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Carnavalize

 


Texto por Beatriz Freire e Juliana Yamamoto
Revisão de Luise Campos


A série “Giro Ancestral” está na sua segunda temporada, na qual toda segunda-feira do mês de novembro mergulhamos no universo dos nossos mestres-salas e porta-bandeiras, compreendendo sobre a magia que envolve sua arte. Iniciamos conhecendo algumas porta-bandeiras e mestre-salas históricos do Carnaval carioca e paulistano e, no texto passado, esmiuçamos sobre um instrumento de trabalho essencial para as damas: o mastro, responsável por deixar o pavilhão a uma altura que possa ser visualizado por todos e desfraldado com garbo e elegância. Agora, iremos desvendar os caminhos que levam um casal a alcançar a tão sonhada nota máxima na apuração. 

Todos os primeiros casais de mestre-sala e porta-bandeira almejam a nota 10 para, assim, ajudar suas respectivas agremiações. O trabalho para atingir essa nota é longo e inicia-se logo após o término de um Carnaval. Muito além de realizar os movimentos obrigatórios e cumprir sua função de apresentar o pavilhão da escola que defende, a dupla necessita se preparar fisicamente e psicologicamente para o grande dia. Ao longo dos últimos anos, essa arte vem se profissionalizando cada vez mais, tornando-se mais competitiva, exigente e se firmando como um quesito crucial, contribuindo diretamente para a disputa do título ou pela briga contra o rebaixamento. 

Como já abordamos na primeira temporada da série, os casais precisam realizar movimentos “padrões” durante suas apresentações, que vão desde apresentar o pavilhão até executar giros no sentido horário e anti-horário. Para realizá-los com perfeição durante o desfile, é necessário preparo físico e muita resistência, já que, além da coreografia, os dançarinos utilizam fantasias pesadas e podem sofrer com contratempos como o vento e a chuva. Em razão disso, muitos casais possuem seus preparadores, que trabalham o  condicionamento físico para que consigam executar seu bailado com o mesmo vigor a contar do momento que pisam na faixa amarela do início do desfile até chegarem à dispersão. Tanto o mestre-sala como a porta-bandeira são atletas, pois as apresentações são de alto nível de intensidade, há muito peso sob o corpo devido à indumentária e ainda carregam uma grande responsabilidade, assim como os atletas profissionais de vários esportes. 

 
Daniel e Taciana em preparação para o Carnaval. Na foto, o princípio da especificidade, que se baseia nas características específicas de cada atividade. Para que um exercício seja realmente específico, ele deve ser o mais semelhante possível àquela ação que se pretende melhorar. (Foto: Arquivo Pessoal - Bruno Germano)


Um dos preparadores físicos mais conhecidos do Carnaval é Bruno Germano, que cuida de vários casais cariocas do Grupo Especial e da Série A. Em 2020, o profissional trabalhou com os primeiros casais de Acadêmicos do Salgueiro (Sidclei e Marcella), Grande Rio (Daniel e Taciana), Unidos de Padre Miguel (Vinicius e  Jéssica) e Viradouro (apenas a Rute). Para Bruno, essa preparação é crucial para um bom desempenho na Avenida e, consequentemente, alcançar um bom resultado. O personal trainer, ao analisar os pontos que precisam ser melhorados, cria um repertório de treinos e exercícios específicos para cada dupla. A preparação inicia-se em outubro e é trabalhada a resistência, a agilidade e a coordenação motora, além do treino dos movimentos que fazem parte da coreografia oficial (princípio da especificidade). Todos os casais que o profissional ajudou diretamente no último Carnaval alcançaram a nota máxima, evidenciando assim seu papel e importância para os dançarinos. Em uma entrevista realizada para o Carnavalize, Bruno Germano enfatiza: “Eu ainda sonho em ver um casal envolvido em todos os aspectos que envolvem um atleta. Fisioterapia, nutricionistas pra cuidar dessa parte de alimentação e psicologia do esporte, porque ajuda trabalhar com a pressão e a responsabilidade. Sonho com uma equipe multidisciplinar envolvida com um mestre-sala e uma porta-bandeira, porque eles têm a responsabilidade como um atleta, têm peso de atleta e intensidade física de atleta. Então eles têm que se cercar de tudo que cerca um atleta, em todas as áreas de atuação [...]”

