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Carnavalize


Por Redação Carnavalize


Sob as bênçãos de Oxóssi, a Mocidade, terceira escola a desfilar, levou à Avenida uma homenagem ao orixá e seu padroeiro, com o enredo "Batuque ao caçador", assinado pelo carnavalesco Fábio Ricardo. A agremiação despontou entre as favoritas durante todo o pré-carnaval, principalmente pela força de seu samba, um dos mais elogiados do Grupo Especial. 

Experientes no quesito e veteranos da escola, Jorge Teixeira e Saulo Finelon trouxeram uma comissão de frente representando o mito que fez Oxóssi ficar conhecido como “caçador de uma flecha só”, no qual ele flechava um pássaro que carregava uma maldição. O ponto alto da apresentação era quando a ave, em cima do elemento alegórico, era acertada por uma flecha (drone) que sobrevoou a avenida. No chão, vários guerreiros encenavam um ritual com tambores, os quais chamaram a atenção por se movimentarem sozinhos. Apesar de competente, a comissão não produziu grande impacto. Cabe destacar que o elemento alegórico não era um primor estético. Por sua vez, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos, representou “Mutalambô”, com uma das indumentárias mais bonitas que passaram pela Sapucaí. A dupla fez uma apresentação segura, com giros limpos. Foi perceptível uma evolução do casal em relação ao ano passado.

Performance da Comissão de Frente da escola (Foto: Lucas Monteiro)

Mergulhando na história de Oxóssi, o enredo apresentou bem a ligação do orixá com a escola de samba, apesar de alguns cortes abruptos na narrativa, como entre o império de Daomé, no terceiro carro, e a alegoria de Tia Chica. As fantasias, no geral, se destacam em cor e proposta, sendo ainda leves e bem acabadas. Chamou a atenção o modo eficiente como o carnavalesco combina o dourado e o prata com o verde da agremiação. Já as alegorias deixaram bastante a desejar em acabamento. As concepções eram boas, mas quase todos os carros tinham problemas nesse sentido.

Último carro alegórico da Mocidade (Foto: Juliana Yamamoto)

A bateria de Mestre Dudu, assim como o excelente e animado samba, foram os destaques positivos do cortejo. Forte musicalmente, a escola só não teve um chão melhor por vários problemas de evolução, desencadeados por dificuldades com os carros alegóricos, como foi o caso do acoplamento do abre-alas.

Oscilando entre quesitos fortes e frágeis, a Mocidade deve brigar, na terça, por um vaga no desfile das campeãs.










 

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Oxóssi, batida de uma flecha só…

Do Orum, Olorum escreveu nas estrelas os segredos do que é essencial. E foi Orunmilá quem os entregou à ventura dos Orixás. Um deles, gravado no arco esticado. No voo da flecha em silêncio. No ofá que aponta o sentido da vida. Para um dia fazer ecoar uma batida única. Na caixa. De guerra. De festa. E se tornar canto ao pé da jurema. Perfume de alecrim. Frescor da alfazema. Confiança no impossível. Afinação pelo inverso nos versos próprios à mata. Cavaleiro regente dos caprichos da pureza. Cadência e equilíbrio de fauna e flora. Batuta que ouriça ou faz calar o naturalmente belo. Trono e tronco da pulsação no interior de tudo. Rito, grito, apito. De mestre. O passo a passo no ritmo preciso. O disparo sem vacilo. Axoxô com milho, amendoim, coco fatiado e melaço na gamela. Oferenda, toque, licença. Pujança preta iorubana. África, axé e agueré. Olu wó kí rí bode. 

Diz um Itan que houve festejo em Ifé. Colheita do Inhame. Olofin-Odudua, o rei, foi surpreendido. Do seu altar, viu um dos pássaros de Eleyes pousar sobre o palácio. Desafiadora obra das feiticeiras Iyami Oxorongá. Sombra, peste, cólera se sucederam. O Obá tratou de convocar os Odés para a ofensiva. Guerreiros e suas flechas. Foram cinquenta de Oxotadotá. Todas sem direção. Depois, as quarenta de Oxotogi. Nenhum acerto. Por fim, Oxotogum e vinte tentativas. Mas as asas da praga seguiram abertas. 

Eis que o Ifá sinalizou o real caminho: uma lança apenas. E foi Oxotocanxoxô a desferi-la. Instinto de Orixá protetor que atingiu o peito do animal em cheio. Batismo determinante. Fim do mal. Aquele foi o Oxô aclamado: Oxóssi, o Odé, o caçador de uma flecha só. Ofà ofà bèru já. Alegoria fundamental.

Oxóssi, batida de mitos…

O oráculo o fez fruto do simbólico. Em algumas lendas, nascido da própria feiticeira Iyami Apaoká. Jaqueira sagrada. Noutras, filho de Iemanjá e Oxalá. Irmão de Exu, que abriu sua trajetória. E de Ogum, com sua espada de ferro. De afeto. A ensinar sobre a caça. Odé logo aprendeu. Foi ao ataque, para desagrado da mãe. Enfeitiçado por Ossain, encontrou nova moradia na floresta. Abô, banho em deslumbramento. Fez-se provedor dos alimentos. E mò re lè ko lè. Ossain, soberania das ervas e folhas.
Oxóssi-Odé, a mira que não descansa. Passaram a viver juntos. Mas Ogum não se conformava. Trouxe o flecheiro de volta para Iemanjá. Ela o recusou.

Sem conseguir o perdão materno, Oxóssi partiu. Destino traçado. Na arma em desenho de Lua Nova empunhada. Mato adentro, atende por Erinlé. Ou Odé Inlé. Grande caçador de elefantes. Que se apaixonou por Oxum banhada de ouro e mel. Erinlé é, ainda, um rio. Correnteza que beija as águas de Oxum. Amor e rivalidade. Desejo e conflito. Do encontro apaixonado e caudaloso, nasceu Logum Edé. Filho metade matagal, metade cachoeira. Homem e mulher. Guerra e espelho. Saiu aos seus. 

Oxóssi. Odé. Também chamado Ibualama. Água profunda. Sabedor dos caprichos do submerso. Senhor da prosperidade na ciranda dos Orixás. Aquele que salta a fronteira do impossível: não crê no frio da morte. Dribla Ikú com valentia em suas andanças. Vitorioso na peleja contra o juízo final até mesmo no proibido. Ao flechar a serpente Oxumarê sem permissão superior, foi atingido por feitiço. Mas escapou da passagem. Como sempre. Concessão de Orunmilá.

Oxóssi, batida de luta…

Seguiu adiante. Certeza no improvável. Alvo. Ação. Abate. Longe de titubeios até mesmo quando o trono foi seu. Sim, Odé é rei africano. Rei do Kêtu. O Alakétu. De alteza concedida por Oxum para salvá-lo de outros caçadores. Coroa legitimada pela supremacia do Orum. Mito adorado pelo povo. Oluaiyè a aréré. Kêtu, região de tradição Iorubá sob a árvore sagrada. Kêtu, entreposto de riqueza e comércio. Kêtu, menina dos olhos da cobiça. De Oyó. De Daomé. Da Europa imperialista. Não tardou para o tempo virar sobre o planalto de solo avermelhado. Batalha. O Kêtu sucumbiu ante as tropas daomeanas invasoras. Portal de entrada conquistado. Saga em desalinho.

