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Carnavalize

por Beatriz Freire e Leonardo Antan



Os dois rebaixamentos da Caprichosos de Pilares preocuparam e entristeceram todos os foliões. Com uma trajetória marcante e que ajuda a contar um período da história dos nossos desfiles, a azul e branco do subúrbio se tornou querida do grande público pelo seu estilo irreverente e crítico em seus desfiles na década de 1980. No momento da abertura política, que a sociedade clamava pelas "Diretas Já" na fase final da ditadura, a Caprichosos levou o grito das ruas para a Sapucaí, se firmando no imaginário através de seus carnavais de muita alegria e leveza.



1982 - "Moça Bonita não paga"


"Tem zoeira, tem zoeira / Hora de xepa é final de feira"



Pilares já contava com uma trajetória de 33 anos desde sua fundação, mas a agremiação apenas cumpria tabela nos grupos inferiores da folia. Em rápidas passagens na elite da festa nos anos 50 e depois em 1961, já eram quase vinte anos longe de desfilar com as protagonistas, fazendo enredos chapa-branca louvando figuras tradicionais da História brasileira. Essa primeira fase da trajetória da azul e branco ficaria para trás com a chegada do carnavalesco Luiz Fernando Reis que assinaria seu primeiro carnaval solo. O professor de matemática vivia o mundo do samba já tinha algum tempo, com passagens pela Santa Cruz e Cabuçu. Ele tiraria da cartola um enredo que havia sido rejeitado na escolas por onde passou: a feira livre.



Inspirado nos carnavais de Maria Augusta na União da Ilha anos antes, marcados pela leveza e colorido, o artista faria um grande ode a feira com um passeio pelo lugar através da personagem Lili, que era apenas citada na sinopse e se tornou protagonista a partir do samba composto por Ratinho. A obra foi a primeira na discografia dos sambas-enredo a citar a inflação que começava a tirar o sossego dos brasileiros. Sob um sol a pino, a escola fez um desfile antológico que contagiou as massas. Os carros eram decorados com frutas e verduras de verdade e momento de catarse entre público e a escola foi tão grande, que os alimentos foram distribuídos para as arquibancadas. O resultado não podia ter sido outro: o acesso ao especial após tanto tempo.


1985 - "E por falar em saudade"

"Diretamente, o povo escolhia o presidente / Se comia mais feijão / Vovó botava a poupança no colchão / Hoje está tudo mudado / Tem muita gente no lugar errado"



Após sua ascensão ao grupo especial, a agremiação de Pilares se fixaria como protagonista de fato no emblemático ano de 1985. Um ano antes, na inauguração do Sambodrómo, a escola ia surpreender pelo desfile alegre e colorido em homenagem a Chico Anísio, garantido uma vaga inédita para os desfiles da campeãs e, consequentemente, chegando ao sexto lugar no supercampeonato daquele ano realizado no sábado pós-carnaval. Para 1985, as expectativas eram grandes e através da sinergia entre o trabalho do politizado Luiz Fernando Reis, em parceria com o figurinista Flávio Tavares, junto com o antológico samba composto por Almir de Araújo, Balinha, Marquinho Lessa, Hércules e Carlinhos de Pilares colariam definitivamente a azul e branco no hall das agremiações históricas da nossa folia.

O visual poluído e multi-colorido do desfile de 85 (Fonte: O Globo)

A sintonia com o momento politico do país, a estética simples e comunicação direta, com a irreverência e crítica dos "velhos tempos que não voltam mais". Novamente sob o sol escaldante, a comunicação direta entre público e a escola foi ainda mais presente fazendo os foliões na arquibancada evoluírem de um lado por outro. A escola amargaria apenas a quinta colação aquele ano, injustamente, mas ganharia o Estandarte de Ouro de Melhor Escola, o único da sua trajetória. 

1989 - "O que é bom todo mundo gosta"


"Todos gostam do que é bom / Tira a mão do meu país / Se liga no que a história diz"



Após o marcante ano de 85, o trabalho de Luiz Fernando perderia sua sintonia com o público e amargaria posições cada vez piores. A busca por melhores colocações através de uma estética mais "sofisticada" faria o artista irreverente romper de vez com escola em 1987. Para o seu lugar, a dupla Renato Lage e Lílian Rabello assumiria, vindo de bons desfiles pelo Império Serrano. Com uma estreia simpática em 88, numa apresentação sobre a história do cinema, a azul e branco voltaria a apostar um enredo com a sua identidade, bastante irreverente e ao mesmo tempo crítico: "O que é bom, todo mundo gosta".

Detalhe da alegoria sobre o Descobrimento do Brasil (Fonte: Página Tantos Carnavais)

O desfile propôs contar ao público sobre todas as riquezas que foram exportadas e exploradas no Brasil desde os tempos em que Cabral pisava neste solo verde e amarelo. O samba composto por Wanderlei Novidade, Paulinho Rocha, Vanico do Beco, Walter Pardal e Jorge 101, em seu tom satírico e bem humorado, denunciava os múltiplos interesses dos diversos países e empresários que tanto extraíram produtos do país, citando até mesmo paraísos fiscais que eram e ainda são destinos de um dinheiro provido do bolso do povo. Quanto às alegorias e desenvolvimento do desfile, a dupla de carnavalescos muito agradou com um abre-alas que retratava a perda de todas as riquezas do Brasil em um cais, desde o pau-brasil, da época colonial. Um outro carro também colocou o dedo na ferida do cenário político: a alegoria representava o Congresso Nacional invadido por ratos que o roíam, em um momento muito recente à redemocratização do país. O samba não contagiou como esperado a evolução da Caprichosos enfrentou alguns problemas. Assim, a escola terminou com o décimo segundo lugar do Grupo Especial.


