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Carnavalize




A mente brilhante de Raul Seixas já projetava os dias atuais. Sua música hoje é fonte de inspiração para o nosso carnaval. Apesar de todas as adversidades, estamos aqui! Prontos para encarar todo e qualquer desafio! Prontos para fazer mais um grande carnaval! Viva o recomeço! Viva o carnaval 2021 da Dragões !

Renato Remondini – Presidente Tomate

Texto- Inspiração do Carnaval 2021 – “O dia que a Terra parou”

O vai e vem da metrópole silenciou. Os semáforos já não faziam mais sentido. A orquestra de freios e buzinas já não estava mais ali. As cidades, sempre céleres, pararam. A rua esvaziou. Foi de súbito. Não foi combinado. Naquele dia, a Terra parou.

Pela primeira vez, em muito tempo, foi possível ouvir o barulho ensurdecedor do silêncio. O sopro do vento percorrendo os arranha-céus. Sem o intenso deslocamento, era possível ver cores antes escondidas pela pressa do dia a dia. 

Sem ônibus lotados, sem carros amontoados pelas pistas: só a paz se impunha. O céu começou a revelar seu azul mais límpido, suave e brilhante. Da selva de pedra alucinante, brota a natureza valente. Ela sempre esteve ali: rompendo as frestas do asfalto, se esgueirando entre os canteiros. Agora é a sua vez. Ela ressurge nos ensinando que estamos ocupando a sua casa, e não o contrário. Ela nos ensina uma forte lição de resiliência e perseverança. A frieza do concreto se curva então à generosidade e ao acalanto do bosque, retomando seu lugar passo a passo: nas ruas e em nossos corações.

Ao olhar as arvores florescendo pelas janelas de nossos castelos de ferro e vidro, é possível perceber a força de suas raízes. É preciso, então, fortalecer as nossas próprias. Com as mãos, alcanço um antigo livro na prateleira da sala. A poeira do tempo revela que a rotina louca da civilização não nos permite o sabor da viagem que um livro pode nos proporcionar. A leitura é a grande oportunidade da vida de revirar as memórias impressas pelos grandes mestres e colher seus ensinamentos. A educação ganha uma nova dimensão e relevância. Cada capa de livro guarda dentro de si um universo infinito de possibilidades.  O conhecimento partilhado por cada obra nos permite conhecer novos mundos. Ao caminhar por essas estradas imaginadas por cada autor, acabamos conhecendo um pouco mais de nós mesmos. E para isso acontecer, foi preciso a Terra parar: só assim nos permitimos olhar para dentro de nossas almas e viver novas vidas através das linhas deixadas por eles. 

Nessa viagem de autoconhecimento, temos a chance de nos percebermos melhor. Sentir a alma e o corpo. 

Reconhecer a nossa natureza interna, seja ela física ou mental. A calma vista pela janela começa a inundar nossas vidas. A fé ecoa em meio aos corações. A busca pela espiritualidade nos conecta à essência do que significa ser humano. A mãe Terra ensina todos os dias a importância de buscarmos mais qualidade, de darmos o tempo certo ao nosso corpo e de buscarmos a saúde permanente, num estilo de vida novo. 

E diante desta pausa, a mente se sente livre para perceber o mundo de forma mais sensível. O coração se torna leve e finalmente temos o tempo certo para reconhecer a arte de viver. É ela – a arte – que enche de brilho a alma. Quando o ponteiro do relógio parou, tivemos então a oportunidade de nos emocionarmos com as melodias. Só assim conseguimos ouvir os acordes do violino, chorar diante da força de um monólogo; perceber as cores da tela. É através da contemplação da arte que alimentamos a esperança de um futuro mais harmônico. 

E a harmonia aprendida com os mestres da arte nos leva a mais importante lição: não há paz de verdade se ela é restrita. Não há felicidade plena, se ela não é plenamente dividida com nossos iguais. O mundo parou, mas o amor não pode parar. É preciso fazer chegar esse bom sentimento a todos aqueles que precisam dessa chama em seus corações. Foi preciso silenciar o ronco dos motores para que pudéssemos perceber que tem alguém que mora na esquina da sua vida, na frieza de uma calçada. É preciso espalhar as boas lições aprendidas com esse momento. Mas não bastam os bons sentimentos. 

A vida ensina que todo esse aprendizado só tem valor se ele se transforma em atitude concreta. O grande ensinamento é a solidariedade. Nós aceleramos o mundo: com isso, tornamos ele muito desigual para aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo frenético da nossa época, pois só nós podemos estender a mão para erguer todos aqueles que precisam. 
No dia em que a Terra parou, nós pudemos respirar fundo. Aprendemos lições profundas. Fazer diferente daqui para frente, é com a gente mesmo.
No dia em que a Terra parou, o mundo, então, se tornou um lugar de gente feliz. 

Jorge Luiz Silveira
Carnavalesco
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Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos está dominando o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!





Felizmente, a cada década, o carnaval se renova e novos profissionais chegam a folia trazendo novos estilos e formas de construir a linguagem dos desfiles das escolas de samba. Nos últimos anos, diversos artistas talentosos ascenderam a função de carnavalesco, com ideias novas e transformadoras para a nossa festa. Seja em enredo, alegoria ou fantasias, alguns nomes se destacaram não só com bons resultados, mas ao desenhar um estilo com o frescor necessário a uma festa que urge por inovação e renovação. 

Para essa lista, reunimos nomes que surgiram nos últimos oito anos nas folias brasileiras e se destacaram de diversas formas, alguns até títulos já ganharam apesar da pouca experiência. Seja primeiro como desenhistas e figurinistas, todos chegaram ao posto de artista principal e se destacaram e então vem saber mais sobre eles com a gente.


