• Home
  • Quem somos?
  • Contato
  • Lojinha
  • Exposições
  • Selo Literário
  • Apoiadores
Tecnologia do Blogger.
facebook twitter instagram

Carnavalize



Texto: Leonardo Antan
Revisão e edição: Felipe Tinoco
Artes: Vítor Melo

Olá, consagradas e consagrados! É com graça (e aliterações) que o Carnavalize estreia hoje a sua mais nova temporada de textos: a Série Baluartes! No novo quadro, vamos rememorar os grandes nomes por trás das escolas de samba. Serão oito textos, sempre as segundas-feiras!

Para começar, não poderia ser diferente e ter outro participante senão o mais antigo e pioneiro dos grêmios recreativos: a Majestade do Samba! Para falar um pouquinho de cada grande figura dessa escola, dividimos o texto em seções, como lideranças, compositores e a força feminina. Apesar daquele famoso "se falar Portela, hoje eu não terminar", tentamos resumir quase 100 anos de história, relembrando grandes personagens dessa longa trajetória da Águia.

Simbora conhecer um pouquinho mais da história dessas grandes personas e, por consequência, da história dessa grande escola!

Semente de Paulo, Caetano e Rufino segue seu destino e vai desaguar… O distante bairro de Oswaldo Cruz era praticamente considerado como rural nas primeiras décadas do século XX, mas tinha uma vocação festeira que o colocou no mapa cultural da cidade de Janeiro. Foi essa efervescência de encontros que gerou as sementes que culminaram no surgimento da Portela – antes Vai Como Pode e Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz. Este foi fundado em 13 de abril de 1923, por Paulo Benjamin de Oliveira (presidente), Antônio da Silva Caetano (secretário) e Antônio Rufino dos Reis (tesoureiro) no número 412 da Estrada do Portela.

Um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, Paulo da Portela (1901 - 1949) foi o primeiro grande líder da azul e branco da Zona Norte, responsável por delimitar os rumos que as escolas de samba tomariam na primeira década de cortejos. Defensor da elegância contra o racismo estrutural, foi ainda compositor e responsável pelo primeiro desfile a unificar visual e trilha sonora, o lendário Teste ao Samba, de 1939. (Aqui você pode ver um texto só sobre esse ícone!)

Sai um líder, entra outro. Depois que o primeiro grande nome de comando portelense foi afastado da agremiação em um polêmico episódio, não demorou muito a chegar uma nova figura de liderança. Natal da Portela (1905 - 1975) foi a grande personalidade por trás da Majestade do Samba durante o seu período mais glorioso, responsável por popularizar a figura do “patrono” no universo carnavalesco. Após perder o braço direito em um trágico acidente de trem, começou a trabalhar para o Jogo do Bicho e logo se tornou um “banqueiro” da loteria popular. Da fortuna que fez com sua banca, pouco ficou para ele, já que investia boa parte nos desfiles da Portela e na construção das quadras da escola. Na região de Madureira e Oswaldo Cruz, asfaltou ruas e mandou construir casas para o povo. As medidas assistencialistas o tornaram uma espécie de herói suburbano, apesar das controvérsias.

Assim que Natal se afastou da agremiação por problemas de saúde e pelo endurecimento da ditadura militar contra os grandes líderes da contravenção, foi um dos seus sócios quem assumiu os comandos da azul e branco. Batizado como a rede de mercado da qual era proprietário, Carlinhos Maracanã (1926 - 2019) nasceu em Portugal mas foi um carioca típico, apaixonado por samba e futebol. Acabou residente da Portela entre 1971 a 1994 e depois de 2000 a 2004, consolidando um recorde absoluto de tempo no poder. O início da sua gestão foi marcado pela construção da nova sede da escola, o Portelão, na Rua Arruda Câmara, que anos depois passaria a se chamar Rua Clara Nunes.

Após amargar um período difícil e de pouca relevância na festa carnavalesca, a Portela teve sua renovação ligada a uma nova forte figura de liderança na década que termina: Marcos Falcon (1964 - 2016). O ex-policial militar se aproximou da agremiação após a polêmica e mal sucedida gestão de Nilo Figueiredo, assumindo a vice-presidência da escola com a eleição da chapa Portela Verdade, em 2013. Com o lema “quem ousa vence”, ele liderou o retorno da Águia nas brigas pelas primeiras posições e, após a sua trágica morte em 2016, a azul e branco enfim conseguiu quebrar seu histórico jejum na folia do ano seguinte, no desfile assinado por Paulo Barros. 

Durante os primeiros anos dos concursos das escolas de samba, não havia a ideia do papel do samba-enredo para descrever o que era mostrado em fantasias e alegorias, mas a presença da obra musical sempre foi fundamental. Durante os primeiros anos de existência da escola, foi Paulo da Portela o compositor das canções apresentadas pela agremiação. O primeiro músico a substituir o fundador da Majestade foi Chatim (1915 – 1991). Junto com seu irmão Bibi, assinou a canção de 1941 (Dez anos de Glórias). Campeão novamente em 1942 (A vida do samba) e 1951 (A volta do filho pródigo), o sambista se afastou da escola com problemas familiares e se tornou bombeiro hidráulico da Uerj, só retornando nos anos 1980 para integrar a Velha Guarda da agremiação.

Já em 1942, Chatim teve como parceiro outro grande sambista portelense dessa primeira geração de poetas. Alvaiade (1913 – 1981) foi uma das figuras que melhor simbolizou a elegância portelense pregada por Paulo, defendida por ele em a saída do professor da agremiação. Além de compositor, Alvaiade foi chefe de conjunto da Portela por quase 20 anos. Era o responsável pelos ensaios e pela direção de harmonia, colocando em prática seus conhecimentos sobre as funções de cada segmento da escola. Alvaiade foi o principal responsável pela organização da Portela em vários de seus campeonatos, ocupando ainda a função de dirigente da Ala de Compositores. Fora da escola, foi um dos fundadores da União Brasileira dos Compositores (UBC).

Parceiro de Alvaiade em 1947 (Honra ao mérito), o Ventura (1908 - 1974) foi outro grande compositor portelense, tanto de samba-enredo quanto de samba de terreiro. Além de assinar as obras, foi ainda um dos primeiros grandes intérpretes da agremiação quando o samba era puxado sem equipamento sonoro. Ao lado de Alcides e João da Gente, formou o trio de principais cantores da Portela, chamados carinhosamente de "os três gogós de ouro".

Noca, Casquinha, Monarco e Manacéia. Foto: Acervo Cultural Portela
Ainda no final da década de 1940, outro grande compositor surgiria do celeiro de bambas portelenses e se consagraria tricampeão entre 1948 e 1950: Manacéa (1921 - 1995), irmão dos também compositores louváveis Aniceto e Mijinha. Voltando a vencer a disputa de samba em 1952, após o hiato de um ano, o músico seria substituído por um jovem sambista que começava a se destacar na comunidade portelense.

Antônio Candeia Filho (1935 - 1978) viveu o cotidiano da agremiação desde pequeno, herdando o gosto por samba de seu pai, que ainda aparecerá nesse texto. Aqui, cabe-nos dizer que o sambista começou seu talento ainda adolescente, quando formou um grupo com jovens que se tornariam outros baluartes portelenses, como Waldir 59 e Casquinha. Eles ficaram conhecidos como a Turma do Muro. Foi apenas aos 17 anos que o grande Candeia assinou o seu primeiro samba-enredo para a Portela – feito repetido ainda mais cinco outras vezes. Fora da vida da quadra da azul e branco, Candeia foi policial concursado até ser baleado e perder o movimento das pernas. Ativo politicamente, foi ainda importante nome do Movimento Negro brasileiro e, insatisfeito com o rumo de espetacularização das escolas de samba, fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba (Granes) Quilombo, em 1975. Ele será homenageado no enredo do Império da Tijuca, do carnavalesco Guilherme Estevão, para o próximo carnaval.

Parceiro de Candeia em cinco dos seis sambas-enredos assinados pelo músico para a Portela, Waldir 59 (1927 - 2015) recebeu o apelido numérico para se diferenciar de seus xarás que frequentavam a escola na época. A escolha do número foi por ser o da casa na qual ele morava. Atuando na cena cultural carioca, ele participou da composição da trilha sonora do filme franco-brasileiro Orfeu do Carnaval, de 1959. Também foi responsável por integrar um grande portelense à escola: Paulinho da Viola.

Durante a década de 1960, dois grandes sambistas portelenses famosos no cenário artístico de então chegaram a assinar sambas na Majestade do Samba. O primeiro dele foi Zé Ketti (1921 - 1999), um dos mais importantes sambistas da História. Ele iniciou sua trajetória na Ala de Compositores da azul e branca para depois se tornar compositor de marchinhas carnavalescas. O “Ketti” surgiu do seu jeito tímido, que lhe rendeu o apelido de Zé Quietinho. Era quieto só no comportamento, pois em seu trabalho artístico ele sempre foi alvoroçado e militante. Atuou ao lado de diretores do Cinema Novo e, com seus sambas engajados e de protesto, lançou ainda o conjunto A Voz do Morro, que integrou o clássico e revolucionário espetáculo Opinião, ao lado de Nara Leão. Posteriormente, a mangueirense Maria Bethânia assumiu o cargo da cantora na montagem, em sua estreia na cena musical com 18 anos.

