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Carnavalize

Por Juliana Yamamoto
Olá, seguidores do Carnavalize, tudo bom? A quase-repórter está de volta e a entrevistada de hoje vem lá da Escola do Povo! Tive o grande prazer e a honra de conversar um pouco com a primeira porta-bandeira do Vai-Vai, Paulinha Penteado! 

Paulinha é filha de Fernando Penteado, diretor de carnaval da Escola do Povo. Desde pequena, Paulinha frequentava os ensaios da escola, mas o seu destino já estava traçado para se tornar uma das maiores porta-bandeiras da história do Vai-Vai e da Terra da Garoa. 

No carnaval de 2005, defendeu o segundo pavilhão da agremiação, mas o futuro reservava grandes surpresas. Para o carnaval de 2006, após a saída do primeiro casal, Paulinha foi promovida e teve o grande desafio de defender o primeiro pavilhão. Em 2018, ela comemorará 12 anos como primeira porta-bandeira do Vai-Vai ao lado do seu mestre-sala, Pingo. 

Na entrevista, pude conversar um pouco sobre sua longa história, sua parceria ao lado de Pingo e também os desafios que enfrentou por ser da família Penteado e substituir Renatinho e Fabíola. Também conversamos sobre sua forte relação com o Vai-Vai e também seus desfiles mais marcantes. 

Numa entrevista bem proveitosa, pude perceber o quanto Paulinha é uma mulher incrível, de opinião forte e, sem dúvidas, muito dedicada e simpática - o pavilhão da Saracura não poderia estar em melhores mãos.

Agradeço a Paulinha por toda atenção ao site Carnavalize! Torcemos muito pelo seu sucesso ao lado do Pingo. Também agradeço a assessoria de imprensa do Vai-Vai, em especial ao Mauricio Coutinho, que deu toda assistência no dia da entrevista. 

Espero que curtam a entrevista. Quaisquer sugestões e críticas são bem-vindas! Um beijo da quase-repórter e até a próxima!

OUÇA A ENTREVISTA ABAIXO:
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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando dos antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro desfile de informações sobre a apresentação escolhida.

Hoje, vamos passar todos detalhes de um detalhe marcante da Unidos da Viradouro em seus áureos anos no grupo especial carioca sob a batuta do carnavalesco Joãosinho Trinta, a apresentação de 1998 que contava a história de "Orfeu, o negro do carnaval".


"Lá, onde a vida faz a prece"
Os antecedentes da apresentação

Em 1997, a Viradouro conquistava seu primeiro título no Grupo Especial apenas seis anos depois de chegar à "elite" da festa. Com a assinatura do genial Joãosinho Trinta, a escola de Niterói havia se consolidado com uma nova potência dos desfiles. Por isso, toda a preparação para 1998 foi cercada de muita expectativa e cobrança. 


Já no pré-carnaval, o grande samba da escola fazia sucesso no rádio e na mídia da época. Os ensaios em Niterói também se tornaram eventos a parte, disputados e grandiosos, já que o campeonato acabou chamando mais componentes e trazendo mais visibilidade para a agremiação. Além disso, a expectativa e o assédio midiático aumentaram quando Cacá Diegues escolheu a escola e seu desfile como cenário para o filme sobre Orfeu, que estava sendo gravado. O protagonista Toni Garrido e outros atores da produção desfilariam na vermelho e branco para a captação de imagens para o longa-metragem.

"É na magia do sonho que eu vou"
Os delírios de João Trinta
A Comissão de Frente da agremiação. (Foto; Widger Frota)
Quarta a desfilar da segunda de carnaval, a vermelho e branco de Niterói já começou a levantar a Sapucaí no grito de guerra do intérprete Dominguinhos do Estácio. A Comissão de Frente, comandada por Jussara Pádua, em dourado e nuances avermelhadas, representava a força divina do deus Apolo, que trazia o simbolismo do sol, a partir da figura daquele que era o pai de Orfeu, este último deus da música, talento dado por seu pai. No lugar da lira, símbolo musical da Grécia Antiga, os bailarinos traziam em suas vestes o violão, já dentro do hibridismo do enredo proposto por Joãosinho. 

