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Carnavalize

 



por Artur Paschoa

Mais uma vez, o resultado final da apuração das notas dos desfiles das escolas de samba de São Paulo deixou aqueles que acompanhamos o carnaval paulistano com um gosto amargo na boca. Pela segunda vez em quatro carnavais, quatro escolas empataram no topo da tabela do Grupo Especial, definindo-se o título através de notas em teoria descartadas. Essa situação não é mero acaso, mas fruto de um modelo de julgamento implementado e reforçado pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LigaSP) nos últimos anos.

Fundamentalmente, o modelo adotado pela LigaSP estabelece grandes restrições à possibilidade dos jurados de penalizarem as escolas, diminuindo o número de pontos retirados das agremiações e produzindo dois fenômenos simultâneos: apurações cada ano mais acirradas, como evidenciado pela ocorrência dos dois empates quádruplos, e a chamada “chuva de 10”, já característica das apurações paulistanas. Não se trata de simples impressão; neste ano, das 504 notas atribuídas pelos jurados às 14 escolas do grupo especial, apenas 120, ou 23,8%, não foram a nota máxima. A título de comparação, no carnaval carioca, 46,9% das notas atribuídas tiveram desconto.

Ainda mais grave que a banalização da nota 10 — que ironicamente o manual do julgador da própria LigaSP alerta como prejudicial ao espetáculo — é o desequilíbrio gerado entre os próprios quesitos em julgamento. Neste ano, pela terceira vez consecutiva, nenhuma escola do grupo especial foi penalizada no quesito Samba-enredo, desconsiderando os descartes. Ora, qual o sentido de um quesito que não é capaz de diferenciar a apresentação das escolas? É justo dizer que não houve qualquer diferença qualitativa em letra e melodia entre os 42 sambas do grupo especial que passaram pelo sambódromo do Anhembi nos últimos três carnavais?

Infelizmente, o problema tampouco restringe-se ao quesito Samba-enredo: Harmonia, que neste ano não penalizou nenhuma agremiação, retirou apenas um décimo em 2020 e dois décimos em 2019; Bateria, um décimo neste ano, dois décimos em 2020 e nada em 2019; Enredo, dois décimos neste ano, quatro em 2020 e três em 2019.

Mais do que a simples constatação de que quatro dos nove quesitos em julgamento foram virtualmente inúteis nos últimos carnavais, fica evidente a desvalorização dos quesitos musicais e de chão, em favor dos quesitos visuais e coreográficos. Neste ano os quesitos que mais despontuaram as escolas foram Evolução (1,3 ponto) e Mestre-sala e Porta-bandeira (1,2 ponto); em 2020, Alegoria (4,1 pontos) e Fantasias (2,6 pontos), que juntos foram responsáveis por mais da metade do total de deduções; e em 2019 Alegoria (2,4 pontos) e Comissão de Frente (2,3 pontos) — naquele ano, todos os demais quesitos somados foram responsáveis pela subtração de apenas mais 2 pontos.

A Águia de Ouro conquistou seu primeiro título na folia em 2020. (Foto: R7)


Esse modelo produz graves distorções sobre o que entendemos como a manifestação cultural e artística das escolas de samba. Hoje, uma agremiação paulistana que não possua a mesma estrutura de barracão ou patamar financeiro, com alegorias e fantasias que não atinjam o mesmo nível de acabamento que de suas coirmãs, por exemplo, não consegue mais encontrar na força de um enredo poderoso ou de um grande samba a possibilidade de se colocar em pé de igualdade. 

Evidentemente que a trajetória recente das agremiações reconhecidas como mais tradicionais da folia paulistana é bastante complexa, mas não é difícil ver o impacto desse modelo de julgamento sobre escolas que sempre tiveram no samba e no chão seus principais trunfos. Não custa lembrar que neste ano, o Vai-Vai foi novamente rebaixado ao Grupo de Acesso I, onde se juntará à Nenê de Vila Matilde e ao Camisa Verde e Branco; Leandro de Itaquera e Unidos do Peruche disputarão ano que vem a terceira divisão do carnaval paulistano. Não se trata de achar que essas escolas merecem tratamento especial, mas de entender que o modelo de julgamento da LigaSP prioriza aspectos de um desfile diferente daqueles em que essas agremiações costumam se destacar, deixados de lado na avaliação oficial.

