Chico Santana, Zé Keti, Candeia, Waldir 59 e tantos outros. Como disse um deles, se hoje formos falar da Portela...
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Por Bernardo Pilotto:


Escola fundada em 05 de abril, o Paraíso do Tuiuti completa hoje 68 anos. Com origem no Morro do Tuiuti, no bairro São Cristóvão, a escola era, até 2018, desconhecida do grande público. O desfile do Tuiuti daquele ano fez com que a escola ficasse mundialmente conhecida. Até chegar ali, porém, ela já tinha muita história.


Existem registros de que o Morro do Tuiuti abrigava sambistas desde os anos 1930. No clássico livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sergio Cabral, há uma passagem que traz um recorte do jornal O Globo, de 1933, no qual um compositor do morro é entrevistado sobre a confecção de uma cuíca, instrumento até então desconhecido do grande público. Nessa época também foi criada no morro a Unidos do Tuiuti, que chegou a conquistar um terceiro lugar no desfile de 1939. Em 1940, a Paraíso das Baianas também surgiu no morro.


Retrato do momento de fé, prévio ao desfile, de dois componentesda  histórica comissão de frente do Tuiuti no desfile de 2018. Foto: Erica Modesto.


A decadência dessas duas escolas não acabou com o samba no morro. Ao contrário, fez com que os sambistas se reorganizassem, se unissem e criassem o Paraíso do Tuiuti. Ao ser fundada em 1952, portanto, a escola trouxe consigo alguns anos de desfiles e de organização comunitária.

O primeiro desfile da nova escola foi em 1955, com o enredo "Apoteose a Edgar Roquete Pinto". Com a divisão das escolas em mais de um grupo, a agremiação amarela e azul ficou nas divisões inferiores e assim foi indo durante os anos, alternando desfiles pelo segundo, terceiro e até quarto grupo.

A proximidade do Morro do Tuiuti com o Morro da Mangueira trouxe sempre um grande intercâmbio entre o Paraíso do Tuiuti e a Estação Primeira. Foi assim, por exemplo, com o carnavalesco Júlio de Mattos, que começou na escola do Morro do Tuiuti e depois esteve à frente de vários carnavais mangueirenses, conquistando cinco títulos pela verde e rosa. 


No começo dos anos 1980, a escola também teve grande destaque nos grupos de acesso, quando contou com a carnavalesca Maria Augusta, que havia feito inesquecíveis carnavais na União da Ilha alguns anos antes. 


“Tu és meu sonho, Tuiuti

Tens um destino a cumprir

É brilhar no carnaval

No desfile principal

Todo povo a te aplaudir”
(“Um Mouro no Quilombo” - César Som Livre / Kleber Rodrigues / David Lima / Cláudio Martins)

Depois de muitos anos desfilando nos grupos inferiores, o Paraíso do Tuiuti conquistou o título do Grupo de Acesso no ano 2000, chegando pela primeira vez ao Grupo Especial. Mas, no desfile de 2001, a escola não conseguiu se consolidar entre as maiores do carnaval e foi rebaixada. Foram mais uns anos nos grupos de acesso até que finalmente o prognóstico do samba-enredo do carnaval de 2001 começou a virar realidade.
Em 2014 chegou na escola o carnavalesco Jack Vasconcelos para fazer o carnaval do ano seguinte – e dos outros cinco anos seguintes. Ele propôs enredos com fortes cunhos cultural e histórico e esse caminho deu certo: a escola ficou em 5º lugar em 2015 e em 2016 ganhou o Grupo de Acesso, conquistando o direito de voltar ao Grupo Especial.
No primeiro ano na volta ao Grupo Especial, a escola não deu sorte e acabou ficando na última colocação. Mas, devido a acidentes ocorridos no desfile da própria escola e no desfile da Unidos da Tijuca, nenhuma agremiação acabou rebaixada.

