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Carnavalize

por Equipe Carnavalize

O Carnavalize compareceu à Carnavália Sambacon e ficou levemente perdido em meio a tantas celebridades e figuras importantes do samba. A feira, nas suas últimas edições, se firmou como ponto de encontro de quem faz a festa nos mais diversos segmentos, num ambiente descontraído, fora da tensão dos desfiles oficiais. Aproveitando isso, fizemos uma série de entrevistas com diferentes segmentos das escolas e as dividimos em grupos. Os relatos de hoje ficam por conta dos carnavalescos. Lembrando que ainda teremos uma matéria especial com coreógrafos das Comissões de Frente, fique ligado!

Após assinar três desfiles na Tijuca, Quintaes ruma o carnaval paulista (foto: Michele Iassanori)
Escolhemos três figuras do carnaval; O primeiro é Mauro Quintaes, carnavalesco com passagens por Salgueiro, Gaviões da Fiel e Unidos da Tijuca. Após ser dispensado da Tijuca, no final do carnaval 2017, foi convidado pela Unidos do Peruche, do Grupo Especial de São Paulo, para contar a história de Martinho da Vila no enredo "Peruche celebra Marinho - 80 anos do Dikamba da Vila", com colaboração do pesquisador e jornalista João Gustavo Melo (confira a sinopse aqui). 

- CARNAVALIZE: Como funciona seu trabalho no que se trata do resgate dos enredos bibliográficos, principalmente no carnaval contemporâneo?
- QUINTAES: A grande vantagem para o carnavalesco é que a vida do homenageado já está aberta, mas a dificuldade é fazer com aquilo se torne palatável para um desfile. Assim como conta o João [João Vitor Araújo, sobre o enredo de Viriato Ferreira] sobre muitos desconhecerem a figura de alguns homenageados, acredito que essa é a função do carnaval, apresentar novas figuras ao grande público, seja por meio de uma sinopse, seja decorando um samba-enredo. E a pessoa que se interessar, vai buscar ainda mais sobre o homenageado. Nosso legado é trazer a tona a cultura que não está disponível para o público. 
- CARNAVALIZE: Qual é a diferença ou facilidade, além da história pronta do homenageado que você citou, no caso do Martinho, sua ligação com a Vila Isabel, além de ser intelectual, sambista? 
- QUINTAES: Quando fiz Bibi, tinha coisa que não conseguia colocar no enredo, pois ela trabalhou em diversos segmentos artísticos. Isso ocorre também com Martinho. Ele é escritor, cantor, tem projetos sociais em Angola. Quanto mais o artista te dá, mais você consegue escolher os pontos principais. Há também o desafio de escolher aquilo que te dê um retorno plástico, o resultado final do desfile é plástico, visual, é você precisa descobrir aquele ponto que seja culturalmente falando mas que dê um retorno plástico bacana.
- CARNAVALIZE: Durante a sua carreira, por anos você fez carnavais maravilhosos no Rio, mas também consolidou sua carreira também São Paulo. Conte mais um pouco sobre sua experiência nessa ponte aérea.
- QUINTAES: Para mim, o processo é bastante parecido. Fixo minha casa lá por oito meses, altera-se um pouco o processo familiar. Agora também não cometo mais o mesmo erro que cometi na primeira vez, nos Gaviões, quando não conhecia integralmente o carnaval paulista. Naquela oportunidade, pude descobrir que existem diversos modelos de carnavais pelo Brasil, até em termos de arquitetura em São Paulo. É necessário pensar num carnaval diferente.

João Vitor Araújo e Daniel Targueta são a dupla responsável pelo enredo da UPM (foto: site/UPM)
Depois de fazermos a ponte aérea, conversamos com um dos destaques da Série A 2017, João Vitor Araújo, que junto com Daniel Targueta, assina o enredo da Unidos de Padre Miguel, escola que vem sendo destaque no Acesso carioca. Ele conta na entrevista como é o trabalho na UPM após a saída da Rocinha e um pouco mais sobre o tema da escola para 2018, "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin", que narra uma das lendas amazônidas, desaguando no Festival de Parintins sob a figura do Pajé (confira a sinopse aqui). 

- CARNAVALIZE: primeiramente, queremos saber da pergunta mais óbvia: como foi esse processo de sair da Rocinha para a Unidos de Padre Miguel e quais são as facilidades e dificuldades que você tem encontrado por trás de todo esse processo de criação?
- JVA: Foi tudo bem natural. Eu não tinha contrato com a Rocinha, foi um carnaval por temporada e já existia o interesse da Unidos de Padre Miguel no meu trabalho; até porque eles já imaginavam que o Edson não continuaria na escola e eu aceitei o convite. Me senti muito abraçado, é como se eu estivesse trabalhando ali há anos, é impressionante. Embora seja uma escola grande, é uma responsabilidade enorme manter a qualidade do trabalho que já vinha sendo apresentado nos anos anteriores, mas eles me abraçam, eles me dão força, eles me dão apoio... e a nossa maior dificuldade é essa crise que pega todo mundo. Esse corte de verba ainda não chegou na Série A mas a gente sabe que vai chegar e é mais delicado. No Grupo Especial, ok, está cortando um milhão, as escolas vão ter pelo menos sete. Na Série A, 1% já faz diferença, já faz um rombo danado. Qual é a saída para isso? Trabalhar com materiais alternativos, algo que eu já vinha fazendo nos trabalhos anteriores, o que não significa pobreza. Os nossos protótipos estão prontos, e, se vocês tiverem a oportunidade de ver quando eu publicar, notarão que são materiais extremamente baratos mas que eu fiz com que reluzissem feito ouro. Essa é a nossa saída; fantasias bem mais em conta do que as do ano anterior, mas a qualidade é a mesma. 
- CARNAVALIZE: o imaginário do Amazonas e de Parintins passou pouco na Sapucaí. Qual é o seu desafio, também em questões estéticas, de criar um enredo a partir disso? 
- JVA: Esse delírio me dá uma liberdade muito maior para fazer, digamos assim, o que eu quiser. Então é uma temática amazônica, baseada numa lenda, e o mais interessante disso tudo é que não é um enredo verde. Esqueçam (risos), não tem verde, não tem 'salve a floresta', não tem índio. Melhor, o protagonista dessa história é um pajé, e para não dizer que não tenho índio, tenho um manoa, que era um sentinela que tomava conta da cidade encantada do fundo do rio, e o parantintin no final que é o índio nativo ali da região da ilha tupinambarana, que é Parintins; somente. Tenho duas fantasias apenas em tons de verde, e, mesmo assim, de forma bem tímida, que representam o beija-flor e o vagalume, mas nada ligado à preservação da natureza. Não que isso seja não seja válido, mas não é a minha intenção neste enredo. É bem interessante, uma história bem bacana e bem gostosa. 
- CARNAVALIZE: a UPM vem marcada por um trabalho do Edson, com esculturas gigantes. Como vai ser essa negociação de impor a sua linguagem e ao mesmo tempo se sobressair? 
- JVA: É bem interessante esse trabalho, claro que eu tive que fazer algumas alterações, até porque tenho que ter a minha personalidade, a minha característica e a escola me abraçou. Quando eu digo em dar continuidade ao que vinha sendo feito, falo em grandiosidade. Mas, em questão de estética, de textura, é uma outra história. Eu estou super ansioso.

