• Home
  • Quem somos?
  • Contato
  • Lojinha
  • Exposições
  • Selo Literário
  • Apoiadores
Tecnologia do Blogger.
facebook twitter instagram

Carnavalize


A coluna #ColabLize é um espaço aberto a seguidores do Carnavalize e pesquisadores de carnaval para divulgar seus escritos sobre nossa folia. Quer enviar algum texto que verse sobre a festa? Mande para nós no e-mail contato@carnavalize.com. A #ColabLize vai ao ar quinzenalmente, sempre aos sábados!


por Jader Moraes


Qualquer debate público sério sobre o Rio de Janeiro passa, obrigatoriamente, pelo debate sobre o carnaval carioca, em seus múltiplos significados e manifestações.

Data de 1933 a primeira medida de apoio do poder público às escolas de samba, que a partir daquele ano passaram a fazer parte do Programa Oficial do Carnaval da prefeitura do então Distrito Federal. São, portanto, quase noventa anos de uma relação formalmente instituída entre as escolas e a gestão pública municipal. Com avanços e retrocessos, de forma mais ou menos amistosa em cada período, mas uma relação contínua.

Antes mesmo da década de 1930, quando as escolas de samba começam a despontar para um futuro em que seriam protagonistas do carnaval na cidade, os dias de festa já recebiam ampla atenção do poder público, seja para reprimir as populares brincadeiras do entrudo, desde o século 17, seja para incentivar bailes e desfiles que emulassem uma folia à moda europeia. Ou seja, o carnaval está na agenda pública do Rio de Janeiro desde que aportou nessas terras.

Nos últimos anos, a relação entre prefeitura e agremiações do carnaval foi marcada por tensões crescentes. Da campanha eleitoral, em que o atual prefeito prometeu apoio e recebeu o endosso dos dirigentes das escolas de samba, até o momento atual, quando a prefeitura cortou o repasse financeiro direto e realizou propaganda para criticar as agremiações e o carnaval carioca na televisão, foram quatro anos de um conflito aberto, com ampla repercussão em diferentes segmentos econômicos e culturais da cidade. Natural, então, que o carnaval ganhe ainda mais relevo no debate que se inicia sobre os rumos do município nos próximos quatro anos. 

A campanha eleitoral começou há duas semanas, em todo o país. São 14 candidatos à prefeitura do Rio. Nesse texto, tentarei resumir o que dizem os candidatos sobre o carnaval em seus programas oficiais, registrados no TSE. Vou me limitar às questões referentes às escolas de samba, por ser o universo com o qual estou mais familiarizado, mas coloco ao fim de cada parágrafo o link para o programa de cada candidato. Dos 12 programas registrados no TSE, sete trazem propostas relacionadas a essa manifestação fundamental da nossa cultura. Vamos a eles:

Comecemos pelo atual prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos), candidato à reeleição e protagonista na complexa relação recente do poder público municipal com as escolas de samba, já referida acima. Seu programa de 55 páginas menciona por seis vezes o carnaval, mas em geral faz referência às ações realizadas durante a última gestão; não há qualquer proposta para o carnaval em um eventual novo mandato. Entre ações bem-sucedidas listadas no programa, o documento destaca a redução gradativa da subvenção das escolas de samba, ressaltando a captação com a iniciativa privada para a festa. Também lembra que o Rio bateu o recorde de turistas durante os carnavais de 2019 e 2020 e destaca o carnaval, ao lado do réveillon, como eventos de maior envergadura do calendário turístico da cidade. Sobre 2021, trata o adiamento como iminente e reafirma que, em relação aos desfiles de escola de samba, o dinheiro público deverá ser utilizado apenas para os desfiles da Intendente Magalhães. O documento defende ainda que a prefeitura fez alto investimento para adequação do sambódromo à legislação, frisando o potencial de divulgação turística da cidade por meio da “Passarela do Samba”. O documento trata do carnaval como a maior festa popular do mundo, que envolve “muito trabalho de milhares de cariocas durante o ano inteiro”. Veja a íntegra clicando aqui.

(e aqui me permito um parêntesis para fazer um questionamento, o único em todo o texto: se é a maior festa do mundo, que gera empregos, é fundamental para o turismo da cidade e atrai recorde de visitantes - atributos elencados pelo próprio documento oficial da campanha de reeleição de Marcelo Crivella -, por que a estratégia de combate a essa manifestação cultural nos últimos quatro anos? Se o motivo não é econômico, como tantas vezes alegado, qual a razão?)

Sigamos:

No programa da Benedita da Silva (PT), o carnaval não compõe um item específico. Ela critica a obsessão de Crivella de "destruir a maior de nossas festas". A proposta mais clara está na área do Turismo: eventos ao longo do ano, visando a geração de emprego para os profissionais e artistas da festa. O programa também fala da criação de políticas públicas em parceria com as escolas e rodas de samba, dentro do eixo antirracista da proposta, e de estimular as cadeias produtivas específicas da economia solidária, entre elas a do samba. Veja a íntegra aqui.

