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Carnavalize

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando dos antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro desfile de informações sobre a apresentação escolhida.

Hoje, vamos passar todos detalhes de um detalhe marcante da Unidos da Viradouro em seus áureos anos no grupo especial carioca sob a batuta do carnavalesco Joãosinho Trinta, a apresentação de 1998 que contava a história de "Orfeu, o negro do carnaval".


"Lá, onde a vida faz a prece"
Os antecedentes da apresentação

Em 1997, a Viradouro conquistava seu primeiro título no Grupo Especial apenas seis anos depois de chegar à "elite" da festa. Com a assinatura do genial Joãosinho Trinta, a escola de Niterói havia se consolidado com uma nova potência dos desfiles. Por isso, toda a preparação para 1998 foi cercada de muita expectativa e cobrança. 


Já no pré-carnaval, o grande samba da escola fazia sucesso no rádio e na mídia da época. Os ensaios em Niterói também se tornaram eventos a parte, disputados e grandiosos, já que o campeonato acabou chamando mais componentes e trazendo mais visibilidade para a agremiação. Além disso, a expectativa e o assédio midiático aumentaram quando Cacá Diegues escolheu a escola e seu desfile como cenário para o filme sobre Orfeu, que estava sendo gravado. O protagonista Toni Garrido e outros atores da produção desfilariam na vermelho e branco para a captação de imagens para o longa-metragem.

"É na magia do sonho que eu vou"
Os delírios de João Trinta
A Comissão de Frente da agremiação. (Foto; Widger Frota)
Quarta a desfilar da segunda de carnaval, a vermelho e branco de Niterói já começou a levantar a Sapucaí no grito de guerra do intérprete Dominguinhos do Estácio. A Comissão de Frente, comandada por Jussara Pádua, em dourado e nuances avermelhadas, representava a força divina do deus Apolo, que trazia o simbolismo do sol, a partir da figura daquele que era o pai de Orfeu, este último deus da música, talento dado por seu pai. No lugar da lira, símbolo musical da Grécia Antiga, os bailarinos traziam em suas vestes o violão, já dentro do hibridismo do enredo proposto por Joãosinho. 

Para explicar o enredo proposto por Joãosinho Trinta, é necessário uma bíblia a parte. A narrativa é uma das mais complexas e geniais do carnavalesco. Assim como em outros escritos enredográficos do artista, esta se dividia em diferente camadas, o que, a grosso modo, significa que eram três enredos em um só. Na mais profunda, havia o mito grego de Orfeu, deus grego da música e filho de Apolo; na segunda, havia a peça musical de Vinícius de Moraes, que atualizava o mito para os dias atuais, tendo como cenário uma favela carioca. Orfeu se transformava num sambista, compositor de uma agremiação que levaria à Avenida a história do carnaval, fechando assim a terceira camada do enredo. Um verdadeiro meta-enredo, de dois Orfeus, o grego e o carioca, além da história momesca. Ufa!

O abre-alas do desfile (Foto; Revista Manchete)
Apesar da complexidade, o enredo se desenvolveu bem e perfeitamente nas belas e gigantescas alegorias propostas por João, que iam sobrepondo as diferentes narrativas em níveis distintos. O enorme abre-alas trazia um favela carioca com ares de Olimpo, onde Djavan encarnava o personagem principal. As alas que seguiam alternavam o carnaval, a vida nos morros cariocas e a Grécia em figurinos volumosos e monumentais. A segunda alegoria era batizada de "O talento de Orfeu" e mostrava o cotidiano do personagem do morro como compositor de samba e seu talento com as mulheres, "seduzidas pela sua inspiração". Estes dois setores foram marcados por cores quentes, como o vermelho e o laranja. 