O culto a Oxóssi foi atingido pela queda do reino. Em fugas. Em massa. Em mortes. Mas o ícone também se espalhou. Memória oral como frasco aberto. Essência do Candomblé solta no ar. Em velas ao mar que transformaram a experiência de mulheres e homens.

Sobrevivente no tumbeiro. Irukerê que afasta os maus espíritos. Eco ancestral sem amarras. Desembarque. No Brasil, em Cuba, na mistura efervescente das Américas. Lamento escravo na senzala. Veias abertas.

Oxóssi, batida de sincretismo…

Com os pés aqui, assentou-se no alastramento. Raiz nova em solo que tudo dá. Dono da terra desbravador. Operador da dimensão do encanto. Nagô. Angola também. Cabila. Mutalambô provisor. Arqueiro divino de Zambi. Criador das estrelas. “Que iluminam Oxóssi lá no Juremá”. Preto. Das giras. Mandinga. Macumba. Umbanda. Nação de nações apinhadas. Dorso de aço. Pé de vento. Divindade que dança. Índio. Linhas de caboclo. “De Aruanda”. Pena branca. Jupiassu. Sete flechas. Boiadeiro. Ventania. Dona Jupiara. Sete Encruzilhadas. Das tabas todas consagradas na sua energia.

Orunmilá gravou em Odé a percussão que alforria corpos e almas do Gigante. Ponto riscado. Traje em verde ou azul. Legião de filhos de cabeça feita. Quinta-feira de Ossé. Sincretismo. Salve Jorge na Bahia. O Amado e o Guerreiro. Guardião das noites enluaradas. Casa Branca. Gantois. Ilê Axé Opô Afonjá. A força de Mãe Stella. São Sebastião do Rio de Janeiro. Padroeiro cristão flechado. Falange Tupinambá derrotada. Santo e Orixá. Fusão em dorso nu. Antropofagia simbólica de algozes à beira do cais. Sagrado e profano. Folia.

Oxóssi, batida de festa…

Tribo de quintal sob melodiosa tamarineira. Cacique. De Ramos. Da Uranos. Dos que não cancelam os frutos do tambor. Ubirajara, Ubiracy, Ubirany. Aymoré. No ramal Deodoro, salta em Oswaldo Cruz ou Madureira. Águia e jaqueira sagradas. Apaoká do samba. Tabajara. Paraíso no alto do morro. Arroz-com-couve irmanado ao Boi Vermelho. Como Odé e Ossain em harmonia nos mistérios da mata. Zona Oeste por cartão de identidade.

Agueré depois do apito final na pelada de várzea. Rum, Rumpi, Lé. Ogãs a repercutir a gramática do atabaque. Xirê em torno da sábia Chica. Tia. Mãe. Ifá. De grêmio boleiro a grêmio de terreiro no bairro com nome de padre. Mesa posta por Maria do Siri, receita dos Trindades, toque final de Oliveiras. Pipa solta que vira estrela de cinco pontas. Herança dos enigmas que Olorum salpicou no céu. Vivinho. André. Macumba. A primeira, a segunda, a terceira.

Lavadeira, Galo Velho, Miquimba. Instrumentos calados. Mergulho no abismo. Paradinha. Para o renascer cadenciado no tempo certo. Cuidado feminino no chocalho de platinela, ronco da cuíca de Quirino, mão preta que vibra o couro em sintonia com o peito. A caixa. A síncope. A raiz. Flecha certeira que conduz de volta ao começo e gira a roda da existência. Pioneira. Guilherme, Coronel Tamarindo, Vintém. Avenida. Brasil, do carnaval, do sonho. Ponto Chic. Faro em movimento. Trem partindo da estação. Caçada batuqueira que desce até o Centro. Para a glória e vitória do axé. “Tupi, cacique, poder geral”. Bira, Jorjão, Coé. Dudu.

Tesouro, aglomeração e abraço sem medo de toda uma gente.

Odé é coisa nossa. Não existe mais quente.

Oxóssi é a bateria da Mocidade Independente.

Okè arò, okè.

Enredo dedicado aos ritmistas de ontem, de hoje e de sempre que compõem a alma de nossa escola…


Carnavalesco e criação: Fábio Ricardo
Sinopse e ideia original: Fábio Fabato
Pesquisa e defesa de enredo: André Luis Junior


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Por Bernardo Pilotto


Foi num dia ‪10 de novembro‬ que a turma que batia bola no Independente Futebol Clube resolveu formalizar a fundação da G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel. Eles já se reuniam há alguns anos e das rodas de samba após os jogos de futebol já havia nascido o bloco “Mocidade do Independente”, em 1953. Dois anos depois, fruto do crescimento do bloco e da rivalidade com outras agremiações da região, os boleiros batuqueiros resolveram fundar a escola. ‬

Nesses 65 anos de história, a Mocidade Independente se tornou umas das grandes e das mais conhecidas escolas do carnaval carioca, sendo campeã em 6 ocasiões. 

Localizado na Zona Oeste da cidade, Padre Miguel sempre foi um bairro de trabalhadores, especialmente aqueles que estavam empregados na Fábrica de Tecidos Bangu. Foi nesse contexto que se formou o Bangu Atlético Clube em 1904 e a G.R.E.S. Unidos de Bangu em 1937, instituições que em muito serviram para o espírito de comunidade e pertencimento dos moradores do bairro. Na região ainda se destacam a G.R.E.S. Unidos de Padre Miguel (fundada em 1957) e a G.R.E.S. Acadêmicos de Santa Cruz (fundada em 1959). 

A Mocidade Independente começou a ganhar destaque nos anos 1970, quando se consolidou na elite do carnaval carioca e passou a contar com o patrocínio de Castor de Andrade, um de seus maiores torcedores. Em 1979 ganhou seu primeiro campeonato, com o enredo "O Descobrimento do Brasil". 

Até então, a escola era mais conhecida pela sua bateria, comandada por Mestre André. Ela foi vanguarda na elaboração de conceitos que hoje são base da maior parte das baterias, como a paradinha (que, em uma de suas versões, pode ter sido criada acidentalmente por Mestre André) e o surdo de terceira, inventado por Tião Miquimba, um ritmista da agremiação. 

Depois de ser vanguarda com a sua bateria, a verde-e-branco da Zona Oeste também ganhou destaque, de 1973 até 1987, com os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto, que inovaram cada um com sua vertente criativo, o primeiro mais ligado ao barroco e a história, já o segundo com narrativas tropicalistas e inovadoras. 

Sua ala de compositores também é responsável por grandes sambas-enredo, como "A Festa do Divino" (1974), "Mãe Menininha do Gantois" (1976), "Como era Verde meu Xingu" (1983), "Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas" (1985), "Tupinicópolis" (1987), "Sonhar não custa nada, ou quase nada" (1992) e, mais recentemente, "As mil e uma noites de uma 'Mocidade' pra lá de Marrakesh" (2017) e "Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você" (2018).

Em 2020, a escola homenageou Elza Soares, uma das mais importantes torcedoras da escola, quem defendeu seus sambas na avenida em alguns carnavais nos anos 1970. Com um desfile bastante marcante, a escola conquistou o 3º lugar. No próximo carnaval, trará o Batuque ao Caçador”, voltando a fazer um enredo da dita temática afro após mais de 40 anos. 




