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Carnavalize




por João Vitor Silveira 


Nascido no subúrbio nos melhores dias, João Nogueira marcou para sempre seu nome na história da cultura popular brasileira. Ávido representante do Méier, aprendeu desde cedo a conectar seus dedos com os braços do violão, tendo como referência seu próprio pai, o advogado e também músico João Batista Nogueira, e também a sua irmã mais velha, Gisa Nogueira, com quem compartilhou primeiro os seus talentos com a inspirada caneta, tendo sido sua primeira parceira de composições. Suas primeiras composições encontraram destino no bloco Labareda do Méier, onde começou sua carreira compondo sambas.

João Nogueira no conforto de sua poltrona - Foto: Cláudio Jorge de Barros/ Arquivo Pessoal

“Esse mar é meu”, clamou João ao adentrar de fato a cena da música brasileira com o sucesso “Das 200 pra Lá”. Ainda que ainda surfando as ondas de uma suposta inexperiência, João navegou como marinheiro experiente nas águas do grande Brasil, encontrando caminhos das por intermédio da voz de Eliana Pittman, alcançando o topo das paradas da época. Ainda que tenha precisado afastar alguns rumores de que seria um músico subserviente à ditadura, pelo viés nacionalista de sua canção, as portas foram se abrindo para um músico genial. 

“Trabalho é besteira, o negócio é sambar”, diria o bom João, enquanto continuava sua trajetória rumo ao reconhecimento que lhe era devido. Já havia gravado dois LPs que haviam tido boa repercussão no cenário da música, antes de lançar “Vem que tem”, em 1975, que gerou frutos inestimáveis para sua obra. Naquele momento, João se consolidava como um exímio compositor, sendo capaz de trabalhar com diversos parceiros e mesmo assim proporcionar belíssimas obras. Foi com Eugênio Monteiro que compôs Nó na Madeira, um dos grande sucessos da carreira e uma das principais obras do disco de 75. 

João Nogueira e seu cavaquinho - Foto: João Nogueira (Divulgação) 

Quebra no balacochê do cavaco! Era esse o mandamento do mineiro para Mineira cumprir. Foi também no LP de 75 que veio de uma só levada dois legados importantíssimos da carreira de João: A homenagem feita à Clara Nunes seria um dos maiores sucessos da carreira de João, se perpetuando nas rodas de samba e servindo até os dias de hoje como uma homenagem não somente para Clara, mas para o próprio cantor. Seria também a partir dessa homenagem a consolidação da parceria, que já fora frutífera no disco de 74, com P.C. Pinheiro.

É, vida voa. O tempo vai, e como vai. A cada ano João colecionava novos sucessos, e também versava cada vez mais profundo. Em 1977, o poeta do Méier abriu ainda mais seu coração, e versou sobre sua própria alma. Sua relação para com o pai, em quem se espelhava,  deixou transparecer um saudosismo da época em que tinha seu velho ao lado, e refletia seus passos e caminhos nos que seu pai havia trilhado. Queria poder fazer canções como as que fizera seu pai, e teve seu momento de não estar em paz com Deus por lhe tirá-lo. Mas João sabia que se olhar no espelho era abrir um portal em sua alma, para sentir o reflexo de seu pai, e ele sabia que podia continuar fazendo, ainda que narrasse seu maior medo.

Meu medo maior é o espelho se quebrar. E talvez fosse justamente a partir desse medo que João enxergava na cultura do samba a maneira de manter o seu espelho intacto. Mergulhando de vez na Vida Boêmia, lançou em 1978 disco com esse mesmo título. João firmou de vez os pés na vida noturna, e cantou os Bares da Cidade, narrou um instigante Baile no Elite e também falou sobre o que era um Amor de Fato. Entretanto, talvez o maior sucesso daquele disco tenha sido Forças da Natureza, com seu prolífico e histórico parceiro, Paulo César Pinheiro. 

Paulo César Pinheiro e João Nogueira - Foto: Arquivo Pessoal

“E é por isso que eu vivo no Clube do Samba”, versaria anos após a fundação do clube original a Acadêmicos do Cubango, ao homenagear João em 2017. Fundamentando ainda mais o seu papel e o seu legado para o mundo do samba, o poeta do Méier fundou em 1979 o Clube do Samba. O clube, que teria diversas sedes ao longo dos anos, tendo inclusive funcionado inicialmente na casa do próprio João, seria um reduto para os sambistas, promovendo noites memoráveis para o gênero, contando com a participação de compositores das escolas de samba, dos sambas de roda, cantores, músicos e intérpretes. Era uma verdadeira celebração que ajudaria a fincar ainda mais fundo o nome de João, e do samba, na história do país. E, como o criador que ama sua criação, lançou ainda disco homônimo com direito a mais sucessos com P.C. Pinheiro como Súplica e Canto do Trabalhador. 

Não, ninguém faz samba só por que prefere. Como poderia ser apenas preferência, não foi à toa que João fez seus versos, que se tornaram um elo de identificação com todos os outros artistas do gênero. Havia coisas mais profundas do que apenas uma possível preferência por aquele trabalho, era uma magia, uma força interior que levava os músicos naquele caminho. Até porque não era o próprio João um espelho de seu próprio pai? As reflexões e os anseios que moravam no âmago de João e P.C. Pinheiro sobre a função renderam Poder da Criação, do disco Boca do Povo,  em 1980. E João tinha no que afirmava, já que ele tinha um estilo próprio cativante.

Era diferente, com jeito de Wilson, Geraldo e Noel. João se estabeleceu como um artista único; suas composições tinham um estilo de fácil identificação com a sua personalidade, assim como seu cantar tinha uma cadência inigualável. Suas influências eram claras, pois o próprio Nogueira não fazia questão de escondê-las. Gravara ao longo dos anos diversas músicas de Noel Rosa, Geraldo Pereira e Wilson Batista. Para além das gravações que fizera, João lançou também disco, em 1981, de nome “Wilson, Geraldo, Noel”, para render uma definitiva homenagem às suas maiores inspirações. 

 
Clara Nunes e João Nogueira dividindo o palco - Foto: Arquivo Rede Globo

A vida é mesmo uma missão, bem sabia João. Sua carreira não encontrou ponto baixo nos anos que se seguiram, continuando a lançar discos e músicas de sucesso, além de participar em gravações de outros artistas. Mas, para além disso, João pareceu compreender também que a sua missão havia sido cumprida, pois mantivera o espelho do pai intacto com seu trabalho. E para além de mantê-lo intacto, virou ele próprio um espelho. Quando lançou Além do Espelho, seus versos indicavam claramente que ele entendia a sua missão, e enxergava em Diogo, seu filho, o espelho do espelho que ele era. 


“Que falta faz tua alegria,” poderia dizer para Clara ou para João. No que foi talvez a epítome da parceria entre P.C. Pinheiro e João Nogueira, o disco de 1994 intitulado “Parceria” trouxe consigo uma belíssima coletânea dos grandes sucessos feitos pela dupla. E era difícil não se atentar para as maravilhosas homenagens que ambos os poetas haviam construído ao longo dos anos à querida Sabiá, que infelizmente havia nos deixado. Talvez fosse luz demais para um mundo cheio de trevas, e era possível apenas lembrar do seu canto. Poucos anos depois da gravação do disco, seria a vez de João Nogueira encontrar o descanso eterno. 

Diogo Nogueira caracterizado como o pai João, em homenagem realizada no programa Domingão. Ao seu lado, a mãe Ângela Nogueira, que esteve na plateia para assistir - Foto: Reprodução: Instagram)


A vida é sempre uma missão. A morte, uma ilusão. Se pudesse de alguma forma dizer palavras de conforto para o poeta do Méier no momento de sua despedida, seriam essas que começaram esse parágrafo. Que a sua partida poderia ser em paz, pois seu maior medo jamais iria se concretizar. Testemunhamos desde sua partida o “Espelho do Espelho que não quebrou”. Por isso é que as palavras escritas e cantadas por João são tão verdadeiras e realistas. A morte é uma ilusão. Ele está vivo desde que partiu.

Pois quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu. 


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Texto: Leonardo Antan e Thomas Reis
Revisão: Beatriz Freire


1935. A Portela comemorava seu primeiro título no carnaval, realizado na Praça Onze. Meses depois, em agosto, nasceu Antônio Candeia Filho. Não à toa, o destino da azul e branco e do sambista se confundem e se completam. Importante não só para a agremiação de Madureira, o compositor se colocou no debate ante a transformação do samba e do carnaval. Contar a sua vida é atravessar boa parte das mudanças sociais e culturais que marcaram o século XX. Por isso, o Carnavalize presta suas homenagens a esse imenso personagem que chegou a ser comparado a Paulo da Portela, mas que, para além disso, pode-se dizer que foi o Zumbi da resistência carnavalesca, idealizando seu próprio Quilombo.