Apesar de requisitado, o galã facheiro só tinha olhos pra Eurípedes, seu verdeiro amor, que vinha representada na terceira cena da apresentação, fazendo a paleta do desfile entrar em tons mais pasteis e leves. O carro do amor entre os dois marcava o início de uma relação com os quadros e diversas formas de brincar carnaval ao longo da história, o primeiro a ser representada ali eram os Ranchos. Seguindo na história, o amor entre os dois se vê destruído com a morte de Eurípedes, na Grécia, onde ela é picada por uma víbora, enquanto na versão carioca uma bala perdida a atingia, "o zombido da fatalidade que atinge a cidade", esse lado triste da história era representado na folia através dos Bailes de Veneza. 
A alegoria "Grandes Sociedades: o reino de Hades" de Joãosinho Trinta (Foto: Widger Frota)

A chegada da parte mais densa da apresentação fez o carnavalesco optar por tons mais escuros, obviamente. Consternado com a morte de sua amada, Orfeu então mergulha no inferno de Hades para tentar recuperar a alma de sua amada. A alegoria que sintetizava o setor fazia alusão, por sua vez, à folia das Grandes Sociedades. Chegando ao sexto setor, o clima mais depressivo continuava: entregue à desilusão, Orfeu se lança na farra e cai no bloco das bancantes, ferozes mulheres que, furiosas por não terem o amor do belo, o jogam num "abismo da saudade", onde ele "voa para eternidade". Apesar da morte trágica do compositor, seu samba-enredo é aclamado e sua escola é coroada campeã "num desfile magistral", levando para a penúltima alegoria da agremiação "Corsos: Louvação de Orfeu". O desfile recuperava o tom animado em seu último quadro, contando também com cores mais alegres e da bandeira da escola, encerrando o desfile no oitavo carro, que celebrava a festa e a favela carioca, com a escultura de um grande Orfeu Negro.

"Tem no seu talento reconhecimento, num desfile magistral"
A explosão vermelho e branca em ritmo funk

O chão da Sapucaí se tingiu de vermelho, a cor do coração, e foi testemunha do amor viradourense. Inchada de componentes após o título, a escola foi embalada por um samba contagiante, que ganhou a voz de Dominguinhos do Estácio, quicou, avassalou e mobilizou a Avenida, convidando o público para fazer parte daquele coro. Se hoje notamos que os componentes mais se assemelham a soldados marchando que a brincantes carnavalescos, Orfeu era totalmente o oposto; desfilantes animados e soltos empolgavam as arquibancadas, que chegavam junto para a festa que acontecia ali, na pista. Mesmo com alguns problemas que conduziram a notas abaixo da pontuação máxima em harmonia e evolução, a Viradouro conquistou incontáveis corações e foi aclamada sob os gritos estrondosos de bicampeã. 
A última alegoria com um gigantesco Orfeu (Foto Revista Manchete)
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Andrezinho e Patrícia, enfrentou dificuldades durante a apresentação. Ao bailarem, o chapéu de Patrícia caiu em frente a uma cabine de jurados, e chateados, o casal se retirou e se posicionou junto à bateria. A porta-bandeira, que estava grávida de cinco meses, não escondeu o desapontamento e a frustração. Na quarta de cinzas, durante a abertura dos envelopes, os jurados mostraram impiedade e descontaram pontos do quesito. 

A bateria de mestre Jorjão que, no ano anterior, inovou com a bossa funk, uma paradinha que arrebatou as arquibancadas, mas que foi gongada por críticos e jurados. Para 1998, a expectativa ficava por conta da manutenção ou volta da novidade do ano anterior. Com a escola já embalada pelo aclamado samba, mestre Jorjão aguardou o delírio do público na segunda passada do refrão principal e deu, por mais um ano, start naquela paradinha que fez a galera delirar: era mais uma integração entre o samba-enredo e o funk, irmãos genuinamente cariocas. Outra proposta da bateria da escola ficou por conta do baião, que também incendiou as arquibancadas, mas não os jurados, que viam as inovações como negativas para as baterias e para o gênero. Na hora de entrar no recuo, a orquestra popular da Viradouro manobrou de costas, algo que está sumindo dos desfiles na atualidade.