João Vitor Araújo




João Vitor é um nome de peso e de muita representatividade na nossa folia, por ser um dos poucos carnavalescos negros em destaque atualmente. João esbanja talento, bom gosto e ótimos resultados na carreira. Metido na festa momesca desde cedo, ele começou atuando como aderecista em diversos barracões, confeccionando também figurinos de luxo em ateliês do ramo. Foi assistente do carnavalesco Max Lopes até conseguir a primeira chance solo, em 2014, quando assinou na Viradouro o enredo "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar", que cantou a Cidade Sorriso, Niterói, passando por suas ligações com o Rio de Janeiro. Já demonstrando bom gosto e maturidade artística, o apuro estético aliado a força da comunidade da escola deu o título do carnaval daquele ano.

Desfile da Viradouro em 2013 (Foto: Extra)
A escola voltou ao Grupo Especial em 2015, ainda sob comando de João, com o enredo "Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça", uma demonstração da importância da negritude na formação do povo brasileiro. Apesar do digno desfile que a Sapucaí aguardava, a escola se viu prejudicada pela chuva que a castigou durante sua passagem. A vermelho e branco do Barreto homenageou curandeiros, malandros, amas de leite – representada em uma linda alegoria em tons de verde – e cantou a junção de dois belos sambas de Luiz Carlos da Vila, um dos maiores compositores de todos os tempos. Debaixo de tanta água, as fantasias e alegorias não tiveram os efeitos esperados, além de um dos carros ter entrado na Avenida com uma escultura danificada, o que acabou resultando na volta da escola à Série A.

Rocinha em 2017.

Em 2016, João atuou como assistente de Paulo Barros na Portela, e em 2017 retornou à atuação direta. Na Rocinha assinou uma bela homenagem a Viriato Ferreira, com o enredo "No Saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira". João viajou pelas passagem de Viriato em três escolas principais, Portela, Beija-Flor e Imperatriz, num desfile que azul, prateado e verde não faltaram na paleta de cores. A evolução da escola com relação ao carnaval anterior foi discrepante e a apresentação arrancou aplausos e a simpatia do público. Não só destes, mas também dos jurados, que reagiram positivamente e entregaram à Rocinha o sexto lugar da classificação geral da Série A.



Em 2018, talvez um dos casamentos mais coerentes do carnaval tenha sido celebrado: a convite da Unidos de Padre Miguel, que vem de grandiosos desfiles, João Vitor assumiu o enredo "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Paritintin". A escola, desde o pré-carnaval, foi uma das mais aguardadas e era considerada rival direta da Viradouro em um verdadeiro duelo de titãs. A apresentação começou grandiosa, e o luxo se fez presente nas alegorias e fantasias produzidas por João, além do excelente desenvolvimento cromático da apresentação. O abre-alas, em tons de dourado, e com muita água, impactou a Avenida e fez os componentes verdadeiramente embarcarem no enredo. Boquiaberto, o público aclamou o desfile, que terminou com um merecido vice-campeonato. Em 2019, João comanda uma homenagem a Dias Gomes, com o enredo "Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência".


Leandro Vieira




Leandro é desses que chegam quietos e arrebatam. Não a toa é um dos grandes carnavalescos da atualidade, mesmo tendo apenas quatro carnavais em sua carreira, como ele mesmo, com ares modestos, faz questão de lembrar. Formado em Belas Artes, trabalhou mais de dez anos como desenhista de outros profissionais, como Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo, entre outros. Em 2015, Leandro assumiu pela primeira vez o posto de carnavalesco oficial em uma escola de samba. A Caprichosos de Pilares, à época na Série A, ganhou do artista o enredo "Na minha mão é + barato", que contava a história dos mercados brasileiros desde a colônia até os presentes dias. A mistura de crítica com humor deu o tom ao desfile da escola, que construiu assim sua identidade com auge nos anos 80 e nos carnavais de Luis Fernando Reis.



O colorido e a beleza de fantasias e alegorias não permitiam a quem assistia imaginar que o "jeitinho" foi peça-chave para o desfile da escola: saber inventar sem gastar muito foi e continua sendo um dos maiores artifícios do jovem carnavalesco. Além dos ambulantes, do vendedor de mate das areias cariocas e dos comerciantes do famoso Saara, Leandro não deixou de lado o comércio interno das próprias escolas de samba, que o trecho do refrão principal do samba fez questão de indagar: "quem dá mais no mestre-sala / quanto vale a tradição?". No fim das contas, a escola terminou com um positivo sétimo lugar e uma lembrança feliz do ótimo trabalho que o carnavalesco fez. Os bons frutos do carnaval vieram na virada de temporada: a Mangueira, uma das mais tradicionais da elite carioca, buscara o jovem artista para assinar o seu desfile em 2016. E assim foi feito.


Em seu primeiro ano como carnavalesco da elite da folia, o segundo de sua carreira até então, batizou de "Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oyá" o enredo que homenageou uma das maiores cantoras do Brasil, que outrora já havia desfilado pela escola quando junto aos companheiros de Doces Bárbaros pintou e bordou na Sapucaí, em 1994. Tudo se desenhou de forma muito bonita: apesar de novato, Leandro entendeu bem a identidade da escola e, ao encerrar os desfiles de 2016, emocionou toda a Avenida. Squel, a porta-bandeira da escola, fez-se na Avenida uma iaô belíssima e apareceu careca junto ao antigo parceiro de dança, Raphael Rodrigues. Daí pra frente foi só emoção: toda a simbologia de elementos importantes da vida pessoal, religiosa e artística de Bethânia esteve retratada no desfile através de diversas referências artísticas. Com tudo isso, é claro, que a verde-e-rosa explodiu com o público na pista e nas arquibancadas. No fim das contas, o feito inédito do "estreante" foi confirmado na quarta de cinzas: Leandro e a Mangueira eram campeões.



