• Home
  • Quem somos?
  • Contato
  • Lojinha
  • Exposições
  • Selo Literário
  • Apoiadores
Tecnologia do Blogger.
facebook twitter instagram

Carnavalize

 


A poesia que habita a Mangueira foi inventada por um pedreiro de pele preta batizado ANGENOR. Por usar um chapéu maltrapilho, por ironia, os amigos apelidaram Angenor com o título que ainda o acompanha na eternidade: CARTOLA. O príncipe do princípio. O poeta que escolheu as cores da Mangueira. O que cantou as alegrias e as dores do morro. Aquele que ergueu – como quem bate laje, mistura o cimento ou empilha tijolos – duradouro e permanente estado de poesia.

Se a Mangueira chora, ela é uma canção do Cartola que lamenta o peito vazio, o amor que finda e a sentença que o mundo é tal qual um moinho. Se a Mangueira se enche de esperança, ela é um samba do Cartola a anunciar que um dia melhor está por vir. Um convite para correr e ver o céu e o sol de uma nova manhã. Alvorada colorida de beleza. Sem choro, tristeza e dissabor. A lembrança diária de que, ao findar a tempestade, o Sol Nascerá.

Quem lá habita descende desse amálgama de poesia enraizada feito uma roseira. Sim, há roseiras nas favelas. Há jardins e há rosas. Rosas que insistem em nascer. Rosas que brotam dos escombros. Jardim solitário onde, dizem os antigos, ainda está viva a rosa que Cartola cantou, sentenciando quase como queixa que, insistindo em não falar, exala apenas – e ainda hoje – o perfume de sua última enamorada.

Se a poesia de quem guardava e lavava carros ocupa o riso e o pranto de quem mora lá, a voz de outro preto – este, batizado JOSÉ – reside na localidade, habitando-a sem pedir licença. Afirmo, sem medo de errar, que essa voz que paira no ar habita tanto o silêncio das manhãs quanto o burburinho das travessuras dos moleques que brincam quando a tarde cai. Essa voz é a voz de José Bispo Clementino dos Santos. Para a Primeira Estação, o JAMELÃO.

Voz potente como convém aos reis. Reis pretos. Reis, com voz de trovão. Voz de criança que foi engraxate e gritou alto para vender jornais. Voz retinta. De bamba curtido no sereno das batucadas. Voz de pele azeviche. Voz que guarda o visgo saboroso de um jamelão colhido fresco.

Não há como remediar: todo mangueirense que nasce, cresce, sobe e desce aquele morro é acompanhado por essa voz. Essa voz é a voz da própria Mangueira. Ela é uma voz que paira no ar. No claro da manhã e no breu da noite. Uma voz à espreita. Voz quase reza. Voz que ralha e benze os seus.

Não à toa, quando a Mangueira chora, ela é a voz do Jamelão num samba “dor de cotovelo” com letra de Ary e Lupicínio. Triste, ela é o Jamelão em “Folha Morta”. Jamelão em “Ela disse-me assim”. Quando a Mangueira é faceira, ela é a voz do Jamelão em ritmo de gafieira. Solo de piston. Batuta de Severino Araújo. Jamelão, cabaré e Orquestra Tabajara. Quando se enfeita para descer o morro, ser mais bonita e reinar majestosa enquanto desfila, ela é a voz do Jamelão para um samba do Nelson Sargento, Pelado, Jurandir, Darcy e Hélio Turco.

Sinto saudade da POESIA e da VOZ que habita minha escola como todos os que agora estão distantes do convívio com ela. Fechando os olhos para imaginar revê-la, querendo-a pertinho de mim, ouço a voz do JAMELÃO e a poesia do CARTOLA romperem o silêncio que já se estende em demasia. Agora, gostaria de vê-la dançando diante de mim. Reis e rainhas que dançam. Corpos pretos que dançam. Gente que flutua ao dançar. Gente que parece exibir-se para testemunhar que são a descendência e a extensão de uma realeza.

Imaginando-a dançando e coroada, impossível não crer que todo corpo que habita a Mangueira não herda a dinastia de seu mais famoso bailarino. Bailarino preto. Príncipe da Ralé. Um Obá da favela bordado de paetês. O herdeiro da coroa de Marcelino. Mestre dos que querem ser mestre. O samba que risca o chão. Aquele que, já estando velho, dançava como o menino que atendia pelo nome de LAURINDO.

Impossível não crer que toda uma legião que defende a bandeira que ostenta o verde e o rosa da Primeira Estação não guarda a gana e a sede com a qual o mestre-sala DELEGADO defendeu o pavilhão que cortejou por décadas. Décadas de excelência e notas máximas. Difícil não crer que ele não esteja ao menos em uma gota de sangue de toda criança, menino ou menina, que nasceu ou nascerá naquele morro.

Engana-se quem pensa que os habitantes do Morro de Mangueira morrem sem ter o que deixar como herança, assim como estão enganados aqueles que pensam que, os que lá nascem, estão desprovidos de bens. Quando fizeram a partilha da herança deixada por ANGENOR, JOSÉ & LAURINDO, saibam todos que nenhum morador daquele morro ficou de fora. Eles herdaram um bem preciso e precioso. Lá, nascem ricos daquilo que o dinheiro não compra, e nós, quando privados da arte que brota a granel nos corpos da favela, ficamos mais pobres.

Leandro Vieira
Rio de Janeiro, dezembro de 2020.


Share
Tweet
Pin
Share
No Comments

 



Oxóssi, batida de uma flecha só…

Do Orum, Olorum escreveu nas estrelas os segredos do que é essencial. E foi Orunmilá quem os entregou à ventura dos Orixás. Um deles, gravado no arco esticado. No voo da flecha em silêncio. No ofá que aponta o sentido da vida. Para um dia fazer ecoar uma batida única. Na caixa. De guerra. De festa. E se tornar canto ao pé da jurema. Perfume de alecrim. Frescor da alfazema. Confiança no impossível. Afinação pelo inverso nos versos próprios à mata. Cavaleiro regente dos caprichos da pureza. Cadência e equilíbrio de fauna e flora. Batuta que ouriça ou faz calar o naturalmente belo. Trono e tronco da pulsação no interior de tudo. Rito, grito, apito. De mestre. O passo a passo no ritmo preciso. O disparo sem vacilo. Axoxô com milho, amendoim, coco fatiado e melaço na gamela. Oferenda, toque, licença. Pujança preta iorubana. África, axé e agueré. Olu wó kí rí bode. 