Jeff Gomes, primeiro mestre-sala da Mocidade Unida da Mooca em treino e preparação física para o Carnaval 2020. (Foto: Arquivo Pessoal - Jeff Gomes)

Em São Paulo, também está cada vez mais comum o trabalho de preparação física envolvendo casais. Dany Romani, que é personal trainer e musa da Mocidade Alegre, além de se preparar para sua apresentação para o carnaval de 2020, ajudou dois grandes nomes do quesito: Jefferson Gomes, primeiro mestre-sala da Mocidade Unida da Mooca, e Adriana Gomes, primeira porta-bandeira da Mancha Verde. Em um trabalho intenso e de poucos meses, Dany montou um repertório voltado para potencializar o desempenho e resistência dos artistas no desfile e prevenir lesões. Com o suporte da profissional, os dois conseguiram a nota máxima pelas suas escolas paulistanas. 

Essa preparação foi crucial para o sucesso de Jeff Gomes, já que o mesmo fez uma “dobradinha” no Carnaval ao desfilar na sexta-feira na Série A pela Vigário Geral no Rio e domingo pela Mocidade Unida da Mooca em São Paulo. O mestre-sala explicou a importância da preparação física de um casal para o desfile: “O trabalho de preparação física em alto nível para desfile leva o corpo de dança para uma outra realidade enquanto executor de movimentos em alta performance. Por que usar essas palavras para falar sobre um estilo de dança tão instintivo? Foi-se o tempo em que nós, casais, tínhamos que nos preocupar somente com a travessia da Avenida executando um bailado que agradece os olhares dos jurados. Hoje temos diversas regras de execução de movimento que devemos seguir como a cartilha (literalmente) manda e com o ritmo de bateria acelerado se comparado com décadas passadas. A execução dos movimentos da maneira como é pedida tem que ocorrer em sua perfeição, exigindo muito mais do físico para sustentar os movimentos do que qualquer outra coisa, já que ensaios de coreografias e apresentações são realizados quase que exaustivamente. Esse tipo de preparação específica, que visa a fortalecer o corpo na sua totalidade, mas também busca ter um cuidado a mais com aquilo que você vai executar de movimento na Avenida, faz toda a diferença. Eu tive meu contato com esse tipo de preparação no Rio de Janeiro com o preparador físico Bruno Germano, que junto com a Marcella Alves desenvolveu essa metodologia, que atinge diretamente as áreas que são mais exigidas do seu corpo durante o desfile. Após esse contato, vim para São Paulo, onde junto com a Dany Romani, também profissional da área, montamos um preparo voltado para as necessidades do meu corpo e também das características do desfile de São Paulo, que é diferente do Rio de Janeiro: aqui precisamos muito mais de resistência e lá precisamos de explosão de força. Tive que me preparar para os dois e, sem a preparação, eu com certeza não teria feito dois desfiles com a qualidade física que consegui. Para que as pessoas nos vejam como profissionais, temos que agregar novas formas de trabalho para extrair o máximo do nosso corpo e isso ficar visível na nossa dança.”

Para além do condicionamento físico, outro fator muito importante para a busca pela nota 10 é a criação da coreografia. O entendimento da coreografia por parte dos preparadores físicos e a integração deles com os coreógrafos é fundamental para o sucesso completo em seus trabalhos. 

Por falar neles, muito tem a agregar o trabalho dos famosos coreógrafos que hoje marcam presença quase unânime no quesito. Também chamados de diretores coreográficos, eles e elas são ex-mestre-salas e porta-bandeiras ou profissionais do mundo da dança, todos dispostos a somar ao trabalho desenvolvido pelo casal nos ensaios que conduzem ao grande dia. Antes de apresentá-los, é importante ressaltar que a missão do coreógrafo jamais será ensinar o riscado ao mestre-sala ou o giro à porta-bandeira do jeito que lhe convém, já que sempre há a preocupação em respeitar as particularidades e a identidade corporal e de movimentos de cada um dos integrantes de um casal. Assim, seu papel será, tomando alguns exemplos, auxiliá-los no uso do espaço físico, desenhos coreográficos (círculos, diagonais etc.), na prática de exercícios que possam contribuir com um melhor desempenho dos passos que mestre-salas e porta-bandeiras executam tradicionalmente e, ainda, na postura dos defensores dos pavilhões.