"E o samba do negro orfeu, tem um retorno triunfal"
O resultado injusto e consagração da apresentação

A quarta de cinzas reservou momentos de tensão para a escola de Niterói, apesar da confiança de que aquele tinha sido um desfile marcante e histórico, para ficar gravado nas páginas da agremiação. Mas, justamente como disse o poeta e parafraseou a Viradouro, tristeza não tem fim; felicidade, sim. A Viradouro começou perdendo pontos e a queda maior veio no quesito mestre-sala e porta-bandeira, onde os jurados canetaram o casal por conta da queda do chapéu da porta-bandeira Patrícia. O samba-enredo, tão elogiado, também foi muito penalizado e a taça escapou das mãos da campeã do ano anterior. O caneco foi dividido entre Mangueira e Beija-Flor, deixando um quinto lugar de consolação para a alvirrubra. No sábado das campeãs, o protesto dos que não entenderam o julgamento foi conduzido com uma faixa escrita "POR QUÊ?".
A faixada levada nos desfiles das campeãs.
"Orfeu, o Negro do Carnaval" é, sem dúvidas, uma das maiores apresentações da Viradouro em sua histórica passagem pelo Grupo Especial. Apesar de não faturar o campeonato, a força da agremiação e sua sinergia provaram que o amor estava mesmo no ar, embalado pelo talento de Joãosinho, na plástica, além de Jorjão e Dominguinhos, na música, conquistando assim o coração de todos. Infelizmente, a felicidade chegou ao fim com a injusta posição alcançada no julgamento, mas que não tira o brilho da apresentação que se tornou uma das marcas da vermelho e branco na Sapucaí. Em 2018, exatos vinte anos após tudo, a gente torce para que ele seja um dos motores para a Viradouro retornar ao lugar especial onde fez história. Ser Viradouro é a personificação da paixão.
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Por Felipe de Souza
O carnaval de São Paulo, inegavelmente, é um dos que mais cresce e ganha espaço no Brasil. Apesar disso, é impossível ignorar a relevância que a festa momesca tem em terras cariocas. Para ilustrar tamanho crescimento da folia e a união entre os carnavais, Felipe de Souza, Beatriz Freire e Jéssica Barbosa se reuniram para detalhar samba e enredo das 27 escolas que passarão pelo Anhembi e pela Marquês de Sapucaí em 2018. Os textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas, seguindo o resultado do último carnaval.

"Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?!"
Paraíso do Tuiuti
"Não sou escravo de nenhum senhor.
Meu Paraíso é meu bastião,
Meu Tuiuti, o quilombo da favela
é sentinela da libertação."
Depois de um 2017 para se esquecer, a Paraíso do Tuiuti manteve Jack Vasconcelos em seu elenco na busca de ficar no Grupo Especial em 2018. Com um enredo crítico tratando sobre a escravidão e sua persistência na pós-modernidade, a escola acerta em cheio na escolha do tema. 

Apesar da manutenção do carnavalesco, algumas peças do escrete da escola de São Cristóvão se alteraram. No microfone da amarela e azul, Wantuir deixou o cargo para, primeiramente, Nino do Milênio. Meses depois do anuncio de Nino, Grazzi Brasil e Celsinho Mody, revelações do carnaval paulistano, foram contratados para reforçar o carro de som da escola. Além disso, houve a chegada de Danielle Nascimento e Marlon Flores, preenchendo o quesito mestre-sala e porta-bandeira nas vagas deixadas por Giovanna e Marquinhos. 

O samba:
A Tuiuti foi, certamente, muito feliz ao escolher encomendar seu samba para esse carnaval. Apesar das críticas por conta da falência da ala de compositores da escola, é notória a superioridade do hino da escola para 2018 em relação ao do ano anterior. 

Tendo como autores Moacyr Luz, Cláudio Russo, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir, a escola tem um samba digno de Estandarte de Ouro, sendo, também, um dos mais comentados desse pré-carnaval. Aliás, é impossível destacar apenas um trecho do hino da amarela e preta, pois todos passam lindamente a mensagem que o enredo busca: a escravidão não acabou!