Diz um Itan que houve festejo em Ifé. Colheita do Inhame. Olofin-Odudua, o rei, foi surpreendido. Do seu altar, viu um dos pássaros de Eleyes pousar sobre o palácio. Desafiadora obra das feiticeiras Iyami Oxorongá. Sombra, peste, cólera se sucederam. O Obá tratou de convocar os Odés para a ofensiva. Guerreiros e suas flechas. Foram cinquenta de Oxotadotá. Todas sem direção. Depois, as quarenta de Oxotogi. Nenhum acerto. Por fim, Oxotogum e vinte tentativas. Mas as asas da praga seguiram abertas. 

Eis que o Ifá sinalizou o real caminho: uma lança apenas. E foi Oxotocanxoxô a desferi-la. Instinto de Orixá protetor que atingiu o peito do animal em cheio. Batismo determinante. Fim do mal. Aquele foi o Oxô aclamado: Oxóssi, o Odé, o caçador de uma flecha só. Ofà ofà bèru já. Alegoria fundamental.

Oxóssi, batida de mitos…

O oráculo o fez fruto do simbólico. Em algumas lendas, nascido da própria feiticeira Iyami Apaoká. Jaqueira sagrada. Noutras, filho de Iemanjá e Oxalá. Irmão de Exu, que abriu sua trajetória. E de Ogum, com sua espada de ferro. De afeto. A ensinar sobre a caça. Odé logo aprendeu. Foi ao ataque, para desagrado da mãe. Enfeitiçado por Ossain, encontrou nova moradia na floresta. Abô, banho em deslumbramento. Fez-se provedor dos alimentos. E mò re lè ko lè. Ossain, soberania das ervas e folhas.
Oxóssi-Odé, a mira que não descansa. Passaram a viver juntos. Mas Ogum não se conformava. Trouxe o flecheiro de volta para Iemanjá. Ela o recusou.

Sem conseguir o perdão materno, Oxóssi partiu. Destino traçado. Na arma em desenho de Lua Nova empunhada. Mato adentro, atende por Erinlé. Ou Odé Inlé. Grande caçador de elefantes. Que se apaixonou por Oxum banhada de ouro e mel. Erinlé é, ainda, um rio. Correnteza que beija as águas de Oxum. Amor e rivalidade. Desejo e conflito. Do encontro apaixonado e caudaloso, nasceu Logum Edé. Filho metade matagal, metade cachoeira. Homem e mulher. Guerra e espelho. Saiu aos seus. 

Oxóssi. Odé. Também chamado Ibualama. Água profunda. Sabedor dos caprichos do submerso. Senhor da prosperidade na ciranda dos Orixás. Aquele que salta a fronteira do impossível: não crê no frio da morte. Dribla Ikú com valentia em suas andanças. Vitorioso na peleja contra o juízo final até mesmo no proibido. Ao flechar a serpente Oxumarê sem permissão superior, foi atingido por feitiço. Mas escapou da passagem. Como sempre. Concessão de Orunmilá.

Oxóssi, batida de luta…

Seguiu adiante. Certeza no improvável. Alvo. Ação. Abate. Longe de titubeios até mesmo quando o trono foi seu. Sim, Odé é rei africano. Rei do Kêtu. O Alakétu. De alteza concedida por Oxum para salvá-lo de outros caçadores. Coroa legitimada pela supremacia do Orum. Mito adorado pelo povo. Oluaiyè a aréré. Kêtu, região de tradição Iorubá sob a árvore sagrada. Kêtu, entreposto de riqueza e comércio. Kêtu, menina dos olhos da cobiça. De Oyó. De Daomé. Da Europa imperialista. Não tardou para o tempo virar sobre o planalto de solo avermelhado. Batalha. O Kêtu sucumbiu ante as tropas daomeanas invasoras. Portal de entrada conquistado. Saga em desalinho.

O culto a Oxóssi foi atingido pela queda do reino. Em fugas. Em massa. Em mortes. Mas o ícone também se espalhou. Memória oral como frasco aberto. Essência do Candomblé solta no ar. Em velas ao mar que transformaram a experiência de mulheres e homens.

Sobrevivente no tumbeiro. Irukerê que afasta os maus espíritos. Eco ancestral sem amarras. Desembarque. No Brasil, em Cuba, na mistura efervescente das Américas. Lamento escravo na senzala. Veias abertas.

Oxóssi, batida de sincretismo…

Com os pés aqui, assentou-se no alastramento. Raiz nova em solo que tudo dá. Dono da terra desbravador. Operador da dimensão do encanto. Nagô. Angola também. Cabila. Mutalambô provisor. Arqueiro divino de Zambi. Criador das estrelas. “Que iluminam Oxóssi lá no Juremá”. Preto. Das giras. Mandinga. Macumba. Umbanda. Nação de nações apinhadas. Dorso de aço. Pé de vento. Divindade que dança. Índio. Linhas de caboclo. “De Aruanda”. Pena branca. Jupiassu. Sete flechas. Boiadeiro. Ventania. Dona Jupiara. Sete Encruzilhadas. Das tabas todas consagradas na sua energia.

Orunmilá gravou em Odé a percussão que alforria corpos e almas do Gigante. Ponto riscado. Traje em verde ou azul. Legião de filhos de cabeça feita. Quinta-feira de Ossé. Sincretismo. Salve Jorge na Bahia. O Amado e o Guerreiro. Guardião das noites enluaradas. Casa Branca. Gantois. Ilê Axé Opô Afonjá. A força de Mãe Stella. São Sebastião do Rio de Janeiro. Padroeiro cristão flechado. Falange Tupinambá derrotada. Santo e Orixá. Fusão em dorso nu. Antropofagia simbólica de algozes à beira do cais. Sagrado e profano. Folia.

Oxóssi, batida de festa…

Tribo de quintal sob melodiosa tamarineira. Cacique. De Ramos. Da Uranos. Dos que não cancelam os frutos do tambor. Ubirajara, Ubiracy, Ubirany. Aymoré. No ramal Deodoro, salta em Oswaldo Cruz ou Madureira. Águia e jaqueira sagradas. Apaoká do samba. Tabajara. Paraíso no alto do morro. Arroz-com-couve irmanado ao Boi Vermelho. Como Odé e Ossain em harmonia nos mistérios da mata. Zona Oeste por cartão de identidade.