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Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Felipe Tinoco


Em homenagem aos 40 anos do falecimento de Mestre André, lendário comandante da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, o Carnavalize está promovendo uma série de conteúdos para ressaltar a importância de José Pereira da Silva para a história do nosso carnaval. Pretendemos retratar a sua trajetória até chegar ao posto que revolucionou, perpassando sua influência na folia enquanto desempenhava a máxima função sonora dos desfiles, até o legado que deixou para o nosso carnaval. Embarque conosco nessa jornada, e vamos aprender cada vez mais sobre esse baluarte. Você pode conferir aqui nosso vídeo no youtube também sobre o maestro. 

Entre becos e vielas, a história das origens do samba e do carnaval carioca é bem documentada. Mesmo com as informações perdidas nas palavras, carregadas pelo vento, até certo ponto somos capazes de estabelecer trajetórias mais nítidas e fundamentadas sobre como o samba se difundiu a partir da Pequena África, da região do Cais do Porto, da Saúde, e se espalhou pelo Rio de Janeiro, chegando aos pontos mais centrais da cidade, em diversos segmentos. Na maneira como esse samba se revolucionou com a turma do Estácio, como ele se influenciou com a galera do Morro da Mangueira e como ele tocou o coração dos bambas de Vila Isabel até os baluartes de Madureira...

Temos ainda, porém, lacunas a preencher nessa caminhada quase etérea do samba até chegar à Zona Oeste. Não exatamente na história dessas figuras, pois a sua comunidade faz um trabalho essencial de preservar a memória dessas peças fundamentais para a construção do samba na cidade do Rio de Janeiro. É preciso aumentar a percepção dos mecanismos que trabalharam para mover a nossa cultura ao longo dos anos para além do eixo central da cidade. Por isso é tão essencial levantar quantas vezes forem possíveis o nome de Mestre André, visto que ele faz parte desse processo tão necessário de expandir os nossos horizontes. 

Mestre André em seu retorno para a Mocidade em 1967, após desfilar por um ano na Portela. Foto – Arquivo O Dia

Pois é impossível abordar a construção da nossa cultura sem passar pela figura de Mestre André. Porque a mente de José Pereira da Silva foi tão genial em inovar, e aqui não somente dentro de suas próprias ideias, como também em conseguir dar eco à criatividade de seus ritmistas. Ele revolucionou completamente a maneira como se estrutura, como se toca e como se organiza uma bateria de escola de samba. E a relação é imediata: se não podemos falar do carnaval das escolas de samba sem a inserção providencial e indispensável das baterias, e se não podemos falar das baterias sem falar de Mestre André, não será possível falar de carnaval sem falar do Mestre dos Mestres.

Até mesmo porque o conceito de um mestre propriamente dito surgiu consigo. Foi o primeiro entre os nossos comandantes a ser amplamente chamado de mestre. E não somente pelo seu controle, influência, entrosamento e parceria para com seus ritmistas; o arrebatamento que as apresentações da Não Existe Mais Quente eram capazes de provocar não deixava espaço para que ele fosse somente um diretor. Longe de menosprezar o termo, inclusive, que é muito bem utilizado nos dias de hoje para designar aqueles que desempenham a função essencial de auxiliar os mestres em suas empreitadas.

Neste momento, no entanto, o conceito de mestre supera algumas barreiras. Talvez a principal delas seja a relação daquela figura com o público de fora da sua comunidade de origem. Possivelmente sejam devaneios de uma mente inquieta, mas diretor me parece talvez a visão de alguém que tem a liderança daquele grupo, que é capaz de comandar aqueles ritmistas em prol do seu objetivo. Mas há algo de belo, mágico e místico em considerar alguém o mestre de uma bateria; ele detém todas as qualidades e os adjetivos de um diretor, mas tem uma concepção da palavra que se relaciona com o que Mestre André fez:

“Pessoa que ensina uma arte ou ciência”


Ver a Não Existe Mais Quente passar não se tratava apenas de testemunhar uma grande apresentação de uma grande bateria. Era aprender. Era entrar numa sala quando o professor diz seu nome na chamada, responder “Presente!” com entusiasmo e se preparar para assistir uma aula do quesito bateria de escola de samba. E não há dúvida de que aprendemos a nossa lição com as aulas proporcionadas por Mestre André e seu glorioso time de instrutores com nomes como Tião Miquimba, Carlinhos Coca, Fumão, Dengo, João Branco, Djalma Nicolau e outros mais. 

Ivo Lavadeira (de boina) que era cunhado de Mestre André e um dos fundadores do time Independente Futebol Clube, que daria origem à Mocidade Independente; Mestre Djalma “Galo Velho” (de roupa listrada) um dos criadores das primeiras bossas da NEMQ; Tião Miquimba (de branco) que criou o surdo de terceira junto de Mestre André; Madureira (com os óculos pendurado na camisa) ex diretor da bateria. Todos sobre a batuta de Mestre Bereco, no FINEP Seminário Mestre André - o maestro do povo, em 2009. Foto: Fábio Fabato, acervo pessoal

Aliás, como é possível dizer que não aprendemos a lição? Se a maior parte das escolas de samba tocam o repique da maneira que tocam hoje em dia, devemos ao time de bambas comandado por Mestre André, que revolucionaram o instrumento e introduziram a levada conhecida como “tucalacatuca”, a qual se difundiu pelas demais agremiações. Tal como uma ciência, se hoje temos os mais nobres estudiosos e pesquisadores da ciência do repinique, devemos aos cientistas que promoveram experimentos e estabeleceram uma das “Leis de André”, com direito à inspiração livre das Leis de Newton. É material para um bimestre.

Falando das “Leis de André”, errôneo seria não versar acerca da grande genialidade que surgiu de sua parceria com Tião Miquimba, na invenção do surdo de terceira. Apesar da evolução na maneira como se encara e como se toca um surdo de terceira, tudo se fundamenta em cima daquela base forte e bem estruturada que veio das bandas de Padre Miguel. Fechando o ciclo das sonoridades dentro do naipe, com grave, médio e agudo, finalmente se concluiu a aproximação com a nossa ancestralidade africana no Rum, no Rumpi e no Lê. Temos aí mais um bimestre completo. 

A Não Existe Mais Quente é muito conhecida pelas suas singularidades, e talvez a maior delas seja o seu toque de caixa de guerra. Não é exagero dizer que não há nada igual, pois de fato não há. O símbolo perfeito de respeito e reverência ao orixá padroeiro da escola e da bateria, o toque das caixas da Mocidade foi criado por Mestre André seguindo o pedido de Tia Chica, mãe de santo e baiana da escola que deu as cores do pavilhão da verde e branco da Zona Oeste. Surge, então, os batuques baseados no agueré de Oxóssi. Mais um bimestre com nota 10. 

Também é necessário abordar outra singularidade da bateria da Mocidade, que mora fundo em uma das invenções do homenageado. Não é exagero dizer que a ala de chocalhos da Não Existe Mais Quente é uma das mais proeminentes do carnaval carioca. A Chocalho Cascável tem um toque único em suas subidas, que também lhe permitem identificar de longe a chegada da turma de Padre Miguel para a sua “caçada de axé, para caçar, ganhar, enfeitiçar, roubar o coração dos outros”, como bem diz Fábio Fabato, jornalista e biógrafo da Mocidade. E essa característica se relaciona intimamente com a criação dos chocalhos de platinela por Mestre André, em uma época em que era necessário contornar as problemáticas dos poucos ritmistas, com soluções para sua bateria soar mais alto e parecer que 30 componentes são 90. Que 90 são 270. É também nesse contexto que surge a criação das baquetas múltiplas de tamborim. Fechou a conta? O último bimestre acabou. 

