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Carnavalize

 



Tupana, criador das boas coisas do mundo, reinava no alto do céu na forma de A’at, o sol, enquanto seu irmão oposto, Yurupari, sob a proteção de Waty, a lua, regia as más na escuridão. Assim, as ações entre os dois deuses estabeleceriam o equilíbrio cíclico de Monã, as forças cósmicas geradoras do universo.

Contam que três irmãos, os varões Yucumã e Ukumã’wató e a bela Anhyã-Muasawê, viviam em Nusokén, uma floresta encantada, abundante, onde até as pedras poderiam falar.

Anhyã-Muasawê era a guardiã, a dona de Nusokén, pois detinha o conhecimento das plantas medicinais. Não existia folha que ela não conhecesse o poder. De tão bonita e habilidosa, todos os animais de Nusokén se enamoraram por ela, o que mergulhava seus irmãos no ciúme.

Certo dia, uma cobra verde tomada de amor usou o perfume de uma flor para atrair Anhyã-Muasawê e com apenas um toque em seu pé a fez engravidar. Quando Yucumã e Ukumã’wató descobriram a gravidez indesejada por eles, possuídos pela má energia de Yurupari, expulsaram a irmã e tomaram para si o controle do paraíso Nusokén, a proibindo de voltar. Ela e a criança que nasceria.

Anhyã-Muasawê vai para uma mata distante dar à luz a Kahu’ê, o kurumin mais bonito e alegre que já existiu. Kahu’ê era uma criança prodigiosa, dizem que começou a tagarelar bem cedo. Olhos vivos, atentos para as muitas perguntas que brotavam de sua curiosidade inocente. Fartava-se dos frutos que a floresta com bom grado lhe dava, mas havia uma iguaria que não era permitida a ninguém e que Kahu’ê se apetitou: a castanha da castanheira sagrada de Nusokén. Aquela, primeira, brotada das patas de uma onça e que estava sendo vigiada pela cotia e pelo macaco, Hanuã-Xuin, a mando dos irmãos Yucumã e Ukumã’wató.

Chegando lá, o kurumin arteiro subiu na árvore e saciou a fome até o cair da noite como se dono fosse daquele fruto proibido. Na verdade, era mesmo herdeiro daquelas terras, já que sua mãe seria senhora de Nusokén por direito.

Ao saberem pelos vigias da violação da castanheira sagrada, os tios de Kahu’ê, obsediados pelo espirito da inveja, invocaram Yuyrupari, que se transformou em uma serpente terrível e tirou a vida do pequeno índio.

Anhyã-Muasawê ouviu o grito de longe, correu em socorro a seu filho, mas não pôde evitar o pior. Uma tristeza súbita tomou aquela terra. O mal de Yurupari parecia ter vencido ao exterminar a existência de Kahuê quando os raios de Tupana rasgaram as nuvens. Ao tocarem o solo, falaram ao coração da mãe ferida que aquela maldade se tornaria bênção. Anhyã-Muasawê se transformou num pássaro, levou seu filho para os arredores do rio Maráw, enterrou os olhos do kurumin e os regou com suas lágrimas.

O olho esquerdo plantou em terras amarelas, do qual nasceu uma planta que não prestava. Era o Waraná-Hôp, o falso guaraná. O olho direito, plantado em terras pretas, gerou o Waraná-Sése, o verdadeiro guaraná. Com ele, Anhyã-Muasawê fez um elixir mágico para longa vida ao povo que floresceria das entranhas de Kahu’ê, enterrado embaixo de uma Abiu’rana. Seu ajudante, o passarinho Karaxué, cantava sua mais bela melodia quando Mary-Aypók nasceu do corpo de Kahu’ê. Era o “originador”, o primeiro Mawé. Tupana deu a ele de presente a língua que só era falada pelos seres de bem que o acompanhavam, chamada Sateré, a lagarta de fogo.

O segundo Mawé nascido da criança enterrada foi Wasary-Pót, o irmão gêmeo do “originador”.

Os irmãos cresceram. Mary-Aypók se casou com Ahút-Piã, a filha do papagaio, e concebeu o significado da palavra Mawé, o papagaio falante. Wasary-Pót desposou com Hano’onapiã’hop, filha da arara-piranga, e seus descendentes dariam as mais belas penas para adornar o povo que surgia.

O bendito kurumin Kahu’ê, fruto da união entre a ancestralidade indígena e os animais, renascia em uma raça de pele vermelha como a cor da pele do sagrado Waranã. Estava iniciada a nação Sateré-Mawé, o povo do guaraná. Descendente do fruto que cura as doenças das almas cansadas, dos fracos, que fortalece e devolve a força, a juventude. Revive.

Organizaram-se em clãs, construíram identidade e desenvolveram ritos e mitos regados a guaraná, pintados e gravados com branco do barro taguatinga, preto do jenipapo e vermelho urucum no remo sagrado Puratig.

Do bastão de guaraná ralado criaram o Çapó para beber nas festas, pajelanças e no Waymat, onde as tucandeiras iniciam os jovens para a vida adulta como símbolo de renascimento sob o comando dos Tuxauas.

Porém, não se engane em pensar que Yurupari descansou de sua maldade predatória, que deixou a vida na floresta em harmonia. Ele se fez ressurgir ao longo do tempo em colonizadores, missionários religiosos enviados às aldeias, caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais, grileiros de terras… Pelos desmatamentos e queimadas, os filhos-demônios de pele clara de Yurupari seguem semeando o caos em nome do capetal.

Mas os filhos do guaraná, peles vermelhas do Brasil, são predestinados, pois apenas povos sábios, de espiritualidade elevada, são capazes de reexistirem encantados pelas matas, acaboclados nos terreiros onde bradam sua força e encontrarem com os espíritos infantis de erês e ibejadas que, quando “chegam”, gostam de tomar guaraná.

Assim, completando o ciclo da eterna renovação, enfim o curumim Kahu’ê é elevado ao paraíso prometido Mawé, Nusokén, ou à Jurema, ou à Aruanda, quando na gira as crianças bebem seu guaraná e vão brincar.

Elas são a prova que o espírito do amor é muito maior que o ódio semeado por Yurupari.

Ele não vai vencer. Ele nunca irá nos exterminar.

Yiurupari jamais triunfará.

 Texto: Jack Vasconcelos

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A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!  

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na listagem principal.

Artes e visual: Vitor Melo.
Texto: Beatriz Freire, com colaboração de Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco

Não se constrói um carnaval sem mentes pensantes e muitos agentes que atuam nos bastidores da festa colocando a mão na massa e virando noites em claro para brilharem no grande dia. Se viemos nos últimos textos discutindo os melhores sambas e as apresentações mais marcantes da folia, hoje lembraremos os grandes artistas por trás desses verdadeiros espetáculos, figuras fundamentais para pensar a transformação da festa no período de tempo dessa década.

Passeando pelos mais diversos segmentos e abrangendo o maior número de representantes possíveis, o Carnavalize selecionou 10 personalidades simbólicas dos anos 2011-2020. Na seleção estão presentes carnavalescos experientes, estreantes no período, revolucionários. Também perambulam por aqui um casal tão unido que vale como uma figura única; um intérprete apaixonado e uma porta-bandeira apaixonante; um mestre da bateria e outro das palavras e melodias; um dirigente de uma instituição e outro de uma bateria, o coração de toda escola. 