Em 2017, "Só com a ajuda do santo" tratou da forma como o povo lida com a religiosidade, de suas diversas formas, seja no catolicismo, na crendice popular, no candomblé e na umbanda ou mesmo de modo a misturar em um só credo todas essas possibilidades. Embalado pela expectativa de um bicampeonato, Leandro mostrou-se calmo e confiante em seu trabalho durante todo o tempo. No dia do desfile, com mais um samba que ajudou a manter o componente e as arquibancadas acesas, a Mangueira passou belíssima. E em cada alegoria e fantasia vinha o reconhecimento de uma crença, mas foi o Cristo-Oxalá, a representação do sincretismo, uma das imagens mais bonitas e significativas do carnaval daquele ano e da história de Leandro, da Mangueira e das escolas. São Jorge e Santo Antônio, imagens de tanta devoção, não foram esquecido e as baianas, que traziam nas saias sacos de Cosme e Damião, foram gratas surpresas também. Além disso, o segundo casal da Mangueira, formado por Débora e Renan, simbolizou o encontro por um pescador da imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma das indumentárias mais bonitas e simbólicas do desfile. Apesar de tanto bom gosto, a escola abriu um buraco de quase 100 metros quando o carro que trazia a cantora Alcione empacou na Avenida, o que gerou perdas em evolução. Mesmo assim, o quarto lugar, posição final da escola, foi positivo e há até que considere que deixou gosto de um bicampeonato moral. 



Em 2018, numa onda crítica ao prefeito e à imposição de uma agenda neopentecostal, do corte de verbas para as escolas de samba sombreado por um discurso demagogo e com o pedido de deixar a rua livre pro povo passar, a Mangueira contou o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". A escola pediu passagem para que a rua, casa do povo e palco da nossa principal festa, fosse livre para (re)viver toda a subversão e brincadeira que o carnaval propõe. Logo na comissão de frente, a mesa do bar se transformava em grades de uma cadeia e trazia claramente um painel que formava a frase: "deixa nosso povo passar". Daí pra frente foi só dedo na ferida, do jeito inteligente e debochado que Leandro gosta e sabe fazer: muito bumbum de fora, a rememoração do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos, o dia de malhar judas (e Crivella), os pierrôs que em tantos festejos já sofreram pelas colombinas e o bloco dos sujos no final. O conjunto alegórico era totalmente diferente do que já passou, mesmo em desfiles anteriores do carnavalesco, mas trazia claramente sua assinatura. As fantasias traziam tons pastéis em muito verde e rosa, que também já virou característica do carnavalesco, além dos costeiros em acetato. O resultado final colocou a escola em quinto lugar. Para 2019, ainda à frente da escola, Leandro Vieira assina o enredo "História para ninar gente grande", uma viagem pelo "lado B" de personagens e da história do Brasil.

Jorge Silveira




Lá de Niterói vem mais um nome que ganhou destaque nos últimos anos. Jorge Silveira, indo para o seu segundo carnaval pela elite carioca, já trabalhou com nomes como Max Lopes e Jaime Cezário antes de passar a assinar sozinho seus desfiles. Foi em São Paulo, pela Dragões da Real, que conquistou espaço de prestígio entre os grandes artistas da festa da terra da garoa. Na tricolor desde 2015, conquistou um expressivo vice-campeonato no ano de 2017, com o enredo "Dragões canta Asa Branca", uma homenagem à inesquecível e emocionante música de Luiz Gonzaga. As alegorias, ponto marcante da assinatura de Jorge, chamaram a atenção pela beleza e movimentos coreográficos. Os carros do pau-de-arara e o do mandacaru foram pontos altos da apresentação, ricos em detalhes e um ótimo meio de se comunicar com as arquibancadas, muito embalada pela emoção e catarse para com a lida de um povo que, em busca de dias melhores, se despede de seu chão para que um dia retorne em condições melhores. 


No Rio, não foi diferente: em seu primeiro ano solo, pela Unidos do Viradouro, em 2017 na Série A, Jorge desenvolveu o enredo "E todo menino é um rei...". Com uma temática leve, a proposta da escola niteroiense era brincar e levar à Sapucaí a emoção dos nostálgicos tempos de criança. Jorge, conhecido pelo traço cartoonesco de seus desenhos, deitou e rolou com sua criatividade. O colorido tomou conta da Avenida e não demorou muito para o público se render à escola, a começar pela alegoria do 'menino Rei', personagem central do enredo, que trazia enormes piões que giravam, a coroa e o nome da Viradouro, além de Dominguinhos do Estácio, que por anos defendeu a escola.  Os carros do Batman e dos doces foram outros dois que chamaram a atenção do público. Nas fantasias, de clara leitura, veio a lembrança das brincadeiras e dos personagens inesquecíveis que marcaram a infância de muitas gerações, como o Super Mario Bros e as brincadeiras de boneca e de bola.


Foi na virada para o carnaval de 2018, porém, que Jorge viu o sonho alcançar degraus ainda mais altos: o convite para estrear oficialmente pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro veio da São Clemente. Na preto e amarelo da Zona Sul, Jorge teve a felicidade, enquanto egresso da Escola de Belas Artes da UFRJ, de homenagear os 200 anos da instituição que o formou como uma grande galeria a céu aberto, enredo que já havia sido apresentado – e consagrado campeão – no Carnaval Virtual, laboratório importante na carreira do artista.



Em "Academicamente Popular", foi impossível negar que a São Clemente apresentou alegorias diferentes dos últimos carnavais da escola, que cresceram em tamanho, o grandioso abre-alas, todo em branco e detalhes dourados, chamou a atenção e a alegoria do modernismo, com serpentes pretas, a xilogravura de Goeldi e os balanços e pipas de Portinari no centro, foi a que mais surpreendeu o público. As fantasias, por sua vez, formaram o conjunto mais bonito da escola nos últimos anos, com cores bonitas e muito bem acabadas. No fim das contas, a São Clemente acabou prejudicada em alguns quesitos, como Comissão de Frente, e outros que surpreenderam negativamente na abertura dos envelopes, como Fantasias, terminando em 11º lugar, escapando por um triz da zona de rebaixamento, que acabou descartada por uma virada de mesa em reunião da Liesa. 