Ao ultrapassarmos a camada meramente quantitativa das deduções em cada quesito e nos debruçarmos sobre o que efetivamente vem sendo penalizado, encontramos um problema ainda mais grave. O manual do julgador da LigaSP torna explícita sua busca por um julgamento estritamente “objetivo”: “O julgamento é a tentativa de dar consistência técnica a um desfile de escola de samba, fazendo com que os julgadores se tornem a média matemática do espetáculo, levando em consideração menos sua subjetividade e mais critérios técnicos previamente definidos que ‘medem’ o equilíbrio de cada escola. (...) Lembramos que não é função do julgador gostar ou não da exibição de um quesito, mas sim analisar o desempenho técnico do mesmo”.

O manual ainda define com grande detalhamento o que deve ou não ser punido em cada um dos quesitos, e em que medida, apresentando inclusive uma lista de “termos subjetivos” interditados de serem utilizados nas justificativas das notas. A consequência dessa metodologia que busca a objetividade absoluta é um julgamento mais semelhante a uma conferência de critérios que devem ser cumpridos do que à avaliação de uma expressão artística e, portanto, inerentemente subjetiva. Ironicamente, o manual da LigaSP estampa logo na terceira página uma frase do pesquisador Hiram Araújo: “Se o ato de julgar fosse simplesmente uma conferência de requisitos básicos, não haveria a necessidade de jurados e sim uma comissão fiscalizadora realizaria o trabalho”.

Para não ter dúvidas de que o corpo de jurados da LigaSP tem atuado mais como comissão fiscalizadora do que como órgão capaz de efetivamente produzir um julgamento sobre o que é apresentado por cada escola, basta olhar com mais atenção para a maneira como a entidade instrui os jurados a realizarem seu trabalho. Primeiramente, a tarefa de “ponderar e analisar até que grau a agremiação cumpriu a totalidade dos requisitos”, nas palavras de Araújo, é tomada pela própria entidade, que apresenta para cada quesito uma tabela que indica qual deve ser o desconto aplicado à nota para a quantidade de “ocorrências” de cada agremiação. Além disso, a tabela ainda indica e exemplifica quais são essas ocorrências passíveis de punição, por vezes dividindo em subquesitos.

O quesito Alegoria, por exemplo, um dos principais responsáveis pelas deduções dos últimos anos (0,8 ponto neste ano, 4,1 em 2020 e 2,4 em 2019) é subdividido pela LigaSP em Execução — se as alegorias apresentadas estão de acordo com o descrito pela escola na pasta entregue aos jurados —, Realização — variação de cores e formas, proporção das esculturas e volumetria da alegoria — e Acabamento. Fica claro que há pouco ou nenhum espaço para avaliação da concepção das alegorias, ou seja, se transmitem a mensagem proposta pela escola para aquele momento do desfile e se o fazem de maneira plasticamente adequada. 

É vedada ao jurado a possibilidade de avaliar se a produção artística da escola é interessante, se engaja e atrai visualmente, ou se oferece uma plástica simplória e monótona. Seu trabalho se limita, portanto, a uma simples conferência. Os elementos estão de acordo com o descrito na pasta? Não há rasgos ou amassados? As esculturas estão na proporção “correta”? Se o conjunto de alegorias preencher todos os requisitos, o jurado é forçado pelo manual a conceder a nota máxima, ainda que possa ter uma opinião diferente sobre a plástica apresentada.

Observando as justificativas dos jurados de Alegoria no carnaval deste ano, das 20 notas inferiores à máxima, 13 se tratava apenas de problemas de acabamento nas alegorias, quatro apontavam também problemas de proporção nas esculturas, três a presença de elementos alheios à alegoria e uma a divergência com o apresentado na pasta. O mesmo se repete nas justificativas apresentadas para o carnaval de 2020, em que as falhas de acabamento são responsáveis pela grande maioria dos pontos deduzidos.

