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Carnavalize


O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na lista principal. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Por Vitor Melo, com colaboração de Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco
Artes e visual: Vitor Melo

Dos nove quesitos avaliados hoje em dia, chegamos ao único deles, que é, desde os primeiros desfiles, submetido a julgamento: o samba-enredo. Mostra-se, portanto, não só o peso histórico do gênero que nomeia e caracteriza as escolas, mas explicita a importância quantitativa intrínseca dos sambas em relação ao espetáculo geral apresentado. Por outro lado, é inegável dizer que o gênero samba-enredo teve sua importância relegada com a supremacia do visual durante bons anos. Esse cenário certamente se relativizou nos últimos anos, quando grandes obras começaram a romper as convenções estabelecidas e intensificar sua comunicação com o grande público. Prova disso foi a dificuldade que nossa equipe teve para entrar em um consenso e listar os 10 melhores sambas e as menções honrosas desta década pelo grande número de inspiradas obras - fato que não talvez não se repetisse em recortes temporais anteriores.

Com a busca interminável pelo “Ita perdido” e a tentativa pela replicação do sucesso salgueirense com o explosivo samba de 1993, o gênero samba-enredo enfrentou uma grave “crise estética” do início dos anos 90 até os primeiros anos desse nosso recorte, como definem Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas no livro “Samba de enredo:  história e arte”. Nessa monotonia criativa, sobraram sambas estruturalmente idênticos e faltaram composições que pudessem furar a bolha carnavalesca e se posicionarem como grandes obras do gênero. Tais características foram subvertidas notoriamente nos últimos anos, o que colocou em discussão não só o estilo das obras, mas todo o seu processo de feitura. Não faltaram debates sobre os prós e contras dos formatos das disputas de samba, o surgimento das encomendas como uma espécie de salvação das agremiações e muito outros pormenores que vêm sendo discutidos ao longo dos últimos anos. Como a missão desse panorama é grande e trabalhosa, vamos cortar o papo e partir já para a lista que falará de tudo isso por si mesma, pois o primeiro integrante pode ser considerado, sem dúvidas, o divisor de águas e a virada de chave desse panorama.

Confira um panorama mais detalhado sobre as transformações do gênero na última década neste ensaio da Série Sambas.

Obs.: Preparamos uma playlist para você se sentir por dentro de cada samba dos listados nesse texto, com exceção ao samba do Império da Tijuca de 2013, que não possuí faixa no Spotify. Clique aqui para ouvir.


 Portela 2012
E o Povo na Rua Cantando é Feito Uma Reza, Um Ritual
Compositores: Luiz Carlos Máximo, Wanderley Monteiro, Toninho Nascimento e Naldo

Que “Madureira sobe o Pelô” - como ficou, de fato, conhecido a obra musical portelense de 2012 - é um divisor de águas para o gênero sambas-enredo, não há dúvidas. Tanto que podemos concordar também que foi quem deu sobrevida e colocou a Portela nos trilhos para que pudesse voltar a ser a escola competitiva como registra os áureos momentos de sua história. Seguindo a cartilha, o carnavalesco recém-contratado Paulo Menezes apresentou uma elogiadíssima sinopse à época e inflou as expectativas para a safra da Majestade do Samba. Querendo esquecer a turbulência administrativa dos últimos carnavais, essas expectativas não precisaram esperar por muito tempo para serem concretizadas. Nas primeiras audições da safra, já havia um samba que se despontava como franco favorito desde o início da disputa e o qual foi coroado como um fenômeno da internet, introduzindo nesta conversa um importante mecanismo de divulgação e consolidação de favoritismo durante o período das disputas de samba.


Concebido com um primor de letra e uma estrutura totalmente inovadora diante do cenário citado na introdução da lista, o samba contava com três refrães e também um fio condutor que, além de cumprir sua função de forma majestosa ao contar o enredo, era genuinamente portelense: Clara Nunes. Tiro e queda! Mesmo que com certa apreensão pelos compositores e pelos fãs da obra por não saberem se a escola optaria por essa quebra ao padrão dos sambas da época, a parceria felizmente se sagrou campeã. Com um pré-carnaval longe do Portelão, que passava por uma reforma, os ensaios de rua da escola causavam grande euforia. Com essa energia, a Portela fez um desfile com garra e com total destaque ao seu chão, cantando, com emoção e a plenos pulmões, o melhor samba daquele ano – uma composição à altura das maiores da safra da azul e branco de Madureira, e como há tempo não se via por lá. A Portela terminou aquele carnaval em 6º lugar, com muitos méritos à qualidade da obra, e afastou de vez a triste memória do incêndio que assolou a agremiação, além de Grande Rio e União da Ilha, no carnaval precedente.



Unidos de Vila Isabel 2012
Você Semba de Lá, Que Eu Sambo de Cá - O Canto Livre de Angola
Compositores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens


Ainda falando desse essencial ano de reinvenção do gênero, vamos comentar uma obra que já apareceu nesse panorama da década que estamos fazendo, destacando o protagonismo não só dessa composição, mas também do desfile que ela embalou. (“Os 10 desfiles mais marcantes do Grupo Especial Carioca”, clique aqui para ler). A parceria multicampeã de André Diniz, vencedora de sete das dez disputas dessa década da Vila Isabel, contou com a chegada de peso do imperiano Arlindo Cruz naquele ano. O grupo, que tinha a incumbência de contar os laços afetivos que ligam Brasil e Angola, apresentou também, como acima, algo que rompesse estruturalmente com o que se encontrava em voga no quesito. A parceria optou por apenas um refrão clássico, que acertava em cheio ao brincar com o título do enredo, evidenciando forte influência do ritmo semba de Angola no nosso samba, “Semba de lá/Que eu sambo de cá”.

O reforço de peso que chegou à ala de compositores da Vila naquele ano, Arlindo Cruz. Foto: Rodrigues/Riotur

O samba incorporava Kizomba, retomando o inesquecível carnaval de 1988 da escola, em uma busca satisfatória de evocar sua comunidade e inflamar o chão da terra de Noel. Outro ponto inventivo da parceria foi propor um falso refrão delicioso, “Reina ginga ê matamba (...)”. Além disso, finalizando os recursos criativos da parceria, os compositores ousaram ao adicionar um contracanto na segunda do samba, iniciado em “Pelos terreiros (Dança, jongo e capoeira)” e finalizado por “A nossa Vila (Agradece com carinho)”, que teve um ótimo funcionamento no desfile, embora arriscado por agregar complexidade a fluidez da harmonia. Se não podemos dizer que esse samba coroou o campeonato da Vila Isabel em 2012, ficando ali no bairro vizinho com a Unidos da Tijuca, pode-se afirmar que, ao menos, ele figura instintivamente as memórias dos sambistas ao relembrar os expoentes do gênero.


Unidos de Vila Isabel 2013
A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo
Compositores: Martinho da Vila, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Tunico da Vila

Vamos de dobradinha! O povo de Noel começou a década com o pé na porta quando o quesito foi fazer samba bom. Dessa vez, com duas modificações na parceria que vencera no ano anterior, saíram Artur das Ferragens e Evandro Bocão e entraram ninguém menos do que Martinho e Tunico da Vila. Traduzindo o enredo da professora Rosa Magalhães, a obra musical é de uma sutileza ímpar e a forma poética como foi composta evidencia a narrativa proposta perfeitamente. Prova disso é a capacidade de nos transportar à rotina e ao cotidiano dos homens do campo. Estruturalmente, a obra não apresenta invenções tão marcadas quanto no ano anterior, mas prima por uma combinação poderosa de letra e melodia excepcionais, reafirmando todo o lirismo possível contido no enredo.