E o Paraíso do Tuiuti não desperdiçou a nova chance. Com "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?" (uma referência ao samba “Sublime Pergaminho”, da Unidos de Lucas, de 1968), a escola apresentou um desfile comovente, com uma plástica extremamente visual, e politicamente crítico e engajado. Embalados pelo ótimo samba-enredo do Moacyr Luz, Claudio Russo e demais parceiros e uma comissão de frente emocionante, o Paraíso do Tuiuti ganhou o público na Sapucaí e na TV e saiu do desfile de domingo como uma das favoritas para ganhar o carnaval.

Vampirão.jpg
O destaque vestido de vampiro no último carro do desfile do Paraíso do Tuiuti em 2018. Foto: Marcos Serra Lima | G1.


Foi um arrebatamento coletivo. Sob um cenário de retirada de direitos trabalhistas e golpe parlamentar, esse desfile apareceu como um grito contundente, para o mundo, da situação que o Brasil estava passando (e ainda passa).


De domingo até a abertura das notas na quarta-feira, a única dúvida era se o peso da bandeira ia contar na avaliação dos jurados. E o resultado também surpreendeu por isso: o Paraíso do Tuiuti foi acumulando notas 10 e chegou ao vice-campeonato, o maior resultado de sua história.


A mudança de patamar da escola trouxe novas responsabilidades e expectativas. Em 2019 e 2020, a escola voltou a apresentar bons desfiles, mantendo semelhante linha temática, ainda que sem a mesma aclamação de 2018. Para 2021, a escola resolveu inovar e vai contar com a presença do carnavalesco Paulo Barros.

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Por Bernardo Pilotto:


Em 04 de abril de 1946, há 74 anos atrás, foi fundada uma das mais simpáticas e queridas escolas de samba do Brasil: a G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel. A branca e azul nasceu a partir da articulação de Seu China, que havia se mudado há pouco tempo do Morro do Salgueiro para o Morro dos Macacos e achava que o bairro merecia uma escola de samba para representá-lo.


“Afinal, eu sou filho dessa terra das calçadas musicais


Me inspirei na boemia pra buscar meus ideais


Bate forte no meu peito minha Vila Isabel


O meu samba é de respeito, sou do bairro de Noel”



(“Filho da Vila” - Dinny da Vila / Gilson Bernini)


E Seu China tinha razão: a Vila Isabel já era, naquela época, um bairro com grande tradição carnavalesca e musical. Por suas ruas desfilavam blocos (como o Acadêmicos da Vila), aconteciam batalhas de confete e outras manifestações típicas das festas de Momo. Fundar uma escola de samba parecia um caminho natural, só faltando alguém que liderasse o movimento. E foi esse o papel desempenhado por Seu China e outros sambistas, como José Ferreira Leite, Paulo Brazão, Dulcineia Gomes de Aquino e Tuninho Carpinteiro.


Martinho da Vila extasiado com a apresentação de sua escola Foto: Gabriel de Paiva / O Globo
Martinho da Vila na Apoteose, após o ótimo desfile de 2012 da Unidos de Vila Isabel em homenagem ao país de Angola.


O bairro de Vila Isabel, no começo do século XX, era um território com muitas fábricas e pequenas vilas de casas onde moravam os operários que lá trabalhavam. Faziam também parte do bairro o Morro dos Macacos e o Morro do Pau-Bandeira. Surgido a partir da iniciativa do Barão de Drummond, de 1872, o bairro contava com uma estrutura urbana moderna para os padrões da época, com avenidas grandes e bondes de tração animal.


A tradição musical do bairro também era conhecida por conta da presença de uma das grandes figuras da música brasileira: Noel Rosa. Um dos responsáveis pela consolidação do samba como gênero musical que conhecemos hoje, Noel, nascido em uma família de classe média, circulava bastante entre os morros do Rio de Janeiro, sendo frequente sua presença no Morro da Mangueira e no Morro de S. Carlos (no bairro do Estácio). Sua obra e sua presença contribuíram para esse caldo de cultura que possibilitou a fundação da escola de samba. Mesmo nunca tendo sido parte da escola (o poeta da Vila morreu cerca de 10 anos antes de sua fundação), Noel continua sendo até hoje uma referência para a agremiação.