Ao fim do nosso ano letivo fictício, é seguro afirmar que com suas aulas, André de fato ressignificou a posição do comandante da bateria para um Mestre, que ensina e cativava com suas aulas. Fugindo do clássico apito, e tendo seus comandados sob a rédea curta com sua clássica batuta, talvez Mestre André seja o grande precursor em fazer uma bateria de escola de samba parecer e se transformar numa orquestra rítmica. Um homem lendário, que a partir de seus gestos e movimentos comanda um grupo que impressiona e conquista o coração daqueles que assistem. 

Ainda, como não falarmos de conquistar os corações daqueles que tiveram o privilégio de testemunhar as apresentações de Mestre André e a Não Existe Mais Quente e não narrar a invenção das paradinhas? O que hoje está inserido no regulamento do quesito Bateria, promovendo uma competição saudável entre os agrupamentos rítmicos de todas as escolas, para encontrar a convenção que vai parar o próximo carnaval e serem recompensados por isso, mora na genialidade de José Pereira da Silva, o Mestre dos Mestres, que se eternizou para sempre como o criador desse momento que cativa e move o público de carnaval a carnaval. 

Capa do LP gravado em 1974 pela Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, sob a batuta de Mestre André. Gravação essa que dava o holofote para o grupamento rítmico da Mocidade. – Foto: Gravadora Copacabana.

São invenções, influências e revoluções encabeçadas por uma gigantesca figura da Zona Oeste, que explodiu a bolha das quatro grandes escolas de samba da época. A partir de sua bateria, inseriu quase à força a Mocidade Independente de Padre Miguel no mapa de toda a cidade, que antes sabia de cor indicar Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro. Como uma vez disse o historiador Sérgio Cabral, o que provocava era o fato de que era de fato a melhor bateria da cidade. Não à toa, por alguns anos, foi conhecida como a bateria que tem uma Escola de Samba. 

Mestre André foi um revolucionário. Quebrou estrutura atrás de estrutura. A estrutura da organização que se dava nas escolas de samba, do destaque das quatro grandes da época, a qual por muito tempo escolhia enxergar apenas do centro da cidade até Madureira. Colocou a Zona Oeste no mapa do Carnaval. Mexeu também na estrutura do comando das baterias das escolas de samba, sendo o primeiro a ser referenciado e reverenciado como mestre de bateria. Ou ainda a estrutura das próprias baterias, introduzindo junto com seus ritmistas e colegas de trabalho, “leis” do funcionamento dessas orquestras rítmicas que são seguidas até hoje. 

O fato é que as baterias não seriam as mesmas não fosse por ele. Assim... o carnaval não seria o mesmo não fosse por ele. O samba não seria o mesmo não fosse por ele. Portanto, o Brasil não seria o mesmo não fosse por ele. O primeiro dos seus.

O mestre dos mestres. 





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Texto: Eryck Quirino e João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos 

Investigar ritmos é perceber as ligações de um universo quase à parte, no qual as conversas se dão por sinais e pela batuta aguda dos apitos, os quais se manifestam a todo momento ditando o andamento do som. Assim, os símbolos visuais e auditivos das direções de bateria chamam a atenção dos ritmistas e se misturam na complexa melodia da orquestra que conduz a escola em sua caminhada. É dela a missão de ser a primeira ala a começar o desfile e a última a encontrar a linha final.

Para trilhar a nossa última viagem da série Batuques, iremos aproveitar a nossa última parada, que foi em Madureira, embarcar na estação de trem mais próxima, rumando para a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma viagem curta, na companhia dos infalíveis representantes do comércio alternativo que tomam esse meio de transporte na cidade, nos fará chegar até Padre Miguel.

Se voltarmos no tempo, encontraremos os bambas que fundaram a Mocidade Independente de Padre Miguel se congregando por intermédio do esporte da bola redonda que tanto cativa nosso país. Assim como a União da Ilha do Governador, a Mocidade também se originou por intermédio de um time de futebol local. É em meio aos batuques, que comandavam os festejos após as partidas vitoriosas do Independente Futebol Clube, sempre regadas à batida de limão, que a escola é fundada e coloca de vez a Zona Oeste no mapa do Carnaval. 

Fundada em 10 de novembro de 1955, a Mocidade Independente protagonizou diversos momentos importantíssimos para a história da festa como a conhecemos, em todos os seus aspectos. Mas, possivelmente, o mais determinante deles foi a influência que a bateria de Padre Miguel teve para a transformação das demais baterias das escolas de samba em todo o país. E, como não poderia ser diferente, são esses códigos e histórias que iremos abordar mais a fundo nesse texto, para falar da Não Existe Mais Quente.

Padre Miguel é a capital da escola de samba que bate melhor no Carnaval

Mestre André na batuta da Bateria Independente no desfile campeão de 1979. Foto: O Globo

E se o Mestre André sempre dizia, não seríamos nós a discordar dele: ninguém segura essa bateria. Realmente, é impossível falar dela sem primeiro trazer à baila essa grande figura do Carnaval carioca, tido por muitos como o “Mestre dos Mestres” - o icônico Mestre André que, na verdade, se chamava José.

José Pereira da Silva foi técnico do Independente Futebol Clube, time a partir do qual foi fundada a Mocidade, e encantou a escola desde antes de assumir o cargo pelo qual entraria para a História. Ainda no bloco Mocidade do Independente, surgido antes da escola de samba, Mestre André foi baliza para o estandarte, mas tão logo a escola foi fundada ele se tornou mestre de bateria, em 1956. 

E após se investir da função, Mestre André conduziu a bateria da Mocidade Independente para um patamar sem precedentes. Durante muito tempo da sua gestão à frente da Não Existe Mais Quente, ela era conhecida como uma bateria que tinha uma escola de samba, e não ao contrário, tamanha a marca e identidade que foram empregadas pelo mestre e seus diretores e ritmistas no Carnaval. Dessa forma, aqueles que testemunharam seu trabalho reconhecem a singularidade que foi. Zé Bolinho, que foi ritmista sob a batuta de André, diz: “Assim como os grandes craques do futebol, que deixam sua marca única, nunca mais vai existir outro Mestre André.”

Uma das criações que ocorreram sob a sua batuta na Mocidade, tomando todo o mundo do Carnaval de assalto, foi a utilização do surdo de terceira. Junto com Tião Miquimba, Mestre André implementou esse instrumento em sua bateria, criando um balanço inconfundível na bateria independente, além de ser uma ótima ferramenta para ajudar na manutenção do ritmo. A inovação deu tão certo que hoje é utilizada em todas as escolas de samba. Se as ideias de Mestre André tivessem parado por aí, já teria sido suficiente para revolucionar por completo a história do Carnaval, mas sua influência continua. 

Bateria da Mocidade Independente, com todos os ritmistas carecas, no desfile de 1976. Foto: Eurico Dantas | O Globo.

Foi também o criador do chocalho de platinela, que veio para substituir as maracas utilizadas na época. Cumprindo a mesma função, mas com uma sonoridade melhor e mais alta, também foi uma criação que se espalhou pelas escolas de samba. Assim como é de sua autoria a criação das baquetas de tamborim cortadas, feitas a partir de um pedaço de bambu cortando sua ponta em vários pedaços, de forma que o som do tamborim se multiplicava, algo que também se espalhou pelas demais escolas. Pode-se citar ainda que foi sob sua batuta que foi criada a levada de repique clássica, comumente referida como “tucalacatuca”. Mestre André foi um dos grandes responsáveis pelo fato de o instrumento ganhar notoriedade e destaque dentro da bateria. 