Agueré depois do apito final na pelada de várzea. Rum, Rumpi, Lé. Ogãs a repercutir a gramática do atabaque. Xirê em torno da sábia Chica. Tia. Mãe. Ifá. De grêmio boleiro a grêmio de terreiro no bairro com nome de padre. Mesa posta por Maria do Siri, receita dos Trindades, toque final de Oliveiras. Pipa solta que vira estrela de cinco pontas. Herança dos enigmas que Olorum salpicou no céu. Vivinho. André. Macumba. A primeira, a segunda, a terceira.

Lavadeira, Galo Velho, Miquimba. Instrumentos calados. Mergulho no abismo. Paradinha. Para o renascer cadenciado no tempo certo. Cuidado feminino no chocalho de platinela, ronco da cuíca de Quirino, mão preta que vibra o couro em sintonia com o peito. A caixa. A síncope. A raiz. Flecha certeira que conduz de volta ao começo e gira a roda da existência. Pioneira. Guilherme, Coronel Tamarindo, Vintém. Avenida. Brasil, do carnaval, do sonho. Ponto Chic. Faro em movimento. Trem partindo da estação. Caçada batuqueira que desce até o Centro. Para a glória e vitória do axé. “Tupi, cacique, poder geral”. Bira, Jorjão, Coé. Dudu.

Tesouro, aglomeração e abraço sem medo de toda uma gente.

Odé é coisa nossa. Não existe mais quente.

Oxóssi é a bateria da Mocidade Independente.

Okè arò, okè.

Enredo dedicado aos ritmistas de ontem, de hoje e de sempre que compõem a alma de nossa escola…


Carnavalesco e criação: Fábio Ricardo
Sinopse e ideia original: Fábio Fabato
Pesquisa e defesa de enredo: André Luis Junior


Share
Tweet
Pin
Share
No Comments


IGI OS̩È BAOBÁ

Pilar que une o céu e a terra!
Elo entre vivos e mortos.
Deus vivo e presente, és tu ó Baobá,
árvore sagrada testemunha do tempo.

O guerreiro de Oyó contempla Igi Oṣé.
Ele sente a energia. Evoca proteção com afeto e respeito.
O tronco é seu templo, e ali expressa sua religiosidade.

Saluba Nanã! Mãe de todos nós.
Tuas águas abundantes repousam no tronco do Baobá, nutrindo a terra.
Por ti os galhos se vestem de ojás lilás.

Orixás e vegetal estão unidos na energia sagrada…
Salve o Rei Dono da Terra! Omulu, curai-nos de todos os males que assolam nosso Aiyê!

Árvore da vida, ó Baobá.
Tu emanas a energia primeva que no solo africano faz eclodir a natureza. É ela que sopra o
vento da savana, e faz teus galhos balançarem.
A fauna passeia livremente ao seu redor, e tudo se doura sob a luz do Sol.
Teus frutos, folhas e sementes são alimentos e remédios para os seres vivos.
Tu és mãe que sacia nossa sede e fome.
Sob tua copa, oferece generosa e benfazeja sombra em meio à aridez das regiões onde impera.
Tuas raízes representam os ancestrais de nossas comunidades,
aconselham-nos e ajudam-nos a seguir com coragem e decisão.

Em Ajudá, o Rei Guezo nos fez esquecer…
Voltas e voltas em torno de ti para apagar toda nossa devoção, nossas lembranças, torná-la
“Árvore do Esquecimento”.
Portal do Não Retorno jamais conseguiu.

Fizemos de teu tronco, aparentemente tombado, a balsa que atravessou oceanos para nos
levar rumo ao desconhecido. E assim tuas raízes uniram dois mundos. Tua força multiplicada
ganhou novo significado em terras distantes.

Baobá, Árvore da Resistência!
Todos os solos pisados por pés africanos, sob a poeira da resiliência, fez com que a cultura
negra semeasse pelas Américas, germinando um Novo Mundo e a representação de sua fé. E
se algum desalento nos toca, ao olhar para teu esplendor, nos conectamos em seus firmes
troncos com nossa herança, e nos revitalizamos com a energia de nossos antepassados.

Fincamos em tuas raízes profundas valores e crenças que nenhum preconceito é capaz de
fazê-los tombar. E no solo rochoso da discriminação, elas encontraram fendas para ir mais
além, penetrando mais profundamente no solo, até, finalmente, encontrar a esperança.

E assim o tempo passou. Ora calmo, ora agitado como o vento a balançar tuas folhas… E sob o
Arco-iris de Oxumaré, tudo tornou-se menos sombrio.

Nos quilombos, favelas ou periferias, teus “rebentos” brotaram como galhos distintos que se
estenderam por toda América, expressando a identidade preservada da terra de seus
ancestrais, a África. No Brasil, os frutos nasceram em forma de Maracatu, Maculelê, Tambor de
Crioula, Caxambu, Jongo, Funk e tantas outras manifestações afro-brasileiras, assim como o
Samba.

Nas franjas da Região Central do Rio de Janeiro, espraiando-se por áreas alagadiças, floresceu
a Pequena África. Da Pedra do Sal à mítica Praça Onze, nos morro e subúrbios, os herdeiros do
“Berço do Mundo” comungaram sentimentos, compartilharam seu passado comum e criaram
as escolas de samba.

Nossos fundadores são nossos antepassados. Os velhas guardas, os guardiões de nossas
memórias. As baianas, a herança das antigas festas, profanas e sagradas. Ao som do batuque
da bateria, o suor dos passistas verte nossa ancestralidade. E até hoje, sempre que os
sambistas se unem de mãos dadas, sentem reverberar em suas almas a energia primordial
unindo a África e o Brasil, como bons filhos da diáspora que todos somos. O samba respira
como um velho Baobá.

Ọpẹ

Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage.


 

Share
Tweet
Pin
Share
No Comments

 



Tupana, criador das boas coisas do mundo, reinava no alto do céu na forma de A’at, o sol, enquanto seu irmão oposto, Yurupari, sob a proteção de Waty, a lua, regia as más na escuridão. Assim, as ações entre os dois deuses estabeleceriam o equilíbrio cíclico de Monã, as forças cósmicas geradoras do universo.