Dito isso, a grande sacada que diferenciou a letra, e deu ares criativos a ela, foi um bacana jogo de palavras, ação-consequência, no refrão principal entre os verbos “plantar/colher”. Se elencar as passagens melódicas inspiradíssimas desse samba ou, até mesmo, citar os brilhantes versos dele é chover no molhado, também é indispensável citar a força que ele adquiriu pela internet. Ao viralizar, sendo assistido e ouvido milhares de vezes no pré-carnaval, figura ainda hoje como um dos mais vídeos mais assistidos do gênero. Toda a repercussão ratifica a grandiosidade dessa obra que não só foi a trilha sonora do campeonato incontestável da Vila Isabel, mas também é o primeiro dessa lista que conseguiu a proeza de furar a bolha do carnaval e se manter ativo após a festa de Momo no imaginário popular. Vale comentar também a força desta canção ao colaborar criativamente e propiciar mudanças no enredo original da professora Rosa Magalhães. A carnavalesca, em algumas entrevistas naquele pré-carnaval, confirmou a mudança em sua ideia inicial, alinhando o desenvolvimento do tema com figuras construídas pelo samba.


Renascer de Jacarepaguá 2015
Candeia! Manifesto ao povo em forma de arte!
Compositores: Moacyr Luz, Teresa Cristina e Cláudio Russo


Muitos consideram a encomenda de samba-enredo maléfica ao gênero em si e ao surgimento de novos sambistas e compositores no geral. Veremos ao decorrer da lista, entretanto, que esse sistema recorrentemente utilizado pelas escolas tem gerado ótimos frutos, mesmo que por um caminho controverso. A escola de Jacarepaguá, a homenagear um dos fundadores da Majestade do Samba, Candeia, precisava de uma composição à altura do nome em questão. Por isso, a Renascer optou por repetir o sistema de encomenda que funcionara no carnaval de 2014, com a inclusão de Teresa Cristina à dupla de compositores Moacyr Luz e Cláudio Russo. Mais do que funcionar, a agremiação desfilou com um dos maiores sambas de sua história.   


Com uma melodia impressionante desde os primeiros versos, a letra se inicia de forma arrebatadora e impecável. Chegando ao primeiro refrão, o inspirado trio de autores optou por uma dupla de curtos versos bisados, evocando o homenageado e iniciando a também belíssima segunda estrofe de forma bastante agradável melodicamente. Com uma levada valente na medida certa, a letra inspiradíssima – com destaque para os versos “Não basta ter inspiração/Pra cantar samba é preciso muito mais/A rima suada pra ganhar o pão/Lamento em louvor aos orixás” – encaminhando de forma valente para o refrão principal de uma obra impecável. Com muitos problemas financeiros durante a preparação para o carnaval, os quesitos musicais da agremiação foram o pilar fundamental para que a escola desfilasse com alegria e garra, impulsionando a apresentação e garantindo um digno 9º lugar e a permanência no grupo de acesso. Teresa Cristina, uma das compositoras do samba, também atuou no carro de som da Renascer. Responsável por emocionar todos os fãs de Candeia e do samba, a música também se emocionou na avenida, gerando uma bela imagem na arrancada da escola.

Unidos do Viradouro 2016
O Alabê de Jerusalém, a saga de Ogundana!
Compositores: Paulo César Feital, Zé Gloria, Felipe Filósofo, Maria Preta, Fabio Borges, William, Zé Augusto e Bertolo

Outro samba dessa lista que nasceu fadado ao sucesso. Com uma repercussão rápida e batendo a casa de milhares de acessos nas primeiras semanas de divulgação, ainda como samba concorrente, dava as caras uma parceria com gongá fixado na MPB e que viria render ótimos frutos pro gênero carnavalesco. O grupo era encabeçado por Paulo César Feital, amigo de Altay Veloso, um dos autores da sinopse que gerou o “Alabê” viradourense daquele carnaval. Eles apresentaram uma obra singular, que já despontava não só para se consagrar como um dos melhores do ano, mas também como destaque da década. A parceria escolheu por iniciar o samba pedindo que o padroeiro da escola, Xangô, sincretizado na letra também como São João Batista, junto a Oxum, guiasse e desbravasse o caminho que viria no enredo e em toda impecável letra do samba.


Com uma variação melódica envolvente ao decorrer da obra, ela realizou com primazia a missão de sintetizar a luta expressa na narrativa épica proposta pelo enredo. A segunda do samba salta aos olhos pelo encantador casamento entre melodia e letra com destaque para os seguintes versos: “Ó, meu Brasil/Cuidado com a intolerância/Tu és a pátria da esperança/À luz do Cruzeiro do Sul/Um país que tem coroa assim tão forte/Não pode abusar da sorte/Que lhe dedicou Olorum”. Eles são  cirurgicamente precisos em narrar o enredo e encaminham o samba para um refrão poderoso, no qual se evocava novamente a dupla divina de orixás da cabeça da letra para o refrão principal, mexendo com o brio do componente. Vale ressaltar ainda na parceria a presença de Felipe Filósofo. Ele também se destacou como compositor inventivo na década e assinou grandes obras na conterrânea da vermelho e branco, a Acadêmicos do Sossego.


Renascer de Jacarepaguá 2017
O Papel e o Mar
Compositores: Claudio Russo, Moacyr Luz e Diego Nicolau


Com a manutenção do sistema de encomendas, e a ratificação do sucesso dessa fórmula, a Renascer aparece pela segunda vez na nossa lista e se consolida como uma das eminentes escolas de sambaços na década. Dessa vez, o samba também é assinado por um dos intérpretes da escola à época: Diego Nicolau. Ao descrever o fictício encontro entre dois guerreiros negros que se encontravam nas trincheiras da mesma causa social, a escritora e catadora de papel Carolina Maria de Jesus e o almirante negro João Cândido, o samba dispensou a sinopse, não divulgada pela escola, e expôs o enredo de forma poética, lírica e ímpar. A parceria optou por iniciar a letra na primeira pessoa, e a escritora dirige-se de forma comovente e poética ao mestre-sala dos mares com esta emocionante sucessão: “Eu fiz dos versos a fortaleza pra morar/Sou a filha da miséria/Você nasceu pra guerrear”.

Os intérpretes da Renascer, Evandro Malandro e Diego Nicolau, que é um dos compositores do samba. Foto: Gabriel Santos/Riotur
Seguindo no desenrolar do enredo, a canção conta com uma dupla de curtos versos bisados, seguidos por um falso refrão de felicidade única, mostrando o caráter criativo da obra e introduzindo a mudança de pessoa fundamental para entender a narrativa proposta. Nos próximos versos, entra em cena João Cândido, narrado em 3ª pessoa, mas igualmente poético à primeira do samba. A composição é de uma felicidade fantástica e parece crescer e crescer a cada verso que se sobrepõe. A obra-prima chega ao ápice no refrão principal, com a retomada da interlocução de Carolina de Jesus e a conversa com João. Em uma pergunta da intelectual, o samba se finaliza de forma fenomenal: “Ó, mestre sala/Quem te ensinou a bailar?/Um marinheiro sabe o balanço do mar/A chibata não estala mais/Quantos sonhos guarda o velho cais”. Os versos fazem referência ao clássico da MPB "O mestre-sala dos mares", compostos por Aldir Blanc e João Bosco, eternizado na voz de Elis Regina. No desfile, a composição cresceu ainda mais graças à atuação entrosada dos intérpretes da vermelho e branco, Diego Nicolau e Evandro Malandro. A ala musical da Renascer garantiu uma boa colocação defronte de uma plástica bem mais modesta. 