2005 - "Carnaval, Doce Ilusão. A Gente Se Encontra Aqui, No Meio da Multidão. 20 Anos de Liga"



"É carnaval, é samba a noite inteira / Mulata, cachaça, tem muita zoeira / Vem cá meu bem, me dê seu coração / E não a bolsa, o relógio e o cordão"



Após apostar na volta de Luiz Fernando Reis na década de 1990 sem o sucesso de outrora e patinar no especial e sofrer até um rebaixamento em 1996, a Caprichosos permaneceria um período sem mostrar sua identidade apostando em outras fórmulas na busca de garantir melhores posições. Nos anos 2000, entretanto, a veia irreverente viria à tona sob o comando do carnavalesco Chico Spinoza, quando a escola de Pilares desfilou com o enredo "Carnaval, doce ilusão. A gente se vê aqui no meio da multidão: 20 anos de Liga", homenageando a segunda década da Liga Independente das Escolas de Samba. O samba de J.L. Froes, Danoninho, Edmar, Jorge 101, Fernando Lima, R. França e Lee Santana relembrou vários outros sambas de desfiles marcantes que passaram na Avenida. Em seus versos, a letra fazia uma viagem do Sapoti da Estácio de Sá ao Ita salgueirense, passando pela própria Caprichosos da Cabrocha Lili e da saudade, pela Kizomba do Povo de Noel. O único erro do desfile foi a citação aos desfiles da própria Caprichosos em 1982, e o do Império Serrano com Bumbum Paticumbum Prugurudun, acontecido anos antes da criação da Liga.

Alegoria sobre os grandes desfiles da Caprichosos em 2005 (Print do Youtuber)

As atenções do desfile foram direcionadas, principalmente, para o grupo que trazia homens como porta-bandeiras e uma mulher no papel de mestre-sala. Uma alegoria de mais de 40m de comprimento representando a arquibancada da Marquês também foi destaque, composta por mais de 300 pessoas. O resultado, no entanto, não foi dos melhores e trouxe o 11º lugar para a escola, que ainda conseguiu se manter no Grupo Especial. Outro destaque foi a alegoria representando os icônicos carnavais da azul e branco sob a batuta de Luiz Fernando Reis que ganhou até uma escultura representando.

2015 - "Na minha mão é + barato"


"Tem escritório de samba quebrando a firma! / Quem dá mais no mestre-sala?
Quanto vale a tradição? / É mais barato aqui na minha mão"




Após o rebaixamento em 2006, a Caprichosos não voltaria para o especial até hoje. Em 2011 viveria um outro momento crítico como o atual. Após um desfile desastroso assinado por Amauri Santos em 2011 sobre a vida no subúrbio e consequentemente um rebaixamento para o terceiro grupo, a Caprichosos louvaria sua própria história sacudindo a poeira e dando a volta por cima em 2012 quando fez uma homenagem a si mesma. A junção dos grupos A e B que geraria a atual Série A seria benéfica para a azul e branco, mantendo-a numa situação relativamente confortável. O ponto fora da curva viria em 2015, quando o então desconhecido Leandro Vieira foi chamada para assinar seu primeiro desfile solo. 



Com carreira já extensa nos bastidores da festa, Leandro surpreenderia à todos com seu talento artístico. Ao contar a história do mercado informal no Brasil, ele aliaria um tema mais histórico contado à maneira divertida da Caprichosos, com direito a crítica a capitalização dos desfile no momento final. A comissão de frente trouxe uma brincadeira acerca dos camelôs do centro do Rio e do famoso "rapa", alerta de quando os guardas chegam para levar as mercadorias.  O samba, apesar de não ser nenhuma obra-prima, cumpriria bem seu papel, levando à escola a fazer a sua última grande apresentação até aqui. O refrão do samba composto por Lee Santana, Geraldo Rodrigues, Marcelo Schimidt, Anderson Rodrigues, Queilo e Fernando de Lima criticava o valor do carnaval em seu refrão principal, e um questionamento do mesmo teor veio no último carro da escola: "quanto vale o respeito ao samba". Com novos ares de um jovem e talentoso carnavalesco, a Caprichosos conquistou um confortável 7º lugar na série A.

A alegoria ironiza a política e clamava pelas diretas no ano de 1984.


Marcada por sua identidade dada por um dos grandes artistas da nossa folia, a Caprichosos é personagem do fundamental da trajetória dos desfiles. É pela sua irreverência e alegria que sempre lembraremos com carinho da agremiação, seja em seus tempos áureos ou em momentos de mais dificuldade. Ao longo de sua trajetória, a Caprichosos, desde então, alternou entre momentos bons e ruins, sempre se asfaltando e se aproximando do estilo que a tornou famosa. A escola em 2018 desfilará pela Série C, já que não passa por um momento tão favorável, com direito a fortes brigas políticas. Homenageamos a escola  na esperança da chegada de dias melhores, que trarão esta agremiação tão querida de volta à Sapucaí, com sua identidade única que jamais deve ser perdida. E faz falta nos tempos atuais.