Mesmo estando em seu segundo ano no Especial, Severo já assinou grandes escolas no RJ (foto: Flickr/Valéria del Cueto)
Claro que o Grupo Especial não ficaria de fora, certo? Representando a elite do carnaval carioca, Severo Luzardo, da União da Ilha contou um pouco mais sobre o enredo, acrescendo que não há problemas em lado de concentração, seja Balança ou Correios. Severo tratou também da reciclagem de materiais e contou um pouco mais sobre o enredo da Ilha para 2018, "Brasil Bom de Boca" (confira a sinopse aqui).

- CARNAVALIZE: Gostaríamos que você comentasse um pouco sobre o enredo do ano que vem, do que vai aprontar; o que você pode revelar pra gente? Será apenas culinária? O texto dá a entender que tem mais coisas por trás, certo?
- SEVERO: Vamos falar sobre culinária brasileira. Acho que temos cores e sabores que só têm no Brasil. Vai ser muita irreverência. Vamos falar do que veio de fora, o que os negros e botaram e a partir daí vamos ver como é a mesa do brasileiro, hoje, enquanto sociedade. O que somos, como comemos? Tem a questão do comer com as mãos, do 'se lambuzar'. É muito leve. É a cara da Ilha. E tem coisas que só tem no Brasil: a caipirinha só tem aqui; o brigadeiro só tem aqui; a coxinha de galinha só tem aqui. No olhar do dia a dia, a gente não se dá conta de tanta diversidade. Quando a gente se afasta é que a gente se dá conta do quanto somos pitorescos, e isso fascina muito. Belém do Pará ganhou o título de paraíso dos sabores, o que é incrível. Vamos passar com um grande banquete, e cada um degusta e come o que quer. 
- CARNAVALIZE: você ficou conhecido pela sua capacidade de reciclagem e reaproveitamento dos materiais. Agora que o carnaval enfrenta um momento de crise e um orçamento mais enxuto, como você acha que essa sua capacidade vai se refletir? 
- SEVERO: No ano passado não reciclei porque eu não tinha o que reciclar. Cheguei numa Ilha em que os carros tinham sido zerados, então eu tinha que fazer crescer tudo. Mas eu nunca achei feio reciclar, acho que é muito babaca você jogar um carnaval todo fora. Você não pode oferecer um espetáculo velho, porque as pessoas pagam seus ingressos, elas querem um espetáculo novo e aquele momento ali é para elas se divertirem. Agora, aproveitar coisas, reciclar, transformar, tem que ser feito. Não temos dinheiro para jogar fora. Eu acho que essa é, hoje, uma responsabilidade de todas as escolas. 
- CARNAVALIZE: a ordem do desfile e o lado de entrada na Avenida importam? 
- SEVERO: Eu não me preocupo muito com isso. Meu carnaval já está desenhado e tudo está adaptado, então não tenho preocupação. Meu único cuidado é com a mecânica dos carros, para que nenhum trave mais (risos). Mas é tudo de aplicação, tudo de montagem fácil. 

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INTRODUÇÃO
A Ilha (delícia)
te convida pra
salivar e comer com os olhos:
é o samba com molho!

Desfilamos um Brasil temperado,
que entornou o caldo da miscigenação.

São iguarias da brasilidade.

Todos à mesa na Avenida,
a refeição será servida:
Carnaval quitute pra empanturrar,
ponto de prova da suculenta mistura.

Metam a colher na culinária que só tem aqui,
e tem pra todo gosto-
são cores, sonhos, aromas, irmandades, texturas,
ingredientes e temperos,
para estimular qualquer papila foliã.

Ingredientes: Nós e vocês bem misturados
Modo de Fazer: Mexa, remexa… e aqueça em fogo alto insulano

JUSTIFICATIVA DO ENREDO
Tida como uma Escola “Saborosa”, a União da Ilha do Governador, no Carnaval 2018, junta a fome com a vontade de comer: canta e dança, prepara e serve, na Sapucaí, a super aventura dos hábitos alimentares da população brasileira.

O sabor, o saber e o sentido do patrimônio gustativo da nossa gente! Porque quando comemos, ingerimos a história, a antropologia, o social, o político, o religioso, a economia, as tecnologias, o mito e o tabu.

Vai muito além da nutrição e da biologia – comida é inventividade! Na mesa, no balcão do botequim, na tribo, na viagem tropeira, na cuia, no altar, no peji ou na pia; o que se come e como se come, em que lugar, em que época do ano, junto com festa ou na solidão. Cru, assado ou cozido? Defumado? Crocante? Salgado ou doce? Quente ou frio? Muito ou pouco? Empratado ou à francesa? Indígena, portuguesa ou africana? Caipira, amazônica ou migrante? Cara, barata ou de graça? Com colher, garfo e faca ou com a mão? Todo lambuzado?

Complexo… e muito simples ao mesmo tempo, porque comida é só prazer! Ela fala à memória do coração, revela a hospitalidade e a simpatia que são patrimônios do povo brasileiro. Através dela delimitamos as fronteiras de uma federação do paladar, conectando gente, iguais e diferentes, na fome e na fartura. Plural, multicultural, multiétnica, tradicional, global e sobretudo, humana.