Clarissa Garotinho (PROS), em sua proposta, diz que em seu governo o carnaval será respeitado e tratado como manifestação cultural, incentivado e apoiado pela administração pública. Ela propõe a realização de parceria com os técnicos do carnaval para criação de oficinas de formação de figurinistas, aderecistas, cenógrafos, escultores etc., com o objetivo de formar uma nova geração de artistas. Veja a íntegra aqui. 

O programa da candidata Glória Heloiza (PSC) menciona que porá fim à guerra entre prefeitura do Rio e escolas de samba, reconhecendo o carnaval como a festa mais importante para a economia da cidade e garantindo apoio à mesma. O documento também diz que a administração do sambódromo será repassada de volta ao governo estadual. Veja o programa completo clicando aqui. 

As propostas do Luiz Lima (PSL) para o carnaval são mais numerosas, e estão presentes em diferentes áreas dentro do documento: Comércio e Serviços; Turismo; Cultura; Esportes. A primeira proposição é controversa: a privatização da Cidade do Samba e do Sambódromo. A proposta está colocada dentro do eixo de Comércio e Serviços e o documento não entra em detalhes sobre esse ponto. Há uma página específica sobre carnaval, com muitas propostas: construção da Cidade do Samba 2 – um espaço destinado às escolas da Série A –, volta dos ensaios técnicos, apoio financeiro às escolas, uso do sambódromo o ano inteiro, apoio aos desfiles da Intendente Magalhães... em resumo, um check das demandas das escolas nos últimos anos. Por fim, fala da utilização das quadras para a oferta de atividades e serviços pela prefeitura e inscreve a atividade carnavalesca no plano de incentivo à indústria criativa. Veja a íntegra clicando aqui.

O plano mais completo sobre carnaval está presente na proposta de Martha Rocha (PDT). O texto faz diagnóstico amplo e, recorrendo à "relação íntima" do PDT com a história recente do carnaval, ancorada na construção do sambódromo, propõe "uma plataforma trabalhista para o carnaval do Rio". O documento reconhece a importância econômica do carnaval, mas especialmente o valor cultural e identitário, e propõe o desenvolvimento de “uma política permanente, de Estado, para o carnaval do Rio, que não esteja sujeita às vicissitudes da política municipal". É um programa que tem forte atenção ao trabalho nos barracões - o combate ao trabalho precário é, inclusive, uma das contrapartidas para a subvenção às escolas, que o programa assume o compromisso de retomar. 

A candidata também propõe construir a Cidade do Samba 2 e fala da criação de um "circuito do carnaval" e de um novo museu do carnaval. Duas propostas me chamaram a atenção: uma diz sobre a utilização das escolas de samba na área da educação, como forma de estimular a aplicação da Lei 11.645, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas; e outra pretende instituir, em parceria com instituições públicas de ensino superior da cidade, um programa de formação em gestão do carnaval e direção artística para mulheres, com objetivo de reduzir as disparidades entre homens e mulheres na condução do carnaval. Enfim, é uma proposta robusta, que vale a pena ser lida, por colocar o carnaval em um eixo central para se pensar a cidade, de forma transversal. O samba está elencado em um dos seis projetos prioritários da candidatura, chamado Porto Cidade Criativa. Veja a íntegra clicando aqui. 

O programa da candidata Renata Souza (PSOL) traz as propostas para o carnaval sob um grande guarda-chuva: o Plano Municipal de Democratização do Carnaval, que contém 49 proposições, boa parte delas destinada ao carnaval de rua (registro que esse foi o programa que mais atenção destinou a outras manifestações carnavalescas, que não apenas o desfile das escolas de samba). Algumas propostas são mais estruturantes: transferência do carnaval da Riotur para a Secretaria de Cultura, criação da Subsecretaria Municipal de Carnaval e do Conselho Municipal do Carnaval da Avenida. Há outras propostas mais tópicas, que já apareceram em candidaturas anteriores do partido ou nos relatórios da Comissão Especial de Carnaval na Câmara Municipal, também coordenada pela sigla: da reforma do sambódromo à construção da Cidade do Samba 2; da segurança das alegorias à volta dos ensaios técnicos; trata até com alguma minúcia das condições de trabalho para os jornalistas na avenida. Sobre a subvenção, não está explícito o retorno, mas alguns itens indicam essa disposição: um deles prevê audiências públicas para definição da gestão dos recursos públicos destinados às agremiações, e outro propõe diminuir a disparidade do apoio entre os grupos. 