Contam que três irmãos, os varões Yucumã e Ukumã’wató e a bela Anhyã-Muasawê, viviam em Nusokén, uma floresta encantada, abundante, onde até as pedras poderiam falar.

Anhyã-Muasawê era a guardiã, a dona de Nusokén, pois detinha o conhecimento das plantas medicinais. Não existia folha que ela não conhecesse o poder. De tão bonita e habilidosa, todos os animais de Nusokén se enamoraram por ela, o que mergulhava seus irmãos no ciúme.

Certo dia, uma cobra verde tomada de amor usou o perfume de uma flor para atrair Anhyã-Muasawê e com apenas um toque em seu pé a fez engravidar. Quando Yucumã e Ukumã’wató descobriram a gravidez indesejada por eles, possuídos pela má energia de Yurupari, expulsaram a irmã e tomaram para si o controle do paraíso Nusokén, a proibindo de voltar. Ela e a criança que nasceria.

Anhyã-Muasawê vai para uma mata distante dar à luz a Kahu’ê, o kurumin mais bonito e alegre que já existiu. Kahu’ê era uma criança prodigiosa, dizem que começou a tagarelar bem cedo. Olhos vivos, atentos para as muitas perguntas que brotavam de sua curiosidade inocente. Fartava-se dos frutos que a floresta com bom grado lhe dava, mas havia uma iguaria que não era permitida a ninguém e que Kahu’ê se apetitou: a castanha da castanheira sagrada de Nusokén. Aquela, primeira, brotada das patas de uma onça e que estava sendo vigiada pela cotia e pelo macaco, Hanuã-Xuin, a mando dos irmãos Yucumã e Ukumã’wató.

Chegando lá, o kurumin arteiro subiu na árvore e saciou a fome até o cair da noite como se dono fosse daquele fruto proibido. Na verdade, era mesmo herdeiro daquelas terras, já que sua mãe seria senhora de Nusokén por direito.

Ao saberem pelos vigias da violação da castanheira sagrada, os tios de Kahu’ê, obsediados pelo espirito da inveja, invocaram Yuyrupari, que se transformou em uma serpente terrível e tirou a vida do pequeno índio.

Anhyã-Muasawê ouviu o grito de longe, correu em socorro a seu filho, mas não pôde evitar o pior. Uma tristeza súbita tomou aquela terra. O mal de Yurupari parecia ter vencido ao exterminar a existência de Kahuê quando os raios de Tupana rasgaram as nuvens. Ao tocarem o solo, falaram ao coração da mãe ferida que aquela maldade se tornaria bênção. Anhyã-Muasawê se transformou num pássaro, levou seu filho para os arredores do rio Maráw, enterrou os olhos do kurumin e os regou com suas lágrimas.

O olho esquerdo plantou em terras amarelas, do qual nasceu uma planta que não prestava. Era o Waraná-Hôp, o falso guaraná. O olho direito, plantado em terras pretas, gerou o Waraná-Sése, o verdadeiro guaraná. Com ele, Anhyã-Muasawê fez um elixir mágico para longa vida ao povo que floresceria das entranhas de Kahu’ê, enterrado embaixo de uma Abiu’rana. Seu ajudante, o passarinho Karaxué, cantava sua mais bela melodia quando Mary-Aypók nasceu do corpo de Kahu’ê. Era o “originador”, o primeiro Mawé. Tupana deu a ele de presente a língua que só era falada pelos seres de bem que o acompanhavam, chamada Sateré, a lagarta de fogo.

O segundo Mawé nascido da criança enterrada foi Wasary-Pót, o irmão gêmeo do “originador”.

Os irmãos cresceram. Mary-Aypók se casou com Ahút-Piã, a filha do papagaio, e concebeu o significado da palavra Mawé, o papagaio falante. Wasary-Pót desposou com Hano’onapiã’hop, filha da arara-piranga, e seus descendentes dariam as mais belas penas para adornar o povo que surgia.

O bendito kurumin Kahu’ê, fruto da união entre a ancestralidade indígena e os animais, renascia em uma raça de pele vermelha como a cor da pele do sagrado Waranã. Estava iniciada a nação Sateré-Mawé, o povo do guaraná. Descendente do fruto que cura as doenças das almas cansadas, dos fracos, que fortalece e devolve a força, a juventude. Revive.

Organizaram-se em clãs, construíram identidade e desenvolveram ritos e mitos regados a guaraná, pintados e gravados com branco do barro taguatinga, preto do jenipapo e vermelho urucum no remo sagrado Puratig.

Do bastão de guaraná ralado criaram o Çapó para beber nas festas, pajelanças e no Waymat, onde as tucandeiras iniciam os jovens para a vida adulta como símbolo de renascimento sob o comando dos Tuxauas.

Porém, não se engane em pensar que Yurupari descansou de sua maldade predatória, que deixou a vida na floresta em harmonia. Ele se fez ressurgir ao longo do tempo em colonizadores, missionários religiosos enviados às aldeias, caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais, grileiros de terras… Pelos desmatamentos e queimadas, os filhos-demônios de pele clara de Yurupari seguem semeando o caos em nome do capetal.

Mas os filhos do guaraná, peles vermelhas do Brasil, são predestinados, pois apenas povos sábios, de espiritualidade elevada, são capazes de reexistirem encantados pelas matas, acaboclados nos terreiros onde bradam sua força e encontrarem com os espíritos infantis de erês e ibejadas que, quando “chegam”, gostam de tomar guaraná.

Assim, completando o ciclo da eterna renovação, enfim o curumim Kahu’ê é elevado ao paraíso prometido Mawé, Nusokén, ou à Jurema, ou à Aruanda, quando na gira as crianças bebem seu guaraná e vão brincar.

Elas são a prova que o espírito do amor é muito maior que o ódio semeado por Yurupari.

Ele não vai vencer. Ele nunca irá nos exterminar.

Yiurupari jamais triunfará.

 Texto: Jack Vasconcelos

Share
Tweet
Pin
Share
No Comments




Texto-mestre, ou sinopsis

Dizem que, quando o menino, preto retinto, nasceu com cara de quem tem fome aqui no Morro da Cachoeirinha, veio um anjo atrapalhado, desses que vivem se escorregando pelo caminho, desengonçado, que disse: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! E o garoto foi. Desajeitado, mas foi. Entre cambalhotas, tropeços e acertos, mas foi. Tudo para ele virava espetáculo. Tanto que ele não era apenas um. Carlinhos era vários!