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por Leonardo Antan e Beatriz Freire















O Brasil é uma país construído nas sombras dos grilhões, testemunhou os horrores da escravidão por mais de três séculos. Os povos africanos escravizados foram fundamentais no processo da nossa formação cultural deixando heranças dos seus ancestrais, desde as relações sociais, passando pelas religiões e chegando até a música que nos presenteou com ritmos, batuques e danças, que mais tarde dariam origem ao nosso samba. O tráfico negreiro gerou inúmeros lucros ao senhores da Casa Grande, mas começou a se desgastar a partir do século XIX em todo o mundo. O Brasil foi o último país no ocidente a extinguir a escravidão no lendário dia 13 de maio de 1888, quando foi assinada a Lei Áurea pela Princesa Isabel. As correntes se soltaram, mas o questionamento pertinente é: será que a liberdade havia raiado de fato para todos?

A partir do recém aniversário de 129 anos da assinatura da histórica lei e no lançamento do enredo da Paraíso da Tuiuti para 2018, que versará sobre tema, o Carnavalize listou oito sambas que cantaram na Avenida o sofrimento, as heranças, a libertação e a vida de alforriado dos cativos afrobrasileiros. 


Nenê de Vila Matilde 1956



Pioneira nos enredos de temática negra no carnaval nacional, muito antes da dita Revolução Salgueirense nos anos 60, a Nenê de Vila Matilde cantou as dores da escravidão em seu desfile de 1956. Através da obra do sociólogo Gilberto Freyre, o seminal "Casa Grande e Senzala", a azul e branco de São Paulo lidou com um dura versão da escravidão pelo viés das diferenças culturais e sociais da separação entre brancos e negros, como nos lindos versos que mostram um claro contraste entre os dois: "Na casa grande, tudo é festança / Na senzala, nego chora." O outro dado importante para a compreensão da obra é a repetição da frase "É banzo que nego tem", que funciona como um refrão único. Banzo é uma expressão de origem africana que dá nome ao sentimento de tristeza em relação a saudade à sua terra natal, no período da escravidão. Usada também como prática comum de resistência à escravidão.

Unidos da Tijuca 1961



A Unidos da Tijuca atual, pouco provavelmente, frequentaria esta lista. Mas há mais de 50 anos, numa outra realidade, a agremiação do Borel levou para a Avenida o enredo "Leilão de Escravos", em 1961. Utilizado como boa fonte histórica, o samba composto por Mauro Affonso, Urgel de Castro e Cici cantou o processo da venda e do trabalho dos cativos vindos da África. Os castigos físicos e o trabalho compulsório, além da vida miserável, foram pontos de partida para as fugas e rebeliões, que se cruzam por diversas vezes com personagens quilombolas de nossa história, também apresentados no carnaval. Além disso, há o contraste da vida na senzala e na Casa Grande ilustrado nos versos "e na senzala o contraste se fazia/Enquanto o negro apanhava, a mãe preta embalava o filho branco do senhor que adormecia". Em um período difícil de sua história, a Tijuca conquistou apenas o 7º lugar do segundo grupo. 


Unidos de Lucas 1968



A Unidos de Lucas de Clóvis Bornay, em 1968, desfilou um samba antológico e dos mais bonitos de todo o carnaval, com o enredo "História do Negro no Brasil", ou "Sublime Pergaminho", como se tornou mais conhecido. O enredo foi importantíssimo para uma época em que começava a afirmação das temáticas negras no carnaval carioca. No entanto, apesar de mostrar o sofrimento e a união dos negros em seus festejos e lutas, o samba confere o papel triunfal à Princesa Isabel ao assinar a Lei Áurea, em uma visão tipicamente embranquecida. Retrata, também, em seus últimos versos, a cena do jornalista negro José do Patrocínio beijando a mão da herdeira de Pedro ll, e posteriormente a frase exclamada que ficou conhecida: "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão". A escola conseguiu manter-se no grupo especial após a conquista do 5º lugar e teve o samba imortalizado no Museu da Imagem e do Som, além de ter sido gravado posteriormente por Martinho da Vila, Nara Leão, Mestre Marçal, Neguinho da Beija-Flor, Emílio Santiago e muitos outros.


Portela 1972



Sem grande tradição nos ditos enredos "afros", como outras agremiações, a Portela, em uma das suas raras abordagens sobre o tema, brindou o carnaval com uma das mais belas obras sobre as dores da diáspora africana. Sem caráter tão denso, como é comumente usado, a obra composta por Cabana e Norival Reis assume tom mais celebratório. A expressão em yorubá que significa "Terra da Vida" faz uma referência à terra natal dos africanos. Mostrando a dor e ao mesmo tempo a resistência dos escravizados, o samba termina com a belíssima passagem que resume a importância negra na história brasileira: "Negro é sensacional / É toda festa de um povo / E dono do carnaval." O samba ficou conhecido nacionalmente através da regravação da eterna Clara Nunes. 