Para o carnaval 2019, Jorge assume o projeto que resgata o grito crítico da São Clemente, marca indissociável da escola, e reeditará "E o Samba Sambou", um dos carnavais mais conhecidos da escola e o que rendeu a ela a melhor colocação de sua história. Com a sinopse em mãos, já aguardamos ansiosos toda a ousadia, coragem e irreverência que ele pode nos presentear!


Márcio Gonçalves e Sidnei França 



A dupla chegou oficialmente a Mocidade Alegre em 2009 para fazer parte da comissão de carnaval da escola junto de Fabio Lima e Flavio Campello, e de cara já conquistou o título do carnaval daquele ano. No ano seguinte, a comissão manteve o ótimo desempenho, dessa vez sem a presença de Flavio Campello, e conquistou o vice-campeonato. 

Em 2011, viria o desafio de assinar o primeiro carnaval como dupla na escola. Com o enredo “Carrossel das Ilusões” a dupla conquistou o 7º lugar; apesar do ótimo desfile, a classificação ficou prejudicada em função da quebra de um carro que nem chegou a entrar no Anhembi. Em 2012 viria a redenção: a dupla seria responsável por um dos desfiles mais marcantes da história do Carnaval de São Paulo na última década. “Ojuobá - No Céu, os Olhos do Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, Um Obá Muito Amado!" foi o enredo que deu o primeiro título a dupla, um desfile técnica e plasticamente impecável, marca da escola, que presenteou o público com um cortejo inesquecível, fruto de um enredo magnífico.



A dupla deu a escola um tricampeonato com os títulos consecutivos de 2012 a 2014, marcando assim seu nome na história da Morada do Samba e do Carnaval de São Paulo. Os dois seguiram juntos na escola até 2015, quando conquistaram o vice-campeonato no ano em que homenagearam a grande atriz Marilia Pera. Márcio Gonçalves seguiu para a Dragões da Real em 2016, onde ficou até o Carnaval de 2018, conquistando bons resultados na tricolor. No ano de 2019 estará de volta à comissão de carnaval da Morada, trazendo o enredo "Ayakamaé: as águas sagradas do sol e da lua".


No ano de 2016, Sidnei França começou a voar sozinho na própria Mocidade Alegre, seguindo para a Vila Maria em 2017, escola na qual o carnavalesco assinou uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, e vai para o seu segundo ano como o carnavalesco dos Gaviões da Fiel, tendo como enredo a reedição de "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente". Os dois são verdadeiramente grandes nomes que surgiram nos últimos anos no Carnaval de São Paulo e se firmaram como dois ótimos prospectos da nova geração de artistas da folia paulistana. 

Leonardo Bora e Gabriel Haddad




Finalizando com uma dupla que tem conquistados a todos: Leonardo Bora e Gabriel Haddad formam uma parceria pra lá de talentosa que estreou em 2018 na Sapucaí. Antes disso, passaram pela Intendente Magalhães, sendo campeões duas vezes consecutivas em uma comissão de carnaval na Mocidade Unida do Santa Marta, em 2012 e  2013. Atuantes no Carnaval Virtual, assinaram desfiles solo em várias agremiações cibernéticas. Trabalharam também como assistentes de outros profissionais da folia, como Alexandre Louzada e Eduardo Gonçalves.


Saídos da comissão do Santa Marta, montaram a dupla em 2015 para assinar o carnaval da Acadêmicos do Sossego, naquela ano na Série B da folia carioca. No ano seguinte, conduziriam a escola de Niterói à Sapucaí com uma homenagem a Manoel de Barros, em belo desfile para o grupo.
Mas foi no último carnaval que a dupla despontou, assumindo a função de carnavalescos da Acadêmicos do Cubango. Para 2018, a dupla preparou o enredo "O Rei que Bordou o Mundo", uma homenagem à vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, figura importante da arte contemporânea, que oscilava entre a lucidez e o delírio da loucura.


O desfile teve início na bússola-mandala do Bispo na comissão de frente e a primeira alegoria já trouxe uma das peças mais conhecidas de Arthur, passando pela sua peregrinação, a vida no manicômio, até a sua origem quilombola, onde um manto rodava solitário no alto da alegoria, como se ele, abençoando a apresentação, estivesse – e estava! – presente. As cores passaram pelo vermelho, o tradicional verde e branco e também pelo creme, em fantasias de clara leitura e beleza plástica. Sem muitas discussões, a Cubango fez uma das melhores apresentações das duas noites, quiçá dos dois grupos, e a aura bela do desfile revelou não só a grandiosidade do homenageado, mas, também, o talento dos jovens meninos. Em 2019, Gabriel e Leonardo seguem no comando do carnaval da escola e levarão público o enredo "Igbá Cubango - a alma das coisas e a arte dos milagres".




Nossa missão enquanto apreciadores do carnaval é sempre resgatar a folia de antigamente e reverenciar novos nomes que estão a surgir no imaginário carnavalesco. Que o futuro da festa seja brilhante, com esses e tantos outros nomes despontando e engrandecendo ainda mais nossa festa.

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"E o Samba Sambou."
Por Jorge Silveira

*Reedição do carnaval desenvolvido por Carlinhos D'Andrade, Roberto Costa e César Azevedo em 1990, com samba composto por Chocolate, Helinho 107, Mais Velho e Nino.

No jogo do amor e do samba não tem regras: ou se tem, depende. Cartas na mesa, mesa virada. E o amor ao samba? Ah, camarada... Tudo tem seu preço e seu apreço. Quem tem padrinho não morre pagão! O brado retumbante de 90 ecoou com tanta força que se fez profecia: E o Samba Sambou...
​
Da mesma forma que disse em 90, não sou dono da verdade. Também cometi meus pecados. A mesa virada tem lá minha digital. Assumida. Mas peixe pequeno frita mais rápido que peixe graúdo. Tá dado meu recado. Porém, jocoso que sou, faço piada de mim mesmo. Aliás, tenho isso correndo nas veias: meu DNA foi construído apontando o dedo enriste e sambando na cara da sociedade. Meu histórico me credencia. Basta olhar meu manancial.