A Tucuruvi criticou os rumos da folia paulistana em seu desfile em 2022. (Foto: Metrópoles)


Tal filosofia de julgamento, baseada na tentativa invariavelmente frustrada de enquadrar em critérios absolutamente objetivos uma manifestação de natureza artística, incentiva as escolas não a uma produção cultural complexa, ousada ou impactante, mas à reprodução de modelos simplistas, de fácil produção e acabamento, seja em alegorias, aqui tomadas como exemplo, ou em qualquer dos demais quesitos. Alguma escola paulistana ousaria a criação de uma alegoria produzida inteiramente de lixo do carnaval, que dificilmente pode ser descrita com exatidão numa pasta, como a apresentada pela Grande Rio no encerramento de seu carnaval campeão deste ano? Não porque falte criatividade ou competência aos artistas e trabalhadores engajados na produção do carnaval paulistano — mas as escolas topariam o risco de sofrerem sanções de “acabamento”, “proporção” ou “fidelidade à pasta”?

Na prática, esse modelo de julgamento tende a um acomodamento completo das escolas, a esta altura já acostumadas à produção de desfiles protocolares, muito mais propícios a produzirem bons resultados na apuração. Na busca por um carnaval livre de “subjetividades”, a LigaSP se livrou também da criatividade, da ousadia e da inovação em todas as diversas facetas de uma manifestação cultural tão complexa quanto as escolas de samba. Ao invés de rumar “ao maior carnaval do Brasil”, os desfiles das escolas de samba paulistanas rumam a passos largos à monotonia e ao esquecimento.

Corrigir o rumo ainda é possível, mas as mudanças precisam ser drásticas e imediatas. É preciso olhar para as raízes do carnaval de São Paulo, como nos mostrou este ano a Acadêmicos do Tucuruvi em seu desfile-protesto, cuja colocação quase no fim da tabela é a prova viva daquilo que critica:

"E hoje a alma do sambista
Engessada nessa pista
Onde quem tem muito pode mais
Um show que só impera a vaidade
E o samba de verdade vai ficando para trás
Os baluartes que fizeram nossa história
Esquecidos na memória
Implorando o seu valor
No choro da velha baiana, há esperança no olhar
E a força da nossa raiz ninguém pode calar"



Arquiteto e urbanista pela USP e graduando em Cenografia pela UFRJ, Artur Paschoa integra a equipe do carnavalesco Edson Pereira, atualmente no Acadêmicos do Salgueiro. Participa também do Observatório de Carnaval (OBCAR - LABEDIS/MN/UFRJ), onde desenvolveu pesquisa acerca do imaginário das favelas nos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, e é carnavalesco no Carnaval Virtual.
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por Beatriz Freire e Juliana Yamamoto
Revisão: Leonardo Antan e Felipe Tinoco
Arte: Vitor Melo

Com o calendário inicial da nossa série #GiroAncestral planejado para quatro semanas seguidas ao longo do mês de junho, escolhemos encerrar nosso breve ensaio sobre a arte do casal de mestre-sala e porta-bandeira com o presente texto, um resumo simplificado sobre os manuais e análises de julgamentos dos casais do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Para falar sobre a boa recepção da série, além de agradecer a todos que leem semanalmente nossas produções, anunciamos um texto extra para a próxima semana, ainda quarta-feira, para fechar com chave de ouro. Agora, é chegado o momento de falarmos mais um pouco sobre os elementos que envolvem a avaliação de cada um dos casais.


Análise de julgamento: Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, os jurados são guiados por um manual sucinto e sem grandes restrições. Pouco aprofundado, ele abre brechas para considerações dos julgadores que estão revestidas de maior grau de subjetividade do que aqueles que já são intrínsecos ao exercício do julgamento, por mais que disponham e estejam submetidos ao uso de parâmetros para fazerem suas considerações e atribuições de notas. Assim, sem engessamento e inflexível rigor, muitas vezes os jurados acabam criando costumes que servem como diretrizes não explícitas em texto, mas extraídos do gosto desses profissionais, seja no modo de vestir e até mesmo de bailar. 