Muitos não sabem, mas quem também já assinou sambas de desfile foi o grande portelense Paulinho da Viola (1942). O feito ocorreu em 1966, com um enredo baseado no livro Memórias de um sargento de milícias, romance de Manuel Antônio de Almeida. Na época com apenas 24 anos, o músico começava a ganhar popularidade.

Com a chegada da década de 1970, não só os desfiles das escolas de samba se renovaram, como também os sambas de enredo deixaram o clássico formato de “lençol” para se tornarem mais dinâmicos e mais ágeis. Em meio a essa transformação que tem como marco o samba salgueirense de 1971 (Festa para um rei negro), a ala de compositores não poderia deixar de se atualizar e fez surgir um dos grandes poetas do panteão portelense, David Corrêa (1937 - 2020). Campeão já na sua primeira disputa, em 1973 (Pasárgada), o sambista voltaria a emplacar um hino portelense dois anos depois, em 1975 (Macunaíma). Não só escrevendo, mas ainda atuando como intérprete da escola, na virada entre a década de 1970 para 80, emplacou um tetracampeonato na disputa de sambas, assinando das mais clássicas e belas canções do repertório portelense, como o título de 1980 (Hoje tem marmelada) e 1981 (Das maravilhas do mar). Após compor para outras agremiações, ele se reencontraria com a Águia em 2002, ao assinar seu último samba-enredo para a azul e branco.

Compositor de clássicos do carnaval pela Portela, David Corrêa sendo homenageado em evento na quadra. Foto: Acervo Cultural Portela
Ainda no mesmo período, outro grande compositor e intérprete da Águia foi Dedé da Portela (1939 - 2003). Tem em seu currículo a autoria de Contos de Areia (1984), em parceria com Norival Reis, além da canção de 1977 (Festa da aclamação). Como puxador da azul e branco, atuou entre 1987 e 1994, quando substitui outro grande cantor portelense: Silvinho da Portela (1935 - 2001). Ele, por sua vez, é considerado o primeiro intérprete oficial nos trilhos da profissionalização do samba, por onde permaneceu de 1969 a 1986. Para conduzir as obras desse período, a azul e branco teve um lendário mestre de bateria: Mestre Marçal (1930 - 1994).

Permanecendo na década de 1970, outro grande compositor da agremiação venceu pela primeira vez o concurso de samba-enredo da azul e branco. Noca da Portela (1932) fundou ao lado de Picolino e Colombo o trio ABC da Portela, sucesso nas rodas de sambas e programas de TV. Após a vitória em 1976, Noca conseguiu um feito histórico que foi se consagrar campeão ao menos uma vez nas quatro décadas seguintes, e curiosamente sempre nos anos terminados em 5. Foi assim em 1985 (Recordar é Viver), em 1995 (Gosto que me enrosco), 2005 (Oito metas para mudar o mundo) e 2015 (450 janeiros de uma cidade surreal). A exceção ficou pelas vitórias complementares em 1998 (Olhos da Noite) e 1999 (De volta aos caminhos de Minas Gerais).

Pulando para a década de 1990, outro grande compositor do samba brasileiro fruto da ala de compositores da Portela foi Cláudio Russo (1971). Chegou à agremiação após passagens pela Império de Marangá e Arrastão de Cascadura e, ainda jovem, o sambista surpreendeu a tradicional aula de poetas de Madureira ao ser campeão na sua primeira disputa de sambas em 1993 (Cerimônia de Casamento). Repetiu o feito no ano seguinte, em 1994 (Quando o samba era samba).

Mais recentemente, nos anos 2000, o cantor Diogo Nogueira (1981) seguiu seu destino portelense e se consagrou tetracampeão na disputa musical portelense, entre 2007 e 2010. Logo após, uma histórica parceria que tinha nomes importantes do samba de meio de ano, como Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo e Toninho Nascimento, fou responsável não só pelas obras da Portela, como também por mudar os rumos dos sambas-enredos desde então, no lendário Madureira Sobe o Pelô (2012). Ainda mais recentemente, Samir Trindade (1981) se consagrou na disputa entre grandes portelenses, sendo responsáveis pelos hinos das apresentações de 2016, 2017 e 2018.

Além da sua importância para o gênero do samba-enredo, como é óbvio, a Portela em seus mais de noventa anos de existência fez jus ao nome de escola de samba, sendo responsável por todo um repertório de clássicas canções ligadas ao cotidiano do sambista e o amor pela agremiação. Um marco fundamental para entender essa importância da escola é fundação da ideia de Velha Guarda Show, um conjunto musical de bambas históricos da escola que se apresenta com os clássicos do repertório de meio de ano da ala de compositores.

A formação do grupo teve na atuação de Paulinho da Viola um visionário. O sambista foi o responsável pela gravação do LP “Portela, passado de glória”, que marcaria a fundação do conjunto em 1970, registrando, assim, grandes sambas que poderiam se perder no tempo e reunindo nomes fundamentais da Portelas. Após bons serviços prestados a azul e branco, tornaram-se responsáveis por tornar seu legado e suas memórias vivos. Estariam na primeira formação do grupo figuras como Aniceto da Portela, Mijinha, Manaceia, Alberto Lonato, Ventura, Alvaiade, Chico Santana, Antônio Rufino, Alcides Malandro Histórico, Armando Santos e Antônio Caetano.

O primeiro nome a se destacar desse grupo é Manacéa, que assumiu de forma orgânica a liderança do grupo e foi uma das pontas de uma grande linhagem portelense, como seus irmãos Aniceto da Portela (1912 - 1982) e Mijinha (1918 - 1980). O trio compôs uma série de sambas clássicos do repertório portelense, como Desengano e Chega de Padecer. Manacéa foi autor ainda do sucesso “Quantas lágrimas”, eternizado na voz de Cristina Buarque de Holanda. Além disso, foi casado com a eterna Dona Neném (1924 - 2020), uma matriarca portelense de primeira linhagem, com quem teve três filhas. Fruto dessa relação, Áurea Maria hoje é pastora da Velha Guarda Show, além de membra do conselho deliberativo da Majestade.

Outro nome a se destacar foi um dos grandes compositores de sambas de terreiro da escola, Chico Santana (1911- 1988), tradutor do melhor espírito vaidoso e majestoso portelense. É de sua autoria o “Hino da Portela” e o “Hino da Velha Guarda”, além do igualmente clássico “Vaidade de um sambista”. Também assina “Corri pra ver” com outro grande nome portelense: Casquinha (1922 - 2018). Descendente de imigrantes alemães, recebeu o apelido ainda na infância. Na década de 1960, fez parte do grupo Mensageiros do Samba, com Bubu, Arlindão, Jorge do Violão, Candeia, David do Pandeiro e Picolino. Em 1964, Casquinha tornou-se o primeiro parceiro de Paulinho da Viola na Portela, no samba "Recado", que virou um clássico da MPB, gravado por Elza Soares, Nara Leão, MPB-4, Jair Rodrigues e outras estrelas.

Diversas imagens da histórica velha guarda portelense.
Durante muitos anos enquanto a Portela manteve sua comissão de frente de forma tradicional, estiveram nomes da Velha Guarda, como o próprio Casquinha e Alberto Lonato (1909 - 1999). Ele permaneceu até o fim do grupo e foi autor de canções regravadas por Cristina Buarque e Clara Nunes. Um outro portelense que seguiu à risca a linha de elegância de Paulo da Portela.

Quem também esteve na azul e branco desde seus primeiros anos e fez parte da primeira formação da Velha Guarda foi Alcides Dias Lopes, mais conhecido como Alcides Malandro Histórico (1909 - 1987). O apelido surgiu tanto por incorporar o perfil do típico malandro boêmio quanto por sua memória invejável, que garantiu o “histórico”. Após a vida noturna agitada, acabou se casando com uma baiana da Portela, Guiomar, com quem teve quatros filhos. A mudança de vida o fez compor sua canção mais famosa, "Vivo Isolado do Mundo".

Em 2001, as gravações do documentário Mistério do Samba, que seria lançado apenas em 2008, registraram a produção de mais um histórico álbum da Velha Guarda, batizado de Tudo Azul, produzido por Marisa Monte. Como personagens vivos do filme, vários nomes da Velha Guarda se destacariam. Argemiro da Portela (1923 - 2003) chegou na escola na década de 1950, integrando a ala de pandeiros, e é autor, em parceria com Casquinha, da famosa canção “A chuva cai”, imortalizada por Beth Carvalho.

Outro personagem do longa foi Casemiro da Cuíca (1921), integrado na Velha Guarda na década de 1980. Ganhou como sobrenome o instrumento que tocou por muitos anos na Tabajara, bateria da Portela, e acabou conhecido por um método nada tradicional de afinar o instrumento, que incluía trocar água por querosene. Ainda na linha de grandes instrumentistas do grupo está o sempre elegante e disciplinado Guaracy Sete Cordas (1939 - 2017). Guaracy teceu uma rede de sambistas fundamentais e contou com grandes nomes para gravar suas canções tais quais Elza Soares e Núbia Lafayette, e outros com os quais tocou junto, como Bezerra da Silva e Dona Ivone Lara.