Esse de 90 tem um molho especial. Nunca antes na história dessa república se fez tão necessário reviver esse discurso. O planeta samba virou de ponta cabeça, inverteu a ordem, subverteu a lógica. Infelizmente, tudo que foi dito, de fato aconteceu (quiçá piorou!). E não tem jeito, tá na minha raiz primeira. No meio desse turbilhão, eu não podia faltar ao enfrentamento. Já que o recado não foi ouvido da outra vez, vamos novamente ser “fieis” à nossa conduta e largar o chumbo grosso!

Luz, câmera, negociação: tá no ar mais um espetáculo na tela. É fantástico! O sambista dá lugar a vedete da internet, que usa o GRES para ser manchete. Uma aparelhagem tecnológica digna de cinema ganha mais importância que o gingado generoso da mulata. Não tem jeito: virou Hollywood isso aqui. Mil artistas de verdade, que riscam o chão com sua herança, tem menos espaço na lente da câmera que atriz/apresentadora/promoter. Que sacanagem...

Já começa errado quando a autoridade não reconhece que no carnaval quem manda é Momo! Não entregar a chave a Sua Majestade é um pecado mortal pros súditos da folia. Na pista, ganha o interesse: nossos símbolos culturais são substituídos pelo estrangeirismo barato. E como tem gringo no samba! Camarada, você não imagina o poder de uma credencial: é tanto aspone na avenida que parece que tem duas escolas desfilando ao mesmo tempo. No ritmo do samba moderno, uma correria contra o relógio; um verdadeiro “coopersamba”! E o povão...? É, esse ficou de fora da jogada. Nem lugar na arquibancada ele tem mais pra ficar. A grana entope os camarotes de sertanejo, música eletrônica e de todo tipo de som, menos o próprio dono da festa: o samba. Que mico minha gente... Olha o que o dinheiro faz!
​
E por falar na grana, hoje a rainha paga pra sambar. Um verdadeiro dote de privilégios. Cadê as meninas da comunidade riscando o asfalto? Tudo tem seu preço e seu apreço camarada... elas fazem tudo para aparecer na tela da TV, no meio desse povo! E a mídia “toda poderosa” controla tudo a seu bel prazer. Até mesmo a opinião pode ser comprada! Como não? Até o samba é dirigido com sabor comercial. Tem que ser registrado, carimbado, protocolado no escritório: uma verdadeira exportadora de “bois-com-abóbora”.

E o samba vai se vendendo às vaidades, sendo usado como plataforma pra fulano, beltrano e quem mais quiser seus 15 minutos de fama. Que covardia... Carnavalescos e destaques vaidosos transformam a Sapucaí num verdadeiro ringue aos seus insaciáveis egos. E o samba vai perdendo a tradição...

Mas eu sempre avisei. Eu sempre falei. E você sabe disso: o boi voou e denunciou a roubalheira, a galhofa, a bandalheira. Era profecia de uma chacota nacional. Eu, pequenino, quase rodei esse ano, triste feito um cão sem dono. Mas como “quem casa quer casa”, tô apaixonado pelo lugar que conquistei. “Não adianta jogar água malandragem”, “eu mato a saúva antes dela me matar”.

Temos que cuidar do samba. Segurar essa mesa no lugar. Caso contrário, nem povão na arquibancada vamos ter mais pra nos aguardar, afinal “Quem avisa amigo é”.

Temos que segurar firme essa onda. Pelo amor que temos ao samba, vamos preservar esse “antigo reduto de bambas”, para que as gerações futuras possam ainda curtir o verdadeiro samba."


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por Beatriz Freire e Leonardo Antan





A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Começamos com um jovem talento que fará sua estreia como carnavalesco no Grupo Especial carioca. Jorge Silveira tem uma longa carreira nos bastidores, tendo trabalhado para diversos profissionais dos carnavais carioca e paulista. Não poupamos perguntas para descobrir ao máximo como funciona um barracão e o trabalho do carnavalesco. Uma verdadeira aula pra quem sonha em seguir carreira na folia. Então, vem ver! 


QUANDO TUDO COMEÇOU


CARNAVALIZE: Para começar, falemos sobre seu pai, que era carnavalesco em Niterói. Sem dúvidas, ele foi uma figura muito importante para você. Como foi crescer em meio ao carnaval e como isso formou seu imaginário da festa e suas referências? Como é tê-lo como um espelho depois de se tornar carnavalesco?

JORGE: "Foi uma experiência maravilhosa. Poderia ter sido traumatizante, mas foi maravilhosa; poderia ter sido traumatizante porque na geração que meu pai foi carnavalesco não existia o reconhecimento, o profissionalismo que existe hoje. A grande vantagem é que entendi a ótica do carnaval pelo “fazer”, pela ótica do operário, de que para que tudo funcione você precisa de muitas pessoas. Ele me passou a lógica de que ninguém faz nada sozinho e de que o barracão é o verdadeiro espelho disso tudo. Ele foi a principal referencia para que eu tivesse essa percepção do quanto é importante o fator humano na construção de um carnaval."

CARNAVALIZE: Sobre a questão de estar no barracão, vimos que você tem muitas tarefas e o tempo todo precisa se deslocar dentro do espaço para resolver qualquer situação que venha a surgir. Como é essa rotina e como ela influi no seu processo de criação?

JORGE: "O barracão é uma extensão do processo de criação porque eu vivencio cada pedaço de cada etapa do processo inteiro, então preciso estar muito próximo das pessoas para dizer a elas qual é melhor forma. Não é que falte confiança nos profissionais, muito pelo contrário, mas, sim, para tirar o melhor deles para que o resultado final fique o mais próximo do projeto.

Jorge desenhando no barracão da São Clemente.