Candeia posa com seu visual inconfundível. Foto: Acervo O Globo.

 Foi no ainda rural bairro de Oswaldo Cruz que nasceu Antônio Candeia Filho, no dia 17 de agosto de 1935. A região estava sendo ocupada desde as reformas que mudaram o centro carioca, tornando-se um polo cultural efervescente. Filho de Dona Maria e Antônio Candeia, este um tipógrafo que tinha o samba pulsando em suas veias, exímio flautista, personagem fundamental para a formação musical do filho, mesmo que de maneira indireta. 

Desde pequeno Candeia passou a frequentar pagodes e rodas de sambas, cresceu no meios dos bambas, o que impulsionou a precoce carreira de músico. Uma das maiores tristezas de sua vida foi não ter tido uma festa de aniversário tradicional, rodeado de crianças, com bolo e refrigerantes; todas as festividades em casa eram conduzidas por três elementos fundamentais: samba, feijoada e cachaça. Não tardou para o jovem ser figura recorrente nas festanças da casa de Dona Esther, lendária festeira da região. Lá, passou a ter contato íntimo com as manifestações culturais de raízes afro-brasileiras, como o samba e o jongo e o candomblé.


"Alumia meu caminho, Candeia"


Seu pai, Antônio Candeia, amigo de Paulo da Portela e integrante do bloco Vai Como Pode, esteve presente na Portela desde os primórdios de sua fundação. Foi também o idealizador das comissões de frente uniformizadas, sendo, graças a ele, a escola de Oswaldo Cruz a primeira a desfilar com um grupo de pessoas à frente do cortejo, representando a diretoria da escola, que apresentava todo o trabalho desenvolvido pela comunidade para chegar à Praça Onze. Apesar de estar envolvido com a escola, o velho Candeia não era exatamente um entusiasta ou grande incentivador da aproximação do filho com a Portela. Ainda muito garoto foi escondido pela primeira vez na sede da escola que se localizava ao lado do bar do Nozinho, irmão de Natal, e se encantou com aquele ambiente de terra batida, repleto de pessoas sambando e cantando. Partiu, então, de sua mãe o apoio para desfilar pela primeira vez com as cores águia altaneira, em 1950, fantasiado de mecânico, no auge dos seus quase 15 anos. Aqueles foram os primeiros passos de uma história que se eternizou. 

Candeia, Waldir 59 e Darcy desfilando na Ala dos Impossíveis.

A partir de então, o sambista se aproximou cada vez mais da escola: integrou a “turma do muro”, grupo de jovens moradores de Oswaldo Cruz que se reunia para compor samba no muro da estação de trem. Constituiu também a Ala dos Impossíveis, fundada por Wanderley Silva, famosa por suas inovações, considerada por muitos a responsável por introduzir o passo marcado em alas coreografadas. O sucesso das coreografias foi tamanho que Candeia, juntamente com Waldir 59 e Mazinho foram convidados para estrelarem um comercial da TV Tupi. Os jovens sambistas foram com intuito de divulgar suas qualidades coreográficas, mas acabaram passando por um enorme constrangimento ao serem colocados com trajes típico de povos indígenas para uma propaganda de ar condicionado. Racismo à parte, o grupo ganhou fama com suas apresentações no musical “Night and Day” de Carlos Machado. 

Contudo, foi em 1953 que selou sua presença fundamental na agremiação, compondo seu primeiro samba. As bênçãos para a entrada na tradicional Ala dos Compositores foi concedida por Manacéa. Personagem fundamental da comunidade de Oswaldo Cruz e membro assíduo da Portela, ele via em Candeia a “chama da escola” e conferia ao ainda jovem sambista a confiança necessária e potencial enorme para dar continuidade ao celeiro de composições dos sambas imortais. 

A carteirinha de compositor de Antonio Candeia Filho. 

O primeiro samba-enredo foi composto em parceria com Altair Prego, para o enredo “Seis datas magnas”, apresentando uma visão historiográfica do Brasil. As notas máximas foram alcançadas juntamente com o título que culminou em uma comemoração pra lá de polêmica do então Patrono Natal, que subiu a Serrinha empunhando um caixão nas cores da co-irmã, o Império Serrano (saiba mais aqui). 

Já iniciado na ala e reconhecido pelos compositores veteranos, Candeia conquistou mais cinco títulos em concursos de samba-enredo na Portela. Dividiu as composições de 1955 (“Festas juninas em fevereiro”), 1956 (“Riquezas do Brasil”) e 1957 (“Legados de D. João VI”) com o grande amigo Waldir 59. Voltou a vencer em 1959 (“Brasil, panteão de glórias”), em parceria com Casquinha, Bubu, Picolino e o mesmo parceiro de sempre, Waldir. Seu último samba composto para a Portela foi em 1965, para o enredo (“História e tradição do Rio Quatrocentão”), em mais uma parceria com seu fiel companheiro. Em resumo, Candeia compôs seis sambas para a Majestade, dos quais três foram de carnavais campeões, duas segundas colocações e um terceiro lugar, um caminho louvável de um jovem que se tornou referência na composição de sambas-enredo de uma das mais tradicionais agremiações cariocas.


"Enquanto houver samba na veia/ Empunharei meu violão/ Sentado em trono de rei"


Para muitos negros, conseguir um cargo estável era uma das poucas formas de acesso a uma condição melhor de vida. Assim, nos idos de 1960, Candeia foi aprovado no concurso para a Polícia Civil, assumindo o cargo de detetive. Como tudo em sua vida, levou muito a sério o cumprimento de seu ofício, mas o caráter enérgico e truculento lhe concedeu a fama de ser um policial que não aliviava para ninguém. O tom severo se avolumava quando o problema era com a malandragem, em ocasiões nas quais chegou até mesmo a acabar com diversas rodas de samba e repreender Paulinho da Viola em um salão de sinuca. Sua postura o afastou de alguns amigos. Waldir 59, o companheiro de tantas composições, chegou a dizer que o sambista havia mudado muito, a ponto de fingir não conhecê-lo quando estava junto de outros policiais. Se por um lado a entrada na polícia prejudicou a relação com os amigos, por outro, a intimidade com o samba continuava a mesma. 

Cada vez mais fortalecido na ala dos compositores da Portela, Candeia passou a dirigir o conjunto “Mensageiros do Samba” com Picolino da Portela, Arlindo, David do Pandeiro, Jorge,  Bubu e Casquinha, inspirados pelo conjunto “Voz do Morro”, conduzido por Zé Keti. A ideia surgiu no bar Zicartola, onde se apresentaram diversas vezes, chegando a gravar um LP em 1964.

Candeia posa com a bandeira da Portela na Avenida dos desfiles. 

No mesmo ano em que assinou seu último samba pela azul e branca de Oswaldo Cruz, sofreu uma enorme reviravolta que alterou todas as suas concepções de vida. No dia 13 de dezembro de 1965, após uma noite de comemorações regadas a álcool, Candeia estava voltando para casa na companhia de Waldir 59 quando colidiu com um caminhão de peixes no final da Marquês de Sapucaí, sentido da Avenida Presidente Vargas. Foi ali que o partideiro seguiu o caminhão, forçando-o parar. Desceu de seu carro e esvaziou seu revólver nos pneus do caminhão. O companheiro do peixeiro desceu do caminhão e desferiu contra Candeia cinco tiros, dentre eles um que se alojou em sua medula óssea, ficando entre a vida e a morte nos braços do amigo Waldir. 

Após o ocorrido, lutou pela vida durante dois anos. Entre hospitais e inundado pela falta de esperança por partes dos familiares, o forte homem resistiu, apesar de ter perdido os movimentos de suas pernas. Alocado em uma cadeira de rodas, aposentado da polícia por invalidez e afastado dos amigos, Candeia se afundou em depressão. Em meio a essa solidão e com tempo livre, encontrou em seu violão o caminho para ressurgir. Foi, então, imerso ao samba que ganhou vida um compositor da maior sensibilidade, equilíbrio e maturidade. As letras de seus sambas eram cada vez mais apuradas e passaram a refletir sua nova condição. Observando as mazelas da sociedade, utilizou de suas composições para resistir às descaracterizações impostas às culturas afro-brasileiras e defender a brasilidade do samba.