Jair do Cavaquinho (1922 - 2006) começou a frequentar o mundo do samba por intermédio do lendário Zicartola, participando de marcos como o musical Rosa de Ouro e os grupos A Voz do Morro, Cinco Crioulos e Cinco Só – todos esses ao lado de outros sambistas históricos da Portela e de Mangueira e Salgueiro. Integrou a Velha Guarda na década de 1980 e foi autor de mais de dezenas de sambas, regravados por importantes nomes da nossa música. Assim como David do Pandeiro (1934 - 2019), ficou famoso por parcerias com Candeia e do seu primo Casquinha. David ainda trabalhou como músico com Carlos Machado e Walter Pinto, e foi interpretado por Carmen Costa e Elizeth Cardoso. Em 1990, passou a fazer parte da Velha Guarda, reaproximando-se do samba após um período de hiato.

O maior compositor de sambas de terreiros da escola e um dos pilares da velha guarda, Monarco. Foto: O Globo/Ana Branco
Fechando o time de grandes instrumentos está ninguém menos que Osmar do Cavaco (1931 - 1999), considerado o primeiro cavaquinhista da Portela, responsável pelo acompanhamento do intérprete durante os desfiles de 1971 até 1987. Além de ter herdando o talento musical do pai, Laudelino Procópio da Silva, o Lalau, que tocava com os principais chorões da cidade, deixou de herança seu filho Sérginho Procópio (1967). Ele assumiu o seu lugar na Velha Guarda e se tornou o mais jovem integrante a integrar o grupo. Compositor de mão cheia, o sambista herdeiro de Osmar foi ainda presidente da agremiação com a eleição da chapa Portela Verdade, em 2013.

Para encerrar a importância fundamental dos baluartes da Velha Guarda portelense e o maior autor de sambas de terreiro da Portela, Hildemar Diniz, o atual líder do conjunto nas últimas décadas: Monarco (1933). O apelido Monarco surgiu pelas bandas da Baixada Fluminense - na época, Monaco ganhou o "r" pelas ruas de Oswaldo Cruz, bairro onde viveu na infância. Lá, apaixonou-se pela azul e branca e, ainda na adolescência, fugiu diversas vezes para a quadra da escola. Aos 17 anos, ingressou na ala de compositores, sem jamais ter ganho uma disputa de samba-enredo. (Monarco tem um texto só pra ele aqui no Carnavalize!)

Outro marco mais recente no processo de consolidação da liderança de Monarco e da Velha Guarda como instituição ativa da escola foi a partir da ideia de Marquinhos de Oswaldo Cruz, em 2003, de promover a Feijoada da Família Portelense. Seu legado na portela se estende ainda na atuação de seus filhos Mauro e Marquinhos Diniz como compositores e diretores da escola, além da sua neta Juliana Diniz, também sambista.

A força feminina é uma constante importante na história portelense desde sua fundação. A grande matriarca da agremiação é sem dúvidas Dona Esther (1896 - 1964), quem tem forte influência na história da azul e branco, mesmo não tendo sido envolvida diretamente nos desfiles de carnaval. Como uma Tia Ciata suburbana, deu históricas festas em sua propriedade, com celebrações culturais que reuniram sambistas e intelectuais de todas as partes do Rio de Janeiro. Foi fundada por ela ainda o primeiro conjunto carnavalesco da região, o bloco Quem fala de nós come mosca, um dos muitos embriões da Portela. 

“Provei do famoso feijão da Vicentina, só quem é da Portela é que sabe que a coisa é divina”

Décadas depois, com a Majestade do samba já consolidada na festa, uma outra grande figura feminina surgiu se destacando por seus dotes culinários. Irmã mais nova de Natal, Vicentina (1914 - 1987) foi uma famosa baiana da agremiação que ganhou notoriedade por sempre servir bem os componentes na quadra da escola. Seu famoso “feijão” virou lendário nas bandas de Madureira, tanto que hoje seu nome batiza o Bar do Portelão na Rua Clara Nunes. Além de cozinheira, foi a primeira pastora a integrar a Velha Guarda show desde sua fundação.

Uma importante parceira de Vicentina na cozinha foi Dona Lourdes (1926 - 2018). Ela passou a frequentar a Majestade com apenas 12 anos e integrou o coro de pastoras liderado por Paulo da Portela. Depois, chegou a tocar chocalho da Tabajara do samba e fez parte da Velha Guarda show. Dentre as várias homenagens que recebeu, ostentou o honroso título de “Mãe eterna da Portela”. Outra pastora do grupo de baluartes portelense e que partiu recentemente foi Tia Eunice (1922 - 2015), a segunda mulher a compor a Velha Guarda após a saída da dona do feijão portelense. Ela “sempre foi a voz mais bonita entre as nossas pastoras”, afirma Monarco.

Outra importante “tia” da azul e branco foi Tia Doca (1932 - 2009). Ela veio de uma grande linhagem de sambistas, prima de Dona Ivone Lara, além de ser esposa de Altair Costa, filho do compositor Alvarenga. Figura polivalente, passeou por várias funções: puxou corda, foi da ala dos compositores, destaque, diretora da ala das baianas e integrante da diretoria. Em 1970, entrou para a Velha Guarda por sugestão de Alberto Lonato, ao lado de Eunice. Como compositora, Doca é autora do partido-alto "Temporal" e do samba "Orgulho Negro", gravado por Jovelina Pérola Negra. Outro grande feito da sambista foram suas lendárias rodas de sambas promovidas no seu quintal por mais três décadas, por onde passaram figuras como Clara Nunes e Zeca Pagodinho.

Dona Dodô, com 94 anos, em um de seus últimos desfiles pela azul e branco de Madureira. Foto: G1/Alexandre Durão
Não tem como falar de baluarte portelense sem lembrar uma das mais emblemáticas figuras da escola na última década: Tia Surica (1940). Nascida e criada em Madureira, já aos 4 anos, já desfilava pela Portela, presa à cintura da mãe Judith, acompanhada de perto pelo pai. Em 1966, foi puxadora do samba-enredo "Memórias de um Sargento de Milícias", de autoria de Paulinho da Viola, ao lado de Maninho e Catoni. Integrou a Velha Guarda show em 1980 e ficou famosa pelo espírito irreverente e festeiro, acostumada a dar grandes comemorações em sua casa ficou conhecida como “Cafofo da Surica”, eternizado numa canção composta por outra grande portelense, Teresa Cristina. É uma das herdeiras do tempero do feijão de Vicentina, organizando a famosa Feijoada da Família Portelense até recentemente, quando começou sua própria Feijoada no Teatro Rival.

E não tem como falar de grandes figuras femininas sem cita ainda Dona Dodô (1920 - 2015). Após brilhar como porta-bandeira, ainda seguiu uma atuação incansável, sendo atribuído a ela o marco da criação da Ala das Damas. Ela é das únicas personalidades do carnaval a ostentar dois prêmios Estandarte de Ouro em categorias especiais. Em 2004, também reinou como madrinha da bateria da Tabajara do Samba.

Finalizando este setor de baluartes estão figuras com participação ativa na escola de Madureira e que ocupam importantes funções. Jane Carla é atual diretora das baianas da Portela e também pastora da Velha Guarda Show. Outra figura dona de elegância e vaidade típica de uma baluarte portelense, Aldaléia Rosa Negra lidera há mais de dez anos o departamento feminino da escola fundado em 1956, por Therezinha de Jesus Moraes. 

Além dos grandes nomes na área da música, a azul e branco de Madureira deixou, no seu extenso celeiro de bambas, uma nobre linhagem de dançarinos que fizeram do seu gingado o seu legado para o carnaval. Uma das pioneiras nesse sentido foi a inesquecível e já comentada Dodô da Portela, quem estreou junto com o primeiro título da escola de Madureira, lá em 1935, considerado o primeiro desfile oficial organizado pela prefeitura. A jovem menina tinha apenas 15 anos quando ganhou a responsabilidade de ostentar o imponente pavilhão da Majestade do Samba. Foram mais de duas décadas seguindo esse destino. Muitos deles bailou ao lado de outro rei do gingado portelense, o mestre-sala e passista Manuel Bam Bam Bam, figurinha fácil da vida cultural de Oswaldo Cruz e que participou da agremiação desde antes da sua fundação. Até 1957 esteve como primeira porta-bandeira. Dodô ainda seguiu mais dez anos como segunda, reunindo seu charme e sua elegância inconfundíveis. Charme e elegância, aliás, aliados a etiqueta, pompa, suavidade e sempre sem perder a força. Dona Dodô foi não só uma das maiores porta-bandeiras do carnaval, mas seguiu em atuação como baluarte fundamental da Portela. (Nós também fizemos um fio especial na data de centenário desse ícone! Confira aqui!)