Cintya e Rodrigo, o casal da Porto da Pedra, no desfile de 2019, com vestes majestosas, ao gosto do júri. Foto: Juliana Dias/SRZD.
Aliás, o primeiro ponto disposto no instrumento de avaliação é a indumentária dos defensores da escola, atendendo a adequação à dança, formas e acabamentos que imprimam beleza e bom gosto. Não é raro que se encontre referências que digam que o casal, independentemente do enredo, deve se adequar ao visual de nobreza da narrativa que se conta, sem que se deixe de lado a ideia de que eles são, por natureza, figuras majestosas. Hoje, por exemplo, é difícil pensar em uma fantasia de casal de mestre-sala e porta-bandeira que será unanimemente recepcionada com bons olhos pelo júri sem ter os elementos que eles entendem que atribuem riqueza e identidade opulenta ao visual, como muitas penas dos mais variados tipos em saias e costeiros, imprimindo uma estética um tanto quanto hegemônica ao visual do quesito. 

No nosso primeiro texto, discorremos sobre o ponto do casal em qualquer momento não poder sambar, tendo como dever, na verdade, bailar ao ritmo do samba, o que compõe uma das diretrizes técnicas de avaliação dispostas no manual. A execução de passos característicos da dança é obrigatória, com “meneios, mesuras, giros, meias-voltas e torneados, sendo obrigatória a sua exibição diante dos módulos de julgamento”, como dispõe o livro. Não será mera coincidência encontrar muitos pontos aqui relacionados a assuntos dos quais já tratamos anteriormente nos três textos produzidos na série. Todos os elementos técnicos e de visual exigem treino, preparo e um pensamento planejado e cuidadoso dos casais para que formem um trabalho homogêneo e de boa impressão ao aliar todos os pontos elencados, um a um.

Raphaela Caboclo e Feliciano Júnior, em 2017, no Império Serrano, substituíram as tradicionais penas por capim barba de bode. Foto: Jeanine Gall/SRZD.
Prosseguindo, deve-se notar, ainda, a harmonia entre o casal, envolvendo diretamente os papéis do mestre-sala de cortejar e defender, além de apresentar, seu pavilhão e também a sua dama, que por sua vez conduzirá e apresentará sua bandeira sempre desfraldada, sendo considerado um erro que ela se enrole em seu próprio eixo, sem nunca deixá-la sob a responsabilidade do mestre-sala. Além de erros técnicos, de entrosamento, conceito visual e execução que possam surgir, o manual carioca autoriza os jurados a despontuarem eventuais perdas ou quedas de itens que compõem a indumentária, como sapatos, costeiros, chapéus, penas, etc.

No último carnaval, em uma análise direta da justificativa, a maior incidência de decréscimo nas notas se deu em virtude da famosa teatralização. Teatralizar, para ser mais exata, é quando o casal incorpora à dança uma considerável quantidade de elementos e referências que compõem a caracterização dos papéis que estão representando narrativamente dentro do enredo, muitas vezes usando a seu serviço a letra do samba como base. Registre-se, porém, que marcar a coreografia seguindo os versos do samba-enredo nem sempre vai caracterizar a tal teatralização. Fato é que a investidura do mestre-sala e porta-bandeira nesses personagens em doses pouco moderadas acabam escanteando o pavilhão, que é, por direito, a estrela principal da apresentação de um casal. Por isso, os jurados constantemente fazem o alerta de que representar é diferente de teatralizar, e que movimentos que sugiram as referências ao que se propõe dentro do enredo são mais do que bem-vindas, desde que não ofusquem a dança que exalta a própria bandeira e o seu simbolismo ou que façam os defensores esquecerem por algum momento que são guardiões deste tal símbolo, não atores.

Marcella Alves e Sidclei, defensores do Salgueiro neste ano, representam personagens sem ofuscarem o pavilhão. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
A coreografia da arte, inclusive, é um ponto controverso do desenvolvimento do casal ao passar dos anos. A dança solta, tradicional, que conta com o jogo da imprevisibilidade e da combinação quase ao acaso dos corpos em movimentos, didatizados e acostumados um ao outro pela técnica e, principalmente, pela sintonia, não é mais vista com bons olhos como em outrora. Há de se convencionar, portanto, que é preciso ter um roteiro daquela dança, que é exaustivamente pensada e ensaiada para ser brilhantemente executada diante do júri. E tal apresentação, na visão dos julgadores, precisa ser pensada também do ponto de vista da ocupação física; o uso pouco explorado do chão da passarela como espaço cênico para desenvolvimento dos mais diversos desenhos coreográficos (círculos, diagonais, etc) é um ponto que vira uma constante repetição de alerta dos jurados em suas justificativas. Não basta dançar bonito, há de se exercitar a criatividade do bailado em seus mais diversos sentidos.