Beija-Flor 2017
Iracema, a virgem dos lábios de mel
Compositores: Claudemir, Ronaldo Barcellos, Maurição, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos

Se a Beija-Flor não foi uma escola com contínuos destaques de samba-enredo na frutífera década ao carnaval, seu samba de 2017 é uma belíssima exceção. A obra foge completamente ao padrão da escola de melodias pesadas e letras densas de outrora, registrando sua importância. A composição possui ousadias que podiam muito bem não terem funcionado, como um refrão de impressionantes oito linhas e a repetição da palavra "amor" em um mesmo verso. O que poderia soar como pobreza estética, no entanto, ganhou uma cadência melódica envolvente, que ajudou na imprescindível função em não deixar a letra se arrastar. Além disso, em relação ao teor criativo, a parceria optou por um refrão do meio com quatro repetições do mesmo verso (“Pega no amerê, areté, anamá”), outra solução ousada que teve adesão maciça dos fãs do gênero e se tornou uma das marcas características da composição. Ainda bem que arte não precisa seguir regras!


A jandaia, de fato, cantou no alto da palmeira e sagrou o samba da parceria de Claudemir, Ronaldo Barcellos, Maurição, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos como um dos melhores da década. Diferentemente da ideia inicial proposta pela comissão de carnaval nilopolitana, a parceria foi para outro lado narrativo e abordou termos, episódios e figuras marcantes do livro Iracema, o enredo da Beija-Flor. Os compositores contrabalancearam positivamente a sinopse da escola daquele ano - a qual, por sua vez, tinha um viés mais lúdico e não abordava elementos das linhas de José de Alencar. A melodia que se tornou um pouco mais cadenciada para atender ao estilo do consagrado Neguinho não foi um fator negativo, como alguns esperavam, mas sim um dos pontos altos da apresentação. O andamento do samba na pista se harmonizou de forma satisfatória com o também ousado visual apresentado pela agremiação.


Mocidade Independente de Padre Miguel 2018
Namastê... A Estrela Que Habita em Mim Saúda a Que Existe em Você
Compositores: Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Denilson do Rozário, Carlinhos da Chácara, Alex Saraiça e M. Meiners

O compositor Paulo César Feital, que encabeçou a parceria campeã da Viradouro em 2016, volta à nossa lista em outra composição marcante e que, dessa vez, contou a presença de seu amigo e consagrado músico-compositor Altay Veloso. Com uma ótima sinopse, assinado pelo jornalista e escritor Fábio Fabato, o grupo de compositores apresentou uma eminente obra, que cativava desde a primeira audição o ouvinte de forma rápida e instintiva. A linha melódica fugia ao lugar comum, repetindo a equação do ótimo samba também da Mocidade do ano anterior. A letra elencava e situava juntos símbolos e imagens da Índia e do Brasil, ao mesmo tempo que evocava capítulos e passagens da história da própria Estrela Independente. O único porém dessa composição foi o verso “Deite e Holi”, trocadilho com o festival indiano. Após críticas, a passagem foi trocada a tempo e não comprometeu a primazia dessa obra durante o desfile.


De cara, dá pra perceber que esse samba é coisa séria quando seu primeiro verso inicia com "Khamadenu”. A expressão foi encaixada perfeitamente na composição, em uma construção que não poderia sair de qualquer parceria - afinal, adaptar uma seleção vocabular desse tipo em um samba-enredo exige muita competência. Brincadeira à parte, faz-se necessário a citação dos versos “Do sal à doce liberdade/Há tempo ainda! /Desobedecer pra pacificar/Como um dia fez a Índia!” em uma poética alusão à Marcha do Sal indiana de 1930 e brincando com a sinestesia de uma dualidade de sensações, “Do sal à doce liberdade”. Encaminhando-nos para o fim, vê-se como todo o samba em questão é pensado de forma gradativa até chegar ao clímax do refrão principal, traçando um paralelo entre Nova Déli e Brasil com uma linda imagem entre o céu indiano e o brasileiro: “Bendita seja a Santíssima Trindade!/Em Nova Délhi ou no céu tupiniquim/Ronca na pele do tambor da eternidade/O amor da Mocidade sem início, meio e fim!”. Emocionante, o samba fez a Estrela assinar sua importância no quesito musical na década comentada.


Paraíso do Tuiuti 2018
Meu Deus, Meu Deus! Está extinta a escravidão?
Compositores: Cláudio Russo, Moacyr Luz, Jurandir, Zezé e Aníbal

Próximos de chegar ao fim, falaremos de um dos sambas que mais tiveram repercussão fora da bolha do carnaval nesse passado recente - seja pelo posicionamento pertinente do enredo em relação ao contexto social no qual vivemos, seja pela exuberância poética e pela força melódica presentes nessa composição. Como mais um dos sambas encomendados dessa lista, podemos ratificar a importância e a necessidade da discussão dos caminhos a serem seguidos pela festa no que tange ao gênero que a embala. Além das pratas da casa Jurandir, Zezé e Anibal, a parceria contou com os nomes de peso de Cláudio Russo e Moacyr Luz, e apresenta desde os primeiros versos todo o esforço dos autores para nos entregar algo à ura do tema pedido. E conseguiram fazê-lo em toda composição.


O samba é narrado na primeira pessoa, dando pessoalidade e contornos dramáticos que enriqueceram a narrativa exposta e protagonizaram ainda mais o teor poético da obra. Abordando o aspecto criativo do samba, destaca-se a sucessão de dois refrães (de meio) de quatro versos pujantes, os quais denotam a força de sua letra, propondo novas soluções estruturais. Chegando ao refrão principal, a parceria retoma um trecho do título do enredo e encabeça de forma cirúrgica a mensagem que sintetiza o cheque feito pelo carnavalesco e pela escola em relação às sequelas contemporâneas da abolição da escravidão brasileira: “Liberte o cativeiro social!”.  Esse primor embalou o melhor desfile da trajetória do Paraíso do Tuiuti e levou a escola à melhor posição de sua história, o vice-campeonato do Grupo Especial carioca daquele ano.

Mangueira 2019
História pra Ninar Gente Grande
Compositores: Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Márcio Bola, Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo

“O samba fala das maiorias, e não das minorias. A maioria das pessoas não é príncipe, princesa ou rainha. A maioria são os 'heróis de barracões'”. Dessa forma, a letrista e compositora do samba da Mangueira de 2019, Manu da Cuíca, define um dos principais trunfos desse samba antológico: o autorreconhecimento. Ao abordar heróis à margem da oficialidade que não estão nos retratos tradicionais, a composição assinada por uma parceria considerada azarona da disputa foi ganhando corpo desde o primeiro minuto após o áudio do samba ter sido vazado na rede de mensagens WhatsApp. Tendo como grande aliada a internet, os compositores viram o nascimento de fãs que se sentiam representados por aquele discurso pertinente ao enredo e pelos retratos do cotidiano expostos nas lacunas sociais apontadas pela proposta do carnavalesco, cirurgicamente sintetizadas no samba. Na disputa, o samba contou com uma repercussão orgânica e de contorno monumental, contando com uma torcida de peso formada por comentaristas de carnaval, artistas fora da bolha e políticos. O percurso foi trilhado até que a zebra fosse consagrada o samba da Estação Primeira para o carnaval de 2019.