Com a saída de uma baluarte da dança, o pavilhão portelense não deixou de ser empunhado por uma figura tão talentosa quanto. Foi em 1957 que estreou na passarela a jovem Vilma Nascimento (1938), chegando à escola após a insistência de seu sogro Natal da Portela, que a tinha visto dançar em um clube noturno de samba. Depois de iniciar sua carreira na União de Vaz Lobo, seguiu por mais de treze anos bailando com elegância e majestade, características que lhe deram a clássica alcunha de Cisne da Passarela. Dos anos que dançou, teve como seu parceiro mais longínquo Benício. 


Uma das maiores porta-bandeiras da história, Vilma Nascimento, no carnaval de 1979 pela Portela. Foto: O Globo/Aníbal Philot
"Paulo e Claudionor, quando chegavam na roda de samba, abafavam, todos corriam pra ver"

Na arte de dizer no pé e no que mais recentemente é compreendido como “passista”, a agremiação também teve seu grande pioneiro: Claudionor. Morador de Oswaldo Cruz, participou dos grupos carnavalescos que originaram a Portela. Nos primeiros desfiles na Praça XI, seu gingado conquistou o público e se destacou. O dançarino misturava os passos de samba com referências corporais ao lendário humorista Charles Chaplin, fazendo grande sucesso. Essa mistura o tornou conhecido como o “Rei do Sapateado” e até como “O maior passista de todos os tempos”, títulos nada modestos que reafirmam seu enorme talento.

Outro grande nome da arte de dizer no pé foi o lendário Tijolo ( - 2001). Ele fez sucesso não só na sua agremiação de coração, mas por vários espetáculos pelo mundo. Na década de 1950, quando o sambar em público era um papel associado ao feminino e não havia a ideia de um passista que se destacava no desfile, o jovem Alexandre de Jesus já adorava exibir seu gingado entre as alas. Mas o dançarino precisou ser reconhecido fora das quadras, fazendo sucesso em espetáculos teatrais e musicais, inclusive no Teatro de Revista de Carlos Machado. Com o sucesso nos palcos, veio o convite para dançar solo nas apresentações carnavalescas e logo ele se tornou uma celebridade da época, seguindo desfilando pela Portela até a década de 1970.

Mais recentemente, a ginga portelense desses dois históricos baluartes encontrou seu legado em outro grande dançarino da escola: Jerônimo (1952), filho do baluarte Argemiro da Portela, foi iniciado na arte da dança por ninguém menos que a histórica Mercedes Baptista. Seus primeiros passos foram dados por incentivo de Dona Dodô. Fora da Avenida, ele bailou ao lado de figuras como a lendária vedete Virgínia Lane. Já na Sapucaí, fez história. Primeiramente como coreógrafo das comissões de frente da Mocidade, no início dos anos 1990, e da Portela, em 1994 e 1995, inovando ao renovar o quesito da agremiação após décadas de tradição. Além de coreógrafo, foi ainda exímio mestre-sala no mesmo período, chegando a ocupar as duas funções no lendário Gosto que me enrosco, em 1995.

Aliás, por falar em comissão de frente, esse é um quesito que a Portela ajudou a moldar. Foi Paulo da Portela quem reuniu um primeiro grupo de notáveis para abrir os cortejos da agremiação, mas a iniciativa teve na figura de Antônio Candeia, pai do compositor, seu grande organizador. Foi ele quem consolidou o grupo de sambistas sempre elegantemente trajados de fraque e cartolas com a missão de saudar o público. Inovadora da chamada comissão de frente tradicional, a azul e branco foi também a última escola a abandonar o modelo do segmento, no início dos anos 1990. 


Maria Lata D'Água em apresentação durante tour pela Europa nos anos 60. Foto: Acervo Cultural Portela
“Lata d'água na cabeça, lá vai Maria…”

Mas como é de se esperar, nem só no bailado masculino vive o gingado portelense. Duas passistas fundamentais da história do carnaval desfilaram pela azul e branco de Oswaldo Cruz. A mais conhecida delas é Maria Mercedes, ou Maria Lata D'Água (1933). Ganhou o sobrenome graças a lata que equilibrava enquanto evoluía na Avenida. Foi uma celebridade carnavalesca nas décadas de 1950 e 60, frequentou o programa do Chacrinha e fez shows na Rádio Nacional – de onde surgiu a marchinha em sua homenagem composta por Luís Antônio e Jota Júnior, imortalizada pela cantora Marlene. Apesar de já ter cruzado a Avenida por outras agremiações, foi na Portela que Maria se tornou famosa e por onde desfilou por 45 anos.

Na década de 1970, mais uma estrela surgiu para o panteão de portelenses ilustres. Uma passista com um jeito de sambar único, que envolviam muitos truques e piruetas. Ela ganhou o apelido em referência ao rei do futebol pelo desenho com as pernas parecido ao que o jogador fazia. Com esse estilo inconfundível Marisa Marcelino de Almeida se tornou Nega Pelé (1945 - 20), passista absoluta da azul e branco, que reinou à frente dos ritmistas portelenses na década de 1990. Atualmente, o grande passista Valci Pelé, coordenador da ala da Majestade do Samba, carrega o apelido em homenagem à Marisa, por ter sido descoberto por ela anos atrás.

Ao lado de Valci, quem comanda o grupo de passistas da agremiação é outra grande baluarte da dança: Nilce Fran. Portelense desde os 10 anos de idade, já foi porta-bandeira mirim, passista mirim e chegou ao almejado posto de rainha de bateria. Hoje, 38 anos após sua chegada, ela é desde 2005 coordenadora de uma das mais elogiadas e premiadas alas de passistas do carnaval, revelando também novos talentos.


A elegância era lema e ferramenta de Paulo da Portela para enfrentar o preconceito contra a cultural popular, como já comentamos. Assim, a opulência visual sempre foi uma característica da agremiação. Mesmo antes de um desfile de carnaval ser decidido nos quesitos visuais, ela consagrou o trabalho de grandes artistas. Esse destino da escola já foi traçado na figura de um dos seus três fundadores; Antônio Caetano (1900 - ), com talento artístico nato, foi desenhista da imprensa naval, e são obras dele os maiores símbolos da agremiação. Primeiro, a bandeira em azul e branco com raios, inspirada na bandeira do sol nascente do Japão, formato que se tornou quase padrão nas agremiações. O azul e branco teria sido uma homenagem a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do conjunto carnavalesco. E é ainda também de Caetano a ideia da Águia como símbolo da agremiação, por suas características altivas e aguerridas. Responsável pelo visual da escola em seus primeiros desfiles, foi concebido por ele as primeiras alegorias que a Portela apresentou nos primeiros concursos.

Com a ruptura de Paulo da Portela, Caetano tomou as dores do amigo, fazendo surgir uma nova figura criativa que reinaria durante décadas como “carnavalesco” da azul e branco, antes mesmo da função ter esse título. Pouco se sabe sobre Lino Manoel dos Reis, mas ele já integrava o time criativo da agremiação antes de assumir o posto, em 1942. Permaneceu à frente do barracão portelense até 1956, período em que a Portela conquistou nada menos que 11 campeonatos. Mas Lino não trabalhou sozinho. Ele contou com a ajuda de gente como Euzébio, Nô, Oreba, Arlindo Costa, Nilton, Paulinho, Pinduca, professor Batista e Viegas durante os mais de 20 anos em que coordenou a parte artística da Portela. Entre 1960 e 1961, foi ainda presidente da escola.

Na década de 1970, após uma passagem do salgueirense Nelson de Andrade renovar o espetáculo que a Portela apresentava, a escola formou o que hoje entendemos como Departamento Cultural para comandar os aspectos visuais da agremiação. O responsável por essa liderança foi Hiram Araújo (1929 - 2017), que já havia desenvolvido a mesma função na Imperatriz Leopoldinense. Durante os anos em que esteve à frente do projeto, Hiram desenvolveu importantes enredos literários e biográficos. Um grande portelense ligado às artes plásticas, e que participou da criação do carnaval da Portela de 1971 sob a liderança de Hiram, foi o cartunista Lan (1925). Nascido na Itália, dedicou sua arte ao exercício de exaltar a brasilidade e as curvas de suas famosas “mulatas”. Foi casado com a ex-passista da Portela Olívia Marinho, uma das três famosas Irmãs Marinho.

"Hoje tem marmelada", desfile portelense campeão de 1980, assinado por Viriato Ferreira. Foto: O Globo/Sebastião Marinho
No final da década de 1970, a Portela foi responsável por dar destaque a um dos grandes artistas visuais do carnaval: Viriato Ferreira (1930 - 1992). O figurinista, que iniciou sua carreira no Teatro de Revista e depois atuou como assistente de Joãosinho Trinta, fez uma trilogia de desfiles marcantes na azul e branco, entendendo como poucos o estilo da agremiação. Em 1980, a parceria rendeu um título para a escola e ao artista com o inesquecível Hoje tem Marmelada.

Outro grande carnavalesco lançado pela agremiação foi ninguém menos que Alexandre Louzada (1957). O artista nascido em Niterói começou na escola como desfilante, depois, passou a ser aderecista, até se tornar o artista responsável pelo desfile de 1985. Um dos grandes campeões da festa, tem um estilo marcado pelo luxo e pela pluma. O artista teria ainda uma passagem pela agremiação entre 2001 e 2003, e também mais recentemente em 2014 e 2015, quando devolveu na agremiação seu estilo luxuoso característico, vestindo muito bem os componentes de Oswaldo Cruz e Madureira.