O documento trata ainda da utilização das quadras como equipamentos culturais dos bairros e põe a mão em um vespeiro, ao defender o fim da exclusividade na transmissão televisiva, com a garantia de que os canais educativos possam transmitir sem pagar pelos direitos. Vale destacar que o programa geral da campanha tem 15 propostas centrais, em diversas áreas. Uma delas propõe integrar a rede de ensino com as escolas de samba, associando disciplinas formais "ao universo de múltiplos saberes das agremiações”. Clique aqui para ver o programa completo.

Por fim, vale uma menção ao programa do Eduardo Paes (DEM), candidato melhor posicionado nas pesquisas e considerado favorito na disputa, angariando o apoio de boa parte do mundo do samba. No site do TSE, está registrado apenas uma versão preliminar, que contém uma lista com 12 "objetivos centrais". Nele, não há nenhuma linha sobre cultura. No site do candidato, além desse programa preliminar, há propostas em seis grupos: Saúde, Educação, Segurança Pública, Emprego e Renda, Transportes, Demais Áreas. Novamente, nenhuma referência ao carnaval. Nem mesmo em seu Plano dos 100 dias (em tese, o carnaval acontece dentro desse período). Os demais candidatos não mencionados também não apresentam propostas referentes ao carnaval na disputa à prefeitura ou não registraram seus planos no TSE até o dia 05 de outubro, quando foi realizada a consulta. 

Como já dito no início desse texto, o carnaval sempre teve relevância nas discussões sobre a gestão pública municipal, por ser um evento que impacta de forma profunda o espaço público da cidade; que marca a identidade construída sobre o Rio; que envolve amplos segmentos do tecido social carioca; e que movimenta milhões de reais ano após ano, não só nos quatro dias oficiais, mas em incontáveis atividades ao longo dos meses, em todas as regiões da cidade. Assim, qualquer debate público sério sobre o Rio de Janeiro passa, obrigatoriamente, pelo debate sobre o carnaval carioca, em seus múltiplos significados e manifestações. Em qualquer tempo, mas especialmente nesse momento mais agudo em que valores democráticos, entre os quais o respeito à diversidade e à cultura popular, estão sob constante ameaça. 





Jader Moraes é jornalista e amante de carnaval. Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense, atualmente trabalha com jornalismo econômico, na Gerência de Comunicação da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE)




Share
Tweet
Pin
Share
No Comments

A coluna #ColabLize é um espaço aberto a seguidores do Carnavalize e pesquisadores de carnaval para divulgar seus escritos sobre nossa folia. Quer enviar algum texto que verse sobre a festa? Mande para nós no e-mail contato@carnavalize.com. A #ColabLize vai ao ar quinzenalmente, sempre aos sábados!


Texto: Isaque Castella

Uma lastimável realidade que a pandemia de coronavírus tem escancarado é a grave situação enfrentada pelas escolas de samba, no contexto do Rio de Janeiro, do ponto de vista da manutenção de suas atividades cotidianas e de seus profissionais. É público e notório o abandono das tradicionais instituições culturais pela administração pública local. O que muito se comenta, com pertinência, no mundo do samba é como as agremiações e toda a festa que as envolve têm estado à mercê do apreço (ou não) pelo carnaval por parte dos chefes políticos da gestão pública.

No atual cenário de terra arrasada, parece existir um consenso em torno da necessidade de as escolas se autonomizarem em relação ao poder público. Para tanto, devem lançar mão de iniciativas mobilizadoras de suas aguerridas comunidades e de seus fãs apaixonados. Não discordo do fato de que tal caminho é promissor e merece ser amplamente seguido. Todavia, o que me preocupa é a aceitação ou certa naturalização da omissão do Estado gestor em detrimento dos deveres de preservação, incentivo, valorização e difusão de uma das mais importantes manifestações artísticas e culturais da cena carioca.

O primeiro ponto a ser devidamente compreendido no debate em voga é que a existência de políticas públicas voltadas para as escolas não pode depender da boa vontade do gestor a partir de suas preferências ideológicas ou religiosas, de cunho individual. A omissão administrativa baseada em motivos pessoais não goza de respaldo constitucional-legal, o que se justifica pela inobservância do princípio administrativo da impessoalidade, consagrado pelo artigo 37 da CRFB/88. A questão aqui não é meramente político-eleitoral, vez que qualquer candidato eleito está vinculado às normas constitucionais que dispõem sobre a atividade administrativa.

E o dever da administração para com as manifestações artístico-culturais é estabelecido pela própria Constituição, vide o disposto pelos artigos 215 e 216:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais (grifo meu).

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional (grifo meu).

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

§ 1º O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação (grifo meu). 