“Não basta ter inspiração / Pra cantar samba se precisa muito mais”

Durante a década de 70, o samba explodiu como fenômeno de vendas e repercussão da indústria fonográfica. Grandes músicos do gênero conquistaram o topo das paradas de sucesso nas rádios e programas de TV. Já no exato ano de 1970, esse espaço já vinha sendo conquistado e grandes marcos do gênero foram lançados, como o primeiro LP da Velha Guarda da Portela. Foi quando Candeia também conseguiu emplacar seu primeiro álbum, cinco anos depois de seu acidente. O LP trazia na capa um jogo com as palavras “Autêntico, Samba, Original, Melodia, Portela, Brasil, Poesia”, sendo composto apenas por canções originais do artista. Entre as doze canções, somente duas parcerias com Casquinha e uma com Paulinho da Viola. Entre elas, estava “Dia de graça”, maior êxito da seleção musical que se tornou um clássico. 

Candeia e Martinho da Vila se apresentam juntos na década de 1970.

Ao longo dos anos, Candeia lançou ainda mais quatro álbuns. O segundo dele veio no ano seguinte, batizado de “Raiz”. Em 1975, Candeia concluiu seu terceiro LP individual, "Samba de roda", lançado pela Tapecar. Também naquele ano, participou da gravação do LP "Partido em 5"", o primeiro de uma série de três volumes dedicados ao partido-alto, estilo que se tornou uma das bandeiras do sambista. Entre 1973 a 1976, também foi um dos personagens do documentário homônimo de Leon Hirszman sobre o sub-gênero conhecido pela improvisação. Além das próprias gravações, suas músicas foram regravadas por inúmeros sambistas como Cartola (Preciso me encontrar), Beth Carvalho (Você, eu e a orgia), Clara Nunes (O mar serenou), Elza Soares e Martinho da Vila (A flor e o samba).





“Depois que o visual virou quesito, o samba perdeu sua pujança”


Não diferentes dos chamados “samba de meio de ano”, as escolas de samba também experimentaram um verdadeiro sucesso midiático que nunca tiveram antes. Era o resultado da “Revolução Salgueirense”, que aproximou definitivamente a classe média das agremiações e fez dos desfiles um produto espetacular e turístico, que repercutiu no Brasil e no Mundo. A contrapartida desse período tão importante foi justamente a chegada de artistas acadêmicos, criando uma relação de negociação que fez das escolas de sambas ainda maiores culturalmente, mas acirrou o debate entre “tradição X modernidade”, presente nas escolas de sambas desde seu surgimento. 

Mesmo que não participasse mais das disputas de sambas da Portela, Candeia seguiu ativo na azul e branco. Mas seu descontentamento com os rumos que o carnaval tomava ficavam cada vez mais evidentes, sobretudo com a mudança de poder que houve na agremiação. A chegada de Carlinhos Maracanã, substituindo o lendário Natal, não deixou o clima agradável. O primeiro desentendimento aconteceu na preparação para o ano de 1972, quando Candeia sugeriu o enredo afro "Ilu Ayê – A terra da vida", em parceria com o cartunista Lan. A versão do sambista é que, já próximo da folia, Hiram Araújo chegou indicado pelo então presidente e passou a tratar a ideia como dele, assumindo o Departamento Cultural da Águia altaneira. 

A águia do desfile portelense de 1972 que cantou a "Terra da Vida" em tradução livre.

Seguindo a década, o ano de 1975 foi decisivo nessa história. Já em março, após o carnaval, Candeia se juntou a Paulinho da Viola, André Motta Lima, Carlos Monte e Cláudio Pinheiro para endereçar uma carta direta ao presidente da Majestade do Samba. O documento apresentava uma série de críticas dos sambistas, bem como várias sugestões para a aproximação da escola com o “povo” e o fim do autoritarismo do presidente. Dentre as proposições estavam a restrição do número de componentes a 2500 pessoas; proibição da entrada de novos compositores na ala dos compositores até que fossem abertas novas vagas, e proibição das torcidas organizadas nas escolhas de samba. As considerações foram solenemente ignoradas pela direção. 

Meses depois, houve um novo episódio envolvendo, dessa vez, todas as agremiações cariocas.  Em novembro de 1975, a Associação de Escolas de Samba firmou uma parceria com a Riotur, a empresa municipal de turismo fundada anos antes, aproximando ainda mais a folia de uma questão turística, pasta municipal a qual elas sempre estiveram submetidas historicamente. A ação consolidava o caráter negociador.

Entre a transformação latente do espetáculo, a consolidação de artistas ligado ao teatro e artes visuais, como Fernando Pinto (no Império Serrano) e Joãosinho Trinta (ainda no Salgueiro), além das transformações na estrutura do samba-enredo, que passava por um processo de dinamização com obras como “Festa para um rei negro” e “Alô, alô, taí Carmen Miranda”. Bem longe das Minas do Rei Salomão e da Vedete do Subúrbio, fundou-se então um Quilombo. 


“Quilombo pesquisou suas raízes / E os momentos mais felizes de uma raça singular”


Para fora da Avenida, o momento era de valorização e discussão da negritude. O movimento Black norte-americano chegou em terras brasileiras, popularizando o soul e o funk, na voz de Tony Tornado. Os cabelos crespos e cacheados cresceram imponentes, mostrando seu verdadeiro poder. Os bailes reuniam as diversas matizes de preto, ampliando fortemente o debate racial num país fundado pela escravidão. Era um período ainda mais duro com a ditadura civil-militar em voga, fazendo assim surgir iniciativas como o Centro de Estudos Afro-Asiáticos e o Instituto Popular de Cultura Negra. 

O brasão da GRANES Quilombo.

Foi nesse cenário que nasceu o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, devidamente fundado em 8 de dezembro de 1975 pelos compositores Candeia, Neizinho, Wilson Moreira e Mestre Darcy do Jongo. Dentro da famosa máxima de Luiz Antonio Simas, a Quilombo existiu muito mais do que para desfilar apenas. Sua organização incluía uma verdadeira valorização e educação de preceitos afrocentrados. Aliada à questão dos rumos do próprio carnaval, a entidade cultural era um pólo de resistência também a uma conjuntura sociopolítica e econômica de falta de liberdade de expressão e de crise econômica. 

A agremiação foi lançada com um verdadeiro manifesto que deixava claras as suas intenções. Até estava aberta a todos, mas não às imposições vindas de elementos externos, sobretudo dos chamados “profissionais” da folia. Nada de “artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais”; não havia interesse em teses intelectuais e acadêmicas, e, sim, em representar o “povo”. O manifesto terminava evocando o carnaval espontâneo, ligado às origens. Sua proposta era de simplesmente resguardar a cultura negra.

Como um verdadeiro espaço de refúgio entre os bairros de Fazenda Botafogo e Acari, a agremiação promovia uma série de eventos e atividades culturais como forma de atrair a comunidade carioca. Festas, cursos, palestras sobre negritude, aulas de dança e teatro, exposições de artes visuais… uma programação intensa. Nos dias de folia, a escola nunca chegou a se filiar a qualquer liga oficial, variando seu desfile ao longo dos anos em que esteve em atividade. 

Os desfiles da agremiação aconteceram no bairro de origem, mas ela foi convidada a participar do cortejo na Avenida Rio Branco, fechando os desfiles do carnaval sem cronometragem estipulada. A maneira como a Quilombo se apresentava também era um ponto de debate, recuperando o que se chamava de desfile mais “tradicional”. Assim, a bateria não fazia paradinhas nem desenhos rítmicos e devia estar entrosada com um samba-enredo melodioso e no tempo certo, o menos acelerado possível. Nada de coreografias e acrobacias para as passistas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. 


Já o enredo era, obviamente, ligado às questões afro-brasileiras, a maioria desenvolvida pelo próprio Candeia. Narrativas com bom desenvolvimento e temas inéditos, bem pesquisados e que se materializassem claramente através das alegorias e fantasias deviam ser o mais simples possíveis, longe do luxo vigente. No primeiro ano, desfilou com o samba "Apoteose das mãos", de Mariozinho de Acari, Zeca Melodia e Gael, pessoas da comunidade. Nos dois anos seguintes, os sambas foram da dupla Wilson Moreira e Nei Lopes, autores de "Ao povo em forma de arte" e "Noventa anos de abolição”. 

Entretanto, a criação da Quilombo não afastou completamente Candeia de sua azul e branco de Oswaldo Cruz, mesmo que participasse com menos frequência. Assim, quando a direção da escola precisava afirmar sua tradição, trazia de volta tanto o sambista como Paulinho da Viola. Foi o caso de 1978, quando ambos foram jurados do concurso de samba-enredo da Portela.