Um fato interessante desse samba é o caminho inverso que ele percorreu. Como fazia a justa e pertinente menção à Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada, ele captou atenção e furou a bolha carnavalesca antes do desfile ocorrer. Por isso, gerou não só um maior interesse popular pelo desfile da Mangueira, como também certa curiosidade e prévio conhecimento do samba de uma forma intensa como há tempo não se via. Com a sua melodia valente, a letra é precisa ao citar heróis da história “alternativa” brasileira. A adesão popular, predominantemente carente ao samba-enredo, encontrou nessa obra o combo perfeito para exponenciar ainda mais o protagonismo da verde e rosa como uma das principais instituições culturais desse país, além de ratificar essa década como um marco da oxigenação do gênero samba-enredo. Tirou toda a poeira dos porões!


Menções honrosas:

Nunca foi tarefa fácil fazer essa lista, confessamos! Muitas obras importantes e marcantes ficaram de fora, mostrando como foi frutífera a década para o quesito recordado. Para essa seleção, vale destacar, tentamos escolher as composições que aliam qualidade melódica e inovações em sua narrativa. Dessa forma, não necessariamente foram escolhidos os mais populares e marcantes de cada ano.

No debate de obras que propuseram novas estruturas e formatos em letra e melodia, não pode ficar de fora também toda a discussão em torno dos processos de escolhas das obras musicais. Da principal delas, a encomenda é assunto já conhecido, visto que mesma criticada, gerou três obras presentes na lista. Fato é que em 2020 muitas escolas propuseram novas formas de disputa aliadas nesse debate. O que não falta é assunto para muito debate!

É notório, de qualquer forma, a bela renovação do gênero e a quantidade de obras cheias de qualidade. Exatamente por isso, como dez era um número pequeno, separamos uma outra seleção de menções honrosas com mais outras dez obras que por pouco não figuraram entre os escolhidos finais. 


Mangueira 2011: O Filho Fiel, Sempre Mangueira
Compositores: Aílton, Cesinha Maluco, Alemão Xavier, Te e Baiano

Império da Tijuca 2013: Negra, Pérola Mulher
Compositores: Samir Trindade, Serginho Aguiar, Araújo, Walace Menor e Alexandre M

Salgueiro 2014: Gaia - A vida em nossas mãos
Compositores: Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa

Imperatriz Leopoldinense 2015: Axé Nkenda! Um Ritual de Liberdade
Compositores: Marquinho Lessa, Zé Katimba, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna

Vila Isabel 2016: Memórias de 'Pai Arraia' - um sonho pernambucano, um legado brasileiro!
Compositores: André Diniz, Martinho da Vila, Martinália, Arlindo Cruz e Leonel
Intérprete: Igor Sorriso

Cubango 2017: Versando Nogueira nos cem anos do ritmo que é nó na madeira!
Compositores: Gabriel Martins, Belo, Rafael Coutinho, Robson Ramos, Sergio Careca, Dema Chagas, Tricolor, Vinicius Xavier, Thiago Farias e Duda

Mocidade 2017: As Mil e Uma Noites de uma 'Mocidade' prá lá de Marrakesh
Compositores: Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Dadinho, Zé Paulo Sierra, Gustavo, Fábio Borges, André Baiacú e Thiago Meiners

Unidos de Padre Miguel 2017: Ossain: o poder da cura
Compositores: Samir Trindade, W. Corrêa, Claudio Russo Marquinhos, Alan Santos, Jr. Beija-Flor Carlinhos do Mercadinho e Cabeça do Ajax

Santa Cruz 2019: Ruth de Souza – Senhora liberdade. Abre as asas sobre nós
Compositores: Samir Trindade, Elson Ramires e Júnior Fionda

Grande Rio 2020: Tatalondirá - O Canto Do Caboclo No Quilombo De Caxias
Compositores: Derê, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro e Toni Vietnã

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos no samba-enredo. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos sambas do Rio de Janeiro dessa década?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
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Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!



Voltar no tempo e recordar grandes sambas que marcaram a história no samba paulistano é sempre um prazer, mas pode ser também uma nova oportunidade para conhecer e se apaixonar por canções que você talvez nunca tenha ouvido ou não saiba da existência, mas não ficam devendo em nada em poesia e beleza. O interesse pelo carnaval de São Paulo cresce a cada ano, mas pouco se conhece ainda sobre a história dos desfiles da Terra da Garoa, suas apresentações e sambas mais marcantes antes da virada do século XXI. 

Como a gente espera que todo mundo já tenha aprendido que São Paulo faz samba também, e muito bem, a gente separou uma lista de sambas clássicos e belíssimos da folia desde antes do Anhembi. Vamos passear por sambas de diferentes escolas, anos, enredos, estilos e muito mais. E aí, será que você conhece todos os sambas desse texto?  Se não conhece, venha em São Paulo para ver...

Colorado do Brás 1988 – Quilombo Catopés do Milho Verde

"Me abraça e faz as peles mais unidas 
Que beleza
Não criou raça, 
Deus apenas criou vidas"



"Quilombo espalhou suas raízes, e fez sua semente germinar, em ricas terras mineiras, do milho verde vem o canto pelo ar..." Se no Rio de Janeiro, o centenário da suposta "abolição da escravatura" rendeu obras também inesquecíveis, em São Paulo não foi diferente. Se por si só, enredos sobre a história do povo africano já apresentam uma força peculiar por toda a história vivida por eles, imagine num ano especial como esse. 

A trajetória de luta por liberdade e sofrimento pelo simples fato de ser diferente do que se julgava ser normal na época (e infelizmente até nos dias de hoje) é uma mancha na história desse país, mas se tem algo que esse samba conseguiu imprimir é a felicidade do povo negro em forma de letra e melodia. Porque sim, apesar de todo sofrimento vivido eles, nunca perderam essa essência de ser felizes, de cantar, dançar e de manter viva a esperança de dias melhores. A letra dessa obra composta por Dom Marcos, Edinho, Rona Gonzaguinha e Xixa passeia de maneira emocionante pelo movimento da diáspora, trazendo o cotidiano dos escravos na plantação e sua resistência através das manifestações culturais, fazendo por fim um clamor pelo fim do preconceito.


Rosas de Ouro 1992 - "Non Ducor Duco", qual é a minha cara?

"Meu sabiá, ô ô ô ô 
Soltou o trinar, cantou, cantou
Deu um show na passarela
Levantou a galera
Bateu asas e voou..."



"Bom é recordar, bom demais." Assim se inicia um dos sambas mais especiais e tradicionais da Sociedade Rosas de Ouro em sua história no carnaval paulistano. O enredo em homenagem a São Paulo, especialidade da casa nessa época, embalou um dos principais e mais lembrados títulos da agremiação. O samba tem toda uma cadência especial ao falar da capital, contando o enredo em forma de uma declaração de amor ao seu lugar, relembrando a nostalgia de coisas que se perderam no processo de evolução da cidade, de pequeno vilarejo a uma das maiores cidades do país.