Normalmente, eu crio tudo com a maior antecedência possível; todo o meu processo de criação é pautado na antecipação de problemas (risos), eu tento pensar como equacionar os problemas ao máximo para que eles não se tornem abacaxis quando chegarem nas mãos dos profissionais. Detalho o projeto todo e, ainda assim, permaneço ao lado deles todo o tempo, na função de um tradutor do que foi planejado para que eles entendam exatamente qual é o objetivo."


CARNAVALIZE: Falando sobre a clareza de entendimento da realização do projeto, observa-se nos desenhos e muita gente diz que suas fantasias são muito "executáveis". Seus desenhos não são apenas abstrações que ficam lindas no papel mas que são impossíveis de executar; como foi esse processo de aprendizagem para compreender que nem tudo que é colocado no papel pode ser feito?

JORGE: "Como eu trabalhei com muitos profissionais, muitas vezes eu fui o responsável por traduzir as abstrações dos desenhos deles e resolvê-los, precisava traduzir aquilo. Quando parto para meu processo criativo, já não passo mais pela elucubração, pelo devaneio, opto imediatamente pela solução prática. A lógica é muito próxima do que é realizável, tanto em questão de alegoria quanto de fantasia; tento me aproximar muito do que é concreto, tento fazer o desenho o mais descritivo possível para que os profissionais entendam. E se eles não entendem, tento auxiliar na compreensão, faço maquetes. Acho que isso vem da minha experiência dando aula, porque fui professor por mais de dez anos antes de trabalhar com carnaval; assim, sempre precisei utilizar recursos didáticos para que a minha ideia se faça o mais clara possível."

CARNAVALIZE: Você foi aluno da Escola de Belas Artes da UFRJ. O seu ingresso neste curso de graduação já foi planejado com a finalidade de trabalhar com o carnaval ou foi uma chance de buscar embasamento e bagagem para dar vida aos seus talentos artísticos? A possibilidade de trabalhar com a festa foi uma meta traçada ou uma algo que surgiu ao longo de sua trajetória?

JORGE: "Bom, eu sempre sonhei em trabalhar com o carnaval. Não sabia que eu chegaria efetivamente a função de carnavalesco, eu sempre queria produzir para o espetáculo porque via meu pai fazendo. Quando eu entrei na Escola, sabia que ela me impulsionaria em conhecimento para isso. Mas, num primeiro momento, eu queria aproveitar o máximo possível da EBA e depois me tornar professor de Artes, que foi o que eu acabei me formando. Eu trabalhei dando aula por mais de dez anos, alguns outros anos depois conciliei este trabalho com o carnaval e hoje me dedico só a este. O ato inicial que me moveu à EBA não foi necessariamente pensar focado para o carnaval, mas para me qualificar como artista, qualquer que fosse o caminho que a vida me levasse."

Gravação no barracão da Viradouro, onde Jorge estreou como carnavalesco solo. 


ENSINANDO E APRENDENDO



CARNAVALIZE: Você falou um pouco sobre sua trajetória com outros profissionais, passou muito tempo trabalhando nos bastidores e fez até carnavais inteiros sozinho. Como foi esse processo e a experiência de negociação com outras pessoas, além de muitas vezes terem assumido a autoria de trabalhos que foram seus? Como isso te ensinou e reflete no seu modo de trabalhar atualmente? 

JORGE: "No meu caso, em particular, tive a oportunidade de experimentar muitos formatos diferentes de lógica de trabalho para cada um dos profissionais que eu trabalhei. Algumas experiências foram enriquecedoras ao extremo e me fizeram absorver esses aspectos positivos; os aspectos negativos também me fizeram aprender. É claro que não é legal quando a gente vê que muitas vezes alguém se apropria de determinado detalhe, mas é fundamental que haja uma relação clara de respeito entre o carnavalesco e sua equipe. Então, quando um carnavalesco estabelece o vínculo de que todos os integrantes da equipe trabalham pelo bem comum de uma ideia e assina essa ideia, ele dirige o conceito; qualquer ideia que alguém tenha naquele bojo criativo pertence ao norte que o carnavalesco determinou - o grande papel dele é fazer a direção. 

Eu tenho essa opção do processo criativo solo pelas experiências anteriores que tive. Eu sempre fui quem resolvia os problemas para os outros, então, na minha experiência, eu quero exercer a tentativa de me propor o desafio de eu mesmo resolvê-los. Acho que tudo que vivenciei nessas escolas com participações presenciais, não-presenciais, desenhando alegorias e fantasias, tudo isso isso contribuiu para o entendimento que tenho hoje."

Jorge Silveira integrou a comissão de carnaval da Dragões da Real entre 2015 e 2017.

CARNAVALIZE: Você disse que seu processo criativo não é solo, mas que não trabalha sozinho, que tudo depende de um trabalho conjunto e sabemos que conta com a ajuda do Ricardo, seu assistente. Como você vê o trabalho do carnavalesco hoje e a "descentralização" desse poder, apesar da palavra final ser a do carnavalesco? Ainda acha que são muito solitários em seus processos de desenvolvimento dos desfiles? 


JORGE: "Cada artista tem seu processo criativo e sua forma de conceber. O Ricardo é fundamental nesse processo todo porque ele me auxilia numa dinâmica da criação. Ele colhe as referências que eu o peço para colher, me alimenta com novas postagens, referências e imagens para que eu possa alimentar a máquina da criação. Ele é uma extensão importante disso e é a primeira vez que ele está participando desse processo em si comigo, e é a primeira vez, também, que eu tenho alguém junto; eu era o "alguém de alguém". Mas mesmo tendo alguém, sou muito coeso e muito direto no que eu quero, porque como trabalho muito fundamentado na ideia de um projeto calçado e detalhado, com cada passo que vai acontecer na Avenida. Por mais que eu tente transpassar para o Ricardo ou para qualquer outra pessoa da escola, a coesão das ideias, no momento, só está funcionando “full time” aqui dentro. Em muitas oportunidades, a gente bate de frente, porque ele bate o pé firme por algumas coisas e eu preciso dar a martelada final e ele precisa entender. "Pera aí. Calma. Eu sei o que estou fazendo" (risos). Eu estou enxergando lá na frente."