Além das atividades na escola de samba, uma das últimas contribuições de Candeia, para o entendimento desse fértil período social e cultural que colocava numa mesma encruzilhada “movimento negro X carnaval espetáculo”, foi o livro em “Escola de Samba, árvore que esqueceu a raiz”, de 1978. A obra seria, a princípio, em parceria com Paulinho da Viola, que acabou não conseguindo contribuir por falta de tempo. Quem dividiu a feitura da obra com o músico foi Isnard Araújo, cria de Madureira e que tocava um projeto chamado Museu Histórico Portelense, no qual colhia depoimentos dos componentes mais antigos da agremiação. Sua ideia inicial era fazer apostilas com o material gravado para serem distribuídas, mas Candeia propôs a publicação do livro em co-parceria. O livro não se limitou a colher depoimentos, mas também mapeou diversos cargos e funções dentro da uma escola de samba, fazendo um verdadeiro manifesto sobre o assunto e colocando mais mais lenha na discussão entre tradição e modernidade. 


“A chama não se apagou/nem se apagará” 


Em 1978, o enredo para o carnaval da GRANES Quilombo foi “Ao povo em forma de arte”, proposto por Rachel Trindade, filha do artista Solano Trindade. A escola de Candeia, a convite da RioTur, fechou o carnaval do centro da cidade embalada pelo samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, como já dito, novatos na Quilombo. Foi uma grande euforia: o idealizador veio apresentando seus componentes naquele que seria seu último desfile. Em novembro daquele mesmo ano, o sambista foi internado em decorrência de um infecção generalizada no organismo. No fatídico dia 16 do referido mês, Candeia não resistiu a uma parada cardíaca e morreu aos 43 anos, jovem e, para muitos, no auge de sua carreira.

Clementina de Jesus e Antônio Candeia Filho no desfile da Quilombo.

O grande partideiro deixou sementes que florescem até hoje, e a verdadeira “luz da imaginação” ganhou espaço nos desfiles de algumas escolas que cantaram suas glórias e seu papel fundamental para a cultura brasileira. Em 1981, apenas três anos após a sua partida, recebeu homenagens de uma escola bem longe do seu reduto: foi enredo da Nenê de Vila Matilde, com “Axé Sonho de Candeia”. Outra agremiação que cantou o sambista em seu desfile foi a Unidos do Jacarezinho, em 1986, com o enredo “Candeia, a luz que não se apaga”, desenvolvido por seu grande amigo Monarco e João Baptista Vargens, escritor de sua biografia. No ano de 2015, Candeia desfilou na Marquês de Sapucaí em mais uma condecoração realizada pela Renascer de Jacarepaguá (“Candeia! Manifesto ao povo em forma de arte!”), com um samba à altura do homenageado composto por ninguém menos que Moacyr Luz, Teresa Cristina e Claudio Russo.

"Axé! Candeia, axé!
A luz do quilombo no chão do terreiro
Axé! Irmão de fé!"

Pela sua querida Portela ainda não foi tema de enredo, mas seu nome figura dentre os mais diversos sambas da águia altaneira, fazendo-se presente pela última vez na homenagem que a azul e branco fez à grande cantora e amiga de Candeia, Clara Nunes, em 2019, no verso: “Candeia que ilumina o meu caminhar”.  Em um dos momentos mais emocionantes da história do carnaval, Candeia esteve presente, não fisicamente, apesar de algumas pessoas que discordem da negativa. O episódio aconteceu em 1999, quando a Estação Primeira de Mangueira levou para a Sapucaí o enredo “O século do samba”, no qual homenageava os grandes nomes do gênero. Para tal, a comissão de frente, conduzida pelo coreógrafo Carlinhos de Jesus, levou para desfilar os imortais sambistas que já haviam partido, gerando extrema comoção em todo o público. Em especial, a filha de Candeia ficou estarrecida ao ver o “pai” se levantando da cadeira de rodas pela primeira vez.

A representação de Candeia e Clara Nunes na comissão da Mangueira em 1999.

Para o carnaval de 2021, ainda que imerso nas incertezas ocasionadas pela pandemia da Covid-19, o Império da Tijuca anunciou seu enredo “Samba de Quilombo: a resistência pela raíz”,  que prestará homenagem ao GRANES Quilombo. A luz de Candeia não se apaga, a prova disso foi o número recorde de 52 sambas inscritos para o concurso de samba-enredo da escola do Morro da Formiga.

Do samba de enredo ao partido-alto, do protesto ao lamento. Contrário aos rumos que as escolas de samba começaram tomar, com o afastamento de suas raízes negras e populares, assumiu a bandeira para si e lutou até o fim de sua vida por suas convicções. A luz desta “Candeia” alumiou muito mais que Oswaldo Cruz e Madureira, se espalhou como fagulha de re-existência e transformação. E permanece acesa guiando uma geração de artistas populares. Seu grito quilombola ainda precisa ecoar. Salve Candeia! 


Referências Bibliográficas: 

BUSCÁCIO, Gabriela Cordeiro. “A chama não se apagou”: Candeia e a Gran Quilombo - Movimentos Negros e Escolas de Samba no anos 70. 2005. 164 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense, Programa de Pós-Graduação em História, 2015.  
CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. São Paulo: Lazuli Editora, 2011.
CANDEIA FILHO, Antonio; ARAÚJO, Isnard. Escola de Samba: árvore que esqueceu a raiz. Rio de Janeiro: Lidador, 1978. 
CANDEIA a luz que não se apaga. Portela Web, 2017. Disponível em: <https://www.portelaweb.org/memoria/panteao-de-bambas/candeia>. Acesso em: 10 de jul. de 2020. 
CUNHA, Ana Cláudia da. O quilombo de Candeia: Um teto para todos os sambistas. 2009. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Fundação Getúlio Vargas - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Programa de Pós-Graduação em História e Bens Culturais, 2009. 
SIMAS, Luiz Antonio. Tantas páginas belas: Histórias de Portela. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2012. 
TESI, Rômulo. Há 20 anos, Mangueira ‘trazia’ 14 bambas do céu e causava choro coletivo na Sapucaí. Setor 1 - Band/UOL, São Paulo, 2019. Disponível em: <https://setor1.band.uol.com.br/ha-20-anos-mangueira-trazia-do-ceu-14-bambas-e-causava-choro-coletivo-na-sapucai/amp/>. Acesso em: 16 de ago. de 2020.


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Arte: Vitor Melo.


Por Thomas Reis e Leonardo Antan
Revisão: Luise Campos


Se no Panteão portelense Paulo é Oranian - fundador do reino africano de Oió -, Natal é Oxóssi. E, assim como o orixá associado à prosperidade, Natalino José do Nascimento, popularmente conhecido como Natal da Portela, é símbolo máximo do anos de ouro da Águia Altaneira. Homem forte, líder, pioneiro e muito polêmico, Natal amou e fez o que pôde pela sua escola de coração, revolucionou as concepções do Carnaval carioca com a integração da patronagem e tornou-se figura célebre na história do Rio de Janeiro, amado por uns e temido por outros. Hoje, 31 de julho de 2020, completam-se 115 anos do nascimento de Natal da Portela e o Carnavalize vem celebrar a surpreendente trajetória desse portelense primordial para o Carnaval. 

Natal na Inauguração da nova sede da Portela na década de 1970. (Acervo Arquivo Nacional)


Paulista de nascimento, Natalino José do Nascimento nasceu em Queluz, interior de São Paulo, mas após o falecimento de sua mãe, mudou-se com seu pai e avós para o Rio de Janeiro, mais especificamente para o bairro de Oswaldo Cruz. A família, apesar da situação financeira penosa, nunca deixou as festividades de lado. Na efervescência cultural do bairro suburbano, onde figuras como Tia Ester reinaram, as festas religiosas realizadas por Napoleão José do Nascimento, pai de Natal,  foram um importante ponto de batuqueiros, sambistas e intelectuais locais. 

Longe das folias, o jovem Natal começou a trabalhar ainda muito jovem, num posto de aprendiz na Estação de Ferro Central do Brasil. Foi nos trilhos do trem que aconteceu o trágico acidente que marcaria sua vida, quando tinha apenas vinte anos. Demitido por invalidez ao perder o braço direito, ainda tentou ganhar a vida como camelô e biscate, mas a virada no seu destino aconteceu quando se tornou anotador de jogo do bicho, passando a trabalhar para o famoso à época Capitão Amorim. Aos poucos, Natal foi ganhando a confiança do contraventor, que comandava os arredores de Madureira e, com isso, alçou cargos dentro do negócio até herdar o comando e se tornar uma espécie de rei da loteria popular.