Como tratamos anteriormente, tanto na Série Batuques quanto na Série Padroeiros, a influência da religiosidade africana nas baterias é um fator muito marcante, em Padre Miguel não seria diferente. Tia Chica, mãe de santo e baiana da escola que deu as cores do pavilhão da escola teria indicado a Mestre André que fizesse um toque de caixas para honrar o orixá padroeiro da escola e da bateria, Oxóssi. Atendendo o pedido de Tia Chica, o músico conseguiu criar com maestria um toque em cima do agueré de Oxóssi, dando para a bateria da Mocidade uma outra característica única no Carnaval. De forma que sempre que a alviverde pisa na Avenida é possível ouvir a cadência característica, como se a bateria preparasse o cortejo para a caça, em honra do orixá que lhe rege. (Saiba mais aqui)


Essa relação do toque de caixa da bateria da Mocidade com os seus ritmistas e com toda a escola assume um papel muito interessante quando conversam com a sua comunidade, principalmente na ligação com aqueles ligados às religiões de matriz africana. Nesse sentido, Fábio Fabato, jornalista e um dos biógrafos da Mocidade Independente, diz:

“O sentido da caçada é uma questão fundamental, que a gente tem que discorrer. A gente pode imaginar que, como a bateria da Mocidade toca para Oxóssi nesse sentido de caçada, ela desce para o centro numa caçada de axé. É a alegoria perfeita do Orixá de cabeça da escola. Então, a bateria primeiramente com o Mestre André e depois seus herdeiros, sai para essa caçada de axé, para caçar, ganhar, enfeitiçar, roubar o coração dos outros a partir do nosso axé, inserindo esse grupamento pouco conhecido no coração do Rio de Janeiro. E tudo isso tem o dedo, a mão, a alma, o apito, a batuta e o chapeuzinho do Mestre André.” 

Júnior Sampaio e Serrinha Raiz demonstram a interseção entre o Agueré de Oxóssi e a batida de caixa da Mocidade - Vídeo: Batuque Digital


Outra característica única da bateria da Mocidade, também criada nos tempos de Mestre André, é a afinação “invertida” dos surdos da Estrela Guia. Funciona assim: o que ficou comumente convencionado nas baterias das agremiações é que o surdo de primeira, que toca no segundo e quarto tempo do compasso, tem uma afinação grave, enquanto que o surdo de segunda, que toca no primeiro e terceiro tempo do compasso, tem uma afinação médio-aguda ou aguda, a depender do gosto dos diretores. Já na Não Existe Mais Quente, ocorre o contrário. Os surdos de primeira tem uma afinação médio-aguda ou aguda, enquanto os surdos de segunda tem uma afinação grave. Essa característica oferece para a bateria também uma identidade única, fazendo com que seu ritmo seja tão marcante. 

Por fim, além de todas as invenções citadas anteriormente, o legado de Mestre André permanece vivo também por intermédio da criação que talvez seja a mais inovadora: as paradinhas. É difícil pensar nas baterias de hoje e imaginar que houve um tempo em que as baterias não criavam convenções inventivas e complexas para suas apresentações, mas isso começou com o Mestre dos Mestres. 

Reza a lenda que, no ano de 1959, Mestre André conduzia a bateria da Mocidade e, enquanto riscava o chão da Praça Onze, exibindo seu talento no pé, teria caído. No momento de sua queda, seus ritmistas teriam parado de bater nos instrumentos, com exceção de apenas um ritmista, que continuou tocando seu repique. Mestre André, que de bobo não tinha nada, rapidamente se levantou e chamou a bateria para voltar a tocar dentro do compasso, e daí, teria surgido a paradinha. Dessa maneira - ou não -, foi a partir da inovação de Mestre André que não só a Não Existe Mais Quente, como todo o Carnaval se revolucionou.

Ivo Lavadeira (de boina) um dos fundadores do time Independente Futebol Clube, Mestre Djalma “Galo Velho” (de roupa listrada) um dos criadores das primeiras bossas da NEMQ, Tião Miquimba (de branco) que criou o surdo de terceira junto de Mestre André, Madureira (com o óculos pendurado na camisa) ex diretor da bateria. Todos sobre a batuta de Mestre Bereco, no FINEP Seminário Mestre André - o maestro do povo, em 2009. Foto: Fábio Fabato, acervo pessoal


Uma das grandes inovações da Mocidade foi também a criação da bateria mirim, no ano de 1969. Com isso, ficou eternizado um dos maiores momentos do Carnaval, com o encontro da bateria da escola com a dos pequenos, na Avenida Presidente Vargas. Zé Bolinho, que foi ritmista da bateria mirim neste ano, conta:

”Mestre André viu a gente brincando com os instrumentos atrás da quadra quando éramos crianças e perguntou se queríamos tocar. Foi aquela festa, uma animação danada. Ele nos ensinou e ensaiou - e eu me lembro como se fosse hoje - o encontro das duas baterias na Presidente Vargas. Num certo ponto do desfile, ele parou a nossa bateria e a da escola grande começou a tocar. Me emociono só de lembrar que fiz parte desse momento histórico.”

Mestre André, com essa inovação, criava não somente um legado de preservação para a bateria, mas também oferecia àquelas crianças uma atividade, tirando-as do perigoso ócio. 

Uma grande marca da Mocidade Independente de Padre Miguel é a força familiar que mora no seio da escola. Desde os primórdios da escola, isso pode ser mapeado: foi a família Trindade que atuou na fundação e estruturação da escola recém-fundada, passando também por Maria do Siri, que emprestou o terreno para que a escola pudesse conduzir seus ensaios à época, quando a repressão aos sambistas e aos malandros era muito forte e recorrente. E, caminhando pelos laços familiares, chegamos à família Orozimbo, que teve bastante influência no crescimento da bateria da Mocidade Independente. 

Surdo da Mocidade Independente no desfile de 2018. Foto: Dhavid Normando | Riotur

Foi dos Orozimbo que saiu um dos maiores mestres da história, não só da Mocidade Independente, mas de todo o Carnaval. Mestre Jorjão se iniciou na bateria mirim criada pelo Mestre André ainda aos 6 anos de idade, mostrando que o talento e o amor pelo ritmo havia começado cedo. Galgou os degraus comuns aos ritmistas que se destacam e se tornou mestre da Não Existe Mais Quente, carregando no sangue talvez o maior DNA da bateria de Mestre André: o amor pela inovação. Mestre Jorjão era um verdadeiro revolucionário, sem medo de arriscar, mas com conhecimento pleno de cada toque, levada, afinação que queria para as baterias que comandou.

Isso ficou marcado na sua trajetória e se destaca com mais força no ano de 1997, quando na Viradouro levou para a Avenida a famosa paradinha funk, uma momento que ficou marcado para sempre na folia do país. A mistura de ritmos “alheios” ao universo do samba plantaria uma semente para que dali pra frente diversas vezes outros mestres pudessem trazer ritmos mais complexos e diferentes para a realização de algumas paradinhas. Ainda que, no âmbito pessoal, tivesse um jeito sério, Jorjão era conhecido por ter um grande coração, além do talento e liderança inegáveis, que foram laureados com os dois Estandartes de Ouro que ganhou no comando da bateria da Mocidade, além do prêmio “Mestre André” de destaque do Carnaval de 1988, digno de alguém que veio dessa frondosa árvore. 