Se você não está se aguentando de curiosidade, é só rolar a página e se deliciar com os grandes profissionais que marcaram a década nesta debatida lista! (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Marcos Falcon 
(Presidente da Portela)
Marcos Falcon comandando um ensaio técnico da Portela na avenida. Foto: Leandro Andrade/Facebook da Portela.
Para falar da primeira personalidade desta lista, precisamos fazer o recorte do momento que vivia a Portela no início da década. O carnaval de 2011 foi de lamento para a escola. Após um incêndio na Cidade do Samba que atingiu o barracão da azul e branca – e de mais duas coirmãs – a pouquíssimos dias do carnaval, o desafio era recuperar os prejuízos que destruíram praticamente um ano inteiro de trabalho. Cabem, aqui, parênteses para introduzir ao leitor que nesse mesmo ano Marcos Falcon assumiu o cargo de diretor cultural da agremiação, ainda na gestão de Nilo Figueiredo. 

Apesar de não ter sido julgada naquele ano, o momento sobre o qual a escola atravessara marcou o ápice de uma crise financeira e administrativa em Madureira. Nos carnavais seguintes, mesmo com enredos interessantes e bons sambas, a Portela simplesmente não acontecia dentro da avenida, como reflexo das problemáticas que envolviam a gestão e o barracão. As eleições de 2013 colocaram em apertada disputa as chapas “Portela Nossa Paixão”, representada por Nilo, e “Portela Verdade”, encabeçada pela figura de Serginho Procópio, tendo Marcos Falcon como vice. Estes saíram vitoriosos e a oposição tomou conta da agremiação. É aí que nasce para o carnaval a importância do ofício de Falcon. Inicialmente, trabalhou ao lado do então presidente, Serginho, e foi ganhando protagonismo aos poucos no processo de reconstrução administrativa e, ousa-se dizer, identitária da agremiação.

Falcon foi homenageado na última alegoria do carnaval campeão de 2017. Foto: Vítor Melo/Carnavalize.
Uma instituição do tamanho e da importância da Portela apenas não podia aceitar as dificuldades que vinha enfrentando sem ao menos lutar para mudar e se reerguer. A partir do carnaval de 2014, com um lindo desfile sobre a Avenida Rio Branco e a história do Rio de Janeiro que lá pulsa, acontece o resgate do orgulho e da competitividade portelense, abrindo uma série de bons e ótimos carnavais que voltaram a figurar na parte mais alta da tabela, diretamente na briga pelo título. Nos anos em que isso não aconteceu, como no caso de 2015, quando terminou em 5º lugar com a inesquecível Águia Redentora, ainda havia motivo de sobra para a escola ser feliz pelo trabalho realizado de forma contínua. Todos os passos tinham o dedo de Falcon. Foi ele, inclusive, o responsável pela chegada de Paulo Barros à escola para o carnaval de 2016. Nesse mesmo ano, no mês de setembro, em um de seus comícios para o cargo de vereador, Falcon foi assassinado. O então vice-presidente e ex-diretor cultural da escola Luis Carlos Magalhães assumiu o cargo e levou a Águia para o seu sonhado título, após seu histórico jejum. Ainda que sem a presença física de Falcon, fato é que é impossível falar da Portela que temos hoje, assim como do seu campeonato de 2017, deixando de associar o sucesso da escola à figura do ex-presidente. São esses motivos suficientes para fazê-lo digno de representar os dirigentes da folia enquanto uma das personalidades da década.

Paulo Barros 
(Carnavalesco)
A personalidade no desfile das campeãs em 2019, acima da fênix da Viradouro. Foto: Raphael David/Riotur.
Não há como falar nos dez anos comentados sem pensar em Paulo Barros. A década tem o recorte temporal de 2011 a 2020, mas faremos uma rápida menção ao carnaval de 2010 para relembrar o histórico desfile “É Segredo”. O famoso carnaval do artista deu um título à Unidos da Tijuca 74 anos depois de seu primeiro, e até então único, campeonato. Paulo, portanto, iniciou a década como o carnavalesco campeão do carnaval, sendo o principal nome por trás de grandes mudanças na festa. É dele, inclusive, a responsabilidade pela presença massiva de pessoas como arremates principais nas alegorias e pela pirotecnia de efeitos especiais - com direito até a botar fogo na porta-bandeira em pleno desfile, como fez com Lucinha Nobre, em 2015, na Mocidade. 

Outro ponto muito conhecido de Paulo foi a interferência no trabalho dos coreógrafos de comissão de frente. Depois da parceria com Priscilla e Rodrigo na Unidos da Tijuca, o carnavalesco ficou conhecido por sempre dar uma opinião a mais no trabalho de outros profissionais, chegando a influenciar a contratação de novos nomes para a Portela a vinte dias do carnaval. Aliás, foi ao povo de Madureira que ele deu um título que chegou depois de trinta e três sonhados carnavais, no de 2017. Anos depois, também esteve à frente da retomada da Viradouro, já no Grupo Especial, quando a escola conquistou um surpreendente vice-campeonato vinda da Série A, outro marco histórico. Figura midiática do carnaval, Paulo Barros dá o que falar, mas tem seu público fiel, ainda que os seus efeitos em alegorias não surpreendam tanto quanto no início da década. Não tem como dispensar a importância de um carnavalesco sempre muito comentado, que marcou expediente em cinco escolas diferentes no último decênio e esteve por trás de momentos marcantes e polêmicos.  

Relembre algumas características marcantes do estilo de Paulo Barros na nossa coluna 10 Vezes. Você também pode ouvir uma entrevista com o artista antes do carnaval de 2020 em nosso podcast.

Leandro Vieira 
(Carnavalesco)
O vigor de nossa personalidade do fantástico desfile de 2019 da Mangueira. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
Leonino e modesto, Leandro Vieira disfarça quando o assunto é protagonismo, importância de seus feitos e marcos na festa. O artista começou os últimos dez anos ainda por trás dos holofotes, como assistente de carnavalescos como Fábio Ricardo e Cahê Rodrigues. Trabalhar em uma escola de samba nunca foi diretamente um objetivo ou sonho, simplesmente aconteceu ao artista. E foi em 2015, nesses acasos, que o jovem carnavalesco foi contratado pela Caprichosos de Pilares para assinar seu primeiro carnaval solo, em um momento financeiramente difícil que era enfrentado pela escola. Após uma apresentação comentada e elogiada sobre o comércio popular, a Mangueira, também em crise e sem condições de arcar com artistas renomados da festa, resolveu apostar as fichas no talentoso e promissor rapaz. E não é que deu certo? 

Em 2016, ano de sua estreia no Grupo Especial e na velha Manga, Leandro rendeu uma homenagem brasileiríssima e com a cara da escola à Maria Bethânia, icônica figura da cultura brasileira. Do encantamento na pista ao grito de campeão na quarta de cinzas, o jovem artista assumiu a ponta do carnavalesco mais comentado e esperado da segunda metade desta década. Em cinco carnavais pela Mangueira, rumo ao sexto, o que se viu foi uma chuva de bons resultados, estética e narrativas expressivas, criando imagens e obras tão icônicas que repercutiram país afora. Leandro não tem papas na língua, nem faz questão de atribuir a si mesmo o título de um grande nome ou de artista fundamental; apenas afirma seguir suas crenças próprias. Expoente da arte brasileira, ele levou o carnaval e sua arte aos museus, com exposições no Paço Imperial e no Museu de Arte do Rio. Queira ele ou não, o Carnavalize faz questão de frisar a importância de um talento incontestável, já dono de um legado na Mangueira e responsável pelo reencontro da Imperatriz consigo mesma após um rebaixamento. No próximo carnaval, mais uma jornada dupla de muita responsabilidade: além da Mangueira, a dura missão de trazer de volta a majestade do Império Serrano para a elite da Sapucaí. Leandro Vieira faz tudo!

Confira nosso artigo que mapeia as referências artísticas do carnavalesco em seus primeiros carnavais na coluna Carnavalizadores de Primeira. Além disso, Leandro também já foi entrevistado na série Processos da Criação. Para o carnaval de 2020, foi o convidado de estreia do nosso podcast.