A letre, composta por João do Violão e Miltinho, passeia ainda pelos principais logadouros do lugar, tendo tom crítico ao já avisar da poluição que atingia a metrópole, tanto no verso "o ar, cadê meu ar?" e idealizando um futuro melhor para o famoso rio da cidade: "Tietê, quero um dia beber você". Toda a bela poesia foi entoada por uma performance marcante de Royce do Cavaco, o sabiá da Roseira. O sabiá deu um show na passarela, levantou a galera, bateu asas e voou para um lugar especial na memória do sambista....    

Gaviões da Fiel 1995 - Coisa boa é para sempre

"Me dê a mão, me abraça
Viaja comigo pro céu 
Sou gavião, levanto a taça
Com muito orgulho pra delírio da Fiel"


Você achou que São Paulo não tinha o seu "Ita"? No melhor estilo de animação e empolgação do lendário hino salgueirense, lhes apresentamos um dos maiores sucessos do carnaval de São Paulo.  É um daqueles sambas que caíram no gosto popular de cara, se tornando famoso antes mesmo do carnaval, sendo cantado pela arquibancada antes, durante e depois do desfile - e até os dias de hoje nos estádios de futebol. 

A letra, composta por Grego, além de leve, divertida e festiva, te leva a relembrar e viajar pelo universo infantil, dos tempos de criança, não deixando de lembrar os antigos carnavais e a celebrar a Gaviões da Fiel que celebraria 25 anos no carnaval daquele ano. A canção fez tanto sucesso que rompeu as barreiras do Anhembi e foi regravada pelo mestre Jamelão, num belo gesto de valorização do carnaval paulistano por um dos maiores intérpretes do país. E como diz o mesmo: o que é bom pra sempre fica guardado na memória....  

Leandro de Itaquera 1989 – Babalotim: a História dos Afoxés

"Ô, ô,ô... Eu vim de longe, cruzei mares, quem diria
Ô, ô, ô... Sou afoxé irradiando energia"



Este é aquele samba clássico da história do samba paulistano, se você ainda não conhece essa obra-prima, agora é uma ótima oportunidade. Um samba-enredo irresistível de ponta a ponta, com refrães deliciosos e que te convidam a cantar e sambar. A letra é de beleza e poesia ímpares, o que engrandece ainda mais a obra. Brilhantemente interpretado por Eliana de Lima, o hino fez muito sucesso antes mesmo do desfile e na hora da apresentação oficial mobilizou as massas presentes, comandado não só pelos vocais marcantes da lendária interprete paulistana, mas pelo público presente na Avenida. 

A obra composta por Thiago Lee, Grupo Relíquia, Sandrinha e Clarice é mais uma a contar a história da diáspora africana da maneira mais valente e poética possíveis, sendo coroada por um dos refrões mais inesquecíveis da folia paulistana, o que fez toda diferente a ajudar em eternizar essa canção. O marco de Babalotim foi tão forte na história da Leandro de Itaquera e do carnaval paulistano que foi recentemente reeditado pela agremiação. Axé, Babalotim!


Vai-Vai 1998 – Banzai Vai-Vai

"Me beija na boca, amor 
Me faz um chamego eu quero sentir
Balançando a massa, é Vai-Vai que passa 
Sacudindo o Anhembi"



Achou que ia faltar a escola mais tradicional e conhecida do carnaval de São Paulo? Achou errado! E pra isso, apresentamos mais um grande sucesso popular e que literalmente "sacudiu o Anhembi". É bem verdade que o Vai-Vai, como a escola popular e vitoriosa que é, coleciona uma discografia das mais revelantes e marcantes do carnaval brasileiro como um todo. Mas essa composição de 1998 tem sua força especial por vários motivos. É aquele samba com a essência do componente do Bixiga, com aquele jeito Vai-Vai de ser. 

A letra composta por Zeca, Zé Carlinhos e Afonsinho é um xodó da agremiação da Bela Vista, sendo o samba entoado em todos os ensaios e em todas as apresentações nas quadras das coirmãs. E como todo samba antológico que se preze, teve um intérprete que emprestou a força necessária aos versos da obra para eternizá-los, e nesse caso foi o inesquecível Thobias da Vai-Vai. A obra relatou com perfeição o enredo que levou o Criolé, mascote da escola, numa viagem pelo Japão, desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, que fez história na alvinegra. 


Cabeções da Vila Prudente 1981 - Do Iorubá ao reino de Oyó

"Xangô Ô Ô Ô Ô
Valei-me meu pai, valei-me Xangô"


Esse talvez seja o samba menos comentado da lista, de uma escola menos conhecida ainda, mas não por isso menos belo e marcantes ao ouvir a primeira vez. A Cabeções de Vila Prudente teve uma trajetória curta e com apenas duas passagens no Grupo Especial até agora, mas em 1981 deixou sua marca no samba paulistano, mesmo amargando um décimo lugar no grupo principal daquele ano. A escola que recentemente voltou à ativa após enrolar a bandeira nos brindou com esse hino da folia nacional e que se tornou um clássico.

Sambas de enredo sobre orixás são sempre especiais pela sua força ancestral, e com esse não poderia ser diferente ao contar a história de Xangô, o rei africano que se tornou divindade nas religiões afro-brasileiras. Apesar de curta para os padrões atuais, a letra composta por Dom Marcos não deixa faltar beleza e força em seus versos, cumprindo muito bem sua função de emocionar e inspirar. Valei-me meu pai, kaô!  


Camisa Verde e Branco 1982 - "Negros maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko"

"Ôô, ôô, a nossa escola
Enaltece a negra gente
Que nunca ficou chorando 
Sempre viveu cantando, fingindo contente"




"Achei uma bola de ferro, presa a ela uma corrente, tinha um osso de canela, deu tristeza em minha mente..." O que esperar de um samba que já começa dessa forma? É uma baita de uma pedrada na alma. Ao contar a dor da diáspora, o samba-enredo da Camisa Verde e Branco de 1982 evoca belas imagens da dor e sofrimento do trânsito entre África e Brasil. Chegando até os dias de hoje, o samba faz um verdadeiro clamor por igualdade racial, além de uma justa exaltação ao povo negro. 

A obra composta por Ataíde tem um refrão principal duplo, que dá um toque muito singular ao samba, sem falar que ele em sua totalidade é bastante valente em forma de letra e melodia. Exaltando a importância da negra raça também na contemporaneidade, a marcante canção deixa uma pergunta que até hoje ecoa na nossa sociedade: "Não nos leve a mal / Por que só no triduo de Momo/ Que o negro é genial?." Afinal, "negro paga imposto, negro vai a guerra, negro ajudou a construir a nossa terra..."

1970 - Desfile de carnaval no Vale do Anhangabaú.

Relembrar sambas antológicos do Carnaval é sempre um passaporte para uma viagem no tempo, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Listá-los é sempre tarefa árdua e que presume uma seleção, que com certeza não agradará a todos. Entretanto, são diversos os sambas que poderiam também estar presentes nessa lista, obras como: Gaviões da Fiel 1994, Mocidade Alegre 1980, Vai-Vai 1982, Nenê de Vila Matilde 2002 e muitos outros. 