Sirvam-se à vontade…

1- Da uma provadinha…
Cabral das especiarias, disse um “e aí?” culinário para os índios,
oferecendo bolo folhado, mel e presunto cozido.
(O peixe morre pela boca…)
Os tupiniquins disseram para Caminha: “aqui, em se plantando, tudo dá…”

Depois…
E não é que deu?
Com o passar dos tempos,
a portuguesada, de longe, trouxe o gado leiteiro,
e fez cultivar cana e café: pronto!
Iria emplacar no costume da Terra Brasilis,
o velho e bom (e honesto) “preto e branco, bem doce”!

As caravelas,
pareciam carros alegóricos,
verdadeiras arcas de Noé:
vacas, touros, cabras, ovelhas, carneiros e porcos.
Galinhas, galos, pombos, patos, perus e gansos
(muitas penas para o futuro carnaval).

Foi a chegada dos desconhecidos e gostosos
figos, romãs, laranjas, uvas,
limões, tâmaras, maçãs, peras, marmelos e pêssegos.
Algumas das quais depois estariam no turbante da Carmem Miranda.

Trouxeram arroz que mais tarde casaria com o feijão,
pepino, mostarda, nabos,
gengibre, coentro, açafrão, salsinha, rabanete;
couves que se apegariam à linguiça do tropeiro,
alface, hortelã, alho, berinjela, agrião, manjericão,
chicória, cenoura, acelga, espinafre,
salsa e cebolinha, paus pra toda obra.

E não esqueceram do açúcar e sal a gosto,
para potencializar o pecado abaixo da linha do Equador.

2- Sabores da Terra
Os de cocar e tanga serviram riquíssima culinária,
fruto de seu conhecimento milenar dos sabores da terra:
e o mundo se apaixonaria pelo pirão,
e acharia delicioso o mingau de farinha de mandioca,
a volúvel (e solúvel)
que também atendia pelo nome de aipim ou macaxeira.

Bolinhos de farinha enrolados e torrados – o beiju, e a tapioca;
diversidade com raízes, milho, batatas, amendoim.
Cajus e ananás (os abacaxis rebeldes) que abundavam nas matas.

Os tropicais, quentes, pesavam a mão na pimenta,
saboreada com o nome de Inquitaia.
Folhas e ervas cozidas e cortadas, batidas no pilão:
era a papa grossa do Caruru.

A moqueca naquele tempo chamava pokeka,
E os peixes cozinhavam envoltos em folhas gigantes.
Mais uma que mudou de nome:
a banana era a pacova da terra.
Outra que tinha outro nome era a Paçoca,
que respondia pelo nome de Pasoka:
farinha misturada com torrado de peixe seco ou carne.
Salve o Tucunaré, muito apreciado pelos peles vermelhas de urucum…

Apertando o tipiti, os índios faziam descer
um suco amarelado e inebriante: o tucupi.
Mestiças tradições o puseram com goma e camarão virando tacacá;
já nele afogando o penoso preparavam o pato no tucupi.
Em ambos reinava o jambu,
a erva que causava tremores nos lábios e calafrios no povo da taba,
que comiam com as mãos, de joelhos agradecendo a Tupã.
Sempre lambuzados da memória ancestral dos donos da terra.

Todas estas exóticas novidades das tradições da floresta
foram parar em caboclos mercados, encontro de vários mundos.

3- Procure uma nega baiana que saiba mexer…
Os negros bantos, graças aos portugueses, sacavam muito de Índia,
e apresentaram o uso do leite de coco em quase tudo, como lá:
no arroz, peixe, ou na canja de galinha!
Foi um sarapatel!
A manga fez um sucesso danado !

Só que eles também sacavam tudo de Arábia,
e dá -lhe de fazer cuscuz.

E como eles sacavam tudo deles mesmos,
trataram de ensinar por aqui
o uso do inhame, o quiabo,
a melancia, a abobora, o melão,
o azeite de dendê e a galinha d’angola.

Mulheres negras Yabás, nas senzalas e na casa grande,
fundiram receitas de Portugal com África.
E foi aí que a porca torceu o rabo:
surgiu a Feijoada, vedete nacional,
o feijão ma-ra-vi-lha de tão democrático que era e é,
acabou virando símbolo da identidade nacional,
porque em volta dele nasceu o samba,
e todo mundo é bem chegado, basta saber chegar….

A escrava coloca o tabuleiro na cabeça,
e vai as ruas vender vatapá, quibebe, mungunzá, angu
e o acarajé, patrimônio nacional.
Sem esquecer a mulher de cravo e canela, Gabriela!

Que rufem os tambores
pelo bonde dos negros cozinheiros, sabor da vida,
que souberam misturar em doses preciosas
o seu mundo magnífico com o mundo dos outros.
Foi a partir desta mão africana
que consolidamos nossas matrizes simbólicas,
quando a comida passou a ter conotações
sociais, políticas, religiosas e culturais para quem a provava.

4- Super safra bronzeada mostra o seu valor…
De todos os presentes que a terra brasileira
deu ao nosso povo, o maior foi a fertilidade.
O arroz, também de carreteiro, espelha
o celeiro do mundo
numa riqueza de ingredientes de dar gosto.

Aqui se produz
todo tipo de alimento de origem agropecuária.
Animal e vegetal numa mesma empreitada,
nesta festa com frango a passarinho,
bem puxado no alho e óleo.

Obedecendo as leis da terra,
o brasileiro aprendeu a ordená-la!
Super safras de múltiplas contribuições,
com toneladas de farelo e óleo
do grão da vida, proteína de soja.
Campos de trigo e algodão.

Tudo se cria, nada se perde, a lavoura se transforma.
Investimentos em diversidade que trazem abundância,
no grande desafio de semear o solo, plantar e colher.
Transbordar a mesa com iguarias de Tia Anastácia e Dona Benta.

Torra e moagem da amêndoa seca de Cacau,
um show ímpar do chocolate:
nas festas regionais,
ritual e nobreza na tradição do sagrado.

Se Caetano devora Leonardo DiCaprio
nossa Escola devora Raul Lody, com açúcar e com afeto,
salpicado de Câmara Cascudo.
Especialista no velho, no novo, na memória alimentar.
Festa, comemoração, prazer, alegria,
mapeamento de nosso patrimônio imaterial.
Os vestígios das trocas culturais.

5- Saindo do armário da cozinha
Se não vai me degustar,
me larga, me deixa, me erra,
hoje eu vou assumir –
sou brasileiro sabor Brasil,
e não conseguiria morar longe daqui.

Admita o pecado de quitutes inigualáveis
no boteco da esquina com muita caipirinha.

Você sobreviveria
sem uma coxinha de balcão de vidro do pé-sujo?