O trabalho de Viviane Martins é mais do que conhecido no “mercado dos coreógrafos”. Formada em Educação Física, ela conhece bem as nuances do trabalho de um casal, principalmente pela rápida - mas importantíssima - trajetória que teve como defensora de pavilhões, além de ter sido jurada em São Paulo. Mais do que saber os passos básicos e ajudar a harmonizar a dança do casal, ela conta com um aliado que conhece como a palma da mão: o regulamento. É treinando movimentos e lendo as justificativas que ela atua auxiliando os casais em cima das dificuldades e qualidades de cada um e do que a apresentação precisa ter para ser caracterizada como a dança do mestre-sala e da porta-bandeira, somando-se aos gostos e critérios dos jurados. Não por acaso, já acompanhou dezenas de casais Rio de Janeiro afora, impulsionando e trabalhando o que há de melhor nesses bailarinos do samba.

Beth Bejani também é outro consagrado nome no meio. Bailarina, ela se tornou expert da preparação de casais de mestre-sala e porta-bandeira. A assessoria de Beth, antes de adentrar a coreografia, passa por exercícios, movimentos de força, equilíbrio e postura. Tudo que possa dar uma ajudinha fundamental para que os dois cheguem à Avenida do jeito que devem: aparentando executar seus movimentos com o menor esforço possível, no melhor estilo “parece mas não é” da facilidade. O trabalho com Marcella Alves e Sidclei durante os anos em que trabalharam juntos no Salgueiro disse muito sobre o talento da porta-bandeira, mas também sobre o trabalho fundamental da coreógrafa. Tanto é assim que bastou um intenso ano de trabalho com Taciana Couto e Daniel Werneck, mais tarde, na Grande Rio, para que o casal saísse de uma apresentação insegura para um desfile que arrebatou arquibancadas e garantiu aos dois a nota máxima. O segredo especial parece ser sempre - além das aulas de ballet e toda atividade que possa ser proveitosa - a relação de confiança estabelecida entre ela e o casal, caminho perfeito, dentro de todas as imprevisibilidades, para o sucesso.

 
Daniel, Beth e Taciana estabelecem, juntos, uma relação de confiança e troca para que, a partir de muito trabalho, a nota máxima chegue. Foto: Reprodução/Instagram

A verdade é que muitas são as possibilidades e requisitos para conduzir um casal a uma nota 10, mas não há receita pronta. Fosse assim, já teríamos atingido um patamar em que pouca coisa emocionaria e não haveria possibilidade de crescimentos desses homens e mulheres que ostentam o símbolo maior de uma agremiação. Ainda assim, se não fosse a preparação física e coreográfica, além do acompanhamento emocional do casal, o caminho certamente se tornaria mais árduo. Comparando-os a atletas de alta performance, é essencial para que conquistem a nota que lhes é cobrada que tenham um suporte nutricional, de ensaios e psicológico, ou seja, perfeitas condições para que possam exercer o ofício. Parece ter sido uma dose bem servida desses elementos que garantiu a Marcella e Sidclei, Rute e Julinho e Taciana e Daniel as notas máximas do Carnaval passado. Os 50 pontos não se somam por um simples rolar de dados que são lançados à própria sorte no momento da apresentação, mas pelo trabalho de um ano todo. 



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por Bernardo Pilotto

Há 61 anos atrás, os sambistas do bairro de Cavalcanti, no subúrbio do Rio de Janeiro, aproveitaram o feriado de 15 de novembro para fundar a G.R.E.S. Em Cima da Hora, originando uma escola de samba que é muito importante para o carnaval carioca e para o carnaval brasileiro. 
 
No começo de sua trajetória, a Em Cima da Hora fez desfiles nos grupos inferiores e foi ganhando espaço, até que no início dos anos 1970 conseguiu chegar no grupo de elite do carnaval (na época, o Grupo 1). Foi nessa década que a escola fez grandes contribuições para os desfiles de escola de samba e para o carnaval como um todo. 

Em 1976, por exemplo, a Em Cima da Hora trouxe para a avenida o enredo "Os Sertões", com um dos maiores sambas-enredo de todos os tempos. Composto por Edeor de Paula, a obra ganhou o Estandarte de Ouro daquele ano. Mesmo assim, muito por conta de um temporal durante o desfile, a escola ficou em 13º lugar e foi rebaixada.

Além de "Os Sertões", outros sambas-enredo da escola também tiveram destaque nessa década: "O Saber Poético da Literatura de Cordel" (de 1973) e “Festa dos Deuses Afro-brasileiros” (de 1974), ambos compostos por Baianinho. 