Cabe destacar, inclusive, que o caráter de patrimônio cultural das escolas de samba que desfilam no município do Rio de Janeiro foi declarado pelo Decreto nº 28.980/08. Ademais, o samba-enredo goza do status de patrimônio cultural de natureza imaterial pelo Decreto nº 42.708/16. Se a própria administração pública municipal reconheceu a necessidade de preservação dos referidos patrimônios, não cabe a ela se isentar agora da obrigação de tomar as medidas que se fizerem necessárias para a proteção dos mesmos. O Estado gestor precisa honrar seus deveres e não permitir que as escolas de samba, essas entidades históricas e representantes da cultura popular e negra, enrolem suas bandeiras.

Os interesses político-ideológicos não podem sequer, nesse caso, promover retrocesso no reconhecimento desse patrimônio, haja vista sua incorporação à esfera jurídica da coletividade. São vários os teóricos que advogam nesse sentido, em homenagem ao princípio constitucional da vedação ao retrocesso em termos de proteção cultural. Desse modo, não restam dúvidas quanto ao dever administrativo levantado.

Em suma, a reflexão aqui desenvolvida teve como objetivo trazer à tona um modo de pensar a relação entre administração pública local e escolas de samba condizente com o paradigma de constitucionalização da administração pública. Assim, é possível concluir que não se encontra na esfera de discricionariedade do gestor público a escolha entre agir, com políticas públicas dirigidas ao patrimônio cultural e à sua promoção e proteção, ou se omitir, por considerar que a cultura não mereça ser tratada como questão de Estado. 

São falaciosos quaisquer argumentos que militem pela possibilidade de se escolher investir na cultura ou na saúde ou na educação. E, da mesma forma, não encontra respaldo na ordem jurídico-constitucional a omissão estatal baseada em consultas públicas nas quais a maioria dos cidadãos se manifesta contra as políticas culturais. Não podemos nunca esquecer do caráter contramajoritário, assecuratório de direitos e das minorias, concernente às democracias constitucionais.


Sobre o autor:



Isaque Castella é mestrando em Direito Constitucional no PPGD PUC Minas, bacharel em Direito pela mesma instituição e bacharel em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo - pela UFMG. 

 

Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
por Leonardo Antan e Beatriz Freire


Desde seu surgimento, o carnaval das escolas de samba sempre se relacionou diretamente com o poder público. O Estado e as agremiações travaram relações de diálogo, de controle, mas também de negociações. Como protagonistas de suas próprias histórias, as escolas de samba nem sempre foram apenas controladas, mas de maneira típica da malandragem em que o samba se criou, conseguiram muito bem alcançar seus objetivos. No Dossiê de hoje, o Carnavalize explica um pouco melhor como se deu a ligação entre as escolas de samba e o Estado ao longo de tantos anos.

 Pedro Ernesto e a oficialização

Posse do prefeito Pedro Ernesto.


O surgimento das escolas de samba em 1930 está profundamente ligada a atuação do prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, de sua época. Pedro Ernesto, aliado do presidente Getúlio Vargas e populista, viu na folia uma fonte de renda para a cidade e de votos para seu mandato. Sua relação com a festa foi íntima, já no primeiro carnaval sobre seu mandato o evento recebeu o tratamento de principal atração turística da cidade. Organizando todos os festejos no calendário da cidade, não houve distinção, tantos as manifestações mais nobres, como os corsos e a grandes sociedades, como as mais populares, como os ranchos, blocos e banhos de mar a fantasia, entraram no calendário. Houve ainda a criação do tradicional baile do Teatro Municipal. 



Se hoje, pode-se achar estranho os desfiles estarem relacionados a pasta do Turismo e não da cultura, essa relação é histórica e iniciada nesse momento. Durante a década de 1930, a prefeitura do Rio de Janeiro não mediu esforços para desenvolver sua política, na tentativa de se aproximar das classes populares cada vez mais, a Municipalidade oficializou o carnaval. Além de apoiar as sociedades carnavalescas, concediam ajuda financeira para a organização das festas. Estabelecendo uma aliança com a imprensa e os sambistas, a prefeitura realizou propagandas em outros países para atrair turistas para a capital do Brasil durante a festa popular. 


A criação da UES e o seu regulamento

Desfile das escolas e samba nos anos 1940.

Com o primeiro desfile realizado em 1932, as escolas rapidamente se organizaram criando sua primeira liga institucionalizada em 1934. Quando surgiria a União das Escolas de Samba (UES), com um regulamento severo que constava a proibição dos instrumentos de sopro e obrigatoriedade da alas das baianas. Os dois itens curiosos garantiam o desejo da escola de samba de aderir o projeto nacional de criação de uma identidade nacional. Neste contexto, as escolas se tornariam as legítimas representantes da cultura nacional, representando o "verdadeiro samba." O primeiro concurso oficial entre escolas de samba ocorreu em 2 de março de 1935, domingo de carnaval, na Praça Onze. A vencedora foi a Portela, ainda chamada de Vai como Pode, com o enredo “O samba dominando o mundo”. 