Para explicar o enredo proposto por Joãosinho Trinta, é necessário uma bíblia a parte. A narrativa é uma das mais complexas e geniais do carnavalesco. Assim como em outros escritos enredográficos do artista, esta se dividia em diferente camadas, o que, a grosso modo, significa que eram três enredos em um só. Na mais profunda, havia o mito grego de Orfeu, deus grego da música e filho de Apolo; na segunda, havia a peça musical de Vinícius de Moraes, que atualizava o mito para os dias atuais, tendo como cenário uma favela carioca. Orfeu se transformava num sambista, compositor de uma agremiação que levaria à Avenida a história do carnaval, fechando assim a terceira camada do enredo. Um verdadeiro meta-enredo, de dois Orfeus, o grego e o carioca, além da história momesca. Ufa!

O abre-alas do desfile (Foto; Revista Manchete)
Apesar da complexidade, o enredo se desenvolveu bem e perfeitamente nas belas e gigantescas alegorias propostas por João, que iam sobrepondo as diferentes narrativas em níveis distintos. O enorme abre-alas trazia um favela carioca com ares de Olimpo, onde Djavan encarnava o personagem principal. As alas que seguiam alternavam o carnaval, a vida nos morros cariocas e a Grécia em figurinos volumosos e monumentais. A segunda alegoria era batizada de "O talento de Orfeu" e mostrava o cotidiano do personagem do morro como compositor de samba e seu talento com as mulheres, "seduzidas pela sua inspiração". Estes dois setores foram marcados por cores quentes, como o vermelho e o laranja. 

Apesar de requisitado, o galã facheiro só tinha olhos pra Eurípedes, seu verdeiro amor, que vinha representada na terceira cena da apresentação, fazendo a paleta do desfile entrar em tons mais pasteis e leves. O carro do amor entre os dois marcava o início de uma relação com os quadros e diversas formas de brincar carnaval ao longo da história, o primeiro a ser representada ali eram os Ranchos. Seguindo na história, o amor entre os dois se vê destruído com a morte de Eurípedes, na Grécia, onde ela é picada por uma víbora, enquanto na versão carioca uma bala perdida a atingia, "o zombido da fatalidade que atinge a cidade", esse lado triste da história era representado na folia através dos Bailes de Veneza. 
A alegoria "Grandes Sociedades: o reino de Hades" de Joãosinho Trinta (Foto: Widger Frota)

A chegada da parte mais densa da apresentação fez o carnavalesco optar por tons mais escuros, obviamente. Consternado com a morte de sua amada, Orfeu então mergulha no inferno de Hades para tentar recuperar a alma de sua amada. A alegoria que sintetizava o setor fazia alusão, por sua vez, à folia das Grandes Sociedades. Chegando ao sexto setor, o clima mais depressivo continuava: entregue à desilusão, Orfeu se lança na farra e cai no bloco das bancantes, ferozes mulheres que, furiosas por não terem o amor do belo, o jogam num "abismo da saudade", onde ele "voa para eternidade". Apesar da morte trágica do compositor, seu samba-enredo é aclamado e sua escola é coroada campeã "num desfile magistral", levando para a penúltima alegoria da agremiação "Corsos: Louvação de Orfeu". O desfile recuperava o tom animado em seu último quadro, contando também com cores mais alegres e da bandeira da escola, encerrando o desfile no oitavo carro, que celebrava a festa e a favela carioca, com a escultura de um grande Orfeu Negro.

"Tem no seu talento reconhecimento, num desfile magistral"
A explosão vermelho e branca em ritmo funk

O chão da Sapucaí se tingiu de vermelho, a cor do coração, e foi testemunha do amor viradourense. Inchada de componentes após o título, a escola foi embalada por um samba contagiante, que ganhou a voz de Dominguinhos do Estácio, quicou, avassalou e mobilizou a Avenida, convidando o público para fazer parte daquele coro. Se hoje notamos que os componentes mais se assemelham a soldados marchando que a brincantes carnavalescos, Orfeu era totalmente o oposto; desfilantes animados e soltos empolgavam as arquibancadas, que chegavam junto para a festa que acontecia ali, na pista. Mesmo com alguns problemas que conduziram a notas abaixo da pontuação máxima em harmonia e evolução, a Viradouro conquistou incontáveis corações e foi aclamada sob os gritos estrondosos de bicampeã. 
A última alegoria com um gigantesco Orfeu (Foto Revista Manchete)
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Andrezinho e Patrícia, enfrentou dificuldades durante a apresentação. Ao bailarem, o chapéu de Patrícia caiu em frente a uma cabine de jurados, e chateados, o casal se retirou e se posicionou junto à bateria. A porta-bandeira, que estava grávida de cinco meses, não escondeu o desapontamento e a frustração. Na quarta de cinzas, durante a abertura dos envelopes, os jurados mostraram impiedade e descontaram pontos do quesito. 