“Quando o Barão de Drummond criou/Um jardim repleto de animais/
Então lançou um sorteio popular”


Surgida no fim do século XIX, a loteria popular era um sucesso desde seu lançamento pelo Barão de Drummond, que criou a iniciativa para recuperar seu Jardim Zoológico de uma baixa financeira. O jogo inocente dos 25 animais pintados nas entradas do parque, que rendiam um prêmio em dinheiro aos visitantes que tinham o ingresso cujo bicho do dia figurasse no bilhete, movimentou a população. Isso fez com que a prática se espalhasse por toda a cidade, num formato mais elaborado, vindo sua prática a ser proibida pelo governo republicano. Foi nesse cenário que Natal foi galgando seu espaço. 

Uma das entradas do Zoológico de Drummond que deu origem ao Jogo do Bicho. (BNL Data)


Nos anos 1950, o banqueiro popular já estava tão estabelecido nas bandas de Madureira que corria o boato que a banca da Zona Norte fazia girar mais dinheiro que todas as outras da cidade juntas. Mas se engana quem acha que o bicheiro começou a acumular fortunas. Aí entrou o lado que o tornou lendário: chegar onde o poder oficial não chegava. Assim, começou a ajudar todos que precisavam: amigos, instituições de caridade, igrejas, o seu clube de coração: o Madureira, onde ocupou cargo de diretor de patrimônio, estabilizando suas finanças e construindo um novo estádio. Foram diversas ruas asfaltadas e feitos importantes, mas a maior beneficiada com o dinheiro da contravenção foi a sua tão amada Portela.

Engana-se quem acha que Natal foi um bicheiro que se envolveu com Carnaval depois de estabelecido no negócio. Foi através de sua figura que o jogo do bicho ganhou espaço dentro das escolas de samba, mas diferentemente de seus sucessores, o portelense já fazia parte do âmbito carnavalesco quando foi integrado na loteria popular. Sua relação com a azul e branco de Oswaldo Cruz sempre foi bem estreita, ou até mesmo familiar: reza a lenda que os embriões do que viria ser a agremiação foram fecundados no quintal da casa de seu Napoleão, seu pai, pelos lendários Paulo da Portela, Antônio Caetano e Antônio Rufino. Essa ligação se tornou mais íntima a partir da década de 1940, após o afastamento de Paulo da Portela. Percebendo o vácuo de liderança deixado pelo professor, Natalino toma para si o comando da escola. Escrevendo a história de seu pioneirismo, converte-se no primeiro patrono de uma escola de samba. 


“Dessa brincadeira / Quem tomou conta em Madureira, foi Natal / Consagrando a sua escola, na tradição do Carnaval”


É quase impossível dissociar a figura de Natal dos anos áureos da Águia, já que ele esteve ativo na escola por aproximadamente 30 anos, no intervalo que se estende de 1941 a 1970. Nesse período, a azul e branco saiu vitoriosa por 17 vezes, conquistando o extraordinário heptacampeonato (1941-1947) e, posteriormente, um tetra (1957-1960). Em meio a tantos títulos, o aporte financeiro do banqueiro popular foi fundamental para os anos de glórias da agremiação. Dono de uma robusta personalidade e de muita coragem, com o passar do tempo, ‘seu’ Natal da Portela foi se transformando em um eminente personagem do subúrbio carioca. O patrono da Portela, com isso, obteve prestígio significativo, decorrente, sobretudo, de seu olhar visionário e de seu caráter polêmico. Assim, o universo da contravenção, em especial o jogo do bicho, possibilitou o crescimento das escolas de samba no Rio de Janeiro, fazendo com que, muitas vezes, esse cenário provocasse um olhar romantizado sobre a situação, quando é sabido que ele abre uma série de complexidade sobre a festa e sua relação de constante negociação entre os poderes vigentes e paralelos. 

Uma sambista portelense com a Duquesa de Kent, no Palácio do Itamaraty, em 1959.

Para além dos desfiles pomposos, o patrono também investiu nas sedes definitivas da Majestade do Samba para os ensaios da agremiação e feijoadas comandadas por sua irmã Vicentina. A primeira delas, chamada hoje de Portelinha, surgiu no final da década de 1950. Apesar de simples, a quadra recebeu figuras ilustres como os monarcas soberanos de Luxemburgo, que, numa dessas inusitadas histórias cotidianas do Carnaval, acabaram embebedados por Natal para não notarem a falta de banheiro do lugar. Se especializando em recepcionar a nobreza, a agremiação ainda recebeu a convocação de Negrão de Lima (Ministro das Relações Exteriores do governo de Juscelino Kubitschek) para uma apresentação no Itamaraty que receberia a duquesa Kent. O episódio foi eternizado na canção “Tempos idos”, do mangueirense Cartola. 


“Com um braço só, eu já dei muito trabalho”


A excentricidade de Natal vai além de sua tradicional vestimenta - paletó de pijama, chinelo e, claro, sua arma na cintura. Sua forte personalidade o conduziu a uma série de polêmicas. A relação do contraventor com as co-irmãs nunca foi das melhores, principalmente com o Império Serrano. As coisas em Madureira eram bem quentes como o próprio relata para Hiram Araújo e Amaury Jório, escritores da biografia do anti-herói: 
“Eu não gostava muito do pessoal do Império. A gente só vivia brigando. Eles eram convencidos. Uma merda. O que me deixava puto é que foi o pessoal nosso, que saiu da Portela, para, juntamente com o Prazer da Serrinha, em 1947, fundar o Império… O falecido Elói, do Império, mandava no cais. Ele não dava colher de chá ao pessoal que era da Portela. Tinha gente que não conseguia pegar um dia de estiva. Era só pro pessoal do Império... Uma vez a gente fazia aquele desfile de segunda-feira em Madureira, que se faz todo ano, quando, ao passar em frente ao Império, um dos caras de lá meteu a mão no revólver e atirou em mim. Porra. O tempo esquentou. Quem estivesse de verde e branco entrava na porrada. Era homem, mulher, veado ou puta. Porrada neles. Foi uma das maiores porradas de Madureira. (ARAÚJO; JÓRIO, p.103-104).”


O embate Natal da Portela versus Império Serrano teve uma dos seus episódios mais folclóricos em 1953. Em meio a uma longa disputa entre as entidades representativas das agremiações, o Império Serrano conseguiu a anulação do Carnaval de 1952, alegando que as fortes chuvas teriam prejudicado os desfiles. O problema é que, segundo analistas, o título iria mais uma vez para a Majestade do Samba, revoltando o patrono portelense, que prometeu realizar um enterro simbólico da Serrinha caso ganhasse o Carnaval do ano seguinte. Dito e feito. Com o enredo “Seis datas magnas” a Águia levou mais uma, para a felicidade de Natal, que cumpriu o prometido. Decorou um caixão de verde e branco com a coroa do Império e foi realizar o enterro simbólico. Foi uma confusão sem tamanho, que acabou acirrando ainda mais as disputas em Madureira e Oswaldo Cruz. 

Outra polêmica envolvendo o bicheiro foi o resultado da folia carioca de 1960. Se hoje constam cinco agremiações como as campeãs daquele ano, tudo não passou de uma artimanha de Natalino José do Nascimento. A confusão aconteceu na apuração, quando a Portela alcançou notas suficientes para mais um título, mas o quesito “cronometragem” a faria perder a vitória. Naquele ano, fortes chuvas prejudicaram tanto o desfile da Águia como o do Salgueiro, que dava início a sua revolução com o enredo “Quilombo dos Palmares”. Vendo toda essa situação, Natal se aproximou do chefe do policiamento dando-lhe um soco na cara, armando uma tremenda confusão e acabando com a apuração. Depois do impasse, a Prefeitura assumiu a responsabilidade pelo atraso, alegando má organização na localidade dos desfiles. O quiprocó só foi desfeito quando, dizem alguns, o próprio Natal deu a ideia de divisão do título entre as cinco primeiras colocadas:  Portela, Mangueira, Salgueiro, Unidos da Capela e Império Serrano. Confusões à parte, o importante é que a azul e branco fechou um tetracampeonato com aquela vitória. 