E o garoto, muito travesso, debandou com tantas pernas por aí, sempre a se aventurar. Não parava num canto. Escorregava daqui. Escorregava dali. Escorregava acolá. Era difícil de segurar Carlinhos! Preto sabido, driblou a miséria, cortou na mão as dificuldades que a vida lhe impusera. De verdade, meu cumpadi, não tinha tempo ruim para ele! Até porque sabia tirar proveito de tudo para viver, por alguns instantes, em céu de brigadeiro! Eita, menino arteiro!

Um dia, o mé, que bota a gente comovido como o diabo gosta, fez Carlinhos sair perambulando pelo subúrbio carioca. E no meio do caminho do garoto tinha um bloco. Tinha um bloco no meio do caminho do garoto. Era o União da Guanabara, com tanta gente com cara de fome que nem ele, improvisando no visual e na percussão. Foi ali, rapaziada, que o guri da Cachoeirinha viu no samba uma possibilidade de ser estrela na vida. Carlinhos, daí em diante, nunca mais se esqueceria deste dia. Nunquinha! Porque descobriu ser pé de valsa, cortejando feito mestre-sala. Porque descobriu que também era mestre-sala na arte da música de se reinventar, levando jeito para tocar, de forma incomum, um velho reco-reco cavado num gomo de bambu. 

É, o moleque era atrevido! Tão atrevido que não demorou pra como Carlinhos do reco-reco ficar conhecido! Que ironia, né?! Ganhou o apelido de um instrumento que, em suas mãos, virava ouro, deixando de ser considerado da ralé! E logo não tardou para ele mesmo fazer seu reco-reco, com metais, parafusos e mais o que se tinha por perto. Mas a protagonista da parada era a mola. Ela, igualzinha a ele, ora! Que encolhe, estica, parada não fica, balança, mas não cai! Ui, ui, ui, papai!

Carlinhos, nessa bagaça, embarcou no bonde do samba e conheceu, pelas bandas de uma tal Praça, o Clube dos Baianos, onde deixou de ser um simples frequentador para começar a virar um artista que tira o seu ganhapão tocando. A admiração pelo talento de Carlinhos era tanta que fez com que ele ali mesmo fosse parar num tal de Modernos do Samba, que depois virou Originais. Neste grupo, meu cumpadi, só tinham os de fé, os geniais!

E o sucesso foi chegando, no sapatinho, como: contando sobre a nêga Tereza, que deixou de pista um malandro, indo dar uma sambadinha lá no morro com outro fulano; tirando sarro da cuíca da vizinha Maria, que adorava um sururu na esquina com o Peru; e entregando que, de tanto glup glup pra lá, glup glup pra cá, acabou acontecendo uma Tragédia no Fundo do Mar!

Enfim, o rapaz, danado que só, destaque no grupo, foi ganhando mansamente os palcos da vida e do mundo, mundo, vasto mundo.

Carlinhos, como um bom batedor de pernas que era, também foi dar um rolé em Mangueira, pelas vielas da favela! Ele era gente da gente! Gostava de dar perdido principalmente nas biroscas que tinham no Buraco Quente! Onde vista assim do alto mais parece um céu no chão, pisou miudinhosobre folhas secas e até foi parar no quintal de Dona Neuma! Lá, aprendeu que madeira de dá em doido é jequitibá! A partir de então, do Morro de Mangueira, não queria mais arredar o pé, não!

O moleque, rapaziada, acabou ainda se apaixonando por uma tal de Primeira Estação! Carlinhos dizia que era um sentimento tão grande que nem cabe explicação! Daí, varava as noites na Cerâmica, fazendo amizade com tantos bambas consagrados. E também não perdia a oportunidade de mostrar na quadra da Velha Manga que entendia do riscado! E escola de samba ensina… Ah, como ensina! Deixou na memória de Carlinhos marcado o Mundo Encantado de Monteiro Lobato e toda poesia e verdade do Reino das Palavras de Carlos Drummond de Andrade! Como dizem, torcer para a Mangueira é o a-a-a-ço! Imagina só: Quanto orgulho o rapaz não tinha de ter participado dos desfiles a esses escritores que deram à Estação Primeira campeonatos?!

Ah, e sabe quando, mesmo sem querer querendo, você vira de uma família membro e até apelido acaba tendo? Foi justamente isso que aconteceu com Carlinhos! Ele ficou todo prosa, pois agora era filho da Manga Rosa! E embalado pelo som dos tamborins e o rufar do tambor que cortavam a manhã, percebeu que era Mangueira, sim! Pra hoje, pra sempre e até pra Amanhã!

E pernas pernas pernas. Nas suas andanças, Carlinhos foi até parar nas telas. De um jeito atabalhoado, sempre com a cara assustada e os olhos esbugalhados, caiu nas graças do povo! E ele era realmente muito engraçado! Todos queriam vê-lo de novo e de novo e de novo! Mas ora, ora, quem diria! O rapaz que para ator achava que não levava jeito nenhum, ganhou de Grande Otelo até o apelido de Muçum - peixe escorregadio, difícil de pegar, que se adapta em qualquer lugar! E se não bastasse de aventuras isso tudo, com seus ezis e izis, foi parar na Escolinha do Professor Raimundo!

É! Mussum era mesmo palhaço, um insociável, que, mesmo abduzido ao Planalto dos Macacos, adorava fazer graça, levando toda gente a morrer de rir, perder o ar de tanto dar gargalhadas!

É, meus cumpadis, Não tinha jeito, não! O circo tava montado! Nas voltas que o mundo dá, Mussum foi virar um global Trapalhão! E nas poltronas,de casa, dos cinemas, ou de qualquer outra apresentação, o palhaço era aclamado, a grande estrela, a atração!

Mas quis a vida pregar uma peça no menino que vivia pregando peça nos outros. Carlinhos foi se empirulitar. Só que seu sorriso continuou passeando por aí! Tá em todo lugar! Dando esperança a tantas crianças! Estampando lembranças! Atravessando o tempo para de novo uma pindureta armar! Reivindicando o direito de que ser pretis não é absurdo!