Squel Jorgea 
(Porta-bandeira)
O desbunde de Squel no desfile campeão de 2016. Foto: Alexandre Macieira/Riotur.
A Squel tá careca! Mas muito mais que isso, a história dessa porta-bandeira se destacou na década em que desabrochou e marcou sua ligação com a mais querida do planeta. Não bastasse carregar o sangue de Xangô da Mangueira, seu avô, Squel é uma porta-bandeira de ponta do carnaval carioca. Apesar dos elos familiares com a Estação Primeira, nossa personalidade solidificou sua carreira em quatorze carnavais portando o pavilhão da Grande Rio, escola frequentada pelo pai, na qual permaneceu até 2012. Depois de uma breve passagem pela Mocidade em 2013, ela chegou no ano seguinte à Mangueira, uma extensão de sua casa, para alçar voos ainda maiores em sua carreira. A estreia na Velha Manga não trouxe os sonhados quarenta pontos, mas a conquista era questão de (pouquíssimo) tempo. Dona de um estilo clássico e muito próprio, Squel se firmou como uma potência do quesito e uma verdadeira referência da arte.

A partir de 2015, quando foi vencedora do Estandarte de Ouro, a porta-bandeira não perdeu nenhum décimo das notas atribuídas pelo júri, nem mesmo contando as que foram descartadas… até 2020, quando a tradição de só notas 10 se quebrou, mas não diminuiu em nada os méritos e o brilho da bailarina. Vale retroceder nesses carnavais mangueirenses que preenchem a segunda metade da década para exaltar o desfile campeão que homenageou Maria Bethânia, em 2016, quando Squel fez uma das apresentações mais fortes da sua carreira. Careca, ela veio lindamente vestida de iaô, uma imagem marcante das páginas da folia. Em 2017, ela ganhou a parceria de Matheus Olivério, seu tio, filho de Xangô, para ser seu mestre-sala. Mais do que uma ligação sanguínea, os dois se mostram um casal cada vez mais entrosado e exímios defensores de seus papeis enquanto mestre-sala e porta-bandeira. Ah, e como tanto talento é digno de reverências, Squel faturou, além do título com a Mangueira, o Estandarte de Ouro de melhor porta-bandeira pela segunda vez em 2019. Merece ou não merece um lugar especial no nosso TOP10 essa nossa divindade verde e rosa?


Priscilla Mota e Rodrigo Negri 
(Coréografos de comissão de frente)

A dupla que aqui contamos como uma só pessoa no vitorioso desfile das campeãs de 2019. Foto: Widger Frota

Essas personalidades são tão grandes, que são dois em um! O casal mostrou que a parceria fez sucesso no amor e também no carnaval. Priscilla e Rodrigo começaram a década surfando na euforia do sucesso que foi a comissão de frente comandada por eles em 2010, quando seus bailarinos trocavam de roupa em plena avenida, em um piscar de olhos. Um marco absoluto que influenciaria todos os anos seguintes, não só dos próprios trabalhos, mas como do decisivo quesito que capitaneiam. Em 2011, fizeram a Sapucaí perder a cabeça com um efeito de pescoços que caíam pelos corpos dos integrantes em uma comissão que tinha um toque de terror bem humorado. Na passagem pela Unidos da Tijuca, colecionaram prêmios e notas dez, sempre garantindo os trinta pontos até o ano de 2017, já em outra escola.

Depois de um desgaste artístico na amarela e azul, os dois ganharam uma nova casa e assumiram a comissão da Grande Rio. Por lá, fizeram mais história, com destaque para o excelente trabalho logo em seu primeiro ano pela tricolor, em 2015, com o enredo “A Grande Rio é do baralho”. No município de Caxias, afirmaram seu talento e deram sequência a um trabalho de excelência, mostrando uma combinação rara de competência, profissionalismo e criatividade. Em 2017, também foram os responsáveis pela famosa comissão que teve como integrante a ilustríssima Ivete Sangalo, no ano em que a própria cantora era a homenageada da escola. Desta parceria, chegaram a coreografar apresentações da cantora, com destaque para o Rock in Rio. Hoje, os dois estão vivendo um momento de amor com a Mangueira, escola que defendem desde o carnaval de 2019, na qual apresentam trabalhos mais enxutos e com menos efeitos tecnológicos ou ilusórios. Excelentes bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Priscilla e Rodrigo revolucionaram o quesito, mostrando que são ótimos diretores e produtores dentro e fora das pistas. Será que eles revelam o segredo de um trabalho tão consolidado e de constante excelência?

Para saber mais do trabalho da dupla, confira nossa entrevista com eles na série Processos da Criação. 

Tinga 
(Intérprete)
A personalidade comandando o carro de som da Vila Isabel no desfile de 2019. Foto: Eduardo Hollanda.
Solta o biiiiiiiicho! Quando Tinga tá na pista, ninguém segura a fera. Dono de uma famosa voz da folia, o intérprete coleciona excelentes carnavais na bagagem e muita experiência, apesar dos modestos 46 anos de idade vividos com a vitalidade de um garoto. A história na folia começou no carro de som da Vila Isabel como apoio do inesquecível Jorge Tropical. Sua primeira apresentação solo à frente do microfone principal da agremiação veio em 2004. Dois carnavais depois, Tinga experimentou o gosto de ser intérprete campeão do Grupo Especial com “Soy loco por tí, América: a Vila canta a latinidade”, em 2006, um trabalho pra lá de elogiado do cantor. Apesar de defender excelentes sambas na avenida, principalmente nos anos de 2012 e 2013, com os famosos “Angola” e “Festa no Arraiá”, obras aclamadas pelo público e pela crítica, o intérprete nunca foi agraciado com a premiação do Estandarte de Ouro nos últimos anos. Esse intrigante fato não diminui, de forma alguma, a potência e a qualidade de seu trabalho. 

Em 2014, Tinga chegou na Unidos da Tijuca abrilhantando sambas de nível mediano. Aliás, foi nesse ano que fez sua dobradinha de campeão por dois carnavais consecutivos em agremiações diferentes. Foi ele também o grande incentivador da escola no trágico ano de 2017, quando houve o desabamento do teto de uma alegoria da agremiação que ocasionou o ferimento de componentes. Diante do caos e de momentos de tensão, sem que o desfile fosse interrompido, Tinga puxou a escola com palavras de incentivo e amor, naquele cenário de aflição e dor e, visivelmente emocionado, cantou até a dispersão. Naquele momento, protagonizou um dos símbolos mais fortes de entrega ao ofício. O carnaval seguinte foi o último do intérprete na escola tijucana, garantindo cinco desfiles de uma ótima parceria entre os dois. Fora da pista, tornou-se um dos mais requisitados nomes para defender sambas durante as disputas. As grandes parcerias sempre têm Tinga, craque e pé-quente, como foco. Em um único ano, ele já chegou a ser o defensor de mais de seis sambas campeões. Como o coração e as oportunidades falaram mais alto, Tinga retornou à Vila Isabel em 2019, sua escola de origem – fato que não faz nenhuma questão de esconder – na qual continua como voz oficial. Cabe destacar aqui o ótimo trabalho que fez na faixa da escola no CD de 2020. Com tantas passagens marcantes e sempre humilde, ninguém duvida que Tinga, duas vezes campeão na década, é uma das nossas grandes estrelas.

Claudio Russo
(Compositor)
Nossa personalidade compôs o samba do maior desfile da história do Tuiuti. Foto: Alba Valéria Mendonça/G1.
Talvez uma das figuras mais desconhecidas do grande público nesta lista, Claudio Russo foi o escolhido para representar os compositores que revolucionaram o gênero nessa década, como vimos no nosso Top 10 de sambas-enredo. Longe de ser um novato da festa, quem olha para o renomado poeta mal imagina que suas mãos trabalham em prol do samba-enredo há trinta e um anos. Ainda jovem, compôs os primeiros sambas e pegou a manha do ofício na Portela. Lá chegou na década de 1990. Nos anos 2000, marcou de vez sua importância ao criar obras musicais que embalaram os títulos da Beija-Flor em 2004, 2007 e 2008.

