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Carnavalize


Por Redação Carnavalize


Primeira escola a desfilar no segundo dia do Grupo Especial, o Paraíso do Tuiuti passou por uma troca de enredos no hiato entre carnavais. O martelo batido deu origem a "Ka Ri Ba TI Ye - Que nossos caminhos se abram", em um enredo de valorização à negritude. Em clima de despedida, o carnavalesco da escola, Paulo Barros, assinou com a Unidos de Vila Isabel para 2023 antes mesmo da escola azul e amarela de São Cristóvão passar pela pista.

Estreando pela escola, a coreógrafa Claudia Mota, trouxe a comissão de frente “A criação do homem”, que retratou Oxalá modelando o barro e criando o homem. O ponto alto da performance foi justamente o surgimento de pessoas a partir do barro, em cima de um elemento alegórico gigantesco, que parecia mesmo um carro. Apesar de bem feito, o tripé não dialogava, cromaticamente, com a cabeça da escola. A dança dos integrantes era vigorosa e as vestimentas bonitas. Correta, a comissão tinha muitos momentos, sendo, por isso, relativamente complexa. Por sua vez, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, veio de Zumbi e Dandara dos Palmares, nas cores amarelo e laranja. Juntos pelo primeiro ano, se mostraram sintonizados. A dupla dançou entrosada, com movimentos limpos. Graciosa, Dandara lembrou a dança dos orixás de candomblé.

Detalhes da Comissão de Frente da escola (Foto: Pedro Umberto)


O enredo teve um desenvolvimento burocrático e genérico. O que se viu foi uma lista de chamada de personalidades negras, com bastante repetição de informações pelo carnavalesco, que tentou legendar demais o desfile. Muitas alas traziam repetições dos homenageados em estandartes e na representação deles no meio da ala. O conjunto de fantasias trouxe materiais que deixaram a desejar e um trabalho cromático pouco elaborado. As alegorias eram bonitas esteticamente, em termos de acabamento e escolha de materiais. Porém, os truques repetidos não ajudaram a contar a história do enredo. Destaque para o último carro, que se afasta da estética usual do carnaval, mas foi bastante belo.

Carros do Tuiuti apostaram nos truques de Paulo Barros (Foto: Pedro Umberto)

A bateria do renomado Mestre Marcão foi o ponto alto do desfile, abusando das bossas e colocando a escola para cantar. O bom samba-enredo foi defendido com maestria pelo potente carro de som. Com uma das melhores harmonias que passaram pelo Sambódromo, o Tuiuti ostentou um chão poderoso, que deve garantir a permanência da agremiação no Especial sem sustos.

A evolução, entretanto, compromete bastante. Além de abrir alguns buracos, a escola passou muito lenta, em decorrência da extensão da performance da comissão de frente e do efeito do abre-alas. Assim, acabou estourando o tempo em 2 minutos. 












 

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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à escola e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos Padroeiros - toda quarta de julho, aqui no Carnavalize.


Texto e arte: Vítor Melo
Revisão: Felipe Tinoco

De um conflito paradoxal ligado simbolicamente à sua existência, o protagonista do primeiro texto dessa série, não podendo ser outro, é o padroeiro carioca: São Sebastião. Já que passearemos pelos trilhos místicos que envolvem todo esse universo, o pontapé inicial teria de ser feito exatamente sobre aquele que rege nosso dia a dia e olha por nossa cidade. Em 1965, Estácio de Sá prestou homenagem ao, até então, rei-menino de Portugal, Dom Sebastião, batizando a cidade com seu nome (São Sebastião do Rio de Janeiro). O batismo dessa criação é estritamente atrelado à necessidade de dominação territorial, que visava o triunfo em relação à Confederação dos Tamoios (1554-1567), um dos principais mecanismos de resistência dos povos ameríndios que coexistiam antes mesmo das chegadas das tripulações europeias. Engana-se quem acredita fielmente na oficialidade dos livros didáticos que preconiza uma falta de oposição e uma franca submissão por parte comunidade indígena. Dois anos após o batismo, a trupe portuguesa, na que ficou conhecida como Batalha de Uruçumirim, enfrentaria uma histórica resistência dos senhores da Guanabara e contaria com um auxílio divinal para sair vitoriosa.

É agora que o santo entra no balaio! No dia 20 de janeiro de 1567, São Sebastião é visto, como reza a lenda, batalhando, ao lado dos portugueses, contra a população nativa indígena em prol da conquista da área. Consagrando-se, desde então, padroeiro oficial do Rio de Janeiro. Jovem, Sebastião foi militar exímio e ferrenho pregador dos princípios cristãos em território romano. A manutenção de seu dogma fez com que o imperador lhe condenasse ao fim – amarrando-o em uma árvore, na qual seria flechado até a morte. Dando luz ao berço fértil que é o campo religioso carioca, São Sebastião é sincretizado, pelas bandas de cá, como Oxóssi. Essa ligação se deu, provavelmente, pela simbiose contida na figura da flecha – mesmo que estabelecida numa relação contraditória, já que o caçador da umbanda tem nela sua principal artimanha, enquanto o santo a vê como sua principal ameaça. Esse sarapatel chamado Rio de Janeiro não poderia ter história mais genuinamente carioca: o santo, consagrado padroeiro, por ter lutado na expulsão dos tupinambás de terras cariocas é sincretizado, na umbanda, como orixá líder da falange dos caboclos, responsável pelo chamamento e pela proteção dos índios. Uma complexidade muito potente dos processos culturais! 

Comissão de frente do Paraíso do Tuiuti em 2020, assinado por Márcio Moura. Foto: Riotur/Gabriel Nascimento.
Feita a contextualização histórica, chegamos ao Paraíso do Tuiuti! A agremiação leva a sério quando o assunto é devoção ao padroeiro e elevou esse quesito até a maior potência em seu último desfile. No carnaval 2020, com o enredo “O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião”, assinado pelo carnavalesco João Vítor Araújo, a escola fez uma homenagem ao seu protetor com uma história repleta de intercruzamentos entre a vida de Dom Sebastião com a história do santo e as lendas encantadas que circundam o sebastianismo. Na impecável sinopse, assinada por João Gustavo Melo, a dupla de artistas introduz de forma poética e nítida o que viria a ser desenvolvido no enredo. A agremiação, vestida pela adoração à figura que a rege, trazia, ao cruzar as vidas e os legados de Dom Sebastião e São Sebastião, uma série de minúcias de histórias cruzadas de fé que desdobrariam pelos mais diversos rincões de diversos brasis e desaguariam principalmente no solo fértil e sagrado da própria comunidade tuiutiana. Para as cabeças responsáveis pelo desenvolvimento artístico do desfile, falar dos Sebastiões era muito mais do que propor um enredo histórico ou místico; é desnudar uma gramática pautada no leque dos encantamentos. Desenvolvendo, dessa maneira, uma narrativa própria da escola com a forte presença sebastianista que os levava pra um entendimento próprio e carregado de misticismo do tema, pautado na sensação de pertencimento daquela narrativa e no autorreconhecimento da história contada.

A trajetória geográfica do enredo se inicia em Portugal, berço do rei, indo para Alcácer Quibir, no Marrocos, onde Dom Sebastião, segundo a lenda, encantou-se. Encantado, chega à costa maranhense, pelo Oceano Atlântico, rebela-se no sertão nordestino e se apega ao santo, voltando para a cidade cujo padroeiro é seu homônimo. O enredo é costurado com as múltiplas referências às diferentes histórias que complementam essa narrativa única, como a data de nascimento do Dom Sebastião e o dia em que se comemora o dia do santo, 20 de janeiro. Passa pelo mais diversos encantamentos cultuados e fermentados no nordeste brasileiro até chegar ao Rio de Janeiro, comparando a história do santo também com a de Estácio de Sá, que foi morto por uma flecha envenenada no dia do santo. Dessa forma, o enredo se desenha para um final em que se estabelece um paralelo com a situação atual da cidade, suplicando ao santo-rei que o carioca está ferido e suplica a eles que ajudem a retirar as flechas que os assolam. O carnavalesco encerrava o enredo com a ideia de “povo-rei”, a aglutinação do pensamento de um só espírito entre santo e rei, dizendo que os “touros” (negros) precisariam desencantar para coroar a majestade real e o povo de Tuiuti. 