Reinventando a arte num mundo caduco!

E segue, meus cumpadis, com seus bordões eternizados, perambulando por aí, o que um anjo atrapalhado disse ao garoto daqui do Morro da Cachoeirinha: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! 

É, Carlinhos é mesmo uma estrela, sim! Pra sempris em nossos coraçõezis... E fim!


Carnavalescos:Eduardo Minucci e Raí Menezes.
Texto, pesquisa e desenvolvimento: Mateus Pranto e Raphael Homem


Inserções feitas no texto com trechos de “Poema de sete faces” e “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade; de “Sei lá, Mangueira”, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho; de “Jequitibá”, de José Ramos e Marcelino Ramos; “O meu guri”, de Chico Buarque de Hollanda. 


Obra consultada

BARRETO, Juliano. Mussum forévis – samba, mé e Trapalhões. Disponível

em: <https:/ sambrasil.net/wp-content/uploads/2018/06/Mussumfor%C3%A9vis-Juliano-Barreto.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2020.

 



Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Imagem

"Iroko – É tempo de xirê"

Iroko Kisselé! Eró Iroko Issó, Eró!

No princípio, havia eternidade.

E, na eternidade, tempo ainda era silêncio.

Dança antiga da criação, o Aiyê fez-se nos mistérios do Axé.

O tempo começava a falar.

Plantou-se a primeira árvore, Iroko, Iggi Olórum, e ele passou a escutar a voz do tempo.

Genitor do sagrado, raízes para o alto e para baixo, Aiyê e Orun ligados.

Orixá da Árvore, Árvore Orixá – e os outros Orixás por ele descendo ao Aiyê!

Árvore-Orixá dos mistérios, raízes ancestrais no fundo da terra e também bailando ao vento pelos céus.

Orixá-Árvore do infinito, do início e do fim, mestre de todas as Árvores, e todos os Osa Iggi curvam-se à sua existência.

Árvore da vida do que é, do que foi, do que virá a ser, e a vida seguindo sendo vida.

Irmão de Ajé, a feiticeira mãe de um passarinho, e de Ogboí, a mulher com dez filhos, é a Árvore das mulheres-pássaros iamis, semeadoras rígidas das respostas aos pedidos.

Germinou como lar e guardião da ancestralidade, enquanto ele reside mesmo é no tempo, sem amarras, nem clausuras. Quando os oluôs pediram para Iroko fazer parte do Axé, não quis ele casa alguma: viveria livre junto ao Povo de Santo, junto a todas as Nações.

No balanço do tempo, Iroko acolhe os temores e consola as aflições. Justiceiro, Iroko dá, Iroko tira. Engole os devedores. Corrige as desfeitas. É clemente com os arrependimentos.

Conforta suas iaôs…

…E guarda a natureza!

Foram os Orixás ao encontro de Iroko e então Iroko-Árvore, Morada dos Orixás. Grande e belo, Iroko protege da tempestade e conversa com o vento, através dele suspirando seus chamados e espalhando sua dádiva.

Iroko, Orixá do Morim, cabendo aos homens abraçá-lo com o ojá. Na Dança da Avania, andando Iroko pelo Aiyê, conta o que viu e o que ouviu, quando amou e quando guerreou, ao fim fincando-se no chão, a Grande Árvore Sagrada.

Iroko dos ciclos, da terra, do ar, do fogo; do sol que brilha quente e forte queimando o mundo, às folhas mortas que caem sob o desígnio do tempo rotundo; do frio gelado que castiga com dores na alma, às flores do recomeço da cicatrização da ferida; da vida sem vida dos minerais, à magia da água como fonte mãe alimento do Axé da vida da natureza.

Irôko Issó! Eró! Irôko Kissilé!

Iroko dos caminhos. Caminhos que vem e vão, e o mundo rodando à sua vontade. Na floresta, ao lado de Ossain, declama com seus galhos e folhas os retorcidos mistérios do verde universo. Orixá se transmuta em árvore, árvore se torna Orixá e o povo virando no Santo! O Grande Guardião e a vida em louvação.

Orixá Árvore das trilhas em cruzamento e Iroko Senhorio do Otim. Árvore também vivenda dos mortos, com Icú revelando-se indomável aos seus pés durante a noite. ÁrvoreCemitério, dos ajejês, dos abicus, lança sua sombra cobrindo os términos dos ciclos, em junção com os segredos de Nanã e Obaluayê.

Generoso, grande amor de Yewá, Iroko também brilha e vibra possibilidades de renovação.

Senhor do que recomeça, do que o vento leva e traz no toque do atabaque da transformação, pois ele ouve o tempo e o tempo segue, ciclo eterno de mudança.

O branco, a sua cor, união de todas as cores do arco-íris da sua ligação com Oxumarê, o mesmo branco do sangue dos ibis. Ele, a brasileira Gameleira, em comunhão com Obatalá.

Assim, a Árvore-Orixá da fartura e da fertilidade, feliz, dá frutos: Árvore Maior, Iroko é e será para todo o sempre a abundância na plenitude dos dois mundos. De sua copa frondosa, resplandece o equilíbrio sobre tudo, Iroko regenerando a vida infinitamente, fazendo triunfar a união na paz de Oxalufã, cujo opaxorô é feito de um de seus galhos.

Enfim, rigoroso, caem as folhas como lágrimas de desespero, implacável contra aqueles que cultivam o erro. O Orixá que brada a guerra quando não é tempo de perdoar. Todavia, Iroko também sabe curar, sempre disposto a ouvir.

E como gosta de ouvir! Lamentos, pedidos, choros, rezas, agruras, dores, tristezas.

Paciente, escuta-os. Reto, cobra as alegrias e as farturas atendidas. Mulheres e homens, nas raízes e tronco sob as folhas, batem cabeça pelas bênçãos do seu Axé, por perdão pelos erros cometidos.

Os antigos ainda contam, por fim, que Iroko soprou através do vento um chamado a uma jovem que dançou e rodopiou, indo girando ao seu encontro para tornar-se Filha…

… E hoje, em sua homenagem, Ela, a Unidos de Padre Miguel, pede licença!

Com o Estandarte resplandecendo o vermelho do nosso sangue fervendo Carnaval e o mesmo branco do ojá de Iroko, pedimos licença para celebrar a felicidade da devoção e oferecemos o banquete da alegria de viver sob a sombra da Árvore Sagrada.