Coma sem culpa um pão de queijo,
e controle-se no milésimo…
Cada um come o que quer,
Paçoca com açaí,
guaraná com bolo de rolo,
a comilança desvairada está liberada!

Brigadeiro e quindim,
irresistíveis de cortar os pulsos.
E na segunda-feira,
começa a dieta,
e bata nesta cara malcriada.

Sou bom de boca, de bem com a vida,
e meus “quilinhos” a mais não são gordura,
são excesso de gostosura!

Sou Ilha, sou delícia,
Quem prova de meu tempero, repete e não esquece.
Sou gente, sou povo, sou Rio! Sou Brasil!
Vem, que é hoje o dia,
só hoje, de me comer com os olhos…

Pesquisa: Prof. Dr. Clark Mangabeira
Carnavalesco: Severo Luzardo 
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sinopse_peruche2018

Mensagem ao poeta perucheano,
Celebra o dikamba Martinho em forma de samba!
Celebra em letra, melodia e síncope
Celebra…

I
Aquece o couro do tambor!
Escuta o toque primordial, vigoroso, forte como o trovão!
Percute o grito místico do animal na escuridão da mata
Amplifica o estampido intenso no espaço sem fim…
Canta os sons de África e Brasil, irmãos unidos em cantos, danças e requebros
Revela as origens de povos que se reconhecem nos sons tribais
Faz tremer as ancas das negras, agita os corpos dos guerreiros em transe
Espalha no ar a energia dos povos de raiz
Festeja, ritualiza, enfeitiça!
Evoca os deuses de dois mundos!
Irmana os dikambas de África! Irmana os irmãos da América!
Irmana Angola! Irmana Pindorama!

II
Joga as sementes da música ao vento!
Capta os sons que brotaram na cuca do menino Martinho!
Ouve o farfalhar das folhas dos cafezais de Duas Barras
Festeja em folguedos, em cirandas…
Ponteia violas, folia com os reis!
Bate na palma da mão uma canção calangueada
Reza pra São Benedito, reza pra Nossa Senhora da Conceição…
Caminha com os devotos em procissão
Irmana em ladainhas! Irmana em terreiros!
Irmana em lavouras! Irmana em louvores!

III
Vem com o dikamba ao berço do Samba!
Ouve a melodia que vem do trinar do Bando de Tangarás
Seduz um novo amor à luz da lua
Cantarola em bom tom um laraiá-laiá
Desliza entre as partituras gravadas nas calçadas de uma Vila musical
Respira o ar que se espalha das ramas dos oitis do Boulevard
Puxa uma cadeira, bebe com os boêmios…
Une asfalto e favela
Irmana o poeta! Irmana a princesa!
Irmana Noel! Irmana Isabel!

IV
Cruza fronteiras
Viaja pelo mundo de língua portuguesa!
Redescobre com Martinho os traços que nos unem
Desfila pelos mares em uma nau de versos livres
Desembarca trocando alegrias
Colore os lusófonos de negritude
Escreve a poesia dos muitos cantares da nossa língua
Irradia arte pelos novos mundos, chêmenino!
Irmana as vozes lusitanas! Irmana saberes!
Irmana as terras lusófonas! Irmana a Terra…

V
Vem cantar mais um samba-enredo na Avenida
Exalta o sambista de 80 fevereiros
Baila com a porta-bandeira e beija o pavilhão alviceleste
Revive um Carnaval de Ilusões
Canta as glórias do passado e propaga a liberdade
Louva as raízes da nossa gente
Colhe felicidade na festança do arraiá
Revela, enfim,que a beleza é a missão de todo artista
Sê tu artista também! Sê música!
Sê Martinho!
Irmana o samba! Irmana a Avenida!
Emana Energia!
Celebra Dikamba!
Celebra…
Axé!

Carnavalesco: Mauro Quintaes
Texto: João Gustavo Melo
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JUSTIFICATIVA DO ENREDO:
Uma das premissas do G.R.E.S. UNIDOS DE PADRE MIGUEL é acreditar que a escola de samba é veículo de conhecimento, “mensageira de verdades sobre o Brasil”, como diria Joãosinho Trinta. Por isso, há a preocupação de apresentar ano a ano enredos que tragam essa essência de brasilidade e que contribuam, assim, com o enriquecimento cultural da nossa comunidade. Temos o orgulho de anunciar para 2018 o enredo “O ELDORADO SUBMERSO: DELÍRIO TUPI-PARINTINTIN”, um tema absolutamente nacional contado sob a ótica dos povos residentes à beira do RIO AMAZONAS e seus afluentes.

Entender a Amazônia é entender o Brasil. É geografia do mais puro sublime e esplendor. Mais que reservatório de biomas naturais, a Amazônia é também um imenso arcabouço de lendas. A partir de uma passagem do escritor manauara Milton Hatoum, a UPM nos convida para que bebamos todos das águas do Rio Amazonas, onde repousa o MITO DO ELDORADO. Não se trata, contudo, daquele Eldorado sob a visão dos viajantes europeus, que se utilizavam dessa metáfora para descrever a riqueza e a diversidade amazônicas. Nosso enredo dialoga com os povos indígenas e também com a população cabocla e ribeirinha que vivem às margens do rio. São esses povos que perpetuam, na fluidez das oralidades, a fábula de uma CIDADE MISTERIOSA que habita o fundo das águas doces. Cidade essa depositária de mistérios, seres fantásticos e causos indígenas sobre a criação do homem e do mundo.

A ordem para adentrar esse reino misterioso vem do PAJÉ (ou XAMÃ), o único com poder de transitar pelas funduras do rio, entre os encantados, durante os rituais da PAJELANÇA. A UPM entende a figura do índio como portador de uma SABEDORIA ANCESTRAL e necessária para a preservação da cultura local. Sabedoria essa que dialoga com a veneração e o respeito à natureza. Os índios detêm uma profunda capacidade de observação do seu mundo. Eles sabem a dimensão exata da comunhão entre água e terra; entre vida, morte e renascimento; entre homem e meio ambiente.