Análise de Julgamento: São Paulo

Desembarcando agora na Terra da Garoa, o quesito por lá possui um manual completo e detalhado. O casal precisa evoluir e realizar seu bailado por toda pista e o jurado deverá observá-los durante todo o campo de visão da sua cabine, não apenas quando passam à sua frente. Presente no “módulo dança”, há 3 pontos de avaliação técnica para o julgamento do quesito. O primeiro deles é o entrosamento. Nele, o jurado deverá avaliar a dança de mestre-sala e porta-bandeira considerando os seguintes pontos:

Integração do casal e seus movimentos obrigatórios: apresentar todos os movimentos presentes na dança de mestre-sala e porta-bandeira. A dama deverá realizar giros completos em 360 graus horário e anti-horário e giros no próprio eixo, enquanto o mestre-sala deverá realizar a meia-volta (giros 180 graus ao redor da sua dama, em sentido horário e sentido anti-horário - movimento de proteção), riscado (trabalho de pernas), torneados (giro em torno do próprio eixo), mesuras (menção de reverência) e meneio (a forma de conduzir sua parceira). Não pode-se também esquecer da principal função de um casal, que é a apresentação do pavilhão. Além disso, precisam realizar o minueto (dança de passos miúdos), caracterizada pela delicadeza dos movimentos e a execução dos giros e reverências um para o outro.

Uilian Cesario e Karina Zamparolli em desfile oficial da Mocidade Alegre. O casal foi nota 30 em 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.
Durante a apresentação aos jurados, na qual a realização dos movimentos é obrigatória, há outros pontos que são levados em conta durante a evolução do casal. Enquanto executa seu bailado, o mestre-sala não poderá deixar o pavilhão bater em seu corpo, assim como não deve existir choque corporal com a sua dama e nem ele deve realizar o bailado de forma individual, tornando sua parceira e o seu pavilhão como meros coadjuvantes. Os mesmos também não podem verbalizar durante a dança. A falta de elegância, simpatia e leveza da dupla durante o bailado também é muito importante e passível de perda de décimos. No último carnaval, também foi integrado um novo tópico de avaliação em entrosamento: finalização de movimentos. O casal deverá apresentar a finalização dos movimentos na dança, evidenciando e destacando ainda mais a sincronia entre os dois.

O segundo ponto de avaliação técnica é a postura do casal. Nele, avalia-se a forma de conduzir e apresentar o pavilhão com altivez, simpatia e elegância. Para isso, a porta-bandeira precisa manter o pavilhão desfraldado (aberto) em seus giros, não poderá deixá-lo enrolar no seu corpo ou no próprio mastro e a mesma também não poderá se curvar a qualquer pessoa durante sua dança, já que ostenta o símbolo maior de uma escola de samba. O mestre-sala não poderá tocar o pavilhão de forma brusca, nem encostar seu joelho no chão. Os dois em hipótese alguma podem cair durante a apresentação e o cavalheiro também não pode executar movimentos que não são direcionados ao pavilhão e à sua dama, nem dar as costas para a mesma, exceto quando estiver realizando giros no seu próprio eixo (torneados). 

O terceiro e último ponto de avaliação técnica do quesito é a integridade das fantasias. O jurado deverá verificar a indumentária do casal de mestre-sala e porta-bandeira e observar se existem tecidos rasgados, adereços quebrados, saiotes arqueados e queda ou perda de parte da fantasia, mesmo que seja acidental, como costeiros e chapéus, por exemplo. 


Marcelo e Adriana, primeiro casal da Mancha Verde, gabaritaram o quesito em 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.
Como já citado anteriormente, o manual do quesito é didático - não só para os julgadores, mas também para o público em geral. Para atribuição da nota ao casal, os erros cometidos durante a apresentação são divididos em quatro tipo de falhas: leve (1 ponto de ocorrência - 0,1); média (2 pontos de ocorrência - 0,2); grave (3 pontos de ocorrência - 0,3) e gravíssimo (4 pontos de ocorrência - 0,4). No manual, as possíveis falhas em cada ponto de avaliação técnica (entrosamento, postura de casal e integridade das fantasias) já são separados em leve, médio, grave e gravíssimo. Um casal que se comunicar verbalmente durante sua apresentação e tiverem problemas na finalização de movimentos estão realizando falhas de nível leve e perderão 0,1 por cada erro, por exemplo. Se durante o bailado o pavilhão não se manteve desfraldado, é considerada  uma falha de nível médio, e o casal em questão terá o desconto de 2 décimos.