A primeira verba

A decoração da Praça Onze durante o carnaval de 1959 - Agência O Globo/

A UES buscava manter um bom relacionamento com a prefeitura. Se, por um lado, Pedro Ernesto oficializou os desfiles e distribuiu subsídios às escolas, por outro, a UES, sempre que podia, declarava seu apoio ao prefeito, seja em festas, discursos e até nos desfiles. Além disso, não perdia a chance de agradecer pelo apoio e reconhecimento. À época, a prefeitura liberou dois contos e quinhentos réis para que a UES dividisse entre as 25 escolas de samba inscritas no concurso, que naquele ano foi promovido pelo jornal A Nação. O primeiro carnaval de atuação da UES foi em 1935. No mesmo ano em que foi criada a União das Escolas de Samba, também foram criados o Departamento de Turismo no Distrito Federal e a Comissão de Turismo da prefeitura do Rio de Janeiro. Nesse sentido, o apoio oficial pioneiro dado pela prefeitura ao desfile das escolas de samba, em 1933, fazia parte da estratégia inovadora de mudar a imagem do Estado de repressor a aliado, mas, por outro lado, também tinha um intuito eleitoreiro de curto prazo.

Getúlio Vargas e projeto populista

Desfile militar em prol do governo Vargas.

No braço político, o governo de Getúlio Vargas traria o projeto da construção de uma imagem do "Brasil" a ser exportada. O panorama social da época girava em torno da tentativa de inserção e aceitação sociocultural pelos quais os negros, marginalizados até então, lutavam; do outro lado, havia um Estado de caráter disciplinador, tentando organizar os espaço das ruas e as camadas consideradas provedoras da desordem. A forma achada para a aceitação do batuque, das festividades essencialmente negras e brasileiras, e da voz que o morro queria expor foi a negociação com o Estado. 

As agremiações sempre buscaram os buracos do diálogo, em claros moldes que passeavam entre a concessão e o controle estatal. As temáticas nacionais, por exemplo, provam essa relação durante a Era Vargas; não foram especificamente impostas pelo Estado, mas se alinhavam perfeitamente ao objetivo de exaltação à pátria em um momento que o Nacionalismo era uma característica a ser esculpida e aperfeiçoada no Brasil. A não-obrigatoriedade somado ao fato da realização, ilustram muito bem o encaixe das escolas de samba em situações favoráveis à sua aceitação. Foi a forma encontrada para que os sambistas, majoritariamente negros, conseguissem legitimar, finalmente, a sua herança, mesmo que em uma relação de submissão. Nesse contexto, se destacou a Portela com enredos patrióticos que garantiram a impressionante marca de seu famoso hepta-campeonato. 


Anos de Chumbo: o caso Heróis da Liberdade



Os anos 60, da Revolução de Pamplona no Salgueiro, da estética e das temáticas diferenciadas desde então que o carnaval apresentava, de forma geral, também foi alvo da censura da nuvem que sombreou o Brasil por vinte e um anos. A chegada da Ditadura Militar pelo Golpe de 1964, muito interferiu na festa carnavalesca. O regime se tornava cada vez mais autoritário e a mão da opressão vinha forte na censura; as escolas de samba, já consolidadas, não escapariam do alvo do Regime, já que também eram as vozes da sociedade e do momento político que o Brasil vivia, inclusive de seus descontentamentos com a morte da liberdade em seus variados sentidos. 

Pouquíssimo tempo depois do marcante AI-5, o Império Serrano desafiou a norma vigente da obediência, como foi feito em alguns casos durante o período, e desfilou o enredo Heróis da Liberdade. Em um trecho do antológico samba de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, a Serrinha cantou "Essa brisa que a juventude afaga / Essa chama / Que o ódio não apaga pelo universo/ É a evolução em sua legítima razão". A verdade é que a evolução foi o disfarce. A letra original continha explicitamente em sua letra a palavra "revolução", termo carregado de significância, mais do que o habitual, pro momento à época. Como esperado, a censura exigiu a troca, e aviões sobrevoaram o desfile do Império Serrano naquele ano, numa tentativa de abafar os desfiles. As tentativas, porém, foram falhas para uma escola com chão forte e que gravou sua coragem nas páginas de nossa história. 