Ainda se tratando sobre visual e luxo, mas deixando os carnavalescos de lado, uma outra figura ligada ao visual traduz o espírito vaidoso do portelense como ninguém. Falamos do destaque Carlos Reis. Trazido pela agremiação por ninguém menos que Clara Nunes, ele começou desfilando como componente até subir para o glamour do alto das alegorias. Nos últimos anos, consagrou-se como primeiro destaque, marcando presença no abre-alas ao lado da águia de Madureira.

Com toda sua tradição e com toda sua longevidade, a Portela colecionou uma enorme galeria de bambas não só envolvidos diretamente no seu cotidiano, mas também uma legião de apaixonados para lá de famosos. O principal exemplo disso é Clara Nunes (1942 - 1983), que se tornou um grande símbolo da agremiação apesar de ter atuado na escola um período relativamente curto. Foram menos de dez desfiles em que a guerreira desfilou na Águia. Ajudou, porém, a produzir um forte repertório portelense em sua trajetória, seja pelas regravações de sambas-enredos ou sambas de terreiro de compositores da escola, ou por eternizar um dos mais belos hinos dedicados à Majestade, o Portela na Avenida, escrito por Paulo César Pinheiro em 1981. A ligação é tão forte que a cantora foi homenageada pela escola um ano após a sua morte, em Contos de Areia, e a rua da quadra da azul e branco foi batizada em homenagem a ela. Também foi enredo da agremiação em 2019.

Ainda na década de 1970, quando Clara explodiu junto a outros grandes do samba, muito cantores para lá de importante para o gênero fizeram sucesso. A época consolidou nomes como Dona Ivone e Clementina de Jesus e trouxe antigos ícones para o estrelato, como Cartola. Também notabilizou a relação da Portela com João Nogueira (1941 - 2000), o típico carioca suburbano boêmio. Ele foi um dos grandes apaixonados pela Águia e ingressou na Ala de Compositores da escola em 1971. Outro cantor também reconhecido e que integrou o grupo durante o mesmo período, concorrendo com suas obras no concurso musical da escola, foi Agepê (1941 - 1995), famoso por seu estilo romântico rasgado. Ele regravou ainda grandes canções do repertório portelense em seus discos de maior sucesso. Quem também fez parte do time de poetas portelenses foi Wilson Moreira (1936 - 2018), que, apesar de ter fundado a ala dos compositores da coirmã Mocidade Independente de Padre Miguel, fez história na azul e branco de Madureira.

João Nogueira e Paulinho da Viola no desfile portelense de 1995. Foto: Acervo Cultural Portela
Nas décadas seguintes, grandes sambistas também se aproximaram da Portela e da Velha Guarda da agremiação, regravando sucessos surgidos nas rodas de samba de Oswaldo Cruz e Madureira. Na década de 1980, foi o caso de Cristina Buarque (1950), grande cantora irmã de Chico e filha de Sérgio Buarque de Hollanda. Ela batizou seu álbum de forte sucesso com “Quantas Lágrimas” de Manácea. Outro grande cantor ligado tradicionalmente a agremiação é Zeca Pagodinho (1959), lançado por Beth Carvalho também nos anos 1980, e que incluiu grandes clássicos portelenses em seu repertório.

Outra figura fundamental nesse sentido foi Marisa Monte (1967), filha de outro portelense ilustre, Carlos Monte, biógrafo da Velha Guarda Show e ex-diretor cultural da agremiação. Marisa produziu o disco Tudo Azul em 1999, que resgatou grandes canções compostas por sambistas da Majestade. Já neste século, outros sambistas ligados a Portela são Teresa Cristina (1968), que começou sua carreira cantando sambas portelenses e dedicou vários álbuns para homenagear a Velha Guarda, e Marquinhos de Oswaldo Cruz (1961), o idealizador do Trem do Samba e da Feira das Yabás. Maria Rita (1977) e Roberta Sá (1980) são duas divas de geração contemporânea do samba que também defendem com amor as cores azul e branco


*Referências bibliográficas: o importante acervo do site Portela Web e Portela Cultural; o livro "Histórias da Portela: tantas páginas belas", de Luiz Antônia Simas e lançado pela Verso Cultural. Além da publicação "Portela, 90 anos de história", editado por Salete Lisboa.

*Havendo qualquer reação ou informação desencontrada no texto entre em contato conosco. 
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments

Texto: Juliana Yamamoto e Beatriz Freire
Edição e revisão: Felipe Tinoco e Leonardo Antan
Arte: Vítor Melo

É com muita alegria que o Carnavalize estreia hoje uma série de quatro textos que irão ao ar todas as quarta-feiras deste mês de junho. Nessa nova jornada pelo mundo do samba, vamos passear com Beatriz Freire e Juliana Yamamoto por um campo cheio de histórias e encantos de duas personagens indispensáveis, representantes do símbolo maior de uma agremiação: mestre-sala e porta-bandeira. Inspirados pela fala do amadíssimo Milton Cunha que diz que o giro da porta-bandeira chama a ancestralidade do samba no vento do pavilhão a se desfraldar na Avenida, batizamos nossa série de #GiroAncestral.

Essa dupla que representa, na verdade, três figuras - o mestre-sala, a porta-bandeira e, é claro, o pavilhão, nosso elemento ao qual os dois primeiros servem - arranca aplausos, desperta emoções e também traz questionamentos e curiosidades acerca de suas funções, arte e histórias. Agarramos o ponto de interrogação com unhas e dentes e até o fim do mês desbravaremos com você, leitor, assuntos indispensáveis em nossos encontros semanais. Com os melhores votos de boas-vindas a este quesito encantador, vamos começar a destrinchá-lo a partir de agora.

Era uma vez! Os primeiros passos dessa história...

Para dar início à nossa linha do tempo, precisamos visitar os ranchos, organizações carnavalescas que tiveram seu ápice no início do século XX. Foi a partir do baliza e da porta-estandarte que se extraiu o simbolismo de um casal responsável pelo pavilhão. 

É importante destacar que essas duas figuras foram “emprestadas” às primeiras escolas de samba no que diz respeito a uma projeção das mesmas funções. A missão do baliza era proteger a porta-estandarte e defendê-la de qualquer ameaça externa, já que não eram incomuns os episódios de roubos e cortes dos pavilhões dos ranchos rivais. A missão da porta-estandarte, por sua vez, como seu nome bem indica, era portar e apresentar o seu pavilhão. Hoje, para traçar o paralelo às funções de um casal, o mestre-sala deve cortejar sua dama, proteger e apresentar seu pavilhão (além de desenvolver passos característicos que serão mencionados ao longo deste texto e também no último encontro desta série). Já a porta-bandeira deve apresentar o pavilhão e desfraldá-lo, sem jamais enrolá-lo sobre seu próprio eixo ou deixá-lo sob responsabilidade de seu cavalheiro.

Na imagem, desfile do rancho “Unidos do Morro do Pinto”, sem data. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Dentro das primeiras décadas dos desfiles das escolas de samba, o que estava subordinado ao julgamento não era um casal e sua coreografia ao ostentar a bandeira como hoje, mas única e tão somente a beleza dela. Aí está mais uma ligação entre os ranchos, seus balizas e porta-estandartes com as escolas de samba, mestre-salas e porta-bandeiras; as bordadeiras eram as críticas destes pavilhões que deveriam ser apresentados de forma impecável aos seus olhos. 

Na “pernada” clássica que envolve o cotidiano carioca e o modo de se viver, como já foi rapidamente mencionado acima, muitas vezes os ranchos tinham seus pavilhões roubados, destruídos ou danificados; a escolha de um tecido que pudesse minimizar os danos se fez necessária. Cabem parênteses: guarde por um momento a informação de que os balizas utilizavam navalhas escondidas em seus trajes. Vamos retomá-la em um momento oportuno, brevemente. A tradição de uma bandeira ricamente bordada sobre um nobre tecido de cetim ou seda está diretamente ligada, nos ranchos, à suntuosidade e à estratégia de defesa e, nas escolas de samba, à majestosa imagem que deveria ser impressa ao júri e ao grande público.

A grande porta-bandeira Dodô e o mestre-sala Adão desfilando pela Portela em 1953 (Revista O Cruzeiro)

Feitos os devidos apontamentos sobre os papéis destas figuras dentro das instituições, devemos falar um pouco sobre o que é propriamente e de que fonte se inspirou a dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Tipicamente cariocas, as escolas de samba foram organizações construídas a partir do seio de todo o aparato cultural diaspórico e de raiz negra no cenário do início do século XX e da transição, até aquele momento, hodierna entre o Brasil imperial e republicano, com a recém-abolição formal da escravatura. 