A bateria de mestre Jorjão que, no ano anterior, inovou com a bossa funk, uma paradinha que arrebatou as arquibancadas, mas que foi gongada por críticos e jurados. Para 1998, a expectativa ficava por conta da manutenção ou volta da novidade do ano anterior. Com a escola já embalada pelo aclamado samba, mestre Jorjão aguardou o delírio do público na segunda passada do refrão principal e deu, por mais um ano, start naquela paradinha que fez a galera delirar: era mais uma integração entre o samba-enredo e o funk, irmãos genuinamente cariocas. Outra proposta da bateria da escola ficou por conta do baião, que também incendiou as arquibancadas, mas não os jurados, que viam as inovações como negativas para as baterias e para o gênero. Na hora de entrar no recuo, a orquestra popular da Viradouro manobrou de costas, algo que está sumindo dos desfiles na atualidade.


"E o samba do negro orfeu, tem um retorno triunfal"
O resultado injusto e consagração da apresentação

A quarta de cinzas reservou momentos de tensão para a escola de Niterói, apesar da confiança de que aquele tinha sido um desfile marcante e histórico, para ficar gravado nas páginas da agremiação. Mas, justamente como disse o poeta e parafraseou a Viradouro, tristeza não tem fim; felicidade, sim. A Viradouro começou perdendo pontos e a queda maior veio no quesito mestre-sala e porta-bandeira, onde os jurados canetaram o casal por conta da queda do chapéu da porta-bandeira Patrícia. O samba-enredo, tão elogiado, também foi muito penalizado e a taça escapou das mãos da campeã do ano anterior. O caneco foi dividido entre Mangueira e Beija-Flor, deixando um quinto lugar de consolação para a alvirrubra. No sábado das campeãs, o protesto dos que não entenderam o julgamento foi conduzido com uma faixa escrita "POR QUÊ?".
A faixada levada nos desfiles das campeãs.
"Orfeu, o Negro do Carnaval" é, sem dúvidas, uma das maiores apresentações da Viradouro em sua histórica passagem pelo Grupo Especial. Apesar de não faturar o campeonato, a força da agremiação e sua sinergia provaram que o amor estava mesmo no ar, embalado pelo talento de Joãosinho, na plástica, além de Jorjão e Dominguinhos, na música, conquistando assim o coração de todos. Infelizmente, a felicidade chegou ao fim com a injusta posição alcançada no julgamento, mas que não tira o brilho da apresentação que se tornou uma das marcas da vermelho e branco na Sapucaí. Em 2018, exatos vinte anos após tudo, a gente torce para que ele seja um dos motores para a Viradouro retornar ao lugar especial onde fez história. Ser Viradouro é a personificação da paixão.
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Por Felipe de Souza
O carnaval de São Paulo, inegavelmente, é um dos que mais cresce e ganha espaço no Brasil. Apesar disso, é impossível ignorar a relevância que a festa momesca tem em terras cariocas. Para ilustrar tamanho crescimento da folia e a união entre os carnavais, Felipe de Souza, Beatriz Freire e Jéssica Barbosa se reuniram para detalhar samba e enredo das 27 escolas que passarão pelo Anhembi e pela Marquês de Sapucaí em 2018. Os textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas, seguindo o resultado do último carnaval.

"Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?!"
Paraíso do Tuiuti
"Não sou escravo de nenhum senhor.
Meu Paraíso é meu bastião,
Meu Tuiuti, o quilombo da favela
é sentinela da libertação."
Depois de um 2017 para se esquecer, a Paraíso do Tuiuti manteve Jack Vasconcelos em seu elenco na busca de ficar no Grupo Especial em 2018. Com um enredo crítico tratando sobre a escravidão e sua persistência na pós-modernidade, a escola acerta em cheio na escolha do tema. 