No carnaval de 2020, a maior perda de décimos entre os  casais de mestre-sala e porta-bandeira foi no ponto de avaliação entrosamento: finalização de movimentos, considerado como erro leve. Os jurados enxergaram que houve falhas de entrosamento entre os casais, em que, ao finalizarem algum passo, o mestres-salas pararam antes das suas parceiras ou vice-versa, dando a sensação que não estavam sincronizados. Outro fato que também pode ocorrer é quando, ao terminar algum movimento, a finalização dos bailantes não era evidente e marcada. Um outro ponto também apontado pelos jurados, mas em menor escala em suas justificativas, foi a postura do casal - pavilhão desfraldado, quando a dançarina não consegue manter o pavilhão aberto todo o tempo. 


Paralelo entre as cidades


Essa fascinante arte que se mantém a cada ano e é perpetuada para novas gerações possui tradicionalidade e importância no carnaval. Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, os casais realizam a mesma dança, apresentando os seus movimentos obrigatórios, exercendo sua principal função e atribuindo o destaque ao maior símbolo de uma escola. Cada casal tem seu estilo de dança, seja tradicional ou moderno, com um bailado forte ou leve, mas todos precisam apresentar o que a arte propõe. Entretanto, o quesito possui suas peculiaridades em São Paulo e no Rio de Janeiro.

João Carlos e Ana Reis, primeiro casal do Águia de Ouro, campeã do carnaval 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.


Na Marquês de Sapucaí, os casais de mestre-sala e porta-bandeira realizam sua apresentação em frente ao módulo de jurados, enquanto em São Paulo os dançarinos precisam evoluir por toda pista e são avaliados de maneira contínua. A própria cabine no Sambódromo do Anhembi é feita para que o jurado do quesito consiga ter uma visão ampla do casal. Em relação ao bailado, não há muitas diferenças entre as duas cidades, já que os principais movimentos são obrigatórios em ambas. Entretanto, enquanto os casais cariocas montam uma coreografia específica que será realizada em um espaço determinado em frente ao módulo julgador e durante uma passada do samba-enredo, os casais paulistanos possuem uma coreografia para evoluir por toda a pista, sendo movimentos constantes. Um fato curioso é que no Rio a porta-bandeira pode se curvar durante a apresentação, em forma de reverência e respeito ao grande símbolo que ostenta. Já em São Paulo, isso é proibido e, caso alguma porta-bandeira realize esse movimento, uma falha é considerada.

Apesar do manual do quesito da cidade carioca ser mais simples do que o paulista, os jurados são trabalhados para expandir sua análise acerca da dança do casal e ir além do que está descrito no manual, que não é descritivo. Além disso, são guiados a expressarem suas opiniões nas justificativas. Por estarem há muito tempo na função, isso contribui para se aprofundarem e entenderem ainda mais o quesito. Já no carnaval de São Paulo, apesar do manual ser completo e detalhado, falta uma melhor orientação aos jurados no que se refere ao julgamento, pois há pontos para avaliação que envolvem a subjetividade, como elegância, postura e leveza de um bailado. Os mesmos necessitam de uma melhor referência e conhecimento para poder discernir o que é um bailado elegante ou não e também ter a possibilidade de ampliar sua análise além do manual, pois, caso contrário, acaba se tornando uma avaliação engessada e mecânica, principalmente no que tange às justificativas, nas quais os jurados não exprimem suas opiniões.

Ruhanan Pontes e Ana Paula em desfile oficial pela Colorado do Brás em 2020. Foto: Luciano Garcia /Faixa Amarela.

Os casais de mestre-sala e porta-bandeira possuem uma grande importância dentro de uma escola de samba e, principalmente, dentro de um desfile. Apenas duas pessoas representam um único quesito. Além de encantar o público com seu bailado, também precisam levar essa magia para os jurados. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o julgamento do quesito preza pela tradicionalidade da dança. Mesmo com a singularidade de cada cidade, é preciso compreender que a arte é uma só e que os casais estão constantemente na busca pela nota máxima. 