Nos anos 1980, a Em cima da Hora novamente trouxe um grande samba-enredo, com "33 – Destino Dom Pedro II" (de 1984), também ganhador de Estandarte de Ouro. Para 2021, a escola vai reeditar o samba, aproveitando sua volta para a Sapucaí no Grupo de Acesso.


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por Bernardo Pilotto


Dia 15 de novembro é aniversário da Unidos de Bangu, escola fundada em 1937. É a agremiação mais antiga da Zona Oeste da cidade, na região de diversas instituições carnavalescas importantes. Sua fundação, aliás, tem tudo a ver com a organização do bairro e da população que por lá vivia no começo do século XX. 

Em 1889, surgiu na região a Fábrica de Tecidos Bangu, que acabou trazendo grandes transformações para esse pedaço da cidade, que passou a se urbanizar rapidamente. Em 1903, os operários da fábrica fundaram o Grupo Carnavalesco Flor de Lira, uma das primeiras organizações de folia da região e uma das precursoras da Unidos de Bangu. 

De 1937 a 1956, a Unidos desfilou como bloco na sua própria região. A partir de 1957, já se entendendo como escola de samba, a agremiação passou a desfilar no centro da cidade e no seu primeiro ano já subiu de grupo, participando, portanto, da elite do carnaval em 1958. A presença entre as maiores escolas de samba ainda se repetiu em 1959, 1960 e 1963. 

Depois desse período inicial com grandes êxitos, a Bangu passou a figurar nos diferentes grupos de acesso. Em 1998, após sucessivos problemas administrativos, a escola “enrolou bandeira” e só foi reerguida em 2013, quando voltou a desfilar, agora pelo Grupo C (na época, a quarta divisão). 

De lá pra cá, a escola vem tentando se organizar e tem obtido um relativo sucesso: em 2017 foi campeã do Grupo B e está desfilando desde 2018 na Sapucaí, na Série A. Para o próximo carnaval, a Bangu vai apresentar o enredo "Deu Castor na cabeça", sobre Castor de Andrade, um dos personagens mais icônicos do seu bairro.


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por João Vitor Silveira 


Nascido no subúrbio nos melhores dias, João Nogueira marcou para sempre seu nome na história da cultura popular brasileira. Ávido representante do Méier, aprendeu desde cedo a conectar seus dedos com os braços do violão, tendo como referência seu próprio pai, o advogado e também músico João Batista Nogueira, e também a sua irmã mais velha, Gisa Nogueira, com quem compartilhou primeiro os seus talentos com a inspirada caneta, tendo sido sua primeira parceira de composições. Suas primeiras composições encontraram destino no bloco Labareda do Méier, onde começou sua carreira compondo sambas.

João Nogueira no conforto de sua poltrona - Foto: Cláudio Jorge de Barros/ Arquivo Pessoal

“Esse mar é meu”, clamou João ao adentrar de fato a cena da música brasileira com o sucesso “Das 200 pra Lá”. Ainda que ainda surfando as ondas de uma suposta inexperiência, João navegou como marinheiro experiente nas águas do grande Brasil, encontrando caminhos das por intermédio da voz de Eliana Pittman, alcançando o topo das paradas da época. Ainda que tenha precisado afastar alguns rumores de que seria um músico subserviente à ditadura, pelo viés nacionalista de sua canção, as portas foram se abrindo para um músico genial. 

“Trabalho é besteira, o negócio é sambar”, diria o bom João, enquanto continuava sua trajetória rumo ao reconhecimento que lhe era devido. Já havia gravado dois LPs que haviam tido boa repercussão no cenário da música, antes de lançar “Vem que tem”, em 1975, que gerou frutos inestimáveis para sua obra. Naquele momento, João se consolidava como um exímio compositor, sendo capaz de trabalhar com diversos parceiros e mesmo assim proporcionar belíssimas obras. Foi com Eugênio Monteiro que compôs Nó na Madeira, um dos grande sucessos da carreira e uma das principais obras do disco de 75. 

João Nogueira e seu cavaquinho - Foto: João Nogueira (Divulgação) 

Quebra no balacochê do cavaco! Era esse o mandamento do mineiro para Mineira cumprir. Foi também no LP de 75 que veio de uma só levada dois legados importantíssimos da carreira de João: A homenagem feita à Clara Nunes seria um dos maiores sucessos da carreira de João, se perpetuando nas rodas de samba e servindo até os dias de hoje como uma homenagem não somente para Clara, mas para o próprio cantor. Seria também a partir dessa homenagem a consolidação da parceria, que já fora frutífera no disco de 74, com P.C. Pinheiro.