“Foi num quatro de abril


Três dias depois da mentira


Que o poeta descobriu


Seu amor e sua lira


Com alguém se reuniu


Com ação de quem conspira


Mas fundou com devoção


A escola de samba da Vila”


(“Quatro de Abril” - Nelson Afonso Nogueira Junior / Wilson Caetano)


Nos seus primeiros anos, a escola ficou em colocações intermediárias, chegando a desfilar no terceiro grupo. Em 1965, a agremiação conquistou o acesso e voltou para a elite do carnaval. Mas outro fato foi mais importante para a Vila Isabel naquele ano: a chegada de Martinho José Ferreira aos quadros da escola.


Oriundo da Aprendizes da Boca do Mato, Martinho da Vila foi responsável por diversas mudanças que aconteceram na Vila Isabel e no carnaval de forma geral. Ele, por exemplo, mudou a forma de compor do samba-enredo à época, inspirando-se na forma com que já compunha seus outros sambas, propiciando versos mais leves e suaves. Logo em seu início na nova escola, Martinho emplacou 4 sambas-enredos, de 1967 a 1970.


Mais do que um compositor, Martinho passou a ser uma grande liderança da escola, com papel decisivo na definição de vários enredos, incluindo o que levou a escola a seu primeiro título, em 1988. Com seu sucesso enquanto compositor e cantor de sambas, levou o nome da escola e do bairro para o Brasil e ao mundo.


Além desses primeiros 4 sambas-enredo para a escola, a Unidos de Vila Isabel desfilou com sambas de Martinho em mais 7 ocasiões, sendo a última em 2016. De certa forma, a história de Martinho e da escola passaram a se confundir.


“Vamos renascer das cinzas


Plantar de novo o arvoredo


Bom calor nas mãos unidas


Na cabeça de um grande enredo”



(Renascer das Cinzas - Martinho da Vila)


A chegada de Martinho mudou a prateleira da Vila Isabel, fazendo com que a escola passasse a ser mais respeitada e fosse reconhecida como uma das grandes escolas de samba cariocas. Mesmo assim, ela ainda não disputava as primeiras posições do carnaval e, em 1978, chegou a ser rebaixada.


Com a volta ao grupo principal em 1980, a Vila conquistou o vice-campeonato, sua melhor posição até então. A escola seguia angariando simpatia pelos seus enredos e pela qualidade dos seus sambas. Mas faltava chegar ao topo do carnaval. 

Desfile da Unidos de Vila Isabel em 1988 (Foto: Agência O Globo)
Abertura do apoteótico desfile da Unidos de Vila Isabel de 1988. Foto: Agência O Globo.


Foi aí que veio o carnaval de 1988, um dos desfiles mais emblemáticos do carnaval carioca de todos os tempos. Com o enredo “Kizomba, A Festa da Raça”, no ano do centenário da abolição, a agremiação ganhou seu primeiro título, quando já tinha quase 42 anos de estrada. Um título que é emblemático não só pelo seu desfile ou pela disputa palmo a palmo com a Mangueira (que quase foi tricampeã também com um enredo sobre os 100 anos da abolição), mas todo o processo que envolveu a preparação do carnaval, em um momento no qual a Vila se encontrava diante de uma grave crise financeira, não tendo nem quadra para organizar seus ensaios.


Após esse ápice, a escola se consolidou entre as grandes. Ao longo da década seguinte, apresentou grandes carnavais, como a sua homenagem ao seu bairro em 1994. No começo dos anos 2000, voltou a desfilar no Grupo de Acesso. Sua volta ao Grupo Especial em 2005 veio também com um novo gás na escola, que conquistou mais dois títulos, em 2006 e 2013, além de disputar o título em outras ocasiões.


Nesses anos todos, a Vila se firmou como uma das principais forças do carnaval carioca, solidificando uma grande torcida, que envolve todo o bairro onde está localizada, aglutinando tanto moradores dos morros e também do asfalto. Certamente é uma das agremiações em que essa relação entre seu território e a escola mais se confunde, de forma umbilical.


Para 2021, a escola já anunciou que Martinho da Vila será seu enredo, o que traz grande esperança de que veremos, mais uma vez, a escola com um grande desfile e um grande samba.
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