Durante a década, Claudio passeou pelas mais diversas agremiações entre diferentes estados e grupos. E movimentou a polêmica discussão sobre a encomenda de samba, modelo que despontou na década como resposta a custosas e por vezes problemáticas disputas de samba. Defensor desta ferramenta e um dos compositores mais requisitados pelas escolas, o artista já criou obras inesquecíveis para agremiações como Renascer de Jacarepaguá, Paraíso do Tuiuti, Inocentes de Belford Roxo. Ao todo, os sambas campeões de Claudio figuraram em mais de 21 escolas de samba diferentes, entre grupos principais e de acesso, Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. Claudio carrega e faz do samba mais do que uma singular bandeira. Dentre os registros da internet, estima-se que apenas nessa década ele assinou pelo menos trinta e seis obras ganhadoras - sem levar em consideração as parcerias que perderam disputas de samba ou ganhadoras que por ventura não tenham seu nome. É ou não é um poeta de mão cheia? 

Casagrande 
(Mestre de bateria)
A grande figura da bateria da Tijuca beijando seu pavilhão. Foto: Reprodução Facebook.
É o meeeeestre! Mas se engana quem acha que vamos falar de Fernando Pamplona. Nosso homenageado é grande até no nome; o Casão, ou Casagrande para os menos íntimos. Quem representa muito bem o coração de uma escola de samba, uma bateria. Dos componentes em atuação mais antigos de Unidos da Tijuca – ele chegou à escola há quarenta anos –, Casagrande foi aprendiz do inesquecível mestre Marçal. À primeira vista ele tem cara de bravo, mas receptividade e bom humor não faltam ao comandante da Pura Cadência. Luiz Calixto, nome de batismo do nosso mestre, fora do carnaval é taxista. Dentro da Sapucaí, ele orquestra uma das melhores e mais respeitadas baterias das escolas de samba cariocas. 

Em entrevista ao site Carnavalesco, certa vez, revelou que o trabalho de construção da identidade do ritmo tijucano teve início em 1999, momento em que já acompanhava o segmento, mas não como mestre. Desde o carnaval de 2008 é ele o responsável pela bateria tijucana, sempre muito respeitado pelos ritmistas, com uma postura que diz ter herdado ao admirar o comportamento de mestre Marçal. No nosso decênio, Casagrande conquistou nada menos do que dois títulos, um Estandarte de Ouro em 2015 e uma chuva de notas dez. Assim como Tinga, seu trabalho foi o impulso que fez a escola terminar de cruzar a avenida no desfile de 2017. Visivelmente emocionado e cabisbaixo, Casão se apresentou sem nenhuma alegria para o júri, mas seguiu digno e firme ao comandar seus ritmistas, igualmente abalados. Mesmo não sendo dos mais ousados, o músico sempre apresenta um trabalho de excelência e forte continuidade nesses anos de Sapucaí, possuindo ainda uma identificação marcante com a azul e amarelo do Borel. Dá um show, Tijuca!

Jack Vasconcelos 
(Carnavalesco)
Com microfone em punho, Jack é dos principais comunicadores dos desfiles das escolas. Foto: Eduardo Hollanda.
Mais um carnavalesco a integrar a lista, Jack Vasconcelos não foi um nome que começou a década sob os holofotes como Paulo Barros. O artista bateu ponto na Série A nos primeiros anos, mas uma virada de chave fundamental aconteceu a partir de 2015, em um carnaval pra lá de surpreendente no Paraíso do Tuiuti. Naquela apresentação, revelou o auge de sua maturidade como um artista da festa ao apresentar um grande trabalho plástico e narrativo. Logo em seguida, Jack faturou o campeonato do grupo com a escola em 2016, citado na nossa lista dos dez desfiles mais marcantes da Série A, e voltou ao Grupo Especial em 2017. 

Depois do último lugar neste carnaval em razão de um trágico acidente no desfile sobre a Tropicália, quando não houve rebaixamento, o carnavalesco usou o enredo – um dos seus grandes trunfos – a seu favor em 2018 e faturou um surpreendente vice-campeonato ao falar sobre os 130 anos da Lei Áurea. Afirmado para o mundo carnavalesco como um dos nomes mais promissores dos últimos anos, Jack deu um grande passo de um movimento de primazia pelo enredo, de valorização da narrativa como foco principal dos seus desfiles. Não é por acaso que o artista foi muito premiado com troféus do quesito, inclusive faturando o Estandarte de Ouro de melhor enredo em 2019, com “O Salvador da Pátria”. Em tempos de discursos vazios e histórias distorcidas no momento político e social do país (temas que aparecem nos desfiles do artista), assistir um carnaval de Jack é a certeza de ser ouvinte de uma boa história a ser contada, sem deixar faltar muito bom humor.

Confira como Jack marca um novo diálogo entre a academia das Escolas de Belas Artes com o carnaval neste artigo da nossa Série Carnavalescos. Ouça também a entrevista que fizemos com o artista em nosso podcast.


Milton Cunha
(Comentarista e apresentador)
O divinérrimo no desfile das campeãs de 2020. Foto: Andre Melo Andrade/MyPhoto Press.
Um acontecimento (no superlativo, se for possível, amadíssimos!). Milton Cunha é figurinha brilhante da folia brasileira. Nosso carnavalesco carrega muitos desfiles de sua autoria na bagagem com passagens por escolas como Beija-Flor, Unidos da Tijuca, União da Ilha e São Clemente. Porém, não foi qualquer trabalho propriamente assinado pelo artista dentro de um barracão, ou posto na avenida, que fez Milton ser um integrante ilustre da nossa lista. Durante a década, o serviço de Milton ao carnaval transcendeu os desenhos, desenvolvimentos de enredo e defesa de quesitos. Foi com seu conhecimento (e que conhecimento! Basta dar um Google no currículo da nossa querida personalidade para ver que não estamos mentindo) sobre materiais, narrativas, profissionais e todas as dinâmicas que envolvem a arte em sua expressão mais ampla e popular, a das escolas de samba, que seu carisma conquistou a todos nós. 

Em 2013, o paraense ganhou um lugar todo especial para comentar os desfiles da Série A e do Grupo Especial no Carnaval Globeleza, com presença cativa todos os anos desde então. Cheio de pontuações, observações e reações cada vez mais ricas e muitas vezes inesperadas, Milton faz jus ao título de grande conhecedor da festa. Além disso, ele é presença mais do que especial em todo e qualquer evento carnavalesco que frequenta. A exuberância na roupa e no jeito de falar e chegar do pós-doutor não ofusca a pessoa apaixonada pelo ofício e carregada de carisma. Durante todo o pré-carnaval, o “Enredo e Samba”, quadro do jornal local da TV Globo, é uma atração sempre aguardada pelos telespectadores e pelos componentes das agremiações. Sua fama transborda as escolas de samba e chegou até a um aplicativo de rotas e destinos, ao qual emprestou sua voz para guiar os condutores. Para dizer o que Milton é, mais fácil falar o que não é! Tá pra nascer quem não ame este homem! 


Menções honrosas 

Eita missão difícil escolher apenas dez profissionais que deram um show de competência nessa década! Por isso, confira também as menções honrosas de personalidades que brilharam no período em suas áreas por diversos fatores; por se reinventarem, tentarem propor novidades para festa, ou ainda pelo desabrochar de seu talento e  de sua afirmação. São figuras que se destacaram no enredo que estamos propondo contar com a #SérieDécada. Personalidades que também contaram os anos e ajudaram a desenhar os rumos do que foi os carnavais de 2011 a 2020 - e por pouco não entraram na lista principal.