O Rio Amazonas, por sua vez, deságua nos enigmas do mundo, oferecendo interrogações sobre origens e destinos. Em meio a essa evidência, vamos tecer um inventário de imagens, vozes e falas desse saber imemorial amazônico para compor, na Sapucaí,diferentes poéticas sobre os arquivos da vida amazônica. São as memórias guardadas no TRONCOTUPI – raízes indígenas que se entrelaçam no lábio dos rios e fazem revelar as ENCANTARIAS do Eldorado submerso. Nossa escola se arvora dessa sapiência para propor um verdadeiro surto onírico, dentro do qual a cidadela misteriosa e desconhecida, revelada por meio de um mergulho, expande os limites da imaginação para trazer à tona uma tessitura de estórias fantásticas contadas pelas vozes indígenas.

Submergido, o caboclo constrói plasticamente sua paisagem ideal. É a partir do DEVANEIO que se faz explodir a imaginação. O ribeirinho é um viajante móvel, que navega as águas do Amazonas em busca de suas próprias origens. Porque água doce, sobretudo, é água mítica. Ela não exige lógica. Nosso desfile vai se lançar na navegação livre do DELÍRIO para fazer irromper a vida na Avenida. Olhemos, portanto, o horizonte para além das correntezas e admiremos esse lugar encantado, de atmosfera inebriante, opulente e exuberante. Vaguemos, destemidos, nesse imenso LABIRINTO AQUÁTICO repleto de VERTIGENS indígenas sobre o mundo, num fantástico convívio do homem com os seres outros.São histórias gravadas no pensamento, em um conjunto vasto de relatos que constituem o imaginário polifônico e multifacetado da Amazônia. São, em resumo, perspectivas indígenas encharcadas de poesia.

A cultura ribeirinha brilha – e a Amazônia ano a ano dança e festeja esse brilho. É quando a Cidade Misteriosa, o Eldorado submerso, se faz emergir no delírio carnavalesco da UPM. Tal qual uma vitória-régia, o Eldorado brota em plena Ilha de Tupinambarana, onde é realizada a disputa do boi-bumbá no festival folclórico de PARINTINS. O arrebatamento passa a ser real a partir do chamado do pajé. Assim, na fantasia que nos envolve e enfeita essa viagem, o enredo também exalta Parintins, nosso Eldorado erigido em plenas águas afluentes do Amazonas, no coração da floresta. Garantido e Caprichoso bebem das histórias do Amazonas e as propagam para que sejam realmente conhecidas por quem pouco ou nada sabe sobre a cultura do nosso país.

A festa do BOI-BUMBÁ iça a memória do folclore e faz as lendas indígenas serem ouvidas por multidões. É Parintins essa nova cidade encantada, que finca ano a ano a bandeira indígena na arena e mantém viva sua cultura e suas lendas. Numa liberdade lírica e poética, mito e realidade se entrelaçam para que, ao final do desfile da UPM, encontremos todos nós razões para viver melhor nessa GRANDE ALDEIA, bela e generosa, chamada BRASIL.

SINOPSE DO ENREDO:
“Muitos nativos e ribeirinhos da Amazônia acreditavam — e ainda acreditam — que no fundo de um rio ou lago existe uma cidade rica, esplêndida, exemplo de harmonia e justiça social, onde as pessoas vivem como seres encantados. Elas são seduzidas e levadas para o fundo do rio por seres das águas ou da floresta (…) e só voltam ao nosso mundo com a intermediação de um pajé, cujo corpo ou espírito tem o poder de viajar para a Cidade Encantada, conversar com seus moradores e, eventualmente, trazê-los de volta ao nosso mundo”. [Milton Hatoum, em “Órfãos do Eldorado”]

1.
Venha, sente aqui ao meu lado, vamos prosear um bocado. Não se acanhe, não tem perigo. Mas fale baixinho, isso. Não está ouvindo? É o som do silêncio. Isso mesmo, preste só atenção. Só quem canta nessas terras é o macucauá, a ave graúda cor de céu. Quem nos faz companhia é o rio, o Amazonas. E as estrelas lá de cima. Uma, duas, três, nossa, acho que as Três Marias também. Olha elas lá nos alumiando. Bonito, não? Também achei.

Na verdade, chamei você porque quero ir ao rio. Mas já não estás perto dele, homem? Sim, perto, mas não dentro. Quero mais que mergulhar. Quero ir além do murmúrio das águas. Imergir nessa imensidão. Quero adentrar toda sua profundidade. Prosa doida? Nunca ouviste falar na cidade que mora embaixo do Amazonas? Quem contava são os caboclos ribeirinhos daqui. Gente que vive rio abaixo, rio acima, nas palafitas do beiradão. São as histórias que eu ouvia quando brincava com os indiozinhos da aldeia, lá no fim da cidade. Há nessas terras um emaranhado de histórias assim, que habitam as curvas dos rios.

A calma que essas águas apresentam não passa de enganação. Vá se atrever a se embrenhar rio adentro pra ver que mistérios não se revelam dentro dele? É água que não está acessível a toda gente. Vagação para poucos. Isso porque só se entra aqui, na levada das águas, com a permissão do pajé. Só ele guarda a palavra criadora indígena e os segredos invioláveis dessa terra. Só o pajé autoriza se entranhar nas encantarias dessa floresta ao redor. Só o pajé transita no encante.

O rio fala. Ele conversa comigo, e eu só faço escutá-lo. Ouça de verdade, homem de Deus – não só com os ouvidos. Feche os olhos e perceba o chamado do curandeiro. Os bichos de fundo – botos, jacarés e sucurijus– vão nos levar corredeiras abaixo, duelando contra a fúria das correntezas, até chegar ao tão sonhado Eldorado. É bicho que não acaba mais. Preferi me agarrar no casco da tartaruga-yurará para mergulhar nesse curso d’água. Eu tremi profundo, de repente. Porque, veja bem: não é aquele Eldorado que os viajantes brancos costumam contar. É o que mora no fundo do rio: a Cidade Misteriosa do Amazonas.

Entre comigo rio abaixo. Observe as mamoranas frondosas, cheias de folhas e frutos. As árvores eram um montão demais. Um verdadeiro novo mundo. É a entrada da cidadela das águas abundantes, guardada por manoas. Índios arremessados para debaixo das águas e que se tornaram ancestrais. São sentinelas da memória indígena. Nos passadiços do Eldorado, uma multidão deles se apinha. Todos tingidos de pó de ouro, todos com o dourado derretido na pele. Todos guardiões da ancestralidade que cerca esse lugar abaixo da superfície.

