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Carnavalize

 


Por Redação Carnavalize


Pertencimento e popularidade deram o tom na homenagem que a Lins Imperial, de volta à segunda divisão do carnaval carioca, fez a um dos seus mais célebres frutos: Antônio Carlos Bernardes Gomes, ou apenas Mussum, o eterno trapalhão do Brasil. Com o enredo “Mussum pra sempris! Traga o mé que hoje com a Lins vai ter muito samba no pé”, assinado pelos carnavalescos Eduardo Gonçalves e Ray Menezes, a escola rememorou a vida do humorista, ator e sambista, criador de inconfundíveis expressões e sucessos que caíram no gosto popular.

A comissão de frente contou com a direção coreográfica de Carlos Bolacha e trouxe um volumoso elemento alegórico representando o Morro da Cachoeirinha, de onde o homenageado é originário. O corpo de dança apareceu vestido de Mussum, em tons de verde e rosa. A simpática e correta apresentação empolgou o público. Por sua vez, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação, formado por Jackson Senhorinho e Manoela Cardoso, demonstrou uma evolução em relação ao ensaio técnico. Estavam bem vestidos, apesar da disparidade entre as nuances de verde nas fantasias dos dois. No geral, se apresentaram sem maiores problemas. Cabe destacar, porém, que a porta-bandeira deu algumas ajeitadas no mastro denunciando certas escorregadas. Por fim, o mestre-sala se mostrou especialmente elegante.

Simpática Comissão de Frente da Lins (Foto: Thomas Reis)

Apostando em um enredo leve e popular, a escola fez um desfile bastante claro, com ótima leitura. As fantasias refletiram tal proposta, materializada em figurinos leves, que permitiram a brincadeira dos componentes. A cromática, marcada pelo abuso do verde e do rosa, em contraste forte, casou perfeitamente com o tom descontraído do desfile e com o homenageado. As alegorias eram, em grande medida, bem solucionadas, apesar de apresentarem alguns problemas de formas. O último carro, porém, passou abaixo dos demais, em termos de acabamento.

Detalhes de tripé da escola (Foto: Vítor Melo)

A bateria do Mestre Átila teve alguns problemas durante o cortejo, como uma pequena atravessada, sendo que o samba-enredo também não ajudou. O rendimento foi um pouco abaixo do esperado e a obra musical não animou tanto o desfile. Isso culminou em uma harmonia irregular, que deixou a desejar.

O calcanhar de Aquiles da Lins foi mesmo a evolução, que ficou bastante comprometida. Além de correr para cumprir o tempo regulamentar, a escola abriu diversos buracos na Marquês de Sapucaí. 

Considerando os altos e baixos do desfile, a Lins não deve brigar por muita coisa e figurar na segunda metade da classificação. 



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Texto-mestre, ou sinopsis

Dizem que, quando o menino, preto retinto, nasceu com cara de quem tem fome aqui no Morro da Cachoeirinha, veio um anjo atrapalhado, desses que vivem se escorregando pelo caminho, desengonçado, que disse: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! E o garoto foi. Desajeitado, mas foi. Entre cambalhotas, tropeços e acertos, mas foi. Tudo para ele virava espetáculo. Tanto que ele não era apenas um. Carlinhos era vários!

E o garoto, muito travesso, debandou com tantas pernas por aí, sempre a se aventurar. Não parava num canto. Escorregava daqui. Escorregava dali. Escorregava acolá. Era difícil de segurar Carlinhos! Preto sabido, driblou a miséria, cortou na mão as dificuldades que a vida lhe impusera. De verdade, meu cumpadi, não tinha tempo ruim para ele! Até porque sabia tirar proveito de tudo para viver, por alguns instantes, em céu de brigadeiro! Eita, menino arteiro!

Um dia, o mé, que bota a gente comovido como o diabo gosta, fez Carlinhos sair perambulando pelo subúrbio carioca. E no meio do caminho do garoto tinha um bloco. Tinha um bloco no meio do caminho do garoto. Era o União da Guanabara, com tanta gente com cara de fome que nem ele, improvisando no visual e na percussão. Foi ali, rapaziada, que o guri da Cachoeirinha viu no samba uma possibilidade de ser estrela na vida. Carlinhos, daí em diante, nunca mais se esqueceria deste dia. Nunquinha! Porque descobriu ser pé de valsa, cortejando feito mestre-sala. Porque descobriu que também era mestre-sala na arte da música de se reinventar, levando jeito para tocar, de forma incomum, um velho reco-reco cavado num gomo de bambu. 