Paulistano da Glória 1974



Além de sambas-lamentos contando a saga negra, também ficariam famosos no carnaval uma outra forma de narrar a escravidão: através de micro-histórias de personagens marcantes desse período, que tiveram uma vida de luta marcante contra a opressão. Muito nomes escondidas dentro da História oficial foram revelados pelas escolas, exemplos mais famosos são Zumbi dos Palmares, Xica da Silva e Chico Rei. Nesse sentido, São Paulo também realizou um processo de arqueologia através de uma obra do histórico compositor Geraldo Filme, um dos mais importantes da folia paulista. Sua obra de 1974 para a extinta Paulistano da Glória narra a curiosa história do negro Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, que conseguiu a alforria devido ao seu notável conhecimento na construção civil no século XVIII, quando ajudou a construir a Igreja da Sé e a canalização de esgotos da região. Seu apelido viraria sinônimo de algum especialista em algo na linguagem dos escravos do século XIX, o que fez Geraldo investigar a origem da expressão e encontrar a suposta origem sobre ela.

Camisa Verde e Branco 1982



De forma muito poética, o Camisa Verde e Branco desfilou em 1982 o enredo "Negros Maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko". O belíssimo samba composto por Talismã e cantado por Ataíde contava os sofrimentos dos negros enquanto cativos e mostrava seu sofrimento no pós-abolição, marcado pela exclusão social. O samba representava a prisão em versos muitos bonitos, que ilustram a figura de um cativo referindo-se a um osso de canela preso em uma bola de ferro. Também trabalha o mínimo de empatia em relação ao escravo, imaginando sua trajetória árdua vindo de um outro continente, pela condição em que viveu e, por fim, chega ao reconhecimento da cidadania e afirmação dos direitos dos negros; o questionamento mais real para conectar o ocorrido aos dias atuais está no verso "por que só no triduo de Momo que o negro é genial?". Com um bom desfile, a escola conquistou como resultado o terceiro lugar do Grupo Especial naquele ano.


Mangueira 1988



No ano do centenário da Lei Áurea, a Estação Primeira de Mangueira propôs a seguinte reflexão: será que, de fato, a liberdade já havia raiado? Depois do assassinato de seu presidente poucos meses antes do carnaval a Mangueira pisou na pista com um samba antológico e, em um desfile lindíssimo, retratou a vida do negro após a libertação. Legalmente, a escravidão estava abolida, mas, sem uma política de inclusão social, os negros continuaram marginalizados pela nação que prioritariamente já tinha o desejo do “embranquecimento”. A escola mostrou, no desfile assinado por Julio Mattos que, apesar da quebra dos grilhões físicos, os metafóricos ainda estavam e estão presentes numa sociedade que testemunha todos os dias casos do racismo velado e estrutural que a obra da escravidão nos deixou, e o papel assinado da libertação tornou-se parcialmente eficaz A comissão de frente trouxe grandes nomes que se destacaram em diversos setores, como Carlos Cachaça, Ruth de Souza, Glória Maria, Grande Otelo, Jair Rodrigues e muitos outros. Esse mesmo quesito, mais tarde, tiraria o campeonato da escola. A Mangueira passeou pela chegada dos africanos ao Brasil e suas atividades, por Zumbi dos Palmares em seu Quilombo e finalmente à Lei Áurea. A Sapucaí testemunhou Jamelão entoando a letra de Helinho Turco, Jurandir e Alvinho que ajudou a Mangueira a conquistar o segundo lugar, perdendo apenas para o também histórico "Kizomba, a Festa da Raça", da Vila Isabel. Apesar disso, a escola marcou em suas páginas um dos desfiles mais lindos e importantes da sua história, não apenas pela estética e por seu comovente samba, mas pelo teor social que trouxe para ilustrar, em seu papel educativo, um passado paradoxalmente muito presente.

Beija-Flor 2001



Outra micro-história que nos faz refletir sobre o horror da diáspora africana é a saga de Maria Mineira Naê. A Rainha Agotime que era soberana de Daomé, atual Benin. Após a morte do marido, o enteado de Agotime toma o poder e como a rainha era uma poderosa conhecedora do culto aos vodun acabou sendo aprisionada e vendida como escrava. No triste processo da escravatura, Agotime se torna Maria Mineira ao chegar ao Brasil. Desembarca primeiro na Bahia até "seguir o seu destino para o seu povo encontrar". Após conseguir sua alforria, ela segue rumo ao Maranhão onde encontra "seu povo", ao iniciar um novo reinado, o de líder da Casa da Mina, terreiro pioneiro do culto aos voduns, que existe até hoje no Maranhão. A então desconhecida história da rainha africana foi contada com um samba e um desfile de força impressionantes, com a famosa garra da comunidade Nilopolitana. Força que impressionou até a jornalista Glória Maria, que não escondeu seus elogios na transmissão pela Rede Globo. Apesar da histórica apresentação com momentos marcantes como a Ala dos pretos velhos e a Comissão de Frente que encenava a transformação de Agotime numa pantera, a Beija-Flor ficou apenas em segundo lugar.

Rosas de Ouro 2006



Além do histórico hino sobre o processo racista de apagamento histórico do povo negro da Mangueira em 1988, a Roseira quase vinte anos depois levou para o Anhembi um grito semelhante contra o preconceito racial em seu histórico "A Diáspora Africana. Um Crime Contra Raça Humana", belíssimo samba sobre o processo do tráfico negreiro, abordado de maneira dura e crítica. Questionando a assinatura da Lei Auréa e processo de negação de direitos ao povo descendente dos escravizados e das "riqueza que ele não usufruiu" nos versos de Marcelo Dias, Silas Augusto, Marcio Bueno, Ricardinho e Baqueta. Além da força do samba, a Rosas de Ouro apresentou um belo trabalho do carnavalesco Fábio Borges nos quesitos plásticos mas que terminou injustamente num quinto lugar, meio ponto atrás da campeã. 