A Unidos de Padre Miguel, emocionada e aguerrida na gira da Vila Vintém a passar pela Sapucaí, canta os mitos e estórias sagrados, festejando as raízes, o tronco, os galhos, as folhas e o Axé da Grande Árvore, ajoelhando-se respeitosa aos pés de Iroko pelas graças abençoadas do Orixá!

Aqui e agora, tributo ao Senhor da Árvore, é Tempo de Xirê!

“No tronco da Gameleira,
Meu Iroko eu vou louvar!”.

Carnavalesco: Edson Pereira
Enredo: Edson Pereira e Comissão Artística
Sinopse e pesquisa: Edson Pereira, Victor Marques e Clark Mangabeira
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments


Maior cidade escravista das Américas, o Rio de Janeiro foi o palco da assinatura da Lei Áurea, diploma legal que extinguiu a escravidão no Brasil. Abolir o trabalho escravo, porém, não foi suficiente para promover as mudanças tão desejadas por todos nós. Abandonados pelo Império, continuamos sem condições para uma existência decente. Libertos, tornamo-nos prisioneiros da miséria nos cortiços, nas ruas, nos trabalhos precários e na ausência de direitos humanos e sociais básicos. Discriminados e marginalizados, sem cidadania, sem alternativas para uma vida digna, fomos lançados à nossa própria sorte. Excluídos – no dia seguinte, na década seguinte, no século seguinte –, vivemos, até hoje, sufocados. 

Hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito. Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo “democracia racial”, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados.

Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA.

E resistir é ter nossa história, antes negada e silenciada, ressignificada e recontada no carnaval, lugar de alegria, mas também de diálogo com o mundo. Ao som dos tambores ancestrais, o Salgueiro foi pioneiro na introdução da temática africana nas escolas de samba. Seguiu na contramão da narrativa “oficial” do país e deu vez e voz aos personagens, heróis e protagonistas pretos. Como um Griot, transmitiu ricas histórias por meio de enredos que revelam a participação da escola no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional. 

Resistir é plantar um legado nos “chãos” do Rio de Janeiro. Criamos Quilombos, lugares de resistência e insurgência negra, com estrutura politica, econômica e social africana. Revivemos a história nas marcas deixadas na Pequena África, região que se destaca como lugar de acolhimento e também por personagens como as tias baianas festeiras da Praça XI, cozinheiras e Mães de Santo celebradas até hoje pela fantasia e pelo rodopio que as nossas Alas de Baianas exibem. Foram elas que formaram o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de Candomblé.

Resistir é professar nossa fé. Por ela nos unimos nas irmandades religiosas que faziam filantropia por justiça social. Construímos os terreiros de Candomblé, templos que são uma reinvenção do macro universo cultural e religioso trazido do continente africano. Desenvolvemos o Culto Omolokô e criamos a Umbanda, religião afro-brasileira surgida no Rio de Janeiro, que sincretiza elementos do Candomblé, do Espiritismo e do Catolicismo. 

Resistir é expressar nossa cultura para manter a continuidade de valores civilizatórios. Com a benção dos orixás, entramos na cozinha, espaço de saber, para alimentar o corpo e a alma. Para transformar alimentos, hábitos e a própria culinária brasileira. Ao som dos atabaques, “compramos o jogo” nas rodas de capoeira e dançamos jongo ou caxambu. Pisamos nos gramados para expulsar os cabelos esticados e o pó-de-arroz que “disfarçavam” a cor da nossa pele. Brilhamos nas passarelas e nas ruas com as formas, símbolos, cores e texturas de nossa moda. 

Resistir é fazer arte. Inquietos por representatividade e pela visibilidade que insistem em nos sonegar, criamos nossas próprias narrativas e espaços nas artes cênicas, como o Teatro Experimental do Negro. Assumimos nosso protagonismo e nos fizemos enxergar também por meio da literatura, da dança, das artes plásticas. Espalhamos para o mundo a vocação artística que reside em nós. 

Resistir é festejar. É revelar nossa maneira de ser por meio das festas, do modo de celebrar a vida, do entusiasmo que propicia o resgate de nossa identidade e afirmação existencial. Desde o chorinho na Festa da Penha, passando pelas escolas de samba, afoxés e blocos afro. Pelo pagode à sombra da tamarineira, pelo funk carioca e pelo charmoso baile sob o viaduto de Madureira.

Resistir é existir. 
É continuar a reverberar a coragem dos nossos heróis contemporâneos de pele preta. 
É saber que somos frutos de uma mesma raiz de igualdade, fé, esperança, arte e vida. 
É crer que nenhuma luta foi em vão. Que nenhuma luta será em vão. 
É persistir no sonho de igualdade para que ele não seja silenciado. 
É entender que, juntos, em cada passo e em cada pequena mudança, seguiremos adiante. 
E é ter certeza que no dia em que fizermos cair todas as máscaras da discriminação, conseguiremos, enfim, respirar.   

Autoria e curadoria: Dra. Helena Theodoro
Carnavalesco: Alex de Souza
Concepção: Eduardo Pinto e Marcelo Pires (Diretoria Cultural)
Texto: Paulo Barros
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments





“assim aconteceu o encantamento”

Em frente àquela casa, relembrando um passado não distante, vi uma menina arredia e reservada. Era noite de Natal, luzes acessas, a mesa arrumada com frutas da época colhidas no quintal. Duas mulheres conversavam sobre aquela menina de cabeça baixa. Ganhou da matriarca uma fruta, não conseguia enxergá-la, a distância não permitia, mas o perfume agradável bailou pelo ar. Era uma maçã tirada do “pé do santo”. Isso tudo aconteceu nos arredores de São Gonçalo do Retiro. A imagem ficava cada vez mais nítida em meus olhos, percebi fitas vermelhas e brancas que encantavam não só meu olhar, mas da menina, que olhava em silêncio, sem perceber que ali, num futuro presente, seria sua futura morada. Ainda com a fruta na mão, a menina levantou seu pequeno rosto, revelando um olhar atento, cruzando com os olhares carinhosos da matriarca. Uma questão de destino traçado no céu, no infinito, preciso como a minha flecha de caçador.