Mestre Dudu na batuta da Não Existe Mais Quente no desfile de 201. Foto: Gabriel Monteiro | Riotur

Outra relação familiar bem marcante na história da bateria da alviverde é a árvore genealógica da família do grande Mestre Coé, que comandou a Não Existe Mais Quente de 1995 até 2004. Seu filho trilhou seus passos, tendo adentrado a bateria da Estrelinha da Mocidade com 8 anos, mostrando que a semente plantada por Mestre André, a de ter um lugar em que essa renovação fosse feita de forma orgânica, segue dando certo. O menino se apaixonou pelo repique e trilhou vários caminhos na bateria da Estrelinha da Mocidade chegando a ser o mestre da escola mirim, para depois se tornar diretor de seu próprio pai. Hoje, mestre de Bateria da Mocidade, o mestre Dudu carrega consigo a tradição do trabalho em família, tendo ao seu lado como diretor o seu irmão Henrique Arcanjo, além de também dar continuidade ao enorme legado de mestres da Mocidade, mantendo o ritmo que marcou a escola e mostrando que uma agremiação que alimenta suas raízes sempre terá frutos a colher.

E não há como falar do legado familiar da Mocidade sem trazer a história da família Quirino. Essa história teve início em 1924, com o nascimento de Quirino da Silva Lopes, que pisou forte nesse chão, com orgulho de sua negritude, ainda que lidasse com a repressão aos sambistas naquele tempo. Nadando contra a corrente que buscava apagar a história, costumes e cultura da negritude, fez de tudo para dar continuidade à sua veia artística, trabalhando em lojas de instrumentos. Com isso, foi primeiramente tocador de pandeiro. Mas foi na cuíca, instrumento que fez pela primeira vez a partir de uma lata de salsicha vazia e uma vareta de bambu, que encontrou o seu lugar, que o consagraria para sempre. 



Assim, sua história se mistura com a caminhada da Mocidade Independente, já que morou na Zona Oeste e viu de perto o crescimento da escola de samba na qual trilharia uma gigantesca caminhada, tendo orgulho de ter posto terra no terreiro da Coronel Tamarino. Iniciou sua trajetória esquentando couro para ajudar na afinação dos instrumentos, até ingressar a bateria com sua cuíca, marcando seu lugar na história. Demonstrando seu talento, viajou o mundo com Mestre André e a Mocidade, tendo inclusive um de seus solos de cuíca eternizados na gravação “Cuíca no Samba de Uma Nota Só”, de produção de Tom Jobim.

Seu legado se eternizou a partir do seu querido instrumento, que levou para as viagens pelo mundo e, em cada lugar que passava, pegava alguma das moedas locais para colocar em sua lendária cuíca, marcando não só a história do instrumento no Brasil, com um legado de conhecimento que jamais se perderá, mas criando também uma herança física. A famosa “cuíca com as moedas” acompanhou Seu Quirino até 2006, quando ele deixou de tocá-la, mas passou para as mãos de seu filho, Quirininho, que já era percussionista e assumiu o legado do pai. Em 2010, essa lendária cuíca chegou às mãos de Eryck Quirino Neto, a terceira geração dessa grande família a pisar na Sapucaí, carregando não apenas o legado histórico do instrumento, mas novamente a cuíca cheia de moedas, que marcou história não só na bateria da Mocidade, mas também em todo o Carnaval.

As três gerações da família Quirino: Mestre Quirino, Quirino Neto e Quirininho.


Com esse capítulo, encerramos hoje a Série Batuques, na qual tivemos a honra de desvendar juntos os códigos e as mensagens que algumas das tantas baterias das escolas de samba do Rio de Janeiro trazem em seus toques e batuques. Eu, João Vítor, agradeço ao Eryck pela parceria, e também pela honra de contar um pouco da história da sua família. É baseado nessas relações inquebráveis que o samba se perpetua e não morre jamais.

Salve a cuíca, salve os Quirinos, salve a Mocidade!

Se ainda não leu, confira os demais textos da Série Batuques sobre o Partido Alto (Estácio, Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel); a batida do surdo um da Estação Primeira de Mangueira e o O baticum majestoso da Portela, imperial da Serrinha e insulano.

Além da Série #Batuques, você pode conferir também a #SérieMulheres, lançada às segundas do mês de agosto. 


















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Depois de passear pelos carnavais da última década e também pelos baluartes da história das quatro matriarcas do carnaval carioca, além do Giro Ancestral dos defensores de um pavilhão, chegamos ao sincrético ápice de uma escola de samba quando o assunto é louvação – seu padroeiro. Poucos são os elementos aos quais são ofertados tanta devoção e respeito como os santos e orixás que regem e protegem uma agremiação. Por isso, lançaremos quatro textos que passearão pelas histórias desses seres divinos e por alguns pontos dessa relação litúrgica, sintetizando perfeitamente o binômio sacro-profano que é o carnaval.

Seja pela levada do ponto de chamada do orixá que influencia a batida da bateria, seja pela emoção que toma conta ao cantar o samba-exaltação à agremiação e ao padroeiro no esquenta, a série está no ar. É nossa missão sempre relembrar que existe algo muito além daquilo que circula entre o céu, a terra e o sagrado solo da quadra de uma escola de samba, ou a Marquês de Sapucaí. Vamos conhecer mais dos #Padroeiros - todas as quartas-feiras de julho, aqui no Carnavalize.

Depois de abordarmos a relação de devoção entre São Sebastião e, indiretamente, Oxóssi com a comunidade do Paraíso do Tuiuti no primeiro texto (leia aqui), prosaremos hoje sobre a influência do toque para o orixá das coisas belas na Não Existe Mais Quente. Antes de tudo, contextualizaremos como a levada dos atabaques, responsável por evocar as divindades em um terreiro, influenciou a construção identitária dessas escolas e também como essa influência foi sendo perdida ao longo dos anos. Por fim, passearemos brevemente pelo enredo da Mocidade Independente para o próximo carnaval, seja lá quando ele for. O tema apresentando pela agremiação, até então, não tem sinopse divulgada, mas versa com uma narrativa que busca retomar essa identidade tão forte em outrora, mas substancialmente asfixiada pelas mudanças que o carnaval tem sofrido.

Foto: Dhavid Normando/Riotur | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Por Vítor Melo, com colaboração de Eryck Quirino
Revisão por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A base oral, que embala a história do samba e, de certa forma, comporta-se como fonte de onde bebemos a inspiração para escrever textos como esse, é fundamental. Portanto, reza a lenda, confirmada pela prosa dos mais antigos bambas da Vila Vintém, que ninguém, nos idos que sucediam o ano de fundação da Mocidade Independente de Padre Miguel, rumava aos ensaios sem passar antes pelo terreiro de Tia Chica. A mãe de santo, líder religiosa do bairro, garantia aos ritmistas boas energias e um ótimo ensaio com seus passes sinérgicos, decretando, mesmo que involuntariamente, o aval para que os surdos de terceira (salve Tião Ziquimba), os chocalhos de platinela e a inconfundível afinação da bateria mais quente do carnaval começassem a tocar.