Visão aérea do bonito abre-alas do Paraíso do Tuiuti no carnaval 2020. Foto: Riotur/Fernando Grilli.
Partindo pro dia do desfile, em si, um dos grandes momentos de emoção que o Tuiuti nos reservou em 2020 foi, sem dúvidas, o esquenta da escola. Com um dos sambas-exaltações mais bonitos entre as escolas de samba cariocas, a azul e amarelo de São Cristóvão nos brindou com a bela composição do ex-intérprete da escola, Daniel Silva. Com os versos "Ó padroeiro, que é luz e devoção/Abençoai, meu querido pavilhão/Um canto de fé, ecoa em forma de oração/Salve São Sebastião!", o Tuiuti já iniciou a louvação a seu padroeiro antes mesmo da largada e deu a tônica perfeita que precisava pra mexer com o brio de sua comunidade e aquecer as arquibancadas da Marquês de Sapucaí. Na visão do júri, a agremiação não apresentou um conjunto visual perfeitamente regular, mas nos brindou com belíssimos momentos como o abre-alas, predominantemente dourado e com lindos touros azulejados puxando o carro, e o segundo carro, trazendo Dom Sebastião flechado na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. A questão musical foi outro trunfo do Paraíso. Repetindo a fórmula que tem dado certo desde 2018, os compositores Alessandro Falcão, Píer, Moacyr Luz, Julio Alves, Cláudio Russo e Anibal brindaram os presentes com uma belíssima obra, tanto em solução melódica como em letra. A escola, embora não tenha obtido boa classificação na quarta-feira de cinzas, ficando apenas na décima primeira posição, cantou com muita propriedade e contou orgulhosamente a história de seu padroeiro. Os versos "No Morro do Tuiuti/No alto do terreirão/O cortejo vai subir/Pra saudar Sebastião" foram uma feliz solução da parceria, sintetizando poeticamente a comemoração do dia do santo pela comunidade do Tuiuti. A letra, de forma bela e objetiva, percorre o trajeto no qual os moradores correm a procissão a cada dia 20 de janeiro, partindo do alto do terreirão até o Cruzeiro da região, no local mais alto do morro que abriga essa devota comunidade.

A presença de Dom Sebastião é tão forte no imaginário da cultura popular que vale ressaltar duas aparições do rei português em carnavais distintos, ambas pelas gramáticas da encantaria:  Salgueiro, 1974, com o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, de Joãosinho Trinta, e Mangueira, 1996, com “Os Tambores da Mangueira na Terra da Encantaria”, de Oswaldo Jardim. No primeiro, um delírio de J30, imaginando que o rei-menino ainda criança, ao ler e ouvir muitas histórias sobre o Maranhão no Palácio de Versalhes, começava a delirar, transpondo a realidade das lendas que escutara pra França. Transformou “salão em matas”, “candelabros em palmeirais” e de “ouro e prata, um mundo irreal”. A música fechava com os ótimos versos “Na praia dos Lençóis/Areia, assombração/O touro negro coroado/É Dom Sebastião”, evidenciando o poder de síntese que só o samba-enredo consegue atingir. Já na Estação Primeira, os versos que o evocavam eram estes: “Os tambores da Mangueira/Na terra da encantaria/Encantaram o touro negro/Que num toque de magia/Se vestiu de verde e rosa/Embarcou na poesia”. Na parte visual, o momento de aparição do touro negro era na nona e última alegoria do desfile, “Reino de Dom Sebastião”, sucedida pelas alas “Encantados do Saber”, “Encantados da Magia” e “Encantados da Alegria”, que encerravam o cortejo mangueirense. Em uma aparição mais recente, o santo-rei deu as caras também, no carnaval de 2008, pela Mocidade Independente, no enredo "O Quinto Império: de Portugal Ao Brasil, Uma Utopia Na História".

Uma das alas do desfile salgueirense no carnaval de 1974. Foto: Eurico Dantas.

Da mesma forma com o que o Paraíso do Tuiuti encerrou o enredo em seu desfile no último carnaval, terminamos o primeiro texto dessa série com o pedido aos padroeiros de nossa cidade maravilhosa por proteção e amparo, contra as forças, dentre bispos e capitães, que tanto a assolam.

Aliados a esse desejo, deixamos os esperançosos versos da canção “Sebastian”, de Milton Nascimento e Gilberto Gil, imortalizados na voz de Gil: “Sebastian, Sebastião/Diante da tua imagem/Tão castigada e tão bela/Penso na tua cidade/Peço que olhes por ela/Cada parte do teu corpo/Cada flecha envenenada/Flechada por pura inveja/É um pedaço de bairro/É uma praça do Rio”.

Que esses versos sejam a personificação da voz de tantos que amam e zelam por esse espaço único banhado pela Guanabara e abraçado pelo Cristo Redentor. Olhem por nós e intercedam por nossa cidade! Salve São Sebastião, okê arô Oxóssi! Na próxima quarta-feira, passearemos pela influência da gramática do tambor e como o orixá das coisas belas, Oxóssi, influencia a Majestade do Samba e a estrela de luz da Vila Vintém na levada e na identidade de suas baterias. Axé!
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Por Bernardo Pilotto:


Escola fundada em 05 de abril, o Paraíso do Tuiuti completa hoje 68 anos. Com origem no Morro do Tuiuti, no bairro São Cristóvão, a escola era, até 2018, desconhecida do grande público. O desfile do Tuiuti daquele ano fez com que a escola ficasse mundialmente conhecida. Até chegar ali, porém, ela já tinha muita história.


Existem registros de que o Morro do Tuiuti abrigava sambistas desde os anos 1930. No clássico livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sergio Cabral, há uma passagem que traz um recorte do jornal O Globo, de 1933, no qual um compositor do morro é entrevistado sobre a confecção de uma cuíca, instrumento até então desconhecido do grande público. Nessa época também foi criada no morro a Unidos do Tuiuti, que chegou a conquistar um terceiro lugar no desfile de 1939. Em 1940, a Paraíso das Baianas também surgiu no morro.


Retrato do momento de fé, prévio ao desfile, de dois componentesda  histórica comissão de frente do Tuiuti no desfile de 2018. Foto: Erica Modesto.


A decadência dessas duas escolas não acabou com o samba no morro. Ao contrário, fez com que os sambistas se reorganizassem, se unissem e criassem o Paraíso do Tuiuti. Ao ser fundada em 1952, portanto, a escola trouxe consigo alguns anos de desfiles e de organização comunitária.

O primeiro desfile da nova escola foi em 1955, com o enredo "Apoteose a Edgar Roquete Pinto". Com a divisão das escolas em mais de um grupo, a agremiação amarela e azul ficou nas divisões inferiores e assim foi indo durante os anos, alternando desfiles pelo segundo, terceiro e até quarto grupo.

A proximidade do Morro do Tuiuti com o Morro da Mangueira trouxe sempre um grande intercâmbio entre o Paraíso do Tuiuti e a Estação Primeira. Foi assim, por exemplo, com o carnavalesco Júlio de Mattos, que começou na escola do Morro do Tuiuti e depois esteve à frente de vários carnavais mangueirenses, conquistando cinco títulos pela verde e rosa. 


No começo dos anos 1980, a escola também teve grande destaque nos grupos de acesso, quando contou com a carnavalesca Maria Augusta, que havia feito inesquecíveis carnavais na União da Ilha alguns anos antes. 