É, o moleque era atrevido! Tão atrevido que não demorou pra como Carlinhos do reco-reco ficar conhecido! Que ironia, né?! Ganhou o apelido de um instrumento que, em suas mãos, virava ouro, deixando de ser considerado da ralé! E logo não tardou para ele mesmo fazer seu reco-reco, com metais, parafusos e mais o que se tinha por perto. Mas a protagonista da parada era a mola. Ela, igualzinha a ele, ora! Que encolhe, estica, parada não fica, balança, mas não cai! Ui, ui, ui, papai!

Carlinhos, nessa bagaça, embarcou no bonde do samba e conheceu, pelas bandas de uma tal Praça, o Clube dos Baianos, onde deixou de ser um simples frequentador para começar a virar um artista que tira o seu ganhapão tocando. A admiração pelo talento de Carlinhos era tanta que fez com que ele ali mesmo fosse parar num tal de Modernos do Samba, que depois virou Originais. Neste grupo, meu cumpadi, só tinham os de fé, os geniais!

E o sucesso foi chegando, no sapatinho, como: contando sobre a nêga Tereza, que deixou de pista um malandro, indo dar uma sambadinha lá no morro com outro fulano; tirando sarro da cuíca da vizinha Maria, que adorava um sururu na esquina com o Peru; e entregando que, de tanto glup glup pra lá, glup glup pra cá, acabou acontecendo uma Tragédia no Fundo do Mar!

Enfim, o rapaz, danado que só, destaque no grupo, foi ganhando mansamente os palcos da vida e do mundo, mundo, vasto mundo.

Carlinhos, como um bom batedor de pernas que era, também foi dar um rolé em Mangueira, pelas vielas da favela! Ele era gente da gente! Gostava de dar perdido principalmente nas biroscas que tinham no Buraco Quente! Onde vista assim do alto mais parece um céu no chão, pisou miudinhosobre folhas secas e até foi parar no quintal de Dona Neuma! Lá, aprendeu que madeira de dá em doido é jequitibá! A partir de então, do Morro de Mangueira, não queria mais arredar o pé, não!

O moleque, rapaziada, acabou ainda se apaixonando por uma tal de Primeira Estação! Carlinhos dizia que era um sentimento tão grande que nem cabe explicação! Daí, varava as noites na Cerâmica, fazendo amizade com tantos bambas consagrados. E também não perdia a oportunidade de mostrar na quadra da Velha Manga que entendia do riscado! E escola de samba ensina… Ah, como ensina! Deixou na memória de Carlinhos marcado o Mundo Encantado de Monteiro Lobato e toda poesia e verdade do Reino das Palavras de Carlos Drummond de Andrade! Como dizem, torcer para a Mangueira é o a-a-a-ço! Imagina só: Quanto orgulho o rapaz não tinha de ter participado dos desfiles a esses escritores que deram à Estação Primeira campeonatos?!

Ah, e sabe quando, mesmo sem querer querendo, você vira de uma família membro e até apelido acaba tendo? Foi justamente isso que aconteceu com Carlinhos! Ele ficou todo prosa, pois agora era filho da Manga Rosa! E embalado pelo som dos tamborins e o rufar do tambor que cortavam a manhã, percebeu que era Mangueira, sim! Pra hoje, pra sempre e até pra Amanhã!

E pernas pernas pernas. Nas suas andanças, Carlinhos foi até parar nas telas. De um jeito atabalhoado, sempre com a cara assustada e os olhos esbugalhados, caiu nas graças do povo! E ele era realmente muito engraçado! Todos queriam vê-lo de novo e de novo e de novo! Mas ora, ora, quem diria! O rapaz que para ator achava que não levava jeito nenhum, ganhou de Grande Otelo até o apelido de Muçum - peixe escorregadio, difícil de pegar, que se adapta em qualquer lugar! E se não bastasse de aventuras isso tudo, com seus ezis e izis, foi parar na Escolinha do Professor Raimundo!

É! Mussum era mesmo palhaço, um insociável, que, mesmo abduzido ao Planalto dos Macacos, adorava fazer graça, levando toda gente a morrer de rir, perder o ar de tanto dar gargalhadas!