No domingo de carnaval, a Tuiuti será a quarta escola a desfilar. Vale a pena conferir o desfile pela mensagem do enredo, pelo samba, pela festa! 
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Por Beatriz Freire
O carnaval de São Paulo, inegavelmente, é um dos que mais cresce e ganha espaço no Brasil. Apesar disso, é impossível ignorar a relevância que a festa momesca tem em terras cariocas. Para ilustrar tamanho crescimento da folia e a união entre os carnavais, Felipe de Souza, Beatriz Freire e Jéssica Barbosa se reuniram para detalhar samba e enredo das 27 escolas que passarão pelo Anhembi e pela Marquês de Sapucaí em 2018. Os textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas, seguindo o resultado do último carnaval.

"Um coração urbano: Miguel, o Arcanjo das Artes, saúda o povo e pede passagem"
Unidos da Tijuca
"O povo do samba chamou
e fez de você um poema de amor.
Na minha bandeira azul e amarela,
mais uma estrela, Miguel Falabella"
Depois de um triste carnaval em 2017, a Unidos da Tijuca tenta dar seus passos para seguir em frente, rumo a uma nova página para o desfile de 2018. Em um ano que parece ser o momento da escola se reencontrar, o pavão amarelo e azul  homenageará Miguel Falabella na Sapucaí. A trajetória do artista parte da sua infância, passa pelo teatro, pelos seis grandes papeis e criações e se relaciona até mesmo com o carnaval, já que foi carnavalesco do Império da Tijuca por dois anos da década de 90. A dança das cadeiras promoveu duas alterações: Mauro Quintaes se despediu da Comissão de Carnaval, que agora conta com Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo. A segunda mudança foi a saída de Julinho e Rute, casal que defendeu a agremiação por quatro carnavais, e a chegada de Alex Marcelino, vindo da Portela, e Jack Pessanha, que era segunda porta-bandeira do Salgueiro e também já foi a segunda porta-bandeira da Unidos da Tijuca. A expectativa fica pelo que a escola vai propor na Avenida, depois de um carnaval de tristezas, e por ser a agremiação que abrirá a segunda noite de desfiles do Grupo Especial carioca. 


O samba:

Há alguns bons anos, com exceção de 2016, a Unidos da Tijuca apresenta os chamados sambas funcionais. Sempre muito ligados às sinopses e buscando descrever de forma básica o enredo, a Unidos da Tijuca chegou a conquistar notas dez no quesito com obras que não eram suas melhores, mas que rendem muito na Avenida, principalmente pela força do canto da comunidade. Em 2018, a disputa foi vencida pela parceria de Totonho, Mart'nália e seus amigos. Mais uma vez, é um samba cheio de referências aos feitos do homenageado e não consegue uma posição entre os melhores e mais elogiados da safra do próximo carnaval. De toda forma, a comunidade parece dar conta do recado em seus ensaios de rua, e algumas passagens, como o refrão do meio, ganham destaque no conjunto do samba. 

A Unidos da Tijuca, como dito anteriormente, será a primeira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval.
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Assim como o Carnavalize, esse novo espaço aqui no site surge para dar voz a apaixonados, que escrevam, pesquisam e estudam o carnaval. Quando tivemos a ideia do site, em primeiro lugar, queríamos expor nossas opiniões e visões de como os jovens enxergavam e gostariam de contar e encontrar materiais sobre o carnaval. Sendo assim, iniciaremos essa série de textos do nosso público, entenda-se como um "espaço aberto" e sinta-se à vontade para nos mandar seu texto, crônica, artigo, o  que for. Com essa iniciativa, buscaremos dar voz a pessoas, que sempre quiseram divulgar escritos sobre a festa, mas nunca tiveram um lugar - assim como nós antes do site. 