Imagem do desfile histórico da Beija-Flor em 2001 (Blog Ouro de Tolo)

A trajetória da diáspora negra já cruzou muitas vezes o Anhembi e a Sapucaí através das mais diversas visões, abordagens e recortes. Seja em tons mais dolentes, relembrando o sofrimento de outros tempos, tanto em tons mais celebratórios, abordando a herança cultural, é sempre importante lembrar esse processo histórico que manchou a história mundial. Nós sempre deveremos o perdão a quem sangrou pela História, as escolas como herdeiras desse povo devem, e podem, usar sua voz para fazer esse perdão ecoar. 




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por Beatriz Freire, Guilherme Peixoto e Vitor Melo






É impossível falar do brasileiro, da terra do samba e pandeiro, sem falar da grande paixão nacional: o futebol. Uma bola que move muito mais do que 22 jogadores, agita nações e milhões de apaixonados. E, nada mais apropriado, num domingo recheado de clássicos regionais e decisões de campeonatos estaduais, do que falar daquilo que rola nas quatro linhas. Numa lista que envolve alguns dos maiores times do nosso país, um  inesquecível jogador e até mesmo a origem do esporte mais popular do Brasil, trazemos dez vezes que a bola rolou no compasso do samba. Desfiles e sambas que fazem valer a máxima do folclórico Dadá Maravilha: "não existe gol feio, feio é não fazer gol!". E eles fizeram, de cabeça, de canela e de batuque. Confira nossa lista, caia no samba e esquente para as decisões de logo mais.

Beija-Flor 1986



No ano da Copa do Mundo do México, a Beija-Flor de Joãosinho Trinta botou a bola para rolar na Avenida. Misturando o costumeiro luxo à popularidade futebolística, a escola nilopolitana teve a ideia de comparar o mundo a uma enorme bola de futebol. Embalada por um samba de fácil letra, composto por Betinho e Jorge Canuto, a agremiação impressionou não somente por sua grandiosidade, mas também pela garra dos desfilantes, que cruzaram a passarela sob uma chuva torrencial. A abordagem do tema também despertou curiosidade: Joãosinho, autor do enredo, contou com a ajuda de Viriato Ferreira para relacionar em 30 alas a paixão brasileira que surgiu na Inglaterra do século XX a práticas milenares, passando pela Idade Média, Ásia e Roma. Apesar das dificuldades enfrentadas, a azul-e-branca garantiu um honroso segundo lugar e marcou um golaço ao entrar pra história com um grandioso desfile.



Estácio de Sá 1995



Se formos falar de massa, é inevitável citar o "mais querido". A maior torcida do Brasil, com 40 milhões de apaixonados, carrega o sinérgico rubro-negro do Clube de Regatas do Flamengo. No entanto, em 1995, o manto sagrado vermelho e preto, que completava 100 anos à época, deu espaço a mais uma cor: o branco da Estácio de Sá. Com o enorme apelo popular do tema, a escola do morro de São Carlos levou nada mais, nada menos do que aproximadamente 5 mil componentes, comprometendo a evolução do desfile. 

O empolgante e popular samba, que até os dias de hoje é cantado a plenos pulmões por apaixonados flamenguistas, cumpriu seu papel e animou bastante a apresentação do "Leão". Com um conjunto alegórico e de fantasias um tanto quanto irregular, vale ressaltar o abre-alas preto, vermelho e dourado e a segunda alegoria, que abordava a origem do clube de regatas. Outro ponto alto do cortejo foi a comissão de frente formada por jogadores que carregavam uma grande bandeira nas cores do clube carioca dentro de uma coreografia que levantava o público. No apito do juiz, a escola terminou sua empolgante passagem pela Sapucaí deixando um gostinho de que podia mais. Com tantos problemas a apresentação acabou amargando o sétimo lugar na tabela. 



Unidos da Tijuca 1998




No ano em que o Vasco da Gama comemorou seu centenário, a Unidos da Tijuca, escola com fortes ligações portuguesas, homenageou a história do clube que herdou o nome do navegador lusitano. Passando pela história do aventureiro português até os títulos que o time conquistara, o carnavalesco Oswaldo Jardim destacou também os 500 anos das expedições às Índias e a luta do clube de São Januário contra o racismo, bem como suas raízes operárias e sua trajetória. Ao longo da Avenida, personalidades e ídolos do clube marcaram presença, como Edmundo, no auge de sua carreira pelo Vasco, além do técnico Antônio Lopes e de Roberto Dinamite, que mais tarde se tornaria presidente do time da Colina. Com um samba que até hoje é entoado em jogos pela torcida vascaína, a Tijuca fez um desfile simpático e com certo nível de empolgação, ainda mais pelo teor popular conferido ao enredo. O calor da torcida, no entanto, não foi suficiente e resultou num 13º lugar para a agremiação tijucana, que acabou rebaixada ao Grupo A.