E você, conseguiu entender um pouco mais como funciona um julgamento de mestre-sala e porta-bandeira? Seria um bom jurado? Fique com a gente e carnavalize conosco. Semana que vem voltamos para o último capítulo dessa primeira temporada da série #GiroAncestral! 


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Por Felipe Tinoco

Quer entender as mudanças no julgamento do carnaval de 2020 do Grupo Especial carioca? Quantas notas, quantos julgadores, onde eles estarão?

De 2012 a 2019, o júri das escolas de samba contou com 4 julgadores com notas lidas por quesito, sendo a menor descartada e 3 notas válidas. Assim, desde 2015, com a extinção do quesito conjunto, a maior nota possível é de 270 pontos, feito conseguido apenas pela campeã de 2019.‬

‪Horas antes do início dos desfiles de Domingo, o júri se reúne em um prédio comercial próximo ao Sambódromo e é realizado um sorteio para definir as cabines nas quais ficarão. Até 2019, eles se dividiam em 4 módulos ao longo da avenida nestes setores: 3, 6, 8 e 10.‬


‪Em 2019, uma mudança foi feita para dar mais legitimidade e segurança ao julgamento: ao invés de apenas 4 julgadores por quesito (36 ao todo), o júri contou com 6 julgadores por quesito (54 ao todo), sendo dois módulos com duas cabines, no setor 3 e no setor 10.‬

‪Assim, outro sorteio foi realizado na quarta-feira de cinzas, escolhendo um julgador do primeiro e do último módulo que foram os responsáveis pelas notas lidas por quesito. Os outros 18 julgadores (9 de cada cabine do setor 3 e do setor 10) tiveram suas notas desconsideradas.

‪Em 2020, isso não mais acontecerá. O júri contará com 5 notas lidas, aumentando o tempo da apuração, e serão descartadas a menor e a maior nota, como ocorreu em 2010 e em 2011. Dessa forma, o máximo de pontos válidos possíveis continuará sendo 30 por quesito, e 270 no total.‬

‪Não haverá julgadores reservas, como em 2019. E, diferentemente dos outros anos, os 5 julgadores se concentrarão em três módulos: duas cabines no setor 3, uma cabine no setor 6 e duas cabines no setor 10.‬

‪Esse modelo é semelhante ao adotado em 2017, com o famoso “módulo duplo”, que se localizava no setor 6, diminuindo uma parada obrigatória das escolas para apresentar seus quesitos. Em 2020, também teremos apenas 3 paradas obrigatórias, podendo dar + dinamismo™️ às apresentações.‬

‪No entanto, além de menos pessoas assistindo às apresentações oficiais de segmentos como comissão de frente e casais de mestre-sala e porta-bandeira, esse modelo subvaloriza o meio da avenida, que terá apenas uma cabine das 5 válidas. ‪Buracos que ocorram em frente a um dos módulos duplos, por exemplo, acarretarão em dois descontos, enquanto equívocos que ocorram em frente ao setor 6, apenas um. Já deslizes em frente ao setor 8 não serão canetados, pois não estarão dentro do campo de visão de nenhum módulo.



‪Em 2017, durante a fantástica apresentação da UPM na Série A, cantando Ossain, o incidente com a porta-bandeira Jéssica ocorreu à frente das duas cabines, gerando 2 avaliações negativas sobre sua apresentação. Logo após o carnaval, as ligas resolveram acabar com o módulo duplo.‬

Antes dos desfiles, há um encontro do júri com representantes da Liga. Para 2020, durante as duas próximas semanas, os carnavalescos poderão participar nos dias de curso aos quesitos que possuam associação com seus trabalhos! Será que dará polêmica? 

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Assim como o Carnavalize, esse novo espaço aqui no site surge para dar voz a apaixonados, que escrevam, pesquisam e estudam o carnaval. Quando tivemos a ideia do site, em primeiro lugar, queríamos expor nossas opiniões e visões de como os jovens enxergavam e gostariam de contar e encontrar materiais sobre o carnaval. Sendo assim, iniciaremos essa série de textos do nosso público, entenda-se como um "espaço aberto" e sinta-se à vontade para nos mandar seu texto, crônica, artigo, o que for. Com essa iniciativa, buscaremos dar voz a pessoas, que sempre quiseram divulgar escritos sobre a festa, mas nunca tiveram um lugar - assim como nós antes do site. 