Nos grandes bailes do Brasil tanto colônia quanto império, os escravizados aprendiam os passos corteses e pomposos para servirem a esses eventos, quando depois, ao retornarem às senzalas, inspirados pela dança do minueto, moldavam os passos de garbo europeu às suas sátiras e caricaturas na execução, misturados aos seus passos de capoeira e dança própria. Em outro sentido, aponta-se apresentação similar ao que conhecemos como a figura do casal também nos cortejos da Rainha e do Rei do Congo, bem como na preparação de meninas africanas para seus casamentos, arcabouço proporcionado por Miguel Santa Brígida ao referenciar o pesquisador Ilclemar Nunes em seu trabalho.*

Dessa forma, temos esboçado os referenciais da dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira, que executa movimentos leves, majestosos e elegantes numa dança de inspirações clássicas apenas em seus passos, mas genuinamente popular. Vale apontar que o casal em qualquer momento samba, mas, sim, baila no ritmo do samba. As inspirações atuais e a busca de referências corporais em danças como o ballet e a dança de salão são instrumentos de auxílio para a direção artística e corporal de cada mestre-sala e porta-bandeira, uma ferramenta de aperfeiçoamento; jamais uma transformação em outro estilo de dança, devendo serem preservadas sempre as raízes populares desta arte com os movimentos obrigatórios que caracterizam um mestre-sala e uma porta-bandeira.

As funções dos casais e seus movimentos característicos


Claudinho e Selminha no desfile das campeãs da Beija-Flor em 2015. (Foto: UOL)
O casal de mestre-sala e porta-bandeira consegue roubar a atenção do público seja nos ensaios de quadra ou técnicos, eventos ou no desfile oficial. A dupla, por meio de uma dança elegante e bonita, encanta os olhos daqueles que estão presentes e muitas vezes emocionam. Essa nobre arte possui uma função muito importante dentro de uma agremiação e que muitos não sabem. 

Além de giros e passos característicos, o casal tem uma missão que sem sombra de dúvidas é primordial e mais importante em sua dança: a apresentação do pavilhão. Juntos, a dupla carrega, protege e defende o maior símbolo de uma escola de samba. Eles possuem a árdua missão de apresentar uma comunidade formada por milhares de torcedores representada naquela bandeira. 

Um “pedacinho de pano” de 120x90cm que carrega uma história de tradição, luta e vitórias. Muito mais que movimentos obrigatórios, o casal de mestre-sala e porta-bandeira precisa apresentar com muito garbo o pavilhão ao qual está defendendo, enaltecendo sempre que possível o maior símbolo e a maior estrela de uma escola. O casal só existe por causa desse “pedaço de pano” e é por intermédio de sua nobre arte que o pavilhão será valorizado e terá o seu maior destaque. 


 Marcinho e Cris Caldas em desfile oficial da Mocidade Independente de Padre Miguel em 2018. (Foto: Leo Cordeiro)

Antigamente o baliza tinha a função de proteger o estandarte dos cordões rivais que tinham sempre como objetivo tentar destruí-lo, como já citado no início do texto. Hoje isso não acontece mais, mas o mestre-sala herdou dessa época a sua principal função na dança: ser o guardião do pavilhão. Ele é responsável por defender e proteger o símbolo máximo da agremiação e a sua porta-bandeira. Na dança, precisa apresentar os seguintes movimentos obrigatórios: meia volta (giro a 180 graus ao redor da porta-bandeira, horário e anti-horário, protegendo a dama e o pavilhão), torneados (quando o mestre-sala gira em torno do próprio eixo), mesuras (menção de reverência à porta-bandeira), meneio (a forma de conduzir com elegância sua parceira) e riscado (jogo de pernas característico). 

O mestre-sala sempre girará no sentido contrário ao da porta-bandeira. Quando ela gira no sentido horário, ele gira no anti-horário e vice-versa. Além disso, é o responsável por conduzir a dança, sempre ditando os movimentos e acompanhando a sua parceira. A porta-bandeira ostenta o símbolo maior da escola. A dama, que na verdade possui o status de rainha, tem a principal função de carregar e apresentar o pavilhão, com gestos elegantes, suaves e leves. Realiza giros completos em 360 graus horários e anti-horários e giros no próprio eixo.

O primeiro casal do Vai Vai formado por Paulinha Penteado e Pingo (Foto: Felipe Araújo | LigaSP)

Juntos, os dois precisam apresentar movimentos coesos e sintonizados, sempre um observando o outro e sem conversar entre si. É importante que os dois terminem juntos os passos porque a finalização dos passos é crucial para evidenciar que aquele movimento foi encerrado. Em nenhum momento o mestre-sala poderá dar as costas à sua dama e tocar os joelhos no chão. 

Já a porta-bandeira não pode enrolar o pavilhão ou deixar o mesmo tocar em alguma parte do seu corpo. Necessita sempre manter uma postura altiva, com um grande sorriso no rosto e um bom trabalho de perfumaria (movimentos leves e graciosos com seu braço e sua mão enquanto dança). Para a dança fluir e acontecer, a dupla precisa se conhecer e se entender através de troca de olhares e gestos. Como diz Vilma  Nascimento, uma das maiores porta-bandeiras que o carnaval carioca já presenciou: “A dança do Mestre Sala e da Porta Bandeira é como o voleio do beija-flor em torno da flor. Ele se aproxima, toca e sai. Volta a se aproximar, beija e sai. Nunca as ações são idênticas. E a rosa, ao contrário do que se pensa, ao sabor do vento das asas do pássaro, não permanece passiva, ela dança.” 


Primeiro casal da Grande Rio no Carnaval 2020, Daniel Werneck e Taciana Couto. (Foto: Site Carnavalesco). 

Para compreender melhor a nobre arte de mestre-sala e porta-bandeira, destrinchamos algumas partes de duas  apresentações. A primeira é do casal oficial do Acadêmicos do Grande Rio, Daniel Werneck e Taciana Couto em 2020, que juntos alcançaram a nota máxima e foram um dos principais destaques do carnaval. Com uma dança tradicional, mas apresentando movimentos coreográficos afros, a dupla encantou.

Confira o vídeo completo da apresentação aqui.



Apresentação do pavilhão. 
Nesse momento, o casal realiza a apresentação do pavilhão de forma calma, elegante e forte. A bandeira da escola fica vários segundos aberta, para mostrar e dar destaque ao símbolo. É notório que a apresentação do pavilhão é o momento mais sagrado e importante da dança e, em razão disso, não tem que ser feita de forma rápida. Quem precisa sempre estar em destaque e ser a principal atração de uma apresentação de um casal é o seu pavilhão.


Meia-volta e giro 360 graus.
Nesse momento o mestre-sala começa a realizar o movimento de meia-volta, no qual começa a girar em torno da porta-bandeira no sentido anti-horário como se estivesse a protegendo. Enquanto isso, a porta-bandeira gira no sentido contrário do parceiro.


Após a finalização do movimento, o mestre-sala agora gira em torno da porta-bandeira no sentido horário e a porta-bandeira gira no sentido anti-horário.


Giro no próprio eixo, torneados e mesuras. 
Nesse momento, a porta-bandeira gira no seu próprio eixo (sem se deslocar pelo espaço), ao mesmo tempo em que o mestre-sala realiza movimentos coreográficos afros e logo depois gira ao entorno do seu próprio eixo (torneados). Ao finalizar o movimento, ele segura na mão de sua dama de forma elegante, reverenciando-a (mesuras). 



Riscado, giro no próprio eixo e meia-volta. 
O mestre-sala apresenta o movimento do riscado, no qual realiza um jogo de pernas rápido e característico. Enquanto isso, a porta-bandeira gira no eixo. Antes de finalizar o movimento, o mestre-sala “abre” a dança, realizando uma meia-volta em que a porta-bandeira continua seu giro, mas agora saindo do seu eixo.


Apresentação do pavilhão. Novamente, o casal apresenta o seu pavilhão com muita força e elegância. Termina, assim, uma apresentação muito forte e impecável. 


Meneio e giros. 
Para a finalização da apresentação, o mestre-sala conduz sua porta-bandeira (meneio) para saída da cabine julgadora, evoluindo para frente junto com a cabeça da escola. A porta-bandeira acompanha o mestre-sala também evoluindo com giros. 

Além de apresentar os movimentos obrigatórios, o casal se destacou por uma coreografia que trouxe referências afros sem tirar o tradicionalismo característico da arte e também sem apagar o brilho da principal estrela da dança: o pavilhão. Por fim, a apresentação de Daniel e Taciana foi coesa do início, meio e fim com um bailado leve e no ritmo do samba-enredo.

Igor Sena e Lenta Magrini em apresentação do pavilhão para cabine julgadora no desfile oficial do Barroca Zona Sul em 2020. (Foto: Juliana Yamamoto - Carnavalize).

A segunda apresentação é do primeiro casal do Barroca Zona Sul, Igor e Lenita no carnaval 2020. Eles também alcançaram a nota máxima em seu primeiro ano dançando juntos. Os dois se apresentaram de forma competente nas cabines julgadoras, além de estarem extremamente graciosos.

O vídeo completo pode ser conferido aqui. 


Apresentação do pavilhão.
O casal inicia a sua dança em frente à terceira cabine de jurados com a apresentação do pavilhão. Com movimentos calmos, leves e muito elegantes, o casal aproveita o momento para mostrar o grande símbolo que defende.