Tradição 2003



Multicampeão e acostumado a fazer centenas de gols nos campos da vida e no carnaval, não foi diferente. Ronaldo Luís Nazário de Lima, o "Fenômeno", emplacou logo dois desfiles na história da folia momesca. O primeiro, na Sapucaí, em 2003, logo após ter sido um dos protagonistas na conquista do pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Com o enredo "O Brasil é Penta, R é 9 – O Fenômeno iluminado", a escola abordaria, além das conquistas do craque ao longo de sua trajetória, os cincos campeonatos mundiais da seleção. No entanto, o que se viu foi um desfile precário tanto visualmente, com direito a alas de "shortões de futebol", quanto no que competia ao samba. A composição criticada veementemente era impraticável de ponta a ponta, deixando a situação da agremiação mais difícil do que já parecia. Parecendo prever tamanha "tragédia", Ronaldo não deu as caras. O "Fenômeno" voltaria a ser enredo onze anos depois, pelos Gaviões da Fiel.




Gaviões da Fiel 2010



Em mais uma homenagem ao centenário de um clube, a Gaviões da Fiel, escola que nasceu da torcida corintiana, pisou no Anhembi com o enredo "Corinthians... minha vida, minha história, meu amor!", assinado pelo carnavalesco Zilkson Reis. O desfile contou, em seis setores, toda a trajetória do clube, incluindo seus títulos, passando também pela Democracia Corintiana. Dentre os importante nomes homenageados, estavam Sócrates, Biro-Biro e Ronaldo, principal jogador do time à época. Como de costume, o samba interpretado por Ernesto Teixeira foi muito aclamado pelas arquibancadas, que vieram abaixo com a passagem da Gaviões.


Imperatriz Leopoldinense 2014



Galinho de Quintino, Rainha de Ramos. Em 2014, um dos mais importantes jogadores da história do futebol brasileiro, Zico, foi homenageado na Marquês de Sapucaí. Arthur Antunes Coimbra escreveu a história de sua vida em páginas rubro-negras e, durante pouco mais de 80 minutos, em verdes, brancas e douradas. O samba daquele ano, que tinha Elymar Santos como um dos compositores, continha belas referências ao "Galinho" e teve um bom rendimento na pista. Visivelmente rouco, o intérprete Wander Pires acabou salvo pela excelente atuação do veterano Preto Jóia, que integrava o time de cantores de apoio. 

Em termos plásticos, o carnavalesco Cahê Rodrigues, que contou com o auxílio do até então desconhecido Leandro Vieira, foi muito feliz e obteve êxito na concepção das fantasias e alegorias misturando o estilo nobre da Rainha de Ramos com uma estética mais futebolística. A imponência dos carros atrapalhou um pouco a evolução, tanto que os componentes tiveram de apertar o passo para não estourar o tempo limite. Com o quinto lugar conquistado, a Imperatriz pôde reverenciar Zico também no Sábado das Campeãs.




Mancha Verde 2015




Em sua volta ao Grupo Especial do carnaval de São Paulo, a Mancha Verde, escola oriunda de uma torcida organizada do Palmeiras, homenageou o centenário do time com o enredo "Quando Surge o Alviverde Imponente... 100 Anos de Lutas e de Glórias". A Mancha contou a história do alviverde com destaque para as raízes italianas do time, a mudança do nome de "Palestra Itália" para "Palmeiras" durante a Segunda Guerra Mundial, além de passear pelas conquistas dos títulos brasileiros, continentais, além do controverso Mundial de 1951. Entre os homenageados, estavam Evair, Ademir da Guia e Oberdan Cattani. O "santo-goleiro" Marcos, porém, não pôde comparecer ao desfile em virtude de uma infecção. Apesar dos lugares vazios, o Anhembi acabou contagiado pelo animado samba da escola, que teve seu clipe gravado no recém inaugurado Allianz Parque. Os jurados, no entanto, não ficaram satisfeitos e acabaram atribuindo a penúltima posição à agremiação, resultado que derrubou a Mancha para o Grupo de Acesso.


Acrésimos: Flu na Rocinha e "Grenal" no Porto Seco


O Fluminense foi outro grande clube carioca a ser homenageado na Marquês de Sapucaí. Em 2003, o Acadêmicos da Rocinha contou a história do tricolor e amargou a décima colocação do Grupo  de Acesso. A apresentação da Borboleta Encantada foi uma das últimas do histórico intérprete Carlinhos de Pilares, responsável por puxar o samba da escola naquele ano. Em Porto Alegre, Internacional e Grêmio também foram temas de desfiles. A Imperadores do Samba foi campeã do Grupo Especial de POA em 2009 cantando o centenário do Inter. Em 2013, o Império da Zona Norte homenageou os ex-dirigentes colorados Fernando Carvalho e Vitório Píffero. Com um animado samba cantado por Sandro Ferraz, o Império terminou a apuração na quarta colocação. No mesmo ano, a Unidos de Vila Isabel abordou a história dos estádios do Grêmio, que naquele ano mudou de casa, deixando o histórico Olímpico e migrando para a moderna Arena do Grêmio. Intitulado “O sentimento não termina”, o enredo deu o nono lugar para a agremiação de Viamão.







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por Leonardo Antan, Beatriz Freire e Vitor Melo.