Por Thaís Velloso

"O corte de verbas para o desfile das escolas de samba, que provocou um debate majoritariamente interno sobre o assunto, deixou claro que as medidas tomadas pelo prefeito — e aqui podemos citar algumas: a ação da Guarda Municipal na Pedra do Sal, impedindo que houvesse a tradicional roda de samba no local; o corte do apoio financeiro à procissão de Iemanjá, que acontece há treze anos em Copacabana; a ausência de investimento na Casa do Jongo, que fechou as portas recentemente por falta de recursos — constituem um projeto de anulamento cultural caracterizado pela intolerância religiosa e pelo preconceito com a cultura negra.
Não me sai da memória o dia em que Tia Nilda, baiana da Mocidade, falou emocionada sobre sua relação com a escola no RJTV, em matéria que foi ao ar em fevereiro do ano passado. Afeto ignorado pelos que desconhecem ou discriminam, o sentimento de torcedores e componentes pela escola de samba, e tudo o que dele emana, é fator que potencializa a confiança e a coragem de enfrentar a dureza da vida e de se reinventar no mundo a partir de um toque de agogô. É encantada por esse afeto que a Mangueira insiste, no esplêndido da poesia, em resgatar nosso respeito, derrubando o cordão de um blocódromo que afinidade nenhuma tem com a festa.
O argumento que insustentavelmente sustenta o discurso sobre o dinheiro negado às agremiações, e cabe lembrar que as do Acesso ainda não receberam nenhum investimento do que foi acordado pela prefeitura, cai ainda mais em contradição devido ao evento organizado em Copacabana no sábado passado, para o qual houve o apoio financeiro que viabilizaria os ensaios técnicos. Evidentemente, a preocupação do prefeito é manter a ordem por meio dos seus próprios imperativos, baseados na não aceitação de outras crenças e manifestações culturais alheias à sua visão de mundo mas vivenciadas por enorme parte da população carioca.
Foi também a pretexto de manter a ordem que, no fim do século XIX e início do XX, membros da elite social criticaram e desqualificaram a Festa da Penha e criminalizaram o samba, por exemplo, tornando manifestações culturais de origem negra, como o batuque e a capoeira, elementos de repressão. O viés preconceituoso que causava essa repressão naquela época é o mesmo que molda, atualmente, um governo que propositalmente afeta a festa popular e caminha na contramão de uma sociedade plural que desenrola a vida no giro da roda da saia da baiana e que se reconhece na lágrima de um integrante da Velha Guarda.


Diante desse cenário, a esperança é verde e rosa: erguendo a bandeira do samba, a Mangueira mostra que pecado é não brincar o carnaval. E assim teremos uma Sapucaí que louva o botequim, o samba, o jongo, a diversidade sexual e de gênero, o bloco sem cordão, os santos e as santas — em especial Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem já foi chutada por um pastor da Universal em um programa de televisão. Uma louvação, portanto, à pluralidade e à subversão, com o objetivo de “desobedecer pra pacificar”, de mãos dadas com a letra da Mocidade. Neste Carnaval todos nós somos Mangueira, meu senhor."

Quer participar dessa nossa coluna e ter seu texto estrelando o próximo "Da Galera"? Mande o seu arquivo para o e-mail contato@carnavalize.com ou nos mande em nossas redes sociais: Facebook e Twitter. Assim que recebermos o texto, nosso equipe o avaliará, sendo aprovado, entraremos em contato. Não perca tempo, mande-nos!
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Por Leonardo Antan, Felipe de Souza e Beatriz Freire
A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Depois da estreia com o carnavalesco Jorge Silveira, seguimos rumo à Série A. Campeão do grupo em 2017, com um desfile no Império Serrano sobre o poeta Manoel de Barros, o jovem Marcus Ferreira tem trajetória experiente no grupo de acesso, passando por diversas escolas. Após o título, o trabalho do artista ganhou um novo patamar e encara o desafio de assumir a Acadêmicos da Rocinha, que também vem de uma apresentação elogiada, assinada por João Vitor Araújo. Conversamos sobre os preparativos para este ano, as dificuldades da criação com a crise financeira e os momentos mais marcantes da sua carreira. Vem conferir.


CARNAVALIZE: O barracão é o seu espaço de produção de alegorias e fantasias, tudo é confeccionado aqui dentro ou ainda há algo que venha de fora? 

MARCUS: As únicas alas que não são feitas aqui são as alas comerciais; a escola tem quatro delas. O restante é produzido aqui dentro com o apoio da quadra também. Eu sempre mando algumas peças do carnaval que eles estão reproduzindo lá e já vem pronto.