Seja exaltando a beleza e a importância do povo negro, seja passeando pelos velhos tempos e por continentes distantes, o samba paulistano tem sua riqueza e importância na cultura nacional. Afinal, seu carnaval é também patrimônio da nossa gente. Esperamos que tenham curtido os sambas, que tenham descoberto novos hinos favoritos e que se aventurem a pesquisar e conhecer mais sobre a história do Carnaval de São Paulo. Até a próxima!   

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A Estação Primeira de Mangueira é tão grande que nem cabe explicação. O portelense Paulinho da Viola sintetizou bem a dimensão que a instituição cultural verde e rosa tem para si, diante de sua relevância para o carnaval e para o Rio de Janeiro. Cabe abrir, porém, exceções e tentar compreender e explicar as envergaduras da escola e da escolha de seu hino para o carnaval de 2019, definido sob quadra lotada na madrugada do último domingo, já dia 14 de outubro.

(Crédito: arte do logo oficial da escola adaptado para a capa desta matéria)


“História para ninar gente grande” é o tema autoral do carnavalesco Leandro Vieira para o desfile do ano que vem, propondo-se a exaltar outra faceta do país senão aquelas contadas nos livros de educação convencional, senão uma história que é majoritariamente branca, europeia, caucasiana, masculina, machista e normativa. Assim, uma história que demonstra a possibilidade de se conhecer Dandara e Luísa Mahin, mulheres negras fundamentais à luta abolicionista e contra a escravidão. História que revela os Malês, escravos negros de ascendência islâmica que proporcionaram uma revolta decisiva para o Brasil. Que exalta os índios Tamoios. Uma parte do país que enaltece os Cablocos de julho, símbolos da guerra tramada pela independência do país à nação lusitana, e os que resistiram aos anos de ferro como chumbos de tão fortes. E Marielle Franco, a personificação da luta pelos Direitos Humanos e por uma sociedade igualitária e emancipatória, vereadora negra, da favela, executada em 14 de março, com uma investigação que até hoje não achou quem mandou matá-la, nem quem matou Anderson e a vereadora.

Luiz Antônio Simas é historiador e escritor sobre o país, o Rio, o cotidiano, o samba, as macumbas e a folia - e tudo isso junto. Por isso, compartilha da visão e do discurso do Brasil que a Mangueira se dispõe a conceber e realizar. Para ele, a escolha da agremiação foi acertada:

“A vitória desse samba é uma prova que escola de samba é uma instituição que, ao mesmo tempo que negocia, resiste. Foi um samba que fugiu ao controle da própria Mangueira porque ele ultrapassou o limite da escola, ganhou as redes sociais, ganhou os fãs de samba-enredo e os fãs de MPB”, comenta.

Simas explana a ideia de que a excelência da obra não passa apenas por sua perspectiva social e política, mas também por sua riqueza como samba de enredo, denominando-o como brilhante. Lembra, também, das questões da torcida:

“Foi uma torcida espontânea. Nesse sentido, ele era um samba tão melhor que acabou se impondo à própria lógica das disputas. Tomara que ele seja uma referência. Nós temos hoje um grande samba, e esse samba é o pulo de virada para o carnaval 2019”, observa.

Perguntado sobre sua influência na temática da escola, Simas comenta que é amigo do Leandro e que dialogam, mas que o enredo e a perspectiva são do carnavalesco, descrito por Simas como um “intelectual do Rio de Janeiro e do Brasil da maior relevância”.

Leandro, à frente da Mangueira nos três últimos carnavais, é o responsável pela criação da sinopse e de toda estética da agremiação. Para o carnavalesco, o enredo tem muito a dizer, também, sobre a conjuntura do país:

“Se houver Brasil depois das eleições do segundo turno, o enredo da Mangueira é um enredo que dialoga com esse cenário. Ele seria o contrário do que chega ao poder”. E acrescenta: “Um país que não conhece sua história, ou ele repetirá a história ou ele não encontrará representatividade nunca na história que é contada. O enredo da Mangueira é um enredo de representatividade, um enredo que quer eleger pessoas, que quer eleger heróis populares, quer dar representatividade a alguma lutas, principalmente a lutas individuais”.

Leandro também exalta que o tom de tristeza não está presente no seu enredo, embora boa parte dos heróis homenageados tenham sido assassinados:

“É um olhar apaixonado para isso, é um protesto com alegria, não é um protesto triste”, diz. O artista conclui falando que o enredo “quer mostrar que a luta vale a pena, quer mostrar um Brasil que vale a pena, um Brasil que se orgulhe do Brasil. E um Brasil que possa lutar, um Brasil que possa resistir. A importância do enredo da Mangueira para esse cenário é mostrar que lutou, independente se a luta tenha dado certo ou não. Mas que houve alguém que tenha lutado”.

Enquanto o discurso de Luiz Antônio Simas é comprometido em exaltar outra faceta do país e enquanto Leandro Vieira criou “História para ninar gente grande”, Deivid Domênico é um dos autores da obra que tanto chamou atenção à verde e rosa. O compositor também observa a importância do posicionamento da Mangueira no olhar histórico:

“Em 1988, a Mangueira já falava sobre a realidade ou a ilusão sobre a escravidão. O Leandro propôs um enredo muito pertinente pro momento do país, que vive um momento muito odioso. E a gente sabia que a gente precisava ter muito cuidado para fazer esse samba porque a gente precisava falar de coisas sérias, de verdades que não foram ditas. Alertar que a História se repete, e que se a gente não tomar cuidado ela se repetirá, mas de uma maneira delicada, fraterna”, revela.

Além disso, acerca da necessidade de disseminar consciência de classes entre a sociedade, Domênico diz que “o samba, como instituição, é resistência, e precisa alertar isso; é a função dos artistas, é a função dos sambistas, é a função do carnavalesco Leandro Vieira, que é, pra mim, o maior inspirador disso tudo que está acontecendo”.

Mais do que a narrativa adotada nos discursos de Simas, mais do que a criação do enredo e do samba por Leandro e Domênico, o maior recado da noite de ontem está na escolha do samba pela Mangueira. Movida por apoio de formiga, de torcedor a torcedor, pelo reconhecimento de identidade por parte dos corpos que estavam ali presentes e dos avatares que disseminaram a mensagem e a qualidade do samba pelas redes sociais - em tempos que avatares propagam fakenews, correntes e boatos para tentar favorecer candidatos e mudar os rumos das eleições. Os corpos e os avatares fizeram a Mangueira escolher o samba que cita nominalmente as figuras que serão exaltadas, o samba de uma parceria não-hegemônica, o samba que pode ser fortemente adaptado à situação em que se colocam o país e o estado do Rio de Janeiro. O povo de lá clama, assim, que os corpos e os avatares escolham o ziringuidum da democracia no segundo turno. Sabem o retrato que quer ver no Brasil e nas urnas. 

E a agremiação faz ecoar, também, Marielle. Presente. Eternizada na história verde e rosa e na história da verde e rosa, no enredo da Mangueira. Hoje e sempre.

Ouça a gravação da parceria vencedora:

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A #SérieSambas vai trazer todo o universo do gênero que comanda a nossa festa, desde os grandes clássicos, passando por seus compositores e intérpretes. Sempre às segundas e quintas-feiras de outubro. Fiquem ligados!