Passando por um momento complicado de sua história, a Santa Cruz tem um passado grandioso. Fundada em 1959, ela foi criada no mesmo ano que outra verde e branco, a Imperatriz, e apenas 3 anos depois da conterrânea de Zona Oeste, a Mocidade. Já são 58 anos de história da escola que traz o brasão do Brasil Imperial no seu pavilhão. O histórico bairro de Santa Cruz, onde está situada a escola, faz da alviverde uma das escolas mais distantes da Sapucaí, dentro do município do Rio de Janeiro. Com altos e baixos, a Academia da Zona Oeste já oscilou entre os grupos de base mas também nos brindou com belas apresentações por diversas vezes na elite da folia. A escola está prestes a comemorar 20 anos sob o comando de Zezo. A longa duração do mandato deu alguns momentos de glórias, outros nem tanto; Nos últimos carnavais, a escola vem apresentando desfiles mornos e sem grandes ambições, deixando a desejar, frente a grande história da agremiação. Eleições na escola estão em andamento e, na esperança de tempos melhores para a Academia da Zona Oeste, listamos grandes sambas da história da agremiação, fazendo um resgate. 



1 - O Rouxinol da canção brasileira (1974)



A Santa Cruz começou sua trajetória desfilando no seu bairro de origem na Zona Oeste carioca. Foram três carnavais até chegar na disputa principal. Daí, uma rápida campanha de quatros carnavais a levou do terceiro ao primeiro grupo da folia. O ano era 1966 e a escola acabou rebaixada, retornando para elite quatro anos depois, em 1970. Durante os anos 70, escola oscilou entre a segunda e terceira divisões, ficando marcada pela homenagem a grandes artistas da nossa cultura. Em 1974, na segunda divisão, apresentaria um samba que entraria para sua história. Composto por Luiz e Valdir Cruz, "O rouxinol da canção brasileira" fazia uma bela homenagem a Dalva de Oliveira, importante cantora da Era do Rádio. Com a delicadeza e beleza necessárias, a obra merece destaque apesar de terminar apenas na oitava colocação. 


2 - Acima da Coroa de um rei, só Deus (1984)



Dez anos depois, no ano da estreia do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, pelo grupo 1B, a verde e branco optou por desfilar com o enredo afro "Acima da coroa de um rei, só Deus". Assinado por Enoque, Netinho, Thiago e Henri, o sambaço de 84 exaltava os batuques e a religiosidade africana com seus santos e divindades. O desfile assinado por José Lima Galvão faturou o segundo lugar do grupo e retornou ao supercampeonato junto a outras seis escolas do Grupo Especial, além da campeã de seu grupo; dessa vez, porém, terminou com a oitava posição. De toda forma, nossa querida escola da Zona Oeste pisou na Sapucaí com o pé direito, garantindo seu retorno ao Grupo Especial no carnaval seguinte, depois de 14 anos fora da elite carnavalesca. 


3- Heróis da Resistência (1990)



Após a rápida passagem pelo Especial em 85, a Academia da Zona Oeste voltaria à divisão principal cinco depois, para uma de suas apresentações mais emblemáticas. O enredo "Os Heróis da Resistência" prestava uma homenagem ao jornal O Pasquim e seus profissionais. Símbolo da resistência política no período ditatorial, o veículo de comunicação serviu com meio para falar de tempos difíceis de maneira crítica e irreverente, bem ao estilo que havia consagrado a Caprichosos de Pilares anos atrás. Luiz Fernando Reis, carnavalesco destes enredos da Caprichosos, começou sua carreira na Santa Cruz, primeiro na ala de compositores da escola, depois assinando enredos, e, finalmente, desfiles como um todo, contribuindo para o surgimento da vertente dessa temática na Santa Cruz. Além disso, ninguém menos que Carlinhos de Pilares foi o intérprete daquele ano ajudando a afinar essa sintonia entre a verde e branco da Zona Oeste e a azul e branco de Pilares, que havia perdido o protagonismo nesse tipo de desfile. A letra bem humorada foi composta por Zé Carlos, Carlos Henri, Carlinhos de Pilares, Doda, Mocinho e Luís Sérgio, sendo regravada por Emílio Santiago dentro do seu projeto "Aquarela Brasileira", que de 1988 à 1994 integrou ao repertório do artista grandes sambas de cada ano da folia.


4 - O tempo que o tempo tem (2007)


Dando um salto no tempo, muita coisa mudaria na Santa Cruz entre 1990 e 2007. Após a marcante apresentação, a agremiação voltaria para o Especial em 1992, após um episódio curioso de falta de luz, e também em 1997, após uma apresentação invicta com todos os quesitos gabaritados. Em 98, a escola passaria por um momento traumático ao perder seu presidente e fazer uma apresentação emocionante homenageando Cazuza. Com a morte do líder político, Zezo iniciaria seu mandato que vigora até hoje. Um capítulo importante da gestão do atual mandatário foi a atuação de sua esposa, Rosele Nicolau, como carnavalesca e figura de liderança numa comissão de carnaval, iniciada em 2003, na última passagem da escoa no Especial. A comissão fez desfiles que tiveram bons resultados e para representá-los, escolhemos o excelente samba de 2007. Composto por Marcelo Borboleta, Charuto, Ditão, Valdir e Fernando de Lima, a letra de "O tempo que o tempo tem" aborda de maneira divertida a relação do homem com o tempo, cronologia e envelhecimento em diversos aspectos. A sinergia entre samba e plástica deu a escola um terceiro lugar.  