“Tu és meu sonho, Tuiuti

Tens um destino a cumprir

É brilhar no carnaval

No desfile principal

Todo povo a te aplaudir”
(“Um Mouro no Quilombo” - César Som Livre / Kleber Rodrigues / David Lima / Cláudio Martins)

Depois de muitos anos desfilando nos grupos inferiores, o Paraíso do Tuiuti conquistou o título do Grupo de Acesso no ano 2000, chegando pela primeira vez ao Grupo Especial. Mas, no desfile de 2001, a escola não conseguiu se consolidar entre as maiores do carnaval e foi rebaixada. Foram mais uns anos nos grupos de acesso até que finalmente o prognóstico do samba-enredo do carnaval de 2001 começou a virar realidade.
Em 2014 chegou na escola o carnavalesco Jack Vasconcelos para fazer o carnaval do ano seguinte – e dos outros cinco anos seguintes. Ele propôs enredos com fortes cunhos cultural e histórico e esse caminho deu certo: a escola ficou em 5º lugar em 2015 e em 2016 ganhou o Grupo de Acesso, conquistando o direito de voltar ao Grupo Especial.
No primeiro ano na volta ao Grupo Especial, a escola não deu sorte e acabou ficando na última colocação. Mas, devido a acidentes ocorridos no desfile da própria escola e no desfile da Unidos da Tijuca, nenhuma agremiação acabou rebaixada.

E o Paraíso do Tuiuti não desperdiçou a nova chance. Com "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?" (uma referência ao samba “Sublime Pergaminho”, da Unidos de Lucas, de 1968), a escola apresentou um desfile comovente, com uma plástica extremamente visual, e politicamente crítico e engajado. Embalados pelo ótimo samba-enredo do Moacyr Luz, Claudio Russo e demais parceiros e uma comissão de frente emocionante, o Paraíso do Tuiuti ganhou o público na Sapucaí e na TV e saiu do desfile de domingo como uma das favoritas para ganhar o carnaval.

Vampirão.jpg
O destaque vestido de vampiro no último carro do desfile do Paraíso do Tuiuti em 2018. Foto: Marcos Serra Lima | G1.


Foi um arrebatamento coletivo. Sob um cenário de retirada de direitos trabalhistas e golpe parlamentar, esse desfile apareceu como um grito contundente, para o mundo, da situação que o Brasil estava passando (e ainda passa).


De domingo até a abertura das notas na quarta-feira, a única dúvida era se o peso da bandeira ia contar na avaliação dos jurados. E o resultado também surpreendeu por isso: o Paraíso do Tuiuti foi acumulando notas 10 e chegou ao vice-campeonato, o maior resultado de sua história.


A mudança de patamar da escola trouxe novas responsabilidades e expectativas. Em 2019 e 2020, a escola voltou a apresentar bons desfiles, mantendo semelhante linha temática, ainda que sem a mesma aclamação de 2018. Para 2021, a escola resolveu inovar e vai contar com a presença do carnavalesco Paulo Barros.

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Por Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos vai dominar o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!



Após o sucesso da apresentação da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos viu sua carreira ganhar novo patamar. Com o inédito vice-campeonato e a enorme repercussão da agremiação, o então pouco reconhecido artista da festa viu os holofotes todos se virarem para ele.

Mas o sucesso da apresentação não surgiu de uma hora para outra e o talento de Jack, somado a sua liberdade criativa na escola e aliado a outros quesitos do desfiles, tornou-se decisivo neste processo. O carnavalesco possui um currículo já extenso na folia carioca: há mais de dez anos atuando entre os grupos especial e de acesso. Mas desde sua estreia, em 2004, no Império da Tijuca, vem desenhando uma trajetória sólida e com elementos que dão personalidade às suas criações. Em homenagem, não só pelo incrível desfile nesse carnaval, mas por sua carreira como um todo, vamos fazer um passeio pelos principais elementos que marcaram, até então, a carreira de Jack Vasconcelos. Vem com a gente!

Formado em Cenografia pela Escola de Belas Artes, Jack marca o constante diálogo entre uma das principais academias de artes do país com a nossa maior manifestação artístico-cultural. Desde Fernando Pamplona a Leandro Vieira, e também com profissionais como escultores e desenhistas, a migração e atuação da instituição para a folia foi - e ainda é - fundamental para desenhar os rumos artísticos dos desfiles nas últimas década.

Rosa Magalhães é o melhor exemplo dessa relação histórica entre EBA-Carnaval e Jack conta que foi ela sua principal inspiração para chegar à faculdade: "Eu queria muito fazer e a primeira coisa que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes", disse em entrevista ao site Carnavalize no início deste ano.

Devoto confesso da deusa barroca, fica clara a influência da carnavalesca em diversos aspectos do estilo que Jack desenvolveu consigo. Tal influência está presente, sobretudo, na clara homenagem a ela no desfile de 2015, já na Paraíso da Tuiuti, com o enredo sobre a antropofagia no olhar de Hans Staden. O tema bebia no cortejo de treze anos antes, da carnavalesca, sobre a antropofagia na cultura brasileira, o maravilhoso "Tupi or not tupi, in a South American Way!", realizado na Imperatriz Leopoldinense.

A abertura do carnaval de 2015, pela Paraíso do Tuiuti (Foto: Gabriel Xavier/Riotur)

O gosto por narrativas densas, bem estruturadas e com fortes referências culturais, assim como nos carnavais de Rosa, é destaque no trabalho de Jack desde seus primeiros desfiles, mesmo com temas sugeridos pelas agremiações. Bons exemplos são as apresentações de 2007, pelo Império Serrano, onde propôs um passeio artístico de personalidades importantes para a mensagem de inclusão social, e de 2009, desta vez pela União da Ilha, no enredo sobre viagens, que contou com referências ao escritor Júlio Verne e o aviador Santos Dumont. Jack torna claro nas narrativas o desejo por uma construção bem trabalhada do todo, onde cada ala tem sua função dramática bem delimitada, como ele mesmo defendeu na já citada entrevista "Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim”.

Mas se densidade e repertório cultural são decisivos em seus enredos, nos últimos anos destaca-se ainda nesse sarapatel o bom humor e sagacidade de retratar diferentes temas com um olhar ácido, não só na forte crítica social que marcou o comentado último setor desse ano, mas também ao abordar o tropicalismo e a antropofagia.

Se a rivalidade entre Rosa e Renato Lage marcou a década de noventa, Jack demonstra em seus trabalhos a referência de quem acompanhou os embates entre os estilos opostos dos carnavalescos. Nos quesitos narrativos, a aproximação com as características da tricampeã pela Imperatriz são claras, mas há ainda um quê do mago high-tech nos carnavais de Jack, exatamente no quesito mais marcante da produção de Lage: suas alegorias.

Alegoria que representava Einstein, no desfile do Império Serrano, em 2007 (Foto: seLusava/Flickr)

Em seus principais trabalhos, o atual profissional da Tuiuti sempre apostou em alegorias com formas arrojadas e modernosas, com estruturas metálicas, vazadas e com aspectos menos ornamentais, destacando-se também pelo gosto por neon e pelo trabalho de iluminação como parte decisiva da imagem das alegorias. Apesar de criticado por alguns sambistas, o desfile do Império Serrano de 2007, ousou exatamente em alegorias com novos formatos, como o curioso carro que representava o cientista Albert Einstein, que não trazia uma escultura dele, mas sim uma representação de um grande cérebro em meio a formas luminosas, numa proposição mais original. Esse desejo por formas menos excessivas e mais diretas permanece em alegorias realizadas nos seus trabalhos mais recentes. No aspecto mais artesanal dos carros, algumas soluções optam por materiais mais inusitados, ou até os já usados de forma exaustiva, como o tradicional uso de espelho, no original efeito de chuva da segunda alegoria da "Farra do Boi", ou a forração de esculturas por grandes mosaicos de emborrachado EVA recortado, como o leão da última alegoria do Estácio em 2014 e depois em outras ocasiões, como 2015 - cavalos marinhos da segunda alegoria - e 2017, nas esculturas de Gil e Caetano.

Jack dosa o bom gosto com o belo trabalho cromático, como no desfile de 2017
(Foto: Riotur) 
Ainda nos grandes cenários da festa carnavalesca, os carros alegóricos têm importante papel em outra característica muito presente nas apresentações elaboradas pelo artista. As aberturas de Jack são um capítulo à parte, sendo fundamentais na força de sua criação. A paisagem formada por comissão de frente, casal de mestre-sala e porta-bandeira e, geralmente, uma primeira ala na "cabeça" das escolas, é provavelmente o espaço do desfile onde o artista mais se dedica a fazer algo que consiga impacto, apostando na velha máxima "a primeira impressão é a que fica".