Apesar da manutenção do carnavalesco, algumas peças do escrete da escola de São Cristóvão se alteraram. No microfone da amarela e azul, Wantuir deixou o cargo para, primeiramente, Nino do Milênio. Meses depois do anuncio de Nino, Grazzi Brasil e Celsinho Mody, revelações do carnaval paulistano, foram contratados para reforçar o carro de som da escola. Além disso, houve a chegada de Danielle Nascimento e Marlon Flores, preenchendo o quesito mestre-sala e porta-bandeira nas vagas deixadas por Giovanna e Marquinhos. 

O samba:
A Tuiuti foi, certamente, muito feliz ao escolher encomendar seu samba para esse carnaval. Apesar das críticas por conta da falência da ala de compositores da escola, é notória a superioridade do hino da escola para 2018 em relação ao do ano anterior. 

Tendo como autores Moacyr Luz, Cláudio Russo, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir, a escola tem um samba digno de Estandarte de Ouro, sendo, também, um dos mais comentados desse pré-carnaval. Aliás, é impossível destacar apenas um trecho do hino da amarela e preta, pois todos passam lindamente a mensagem que o enredo busca: a escravidão não acabou!

No domingo de carnaval, a Tuiuti será a quarta escola a desfilar. Vale a pena conferir o desfile pela mensagem do enredo, pelo samba, pela festa! 
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Por Beatriz Freire
O carnaval de São Paulo, inegavelmente, é um dos que mais cresce e ganha espaço no Brasil. Apesar disso, é impossível ignorar a relevância que a festa momesca tem em terras cariocas. Para ilustrar tamanho crescimento da folia e a união entre os carnavais, Felipe de Souza, Beatriz Freire e Jéssica Barbosa se reuniram para detalhar samba e enredo das 27 escolas que passarão pelo Anhembi e pela Marquês de Sapucaí em 2018. Os textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas, seguindo o resultado do último carnaval.

"Um coração urbano: Miguel, o Arcanjo das Artes, saúda o povo e pede passagem"
Unidos da Tijuca
"O povo do samba chamou
e fez de você um poema de amor.
Na minha bandeira azul e amarela,
mais uma estrela, Miguel Falabella"
Depois de um triste carnaval em 2017, a Unidos da Tijuca tenta dar seus passos para seguir em frente, rumo a uma nova página para o desfile de 2018. Em um ano que parece ser o momento da escola se reencontrar, o pavão amarelo e azul  homenageará Miguel Falabella na Sapucaí. A trajetória do artista parte da sua infância, passa pelo teatro, pelos seis grandes papeis e criações e se relaciona até mesmo com o carnaval, já que foi carnavalesco do Império da Tijuca por dois anos da década de 90. A dança das cadeiras promoveu duas alterações: Mauro Quintaes se despediu da Comissão de Carnaval, que agora conta com Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo. A segunda mudança foi a saída de Julinho e Rute, casal que defendeu a agremiação por quatro carnavais, e a chegada de Alex Marcelino, vindo da Portela, e Jack Pessanha, que era segunda porta-bandeira do Salgueiro e também já foi a segunda porta-bandeira da Unidos da Tijuca. A expectativa fica pelo que a escola vai propor na Avenida, depois de um carnaval de tristezas, e por ser a agremiação que abrirá a segunda noite de desfiles do Grupo Especial carioca. 


O samba:

Há alguns bons anos, com exceção de 2016, a Unidos da Tijuca apresenta os chamados sambas funcionais. Sempre muito ligados às sinopses e buscando descrever de forma básica o enredo, a Unidos da Tijuca chegou a conquistar notas dez no quesito com obras que não eram suas melhores, mas que rendem muito na Avenida, principalmente pela força do canto da comunidade. Em 2018, a disputa foi vencida pela parceria de Totonho, Mart'nália e seus amigos. Mais uma vez, é um samba cheio de referências aos feitos do homenageado e não consegue uma posição entre os melhores e mais elogiados da safra do próximo carnaval. De toda forma, a comunidade parece dar conta do recado em seus ensaios de rua, e algumas passagens, como o refrão do meio, ganham destaque no conjunto do samba. 