“o caçador que chegou com a alegria”

Seu destino já havia sido traçado. Xangô escolheu, Oxalá abençoou, Oxum cuidou da menina no dia do seu renascimento, e Oxóssi, certeiro, lhe transformou em rainha. Criança, Iaô1 , adulta, Iá2 , a partir de seu renascimento, vida e sagrado tornaram-se uma única pessoa. O caçador trouxe alegria para os moradores da roça de São Gonçalo, Iá proporcionou felicidade e prosperidade. Iá tornou-se uma mulher detentora da magia encantadora, tão poderosa quantos os mistérios da vida. Destemida, atravessou o tempo como a flecha de Odé3 , criou um laço tão intenso de fraternidade, com seu olhar carinhoso aos seus semelhantes. Aprendeu com Odé uma nova forma de viver, seu arco e sua flecha significavam o ato criador em busca da perfeição. Assim como seu eledá4 , o dono de sua vida, tornou-se uma grande líder.

“meu tempo é agora”

O Tigre de São Gonçalo olha para aquela roça, as fitas de papel vermelhas e brancas, ainda balançam no ar, os “pés de santo”, continuam a dar seus frutos, alimentando todo o grupo. Passado e presente se encontraram. Tentar decifrar os mistérios do tempo é mergulhar no que se viveu, o tempo é sagrado, tempo é Orixá, o tempo é como uma flecha que percorre os mundos e retorna ao presente. Hoje, vejo aquela pequena menina, em seus olhos marejados de saudade. Vejo agora aquela mulher, cuidando da saúde, da alimentação de crianças; muitas vezes, ela foi mãe sem saber. Mãe, protetora e zeladora. Odé mostrou-lhe o caminho, ensinou-lhe a lutar com as contradições. Hoje, esta mulher transformou-se em símbolo de luta pela tradição da fé. Sinônimo de resistência contra a discriminação de negros, pobres, mulheres e, principalmente, pela valorização do ser humano. Para isto, precisou voar tão alto quanto a flecha do seu Orixá, conheceu outros mundos. No retorno, trouxe a prosperidade, fazendo pelo seu povo aquilo que fez pelos Orixás.

“o que não se escreve o tempo apaga”

Mulher negra, mãe, zeladora, Iá. Defensora da cultura negra e de nossas tradições, recebeu prêmios, homenagens, títulos de doutora, sentou-se em trono de reis e de academias, criou biblioteca e escola, viajou o mundo. Escreveu. Em seus livros, ensinamentos passados pelas histórias contadas pelas tias, dos dias e noites sentados aos pés dos mais velhos, escutando os mais novos, os mais sábios, das viagens que fez, das pessoas que conheceu. Odé sabe o que faz. Odé, com sua flecha, é a segurança de sua trajetória. Odé, o caçador de alegrias. Odé Kayodê traz a alegria, Odé Kayodê é Mãe Stella de Oxóssi.

  1. Filhos de santo iniciados no candomblé;
  2. O mesmo que Ialorixá, ou seja, Mãe de Santo;
  3. Caçador;
  4. Divindade que zela pela pessoa.

Annik Salmon – carnavalesca 
Carlos Carvalho - pesquisador
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Mais Antigo

Visite SAL60!

Visite SAL60!

Sobre nós

About Me

Somos um projeto multiplataforma que busca valorizar o carnaval e as escolas de samba resgatando sua história e seus grandes personagens. Atuamos não só na internet e nas redes sociais, mas na produção de eventos, exposições e produtos que valorizem nosso maior evento artístico-cultural.

Siga a gente

  • twitter
  • facebook
  • instagram

Desfile das Campeãs

  • #Colablize: Uma homenagem ao Guará - Compositor de grandes sucessos do samba
      Arte de Vítor Melo.  Autor: Igor Trindade Revisão: João Vítor Silveira e Marcelo D. Macedo. Guaracy Sant’anna foi um cantor e compositor c...

Total de Carnavalizadas

Colunas/Séries

sinopse BOLOEGUARANÁ 7x1 carnavalize Carnavalizadores de Primeira Quase Uma Repórter 5x colablize série década artistas da folia giro ancestral SérieDécada quilombo do samba Carnavápolis do setor 1 a apoteose série carnavalescos série enredos processos da criação dossiê carnavalize Na Tela da TV série casais 10 vezes Série Batuques Série Mulheres Série Padroeiros efemérides minha identidade série baluartes série sambas

Carnavalizações antigas

  • ▼  2023 (38)
    • ▼  ago. (1)
      • Projeto "Um carnaval para Maria Quitéria" valoriza...
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (1)
    • ►  fev. (28)
  • ►  2022 (41)
    • ►  dez. (1)
    • ►  jul. (1)
    • ►  jun. (5)
    • ►  mai. (1)
    • ►  abr. (30)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (1)
  • ►  2021 (10)
    • ►  set. (4)
    • ►  jun. (1)
    • ►  mai. (1)
    • ►  mar. (2)
    • ►  fev. (2)
  • ►  2020 (172)
    • ►  dez. (8)
    • ►  nov. (17)
    • ►  out. (15)
    • ►  set. (13)
    • ►  ago. (19)
    • ►  jul. (16)
    • ►  jun. (15)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (11)
    • ►  mar. (10)
    • ►  fev. (33)
    • ►  jan. (5)
  • ►  2019 (74)
    • ►  dez. (2)
    • ►  nov. (5)
    • ►  ago. (4)
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (4)
    • ►  abr. (2)
    • ►  mar. (35)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (12)
  • ►  2018 (119)
    • ►  dez. (1)
    • ►  out. (6)
    • ►  set. (1)
    • ►  ago. (3)
    • ►  jul. (5)
    • ►  jun. (20)
    • ►  mai. (12)
    • ►  abr. (5)
    • ►  mar. (3)
    • ►  fev. (42)
    • ►  jan. (21)
  • ►  2017 (153)
    • ►  dez. (28)
    • ►  nov. (7)
    • ►  out. (8)
    • ►  ago. (5)
    • ►  jul. (12)
    • ►  jun. (7)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (7)
    • ►  mar. (7)
    • ►  fev. (49)
    • ►  jan. (13)
  • ►  2016 (83)
    • ►  dez. (10)
    • ►  out. (3)
    • ►  set. (9)
    • ►  ago. (22)
    • ►  jul. (39)

Created with by ThemeXpose