Não só nas elogiadas aberturas dos dois últimos cortejos da trajetória do carnavalesco na Tuiuti, com a explosão tropical multicolorida em homenagem ao movimento tropicalista e os tons terrosos e metálicos do grande quilombo deste ano, mas desde apresentações anteriores, que marcam a assinatura pensada e desenvolvida para este segmento do desfile.

Esse conjunto de elementos parece ser pensado por Jack não só na valorização visual de seu trabalho e da importância narrativa desse setor, mas é também onde o carnavalesco gosta de demonstrar enorme respeito à identidade da agremiação a qual está trabalhando. O que nos leva a outro diferencial fundamental de sua carreira.

Desde a abertura em verde água com uma gigante coroa do Império Serrano, passando pelo respeito ao vermelho nos trabalhos em Viradouro e Estácio e chegando ao azul e amarelo, presente, inclusive, no abre-alas deste ano de maneira discreta em elementos decorativos menores, tudo marca um entendimento fundamental do estilo de cada agremiação com algo importante. Como defendem outros artistas da festa, o carnavalesco jamais deve se sobrepor de maneira unilateral sobre uma escola de samba que já tem sua trajetória, mas sim estabelecer uma negociação entre ambas as partes, criando um casamento entre artista e instituição cultural

O imponente abre-alas da Tuiuti no carnaval de 2018 (Foto: Felipe de Souza/Site Carnavalize)

Assim, a cor surge não só como elemento de identificação e reafirmação da escola com a qual o artista formado pela EBA faz uso, mas como uma das chaves fundamentais de sua diferenciação e singularização em relação a outros profissionais: o uso da cor. O chamado "tapete cromático", surgido do conjunto entre alas e alegorias, parecer ser sempre uma grande e potente tela em branco onde Jack gosta de fazer as mais diferentes combinações. A escolha de uma palheta perfeita varia a cada desfile, servindo à proposta do todo daquela narrativa, o que pode gerar desfiles com cores mais quentes, como o de 2015, ou a com uma explosão crítica, 2018.

Dentro desse aspecto, destaca-se ainda o cuidado de Jack mais especificamente por cada setor da apresentação, que marca não só blocos narrativos mas visuais bem delimitados, onde o uso de cores e sua variação são desenvolvidos sempre de maneira espetacular e estruturada pelo estudos da teoria cromática e suas possíveis combinações. Além disso, podem surgir outros elementos que unifiquem essa sequências de alas e alegoria através do uso do mesmo material, como as bolinhas de isopor do setor do Einstein, no Império Serrano e os pingentes de lã amarelo e laranja do setor africano deste ano, substituindo a tradicional palha em desfiles de temática "afro".

No desfile sobre a Tropicália, um dos destaques foi a boa escolha de cores, juntamente ao trabalho em cima de diferentes referências artísticas (foto: Riotur)

Se essas observações de processos recorrentes na carreira do artista podem ser percebidas nos elementos já citados, as fantasias de ala são uma área da atuação carnavalesca onde Jack se destaca menos em relação a esses outros elementos. Não fica claro um estilo mais definido de figurinos que marque sua trajetória desde o início, mas algo mais fluído e moldável em diferentes etapas, mostrando uma adequação às tendências dos desfiles. De fixo, aparece apenas a importante construção de um panorama de referências iconográficas dos temas abordados, que servem de base para a criação das novas imagens das alas, o que é inclusive uma das maiores qualidades do desfile de 2017, reinterpretando a Tropicália a partir da aglutinação de elementos díspares e contradições fundadoras do movimento, como os divertidos anjinhos tocando guitarras e os animais híbridos do abre-alas.

Sobre o vitorioso casamento com a Paraíso do Tuiuti nos últimos quatro carnavais, se percebeu uma adequação e um olhar mais atento ao crescimento das roupas e adereços que vestem os foliões, onde nota-se um aposta menor em alas com criação de figurinos mais detalhados, mas algo mais agigantado e que molda o corpo do desfilante além de suas proporções naturais. Grandes adereços, estruturas em vime, armações, esculturas de espuma somam uma visualidade que busca aumentar os componentes da ala, num claro processo de agigantamento e espetacularização dos desfiles, presente nas fantasias de outros artistas, como Alex de Souza. Algo que não precisa ser lido nem como positivo ou negativo necessariamente, mas apenas característico.

Enfim, valiam aqui diversas outras observações e apontamentos da sequência de desfiles que Jack Vasconcelos assinou no carnaval carioca na última década, mas somando sua já considerável trajetória, é possível destacá-lo com facilidade como uma das mais importantes revelações da folia deste século. Apesar das dificuldades apresentadas na sua atuação por algumas escolas no grupo de acesso, seu trabalho quase nunca deixou de corresponder em qualidade e originalidade.

Sua formação pela academia artística mais ligada ao carnaval carimba sua presença nos desfiles com uma das vozes na ressignificação da tradição carnavalesca e sua consequente atualização, marcando uma ponte necessária e potente entre os artistas de ontem e de hoje, time no qual Jack conquistou seu espaço no primeiro escalão, dado seu estilo de narrativas rebuscadas e composição visual marcada pela qualidade de sua escala cromática. A originalidade ao apresentar temas já batidos, com a escravidão, propondo novas visualidades e materiais à festa são fundamentais para renovação da nossa maior expressão artístico-cultural.

Por isso, viva Jack! E que sua vitoriosa trajetória esteja apenas esboçando novos caminhos para alcançar ainda mais sucesso e reconhecimento.





Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro.  Além de atuar como escritor e curador independente. Atualmente, faz mestrado em História da Arte na UERJ, onde pesquisa também sobre o tema carnavalesco.
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Por Redação Carnavalize

A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Após passarmos pelo barracão da São Clemente para conversar com Jorge Silveira e na Acadêmicos da Rocinha, sob a companhia de Marcus Ferreira, chegamos a mais um galpão, o da Paraíso do Tuiuti. Jack Vasconcelos é o nosso alvo de hoje, venha conferir um pouco mais da trajetória do carnavalesco, que tem passagens por União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá. Vem com a gente!

CARNAVALIZE: Você é formado pela EBA, teve um início trabalhando com outros carnavalescos como Chico Spinoza e Cahê Rodrigues, e a Escola de Belas Artes tem uma atuação muito forte no carnaval. Como você enxerga a formação da Escola com a festa e o seu trabalho dentro desse trânsito?

JACK: "Eu me interessei em estudar na EBA justamente por conta de profissionais que vieram dela e foram fazer carnaval…"

CARNAVALIZE: Então já era um desejo seu fazer carnaval, né?

JACK: "Era. Eu queria muito fazer e a primeira que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes. Então pensei: 'nossa! Belas Artes… preciso saber como é, onde fica, o que comem…' (risos). Fiz Artes Cênicas, que inclui Cenografia e Indumentária, e aí a partir da figura da Rosa, na verdade, é que eu fui perceber outros profissionais. Eu conheci o Fernando Pinto, que é a primeira referência que eu tenho de carnavalesco porque o primeiro carnaval que me chamou atenção foi o do Fernando mas eu não sabia que era o Fernando porque eu era pequeno. E aí veio o João, que tinha aquela máquina de mídia em cima dele, então era natural que eu soubesse quem era Joãosinho Trinta e o quê ele fazia, e fui ver o que era essa EBA. Veio a figura do Pamplona e da Maria Augusta, a Lícia, e veio a confirmação de que era pra lá mesmo que eu tinha que ir. Antes de prestar vestibular, depois de um papo que eu tive com o Joãosinho Trinta, na Viradouro, eu me matriculei no curso de Desenho Artístico, no Liceu de Artes e Ofícios, e fiquei lá por aproximadamente três anos; só saí do Liceu pra Belas Artes.

Só de eu comentar como os profissionais da EBA me influenciaram a dar esse passo, olha como isso é significativo pra instituição. O pessoal fala muito da contribuição lá na década de 60 e 70, mas ela continua. Existe muita gente que quer trazer o acadêmico pra cá. O diamante nasce e a gente quer uma lapidação feita da forma correta; é o que diferencia o desenho da criança pro desenho do Miró. Uma coisa é você desconstruir sabendo o que você tá fazendo, você precisa construir para desconstruir. Se você já fizer desconstruído, então é porque você não sabe edificar. Olha como ela influencia no geral, sabe? E eu percebo isso ainda hoje, isso é atuante, as pessoas ainda vão atrás disso e procuram a EBA e ela continua amamentando a gente, porque a gente se forma mas os laços continuam lá."