A confusão causada por Natal na Apuração de 1960. (Jornal do Brasil: 5/3/1960) 


Mas nem só de polêmicas envolvendo o julgamento viveu o nosso anti-herói. O acaso conduziu Natal a uma das suas grandes contribuições para a história momesca. Em 1952, o bicheiro foi até uma casa de shows para reaver uma bandeira da Portela que havia sido roubada e estava sendo usada numa das apresentações do espaço. Ao invés de enfurecido, o bicheiro saiu de lá encantado, já que a tal “ladra” em questão era ninguém menos que Vilma Nascimento. A moça foi chamada a desfilar, mas acabou recusando o convite, uma vez que já que defendia o pavilhão da União de Vaz Lobo. Quis o destino que esse encontro voltasse a acontecer e, dois anos depois daquele episódio, Vilma começou a namorar o filho mais velho do contraventor. Agora como nora de Natal, ela não tinha como fugir e, em 1957, a eterna Cisne da Passarela assumiu o posto de porta-bandeira da Portela, revolucionando o quesito com uma trajetória impecável de 12 títulos com notas máximas. O patrono vivia a repetir: “Sem Vilma, a Portela não desfila!”. 


“Desta brincadeira/Quem tomou conta em Madureira/Foi Natal, o Bom Natal”


Para além da Avenida, é de se esperar que uma vida na contravenção seja rodeada de percalços. Além das brigas pelo poder das banca entre os bicheiros, Natal também foi perseguido e processado pelo governo. O episódio fatal para a desestabilização do patrono da Portela foi a instauração do governo militar, após o golpe de 1964. O período foi marcado por forte repressão ao jogo do bicho e perseguição aos contraventores. Com o decorrer do tempo, os problemas de saúde também foram aparecendo, fazendo com que o homem que outrora se mostrava forte e robusto, começasse a enfraquecer e ter de enfrentar diversos problemas pulmonares e cardíacos. Em meio à decadência financeira e a fraqueza física, Natal foi passando o bastão portelense para seu sócio Carlos Teixeira Marins, o dono da rede supermercados Maracanã, popularmente conhecido como Carlinhos Maracanã. 

A altaneira águia de 1975 com um homenagem ao lendário patrono. (Foto: site Portela)

Os últimos passos de Natal dentro da sua amada escola foram dados no início da década de 1970. Em um súbito e temporário afastamento de Carlinhos, em 1974, ele retomou o comando da Majestade. No ano seguinte, a agremiação desfilou com o enredo “Macunaíma, herói da nossa gente”: ironia do destino ou não, a homenagem ao herói sem caráter de Mário de Andrade foi a última vez que o anti-herói portelense se apresentou na Avenida. Entoando o popular samba composto por David Corrêa e Norival Reis, o patrono da Águia Altaneira foi ovacionado pelas arquibancadas. Em 5 de abril daquele mesmo ano, seu Natal da Portela faleceu. Sua morte gerou uma grande comoção por parte daqueles que o admiravam. Milhares de pessoas caminharam em um longo cortejo que saiu do Portelão em Madureira, onde o corpo foi velado, até Oswaldo Cruz e, depois, para o Cemitério Jardim da Saudade. Foram inúmeras as homenagens ao patrono, bicheiro, líder polêmico e amado Natalino José do Nascimento. 

O enterro do bicheiro em 1975. Fotos: Revista Manchete.


No ano seguinte, a Portela, com o enredo “O homem do Pacoval”, desfilou pela primeira vez sem seu emblemático patrono, que foi lembrado com sua foto colocada abaixo da simbólica águia. Mas a homenagem propriamente dita para o bicheiro saiu de bem longe das bandas de Madureira. Lá para os lados de Nilópolis, despontava uma escola que teria a batuta criativa do então carnavalesco bicampeão Joãosinho Trinta. O artista, já consagrado, havia sido contratado graças à atuação de outro contraventor, Anísio Abraão David. A ideia inicial era fazer uma homenagem ao lendário líder, mas o enredo ganhou um tom onírico e lúdico na mente delirante de João, que abordou a história do jogo do bicho através dos sonhos populares, encerrando com as contribuições de Natal. Deu Beija-flor na cabeça! Mesmo não estando presente fisicamente, o anti-herói deu sorte à co-irmã azul e branca. Embalada pelo samba clássico, composto e interpretado por Neguinho da Beija-Flor, a agremiação quebrou a hegemonia das chamadas “quatro grandes”. 

Visão geral da apresentação do desfile campeão da Beija-Flor em 1976 (Acervo Tantos Carnavais)


“Okê, okê, Oxóssi/Faz nossa gente sambar/Okê, okê, Natal/Portela é canto no ar”

Abrimos nosso texto afirmando que Natal é um orixá portelense, mas conferir a ele esse título não foi ideia nossa. Em 1984, na estreia do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, a Majestade encantou com seus “Contos de areia”. O enredo, que seria uma homenagem a Paulo da Portela, acabou se rendendo a mais personagens marcantes da história da escola. Se juntaram ao professor nada menos do que Natal e Clara Nunes para formar um verdadeiro panteão portelense, em uma comparação direta as divindades afro-brasileiras: Oranian, Iansã e Oxóssi. E a relação entre Natal e Oxóssi é mais profunda do que se possa imaginar, já que o orixá da caça é reconhecido por ser provedor material, protetor dos caçadores, controlador da ordem social, administrador e defensor do vilarejos dos caçadores. Ninguém pode negar que essas características foram latentes na trajetória do líder portelense. 

Detalhe do abre-alas portelense de 1984. (Acervo Marcelo Guirel)

Natalino foi o responsável pelos voos mais altos da Águia Altaneira, dedicando sua vida a Oswaldo Cruz e Madureira. Paulista de nascimento, mas acolhido pela Zona Norte, o anti-herói se tornou símbolo máximo do subúrbio carioca nos anos de 1950 e 1960.  O amor pela folia foi herdado de seu pai. Não compunha samba, não cantava e muito menos sambava, mas dedicou sua vida à nossa maior festa. Fez o possível para o desenvolvimento de sua escola, desbravou caminhos no âmbito carnavalesco, foi precursor da patronagem financiada pela contravenção do jogo do bicho e alavancou o Carnaval carioca. Passional e muito polêmico, se meteu em diversos maus bocados, mas sempre deu um jeito de escapar deles com  valentia característica. Natal foi um sujeito único e como o mesmo dizia: “acho que era covardia eu ter os dois braços também.”. A figura de Natal está imortalizada na história da Portela, do samba, de Madureira e do Rio de Janeiro. Salve o samba, salve a santa, salve ela! Salve também Natal da Portela!


Referências bibliográficas: 
ARAÚJO, Hiram; JÓRIO, Amaury. Natal, o homem de um braço só. Rio de Janeiro: Guavira Editores, 1975. 
CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. São Paulo: Lazuli Editora, 2011. 
CARNAVAL de 1960 - “Rio, eterna capital do samba”. Portela Web, 2017. Disponível em: <https://www.portelaweb.org/outros-carnavais/decada-de-60/carnaval-de-1960>. Acesso em: 29 de jul. de 2020. 
MOTTA, Aydano André. Onze mulheres incríveis do carnaval carioca: Histórias de Porta-bandeiras. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2013. 
NATAL o homem de um braço só. Portela Web, 2017. Disponível em: <https://www.portelaweb.org/memoria/panteao-de-bambas/natal>. Acesso em: 29 de jul. de 2020. 
SIMAS, Luiz Antonio. Tantas páginas belas: Histórias de Portela. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2012. 
Filme Natal da Portela (1988), dirigido por Paulo César Saraceni. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=-OnLZ3iOSYw 

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Foto: Stéphanne Munnier | Arte: Vítor Melo/Carnavalize



Por Beatriz Freire
Revisão de Felipe Tinoco

Aos que pensam que só o sagrado tem elementos celestiais, saibam que nosso profano carnaval também tem anjos. Em especial, há um “dos Anjos” que empresta suas asas - que o ajudaram a alçar altos voos na carreira de bailarino - a crianças, jovens e adultos de todas as idades, para que possam sonhar - e realizar - juntos tantos desejos. Hoje, o Carnavalize conta brevemente, em forma de homenagem, a história de vida e carreira de um dos grandes nomes da cultura brasileira: Manoel dos Anjos Dionísio, o Mestre da arte de mestre-salas e porta-bandeiras, para comemorar os trinta anos de sua imensa contribuição aos casais à frente da escola que fundou.

Mestre Dionísio, o mineiro de Além Paraíba que chegou ao Rio de Janeiro ainda menino, aos oito anos, sempre demonstrou encanto pela dança. Apesar disso, ainda na juventude surgiu o impasse convencional da idade para escolher a estrada que a partir dali pavimentaria sua trajetória profissional. A carreira militar, da qual não era exatamente um entusiasta, foi escanteada por esse exímio jogador de futebol do São Cristóvão, dividido entre os gramados e a possibilidade de entregar-se ao ofício da dança. A escolha pelos palcos, aposentando as chuteiras, veio depois de uma conversa sincera com a mãe, quando expressou seu desejo de seguir essa carreira. O acolhimento da aquiescência materna, que soou como uma bênção para que pudesse fazer o que lhe alegrava, impulsionou a dedicação ao bailado. A opção, segundo o próprio Mestre, deu-se em razão de nunca ter gostado de trabalhar: “A dança, para mim, não é trabalho, é lazer. Quem diz que gosta de trabalhar está mentindo”, afirma, sempre bem-humorado.