Quem pode esperar coisa tão sem pé nem cabeça assim, me diga? Mas eu me alembro bem: o ouro invadia toda minha vista até turvar. Não sei quando se deu meu primeiro encantamento – talvez quando avistei Boiuna, a cobra-grande, cujos olhos faíscam como dois faróis. É ela a senhora das águas doces que repousa no fundo do rio e protege o Eldorado. A fera das águas que encandeia com seus olhos de fogo. Venha vê-la de perto, seu moço. É cobra enorme, assustadora mesmo, mas o senhor não há de ter medo. Tem que deixar que ela o abrace.

2.
A linha da margem se rompeu. Meu delírio vagueia. Detenho a profundeza para guardar a memória. Porque, a bordo dessa viagem, carrega-se tudo: sonhos e lendas. Imergir nas águas significa regeneração, um novo nascimento. Eu mergulho para poder surgir de mim.

Já submerso, engolido no escorregar do tempo, alguma coisa trabalhava por arraigar minhas raízes, me aumentar a alma. Pro senhor que me ouve hoje, pode parecer uma extravagância. Mas eu digo: foi um salto muito grande no rumo da minha história. Quando olho o Eldorado, a memória dispara. Vozes dos antepassados saem da minha boca. Reconto tudo do meu jeito, amparado em narrativas dos que já se foram. Muitas dessas vozes são estórias sem escrita, vindas do nosso tronco tupi. Raízes arraigadas nas aldeias desse chão amazônico.

Não sei exatamente se foi quando abri os olhos no fundo, bem dentro das águas caudalosas, ou quando comecei a sentir a vida nova também por dentro do rio. Porque mergulhar o Amazonas adentro é nascer de novo. É assistir à criação de um novo mundo, de vários mundos que por aqui passaram. Um mundo de encantados invisíveis aos olhos dos mortais. Quem me pariu foi a água doce. O rio é meu umbigo. O Amazonas é o umbigo do mundo.

Nesse Eldorado irreal moram deuses e heróis indígenas de diferentes povos que até hoje regem nossos destinos. Muitas vozes vêm desse rio. Mundos se movem por aqui. A noite, por exemplo, contam que ela adormece dentro no coco de tucumã, envolta num véu cinzento. Quando as corujas cantam em vigília, duas luas se alternam para despertar a saudade dos amantes: Cairé e Catiti – lua cheia e lua nova. Sim, eu me aluei para não trevar o coração. Cujubins anunciam a chegada do sol, que certo dia se transformou em pássaro para libertar a água doce, presa nos potes sagrados da criação. É o mesmo sol que, em outros povos, chegou a duelar contra onças agourentas para não perder seu brilho próprio. É o mesmo sol que, quando soprou a água, fez formar todo esse rio. Só os xamãs são capazes de fazer sol e lua descerem embaixo das águas para fazê-los dançar no Eldorado. É a profundidade do rio que faz surgir a dimensão delirante da miragem.

A cidade subaquática é também a comunhão com os encantados dessa terra. Rios fios de água, que caminham nos atalhos da mata. A vida dessa gente da floresta é rica em contos e quimeras. Cada ser que habita aqui é cheio de sabedoria. Mesmo no lanço demasiado das correntezas, a água carrega memória. São histórias gravadas no pensamento, no mais fundo da gente, renovadas o tempo todo pelos xamãs. Entre pirarucus e peixes-boi, Yara habita em seu castelo enfeitiçado e repleto de enamorados. Tua beleza é a própria melodia. As águas daqui são guardadas por Naoretá, a mãe-cachoeira, que um dia fora libertada pelos pica-paus da ira proferida por Arekuaion. Está vendo lá em cima? É Mapuí, a cobra-arco-íris, liga de água e céu. Coaciaba, o beija-flor encantado, alça seu primeiro voo em meio à revoada de borboletas, que guardam a ancestralidade dos que já se foram para dançar a liberdade. Vagalumes-estrelas pincelam o firmamento infinito desse nosso imaginário. Pirilampos, vagalumes, lindos. Tão pequeninos no ar, no alto e distante, indo e vindo. São constelações de alegria.

3.
Não é possível saber se a infinitude do rio fez rebentar em mim uma febre delirante de sensações. Impossível descrever em palavras toda a beleza e esplendor que habitam a margem abaixo. Mas eu lhe pergunto: como cursar essas correntezas sem fluidez, numa água que não para, pilotado pelo rio que zonzeia a mente? Como –explique o senhor – conseguir me alevantar desse delírio em direção à terra firme? Águas, terras e lembranças do imaginário: o Amazonas engole tudo, seu moço. Sei apenas de uma coisa: submergido, me tornei outro homem.

Neste grande caminho inundado pela abundância, o rio se apressa. Ele ouve o chamado do pajé, o único que tem o poder de levar e trazer ribeirinhos da fundura das águas doces. É chegada a hora de regressar. No trilho das águas profundas, um grito ressoa. Lanças, arcos e flechas se erguem na mata. É o xamã curandeiro que encanta a aldeia nos rituais da pajelança. Está na hora de o pajé nos trazer de volta ao mundo.

Depressa, enxugue os olhos e venha ver. Vem ouvir o som que vem da floresta. É dia de ritual em Tupinambarana, terra dos tupinambás. Ilha da fantasia banhada pelo Amazonas. Os parintintins estão em festa. Venha se alumbrar com um povo que revive, num grande espaço a céu aberto, todas as lendas depositadas no Eldorado encantado. Autoridade maior, o pajé brada aos céus para invocar os espíritos e profetizar, em pleno coração amazonense, o esplendor sobrenatural do santuário indígena. Somente ele, xamã encantador de mundos, pode reviver em terra os mistérios depositados no fundo do rio. Só o pajé detém a magia do cachimbo de tauari.

Nunca conheci coisa mais bonita. Não tem como separar o sagrado do real. Ouviste? São novamente os segredos dos antepassados, profanados desde os tempos imemoriais e que habitaram o espaço amazônico no decorrer do tempo. Os mesmos segredos depositados no segredo das águas e que hoje são cantados por multidões em sons de toadas, tocadas e cantadas de um jeito caboclo. Sinta seu corpo no calor dessa emoção. Num transe, a pajelança pede permissão ao senhor dos animais e ordena a metamorfose dos bichos: que dancem as cabas, as sumaumeiras, as arapongas e tucandeiras! Linda morena, com rosto de criança, gira sem parar ao sabor do vento. Entoam-se os tambores para embalar cunhãs-porangas, tuxauas, sinhazinhas e porta-estandartes. Evocam-se espíritos ancestrais junto dos brincantes em busca de paz na terra entre os homens de boa vontade. Em frente à batucada, chega animada a turma mais querida do boi-bumbá. Ê,vem brincar no boi, que essa dança não pode parar!