CARNAVALIZE: Você é um carnavalesco muito preocupado com o conceito e isso envolve um longo e cuidadoso processo de pesquisa. Como você monta este panorama de referências e ajusta o molde do seu desfile?

JACK: "É interessante como as pessoas veem a gente de fora, né?! Como eu venho de uma formação acadêmica é natural que eu tenha um conceito pra arrumar o meu processo criativo, então estou acostumado, não consigo mais desvincular uma coisa da outra. Tenho uma história pra contar e eu preciso escolher um caminho para aquela história…"



CARNAVALIZE: Mas você vai pela Literatura primeiro, opta pelo visual ou é algo muito híbrido?

JACK: "Depende muito, tem coisas coisas que começam de um jeito, tem coisas que começam de outro. Eu sempre monto uma trilha sonora (esse ano não montei) pra cada enredo e eu vou ouvindo aquela trilha e vou desenhando, vou lendo e aquilo vai nascendo com aquela música. Eu tenho playlist pra todos os meus enredos. Tinha um exercício que eu adorava fazer no Liceu, que era pra soltar a mão, e aí era um cavalete e pegávamos um carvão, nos vendávamos e colocavam uma música. E aí, a gente deixa a mão fazer o movimento do que a gente tá sentindo; você não sabe o que vai sair daquilo e você não pode tirar a mão do papel. A vibração do traço acompanha a vibração que chega pelo ouvido e o ritmo da música vai influenciando o teu punho. É muito legal! Eu adorava aquele exercício! Pensar com harmonia, pensar musicalmente — e eu sou um cara que sou muito influenciado por música — é natural ser uma influência no meu trabalho de carnaval. Então, trouxe isso pros meus desenhos, pras minhas criações. Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim."

CARNAVALIZE: Já falando sobre suas referências, parece que a cor é, depois da música que você revelou agora, tão importante quanto. Já ouvimos algumas vezes você teve dificuldade, no início, de materializar todo esse trabalho de cores, que não tinha material suficiente. Como você olha pra esse tapete cromático da escola?

JACK: "Teve uma palestra que assisti na EBA, num evento anual em que os alunos produzem, e levaram o Roberto Szaniecki. Ele estava com o enredo dos sete pecados capitais e tinha levado os desenhos. Alguém perguntou sobre cor, e lá na EBA a gente tem uma liberdade enorme, produz cores inimagináveis… só que pro carnaval a gente precisa pensar nisso pra uma produção em larga escala porque eu não compro um metro de tecido, eu compro mil metros. Então, eu preciso produzir essa cor, dentro de fornecedores que por vezes têm opções limitadas, e no papel é maravilhoso; ele aceita tudo, vai qualquer coisa. A realidade é um pouco diferente.

O carnavalesco Roberto Szaniecki conhecido por sua passagem pela Grande Rio.

Mas fato é que perguntaram sobre cores e ele pegou uma maletinha e abriu. Quando ele abriu, era cheia de hidrocor que de um lado é um pincel e do outro a ponta é seca; ele também é aquarelável. E aí ele explicou pra gente: todas as cores que encontramos em hidrocor dá pra achar em qualquer fábrica, porque são cores industriais, o que é mais fácil do que bolar uma cor ou um degradê em determinado tecido. E aquilo resolveu os meus problemas (risos), era incrível.

CARNAVALIZE: Ainda sobre esse assunto, você acabou de comentar que viu os desenhos do Szaniecki numa época em que nada era digitalizado. Como é sua relação com o papel? Você faz tudo do seu processo de fantasias e alegorias nele ou se vale do artifício da tecnologia pra te auxiliar?

JACK: "No processo das fantasias eu uso só o papel, meus livros, algo que eu tenha visto na internet. Já as alegorias, como fazem parte de um processo mais elaborado, eu conto com a ajuda do computador por ser algo mais técnico, cálculos mais exatos… mas o projeto, a ideia, o esboço da alegoria nasce também no papel."

CARNAVALIZE: Falando sobre sua trajetória, você construiu uma carreira longa e bem reconhecida no Acesso. Como foi ter que moldar seu processo de criação aos improvisos dentro das limitações orçamentárias do grupo e como isso foi, de certa forma, uma escola que te alavancou para ser mais "consciente" no trabalho no Grupo Especial?

JACK: "Olha, isso é uma realidade que acompanha a arte, quem faz teatro, quem faz cinema, quem faz TV, quem faz Grupo Especial… todo mundo passa pelo mesmo problema. A diferença está nos números, é a quantidade de coisas que você tem que resolver porque o projeto é maior, mas a demanda de problemas é quase equiparada. Uma festa se vende pela dificuldade e a outra pelo glamour, então as pessoas não diferenciam muito isso. Não estou desmerecendo o que eles passam lá, mas o que estou querendo dizer é que os problemas existem e são quase os mesmos praticamente, que é o fornecedor que não tem o material pra você, o orçamento que não chega ao que você precisa pra colocar o carnaval na rua e você tem que repensar o efeito…"

CARNAVALIZE: Muitas vezes, as pessoas entendem que a criação e a gerência de barracão são processos separados. Como isso funciona pra você, se são os mesmos processos?

JACK: "Isso depende do método de atuação de cada carnavalesco. Tem uma galera vindo de uma produção televisiva, ou de algo que tenha outro processo. Talvez o comportamento em relação ao projeto seja outro. E também tem a galera que vem do processo manual. O cara que é artista plástico, que tem mais a alma de barracão, tem o prazer de estar com o ferreiro, o carpinteiro... Essa proximidade depende de como cada um vai administrar isso. Eu gosto disso aqui, sei da minha responsabilidade em relação ao visual da escola e prezo muito por isso, não sou um carnavalesco de quadra. Aqui, por exemplo, só fui para lançar a sinopse esse ano. Os holofotes eu deixo pros outros."

CARNAVALIZE: Ainda tratando sobre sua trajetória, você tem uma passagem muito marcante pela União da Ilha no Grupo de Acesso. Foi um ponto marcante da sua carreira, onde você começou a ganhar destaque. O que você comentaria sobre essa passagem?

JACK: "A Ilha foi primordial para a formação do Jack como carnavalesco. Eu era um carnavalesco a caminho antes da minha passagem, numa transição. Não que a gente 'se forme' e acabe, a gente tá sempre se transformando. Mas assim, em termos de estilo, de maturidade e segurança, compreensão do mercado... Eu não tinha esse preparo, era assistente. Nesses anos de Ilha, tive uma parceria muito grande com o diretor de carnaval, na época, Márcio André, ele me mostrou as coisas. Não fui jogado num ninho de cobras e 'se vira', isso até me prejudicou no futuro, em passagens por outras escolas, por achar que sempre seria assim. Era uma escola em que todo mundo se abraçava, e eu fui abraçado pela Ilha. Eu tinha mais frequência na quadra, porque tinha um ateliê funcionando lá. Fazíamos os protótipos lá, as costureiras e aderecistas eram todos da comunidade, baianas ou velha guarda. Chegava de noite, o pessoal responsável pelas alas da comunidade ia do trabalho para a quadra ajudar na reprodução das fantasias. Era um esquema muito familiar, sabe?! E eu achava que toda escola de samba era assim... eles brigavam para fazer o melhor pra escola. Era uma concorrência saudável.

Em 2008, Jack assinou a reedição do clássico "É hoje!"


Depois que eu saí da Ilha, caí numa realidade muito diferente: gente querendo tirar as coisas, e não colocar, isso foi um choque. O lado bom foi que a Ilha me mostrou uma consciência de comunidade, de um projeto amplo. Que não é só minha fantasia ou minha alegoria, eu era muito focado nisso, como tive contato com todos os segmentos, conhecia todos os passistas, toda a velha guarda... Isso ampliou minha consciência do meu papel dentro de uma escola de samba. A Ilha foi fundamental pra mim!"

CARNAVALIZE: Em 2007, você chega ao Império Serrano para assinar "Ser diferente é normal - O Império Serrano faz a diferença no carnaval". De que maneira aquele carnaval é traumático pra você? Quais dificuldades você enfrentou no processo de condução e criação daquele projeto?