Ambas as listas não possuem ordem hierárquica.

Phelipe Lemos (mestre-sala)

Marcella Alves (porta-bandeira)

Evelyn Bastos (rainha de bateria)

Rosa Magalhães (carnavalesca)

Laíla (diretor de carnaval)

Patrick Carvalho (coreógrafo)

Ito Melodia (intérprete)

André Diniz (compositor)

Ciça (mestre de bateria)

Marcelinho Calil (dirigente)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos quais foram as principais personalidades em diversos segmentos. Fique à vontade para fazer sua lista e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 de artistas do Rio de Janeiro dessa década?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir! Se liiiga e carnavalize conosco!
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Por Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos vai dominar o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!



Após o sucesso da apresentação da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos viu sua carreira ganhar novo patamar. Com o inédito vice-campeonato e a enorme repercussão da agremiação, o então pouco reconhecido artista da festa viu os holofotes todos se virarem para ele.

Mas o sucesso da apresentação não surgiu de uma hora para outra e o talento de Jack, somado a sua liberdade criativa na escola e aliado a outros quesitos do desfiles, tornou-se decisivo neste processo. O carnavalesco possui um currículo já extenso na folia carioca: há mais de dez anos atuando entre os grupos especial e de acesso. Mas desde sua estreia, em 2004, no Império da Tijuca, vem desenhando uma trajetória sólida e com elementos que dão personalidade às suas criações. Em homenagem, não só pelo incrível desfile nesse carnaval, mas por sua carreira como um todo, vamos fazer um passeio pelos principais elementos que marcaram, até então, a carreira de Jack Vasconcelos. Vem com a gente!

Formado em Cenografia pela Escola de Belas Artes, Jack marca o constante diálogo entre uma das principais academias de artes do país com a nossa maior manifestação artístico-cultural. Desde Fernando Pamplona a Leandro Vieira, e também com profissionais como escultores e desenhistas, a migração e atuação da instituição para a folia foi - e ainda é - fundamental para desenhar os rumos artísticos dos desfiles nas últimas década.

Rosa Magalhães é o melhor exemplo dessa relação histórica entre EBA-Carnaval e Jack conta que foi ela sua principal inspiração para chegar à faculdade: "Eu queria muito fazer e a primeira coisa que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes", disse em entrevista ao site Carnavalize no início deste ano.

Devoto confesso da deusa barroca, fica clara a influência da carnavalesca em diversos aspectos do estilo que Jack desenvolveu consigo. Tal influência está presente, sobretudo, na clara homenagem a ela no desfile de 2015, já na Paraíso da Tuiuti, com o enredo sobre a antropofagia no olhar de Hans Staden. O tema bebia no cortejo de treze anos antes, da carnavalesca, sobre a antropofagia na cultura brasileira, o maravilhoso "Tupi or not tupi, in a South American Way!", realizado na Imperatriz Leopoldinense.

A abertura do carnaval de 2015, pela Paraíso do Tuiuti (Foto: Gabriel Xavier/Riotur)

O gosto por narrativas densas, bem estruturadas e com fortes referências culturais, assim como nos carnavais de Rosa, é destaque no trabalho de Jack desde seus primeiros desfiles, mesmo com temas sugeridos pelas agremiações. Bons exemplos são as apresentações de 2007, pelo Império Serrano, onde propôs um passeio artístico de personalidades importantes para a mensagem de inclusão social, e de 2009, desta vez pela União da Ilha, no enredo sobre viagens, que contou com referências ao escritor Júlio Verne e o aviador Santos Dumont. Jack torna claro nas narrativas o desejo por uma construção bem trabalhada do todo, onde cada ala tem sua função dramática bem delimitada, como ele mesmo defendeu na já citada entrevista "Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim”.

Mas se densidade e repertório cultural são decisivos em seus enredos, nos últimos anos destaca-se ainda nesse sarapatel o bom humor e sagacidade de retratar diferentes temas com um olhar ácido, não só na forte crítica social que marcou o comentado último setor desse ano, mas também ao abordar o tropicalismo e a antropofagia.

Se a rivalidade entre Rosa e Renato Lage marcou a década de noventa, Jack demonstra em seus trabalhos a referência de quem acompanhou os embates entre os estilos opostos dos carnavalescos. Nos quesitos narrativos, a aproximação com as características da tricampeã pela Imperatriz são claras, mas há ainda um quê do mago high-tech nos carnavais de Jack, exatamente no quesito mais marcante da produção de Lage: suas alegorias.

Alegoria que representava Einstein, no desfile do Império Serrano, em 2007 (Foto: seLusava/Flickr)

Em seus principais trabalhos, o atual profissional da Tuiuti sempre apostou em alegorias com formas arrojadas e modernosas, com estruturas metálicas, vazadas e com aspectos menos ornamentais, destacando-se também pelo gosto por neon e pelo trabalho de iluminação como parte decisiva da imagem das alegorias. Apesar de criticado por alguns sambistas, o desfile do Império Serrano de 2007, ousou exatamente em alegorias com novos formatos, como o curioso carro que representava o cientista Albert Einstein, que não trazia uma escultura dele, mas sim uma representação de um grande cérebro em meio a formas luminosas, numa proposição mais original. Esse desejo por formas menos excessivas e mais diretas permanece em alegorias realizadas nos seus trabalhos mais recentes. No aspecto mais artesanal dos carros, algumas soluções optam por materiais mais inusitados, ou até os já usados de forma exaustiva, como o tradicional uso de espelho, no original efeito de chuva da segunda alegoria da "Farra do Boi", ou a forração de esculturas por grandes mosaicos de emborrachado EVA recortado, como o leão da última alegoria do Estácio em 2014 e depois em outras ocasiões, como 2015 - cavalos marinhos da segunda alegoria - e 2017, nas esculturas de Gil e Caetano.

Jack dosa o bom gosto com o belo trabalho cromático, como no desfile de 2017
(Foto: Riotur) 
Ainda nos grandes cenários da festa carnavalesca, os carros alegóricos têm importante papel em outra característica muito presente nas apresentações elaboradas pelo artista. As aberturas de Jack são um capítulo à parte, sendo fundamentais na força de sua criação. A paisagem formada por comissão de frente, casal de mestre-sala e porta-bandeira e, geralmente, uma primeira ala na "cabeça" das escolas, é provavelmente o espaço do desfile onde o artista mais se dedica a fazer algo que consiga impacto, apostando na velha máxima "a primeira impressão é a que fica".

Não só nas elogiadas aberturas dos dois últimos cortejos da trajetória do carnavalesco na Tuiuti, com a explosão tropical multicolorida em homenagem ao movimento tropicalista e os tons terrosos e metálicos do grande quilombo deste ano, mas desde apresentações anteriores, que marcam a assinatura pensada e desenvolvida para este segmento do desfile.

Esse conjunto de elementos parece ser pensado por Jack não só na valorização visual de seu trabalho e da importância narrativa desse setor, mas é também onde o carnavalesco gosta de demonstrar enorme respeito à identidade da agremiação a qual está trabalhando. O que nos leva a outro diferencial fundamental de sua carreira.