Todo o vigor de Manoel Dionísio, bailarino de dança afro-brasileira, como faz questão de ressaltar. Foto: Acervo pessoal.

Aos dezenove anos, no ano de 1955, veio a formação como bailarino afro-brasileiro pelo Balé Folclórico Mercedes Baptista, criado pela inconfundível bailarina que gravou seu nome na história da dança brasileira e do carnaval. A amizade com a mestra, parceira de uma vida toda, foi tecida pelo sentimento de gratidão, a quem diz reconhecer tudo que conquistou. Ele esteve próximo de sua mentora até os últimos dias de vida dela, falecida em 2014. Dionísio é um dos tantos discípulos do seu legado na dança e faz questão de frisar que repassa aos alunos da escola tudo que aprendeu. "Só não sei fazer mais a quinta posição por causa da idade", brinca, ao se referir à posição da dança em que os dois pés juntos, um atrás do outro, em posições paralelas, apontam a sentidos contrários.

Nos festejos do momo, o Mestre desfilou como integrante do grupo capitaneado por Mercedes no Salgueiro, sua escola de coração, a partir de 1959, e estava presente na famosa ala do minueto do desfile campeão da agremiação sobre Xica da Silva, em 1963. Na carreira de bailarino, ganhou o mundo com a companhia. Morou na Alemanha por mais de uma década, e, no retorno ao Rio, dançou e atuou na remontagem da peça Orfeu da Conceição, dirigida por Haroldo Costa, no palco do Theatro Municipal, aos 58 anos de idade

A histórica ala do Minueto, do Acadêmicos do Salgueiro, de 1963, na qual o homenageado do texto desfilou. Foto: Reprodução Tantos Carnavais.
O envolvimento com a folia não garantiu apenas o cargo de bailarino em desfiles. Mestre Dionísio foi assistente técnico de carnaval da Riotur e porta-voz da Federação dos Blocos, investido no cargo de diretor social. Aliás, suas origens na festa estão profundamente atreladas a essas organizações, já que ele fundou o Império do Pavão dentro da sala da própria casa, na favela Pavão-Pavãozinho, tendo sido criada, como desdobramento do bloco em fusão com outras escolas, a agremiação Alegria da Zona Sul, pela qual é sempre saudado com carinho e respeito, principalmente pela velha-guarda.

Em 1989, os blocos, com problemas de balizas e porta-estandartes, contrataram os segundos casais de agremiações para seus desfiles. No carnaval seguinte, a ideia do Mestre para economizar dinheiro e formar novos responsáveis pelos estandartes se espalhou: cada comunidade deveria levar a ele dois casais de jovens para que pudesse ensaiá-los e acabar com o problema. Assim, tanto lapidaria balizas e porta-estandartes peritos na dança, barateando o custo com o "aluguel" dos segundos casais - o que seria suficiente para vestir mais desfilantes -, quanto estaria vinculando os guardiões aos seus berços, representando suas comunidades. Por sinal, era necessário que fossem dois casais, e não apenas um, justamente porque é possível que os corpos do par recém-formado não se identifiquem, que falte a eles o entrosamento indispensável a um casal; dessa forma, haveria uma alternativa de aproveitamento. Neste mesmo 17 de julho, em 1990, há exatos trinta anos, surgiu, assim, a Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte. 

Edição de 07 de novembro de 1990 do Jornal O Globo. Foto: Acervo O Globo.
Na casa de ferreiro, o espeto nem sempre é de pau. O talento do Mestre se manifestou em seus herdeiros, como se orgulha ao falar da beleza do bailado da filha Magda durante o curto tempo que foi porta-bandeira. Hoje, os olhos orgulhosos do avô coruja se miram sobre Bárbara Dionísio, segunda porta-bandeira da Vila Isabel. "É lindo ver minha neta dançar na Avenida", confidenciou ele, ressaltando que não deixa que ela o veja nos ensaios de rua, para manter a discrição. No dia seguinte, faz os elogios e as recomendações, postura típica de um incentivador nato, confiante que todos sempre têm algo a mais para dar. "Eu não digo nada pra ela e também não estou falando só porque é minha neta, não, mas dança bem pra caramba". 

A generosidade não permite individualizar o conhecimento. Está sempre aberto a dividir informações (ele tem as mais encantadoras e preciosas, diga-se de passagem) e também as suas opiniões, como quando questionado sobre a posição dos casais nos desfiles atuais. Desde 2002, com a inovação proposta pelo diretor de carnaval Laíla, à época na Beija-Flor, e aceita por Selminha Sorriso e Claudinho, majoritariamente, os casais passaram a vir atrás das comissões de frente, logo na cabeça da escola. "Nada contra a modernidade, mas sou um eterno saudosista", abre a fala que tem na sequência argumentos mais do que convincentes aos ouvidos atentos à voz experiente. Segundo Mestre Dionísio, o casal deve vir à frente da bateria por uma simples questão: a batida do surdo de primeira está no pé do desfilante, com a pulsação já marcada, fator indispensável para o ritmo do casal. 

Edição de 07 de novembro de 1990 do Jornal O Globo. Foto: Acervo O Globo.
Ele ainda encara as comissões de frentes como as grandes adversárias dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, principalmente após 2010, quando a apresentação da Unidos da Tijuca (É Segredo!, com as trocas de roupa em plena pista) revolucionaram e espetacularizaram o quesito: "Até 2010, o casal era esperado. Hoje, todo mundo espera a comissão de frente". Acrescenta: "lá na frente não se ouve o samba, está muito distante da bateria e, por isso, sempre digo para os mestre-salas e porta-bandeiras que eles têm que ter a coreografia e o samba na cabeça, caso dê algum problema". Quanto ao uso de coreografia, não oferece nenhuma resistência, mas com algumas condições, sendo duas as principais: coreógrafo não pode mudar o tipo de dança do mestre-sala nem da porta-bandeira, e o casal pode fazer sua coreografia à vontade, desde que feche com o tradicional.

O carinho e a cordialidade fazem de Seu Dionísio um colecionador de bons amigos por onde passa. Dentre eles, carrega com alegria e saudades o companheirismo do ilustre Delegado, o maior mestre-sala da história do carnaval, com quem teve a honra de trocar palavras a partir de 2009, na Mangueira, quando o Mestre era o apresentador de Marquinhos e Giovanna, defensores do pavilhão verde e rosa naquele momento. A partir do encontro, surgiu, junto com a amizade, o convite para que o histórico mestre-sala fosse conhecer a Escola. Por lá, Delegado seguiu passando às novas gerações todo o conhecimento que adquiriu com seu talento; da vida de Dionísio, só se despediu quando foi bailar para os astros ao lado de Neide, a eterna companheira de dança, no ano de 2012. Os dois bambas do riscado, aliás, tiveram suas histórias contadas no livro "Delegado e Dionísio: vidas em passos de arte", publicada pela Editora Hamma, com a autoria de Sérgio Gramático Júnior. 

A amizade de dois pilares da arte dos casais de mestre-sala e porta-bandeira: Delegado e Dionísio, respectivamente.
Foto: Sérgio Gramático Júnior.
O que nos trouxe a esse texto é a comemoração do aniversário de trinta anos da Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte Manoel Dionísio que, apesar de ter sido idealizada por ele, só ganhou o nome do Mestre no ano de 2012. Nada mais justo. Até aqui, são incontáveis talentos sendo revelados pelo projeto gratuito que ministra aulas aos sábados, para crianças, jovens e adultos. Há também turmas para pessoas com deficiência. Lú Rufino é a primeira porta-bandeira cadeirante da escola e defende o pavilhão da Embaixadores da Alegria, escola que abre os festejos do Sábado das Campeãs na Sapucaí. A ideia é que mais duas porta-bandeiras se juntem a ela quando as aulas retornarem. Seu Dionísio se orgulha de todos que por lá passaram, famosos ou anônimos, desde a aluna mais nova, com dois aninhos, à mais vivida, com sessenta e seis, no que ele diz ser a melhor idade.