2013 - O dragão do mar e a lenda do Ceará (2013)



Infelizmente, a carnavalesca Rosele Nicolau faleceria em 2009 deixando a escola sem rumo. A comissão formada pela primeira dama seria mantida nos dois anos seguinte após seu falecimento, com enredos deixados prontos por ela. Após uma apresentação problemática em 2012, a Santa Cruz escolheu o enredo "O Dragão do Mar e a Lenda do Ceará" para o ano que marcaria a estreia da Série A no formato atual. O desfile falou sobre o Ceará de José de Alencar, do romance "Iracema", passando pelo Dragão do Mar e a abolição da escravatura. Com Paulinho Mocidade no microfone, a escola embalou seu desfile com um samba extremamente agradável e bonito, sendo um dos pontos mais fortes da Santa Cruz naquele ano. Apesar da empolgação do hino escolhido, a escola terminou apenas com a décima colocação na série A.


Com grandes sambas em seu reportório, a Santa Cruz tem dois Estandartes de Ouro na categoria do segundo grupo. Mesmo assim, optamos por uma abrangência ampla que ajudasse a contar a história agremiação. E com essa trajetória extensa e rica como a da Santa Cruz, nós iniciamos um novo projeto da coluna 5x. A proposta é contar a história de escolas com trajetórias importantes dentro da folia carioca, mas pouco lembradas e passando por momentos conturbados em diversos sentidos, com o desejo de trazer à tona algum prestígio e valorização da agremiação homenageada. E a Academia da Zona Oeste é uma escola que merece ser lembrada com mais carinho pelos foliões.





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por Leonardo Antan e Guilherme Peixoto. 















Anualmente, a Liesa divulga o ranking criado por ela para classificar as escolas de sambas através de seus últimos cinco desfiles. A ideia é saber qual agremiação mantém a regularidade de seus resultados, em uma espécie de “classificação das classificações”. Nesta década, a liderança do ranking já variou bastante: a ponta já foi da multicampeã Beija-Flor, depois da Tijuca, e atualmente está com o Salgueiro. Pegando carona no levantamento da Liesa, o Carnavalize resolveu listar, a partir dos mesmos critérios, os carnavalescos mais pontuados da folia carioca. A única diferenciação foi o recorte escolhido, já que foram analisadas as disputas compreendidas entre 2010 e 2017. Confira:




O ranking considerou trabalhos coletivos e individuais. No caso de Alexandre Louzada e Mauro Quintaes, foram contabilizados os desfiles solos, em dupla ou comissão. Ao mesmo tempo, as comissões de Unidos da Tijuca e Beija-Flor foram avaliadas como uma única marca, considerando que os artistas que as compõem assinam coletivamente.

Liderando com folga a tabela, está o carnavalesco mais amado e odiado do momento: Paulo Barros. Gostando ou não, o carnavalesco “pop” construiu uma carreira sólida e admirada pelo júri da liga, que desde de 2010 lhe deu 4 títulos entre Tijuca e Portela. Barros é seguido pela Comissão de Carnaval da Beija-Flor. Maior campeã dos últimos anos, o grupo liderado por Laíla foi criado em 1998 e desde então já acumula uma carreira de oito títulos e inúmeros vice campeonatos, além de vários retornos ao desfile das campeãs (exceto 2014, entra Boni!). Desde 2010, o grupo sofreu alterações: Alexandre Louzada deixou a escola de Nilópolis para assinar sozinho e, com vistas ao carnaval de 2018, Cid Carvalho retornou após a saída de Fran Sérgio, que ocupava a função de diretor artístico e principal figura criativa da reunião de profissionais. Além deles, nomes como Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends, Cristiano Bara, Rodrigo Pacheco e Wladimir Morellembaum integraram o grupo.




Na terceira posição, a regularidade dos ótimos desfiles assinados no Salgueiro garante a boa posição para a dupla Renato e Márcia Lage. Com certa distância, ficou Alexandre Louzada que tem no currículo os títulos da Beija-Flor de 2011 e o, récem-conquistado, campeonato da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Chama atenção a baixa posição da gabaritada carnavalesca Rosa Magalhães, que ficou apenas na sexta colocação da tabela. Apesar de um título com a Vila Isabel em 2013, as más (e injustas) colocações de seus últimos carnavais na São Clemente pesaram um pouco. A eterna “professora” foi desbancada por Cahê Rodrigues, beneficiado pela regularidade de seus desfiles em Grande Rio e Imperatriz.

Leandro Vieira: pouca experiência, mas um TOP 10 em apenas dois anos.

Mesmo com apenas dois carnavais de Grupo Especial no currículo, Leandro Vieira, campeão do ano passado, conseguiu o décimo lugar na tabela geral. Leandro desbancou nomes mais experientes, como Cid Carvalho, Paulo Menezes e Max Lopes. Outra surpresa foi Wagner Gonçalves, que impulsionado pelo terceiro lugar conquistado em 2011, na Mangueira, conseguiu se posicionar no “G-15” entre outros grandes profissionais. Com trajetórias mais irregulares, Fábio Ricardo e Alex de Souza ocuparam o meio da tabela com oitavo e nono lugar, respectivamente.


Na mesma onda de rakings, nossos amigos do Sambarazzo também embarcaram nessa onda, elaborando as classificações de cada um dos nove quesitos que fazem parte do julgamento da festa. Confira aqui.





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