Desde a abertura em verde água com uma gigante coroa do Império Serrano, passando pelo respeito ao vermelho nos trabalhos em Viradouro e Estácio e chegando ao azul e amarelo, presente, inclusive, no abre-alas deste ano de maneira discreta em elementos decorativos menores, tudo marca um entendimento fundamental do estilo de cada agremiação com algo importante. Como defendem outros artistas da festa, o carnavalesco jamais deve se sobrepor de maneira unilateral sobre uma escola de samba que já tem sua trajetória, mas sim estabelecer uma negociação entre ambas as partes, criando um casamento entre artista e instituição cultural

O imponente abre-alas da Tuiuti no carnaval de 2018 (Foto: Felipe de Souza/Site Carnavalize)

Assim, a cor surge não só como elemento de identificação e reafirmação da escola com a qual o artista formado pela EBA faz uso, mas como uma das chaves fundamentais de sua diferenciação e singularização em relação a outros profissionais: o uso da cor. O chamado "tapete cromático", surgido do conjunto entre alas e alegorias, parecer ser sempre uma grande e potente tela em branco onde Jack gosta de fazer as mais diferentes combinações. A escolha de uma palheta perfeita varia a cada desfile, servindo à proposta do todo daquela narrativa, o que pode gerar desfiles com cores mais quentes, como o de 2015, ou a com uma explosão crítica, 2018.

Dentro desse aspecto, destaca-se ainda o cuidado de Jack mais especificamente por cada setor da apresentação, que marca não só blocos narrativos mas visuais bem delimitados, onde o uso de cores e sua variação são desenvolvidos sempre de maneira espetacular e estruturada pelo estudos da teoria cromática e suas possíveis combinações. Além disso, podem surgir outros elementos que unifiquem essa sequências de alas e alegoria através do uso do mesmo material, como as bolinhas de isopor do setor do Einstein, no Império Serrano e os pingentes de lã amarelo e laranja do setor africano deste ano, substituindo a tradicional palha em desfiles de temática "afro".

No desfile sobre a Tropicália, um dos destaques foi a boa escolha de cores, juntamente ao trabalho em cima de diferentes referências artísticas (foto: Riotur)

Se essas observações de processos recorrentes na carreira do artista podem ser percebidas nos elementos já citados, as fantasias de ala são uma área da atuação carnavalesca onde Jack se destaca menos em relação a esses outros elementos. Não fica claro um estilo mais definido de figurinos que marque sua trajetória desde o início, mas algo mais fluído e moldável em diferentes etapas, mostrando uma adequação às tendências dos desfiles. De fixo, aparece apenas a importante construção de um panorama de referências iconográficas dos temas abordados, que servem de base para a criação das novas imagens das alas, o que é inclusive uma das maiores qualidades do desfile de 2017, reinterpretando a Tropicália a partir da aglutinação de elementos díspares e contradições fundadoras do movimento, como os divertidos anjinhos tocando guitarras e os animais híbridos do abre-alas.

Sobre o vitorioso casamento com a Paraíso do Tuiuti nos últimos quatro carnavais, se percebeu uma adequação e um olhar mais atento ao crescimento das roupas e adereços que vestem os foliões, onde nota-se um aposta menor em alas com criação de figurinos mais detalhados, mas algo mais agigantado e que molda o corpo do desfilante além de suas proporções naturais. Grandes adereços, estruturas em vime, armações, esculturas de espuma somam uma visualidade que busca aumentar os componentes da ala, num claro processo de agigantamento e espetacularização dos desfiles, presente nas fantasias de outros artistas, como Alex de Souza. Algo que não precisa ser lido nem como positivo ou negativo necessariamente, mas apenas característico.

Enfim, valiam aqui diversas outras observações e apontamentos da sequência de desfiles que Jack Vasconcelos assinou no carnaval carioca na última década, mas somando sua já considerável trajetória, é possível destacá-lo com facilidade como uma das mais importantes revelações da folia deste século. Apesar das dificuldades apresentadas na sua atuação por algumas escolas no grupo de acesso, seu trabalho quase nunca deixou de corresponder em qualidade e originalidade.

Sua formação pela academia artística mais ligada ao carnaval carimba sua presença nos desfiles com uma das vozes na ressignificação da tradição carnavalesca e sua consequente atualização, marcando uma ponte necessária e potente entre os artistas de ontem e de hoje, time no qual Jack conquistou seu espaço no primeiro escalão, dado seu estilo de narrativas rebuscadas e composição visual marcada pela qualidade de sua escala cromática. A originalidade ao apresentar temas já batidos, com a escravidão, propondo novas visualidades e materiais à festa são fundamentais para renovação da nossa maior expressão artístico-cultural.

Por isso, viva Jack! E que sua vitoriosa trajetória esteja apenas esboçando novos caminhos para alcançar ainda mais sucesso e reconhecimento.





Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro.  Além de atuar como escritor e curador independente. Atualmente, faz mestrado em História da Arte na UERJ, onde pesquisa também sobre o tema carnavalesco.
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Por Redação Carnavalize

A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Após passarmos pelo barracão da São Clemente para conversar com Jorge Silveira e na Acadêmicos da Rocinha, sob a companhia de Marcus Ferreira, chegamos a mais um galpão, o da Paraíso do Tuiuti. Jack Vasconcelos é o nosso alvo de hoje, venha conferir um pouco mais da trajetória do carnavalesco, que tem passagens por União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá. Vem com a gente!

CARNAVALIZE: Você é formado pela EBA, teve um início trabalhando com outros carnavalescos como Chico Spinoza e Cahê Rodrigues, e a Escola de Belas Artes tem uma atuação muito forte no carnaval. Como você enxerga a formação da Escola com a festa e o seu trabalho dentro desse trânsito?

JACK: "Eu me interessei em estudar na EBA justamente por conta de profissionais que vieram dela e foram fazer carnaval…"

CARNAVALIZE: Então já era um desejo seu fazer carnaval, né?

JACK: "Era. Eu queria muito fazer e a primeira que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes. Então pensei: 'nossa! Belas Artes… preciso saber como é, onde fica, o que comem…' (risos). Fiz Artes Cênicas, que inclui Cenografia e Indumentária, e aí a partir da figura da Rosa, na verdade, é que eu fui perceber outros profissionais. Eu conheci o Fernando Pinto, que é a primeira referência que eu tenho de carnavalesco porque o primeiro carnaval que me chamou atenção foi o do Fernando mas eu não sabia que era o Fernando porque eu era pequeno. E aí veio o João, que tinha aquela máquina de mídia em cima dele, então era natural que eu soubesse quem era Joãosinho Trinta e o quê ele fazia, e fui ver o que era essa EBA. Veio a figura do Pamplona e da Maria Augusta, a Lícia, e veio a confirmação de que era pra lá mesmo que eu tinha que ir. Antes de prestar vestibular, depois de um papo que eu tive com o Joãosinho Trinta, na Viradouro, eu me matriculei no curso de Desenho Artístico, no Liceu de Artes e Ofícios, e fiquei lá por aproximadamente três anos; só saí do Liceu pra Belas Artes.

Só de eu comentar como os profissionais da EBA me influenciaram a dar esse passo, olha como isso é significativo pra instituição. O pessoal fala muito da contribuição lá na década de 60 e 70, mas ela continua. Existe muita gente que quer trazer o acadêmico pra cá. O diamante nasce e a gente quer uma lapidação feita da forma correta; é o que diferencia o desenho da criança pro desenho do Miró. Uma coisa é você desconstruir sabendo o que você tá fazendo, você precisa construir para desconstruir. Se você já fizer desconstruído, então é porque você não sabe edificar. Olha como ela influencia no geral, sabe? E eu percebo isso ainda hoje, isso é atuante, as pessoas ainda vão atrás disso e procuram a EBA e ela continua amamentando a gente, porque a gente se forma mas os laços continuam lá."

CARNAVALIZE: Você é um carnavalesco muito preocupado com o conceito e isso envolve um longo e cuidadoso processo de pesquisa. Como você monta este panorama de referências e ajusta o molde do seu desfile?

JACK: "É interessante como as pessoas veem a gente de fora, né?! Como eu venho de uma formação acadêmica é natural que eu tenha um conceito pra arrumar o meu processo criativo, então estou acostumado, não consigo mais desvincular uma coisa da outra. Tenho uma história pra contar e eu preciso escolher um caminho para aquela história…"



CARNAVALIZE: Mas você vai pela Literatura primeiro, opta pelo visual ou é algo muito híbrido?