A Beija-Flor e os enredos chapa-brancas



Com o governo ditatorial, as escolas de samba seriam novamente vistas como verdadeiros outdoors políticos. Em 70, o presidente da Associação das Escolas de Samba, Amauri Jório, fez uma viagem à Brasília, com o desejo de conseguir apoio financeiro para as agremiações. Com isso, durante os anos de chumbos, várias agremiações iriam de encontro aos ideais de desenvolvimento do Brasil nos anos 70, com o chamado "milagre econômico". Nesse contexto, a Beija-Flor ficaria marcada por enredos como "Grande decênio" e "Brasil anos 2000", mas ela não seria a única a promover esses tipos de desfiles. O samba da Imperatriz em 1972, sobre "Martin Cererê", também iria de certa forma as desejos do governo: "gigante pra frente, a evoluir". Além de enredos da Caprichosos de Pilares (Brasil, a flor que desabrocha), Império da Tijuca (Brasil, explosão do progresso), entre outras como Manguinhos e Unidos de Lucas. 

A chegada da contravenção 

Famosos bicheiros envolvidos com a folia: Castor de Andrade, Anísio Abraão David e capitão Guimarães.


Os anos 1970 marcariam ainda o estabelecimento definitivo de um novo cenário entre a relação das escolas com poder público. Despontariam nas escolas a figura dos bicheiros que usavam as escolas como forma de lavar dinheiro e de limpar sua imagem perante a sociedade, com liberdade para circular nos dias de folia. Desde Natal da Portela e depois com Osmar Valença no Salgueiro, a relação de algumas escolas com o poder paralelo já era estreita e se intensificou com a chegada de figuras que serviram para alavancar o crescimento das escolas e a lógica do espetáculo. Nesse cenário, as "três irmãs" (Mocidade, Imperatriz e Beija-Flor) que venceram os grupos das "4 grandes" (Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro) que se revezavam no poder, contaram todas com o apoio de seus patronos para contratar os melhores carnavalescos e conseguir bons resultados. No Mocidade, a figura carismática e controversa de Castor de Andrade fez história; na Beija-Flor, se instalou a família Abraão David e na Imperatriz, a Drummond. 

Anos 80: revolucionária e Diretas Já



Dez anos após louvarem o governo ditatorial, o discurso das escolas de samba mudaram junto com o cenário sócio-político. Num raro momento de sua história, as escolas se voltaram contra o poder estabelecido em prol de ecoar na avenida o grito pelas "Diretas-Já" na metade dos anos 1980. Tudo começou no primeiro ano da década, quando Fernando Pinto em sua "Tropicália Maravilha", escreveu "Anisita", aprovada um ano antes, na alegoria que trazia representada o Congresso Nacional em meio as onças e feijões com composições trajadas com as siglas de partidos políticos.



Em 1984, o rei da crítica política carnavalesca, Luiz Fernando Reis, colocaria de vez o pé na porta ao trazer um carro que clamava pelas "Diretas Já". A Caprichosos cantaria a "saudade dos tempos que o povo escolhia diretamente o presidente", junto a ela, a São Clemente também se caracterizaria por levar temas críticos e afiados. As duas foram seguidas pelas demais e o carnaval de 1986 marcaria esse processo. Primeira folia após o fim oficial do regime, as escolas gozaram da maior liberdade temática, quase todas as escolas levariam em seus enredos e sambas alguma menção ao contexto da época. 

Brizola e a construção do Sambódromo



Em tempos da lenta, gradual e segura abertura que o regime militar fazia para os caminhos da redemocratização, o governador Leonel Brizola e seu vice, Darcy Ribeiro, foram nomes importantes para o futuro das escolas de samba. Da parceria surgiu a ideia de construir um lugar próprio para a realização dos desfiles, com a justificativa de que o processo de montar e desmontar as arquibancadas era um processo caro, além de tirar o aspecto popular do carnaval, já que eram cadeiras. A ideia veio aliada a uma proposta educacional de abrigar um complexo educacional sob as arquibancadas ao longo de toda a passarela do samba. Foi a forma que encontrou-se de cuidar de duas questões importantes para a cidade: a educação e os gastos do Carnaval. 

Esquema empresarial e enredos patrocinados

Foto de luxuoso camarote da Sapucaí.

Com a criação da LIESA em 1985, tentaria-se implementar na festa um modelo empresarial que buscava vender o carnaval espetacular, afastando as camadas mais pobres dos desfiles. O quesito passou a mandar, e a Imperatriz passou a conhecer as regras do jogo e garantir vários campeonatos. A lógica foi seguida pela Beija-Flor nos anos 2000, e posteriormente pela Unidos da Tijuca, que ficariam conhecidas como "escolas técnicas." 

O icônico desfile patrocinado da Porto da Pedra em 2012.