JACK: "Não sei dizer o que fez e o que faz uma escola cair. As escolas trabalham pra fazer o melhor possível, não é só uma questão visual, é como um todo. Eu sou muito satisfeito com a parte visual, pois a perspectiva era tenebrosa. O enredo não era meu, mas a escola não me obrigou a seguir determinado desenvolvimento. Eu já cheguei sabendo que iria falar sobre aquele assunto. Havia uma promessa de patrocínio que não veio. Pegamos um barracão onde diziam que podíamos zerar os chassis das alegorias. Recém-chegado da União Ilha, eu achava que todo mundo dizia a verdade: zerei os carros. Hoje, o Jack mais experiente não faria isso em escola nenhuma até saber como se encontra o terreno.

Abre-alas do Império Serrano em 2007.

Nisso, as coisas começaram a se atropelar. O dinheiro prometido não veio e a escola sofreu muito, como um todo. Uma coisa é projetar um desfile lindo, o projeto era muito bacana, a escola gostava muito, estava contente em fazer, e de repente não ter nada. Minha sorte foi ter sobras de materiais de outros carnavais para conseguir concluir o projeto. Ali foi um grande choque, o primeiro choque de realidade. Tentamos fazer outra coisa, muita gente enxerga o Império como uma escola antiga, envelhecida... O Império é uma escola de vanguarda, enquanto muitas pessoas colocam a escola como se cheirasse a naftalina."

CARNAVALIZE: Depois de 2017, como você vê o esgotamento do modelo atual dos desfiles, no sentido do fazer e pensar carnaval? Quais as soluções você vê?

JACK: "Eu acho que esteticamente a gente fica um pouco amarrado por conta do regulamento, eu sinto necessidade de quebrar esse bloco de cinco carros e cinco, seis alas entre eles. Gostaria que tivesse um outro tipo de conta nesse sentido, porque as vezes um carro grande não me ajuda muito. Ás vezes pra eu passar melhor uma mensagem, um carro menor ou uma composição de alguns mobiles, algumas coisas fazendo uma paisagem, pra mim já seria o suficiente e ficaria mais harmônico com as alas no entorno. Eu sinto falta de poder mexer nessa paisagem do desfile, sinto essa necessidade."

CARNAVALIZE: Alguns enxergam que as questões da interação e do envolvimento do público são muito importantes. Como você avalia isso? Como é, pra você, o uso de carros coreografados?

JACK: "A interação do público é algo muito discutível, porque você colocar como depois da era do Paulo Barros que as coreografias se convencionaram, de ter algum carro coreografado pra chamar o público, isso às vezes funciona, às vezes não. Às vezes o público só olha e 'ah, passou, ótimo'. Interação com o público se faz no momento anterior à festa, divulgando o samba e fazendo as pessoas se interessarem por aquele enredo e aquele samba. Então você vê uma escola que tem um carro coreografado e o resto livre, o público responder muito mais. Às vezes uma escola se apresenta e o publico senta pra olhar, encarar aquilo só como espetáculo e aí ele não se vê como parte integrante daquilo. Isso é relativo. Eu não busco necessariamente a interação com o público, mas passar melhor a mensagem do meu enredo para que o público se identifique com isso."

CARNAVALIZE: E como isso funcionará no desfile de 2018?

JACK: "A gente vai criando esse diálogo assim, naturalmente. Esse ano especificamente, por ser um enredo que eu preciso que as pessoas entendam certas mensagens, estou lançando mão de uma dramatização maior. Então praticamente todos os carros têm algum núcleo que faz alguma coisa, mas não é uma coreografia, é uma representação em conjunto. Me ajuda esse ano pelo enredo ter a ver com trabalhadores, mas cada caso é um caso. Eu procuro não ter uma ideia fechada sobre nenhum tipo de recurso."


CARNAVALIZE: Você vem de três carnavais marcantes pela Tuiuti, com enredos de forte conteúdo cultural e artístico. Você sente que aqui na escola há mais liberdade de propor seus enredos?

JACK: "Tenho sim, até agora estou tendo bastante. Houve um pedido especial esse ano para que eu falasse de alguma temática africana ou afrodescendente, foi então que sugeri a questão da Lei Áurea, mas falei 'eu vou fazer a minha Lei Áurea'. Assim nasceu o enredo. Aqui, desde que eu cheguei, tenho uma liberdade maior de sugerir os temas, não que eu não tivesse em outras escolas no desenvolvimento." 

CARNAVALIZE: Como você trabalhou isso em escolas com um enredo já entregue, assinando apenas o desenvolvimento?

JACK: "Vou dar um exemplo, 'Viajar é Preciso', na Ilha, em 2009. A escola precisava falar sobre viagens, sobre turismo. Pouco depois que chegou esse pedido pra mim, o Cristo Redentor foi eleito uma das 7 maravilhas do mundo moderno, um dos colaboradores ativos daquela época na escola era o presidente do Trem do Corcovado. Nisso, a escola me pediu se eu poderia colocar o Cristo de alguma maneira no enredo. Então eu tinha essas coisas pra cumprir: viagem, turismo e Cristo. Tá, vamos lá! Eu fiquei na minha casa ouvindo músicas, vendo uns filmes, então eu lembrei de um enredo que eu vontade de desenvolver sobre o Júlio Verne. Daí eu podia ir pro Santos Dumont, que leu muito o Julio Verne e foi influenciado por ele, chegando a Dumont inventando o 14 Bis e chegando ao Cristo."

Abre-alas da apresentação de 2009 da tricolor insulana.

CARNAVALIZE: Nessa parte da entrevista, gostaríamos de saber se você acha que nessa passagem pela Tuiuti você conseguiu atingir uma maturidade artística com o reconhecimento do meio carnavalesco. Esse reconhecimento já veio antes?

JACK: "Eu vou trabalhando e não percebo essas coisas, cada ano é um ano e eu vou fazendo. O resultado disso não está na minha mão. Como eu tive uma liberdade maior com os enredos, no intuito de sugerir o tema principal e a escola foi acatando, eu consegui mostrara cara do Jack por completo. Eu fiz muitas outras coisas que também são minhas, a minha cara tá lá, mas eu não vejo uma coisa 100% porque não era ideia minha fazer aquilo inicialmente. Era meio que uma encomenda, de certa maneira tudo é uma encomenda também... Esses enredos que chegam assim, sugeridos, me davam um calafrio porque eu tinha medo de me transformar nisso, de olhar aquele roteiro sugerido e pensar 'que droga', ter que fazer aquilo e ter que assumir aquilo pra mim. Quem manda a gente fazer não tem consciência do mal que nos faz ter que ficar dando entrevista durante meses como se aquilo fosse o máximo. Aqui na Tuiuti nesse últimos projetos, como eram projetos que eu tinha muita vontade de fazer, saíram com a minha identidade e aí as pessoas me viram melhor."

CARNAVALIZE: Pra finalizar, a gente enxerga exatamente a continuação desse trabalho e pergunta sobre o enredo de 2018, que passeia por um momento histórico e chega na atualidade, com a critica politica. Qual mensagem final você quer deixar nesse desfile?

JACK: "Eu espero sinceramente que as pessoas tenham mais consciência do coletivo, isso seria muito bom. Porque nós fazemos parte de um coletivo, essa propaganda que a gente é bombardeado diariamente com o "personal" é uma grande mentira. Nós somos um corpo só, nós somos células de um corpo. A gente espera que com esse tema as pessoas pensem um pouquinho nisso, de ter essa consciência de que o próximo é tão importante quanto você, porque a minha ação provoca no próximo mesmo eu nem vendo. O enredo no fundo fala disso. A gente tá falando da exploração do próximo, então se existe esse olhar de que o próximo merece ser explorando. Existe uma ideia de superioridade, existe um 'eu sou importante e o próximo não é'. A gente tá batendo nessa tecla de que isso tem que deixar as pessoas mais ligadas."
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Por Felipe de Souza
O carnaval de São Paulo, inegavelmente, é um dos que mais cresce e ganha espaço no Brasil. Apesar disso, é impossível ignorar a relevância que a festa momesca tem em terras cariocas. Para ilustrar tamanho crescimento da folia e a união entre os carnavais, Felipe de Souza, Beatriz Freire e Jéssica Barbosa se reuniram para detalhar samba e enredo das 27 escolas que passarão pelo Anhembi e pela Marquês de Sapucaí em 2018. Os textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas, seguindo o resultado do último carnaval.

"Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?!"
Paraíso do Tuiuti
"Não sou escravo de nenhum senhor.
Meu Paraíso é meu bastião,
Meu Tuiuti, o quilombo da favela
é sentinela da libertação."
Depois de um 2017 para se esquecer, a Paraíso do Tuiuti manteve Jack Vasconcelos em seu elenco na busca de ficar no Grupo Especial em 2018. Com um enredo crítico tratando sobre a escravidão e sua persistência na pós-modernidade, a escola acerta em cheio na escolha do tema. 

Apesar da manutenção do carnavalesco, algumas peças do escrete da escola de São Cristóvão se alteraram. No microfone da amarela e azul, Wantuir deixou o cargo para, primeiramente, Nino do Milênio. Meses depois do anuncio de Nino, Grazzi Brasil e Celsinho Mody, revelações do carnaval paulistano, foram contratados para reforçar o carro de som da escola. Além disso, houve a chegada de Danielle Nascimento e Marlon Flores, preenchendo o quesito mestre-sala e porta-bandeira nas vagas deixadas por Giovanna e Marquinhos. 

O samba:
A Tuiuti foi, certamente, muito feliz ao escolher encomendar seu samba para esse carnaval. Apesar das críticas por conta da falência da ala de compositores da escola, é notória a superioridade do hino da escola para 2018 em relação ao do ano anterior. 

Tendo como autores Moacyr Luz, Cláudio Russo, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir, a escola tem um samba digno de Estandarte de Ouro, sendo, também, um dos mais comentados desse pré-carnaval. Aliás, é impossível destacar apenas um trecho do hino da amarela e preta, pois todos passam lindamente a mensagem que o enredo busca: a escravidão não acabou!

No domingo de carnaval, a Tuiuti será a quarta escola a desfilar. Vale a pena conferir o desfile pela mensagem do enredo, pelo samba, pela festa! 
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Por Alisson Valério
Não é de hoje que vemos grandes estrelas do Carnaval de São Paulo ganhando espaço na folia carioca, mas o impacto nunca foi tão grande como no momento. Vamos mostrar um pouco mais de algumas dessas grandes estrelas do Anhembi para os fãs do Carnaval do Rio de Janeiro que irão, a partir de agora, começar a acompanhar de perto esses talentosos artistas.

Vem com a gente que tem muita coisa legal sobre a história dessas estrelas do nosso Carnaval.


Grazzi Brasil
Grazzi fará parte do time de canto do Paraíso do Tuiuti em 2018. Foto: Pcsouza/Divulgação
Grazzi Brasil é a maior revelação do carnaval paulistano na década, principalmente no quesito canto. Uma ascensão meteórica que foi iniciada no ano passado. Apesar de ter feito carreira como apoio em muitos sambas concorrentes, Grazzi se tornou referência na função de intérprete em 2016. na disputa de samba-enredo do Vai-Vai para o último carnaval. Dona de uma voz potente e melodiosa, a cantora se destacou bastante durante a disputa, sendo convidada pelo presidente da escola do povo, Neguitão, para integrar o carro de som da escola no Anhembi. Além disso, Grazzi dividiu a faixa oficial do CD do Grupo Especial com Wander Pires, à época intérprete oficial da agremiação. Após o desfile, a cantora passou a ser cobiçada para defender sambas concorrentes de diferentes parcerias, inclusive no Rio de Janeiro. Em uma dessas apresentações, Grazzi chamou tanta atenção que foi convidada pelo presidente da São Clemente a estar no carro de som da escola da Zona Sul. Mas já era tarde: a cantora já estava apalavrada com a diretoria do Paraíso do Tuiuti. Depois de tanto sucesso, Grazzi estreará na Marquês de Sapucaí, compondo um trio com Nino do Milênio e Celsinho Mody. No CD dos sambas-enredo da elite carioca, ela gravou a introdução e fez algumas participações ao longo da faixa. A cantora terá jornada dupla, pois será a condutora do carro de som do Vai-Vai, fazendo dupla com o pagodeiro Belo.


Celsinho Mody
Celsinho estreará na Sapucaí em 2018. Foto: Carnavalesco/Reprodução
Celson Mody, o Celsinho, foi revelado pela Unidos do Peruche no início dos anos 2000. Ainda jovem, no desfile de 2003, o cantor fez parte do time de canto de Eliana de Lima no Peruche. De ascensão meteórica, Celsinho ganhou notoriedade quando se transferiu para o Camisa Verde e Branco. Com 16 anos, em 2004, ele já fazia parte do carro de som da escola. Um ano depois, o jovem foi alçado ao posto de intérprete oficial da escola, fazendo dupla com Juscelino. Em 2006 e 2007 defendeu, respectivamente, os microfones de Tatuapé e Mancha Verde. Para 2008, Celsinho foi recontratado pelo Camisa e, embora não tenha conseguido manter o Trevo da Barra Funda no Grupo Especial, recebeu o Prêmio SASP de melhor intérprete daquela edição dos desfiles. Após permanecer na escola em 2009, ele começou uma peregrinação por diversos pavilhões. Voltou à Mancha, retornou pela segunda vez ao Camisa e ficou por duas temporadas na Nenê de Vila Matilde. Em 2014, ao lado do falecido Mydras, puxou a Pérola Negra. Após ficar fora do carnaval em 2015, Celsinho estreou no Tatuapé em 2016. Na "Tatu", o intérprete ajudou a escola a conquistar o vice-campeonato no ano de 2016 e o título inédito em 2017. Além dos feitos coletivos, Celsinho foi mais uma vez considerado o melhor intérprete do Carnaval Paulistano pela SASP. Para 2018, além de seguir firme no Tatuapé, a "pegada de africano" de Celsinho se fará presente no Paraíso do Tuiuti.

Jorge Silveira
Enredo sobre a Escola de Belas Artes será executado por Jorge na São Clemente. Foto: Rafael Arantes
Jorge Silveira vive em barracão de escola de samba desde muito cedo em função do pai que foi carnavalesco nos anos 80, como ele mesmo diz cresceu no meio de fibra, ferro, isopor e madeira. Dizem que o talento as vezes vem de berço e Jorge sempre teve a certeza que o caminho não poderia ser outro. Formado em Educação Artística na Escola de Belas Artes da UFRJ ele começou a sua vida no Carnaval desenhando para várias agremiações. A primeira oportunidade foi dada por Jaime Cezário quando trabalhava na Cubango. Ali se iniciava a história de sucesso de Jorge Silveira no Carnaval. Ele desenhou carnavais de grandes escolas tanto no Rio como em São Paulo, escolas como: Gaviões da Fiel, X-9 Paulistana, Dragões da Real, Colorado do Brás, Porto da Pedra, Cubango, Vila Isabel, Unidos da Tijuca, Mangueira e Imperatriz. O seu primeiro carnaval assinado como carnavalesco foi em 2015 na Dragões da Real, escola onde ele ficou até o ano de 2017. No ano de 2017 ele assumiu um desafio de além de assinar um Carnaval na Dragões da Real, assinar outro Carnaval no Rio de Janeiro na Viradouro. O convite surgiu após ele projetar e trabalhar na execução do Carnaval de 2016 da escola e ele prontamente assumiu a missão dupla. Os dois trabalhos renderam dois vice-campeonatos e chamaram a atenção do mundo do Carnaval. Em 2017 veio o maior desafio: assinar um carnaval sozinho no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Mas quem conhece o Jorge sabe da qualidade do seu trabalho e o quanto isso é fruto do seu incontestável talento. Ele levará um enredo Academicamente Popular para a Sapucaí em 2018 em busca de levar a São Clemente rumo a voos mais altos. Afinal, a mais bela arte o samba lhe deu e ele fez da São Clemente o retrato fiel.