Rio caudaloso, de águas barrentas, que banha a ilha dos tupinambás. Eldorado um dia inundado, Eldorado que hoje emerge das águas – Parintins é o novo paraíso, a Cidade Encantada um dia submersa no Amazonas e que ano a ano é erigida no coração da floresta, tal qual a vitória-régia nos rasos da Amazônia. Parintins, essa meiga flor amazônica! Um Eldorado içado pela força do povo, verdadeiro guardião desse inventário de imagens, vozes e falas guardadas na sabedoria ancestral.

Parintins é a estrela das águas, a nova Cidade do Ouro. Reescreve o imaginário coletivo do povo ribeirinho recontando as lendas zeladas pelos pajés guerreiros. Preservar a cultura é preservar o próprio homem. Caprichoso e Garantido, azul cintilante e carmesim encarnado, vão duelar na arena. Azulados da Francesa se confrontam ano a ano com os perrechés da Baixa do São José na Festa do Boi-Bumbá para reativar memórias indígenas sobre nosso mundo. Em Parintins, os deuses encantados suplicam: não deixe que dizimem esse nosso chão.

Seus espelhos d’água resplandecem história. E a mágica que surge de dessa arte deságua num rio-mar de encantos. Assistir ao espetáculo de Parintins é adentrar novamente o labirinto delirante do Eldorado subaquático. A ancestralidade nos dá essência como verdadeiros filhos desse chão. Somos todos igaras dessas águas. Somos entes da selva e seiva das matas. Somos todos Amazônia. Parintins é história viva, que carrega o coração do povo em defesa da cultura e da tradição. O boi-bumbá segue até hoje o rastro deixado pelas lendas do pajé, cuja missão maior é proteger nossa terra. Viva o boi-bumbá! Viva o folclore brasileiro!

Mas é bom o senhor prestar bastante atenção. Em 2018, essa disputa ganha um novo tom. São bois por demais “Unidos” numa só bandeira: a vermelha-urucum e branca-marupá das terras de Padre Miguel. Ouve só esse canto guerreiro que vem lá da Vila Vintém.

Aí a nossa noite começa.

A Milton Hatoum, pela inspiração.
A João Gustavo Melo, pelo norte.
A Joãosinho30, pela liberdade ao delírio.

Carnavalesco: João Vitor Araújo
Pesquisa e texto: Daniel Targueta

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
BACHELARD, Gaston. “A poética do devaneio”. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
BOFF, Leonardo. “O Casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil”. Rio de Janeiro : Mar de Ideias, 2015.
FARIAS, Júlio Cesar. “De Parintins para o mundo ouvir: na cadência das toadas dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido”. Rio de Janeiro: Litteris, 2007.
HERKENHOFF, Paulo. “Pororoca: a Amazônia no mar”. Rio de Janeiro: MAR – Museu de Arte do Rio, 2014.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. “A queda do céu: palavras de um xamã yanomami”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
LOUREIRO, João de Jesus Paes. “Cultura amazônica: uma poética do imaginário”. Belém: Cejup, 1995.
MINDLIN, Betty. “Mitos indígenas”. São Paulo: Ática. 2006.
PRANDI, Reginaldo. “Encantaria Brasileira: O livro dos mestres, caboclos e encantados”. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
QUENTIN, Laurence; REISSER, Catherine. “Às margens do Amazonas: no Brasil, os caboclos entre o Brasil e a Venezuela, os ianomâmis no Equador, os otavalos”. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
RODRIGUES, João Barbosa. “Poranduba amazonense, ou kochiyma-uaraporandub, 1872-1887”. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger& Filhos, 1890.
SUZANO, João de Matos. “Brincando de boi em Parintins”. Manaus: Grafiisa, 2006.
VAL, Vera do. “A criação do mundo e outras lendas da Amazônia”. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

PALAVRAS AOS COMPOSITORESE COMPOSITORAS DA VILA VINTÉM:

O enredo de 2018 da Unidos de Padre Miguel reflete um profundo respeito às tradições indígenas e amazônicas. Nosso tema busca a criatividade que sabemos existir em todos vocês. Entregamos as palavras nesta sinopse para que o samba da UPM espalhe, para muito além, as histórias do povo caboclo e indígena do Norte. São histórias e estórias gravadas no mais fundo do pensamento. Contos que, assim como o Festival de Parintins, protegem a floresta e seus habitantes. Nosso desfile quer que todos conheçam o que os antigos ensinaram. Afinal, são palavras guardadas desde sempre, desde os tempos mais remotos. Viajem, portanto, nas sugestões da sinopse. Criem e se inspiremno que há de mais belo para nossa aguerrida escola.Oferecemos aqui um pequeno glossário com explicações de alguns termos utilizados no texto. Mas, por favor, não se sintam na obrigação de reproduzir toda a linguagem local nos seus hinos. Sejamos todos andarilhos desse delírio tupi-parintintin para levar a Vila Vintém ao tão almejado título. E que Mearatsim, o Senhor da Música na mitologia tupari, os ilumine para que tenhamos um belo samba-de-enredo. Desejamos a todos boa sorte!