 

Meia-volta, giro 360 graus e torneado.
Após apresentar o pavilhão, a dupla inicia os movimentos obrigatórios. O mestre-sala solta sua porta-bandeira e começa a girar em torno da mesma (meia-volta), enquanto ela gira no sentido contrário ao dele com uma volta completa. A perfumaria da dançarina é leve e elegante e ela sempre mantém o pavilhão desfraldado (aberto). Para finalizar o movimento, o mestre-sala gira em torno do próprio eixo (torneado).


Os movimentos continuam, agora com o mestre-sala girando no sentido horário e a porta-bandeira, no anti-horário. Ele termina com vários giros em torno do próprio eixo novamente.


Giro no eixo e riscado.
A porta-bandeira agora gira no seu próprio eixo no sentido horário, ao tempo em que o mestre-sala faz o seu jogo de pernas também parado no mesmo lugar (riscado). 

 

Eles encerram a apresentação com o mestre-sala conduzindo a sua porta-bandeira para continuarem evoluindo com a escola e também prosseguir com o bailado (meneio).

Em São Paulo os casais de mestre-sala e porta-bandeira precisam evoluir por toda a pista. Possuem aproximadamente 1 minuto para se apresentarem ao jurado, tendo que demonstrar os movimentos obrigatórios. Mesmo após a apresentação, o jurado continua julgando a dupla, até perdê-la do seu campo de visão. Igor e Lenita mostraram muita elegância e leveza. Seus movimentos eram bem marcados e a sintonia dos dois era evidente, o que ocasionou um grande desempenho na avenida e a nota máxima.

As vestimentas e os acessórios essenciais de um casal

Sidclei e Marcella Alves em ensaio de quadra do Acadêmicos do Salgueiro em 2016. (Foto: Alex Nunes).

Uma vestimenta adequada também é muito importante para essa nobre arte. Para ensaios de quadra, os casais costumam utilizar roupas mais “simples” dos que as do desfile oficial. A porta-bandeira sempre estará com uma saia (altura dos joelhos ou abaixo dele), com um short por baixo, e, na parte de cima, um corpete ou outro tipo de blusa, podendo ser uma própria da agremiação. Para ensaios e eventos mais importantes, as porta-bandeiras costumam confeccionar roupas mais elegantes e luxuosas em ateliês. Por fim, nos pés, as damas utilizam sapatos fechados ou abertos com um salto que varia a altura de acordo com a preferência das mesmas. As roupas costumam apresentar as cores do pavilhão que defendem. Já os mestre-salas sempre estarão de calça, blusa e, por vezes, de terno. Nos pés, um sapato fechado de dança, também nas cores da escola.


Exemplo de saiote utilizado pelas porta-bandeiras e que faz parte da indumentária do desfile oficial. (Foto: Alex Nunes)

Já para o desfile oficial, a indumentária utilizada pelo casal é completamente diferente. No julgamento de mestre-sala e porta-bandeira, o qual abordaremos profundamente em nossa série em um dos próximos textos, a fantasia da dupla também é analisada e pode tirar décimos preciosos. Por conta disso, ela é feita com antecedência e com muito cuidado. Os casais costumam realizar várias provas de fantasia antes do desfile, para fazer possíveis ajustes. 

A porta-bandeira costuma apresentar uma fantasia luxuosa, com muitos faisões, penas e plumas. Embaixo da sua enorme saia, há o saiote que é o responsável por segurar grande parte das fantasias. No saiote costumam ter hastes de ferro ou materiais resistentes, tornando-a bastante pesada. Além disso, pode-se ter o uso de costeiros e adereços na cabeça, dependendo da representação do casal na avenida. Uma fantasia de porta-bandeira costuma pesar de 15 a 40kg. O mestre-sala também possui uma fantasia muito luxuosa, na qual praticamente todo seu corpo é coberto. Muita das vezes, possui costeiros com faisões ou uma capa volumosa, mas nada que atrapalhe seus movimentos. 

Primeiro casal da Portela, Irene e Zequinha, em desfile de 1971. O mestre-sala carrega um leque na mão. (Foto: Reprodução Portelaweb)

Além da vestimenta e da indumentária, os itens do mestre-sala e da porta-bandeira são componentes indispensáveis do simbolismo que envolve a arte do casal e um pavilhão. Usaremos aqui a informação que ficou em aberto no início do nosso texto sobre balizas guardarem navalhas em suas roupas. Elas eram utilizadas, como sugerido nas nossas entrelinhas, para cortar os pavilhões dos ranchos rivais. Daí nasceu uma possível representação do que hoje vemos como o bastão que os mestre-salas utilizam em suas apresentações e, para os mais ousados no manejo, até insinuam malabares entre os dedos com o objeto enquanto dançam com elegância e apresentam o pavilhão. 

Fabrício Pires, mestre-sala com vasta experiência no carnaval carioca, chegou a confidenciar que curiosamente já usou a antena de um carro para simbolizar seu bastão. Daniel Werneck, o jovem mestre-sala da Grande Rio, é adepto de dois outros objetos em suas apresentações, chegando a usá-los, inclusive, ao mesmo tempo: o lenço e o leque, símbolos que remetem à reverência e à gentileza e à nobreza dos salões, respectivamente.


O discreto talabarte usada pela porta-bandeira Waleska Gomes. (Foto: Reprodução Instagram)

As porta-bandeiras, por sua vez, têm itens diferentes em suas composições. O talabarte é a faixa colocada como cinto com o famoso “copinho” para que o mastro do pavilhão seja ali encaixado. Essas faixas são ricamente decoradas, na maioria das vezes, em apresentações de quadra e naquelas que demandam pompa e elegância na apresentação visual da porta-bandeira. 

Nas fantasias dos desfiles, eles são “embutidos” à indumentária, deixando apenas o local de encaixe do mastro à espera. Por falar nisso, os mastros são o famoso “pau” da bandeira. São eles o suporte no qual as porta-bandeiras posicionam seus braços e os deixam entre o antebraço e a palma ou lateral externa do dedo polegar da mão. Eles têm tamanhos variáveis e utilizados a partir dos critérios pessoais de cada porta-bandeira, variando entre os menores, médios e os maiores. Estes, os maiores, demandam mais atenção na condução do pavilhão quando utilizados, pois dificultam a intervenção da porta-bandeira em um momento de muita ventania. O pavilhões são amarrados ao mastro por uma das laterais para que fiquem firmes e seguros no momento em que forem desfraldados.

O elegante mastro alto de Giovanna, na Viradouro em 2016. (Foto: Valéria del Cuevo)

Gostou de saber um pouco sobre a história e sobre os movimentos tão encantadores dos casais de mestre-sala e porta-bandeira? Já dá pra ousar arriscar o nome de um passo e saber o que representa cada movimento? Então não deixe de conferir os textos da nossa série Giro Ancestral, todas as quartas do mês de junho, aqui no nosso site. Carnavalizem conosco, até a próxima semana!


*Referência bibliográfica: artigo "A Dança do Mestre-Sala e da Porta-Bandeira: Performance e Ritual na Cena Afro- Carioca", de Miguel Santa Brígida (UFPA/ICA).


Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
 Paulo Barros volta ao Tuiuti com enredo de defesa dos animais ...

Previsões e profecias mostram que, de tempos em tempos, forças divinas ou naturais encontram maneiras de ensinar ao ser humano como viver em harmonia com o planeta. Em 2021, o Paraíso do Tuiuti vai contar à criançada uma dessas muitas histórias… e trazer de volta uma conhecida figura do passado para viver uma curiosa aventura com personagens que povoam o universo infantil.
Milhares de anos após o grande dilúvio, Noé volta à Terra para proteger os animais, porque os homens, que nada aprenderam, continuam a desrespeitá-los. O velho e sábio agricultor sabe que é preciso soltar os bichos e salvá-los e, por isso, pede aos humanos pequeninos, inteligentes e sensíveis, para ajudá-lo. Ele reúne meninos e meninas e revela a missão: “Preciso que vocês avisem aos animais que venham ao meu encontro e se preparem para uma longa viagem na Arca! Porque só vocês serão capazes de encontrá-los e libertá-los!”. Assim, a criançada sai pelo mundo em busca dos seus heróis favoritos!

SETOR 1 – O BICHO ESTÁ SOLTO!
“Primeiro, vamos ao circo!”, combinam as crianças, que logo acham o picadeiro para avisar ao leão. O rei das selvas, ao ouvi-las, se anima para conquistar a Avenida. A próxima atração é o elefante, o maior de todos os animais de quatro patas do planeta: “Vamos, amigo, você precisa sair daqui voando para encontrar a Arca de Noé… E nós temos que ir ao zoológico!”. Lá chegando, libertam o grande urso pardo, que acaba de despertar de um sono profundo e foge ansioso para ver a primavera. “Olhem, ali tem mais! Soltem os gorilas e ninguém mais vai pentear macaco nessa vida! Agora, corram todos depressa para a Arca!”. Vejam quantos animais presos nos parques só para divertir o público! Nada contra mergulhar com os golfinhos, os seres mais dóceis e inteligentes do planeta… “Mas por que maltratá-los? Melhor deixá-los livres e, também, os peixinhos que estavam presos no aquário!”. Agora, todos nadam felizes, rumo à imensidão azul! Cruzando os ares, aí vem um pássaro voando, porque bom mesmo é nenhum deles na mão. Ele vai riscando o céu para encontrar a liberdade! A molecada animada grita: ”Vamos abrir todas as celas, gaiolas e jaulas! Vamos soltar a bicharada!”.