Neste sentindo, as escolas de samba também ganharam o caráter de verdadeiros outdoors coloridos na Avenida, servindo como fonte de marketing e propaganda para as mais diversas marcas, produtos e até mesmo locais, cheios de estratégias econômicas e políticas. As divulgações sempre vieram acompanhadas de uma ajuda de custo, um patrocínio com boa quantidade de dinheiro para ajudar as escolas de samba. O problema, no entanto, é que muitas escolas, a exemplo da Unidos da Tijuca, sacrificaram suas notas no quesito enredo em nome da ajuda monetária de empresários. A Sapucaí, apesar de ser palco de grandes ensinamentos extremamente necessários ao nosso intelecto, muitas vezes se confunde com um grande site de anúncio ou com um mapa geográfico. O problema dos patrocínios foi o crescimento mais do que exagerado da festa, atingindo patamares encantadores aos olhos, mas problemáticos em sua estrutura. O que poderia ser uma fuga ao modelo de dependência ao poder público acabou se revelando como um novo e perigoso vilão.

César Maia e a Cidade do Samba

O busto de César Maia na Cidade do Samba.

Quem for à Cidade do Samba, entrando pelo portão principal de frente para o Porto Maravilha, dará de cara com um busto em bronze. Os mais desavisados podem achar, ainda de longe, que se trata a uma homenagem a algum grande sambista ou personalidade do carnaval, mas ao se depará com a placa logo abaixo da estátua verá o nome de César Maia. A homenagem é icônica no sentindo de entender a relação morde e assopra das escolas com o poder público, César Maia foi prefeito do Rio em várias oportunidades entre os anos 90 e 2000. Colocou seu nome na história da folia, ao inaugurar em 2005, a Cidade do Samba. Amplo e multiuso, o prometido espaço dedicado aos barracões da escolas marcaram o fim da peregrinação das agremiações pelos imundos e insalubres barracões improvisados localizados na zona portuária. Seria o reforço da chegada empresarial e industrial das escolas, ao longe de mais de 10 anos de utilização do espaço, ele se tornou sub-aproveitado pelas escolas e sem o aproveitamento do uso possível do lugar.

O prefeito pega no chocalho 



Como todo político, Eduardo Paes teve pontos irregulares e bastantes questionáveis enquanto prefeito do Rio de Janeiro. Porém, sob o ponto de vista cultural, principalmente das escolas de samba, não apresentou grandes problemas, sendo, inclusive, um declarado torcedor da Portela e admirador do festejo. Em 2010, algumas escolas foram bonificadas por uma reforma geral em suas quadras em troca do uso do espaço para eventos e projetos das secretarias da Educação e da Cultura. Em 2012, no âmbito da preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, reformou o Sambódromo da Marquês de Sapucaí com a construção de novos módulos de arquibancada. Bom ou ruim aos julgamentos do povo, a realização do acordo estreitou a relação entre as agremiações e a prefeitura, garantindo, mais uma vez, o papel de instituições importantes para o desenvolvimento da cidade como um todo. Chamaram atenção ainda uma série de enredos em louvor a cidade, muitos feitos pela sua história de coração: a Portela, mas também levado a cabo por escolas como a Estácio de Sá e a União da Ilha. 

A chegada do Bispo 

Os dirigentes de algumas agremiações apoiaram a candidatura de Marcelo Crivella.

As eleições para a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro foram calorosas. Como todo político em sua campanha, o candidato Marcelo Crivella, conhecido pela sua ligação mais do que forte com a Igreja Universal do Reino de Deus, também apresentou suas propostas às escolas de samba, parte importante da cultura e, de forma ou outra, da economia do Rio de Janeiro. Sempre questionado por seus gostos particulares e a mistura entre política e religião, Crivella manteve seu discurso habitual de que os assuntos eram pontos distintos e que a subvenção às escolas de samba permaneceria intocada. A questão é que após a negociação da LIESA e das próprias escolas com o Bispo e seus projetos, a palavra que foi dada, infelizmente, não foi cumprida.

Há poucos dias o prefeito anunciou o corte de 50% da subvenção do Grupo Especial e também da Série A, somado ao fato da não disponibilização de estrutura para que seja realizado o carnaval da Intendente Magalhães, onde as escolas dos grupos de acesso desfilam. O argumento utilizado passeou pela necessidade de investimento em creches, o que claramente se revela como uma desculpa de uma manobra que se faz para enfraquecer o carnaval e a subversão que a festa traz. As escolas de samba, encurraladas pela falta de dinheiro e por posturas equivocadas de uma Liga, se veem incapazes de proporcionar ao público o Maior Espetáculo da Terra.

A verdade é que o corte pouco fala sobre a economia e prioridades, mas muito revela sobre um gosto particular de alguém que preza pela moral religiosa e que, aos poucos, a impõe a toda uma cidade que deveria ser plural.

O futuro das escolas é imprevisível. Desde o carnaval marcante negativamente deste ano, com os preocupantes acidentes, urge a necessidade renovação da festa e sua atualização no cenário social. A maioria da população concorda com a decisão do prefeito, é chegada a hora das escolas voltarem ao seu protagonismo e marcar um novo capítulo em sua importante e fundamental história. 