Macucauá – Ave amazônica com piado característico
Beiradão – Forma como os ribeirinhos chamam a beira do Rio Amazonas
Vagação – Viagem
Encante – Mundo encantado
Sucuriju – Sucuris
Yurará – Como são chamadas as tartarugas pela população indígena ribeirinha
Mamorana – Árvore amazônica com folhas e flores muito amplas
Manoas– Tribo indígena amazônica
Passadiços – Corredores
Boiuna – Figura mitológica indígena toma a forma de cobra e mora no fundo do rio
Tucumã – Palmeira que atinge até 15 metros de comprimento
Tronco tupi – Nome de uma toada parintintin
Cujubim – Pássaro que canta para a manhã chegar
Naoretá – considerada a mãe das cachoeiras, na visão dos povos tuparis
Arekuaion – o pajé tupari que amaldiçoou Naoretá
Coaciaba – O primeiro beija-flor, segundo a oralidade das tribos mauês
Tupinambarana – Ilha rodeada pelo Rio Amazonas
Parintintin – Forma como são chamados os nativos de Parintins
Tauari – madeira extraída de grandes árvores da floresta amazônica
Alumbrar –Deslumbrar(-se), maravilhar(-se)
Toada –Música do boi-bumbá
Caba – Vespa amazônica
Sumaumeira – Árvore gigantesca das florestas inundáveis
Araponga –Ave amazônica cujo canto lembra um som metálico
Tucandeira–Formiga amazônica carnívora, agressiva, dotada de grandes ferrões
Cunhã-poranga – Termo usado em Parintins para mulher bonita da tribo
Tuxaua –Chefes das tribos, caboclo da Amazônia
Sinhazinha –Um dos personagens de destaque na apresentação dos bois em Parintins
Porta-estandarte – Responsável por conduzir o estandarte do boi. Simboliza a tradição e a sabedoria indígenas
Carmesim –Vermelho
Azulados – Nome dos torcedores do Boi Caprichoso
Francesa – Referência ao Largo da Francesa, concentração em Parintins dos torcedores do Caprichoso
Perrechés – Nome dos torcedores do Boi Garantido
Baixa do São José – Reduto em Parintins do Boi Garantido
Igara – espécie de canoa leve, feita de tronco de árvore
Urucum – Sumo vermelho extraído do urucuzeiro e comumente usado pelos índios para pintar o corpo
Marupá – Árvore de madeira branca
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por Equipe Carnavalize


O Carnavalize compareceu à Carnavália Sambacon e ficou levemente perdido em meio a tantas celebridades e figuras importantes do samba. A feira, nas suas últimas edições, se firmou como ponto de encontro de quem faz a festa nos mais diversos segmentos, num ambiente descontraído, fora da tensão dos desfiles oficiais. Aproveitando isso, fizemos uma série de entrevistas com diferentes segmentos das escolas e as dividimos em grupos. Hoje será a vez dos casais, depois vocês vão conferir carnavalescos e coreógrafos de Comissão de Frente, dando seu depoimento de como está a preparação para 2018. 

Conversamos com dois casais de mestre-sala e porta-bandeira que formarão novos pares, para 2018, na Sapucaí. O primeiro deles, Amanda Poblete, a mais nova contratada da São Clemente, e Fabricio Pires, que já era mestre-sala da escola. Os dois falaram sobre o entrosamento na dança e, também, sobre o trabalho com o carnavalesco Jorge Silveira, que, assim como Amanda, estreará pela preto-e-amarelo da zona sul no ano que vem:

Amanda Poblete e Fabrício Pires (Foto: Rafael Arantes)

Carnavalize: Qual é a expectativa pela estreia com o Fabrício, seu novo par, numa escola como a São Clemente?
Amanda Poblete: A princípio já posso dizer que estou muito feliz, estamos caminhando bem com o trabalho, já estamos vendo um resultado legal e há uma sintonia. Estamos ensaiando desde a semana seguinte que fomos anunciados e nossa expectativa é a melhor possível. Queremos fazer um trabalho diferente, mas que, ao mesmo tempo, não fuja do tradicional, então estamos com planos bem bacanas. 

Carnavalize: O Jorge também estreará na São Clemente em 2018. Já houve alguma conversa ou definição sobre sua fantasia? Como está sendo trabalhar com ele?
Amanda Poblete: a roupa está linda! E pro próximo ano, ele fez uma fantasia que é literalmente pra mim e pro Fabrício, qualquer outra pessoa não poderia vestir. Ficamos muito realizados e felizes, foi uma surpresa maravilhosa, porque até então ele não tinha nos deixado ver nada, e um dia ele abriu o desenho e ficamos muito surpresos. Fomos ensaiar logo depois e ficamos 1 hora namorando o desenho porque estava lindo demais! O desenho já está no ateliê e espero que a confecção comece logo; estou ansiosa. Quero ver de perto, de verdade, tudo está muito legal. Não só a nossa fantasia, mas todo o carnaval. Cada vez que vou na sala do Jorge no barracão tem uma coisa diferente, uma pesquisa nova... é um cara talentosíssimo, então toda a São Clemente está muito feliz. 


Carnavalize: E pra você, Fabrício? Como está sendo receber a Amanda, sua nova parceira, e o Jorge na São Clemente, já que você está há mais tempo na escola? O que podemos esperar desse novo casal?
Fabrício: Então, a chegada de ambos trouxe uma nova motivação e uma maneira nova de desenvolvermos o trabalho. O Jorge idealizou para nós um figurino que é exatamente nossa cara e representa muito bem a nova São Clemente que estará na avenida em 2018. Tenho absoluta convicção que todos poderão ver na avenida um casal leve, moderno e muito aguerrido de acordo com que nosso enredo promete.

(Foto: Divulgação/Cubango)
Já na Série A, Thais Romi e Diogo Jesus formam o novo casal da Acadêmicos do Cubango, que anunciou o casal há pouco mais de uma semana. Thais teve um ano sabático em 2017, ficando de fora da passarela do samba; já Diogo, foi mestre-sala da campeã Mocidade Independente de Padre Miguel. Os dois formam o novo casal da verde-e-branco niteroiense e contaram sobre as expectativas da volta e da nova parceria:

Carnavalize: Como é estrear a dupla na Cubango? Como funcionará o trabalho de vocês? Já há algo preparado? 
Diogo: Estamos contando com o respaldo do nosso coreógrafo João Paulo Machado, que vem nos ajudando e ensaiando desde o começo dessa nossa loucura. Estamos pegando também uma Cubango que passou por uma renovação da diretoria, contando com um novo presidente. Na verdade, ele já era da escola, mas presidindo há uma visão diferente e é uma parceria nova, muito envolvente e com muita ousadia. Tenho certeza que vai dar muito certo. 

Diogo Jesus permaneceu os últimos três carnavais na Mocidade Independente. (Foto Rogério Neves)

Carnavalize: Thais, como foi a experiência de ficar de fora do último carnaval e qual é a felicidade de estar de volta, ainda mais em uma escola que está crescendo? 
Thais: Não foi uma experiência tão boa porque eu gosto de dançar, é algo que faz parte de mim. Por outro lado, amadureci muito comentando a respeito dos casais nos ensaios técnicos em um site de carnaval; assim, pude observar melhor e ter uma visão diferente. Agora, voltar em uma escola nova, com uma parceria diferente, é um recomeço, ainda mais porque fiquei muito tempo dentro da mesma escola. Estou muito animada, a parceria está dando muito certo, nossos ensaios estão sendo muito produtivos e acredito que o resultado será muito bom.
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