A Unidos da Tijuca, como dito anteriormente, será a primeira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval.
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Assim como o Carnavalize, esse novo espaço aqui no site surge para dar voz a apaixonados, que escrevam, pesquisam e estudam o carnaval. Quando tivemos a ideia do site, em primeiro lugar, queríamos expor nossas opiniões e visões de como os jovens enxergavam e gostariam de contar e encontrar materiais sobre o carnaval. Sendo assim, iniciaremos essa série de textos do nosso público, entenda-se como um "espaço aberto" e sinta-se à vontade para nos mandar seu texto, crônica, artigo, o  que for. Com essa iniciativa, buscaremos dar voz a pessoas, que sempre quiseram divulgar escritos sobre a festa, mas nunca tiveram um lugar - assim como nós antes do site. 


Por Thaís Velloso

"O corte de verbas para o desfile das escolas de samba, que provocou um debate majoritariamente interno sobre o assunto, deixou claro que as medidas tomadas pelo prefeito — e aqui podemos citar algumas: a ação da Guarda Municipal na Pedra do Sal, impedindo que houvesse a tradicional roda de samba no local; o corte do apoio financeiro à procissão de Iemanjá, que acontece há treze anos em Copacabana; a ausência de investimento na Casa do Jongo, que fechou as portas recentemente por falta de recursos — constituem um projeto de anulamento cultural caracterizado pela intolerância religiosa e pelo preconceito com a cultura negra.
Não me sai da memória o dia em que Tia Nilda, baiana da Mocidade, falou emocionada sobre sua relação com a escola no RJTV, em matéria que foi ao ar em fevereiro do ano passado. Afeto ignorado pelos que desconhecem ou discriminam, o sentimento de torcedores e componentes pela escola de samba, e tudo o que dele emana, é fator que potencializa a confiança e a coragem de enfrentar a dureza da vida e de se reinventar no mundo a partir de um toque de agogô. É encantada por esse afeto que a Mangueira insiste, no esplêndido da poesia, em resgatar nosso respeito, derrubando o cordão de um blocódromo que afinidade nenhuma tem com a festa.
O argumento que insustentavelmente sustenta o discurso sobre o dinheiro negado às agremiações, e cabe lembrar que as do Acesso ainda não receberam nenhum investimento do que foi acordado pela prefeitura, cai ainda mais em contradição devido ao evento organizado em Copacabana no sábado passado, para o qual houve o apoio financeiro que viabilizaria os ensaios técnicos. Evidentemente, a preocupação do prefeito é manter a ordem por meio dos seus próprios imperativos, baseados na não aceitação de outras crenças e manifestações culturais alheias à sua visão de mundo mas vivenciadas por enorme parte da população carioca.
Foi também a pretexto de manter a ordem que, no fim do século XIX e início do XX, membros da elite social criticaram e desqualificaram a Festa da Penha e criminalizaram o samba, por exemplo, tornando manifestações culturais de origem negra, como o batuque e a capoeira, elementos de repressão. O viés preconceituoso que causava essa repressão naquela época é o mesmo que molda, atualmente, um governo que propositalmente afeta a festa popular e caminha na contramão de uma sociedade plural que desenrola a vida no giro da roda da saia da baiana e que se reconhece na lágrima de um integrante da Velha Guarda.


Diante desse cenário, a esperança é verde e rosa: erguendo a bandeira do samba, a Mangueira mostra que pecado é não brincar o carnaval. E assim teremos uma Sapucaí que louva o botequim, o samba, o jongo, a diversidade sexual e de gênero, o bloco sem cordão, os santos e as santas — em especial Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem já foi chutada por um pastor da Universal em um programa de televisão. Uma louvação, portanto, à pluralidade e à subversão, com o objetivo de “desobedecer pra pacificar”, de mãos dadas com a letra da Mocidade. Neste Carnaval todos nós somos Mangueira, meu senhor."

Quer participar dessa nossa coluna e ter seu texto estrelando o próximo "Da Galera"? Mande o seu arquivo para o e-mail contato@carnavalize.com ou nos mande em nossas redes sociais: Facebook e Twitter. Assim que recebermos o texto, nosso equipe o avaliará, sendo aprovado, entraremos em contato. Não perca tempo, mande-nos!
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