Apesar dos discursos pessimistas e com tom nostálgico, o samba-enredo segue se renovando e se mantendo vivo através de décadas. Dizem que "o samba agoniza mas não morre", porém, desde que as escolas de samba surgiram, elas negociam e brincam com os conceitos de tradição e modernidade. É verdade que desde sempre o espírito "na minha época era melhor" assombrou as escolas e, nos dias atuais, as vozes se potencializam e esse discurso se intensificou. No entanto, apesar das agremiações atravessarem uma crise que dialoga com o momento social e político do país e, principalmente, da cidade do Rio de Janeiro, os sambas-enredos vivem uma fase de renovação, transformação e intensa discussão, desde o início dessa década. 

No meio de tantas tensões e contingências, o samba resiste e se mantém vivo entre as polêmicas discussões sobre o assunto; o encarecimento das disputas, as problemáticas políticas que são envolvidas nas escolhas dos sambas, a encomenda de obras, os escritórios.... Todas essas questões agitam as falas sobre samba-enredo e fazem relevantes todos os debates sobre as obras musicais de nossas escolas. 

Imersos nesse contexto, é possível perceber que a estrutura de melodia e letra que esteve estagnada por mais de vinte anos começou a dar alguns respiros nos últimos carnavais, com obras que testam novos formatos e métricas para os desenhos dos sambas. Passeando pelas composições mais relevantes da última década, a gente propôs uma análise das transformações musicais recentes do nosso gênero musical favorito! Vem com a gente! 

Madureira sobre o Pelô e a Vila faz sua festa no arraiá


Se a década começou com um desfile marcante nos quesitos estéticos, o mesmo não se pode dizer dos sambas de então. Nas safras dos dois primeiros anos da década presente, poucas obras se destacaram por trazer algum tipo de inovação em meio ao formato tradicional. Vale destacar, entretanto, nesses dois anos, as composições da Imperatriz Leopoldinense, que chamaram atenção pela melodia forte e letra cheia de boas passagens. Com os enredos "O Brasil de todos os deuses" e "A Imperatriz Adverte: sambar faz bem a saúde", ambos assinados pelo carnavalesco Max Lopes, a verde e branco foi bicampeã do Estandarte de Ouro do quesito com as obras compostas pela parceria encabeçada por Gil Branco, Guga, Jeferson Lima e Me Leva, entre outros nomes que oscilaram nos dois anos.



Foi depois, entretanto, que marcos definitivos podem ser estabelecidos no deflagrar de todas as transformações e novidades dessa década. A obra símbolo de todo esse processo veio da Portela, em 2012, com a escolha de um samba-enredo histórico e que se destacou desde seu surgimento na disputa da escola por suas características até então pouco valorizadas. A força da composição de Luiz Carlos Máximo, Naldo, Toninho Nascimento e Wanderley Monteiro levantou a competição na quadra da Rua Clara Nunes, ganhando repercussão na internet e nos comentários da mídia especializada. 



A letra construiu belas imagens ao contar o enredo sobre as festas e religiões associadas ao estado da Bahia, enquanto a cadência lembrava sambas-enredos antigos, fora da aceleração reinante, que dominava, à época, o andamento dos desfiles. A letra era coroada ainda pelo marcante refrão que fazia Madureira subir o Pelô e rolar o toque de Olodum, tornando-se um clássico instantâneo. A obra também trouxe uma inovação na estrutura, saindo da fórmula de dois refrões e duas partes de versos agrupados. Ela acrescentou uma nova sequência a ser repetida e dividiu os versos em um novo conjunto. Mesmo com um desfile com equívocos visuais, em um período de forte crise institucional, a Portela chegou à sexta posição daquele carnaval, motivada por seu grande samba, exaltando a importância de uma obra musical em meio à imposição do visual.

No mesmo ano, uma semente transformadora também nasceu em Vila Isabel. A parceria formada por André Diniz, Arlindo Cruz, Artur das Ferragens, Evandro Bocão e Leonel se sagrou campeã na agremiação e também inovou ao introduzir uma espécie de "contra canto" em sua estrutura. No fim da segunda passagem, um jogo de palavras trouxe sentenças que deveriam ser completadas em um jogo de resposta entre os componentes em cortejo, com uma criativa solução. A força da obra que falou da ligação entre o Brasil e Angola se aliou ao trabalho plástico da mestra Rosa Magalhães e consolidou um desfile memorável. 



No ano seguinte, na mesma azul e branca de Noel, o samba-enredo voltou a ser protagonista como não se via há muito tempo. Arlindo Cruz seguiu na liderança da parceria, que se sagraria campeã novamente, com destaque para a chegada ao grupo de Martinho da Vila, um dos mais importantes compositores do país. Para cantar a narrativa sobre a agricultura e o homem do campo, a composição se utilizou de imagens poéticas e singelas como pedia o tema. Com um refrão em duas versões, em que a palavra "plantar" e "colher" eram revezadas, a música fez sucesso entre os sambistas e repercutiu fortemente no pré-carnaval. No desfile, a expectativa se cumpriu e a grande obra musical foi o guia máximo a conduzir a escola para o terceiro título de sua história.

Nas bandas de Oswaldo Cruz e Madureira, após o sucesso da composição sobre a Bahia, a parceria de Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo e Wanderley Monteiro obteve algumas modificações em seu corpo, mas seguiria campeã na Águia por mais dois anos, reforçando um novo estilo de fazer samba, com melodia, candência particular e a marcante estrutura de três refrões que possibilitava uma ginga aos ouvintes. Em 2013, o enredo sobre a história do bairro de Madureira teve um valente refrão com o verso "abre a roda, chegou Madureira". Em 2014, na narrativa sobre a história da Avenida Rio Branco e seu entorno, a escola, guiada por outra diretoria, brilhou com o inesquecível "vou de mar a mar". 

E a coisa reverberou


Ainda em 2014, o Salgueiro se destacou nas rodas de discussão pela obra composta por Betinho de Pilares, Dudu Botelho, Jassa, Miudinho, Rodrigo Raposo e Xande de Pilares, na primeira vez que o cantor do Grupo Revelação foi campeão na disputa da agremiação, quando passou a integrar o carro de som da Academia. O samba conduziu uma boa apresentação e seria vencedor do Estandarte de Ouro daquele ano, mas o desfile foi derrotado na apuração pela apresentação controversa da Unidos da Tijuca em homenagem a Ayrton Senna, embalado por um problemático e pouco inspirado samba-enredo. 



Já no grupo de acesso, recém transformado em Série A pela junção dos dois antigos contingentes que desfilavam na Sapucaí, iniciou-se uma alternativa ao criticado e problemático modelo atual de disputa de sambas. Com dificuldade em sua quadra, a Renascer de Jacarepaguá resolveu encomendar sua obra musical e não promover disputa. Sem as amarras que normalmente limitam os compositores nas disputas de samba, os renomados Cláudio Russo e Moacyr Luz foram convidados a compor a obra em homenagem ao cartunista Lan, que fugiu dos moldes comerciais e poucos criativos. Desde então, a agremiação alvirrubra segue não realizando disputas, em medida que gerou uma série de discussões e foi replicada em diversas escolas. 