CARNAVALIZE: E você fiscaliza todo o processo de produção, de adaptação dos protótipos, substituição de materiais para que qualquer contratempo que haja seja resolvido da melhor forma…

MARCUS: É um facilitador esse ano porque está tudo aqui, então até que não estou tendo problemas com substituição, mas, às vezes, sobra um pouquinho de uma ala, aí a gente joga pra cá… faz pequenos recortes e remaneja os materiais.

CARNAVALIZE: Como foi o processo de construção das alegorias? Foi focado num projeto de execução original ou houve um pensamento nas peças que você já tinha disponíveis para reaproveitar? 

MARCUS: Eu acho que o carnaval da Série A é um processo criativo que já vislumbra o que a gente ganha do Especial, acredito que praticamente 100% do grupo faça o reaproveitamento. Aqui, na Rocinha, eu queria trazer um carnaval maior esse ano, carros com mais volume, mais peças, já tendo em vista que a escola veio de um grande carnaval no último ano e que eu vim de um campeonato com o Império Serrano. Desde maio a gente está nesse processo de construção do carnaval, visando fazer um desfile com uma qualidade melhor.

Marcus Ferreira em meio a uma das alegorias para 2018 (Fonte: Reprodução/Acadêmicos da Rocinha)
CARNAVALIZE: O enredo de 2018 é sobre a xilogravura e você já havia desenvolvido um enredo na União do Parque Curicica, intitulado "Corações Mamulengos". A relação com linguagens mais populares tem sido uma característica dos seus últimos trabalhos. Como isso tem se tornado exatamente um traço da sua personalidade como carnavalesco? 

MARCUS: Eu procuro sempre pensar em temas diferentes para o carnaval, eu acho que um bom carnaval parte de uma temática apropriada, de um tema bem escolhido. Quando eu fiz o carnaval da Curicica, conversando com a diretoria, na época, eles me pediram um enredo que tivesse uma linguagem diferente e que possivelmente focasse no Nordeste. Na época, eu tinha teatro dos mamulengos e foi um dos carnavais que mais me diverti fazendo. Dentro de todas as limitações da escola, mas que gostei muito de realizar

E ano passado, no Império Serrano, a gente tinha um contato com a Secretaria de Cultura do Mato Grosso do Sul e eles sugeriram que fizéssemos um carnaval sobre o Manoel de Barros, já que é um grande ícone do estado, e aí tentei dar aquele viés de brasilidade. Era um enredo pautado em cima do quintal dele mas com um olhar sobre tudo que ele via no meio natural do Pantanal sul-matogrossense; então, eu também dei um olhar mais, digamos, regionalista.

O abre-alas do desfile campeão de 2017 (Fonte: O Globo)
E esse ano, vindo pra Rocinha, eu apresentei três temas para a escola, um de temática nordestina e outros dois não. Por ser uma comunidade também de nordestinos, o presidente Ronaldo falou de imediato: "esse é o enredo da Rocinha". Dentre os três, era mesmo o que eu tinha em mente fazer e ele também optou pelo "Madeira Matriz". Os outros dois também eram ideias bacanas, mas acho que por desejo, esse ano queremos mostrar uma estampa diferente. Apesar de nordestino, o carnaval da Rocinha não tem uma cara de Nordeste, ele fala sobre artes plásticas. Então, eu queria muito realizar esse carnaval.

CARNAVALIZE: O enredo da Curicica em 2016, os Mamulengos, retrata o nordeste, mas é um Nordeste completamente diferente da xilogravura. Os dois propõem temas parecidos mas com possibilidade de soluções muito diferentes. Como é o processo de construção dessa estética? E como aliar esse processo de busca de referências a uma estética apurada e menos tradicional?