Nesse ponto, entra um dos principais protagonistas de nosso papo: Mestre André! O Maestro do Povo, como ficou conhecido, era filho de santo e ogã do terreiro de Tia Chica. Pra quem não é do babado, entende-se pelo responsável pela sonoridade dos atabaques durante um ritual afro-brasileiro. A Mocidade é devota de São Sebastião, cruzada como Oxóssi nas macumbas cariocas (leia aqui o texto sobre a relação entre o Paraíso do Tuiti e o santo-rei). Partindo dessa premissa e desse contexto histórico, dá-se o quê de genialidade do inventor das paradinhas. Novamente norteados pelo o que contam os baluartes da verde e branco, a construção identitária da bateria se deu pela associação dos sons dos tambores, que evocam toda a ancestralidade africana do sincretismo religioso, à sincope das escolas de samba.

Mestre André no carnaval de 1979 frente a seus ritmistas. Foto: Reprodução Facebook/Mocidade

Dessa forma, criou-se a relação entre o toque de orixá e bateria da Mocidade, que, aos poucos, foi se consolidando como uma das principais baterias do nosso carnaval. O destaque dos tambores independentes era tanto, que veículos jornalísticos da época difundiam a ideia de que a escola da Vila Vintém e de Padre Miguel era apenas uma “bateria com pessoas ao redor”, dando total protagonismo à cadência impregnada pelos ritmistas, relegando, de certa forma, todo o restante. Essa ideia, porém, foi dissipada logo em 1958, segundo desfile da agremiação, quando se sagrou campeã e provou que não era “só bateria”, mas também aquilo. A importância da batida de uma escola ligada epistemologicamente às suas raízes africanas é perfeitamente destrinchada e explicada por Luiz Antonio Simas em seu livro “O Corpo Encantado das Ruas”. “Há uma sofisticada pedagogia do tambor, feita dos silêncios das falas e da resposta do corpo, fundamentada nas maneiras de ler o mundo sugeridas pelos mitos primordiais” (2019, p. 29), segundo ele, prega-se que as escolas de samba, durante boa parte de sua trajetória, contaram a história oficial, porque nos atentamos estritamente ao espetáculo visual e à narrativa proposta pelo enredo.

Se assistíssemos aos cortejos carnavalescos com os ouvidos, veríamos que a história é outra. As baterias, detentoras da ancestralidade que as caixas de guerra possuem por exemplo, contam histórias completamente diferentes para os conhecedores dos mitos que o couro do tambor carrega. Limitar a interpretação de um enredo pelo viés puramente temático é podar a relação de pertencimento entre aquele momento de transe e o ritmista dotado da habilidade de se comunicar e entender as entrelinhas ditas pelo ritmo. Para exemplificar, voltemos à Mocidade. A alviverde se apropria do toque para o orixá das coisas belas, o agueré, para sustentar a levada do naipe de suas caixas e, por conseguinte, harmonizar os instrumentos restantes. Por tese, a batida para Oxóssi emula a ida do caçador à floresta em busca de sua presa (vídeo abaixo de Simas explicando cirurgicamente toda a simbologia envolvida no toque). Oriundo de todo esse fértil campo simbólico das religiões de vertentes africanas, sustenta-se a ideia da importância de uma aproximação de ícones das escolas que os liguem às suas raízes e sirvam como mecanismos de manutenção da preservação de identidade, ritos e fundamentos que nos encantam e engradecem esse espetáculo.




Por outro lado, não é exclusividade da Não Existe Mais Quente a batida com influência “afro”. Escolas, como Portela, Mangueira e Salgueiro também sustentam ritmos que versam com a ancestralidade de seus padroeiros e muitas outras já mantiveram, mas perderam, em certo ponto, a identificação com a origem da identidade sonora de seus criadores, ritmistas e principais baluartes. Esse acontecimento se dá principalmente pela aceleração constante das levadas impregnadas carnaval afora (o famoso “BPM”), assemelhando-se inclusive ao ritmo de frevo em alguns casos específicos. Aliado a esse fator, a volatilidade entre alguns ritmistas, diretores e mestres de bateria, que chegam a novas escolas, sem o conhecimento necessário para codificar a mensagem que os tambores daquele lugar propagam. Mudando assim totalmente a identidade do toque, contribuindo para a desconfiguração entre a relação da bateria com a própria história da comunidade e da escola.

Na contramão dessa tendência, a Estrela-Guia da Zona Oeste anunciou seu enredo para o próximo carnaval, que conforme plenária realizada na LIESA, no dia 15/06/2020, segue sem data definida por conta da pandemia do Novo Coronavírus. O tema “Batuque ao Caçador” é em alusão ao orixá da fartura e da caça, padroeiro da escola, e versará com a história de criação da identidade da bateria independente, retomando, em um espectro geral, a valorização das raízes da escola e de todas as referências que corroboram para construir a Mocidade que todos nós conhecemos hoje. O enredo e a sinopse foram idealizados e concebidos pelo totêmico Fábio Fabato, jornalista, escritor e torcedor apaixonado da Mocidade e já a parte visual ficará pela batuta do carnavalesco Fábio Ricardo. O texto base da história que a escola contará na avenida ainda não foi divulgado, mas já nos deixa bastante ansiosos para conhecê-lo somente pela premissa divulgada. Além da ansiedade, emano o sincero desejo por mais escolas que busquem retomar suas identidades, cultivem a imaginação percussiva¹ e valorizem, sobretudo, seus fundamentos, assim como a Mocidade, de Mestre André, de Sebastião Miquimba, de Toco, de Quirino da Cuíca e de tantos outros baluartes incontestáveis, faz com maestria. Okê, arô!

¹“Imaginação percussiva” é um termo utilizado por Tião Maquimba, inventor do surdo de terceira junto ao Mestre André, em diversas entrevistas. Esse conceito é a genial narrativa responsável pela criação do instrumento, que intercala batidas inesperadas no silêncio entre as síncopes características do samba.

Referências bibliográficas: artigo “Cinqüenta primaveras especiais”, de Fábio Fabato, presente no portal Academia do Samba (clique aqui para ler) e o livro “O Corpo Encantado das Ruas”, de Luiz Antonio Simas, lançado pela Civilização Brasileira em 2019

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Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. 

Depois de uma década de 1960 com enormes e profundas transformações no universo das escolas de sambas, a mudança seguiu de modo crescente durantes os anos seguintes, com transformações dignas de plost-twist de final de série estadunidense. Se o Salgueiro havia surgido como grande potência, conquistando o público crescente dos desfiles com apresentações espetaculares e inovadores, o caminho trilhado iria ser aberto para que novas agremiações ascendessem na folia. Se até então existiam quatro grandes agremiações invictas e protagonistas absolutas, o cenário começaria a mudar. 

As 4 grandes: as matriarcas da festa


A Portela sempre se afirmou como sua tradição e se consolidou com uma vitoriosa nata. A Mangueira seguia vencendo nas brechas, conquistando títulos com sua potência e força. Já o Império Serrano contou com o talento de Silas de Oliveira e seus grandes compositores para também se destacar. E, por último, o Salgueiro se juntou ao grupo através da visão de seus grandes artistas, como Nelson de Andrade, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Assim, cada uma com a sua personalidade, pode-se fazer uma analogia entre as agremiações e uma espécie de Vingadores das escolas de sambas. O time ficou conhecido como "Quatro Grandes" e se revezavam nas primeiras posições durante bons anos. Uma das raras exceções foi em 1967, quando a Vila Isabel conquistou a quarta posição e jogou para sexto lugar ninguém menos que a Portela. Anos depois, em 1972, a Imperatriz Leopoldinense também abocanhou seu quarto lugar, dessa vez tirando o Salgueiro do grupo com um complicado desfile sobre a Mangueira. Dessa forma, a década de 70 consolidaria um "trio de penetras" para invadir essa festa.