CARNAVALIZE: Você falou que o Ricardo busca suas referências e você usa muito da cultura pop, elementos da cultura de massa, dos quadrinhos e etc. Nesse ano, também observamos a pegada da arte dita "erudita", mais institucionalizada. Como você vê o carnaval enquanto o espaço de mistura desses lugares? Fala muito sobre o enredo de 2018, mas também fala sobre o que você fez na Viradouro no carnaval passado, certo? 

JORGE: "Eu acho que cada proposta de enredo tem um discurso implícito, tem algo que precisa ser dito. Naquele ano da Viradouro, especificamente, por mais que eu tenha muito desse universo pop na minha formação, a ideia de fazer um enredo infantil não foi minha. O presidente pediu, ele queria que fosse um enredo de temática infantil e eu só dei a cara, criei o conceito do Menino Rei acreditando que deveria ser uma criança contemporânea; eu busquei isso porque achei que traria fácil identificação.

Jorge com o assistente e parceiro Ricardo Hessez, com quem divide o processo criativo.

Para o carnaval de 2018, já é algo diferente. Eu adentrei, entre muitas aspas, o Grupo Especial – as pessoas agora me veem nele, apesar de já ter trabalhado em diversas escolas –, então preciso dar ao público do carnaval e a mim mesmo uma cara de maior maturidade. Esse enredo vem para poder mostrar que o Jorge não faz só coisa de criança. No mesmo ano em que fiz um enredo sobre elementos infantis, fiz um carnaval sobre os 70 anos da música Asa Branca, de Luiz Gonzaga, em São Paulo, que não tem absolutamente nada de infantil. É um enredo sério, com pegada emocional, tinha uma outra roupagem, uma outra textura. 

Para reafirmar essa seriedade no Grupo Especial do Rio de Janeiro, vou fazer um enredo com uma característica um pouco mais séria porque acredito que vai ser importante, não só para minha carreira individual, mas para a São Clemente. Eu acredito que o enredo precisa falar ao sentimento da escola em consonância com o sentimento que o carnaval pede no momento, buscando sempre falar de coisas relevantes. Assim como falei de criança porque achava que era importante pro espírito da Viradouro se renovar – e se renovou, o toque erudito que se mescla com o popular desse ano tem como objetivo caminhar do legado que a Professora Rosa deixou para a São Clemente, construindo uma ponte, para chegar ao resgate da escola à sua vertente mais popular. Assim, no ano seguinte, já darei uma outra cara."

"TALENTO É REPERTÓRIO"



CARNAVALIZE: Seu estilo de desenho é muito próprio e cheio de personalidade. Como você chegou a ele?

JORGE: "É engraçado porque essa pergunta sobre estilo foi a pergunta que eu mais ouvi em quinze anos dando aula para a molecada. Os alunos sempre me perguntam: "Jorge, como eu crio um estilo?", muitos me procuravam para desenhar quadrinhos, mangá, qualquer coisa relativa ao assunto; eu sempre disse a eles: "estilo tem a ver com bagagem e personalidade". Você precisa liquidificar todas as referências que você teve ao longo da sua vida e aquilo vai derivar no que você chama de estilo. 

Eu sou nada mais que o somatório de todas as coisas que eu vi, talvez o meu desenho, que muita gente diz que tem característica de história em quadrinhos, seja apenas a cristalização de tudo que eu li na vida. Eu li muita literatura, mas muita coisa eu via de quadrinho e consumi muito fortemente esse universo pop. Isso tá impresso na minha visualidade, então eu sempre me expresso, em desenho, como um reflexo dessas referências que eu tive; eu sempre curti quadrinho americano, francês, italiano, japonês, cinema… eu sempre gostei das linguagens visuais e da fácil leitura de imagem e isso se reflete no desenho."


Projeto de alegoria para o desfile da Vila Isabel de 2015.

CARNAVALIZE: Seu traço é "acusado" de ser muito cartoonesco e há essa ideia de que o traço precisa ser erudito e outra que está ainda muito em voga que é a de que ser carnavalesco é sinônimo da aptidão para o desenho, quando, na verdade, o carnavalesco é milhões de outras coisas ao mesmo tempo. Para você, que outras qualidades um bom carnavalesco precisa ter? 


JORGE: "O fator fundamental que um carnavalesco tem que ter é saber lidar com pessoas. Não tem nada mais importante no barracão do que você saber lidar com elas. Se você não souber dialogar com os profissionais, você não vai ter êxito, porque a maneira como você se relaciona com as pessoas coloca os setenta funcionários que tenho a meu favor ou contra mim, me ajudando ou sabotando o meu trabalho. 

Então, lidar com as pessoas é a maior qualidade que um carnavalesco pode ter a meu ver, isso não é uma opinião geral da classe. Acho que isso é o mais importante porque consegue extrair o melhor de um trabalho em conjunto, eles passam a confiar em você. Eu cheguei a São Clemente há nove meses, numa escola que há mais de cinquenta anos era comandada por um mesmo profissional e no meio desse processo o diretor, que era o Sr. Ricardo, faleceu e eu tive que tomar a dianteira dos processos junto ao barracão. Se eu não soubesse me relacionar com os profissionais, eu não teria conseguido erguer o carnaval porque elas não teriam se aberto para fazer o carnaval."

CARNAVALIZE: As alegorias são um processo muito marcante do seu carnaval e da sua construção de identidade como carnavalesco. É uma coisa que dá para perceber que você gosta de fazer e talvez até afirmar que seja sua parte favorita. Como elas traçam a linha do seu processo criativo?