Camila Silva
Carismática e atenciosa, Camila é muito querida pela comunidade de Padre Miguel. Foto: Marcos Serra Lima/EGO
Camila Silva iniciou a sua trajetória no carnaval aos 7 anos de idade e teve passagens pela Combinados de Sapopemba, Flor de Vila Dalila, Leandro de Itaquera, Camisa Verde e Branco e Nenê de Vila Matilde. Desde 2009, Camila é a dona do posto de Rainha de Bateria do Vai-Vai. A morena é conhecida pelo seu poderoso samba no pé, pela sua simpatia e também pela sua assiduidade nos ensaios, coisa que ela faz questão de frisar ser importantíssimo no posto de rainha de bateria. Tem que ser presente e ela é mesmo, não só vai sempre como também dá o seu show particular. Camila é unanimidade no Vai-Vai e foi isso que a levou ao carnaval do Rio em 2013, como rainha  da Mocidade Independente de Padre Miguel, a convite do carnavalesco Alexandre Louzada, que se encantou por ela ao longo de sua passagem pela Saracura, A escolha dividiu opiniões, mas não foi a única passagem da rainha pela Mocidade Camila voltou a escola em 2016 como musa e neste ano reassumiu o posto de rainha de bateria, função que também exercerá no próximo desfile da Estrela-Guia. Camila conquistou o seu lugar na Sapucaí por todas as qualidades que a levaram a ser uma unanimidade na Terra da Garoa.


Marlon Lamar
Marlon Lamar terá a responsabilidade de ostentar o pavilhão portelense em 2018. Foto: Leo Cordeiro
Após estrear como principal mestre-sala do Império de Casa Verde em 2014, Marlon Lamar teve uma ascensão meteórica. Logo em seu primeiro ano, ele atingiu a nota máxima, feito cada vez mais raro. Marlon permaneceu na escola até 2016, levantando um título do Grupo Especial e sendo aclamado pela crítica. Lucinha Nobre, histórica porta-bandeira da folia carioca, conheceu Marlon enquanto dava aulas ao primeiro casal da X-9 Paulistana. Quando resolveu voltar a dançar, Lucinha convidou o rapaz para ser seu par. Marlon, que sempre teve o sonho de desfilar na Marquês de Sapucaí, dançou ao lado de Lucinha no desfile deste ano da Porto da Pedra. Apesar de não ter recebido nota máxima, o casal foi agraciado com premiações diversas. O bom desempenho da dupla rendeu um chamado da Portela, que precisava de novos integrantes após as saídas de Alex Marcelino e Danielle Nascimento. Em 2018, na maior campeã da história do samba carioca, Marlon estreará no Grupo Especial tendo como companheira a sua fiel amiga Lucinha.


Alemão do Cavaco
O cavaquinista é um dos maiores nomes da história dos Gaviões da Fiel. Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo
Alemão do Cavaco é um compositor e músico consagrado no meio do carnaval. Isso se deve aos muitos feitos realizados em sua carreira. Apaixonado pelo Corinthians e pelo samba, Alemão entrou para carnaval e, consequentemente, para os Gaviões da Fiel, no começo da década de 90. Em 1993, graças ao talento no instrumento que virou parte de seu nome, fez parte do carro de som da escola alvinegra pela primeira vez, ocupando o posto de segundo cavaquinista. Em 94, graças ao sucesso na função, já era o primeiro cavaco da escola e assim foi até 2007. Além do destaque no carro de som, o músico se tornou um compositor de muito sucesso. Ao lado de seus parceiros, venceu a disputa na alvinegra em oito oportunidades (1996, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2005 e 2006). Além disso, duas obras suas foram as trilhas sonoras de desfiles campeões na Torcida que Samba. Apesar disso, Alemão - seja como cavaquinista ou como compositor  - esteve presente em todos os quatro campeonatos da Fiel. Em 2007, após 14 anos fazendo parte do time musical da escola do Bom Retiro, Alemão assumiu a direção musical da Caprichosos de Pilares, abrindo sua trajetória no carnaval carioca. Em 2011, venceu a disputa de samba-enredo na X9 Paulistana e foi convidado para se tornar o diretor musical da escola. No mesmo ano, realizou um sonho: cencer a disputa de samba-enredo de sua escola do coração, a Mangueira. Após uma disputa recheada de polêmica, Alemão e seus parceiros venceram a concorrência e conseguiram o sucesso com o samba sobre Nelson Cavaquinho. A obra acabou sendo aclamada por público e crítica. Em 2013, foi convidado pelo então presidente Ivo Meireles para ser o diretor musical da verde e rosa, ficando até 2016. Ao mesmo tempo, continuava compondo para a escola e venceu as disputas de 2015 e 2016. No ano de 2016, no enredo em homenagem a Maria Bethânia, Alemão viu sua obra ser trilha sonora do desfile campeão do Grupo Especial. Para 2018, o compositor, mais uma vez, disputou e venceu o concurso da Estação Primeira. Ao lado de seu antigo rival nas disputas e companheiro no carro de som, Lequinho, Alemão compôs uma obra que é considerada um sucesso mesmo antes do desfile pelo belíssimo conjunto de letra e melodia. Por tudo isso e pela carreira consagrada, é impossível não citar Alemão do Cavaco como um sucesso na ponte-aérea carnavalesca.


Bom, não dá para falar apenas de um lado da ponta área, não é mesmo? Vamos dar uma passada rápida em São Paulo e falar um pouco sobre os cariocas na folia paulistana.

Além da ponte aérea de São Paulo para o Rio de Janeiro, existe também a do Rio de Janeiro para São Paulo. Essa porta foi aberta de vez após o desfile da Nenê de Vila Matilde na Marquês de Sapucaí, em 1985, onde começamos a ver o intercâmbio entre os estados. Muitos nomes cariocas estiveram em Sampa: Laíla, Joãozinho 30, Alexandre Louzada, Jamelão, Quinho, Mestre Jorjão, Jorge Silveira, Cebola, Flávio Campello e muitos outros. Mas nenhum deles tem o sucesso e a importância para o carnaval do Anhembi que possui Jorge Freitas.

Jorge Freitas
Jorge Freitas: uma vida dedicada à arte carnavalesca. Foto: SRZD - Claudio L. Costa
Jorge Freitas era um carnavalesco pouco conhecido no Rio de Janeiro na década de 90. Apesar de assinar três Carnavais no Grupo Especial pela Unidos de Vila Isabel, foi em São Paulo que ele viu a sua vida mudar. Convencido a rumar para a capital paulistana pelo intérprete Ernesto Teixeira, Jorge estreou nos Gaviões da Fiel em 2000. Na alvinegra mostrou seus diferenciais: o acabamento perfeito e o gigantismo. Os títulos vieram em 2002 e 2003 e criaram uma marca: Jorge Freitas é garantia de alto nível. Em 2004, Jorge teve uma breve ausência da folia paulistana para ser carnavalesco da Portela. Em 2005, já de volta aos Gaviões, ajudou a escola a retornar ao Grupo Especial após os incidentes ocorridos no ano anterior. Em 2006, num desfile cheio de polêmicas, o artista novamente foi o destaque positivo, apesar do rebaixamento da Torcida que Samba. Em 2007, a convite da Liga/SP se dividiu entre Pérola Negra no Especial e Gaviões no Acesso, ajudando as escolas a cumprirem seus objetivos de estarem no Grupo Especial de 2008, quando Jorge iniciou uma trajetória marcante no Rosas de Ouro. Na escola da freguesia do Ó conquistou um título, três vices e vários desfiles inesquecíveis. Após oito Carnavais, o carnavalesco se mudou para a Império de Casa Verde. Na Caçula do Samba, conquistou o campeonato de 2016 com um enredo sobre os mistérios. Em 2017, num enredo sobre a paz, a azul e branca terminou em quarto lugar, mas com um desfile bastante elogiado. A carreira de Jorge Freitas é recheada de prêmios e títulos, mas seu maior feito vai além das conquistas. Com um estilo único de comandar um desfile de escola de samba, o Carioca mudou a cara do carnaval paulistano e elevou o patamar da folia do Anhembi em geral. Por tudo isso, é um grande exemplo positivo de como o intercâmbio entre as cidades faz bem para a maior festa popular do mundo.

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