É, vida voa. O tempo vai, e como vai. A cada ano João colecionava novos sucessos, e também versava cada vez mais profundo. Em 1977, o poeta do Méier abriu ainda mais seu coração, e versou sobre sua própria alma. Sua relação para com o pai, em quem se espelhava,  deixou transparecer um saudosismo da época em que tinha seu velho ao lado, e refletia seus passos e caminhos nos que seu pai havia trilhado. Queria poder fazer canções como as que fizera seu pai, e teve seu momento de não estar em paz com Deus por lhe tirá-lo. Mas João sabia que se olhar no espelho era abrir um portal em sua alma, para sentir o reflexo de seu pai, e ele sabia que podia continuar fazendo, ainda que narrasse seu maior medo.

Meu medo maior é o espelho se quebrar. E talvez fosse justamente a partir desse medo que João enxergava na cultura do samba a maneira de manter o seu espelho intacto. Mergulhando de vez na Vida Boêmia, lançou em 1978 disco com esse mesmo título. João firmou de vez os pés na vida noturna, e cantou os Bares da Cidade, narrou um instigante Baile no Elite e também falou sobre o que era um Amor de Fato. Entretanto, talvez o maior sucesso daquele disco tenha sido Forças da Natureza, com seu prolífico e histórico parceiro, Paulo César Pinheiro. 

Paulo César Pinheiro e João Nogueira - Foto: Arquivo Pessoal

“E é por isso que eu vivo no Clube do Samba”, versaria anos após a fundação do clube original a Acadêmicos do Cubango, ao homenagear João em 2017. Fundamentando ainda mais o seu papel e o seu legado para o mundo do samba, o poeta do Méier fundou em 1979 o Clube do Samba. O clube, que teria diversas sedes ao longo dos anos, tendo inclusive funcionado inicialmente na casa do próprio João, seria um reduto para os sambistas, promovendo noites memoráveis para o gênero, contando com a participação de compositores das escolas de samba, dos sambas de roda, cantores, músicos e intérpretes. Era uma verdadeira celebração que ajudaria a fincar ainda mais fundo o nome de João, e do samba, na história do país. E, como o criador que ama sua criação, lançou ainda disco homônimo com direito a mais sucessos com P.C. Pinheiro como Súplica e Canto do Trabalhador. 

Não, ninguém faz samba só por que prefere. Como poderia ser apenas preferência, não foi à toa que João fez seus versos, que se tornaram um elo de identificação com todos os outros artistas do gênero. Havia coisas mais profundas do que apenas uma possível preferência por aquele trabalho, era uma magia, uma força interior que levava os músicos naquele caminho. Até porque não era o próprio João um espelho de seu próprio pai? As reflexões e os anseios que moravam no âmago de João e P.C. Pinheiro sobre a função renderam Poder da Criação, do disco Boca do Povo,  em 1980. E João tinha no que afirmava, já que ele tinha um estilo próprio cativante.

Era diferente, com jeito de Wilson, Geraldo e Noel. João se estabeleceu como um artista único; suas composições tinham um estilo de fácil identificação com a sua personalidade, assim como seu cantar tinha uma cadência inigualável. Suas influências eram claras, pois o próprio Nogueira não fazia questão de escondê-las. Gravara ao longo dos anos diversas músicas de Noel Rosa, Geraldo Pereira e Wilson Batista. Para além das gravações que fizera, João lançou também disco, em 1981, de nome “Wilson, Geraldo, Noel”, para render uma definitiva homenagem às suas maiores inspirações. 

 
Clara Nunes e João Nogueira dividindo o palco - Foto: Arquivo Rede Globo

A vida é mesmo uma missão, bem sabia João. Sua carreira não encontrou ponto baixo nos anos que se seguiram, continuando a lançar discos e músicas de sucesso, além de participar em gravações de outros artistas. Mas, para além disso, João pareceu compreender também que a sua missão havia sido cumprida, pois mantivera o espelho do pai intacto com seu trabalho. E para além de mantê-lo intacto, virou ele próprio um espelho. Quando lançou Além do Espelho, seus versos indicavam claramente que ele entendia a sua missão, e enxergava em Diogo, seu filho, o espelho do espelho que ele era. 