É, meus cumpadis, Não tinha jeito, não! O circo tava montado! Nas voltas que o mundo dá, Mussum foi virar um global Trapalhão! E nas poltronas,de casa, dos cinemas, ou de qualquer outra apresentação, o palhaço era aclamado, a grande estrela, a atração!

Mas quis a vida pregar uma peça no menino que vivia pregando peça nos outros. Carlinhos foi se empirulitar. Só que seu sorriso continuou passeando por aí! Tá em todo lugar! Dando esperança a tantas crianças! Estampando lembranças! Atravessando o tempo para de novo uma pindureta armar! Reivindicando o direito de que ser pretis não é absurdo!

Reinventando a arte num mundo caduco!

E segue, meus cumpadis, com seus bordões eternizados, perambulando por aí, o que um anjo atrapalhado disse ao garoto daqui do Morro da Cachoeirinha: Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! Vai, Carlinhos! Ser estrela na vida! 

É, Carlinhos é mesmo uma estrela, sim! Pra sempris em nossos coraçõezis... E fim!


Carnavalescos:Eduardo Minucci e Raí Menezes.
Texto, pesquisa e desenvolvimento: Mateus Pranto e Raphael Homem


Inserções feitas no texto com trechos de “Poema de sete faces” e “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade; de “Sei lá, Mangueira”, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho; de “Jequitibá”, de José Ramos e Marcelino Ramos; “O meu guri”, de Chico Buarque de Hollanda. 


Obra consultada

BARRETO, Juliano. Mussum forévis – samba, mé e Trapalhões. Disponível

em: <https:/ sambrasil.net/wp-content/uploads/2018/06/Mussumfor%C3%A9vis-Juliano-Barreto.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2020.

 



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Por Bernardo Pilotto:


Depois de muitos anos de disputa acirrada entre as escolas Filhos do Deserto e Flor do Lins, dos vizinhos Morro da Cachoeira Grande e da Cachoeirinha, em 07 de março de 1963 a paz se firmou, a união prevaleceu e foi fundada a Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial.

Nos seus primeiros anos, a escola adotou a linha de enredos que prevalecia na época, com conteúdos históricos clássicos. Mas, nos anos 1970, a escola inovou e passou a ter enredos com temas literários, como “Bahia de Jorge Amado” (1973) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1975). Foi dessa forma que a agremiação chegou à elite do carnaval carioca pela primeira vez, ao vencer o Grupo 2 no já citado carnaval de 1975.

Desfile da Lins Imperial no grupo especial sobre Madame Satã, em 1990.

Depois de novamente desfilar nos grupos de acesso, a Lins Imperial voltou ao Grupo Especial somente em 1990, para suas duas últimas participações (em 1990 e 1991) no desfile entre as maiores do carnaval. Apesar de dois bons enredos (“Madame Satã” e “Chico Mendes, O Arauto da Natureza”), a escola não sustentou a permanência na elite.

A partir daí, a agremiação alternou desfiles entre as divisões inferiores do carnaval, chegando a ir parar na 5ª divisão (Série D) em 2014. O sonho de voltar para a Sapucaí (local em que passam os Grupo Especial e Série A) parecia cada mais inatingível. Dessa forma que se iniciou um processo de reconstrução da escola: foi vice-campeã em 2014 e subiu para o Grupo C, novamente vice-campeã em 2017, subindo para o Grupo B, até que agora, em 2020 foi campeã, ganhando o direito de estar na Série A em 2021.


Ao longo de todos esses anos, a Lins fez muitos enredos homenageando personalidades do samba, da cultura e do carnaval, como “Glauber Presente” (1983), “Tenda dos Milagres” (1987), “"Primavera, é tempo de saudade, tributo a Zinco e Caxambu" (1988), "As quatro damas negras: Ruth de Souza - Léa Garcia - Xica Xavier - Zezé Motta" (1999) e "Segura a Marimba! Aroldo Melodia vem aí" (2003). No processo recente de reconstrução da escola, essa característica foi marcante, nos enredos "O Monarco do samba" (2017), “Zicartola” (2018), “Malandro é malandro, Bezerra é da Silva” (2019) e “Pinah, a Soberana” (2020).

Desfile Lins Imperial 2019. Foto: Nícolas Barbosa/SRzd

Para 2021, a expectativa é que a escola siga sua reconstrução, fortalecendo os laços com sua história e sua comunidade, para que a agremiação não tenha mais momentos tristes como os vistos anos atrás.
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