Tudo começou dentro dos conformes, com as soberanas se revezando nas primeiras décadas de 1970, sem exceção. A Portela foi a primeira, em 1970, com Lendas e Mistérios da Amazônia. Depois, o Salgueiro, com Festa do Rei Negro. Em 1972, o Império Serrano lançou Fernando Pinto e se consagrou campeão com uma homenagem a Carmem Miranda. E em 1973, a Mangueira completou o time das campeãs. E foi então que em 1974 tudo começou a mudar. Após se consagrar graças a atuação de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, a dupla deixou o Salgueiro nas mãos de seus discípulos. Em 73, Maria Augusta e Joãosinho Trinta seguiram o legado de seus mestres com um tributo a escritora e jornalista Eneida de Moraes. Mas, para o ano seguinte, Arlindo Rodrigues aceitou o convite e se transferiu para a Mocidade Independente de Padre Miguel, e Joãosinho estrearia como artista solo na Academia vermelho e branco. 

Em meio a isso, as escolas de samba se consolidavam como uma manifestação para lá de popular e comercial. Os sambas-enredos eram lançados em discos que logo se tornaram sucesso de venda, sendo regravados por grandes cantores e cantoras da época, como Elis Regina, Nara Leão e Clara Nunes. As transmissões da TV exibiam os cortejos para todo o país, enquanto as arquibancadas ficavam maiores e mais lotadas a cada ano. 

A paradinha de outros carnavais, sei que ninguém pode esquecer jamais!


A estrela da zona oeste não era escola completamente desconhecida do público, apesar de nunca ter ultrapassado da barreira da quinta posição. Graças ao talento do lendário Mestre André, a alviverde se consolidou pelas graças de sua bateria, as paradinhas, e o talento de seu corpo de ritmistas. Tal feito fez o público batizar a Mocidade de modo maldoso como "a bateria como uma escola em volta", fazendo com que a agremiação quisesse mudar essa percepção. Como investimento do bicheiro Castor de Andrade, a agremiação contratou Arlindo Rodrigues, consolidando uma espécie de profissionalização da festa.

O lendário Mestre André no desfile de 1979.

Citando a profissão, os bicheiros foram personagens controversos e fundamentais para tantas mudanças. Os contraventores buscariam a festa como espaço de afirmação social, patrocinando pequenas escolas e as transformando em potência. O folclórico Castor de Andrade se aproximou da Mocidade Independente, a família Abrãao David, de Nilópolis, e Luizinho Drummond, da Imperatriz Leopoldinense. E assim, balizados pela força e pelo talento de grandes artistas da festa, o trio formado pela Estrela Guia de Padre Miguel, a Deusa da Passarela e a Rainha de Ramos colocou o fim definitivo na soberania das quatro matriarcas da folia. 

As transformações da folia...


Em 1963, Arlindo Rodrigues definiu as bases do carnaval contemporâneo em Xica da Silva, seu formato de um desfile unificado e espetacular seria ressignificado por seu discípulo Joãosinho Trinta. O baixinho maranhense tomaria a narrativa pra si e deixaria a apresentação das agremiações ainda mais espetaculares e grandiosos. Alegorias gigantes, destaques luxuosos, materiais inovadores e narrativas oníricas marcariam o estilo inconfundível do artista. E depois de conquistar um bicampeonato no Salgueiro com desfiles arrebatadores, ele seguiu até a pouco expressiva Beija-Flor de Nilópolis. De pequena coadjuvante, a azul e branco virou protagonista da festa e não só se tornou campeã como conquistou um histórico tricampeonato. Em 1979, então, o terreno estava pronto para que outras agremiações também brilhassem.

O visual luxuoso e barroco da apresentação da Mocidade em 1979.

Se Joãosinho conquistou cinco títulos seguidos, afirmando sua exuberância criativa, Arlindo Rodrigues não ficou atrás. Na Mocidade, permaneceu atento às transformações promovidas pelo artista que lançou e seguiu a pista rumo a espetáculos cada vez mais grandiosos que eram admirados pelas enormes arquibancadas e pela transmissão da TV. O desejo de Arlindo parecia a unificação do desfile, amarrando um espetáculo com uma verdadeira ópera bem concebida. Foi assim que substitui a entrega do "risco" de produção das roupas para um protótipo da fantasia a ser reproduzida por cada ala, tentando aumentar o controle sobre as fantasias que iriam pra avenida conversassem entre si. O modelo funciona até hoje. Apostou também em materiais brilhantes, introduzindo na folia os metaloides e acetatos. 

Arlindo não se manteve obsoleto de modo algum; atento às narrativas mirabolantes de Joãosinho que conquistaram os jurados e o público, resolveu recriar um enredo que já havia feito com novos olhares. Em 1962, ele estreou sozinho no Salgueiro em "O descobrimento do Brasil", inspirado na ópera de Heitor Villa-Lobos que encenou no Municipal. Dezessete anos atrás, revistou um tema com uma influência mágica. Saindo um pouco da rigidez histórica da narrativa, misturou as navegações portuguesas com o deus Netuno, afirmando que o soberano dos mares tinha dado uma ajudinha, soprando os navios para que desembarcassem em terras portuguesas. 

Com as bençãos do divino aconteceu o Descobrimento do Brasil


A Mocidade estava mais pronta do que nunca. Já havia feito grandes carnavais aliando a potência de sua bateria e o apuro estético de seu carnavalesco. Desde "Festa do Divino" e "Mãe meninha do Gantois" havia feito desfiles lindíssimos e que ficaram no quase por uma nota de um julgado ou outro. Com esse retrospecto, pisou na Avenida em 1979 com um requinte de Arlindo visto logo na comissão de frente, que trazia belos figurinos de navegantes portugueses, seguindo à risca a representação de figurinos históricos.

A comissão de Frente da Mocidade. 

O desfile apontou primeiro no branco, apresentando um visual monocromático inovador. As fantasias usavam de materiais ricos e tinham sido feitas com muito esmero. As alegorias completavam o visual de uma narrativa bem alinhada e que dava continuidade ao que era mostrado nas alas. O verde apareceu mais ao final da apresentação, coroando um desfile com assinatura inconfundível de Arlindo Rodrigues. Mas nada parecia tão fácil. A Beija-Flor tinha feito uma boa apresentação no delirante enredo "Paraíso da Loucura" e a Portela afirmava mais do que nunca sua tradição e grandiosidade com "Incrível, fantástico e extraordinário", assinado pelo brilhante Viriato Ferreira. Quem levaria a melhor?


A apuração reservou surpresas. E o pacote completo da Mocidade Independente foi quem conquistou jurados e público, fazendo a verde e branco finalmente conquistar seu primeiro título. E nas mãos do traço barroco de Arlindo Rodrigues, a escola da Zona Oeste se tornou definitivamente uma das grandes da história da folia. A Beija-Flor conquistou o segundo lugar e a Portela o terceiro.

Apesar do título, Arlindo não permaneceu na escola e pegou um trem com destino a Ramos. Mas a história de certa Imperatriz a gente volta a contar no próximo texto... Pois dez anos depois, a verde e branco da Leopoldina brilharia em duelo que marcou não só o carnaval, mas a história da cultura e da arte brasileira.


Referências bibliográficas:
Livro "As três irmãs - como um trio de penetras arrombou a festa", de Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fábio Fabato.
Livro "Estrela que me faz sonhar: histórias da Mocidade", de Bárbara Pereira.
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