“Que falta faz tua alegria,” poderia dizer para Clara ou para João. No que foi talvez a epítome da parceria entre P.C. Pinheiro e João Nogueira, o disco de 1994 intitulado “Parceria” trouxe consigo uma belíssima coletânea dos grandes sucessos feitos pela dupla. E era difícil não se atentar para as maravilhosas homenagens que ambos os poetas haviam construído ao longo dos anos à querida Sabiá, que infelizmente havia nos deixado. Talvez fosse luz demais para um mundo cheio de trevas, e era possível apenas lembrar do seu canto. Poucos anos depois da gravação do disco, seria a vez de João Nogueira encontrar o descanso eterno. 

Diogo Nogueira caracterizado como o pai João, em homenagem realizada no programa Domingão. Ao seu lado, a mãe Ângela Nogueira, que esteve na plateia para assistir - Foto: Reprodução: Instagram)


A vida é sempre uma missão. A morte, uma ilusão. Se pudesse de alguma forma dizer palavras de conforto para o poeta do Méier no momento de sua despedida, seriam essas que começaram esse parágrafo. Que a sua partida poderia ser em paz, pois seu maior medo jamais iria se concretizar. Testemunhamos desde sua partida o “Espelho do Espelho que não quebrou”. Por isso é que as palavras escritas e cantadas por João são tão verdadeiras e realistas. A morte é uma ilusão. Ele está vivo desde que partiu.

Pois quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu. 


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por Bernardo Pilotto

Nesse dia 12 novembro de 2020, a Unidos de Padre Miguel comemora mais um aniversário. Fundada em 1957 a partir do bloco de carnaval do mesmo nome, a escola da Zona Oeste, nos últimos anos, ficou no “quase” para chegar ao Grupo Especial por diversas vezes. 

Nos anos 1950, dois blocos dividiam as atenções do carnaval na Zona Oeste: o “Mocidade do Independente” e o “Unidos de Padre Miguel”. O último, por suas cores, era também conhecido como “Boi Vermelho”. Em 1955, o “Mocidade” se transformou em escola de samba, movimento seguido pelo “Unidos” apenas dois anos depois, com poucos dias de diferença da fundação das duas escolas. 

O primeiro desfile da UPM foi no carnaval de 1959, quando já se consagrou campeã do Grupo 2. Apresentando-se entre as principais escolas em 1960 e 1961, a escola não conseguiu se firmar e acabou sendo rebaixada, voltando ao grupo de elite do carnaval apenas em mais 3 ocasiões: 1964, 1971 e 1972. 

Com o crescimento da Mocidade Independente nos anos 1970, a UPM ficou em segundo plano nas atenções dos foliões do bairro, entrando num período em que na maioria das vezes não emplacou grandes desfiles. Por conta disso, a agremiação chegou a desfilar na terceira divisão no final dos anos 1980. Em 1990, teve seu pior momento, quando não se apresentou. 

Por conta da sua ausência, a escola teve que retornar ao “Grupo de Avaliação”, a quinta divisão dos desfiles no Rio de Janeiro. Tentando retomar seus bons desfiles dos primeiros anos de existência, a Unidos foi se reestruturando e pouco a pouco subindo de divisão, até que em 2010 chegou ao Grupo A. 

O rebaixamento em 2010 não teve o mesmo efeito que os reveses de outros momentos tiveram e a escola voltou à Séria A já em 2013, com a criação da Lierj e a fundição de dois grupos. A partir de 2014, começou a figurar entre as grandes do grupo. 

Com ótimos enredos, boa estrutura financeira e sambas que caíram no gosto popular, a UPM foi vice-campeã do principal grupo de Acesso em 4 ocasiões. E mesmo quando não ficou com o vice a escola quase “chegou lá”: em 2017, por exemplo, sua porta-bandeira Jéssica torceu o joelho durante o desfile. A apresentação, até então arrebatadora, acabou perda notas no segmento do casal e em evolução, que a deixou em 4º lugar, impossibilitando o campeonato. 

Para o próximo carnaval, a UPM vai trazer o enredo "Iroko - É tempo de Xirê" e pretende deixar a sina de “bater na trave” definitivamente de lado. Edson Pereira retorna à agremiação ao lado de sua equipe criativa que assinará o desfile junto com o carnavalesco.  


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