SETOR 2 – O BICHO VAI PEGAR!
Não dá para entender alguns adultos e nem como se divertem colocando os bichos em disputas por dinheiro ou em caças só por prazer. Mas, agora, com as crianças no comando, o bicho vai pegar!!! “Quem botar o galo na rinha, vai se dar mal!”. O touro que odeia touradas fica todo animado e, para participar da aventura, escapa do toureiro. Cuidado com o perigo, mico! Tem fogo na floresta! A ordem é apagar as chamas e espantar essa gente grande que gosta de queimar a mata por ganância, ameaçando de extinção tantas espécies. Mar adentro, em águas cristalinas, as crianças continuam procurando os passageiros da gigantesca barca… “Senhoras tartarugas, podem se dirigir à Arca sem demora?”, “Sim, é pra já!”, respondem as sábias anciãs. Os amigos de Noé ainda precisam chegar a tempo para o rodeio… No mundo das crianças, o bicho sempre se dá bem. Então, ponha-se no lugar dele! Não é que o cavalo já enganou o cavaleiro? E segue galopando para o grande encontro! O seu lobo tá aí? “Tá!”. O lobo astuto, que conhece bem os caminhos do bosque, não cai na armadilha. A partir de agora, nenhum dia será do caçador! Mais adiante, os pequenos defensores chegam à cidade para encontrar uma turma de adoráveis filhotes do barulho! “Podem brincar, cachorrinhos, porque não correm mais perigo.”

SETOR 3 – QUE BICHO É ESSE?
A criançada continua percorrendo o planeta e, agora, quer reunir os animais que sempre foram incompreendidos pelo homem. Quem disse que esses bichos não servem para nada, que só incomodam ou assustam as pessoas? Por temê-los ou por preconceito, foram perseguidos. “Vejam ali! Que bicho é esse?”. Entre as folhagens de um pequeno bosque, surge uma simpática serpente. A turma da Arca avisa que é hora de partir em busca de um lugar mais tranquilo para viver. “Amiguinhos, diz a víbora, vocês ainda estão bem perto da cidade… Voltem lá e avisem ao urubu, que está trabalhando. Passei por ele há pouco!”. O lixeiro da natureza, ao ouvir o comunicado, parte rumo ao novo local, onde poderá desempenhar em paz suas importantes atribuições. Um raio de sol ilumina o delicado fio da teia da aranha, que os meninos seguem até encontrar o pequeno bichinho de oito patas: “Dona Aranha, desculpa interromper sua fiadura, mas precisamos nos preparar para encontrar Noé!”. Prontamente, o encantador inseto recolhe o fio e sai em disparada. Alguém corre até a praia e grita para o tubarão: “Ei, amigo, respeitosamente, poderia nadar em direção ao leste? A Arca está ali adiante!”. De volta ao centro da cidade, as crianças são cercadas por um grupo de cachorros: “É verdade que Noé voltou? A notícia está se espalhando!”. Confirmada a novidade, os vira-latas partem latindo e chamando quem encontram no caminho. A esperta trupe de gatos de rua, sabendo o motivo da animação, se dirige feliz para o embarque. Depois que eles partem, os ratinhos fazem a festa e se preparam, com calma, para a longa viagem. Afinal, nessa aventura, se correr o bicho não pega… mas, se ficar, o bicho come do bom e do melhor!

SETOR 4 – QUEM É O BICHO PAPÃO?
A notícia da chegada de Noé se espalha e a bicharada já espera a visita das crianças. Na fazenda, as galinhas, as vacas e os porcos já manifestam seus desejos de liberdade, preocupados com o que os adultos vão cozinhar para o almoço. O burro deu seu jeito e mostrou ao homem como tem que ser: “Pode puxar sua carroça, moço, porque eu tenho mais o que fazer”, e pega a estrada a caminho da Arca. As crianças ouvem um “zum, zum, zum” e logo começam a chegar as abelhas. Estavam prisioneiras para que fabricassem um delicioso mel totalmente roubado pelos homens… “É o fim da picada! Não deixam quase nada para as pobrezinhas!”. Livres, agora podem espalhar o pólen por onde a natureza mandar… “Ainda precisamos libertar os coelhinhos!”. Dá para acreditar que esses bichinhos são criados para testar cosméticos? A Arca de Noé cumpre seu destino conduzida pelos meninos e meninas que sabem cuidar dos animais. E para os adultos? Ainda existe uma esperança? As próximas gerações podem crescer e semear a paz no reino animal. Quem sabe o futuro possa começar em um Paraíso onde o sentimento das crianças comanda a vida, assim como acontece no conto mágico do Tuiuti.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comments
Mais Recente
Mais Antigo

Visite SAL60!

Visite SAL60!

Sobre nós

About Me

Somos um projeto multiplataforma que busca valorizar o carnaval e as escolas de samba resgatando sua história e seus grandes personagens. Atuamos não só na internet e nas redes sociais, mas na produção de eventos, exposições e produtos que valorizem nosso maior evento artístico-cultural.

Siga a gente

  • twitter
  • facebook
  • instagram

Desfile das Campeãs

  • #SÉRIEDÉCADA: as 10 melhores comissões de frente do carnaval carioca da década
    A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as  segundas ,  quartas  e  sextas-feira...
  • Processos da criação: Jack Vasconcelos - Do traço à mensagem, um carnaval com conceito
    Por Redação Carnavalize A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, des...
  • Carnavápolis | Isso aqui é um pouquinho de Brasil iaiá
    O clima olímpico invadiu a nossa cidade do Carnaval também. O show inaugural das Olimpíadas chutou as bundas dos pessimistas e do ...
  • Unidos da Tijuca: "Música na alma, inspiração de uma nação"
    Esta é uma história de ficção livremente inspirada no encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong, acontecido em 27 de novembro de 19...
  • #Carnaval2022: Salgueiro - Escola sacode a Sapucaí, mas peca em alguns quesitos
      Por Redação Carnavalize Sempre um potencial competidor da disputa pela parte de cima da tabela, o Salgueiro pareceu um pouco menos falado ...
  • 7x1 Carnavalize | Sete sambas ruins que amamos odiar (Ou que amamos mesmo)
    por Leonardo Antan A lista de melhores sambas-enredos de todos os tempos é gigante. Sempre difícil apontar qual o maior hino da hi...

Total de Carnavalizadas

Colunas/Séries

sinopse BOLOEGUARANÁ 7x1 carnavalize Carnavalizadores de Primeira Quase Uma Repórter 5x colablize série década artistas da folia giro ancestral SérieDécada quilombo do samba Carnavápolis do setor 1 a apoteose série carnavalescos série enredos processos da criação dossiê carnavalize Na Tela da TV série casais 10 vezes Série Batuques Série Mulheres Série Padroeiros efemérides minha identidade série baluartes série sambas

Carnavalizações antigas

  • ▼  2023 (38)
    • ▼  ago. (1)
      • Projeto "Um carnaval para Maria Quitéria" valoriza...
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (1)
    • ►  fev. (28)
  • ►  2022 (41)
    • ►  dez. (1)
    • ►  jul. (1)
    • ►  jun. (5)
    • ►  mai. (1)
    • ►  abr. (30)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (1)
  • ►  2021 (10)
    • ►  set. (4)
    • ►  jun. (1)
    • ►  mai. (1)
    • ►  mar. (2)
    • ►  fev. (2)
  • ►  2020 (172)
    • ►  dez. (8)
    • ►  nov. (17)
    • ►  out. (15)
    • ►  set. (13)
    • ►  ago. (19)
    • ►  jul. (16)
    • ►  jun. (15)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (11)
    • ►  mar. (10)
    • ►  fev. (33)
    • ►  jan. (5)
  • ►  2019 (74)
    • ►  dez. (2)
    • ►  nov. (5)
    • ►  ago. (4)
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (4)
    • ►  abr. (2)
    • ►  mar. (35)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (12)
  • ►  2018 (119)
    • ►  dez. (1)
    • ►  out. (6)
    • ►  set. (1)
    • ►  ago. (3)
    • ►  jul. (5)
    • ►  jun. (20)
    • ►  mai. (12)
    • ►  abr. (5)
    • ►  mar. (3)
    • ►  fev. (42)
    • ►  jan. (21)
  • ►  2017 (153)
    • ►  dez. (28)
    • ►  nov. (7)
    • ►  out. (8)
    • ►  ago. (5)
    • ►  jul. (12)
    • ►  jun. (7)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (7)
    • ►  mar. (7)
    • ►  fev. (49)
    • ►  jan. (13)
  • ►  2016 (83)
    • ►  dez. (10)
    • ►  out. (3)
    • ►  set. (9)
    • ►  ago. (22)
    • ►  jul. (39)

Created with by ThemeXpose