JACK: "Depende muito, tem coisas coisas que começam de um jeito, tem coisas que começam de outro. Eu sempre monto uma trilha sonora (esse ano não montei) pra cada enredo e eu vou ouvindo aquela trilha e vou desenhando, vou lendo e aquilo vai nascendo com aquela música. Eu tenho playlist pra todos os meus enredos. Tinha um exercício que eu adorava fazer no Liceu, que era pra soltar a mão, e aí era um cavalete e pegávamos um carvão, nos vendávamos e colocavam uma música. E aí, a gente deixa a mão fazer o movimento do que a gente tá sentindo; você não sabe o que vai sair daquilo e você não pode tirar a mão do papel. A vibração do traço acompanha a vibração que chega pelo ouvido e o ritmo da música vai influenciando o teu punho. É muito legal! Eu adorava aquele exercício! Pensar com harmonia, pensar musicalmente — e eu sou um cara que sou muito influenciado por música — é natural ser uma influência no meu trabalho de carnaval. Então, trouxe isso pros meus desenhos, pras minhas criações. Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim."

CARNAVALIZE: Já falando sobre suas referências, parece que a cor é, depois da música que você revelou agora, tão importante quanto. Já ouvimos algumas vezes você teve dificuldade, no início, de materializar todo esse trabalho de cores, que não tinha material suficiente. Como você olha pra esse tapete cromático da escola?

JACK: "Teve uma palestra que assisti na EBA, num evento anual em que os alunos produzem, e levaram o Roberto Szaniecki. Ele estava com o enredo dos sete pecados capitais e tinha levado os desenhos. Alguém perguntou sobre cor, e lá na EBA a gente tem uma liberdade enorme, produz cores inimagináveis… só que pro carnaval a gente precisa pensar nisso pra uma produção em larga escala porque eu não compro um metro de tecido, eu compro mil metros. Então, eu preciso produzir essa cor, dentro de fornecedores que por vezes têm opções limitadas, e no papel é maravilhoso; ele aceita tudo, vai qualquer coisa. A realidade é um pouco diferente.

O carnavalesco Roberto Szaniecki conhecido por sua passagem pela Grande Rio.

Mas fato é que perguntaram sobre cores e ele pegou uma maletinha e abriu. Quando ele abriu, era cheia de hidrocor que de um lado é um pincel e do outro a ponta é seca; ele também é aquarelável. E aí ele explicou pra gente: todas as cores que encontramos em hidrocor dá pra achar em qualquer fábrica, porque são cores industriais, o que é mais fácil do que bolar uma cor ou um degradê em determinado tecido. E aquilo resolveu os meus problemas (risos), era incrível.

CARNAVALIZE: Ainda sobre esse assunto, você acabou de comentar que viu os desenhos do Szaniecki numa época em que nada era digitalizado. Como é sua relação com o papel? Você faz tudo do seu processo de fantasias e alegorias nele ou se vale do artifício da tecnologia pra te auxiliar?

JACK: "No processo das fantasias eu uso só o papel, meus livros, algo que eu tenha visto na internet. Já as alegorias, como fazem parte de um processo mais elaborado, eu conto com a ajuda do computador por ser algo mais técnico, cálculos mais exatos… mas o projeto, a ideia, o esboço da alegoria nasce também no papel."

CARNAVALIZE: Falando sobre sua trajetória, você construiu uma carreira longa e bem reconhecida no Acesso. Como foi ter que moldar seu processo de criação aos improvisos dentro das limitações orçamentárias do grupo e como isso foi, de certa forma, uma escola que te alavancou para ser mais "consciente" no trabalho no Grupo Especial?

JACK: "Olha, isso é uma realidade que acompanha a arte, quem faz teatro, quem faz cinema, quem faz TV, quem faz Grupo Especial… todo mundo passa pelo mesmo problema. A diferença está nos números, é a quantidade de coisas que você tem que resolver porque o projeto é maior, mas a demanda de problemas é quase equiparada. Uma festa se vende pela dificuldade e a outra pelo glamour, então as pessoas não diferenciam muito isso. Não estou desmerecendo o que eles passam lá, mas o que estou querendo dizer é que os problemas existem e são quase os mesmos praticamente, que é o fornecedor que não tem o material pra você, o orçamento que não chega ao que você precisa pra colocar o carnaval na rua e você tem que repensar o efeito…"

CARNAVALIZE: Muitas vezes, as pessoas entendem que a criação e a gerência de barracão são processos separados. Como isso funciona pra você, se são os mesmos processos?

JACK: "Isso depende do método de atuação de cada carnavalesco. Tem uma galera vindo de uma produção televisiva, ou de algo que tenha outro processo. Talvez o comportamento em relação ao projeto seja outro. E também tem a galera que vem do processo manual. O cara que é artista plástico, que tem mais a alma de barracão, tem o prazer de estar com o ferreiro, o carpinteiro... Essa proximidade depende de como cada um vai administrar isso. Eu gosto disso aqui, sei da minha responsabilidade em relação ao visual da escola e prezo muito por isso, não sou um carnavalesco de quadra. Aqui, por exemplo, só fui para lançar a sinopse esse ano. Os holofotes eu deixo pros outros."

CARNAVALIZE: Ainda tratando sobre sua trajetória, você tem uma passagem muito marcante pela União da Ilha no Grupo de Acesso. Foi um ponto marcante da sua carreira, onde você começou a ganhar destaque. O que você comentaria sobre essa passagem?

JACK: "A Ilha foi primordial para a formação do Jack como carnavalesco. Eu era um carnavalesco a caminho antes da minha passagem, numa transição. Não que a gente 'se forme' e acabe, a gente tá sempre se transformando. Mas assim, em termos de estilo, de maturidade e segurança, compreensão do mercado... Eu não tinha esse preparo, era assistente. Nesses anos de Ilha, tive uma parceria muito grande com o diretor de carnaval, na época, Márcio André, ele me mostrou as coisas. Não fui jogado num ninho de cobras e 'se vira', isso até me prejudicou no futuro, em passagens por outras escolas, por achar que sempre seria assim. Era uma escola em que todo mundo se abraçava, e eu fui abraçado pela Ilha. Eu tinha mais frequência na quadra, porque tinha um ateliê funcionando lá. Fazíamos os protótipos lá, as costureiras e aderecistas eram todos da comunidade, baianas ou velha guarda. Chegava de noite, o pessoal responsável pelas alas da comunidade ia do trabalho para a quadra ajudar na reprodução das fantasias. Era um esquema muito familiar, sabe?! E eu achava que toda escola de samba era assim... eles brigavam para fazer o melhor pra escola. Era uma concorrência saudável.

Em 2008, Jack assinou a reedição do clássico "É hoje!"


Depois que eu saí da Ilha, caí numa realidade muito diferente: gente querendo tirar as coisas, e não colocar, isso foi um choque. O lado bom foi que a Ilha me mostrou uma consciência de comunidade, de um projeto amplo. Que não é só minha fantasia ou minha alegoria, eu era muito focado nisso, como tive contato com todos os segmentos, conhecia todos os passistas, toda a velha guarda... Isso ampliou minha consciência do meu papel dentro de uma escola de samba. A Ilha foi fundamental pra mim!"

CARNAVALIZE: Em 2007, você chega ao Império Serrano para assinar "Ser diferente é normal - O Império Serrano faz a diferença no carnaval". De que maneira aquele carnaval é traumático pra você? Quais dificuldades você enfrentou no processo de condução e criação daquele projeto?