JORGE: "É a minha parte favorita, a que eu mais me divirto fazendo. Todo carnaval que eu começo, a primeira coisa que eu faço é esboçar as alegorias, antes de escrever ideias, antes de catar referências, antes de qualquer coisa, a primeira coisa que brota na minha cabeça é o palco, o cenário onde acontece a brincadeira. Eu começo esboçando a alegoria livremente, tentando extrair um volume que me pareça interessante e que tenha fácil leitura, que é algo que eu me preocupo muito, para mim isso é muito importante. Eu não gosto de usar volumes geométricos que preenchem espaços de forma abstrata e que nada dizem no contexto; eu gosto muitas vezes até de usar o vazio e preencher com um elemento que narre ao invés de fazer um monte de bolos ou volumes que nada acrescentam. Nem sempre o tamanho é o que narra uma boa alegoria, mas, sim, na maior parte das vezes, um bom conceito o faz. Eu gosto muito de alegorias que sejam dinâmicas, que tenham interatividade, adoro o luxo que todo mundo adora, adoro o carnaval, adoro um bom acabamento, adoro bons materiais, mas eu gosto muito mais de ver que a alegoria causou uma reação diferente no público. Eu gosto de me propor o desafio de buscar coisas novas, com soluções novas para as ideias.

Projeto de alegoria sobre o arquiteto espanhol Gaudí.


OUTROS CARNAVAIS


CARNAVALIZE: Como foi a sua experiência no carnaval virtual, como ela enriqueceu a sua elaboração do processo criativo e como você chegou até lá? Recomendaria para jovens iniciantes?

JORGE: "Um amigo me convidou para conhecer esse universo do qual eu nunca tinha ouvido falar, fiz um desfile e ganhei. Me apaixonei pela ideia e passei a usar isso como um portfólio, um espaço de experimentação. É uma plataforma que eu recomendo para a garotada que quer se experimentar fazendo carnaval, quer testar os seus conhecimentos, quer colocar à prova porque já é uma avaliação que você se propõe a fazer; você tem que raciocinar o desenvolvimento de uma escola de forma muito semelhante ao desenvolvimento de uma escola real, com a diferença de que você não concretiza o projeto. Recomendo, é um exercício muito bacana."

CARNAVALIZE: Apesar de você ser do niteroiense, do Rio de Janeiro, sua consolidação aconteceu em São Paulo. Foi lá que você se viu pela primeira vez como um carnavalesco de verdade?

JORGE: "Foi, São Paulo foi o lugar que me deu esse reconhecimento através da Dragões da Real, que foi a primeira escola que me permitiu assinar um carnaval e reconheceu que eu tinha potencial para isso. Eu aprendi muito lá, o carnaval de São Paulo é um carnaval que é muito aberto a inovação e experimentação, então, para qualquer cabeça que esteja querendo se testar, São Paulo é um cenário pronto. Para mim, foi uma grande experiência porque pude me experimentar em várias possibilidades, me testar a fazer coisas maiores que as que eu já tinha feito, com projetos de maior envergadura, maior orçamento, com logística mais ampliada, que me moldou muito para eu chegar ao profissional que tento ser hoje. Tem semelhanças, tem diferenças, mas o amor ao samba é igual, não muda nada; as pessoas são tão apaixonadas pelo carnaval quanto são em Uruguaiana, em Vitória ou qualquer lugar do Brasil.

Jorge e os colegas que participaram da Comissão de Carnaval da Dragões

CARNAVALIZE: O trabalho com uma Comissão de Carnaval, a exemplo da sua experiência na Dragões da Real, é muito diferente de comandar um carnaval sozinho?

JORGE: "É bastante diferente, dá mais dor de cabeça (risos), isso porque você precisa discutir mais até chegar numa ideia. Lá funcionava melhor porque no formato que a gente tinha as funções eram claramente definidas: eu era o artista de criação, um era o que executava alegorias, outro cuidava de outra parte… obviamente, tudo surgia de um ponto inicial que era uma conversa coletiva, mas na hora do papel era eu e o papel, então ali eu resolvia e já encaminhava tudo pronto com as soluções para que as coisas fossem construídas. Dá mais dor de cabeça, mas tem a vantagem de você conseguir dividir o processo de criação, diferente do que eu faço hoje."

CARNAVALIZE: Agora pediremos para você traçar uma linha do tempo que levará até última pergunta. Você disse que ao ingressar na EBA sabia que seria uma experiência que enriqueceria seu conhecimento, independentemente do que caminho que vida te fizesse seguir, mas que também sabia que um dia gostaria de produzir para a festa, como bem falou, mesmo pelo exemplo que tinha do seu pai. Há um momento claro na sua mente em que você tenha sentido os olhos brilharem e marejarem, na época de assistente, de repente, e pensando que era aquilo que você realmente gostaria de fazer?

JORGE: "Eu lembro do dia em que isso aconteceu de fato. A ficha caiu definitivamente na minha cabeça no dia em que eu vi pela primeira vez, pessoalmente, na pista da Sapucaí, um carro alegórico que eu havia desenhado fazendo a curva e entrando. Quando eu observei, pela primeira vez, o colosso com luz, gente, a arquibancada dançando, eu pensei que todas aquelas reações haviam sido impulsionadas pelo meu ato inicial, eu falei: "nasci para isso". Foi o desfile de 2012 da Cubango, eu fiz os desenho para o Jaime Cezário e o enredo era o Barão de Mauá. Foi um ano marcante para mim, porque como o Acesso desfila primeiro, quando vi o abre-alas entrando foi emocionante, foi a concretude da ideia.



CARNAVALIZE: Vamos congelar o tempo. O que o Jorge Silveira, carnavalesco da São Clemente, a menos de dois meses da estreia pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro, diria para o Jorge, de 2012, emocionado ao ver sua ideia concretizada pela primeira vez na Sapucaí, pela Cubango?

JORGE: "Nossa… foi a pergunta mais difícil que já me fizeram. Eu vou dizer para ele que ele seja forte porque essa opção vai testá-lo ao máximo em todos os aspectos da vida; ele vai ser cobrado, contestado e experimentado como nunca antes, mas que não desista porque ele vai realizar o maior sonho da vida dele se não desistir."



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