Referências: Os livros "Pra tudo começar na quinta-feira", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato, e "Livro de ouro do carnaval brasileiro", de Felipe Ferreira. Além dos artigos, "O Carnaval institucionalizado no Rio de Janeiro: Programas de Turismo" e "O Carnaval carioca oficializado: a aliança entre sambistas e prefeitura do Rio", ambos de Paula Cresciulo de Almeida disponíveis onlines.





Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Mais Antigo

Visite SAL60!

Visite SAL60!

Sobre nós

About Me

Somos um projeto multiplataforma que busca valorizar o carnaval e as escolas de samba resgatando sua história e seus grandes personagens. Atuamos não só na internet e nas redes sociais, mas na produção de eventos, exposições e produtos que valorizem nosso maior evento artístico-cultural.

Siga a gente

  • twitter
  • facebook
  • instagram

Desfile das Campeãs

  • SINOPSE: Imperatriz Leopoldinense | "Me dá um dinheiro aí"
    JUSTIFICATIVA A ideia básica deste desfile, que abrange alguns assuntos mais graves, é tratá-los através de metáforas ou de forma...
  • Dossiê Carnavalize: O Carnaval das Organizadas, história que dá samba - Parte 1
    Por: Jéssica Barbosa Arte: Rodrigo Cardoso No carnaval de 2018, pela primeira vez, quatro escolas de samba oriundas de torcidas or...
  • #SérieCarnavalescos: Luiz Fernando Reis e a estética dos carnavais críticos
    Por Leonardo Antan A #SérieCarnavalescos segue valorizando nomes poucos reconhecidos da festa, com textos novos às segundas e quintas. ...
  • Uma Rosa para a Imperatriz - 18 carnavais de um casamento inesquecível
    Ela voltou! Premiada, multi-facetada, acadêmica e popular. Rosa Magalhães é das maiores artistas brasileiras em tempos. Completando ci...
  • Viradouro escolhe seu samba para o carnaval 2018
    Por Beatriz Freire A torcida da parceria campeã na Viradouro (foto: site Carnavalesco) ⁠⁠⁠Inaugurando a temporada das primeiras finais...
  • Do Churrasco à Sapucaí: como o Marquês virou enredo da Beija-Flor
    por Guilherme Peixoto A família Dornas sempre foi apaixonada por carnaval. Por lá, todos os churrascos terminam em samba-enre...

Total de Carnavalizadas

Colunas/Séries

sinopse BOLOEGUARANÁ 7x1 carnavalize Carnavalizadores de Primeira Quase Uma Repórter 5x colablize série década artistas da folia giro ancestral SérieDécada quilombo do samba Carnavápolis do setor 1 a apoteose série carnavalescos série enredos processos da criação dossiê carnavalize Na Tela da TV série casais 10 vezes Série Batuques Série Mulheres Série Padroeiros efemérides minha identidade série baluartes série sambas

Carnavalizações antigas

  • ▼  2023 (38)
    • ▼  ago. (1)
      • Projeto "Um carnaval para Maria Quitéria" valoriza...
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (1)
    • ►  fev. (28)
  • ►  2022 (41)
    • ►  dez. (1)
    • ►  jul. (1)
    • ►  jun. (5)
    • ►  mai. (1)
    • ►  abr. (30)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (1)
  • ►  2021 (10)
    • ►  set. (4)
    • ►  jun. (1)
    • ►  mai. (1)
    • ►  mar. (2)
    • ►  fev. (2)
  • ►  2020 (172)
    • ►  dez. (8)
    • ►  nov. (17)
    • ►  out. (15)
    • ►  set. (13)
    • ►  ago. (19)
    • ►  jul. (16)
    • ►  jun. (15)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (11)
    • ►  mar. (10)
    • ►  fev. (33)
    • ►  jan. (5)
  • ►  2019 (74)
    • ►  dez. (2)
    • ►  nov. (5)
    • ►  ago. (4)
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (4)
    • ►  abr. (2)
    • ►  mar. (35)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (12)
  • ►  2018 (119)
    • ►  dez. (1)
    • ►  out. (6)
    • ►  set. (1)
    • ►  ago. (3)
    • ►  jul. (5)
    • ►  jun. (20)
    • ►  mai. (12)
    • ►  abr. (5)
    • ►  mar. (3)
    • ►  fev. (42)
    • ►  jan. (21)
  • ►  2017 (153)
    • ►  dez. (28)
    • ►  nov. (7)
    • ►  out. (8)
    • ►  ago. (5)
    • ►  jul. (12)
    • ►  jun. (7)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (7)
    • ►  mar. (7)
    • ►  fev. (49)
    • ►  jan. (13)
  • ►  2016 (83)
    • ►  dez. (10)
    • ►  out. (3)
    • ►  set. (9)
    • ►  ago. (22)
    • ►  jul. (39)

Created with by ThemeXpose