A escola já teve diversos endereços, como a Rua Regente Feijó, onde tudo começou, o setor 02 da Marquês de Sapucaí e o Centro de Cultura Calouste Gualbekian, no qual está instalada atualmente desde 2018, na Praça XI. A equipe conta com instrutores especializados, diretamente relacionados ao universo dos casais e da dança, pedagogos, psicólogos e preparadores físicos, entre outros colaboradores. O aproveitamento das turmas rende mestre-salas e porta-bandeiras que dançam em escolas do Grupo E ao Especial. Todos os alunos de 1991 a 2009 brilham nas grandes agremiações cariocas hoje, e novas gerações vêm sendo treinadas. "A casa começa de baixo pra cima, do Grupo E ao Grupo Especial. Tem que haver respeito com os casais da Intendente Magalhães, os presidentes também têm que ter carinho com os segundos casais". O caminho é longo e exige muito trabalho. Na Sapucaí, a Escola do Mestre Dionísio exportou talentos para quase todas as escolas.

Na Vila Isabel, além de sua neta, Marcinho e Cristiane Caldas, o primeiro casal da agremiação, também foram alunos do projeto. Marcinho Siqueira chegou à escola do Mestre em 2005, encaminhado pelo desejo da mãe. Por lá, encontrou o acolhimento do histórico mestre-sala Peninha, e depois de Claudinho, da Beija-Flor, com quem aprendeu boa parte do que sabe: “Eu acho muito importante existir de fato um lugar para essa arte ser disseminada. Hoje a gente acaba aprendendo com a ajuda dos vídeos, mas ter contato com a arte, com alguém que dança ou já dançou e sentiu na pele o que é carregar um pavilhão na avenida é muito importante”. Tanta riqueza de conhecimento germinou a vontade de Marcinho contribuir ainda mais com a preservação da dança do casal, seguindo o passo de seus mestres: “Ainda não acho que estou nesse nível, mas um dia eu acho que vou chegar ao nível de passar o que eu tenho de conhecimento e experiência. Eu tenho, com certeza, essa pretensão de, quando ficar mais velho, não deixar essa arte morrer. Ela é muito linda e eu sou apaixonado por ela. Apesar de não ser uma intenção minha desde o início ser mestre-sala - eu me tornei por causa da minha mãe-, hoje em dia não me vejo fazendo outra coisa”.

Matéria do Jornal O Globo, em outubro de 2006. À época, Marcinho tinha 13 anos de idade, dando os primeiros riscados na carreira de mestre-sala. Foto: Acervo O Globo.
Cris chegou ainda criança ao projeto: "Se hoje eu sou uma porta-bandeira, eu devo ao Dionísio, porque eu comecei bem novinha lá. Ele foi meu instrutor, assim como tive outros, como a Soninha, a Irene (porta-bandeiras de sucesso)... eu sou muito grata, costumo dizer que com dois meses de projeto eu já tinha duas escolas e dali eu fui chegar ao Especial, quando fui Estandarte de Ouro pela Paraíso do Tuiuti, em 2001. Eu era bem nova, sei que hoje ele está muito feliz por eu estar na Vila e eu também fico muito feliz por isso. Tenho muito carinho e gratidão eterna por ele. Minha madrinha, a Terezinha, trabalhou com ele, foi secretária do projeto por mais de dez anos, então temos um ligação bem legal. Esse projeto não pode acabar e para o que ele precisar, pode contar comigo. Ele me chamava de fio desencapado, o restinho da minha infância e a minha adolescência toda foram dentro do projeto. Fiz muitas amizades que levo até hoje pra minha vida".

A porta-bandeira Cris Caldas, no ano do seu Estandarte de Ouro, em 2001, pela Paraíso do Tuiuti. Hoje, ela e Marcinho, também ex-aluno da Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, são o primeiro casal da Vila Isabel. Foto: Liesa/Tantos Carnavais.

Cintya Santos, hoje primeira porta-bandeira da Porto da Pedra, não é a única da família a ter ligações com Seu Dionísio: "A minha trajetória no mundo do samba o senhor Manoel Dionísio acompanha desde quando eu era criança, ele era amigo da minha falecida avó Dina, também porta-bandeira. No ano de 2000, a minha avó me aconselhou a frequentar a escola do senhor Manoel Dionísio, foi a partir daí que eu comecei a conhecer o carnaval do Rio, as escolas de samba, e aprimorar a minha dança. Sou muito grata a ele pela porta-bandeira que me tornei, principalmente pelos conselhos que ele me deu e pelas palavras de carinho comigo. Hoje, a escola completa mais um ano de existência e só quero pedir a Deus que continue dando muita saúde para que ele forme muitos outros casais. Obrigada, meu amigo, seu Manoel Dionísio!".


Cintya Santos, porta-bandeira da Porto da Pedra, é a terceira geração de uma família de defensoras de pavilhões, e também foi aluna do Mestre Dionísio. Foto: Nobres Casais.

Como todo processo de aprendizagem é uma via de mão-dupla, o Mestre reconhece que também adquiriu muito conhecimento ao longo dessas três décadas. Ao idealizar o projeto, tratou de se inscrever em um curso de relacionamento pessoal e interpessoal, já que sabia que ia lidar com as mais diversas personalidades de colaboradores e alunos. Agradece, inclusive, por não ter problema com ninguém: "Eu brigo mas no segundo sábado de dezembro (data da confraternização) beijo e abraço todos. Quando chega maio, recomeça tudo e volto a brigar, mas para o benefício deles. Me perguntam: 'tá bom?' E eu digo: 'tá quase bom', para que possam sempre melhorar".

O Dossiê Matrizes do Samba tem o nome de Manoel Dionísio como integrante da lista de depositários reconhecidos da tradição, o que é uma honra para ele, referência do bailado do mestre-sala e da porta-bandeira. Faz questão de ensinar também a teoria, não só a prática, para não deixar a dança do casal terminar. A receita do sucesso, de acordo com Mestre, foi ter procurado informações preciosas com figuras do mais alto gabarito, todas pessoas amigas: Neide, Mocinha, Vilma Nascimento, Dodô da Portela - sua madrinha no samba -, Élcio PV, Maria Helena e Chiquinho. Nunca se acomodou com o conhecimento que adquiriu ao longo da vida e fez mais de quatro "reciclagens" para se atualizar sobre o bailado dos casais, buscando o aperfeiçoamento para se manter como referência. Frisa que busca ensinar exatamente do jeito que aprendeu, metodologia deixada por Mercedes em sua vida.

A dança do casal teve três pilares de difusão do conhecimento: Seu Mansur, percursor da Mangueira; Delegado, o mestre-sala que por 36 anos vestiu as cores verde e rosa; e, hoje, Mestre Dionísio, que deseja que todo seu conhecimento seja passado adiante: "É um legado".

Os olhares aprendizes atentos aos ensinamentos do Mestre. Foto: Folia do Samba.
A apresentação de si mesmo tem uma riqueza (e modéstia característica de algumas das grandes personalidades de um ramo) resguardada sobre as palavras simples e tranquilas de quem já viveu grandes momentos e não tem medo de nada: "Um negro de 1,86m, 83 anos, que tem quatro netas, quatro netos e dois bisnetos. Uma pessoa justa, que gosta das coisas certas, e quem me ensinou isso foi Angélica Maria da Conceição, minha mãe. Depois que fui para a parte artística, dou o mesmo tratamento que Mercedes dava a todos os alunos; ensino com paciência mas não quero indisciplina". Os 83 anos de vida, que ganham mais uma unidade no próximo dia 04 de agosto, não freiam seus sonhos, sempre protegidos por São Francisco de Assis, o santo de devoção: "O meu sonho é que Deus me dê vida e saúde para ser difusor do segmento, do samba e do carnaval. Quero agradecer o respeito e carinho que têm por mim. Foi muito difícil, mas nada tirou meu ânimo".

A EMSPBPE Manoel Dionísio encontra-se com as atividades temporariamente paralisadas em virtude da pandemia do coronavírus. Para garantir o retorno das atividades em um momento seguro e oportuno, a escola lançou um financiamento coletivo. A contribuição é bem-vinda da forma que for possível para cada um, seja doando ou divulgando a campanha. Para mais informações, clique aqui.

Todas as preciosas informações foram recolhidas em um fluxo de muitas conversas, principalmente por telefone, em um contato pelo qual Mestre dividiu sua história em mais de 1h30min de ligação. No término da chamada inesquecível, agradeci. Fui gentilmente interrompida para dizer que não tinha pelo que agradecer, frase seguida dos mais doces e simpáticos elogios e palavras de afeto. Mestre Dionísio, o samba se curva à sua trajetória e o reverencia com aplausos incansáveis. Para encerrar, ele deixa um recado: "Se vocês não me entenderam, procurem me compreender". Que venham mais 30 anos de compreensão dessa arte!


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