JACK: "Não sei dizer o que fez e o que faz uma escola cair. As escolas trabalham pra fazer o melhor possível, não é só uma questão visual, é como um todo. Eu sou muito satisfeito com a parte visual, pois a perspectiva era tenebrosa. O enredo não era meu, mas a escola não me obrigou a seguir determinado desenvolvimento. Eu já cheguei sabendo que iria falar sobre aquele assunto. Havia uma promessa de patrocínio que não veio. Pegamos um barracão onde diziam que podíamos zerar os chassis das alegorias. Recém-chegado da União Ilha, eu achava que todo mundo dizia a verdade: zerei os carros. Hoje, o Jack mais experiente não faria isso em escola nenhuma até saber como se encontra o terreno.

Abre-alas do Império Serrano em 2007.

Nisso, as coisas começaram a se atropelar. O dinheiro prometido não veio e a escola sofreu muito, como um todo. Uma coisa é projetar um desfile lindo, o projeto era muito bacana, a escola gostava muito, estava contente em fazer, e de repente não ter nada. Minha sorte foi ter sobras de materiais de outros carnavais para conseguir concluir o projeto. Ali foi um grande choque, o primeiro choque de realidade. Tentamos fazer outra coisa, muita gente enxerga o Império como uma escola antiga, envelhecida... O Império é uma escola de vanguarda, enquanto muitas pessoas colocam a escola como se cheirasse a naftalina."

CARNAVALIZE: Depois de 2017, como você vê o esgotamento do modelo atual dos desfiles, no sentido do fazer e pensar carnaval? Quais as soluções você vê?

JACK: "Eu acho que esteticamente a gente fica um pouco amarrado por conta do regulamento, eu sinto necessidade de quebrar esse bloco de cinco carros e cinco, seis alas entre eles. Gostaria que tivesse um outro tipo de conta nesse sentido, porque as vezes um carro grande não me ajuda muito. Ás vezes pra eu passar melhor uma mensagem, um carro menor ou uma composição de alguns mobiles, algumas coisas fazendo uma paisagem, pra mim já seria o suficiente e ficaria mais harmônico com as alas no entorno. Eu sinto falta de poder mexer nessa paisagem do desfile, sinto essa necessidade."

CARNAVALIZE: Alguns enxergam que as questões da interação e do envolvimento do público são muito importantes. Como você avalia isso? Como é, pra você, o uso de carros coreografados?

JACK: "A interação do público é algo muito discutível, porque você colocar como depois da era do Paulo Barros que as coreografias se convencionaram, de ter algum carro coreografado pra chamar o público, isso às vezes funciona, às vezes não. Às vezes o público só olha e 'ah, passou, ótimo'. Interação com o público se faz no momento anterior à festa, divulgando o samba e fazendo as pessoas se interessarem por aquele enredo e aquele samba. Então você vê uma escola que tem um carro coreografado e o resto livre, o público responder muito mais. Às vezes uma escola se apresenta e o publico senta pra olhar, encarar aquilo só como espetáculo e aí ele não se vê como parte integrante daquilo. Isso é relativo. Eu não busco necessariamente a interação com o público, mas passar melhor a mensagem do meu enredo para que o público se identifique com isso."

CARNAVALIZE: E como isso funcionará no desfile de 2018?

JACK: "A gente vai criando esse diálogo assim, naturalmente. Esse ano especificamente, por ser um enredo que eu preciso que as pessoas entendam certas mensagens, estou lançando mão de uma dramatização maior. Então praticamente todos os carros têm algum núcleo que faz alguma coisa, mas não é uma coreografia, é uma representação em conjunto. Me ajuda esse ano pelo enredo ter a ver com trabalhadores, mas cada caso é um caso. Eu procuro não ter uma ideia fechada sobre nenhum tipo de recurso."


CARNAVALIZE: Você vem de três carnavais marcantes pela Tuiuti, com enredos de forte conteúdo cultural e artístico. Você sente que aqui na escola há mais liberdade de propor seus enredos?

JACK: "Tenho sim, até agora estou tendo bastante. Houve um pedido especial esse ano para que eu falasse de alguma temática africana ou afrodescendente, foi então que sugeri a questão da Lei Áurea, mas falei 'eu vou fazer a minha Lei Áurea'. Assim nasceu o enredo. Aqui, desde que eu cheguei, tenho uma liberdade maior de sugerir os temas, não que eu não tivesse em outras escolas no desenvolvimento." 

CARNAVALIZE: Como você trabalhou isso em escolas com um enredo já entregue, assinando apenas o desenvolvimento?

JACK: "Vou dar um exemplo, 'Viajar é Preciso', na Ilha, em 2009. A escola precisava falar sobre viagens, sobre turismo. Pouco depois que chegou esse pedido pra mim, o Cristo Redentor foi eleito uma das 7 maravilhas do mundo moderno, um dos colaboradores ativos daquela época na escola era o presidente do Trem do Corcovado. Nisso, a escola me pediu se eu poderia colocar o Cristo de alguma maneira no enredo. Então eu tinha essas coisas pra cumprir: viagem, turismo e Cristo. Tá, vamos lá! Eu fiquei na minha casa ouvindo músicas, vendo uns filmes, então eu lembrei de um enredo que eu vontade de desenvolver sobre o Júlio Verne. Daí eu podia ir pro Santos Dumont, que leu muito o Julio Verne e foi influenciado por ele, chegando a Dumont inventando o 14 Bis e chegando ao Cristo."

Abre-alas da apresentação de 2009 da tricolor insulana.

CARNAVALIZE: Nessa parte da entrevista, gostaríamos de saber se você acha que nessa passagem pela Tuiuti você conseguiu atingir uma maturidade artística com o reconhecimento do meio carnavalesco. Esse reconhecimento já veio antes?

JACK: "Eu vou trabalhando e não percebo essas coisas, cada ano é um ano e eu vou fazendo. O resultado disso não está na minha mão. Como eu tive uma liberdade maior com os enredos, no intuito de sugerir o tema principal e a escola foi acatando, eu consegui mostrara cara do Jack por completo. Eu fiz muitas outras coisas que também são minhas, a minha cara tá lá, mas eu não vejo uma coisa 100% porque não era ideia minha fazer aquilo inicialmente. Era meio que uma encomenda, de certa maneira tudo é uma encomenda também... Esses enredos que chegam assim, sugeridos, me davam um calafrio porque eu tinha medo de me transformar nisso, de olhar aquele roteiro sugerido e pensar 'que droga', ter que fazer aquilo e ter que assumir aquilo pra mim. Quem manda a gente fazer não tem consciência do mal que nos faz ter que ficar dando entrevista durante meses como se aquilo fosse o máximo. Aqui na Tuiuti nesse últimos projetos, como eram projetos que eu tinha muita vontade de fazer, saíram com a minha identidade e aí as pessoas me viram melhor."

CARNAVALIZE: Pra finalizar, a gente enxerga exatamente a continuação desse trabalho e pergunta sobre o enredo de 2018, que passeia por um momento histórico e chega na atualidade, com a critica politica. Qual mensagem final você quer deixar nesse desfile?

JACK: "Eu espero sinceramente que as pessoas tenham mais consciência do coletivo, isso seria muito bom. Porque nós fazemos parte de um coletivo, essa propaganda que a gente é bombardeado diariamente com o "personal" é uma grande mentira. Nós somos um corpo só, nós somos células de um corpo. A gente espera que com esse tema as pessoas pensem um pouquinho nisso, de ter essa consciência de que o próximo é tão importante quanto você, porque a minha ação provoca no próximo mesmo eu nem vendo. O enredo no fundo fala disso. A gente tá falando da exploração do próximo, então se existe esse olhar de que o próximo merece ser explorando. Existe uma ideia de superioridade, existe um 'eu sou importante e o próximo não é'. A gente tá batendo nessa tecla de que isso tem que deixar as pessoas mais ligadas."
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