Por Gabriel Cascardo

"Dos maiores clichês existentes no Carnaval, o que diz que ele não termina quarta feira é o mais fidedigno possível. Da análise das notas rasuradas no jornal (essa tradição ainda está viva) até o aguardo interminável pela justificativa dos jurados, inúmeras suposições são criadas até termos acesso as ponderações que descontaram pontos das escolas. Acho que o inconformismo desse processo não coube no meu corpo e esse texto ganhou forma.

2017 foi o ano mais atípico possível. Creio que não para ser esquecido, mas sim para ficar bem vivo. Servir de exemplo e oportunidade (gigantesca) de melhoria. Hoje, vejo que cosmologicamente falando, era impossível não haver respingos no julgamento e consequentemente na apuração depois dos quatro dias de caos ocorridos na Sapucaí.

Antes dos nossos olhos visualizarem todos os problemas supracitados, a definição de uma nova segmentação para os jurados já causou dúvidas e desconfiança. A tal “cabine dupla de julgamento” praticamente no meio da avenida parecia ter nascido fadada ao fracasso (dela e de agremiações). O resultado não foi diferente do imaginado. Meses depois da sua estréia na Sapucaí, ela foi extinta com a inacreditável média de 0,1 pontos de diferença por jurado do mesmo quesito, 57% de suas notas sendo descartadas (dados do grupo de acesso) e um carnaval tragicamente decidido no setor 6.

Todo ocorrido no último carnaval me gerou mais questionamentos sobre o formato de julgamento no carnaval do Rio de Janeiro. Em grupos e fóruns, percebi o mesmo sentimento. Sendo assim, como folião, venho discutir algumas percepções (conspirativas ou não hahahaha) que tenho e não aparece no caderno de justificativas:

1. Alguns jurados criam pré disposições com o dia do desfile.
E consequentemente, posição/data no desfile. De 1984 pra cá (quando o carnaval foi fragmentado em dois dias), apenas 6 escolas foram campeãs (18%) foram campeãs no Domingo. Já no acesso, todas as campeãs desfilaram no Sábado.

2. Alguns jurados julgam por comparação.
E desta forma, as primeiras escolas tendem a ser mais descontadas, pois não há o comparativo para argumento inicial-pessoal de descontar a sequente ou não. Isso também leva/retorna a teoria do “Julgamento por bandeira”, onde as escolas de menos peso tendem a ser prejudicadas.

3. (E mais grave) O quesito conjunto ainda é julgado.
E sem dúvidas, é o ponto que mais me incomoda. Tenho a total impressão que muitas vezes os jurados deixam passar alguns detalhes técnicos do quesito que está sendo julgado por ser um desfile que possivelmente estará disputando o título dias depois.  Não gosto de  qualquer agremiação como bode expiatório, mas temos exemplos claros em comissão de frente em 2017, Evolução em 2015, Alegorias e Adereços em 2014, entre outros.

4. O quesito Samba Enredo tem um “Q” de Harmonia para os jurados.
E aí entra a terrível definição, “O samba aconteceu na avenida.” Por regulamento, letra e melodia devem ser avaliados de forma separada a fim de alcançar a pontuação da agremiação no quesito. O que vemos recentemente são sambas com claros problemas melódicos e com má construção para demonstrar o enredo com inúmeras notas 10 por passar de forma avassaladora na avenida.

5. As bandeiras são tão julgadas.
Some os 4 tópicos acima aos resultados recentes e a definição deste último tópico se torna de conhecimento público.

Concordam com alguns dos tópicos? Tem alguma percepção similar que não foi citada?


Espero que na próxima quarta de cinzas estejam com olhos atentos as notas a partir do que foi citado acima. E lembrem-se (mais um ponto inacreditável), só verão as justificativas meses depois da apuração. Creio que exista uma corrente que acredita na quaresma das notas e que todos serão perdoados por suas avaliações até a Páscoa." 

Confira abaixo a análise feita por Gabriel Cascardo das notas da cabine dupla na Série A do carnaval carioca. (Clique para ampliar)



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