MARCUS: A minha ideia era fazer um carnaval diferente, eu acho que é dever do artista do carnaval motivar o carnaval carioca, trazer uma estética diferente, ou um enredo diferente. Então o pensamento de construção do desfile da Rocinha foi em cima disso. Ano passado eu até fiz um carnaval muito tradicional no Império Serrano, de fantasias e alegorias mais tradicionais. Pra esse ano, pensando pra 2018, eu queria trazer inovações em termos da fantasia, indumentária, corte de figurino, de modelagem e de estampa também, porque as fantasias da Rocinha são super simples em termos de material, mas eu queria dar esse requinte. São fantasias que mostram o enredo principalmente através da estamparia, da cor, da base do carnaval preto e branco, como é xilogravura. Meu processo criativo foi em cima disso, de pensar o novo.

CARNAVALIZE: Então basicamente a gente tem o preto e branco como base e você vai brincar em cima dessa paleta de cores durante o desfile?!

MARCUS: A minha ideia inicial era trazer a escola toda preta e branca, eu imaginava que a xilogravura se baseava nessas cores, então faria a escola toda nesse tom. Mas conversando como o J. Borges, ele me falou uma frase que eu achei emblemática: ele passou a fazer a xilogravura preta e branca, mas as mulheres sempre pediam um toque colorido. Como, por exemplo, um cortador de cana onde o desenho em si mantinha o preto e branco, mas a cana era verde. Ou o vendedor de bola, onde só a bola é colorida. Então assim nasceu o conceito do enredo da Rocinha.

Detalhes das alegorias para o desfile da Rocinha em 2018 (Fonte: Facebook)
CARNAVALIZE: Partindo pra uma segunda parte da entrevista, vamos focar mais em diferentes partes da sua carreira. Você iniciou a carreira na Mocidade de Vicente de Carvalho, na Intendente Magalhães, e pra 2018 você também assina a Curicica, na série B. Qual a principal diferença do processo criativo pra Intendente, que é um carnaval com mais dificuldades ainda que a Série A, e como esses problemas moldam seu trabalho?

MARCUS: Eu acho que a visibilidade da Série A traz uma maior cobrança, mas a luta na Intendente é maior. Esse ano o carnaval da Curicica é planejado com cara de série A, então acho que é basicamente isso. O carnaval da Série A é maior, o recurso na Intendente é mais escasso, com a ajuda de parceiros a gente tá conseguindo viabilizar. 

CARNAVALIZE: E o atraso da verba prejudicou bastante o processo?

MARCUS: Assim, se a verba já tivesse saído, o carnaval da Rocinha já estaria pronto. Mas a gente conseguiu caminhar bem sem ela.

CARNAVALIZE: Você inicia sua carreia na Estácio,  com dois carnavais, 2011 e 2012. Como foi essa estreia na escola e na Sapucaí? Quais as dificuldades e facilidades daqueles processos?

MARCUS: Quando eu assumi a Estácio, foi meio que no susto. Porque eu estava vindo de uma série C na época, subi pra B e fiz lá a Mocidade de Vicente de Carvalho, abrimos o grupo. Estava fazendo um curso na Argentina antes do presidente Marquinhos chegar com a proposta. E eu pensei "caramba, vou pular pra Série A", pois até então eu havia feito séries B e C. Aí aceitei e fiz, foi bom na época, a escola estava com bastante dificuldade, mas houve muito empenho. Eles me pediram um enredo que tivesse esse viés de religiosidade, um pouco de romantismo.

Abre-alas da Estácio de Sá em 2011, do desfile "Rosas" assinado por Marcus.

Eu já estava na primeira semana de agosto, então já fiquei na Argentina pensando o que eu poderia fazer pro carnaval da Estácio, até que surgiu o enredo "Rosas", que é um carnaval que eu guardo com bastante carinho. Tanto da escola, tanto do que pudemos realizar aquele ano. E aí, em 2012, eu continuei a pedido da diretoria e fizemos Luma de Oliveira. Foi um carnaval um pouco dificultoso, mas que eu conquistei todas as notas máximas em enredo, que era bastante contestado. Consegui chegar a uma leitura pra fugir do óbvio de uma biografia clássica, através de um poema do João Bosco, que, na época, deu um caminho ao enredo.  

CARNAVALIZE: E aí veio Jacarezinho em 2013, Renascer em 2014. Passou um ano na Intendente em 2015 novamente e aí você chega na Curicica em 2016, nessa carnaval que já comentamos, que é também um ponto de virada da sua carreira. É um desfile onde você conquista uma maturidade artística do processo, do comando de uma escola, que você consegue colocar mais a sua cara? Como você enxerga esse desfile na sua carreira?

MARCUS: Foi um desfile que também foi uma virada pra Curicica, né!? A escola tinha vindo de um carnaval muito traumático no ano anterior, por falta de fantasia. Então foi um carnaval bem planejado, o único empecilho foi um carro que não desfilou, quebrou dentro do barracão. Então a gente acabou ficando em décimo lugar por conta disso, porque senão chegaríamos muito mais a frente. Mas foi um carnaval que eu guardo com bastante carinho por tudo que eu pude realizar nesse processo - também de muita reciclagem.

Eu ouvi uma frase do Chico Spinoza que, pra ele, tinha sido o melhor carnaval da Série A daquele ano. Eu perdi vários prêmios aquele ano é por conta da falta da alegoria, é um quadro que conta muito. Mas depois eu fiquei sabendo através dos premiadores que era o enredo mais votado, mas pela falta do carro acabou não ganhando. Foi algo que assim me desmotivou muito, eu cheguei cedo na concentração e me disseram que a alegoria teve um problema mecânico. E era o carro mais bonito da escola, era todo feito de fuxico. Quando as pessoas entravam no barracão, ele era o que mais chamava atenção.

Abertura da elogiada apresentação de 2016 (Fonte: O Globo)

CARNAVALIZE: Você acha que essa foi a maior dificuldade da sua carreira, entre tantos que você já viveu na Série A? Essa foi a mais marcante? 

MARCUS: Acho que da minha carreira, as maiores dificuldade foram duas, foi quando eu fui carnavalesco da Renascer de Jacarepaguá, onde eu tive muita dificuldade de tentar finalizar o carnaval da escola e ano passado no Império Serrano também, pela cobrança que existia do público no entorno da escola, além das dificuldades históricas que todo mundo sabe que o Império passa. E havia também uma cobrança de título. Talvez o carnaval do ano passado tenha sido um dos mais baratos da minha carreira em termos de equivalência, com o tempo eu fui adquirindo essa manobra de fazer um carnaval vistoso com pouco recurso. 

CARNAVALIZE: Como pra esse ano, né...!? Vendo o seu trabalho nas redes sociais, como as fantasias têm volume, há um requinte mesmo não sendo materiais caros. É um conjunto que pode dar muito resultado na avenida...

MARCUS: As pessoas me perguntam "A Rocinha tá linda, vai dar para reproduzir?". E estamos conseguindo, sim, fielmente. Às vezes falta um tecido ou outro, aí a gente muda pela mesma qualidade, faltou um amarelo eu coloco verde pois já tem na fantasia. Todos os meus amigos também então partindo pra isso, mas em termos de qualidade e volume, tem sido uma surpresa pra mim. A gente está conseguindo até em alegorias fazer um carnaval com carinho. Estamos caminhando bem. A minha parte de decoração e aplicação nos carros está com 90% pronto. É um trabalho que eu faço sempre, já deixo tudo adiantado pra esperar a madeira e o ferragem.

CARNAVALIZE: Pra finalizar, você conseguiu mexer muito na estrutura das alegorias? Você gosta de mexer? 

MARCUS: Esse ano eu estou mexendo em dois carros, o abre-alas e o segundo carro. Os outros, resolvi crescer, porque não se tem dinheiro nem tempo, pelo atraso e diminuição de verba. É melhor você finalizar um carnaval do que cortar, ainda mais sendo até a realidade das escolas do Especial.

Uma das fantasias da Rocinha para 2018, intitulada "Plantio da cana".
Agradecemos demais a disponibilidade e simpatia de Marcus por ter nos recebido no barracão e trazer pra vocês mais sobre a visão desse artista da festa e seus processos de criação. Até o carnaval, toda sexta traremos mais entrevistas com outros carnavalescos. Até breve! 
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