Já são seis obras encomendadas que sempre tiveram Russo e Moacyr como autores, com poucas variações. Entre 2015 e 2016, a cantora Teresa Cristina participou das criações, nos enredos sobre Candeia e São Cosme e Damião. Já em 2017, o intérprete Diego Nicolau entrou no grupo e vem assinando. Na história do carnaval recente, é rara e notável a sequência de bons sambas que a Renascer apresentou com essa medida. Apesar de variarem ligeiramente em espécie de "régua de qualidade", todas as obras assinadas desde então são excelentes. Destaca-se o samba de 2017, que rendeu belos e duros versos sobre a negritude, inspirado no enredo "O Papel e o Mar", ao propor um encontro ficcional entre a escritora Maria Carolina de Jesus e o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata.



Retornando a discussão à elite carnavalesca, veio da Leopoldina, de uma agremiação com uma discografia invejável, o protagonismo dos aspectos musicais entre 2015 e 2016. Com disputas de samba de alto nível e diversas obras de qualidade à disposição, a Imperatriz coroou a importância do maior compositor de sua história nestes dois anos. A parceria liderada por Zé Katimba compôs lindas pérolas do gênero, que se destacaram pela inovação melódica e na construção da letra, tanto ao contar o continente africano quanto ao homenagear a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. No aspecto estrutural, a composição sobre o enredo "Axé Nkenda" surpreendeu ao trazer apenas um refrão a ser repetido, e o resto da letra foi dividido em três partes, com destaque ao bloco do meio, de melodia marcante e cíclica, ainda que a letra não se repetisse. Bem interpretada pelo cantor Negô, a música foi a vencedora da categoria no Estandarte de Ouro. 



Voltando à Majestade do Samba, a parceria que emplacou três sambas seguidos na azul branco acabou se desfazendo e, em uma disputada final para a escolha da obra a ser defendida no carnaval de 2015, quem se saiu campeão foi o grupo liderado pelo baluarte Noca da Portela. A escolha deu sequência à personalidade dos sambas anteriores de Toninho, Máximo e Wanderley, demonstrando a importância daquele formato concebido para o carnaval de 2012. Também em 2015 e também sobre compositores importantes para a história de uma escola, a Beija-Flor foi campeã do carnaval com uma bela obra afro que exaltou a Guiné Equatorial. Samir Trindade encabeçou a parceria, e após grandes sambas compostos para a escola nilopolitana, transferiu-se para Portela no ano seguinte, quando seria campeão após mais uma acirrada disputa na Águia de Oswaldo Cruz e Madureira.



O ano de 2015 também é lembrado por uma medida inédita que apontou os novos processos e tensões acerca dos sambas de enredo, e pela volta da Viradouro ao Grupo Especial. Presidida pelo compositor Gustavo Clarão, a vermelho e branco optou por não realizar disputa de samba, mas fazer uma junção de duas obras do repertório de Luiz Carlos da Vila, compositor fundamental para a história do samba, um dos autores de "Kizomba, Festa da Raça". Apesar de não terem nascido como sambas de enredo propriamente, as duas obras tinham cadência e aspectos estilísticos próximos ao gênero dos sambas das escolas, além de serem bem resolvidas musicalmente em sua adaptação a ser cantada. Apesar de levantar debates e gerar um samba elogiado, a medida passou de maneira discreta na discussão pós-desfile, talvez motivada por uma apresentação pouco emocionante da alvirrubra, afetada por uma forte chuva. 

O ano do renascimento


Após esta série de composições que mapeamos, o ano de 2016 foi uma espécie de ápice das transformações das obras musicais das agremiações, sintetizando uma leve revalorização do aspecto musical em tempos espetaculares. Tudo começou com uma boa sequência de enredos das escolas, que gerou uma das melhores safras de sambas do século XXI. No Grupo Especial, das doze agremiações, significativa parte escolheu boas obras para a Avenida. Com uma grande variação de estilo e características, não se viu uma safra tão homogênea como de costume, mas plural no aspecto musical e dialogando com a personalidade das escolas. 

E tudo começou no pré-carnaval, com disputas de sambas acirradas e polêmicas, repletas de repercussão nas redes sociais. A do Salgueiro foi uma dessas, que se dividiu entre as parcerias do jovem Antônio Gonzaga e do consagrado Marcelo Motta. Entre o "dói, dó, dói” e o "malandro batuqueiro", a comunidade da escola da Tijuca escolheu a obra com uma estrutura menos ousada, mas com a força de um refrão inesquecível e uma letra que versava com a tradição de versos leves e marcantes da Academia. No pré-carnaval, o samba explodiu e chegou com força no ensaio técnico da vermelho e branco, o que se consolidou no desfile, apesar do desempenho abaixo do esperado nos quesitos plásticos. 



Outras disputadas escolhas de samba aconteceram, novamente, em Ramos e Madureira. Como já apresentado, Zé Katimba se firmava como um dos grandes compositores do carnaval ao transformar o controverso enredo sobre uma dupla de sertanejo em um samba-enredo de melodia marcante e bela letra. Na Portela, a chegada imponente de Samir Trindade, após uma atuação vitoriosa em Nilópolis, arrebatou a disputa ao mexer com a vaidade portelense por meio de um refrão que fazia todos bater no peito e dizer "eu sou a Águia". Com um desfile inflamado, a harmonia treinada da escola ajudou a obra a ganhar o Estandarte de Ouro daquele ano. 



Fora da tradição de grandes competições de sambas, a Unidos da Tijuca foi uma surpresa naquele ano após uma sequência de obras musicais pouco inspiradas. Diante de grandes parcerias que brigaram entre si, saiu campeão o grupo de autores liderados por Dudu Nobre, com uma letra poética ao falar da agricultura e da relação do homem com a terra. 

Mas, na pista de 2016, foram duas outras canções protagonistas na sedução de público e arquibancada. Primeiro, a Vila Isabel voltou a trazer uma obra de qualidade, após dois anos mais discutíveis no aspecto musical. Nomes da parceria vitoriosa de "Festa no Arraiá", como Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz e Leonel, retornaram a compor para a azul e branco, e foram responsáveis pela música sobre a importância do político Miguel Arraes no estado de Pernambuco. 

Por fim, não pode se esquecer da campeã Mangueira ao recuperar sua tradição de grandes homenagens a nomes da música e a sacudir a Sapucaí ao saudar Maria Bethânia. A Estação Primeira também conquistou uma das melhores safras de sua história, com várias composições que dariam um excelente tom ao desfile. Apesar do samba-enredo vencedor não trazer grandes inovações estéticas, a obra composta por Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D'Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão cumpriu seu papel de conduzir muito bem o desfile da verde e rosa. A agremiação, aliás, é uma das escolas mais regulares no quesito da nossa série, e dificilmente não leva para avenida composições que não toquem o coração dos espectadores.

Passeando novamente aos grupos de acesso, outras obras se destacaram em um ano tão frutífero para o aspecto musical das agremiações carnavalescas. Na Viradouro, um samba com melodia e letra marcantes se tornou protagonista na briga por contar a história do "Alabê de Jerusálem" na Avenida. A agremiação implorou por tolerância e respeito numa emocionante obra encabeçada por Paulo César Feital, importante nome da MPB, e Felipe Filósofo. Além da Viradouro, Felipe também foi um dos responsáveis pela obra da Acadêmicos do Sossego, na Série B. A agremiação, ao contar o enredo sobre a obra de Manoel de Barros, confeccionou um samba-enredo sem rimas, até então só produzido por Martinho da Vila em 1987, na Vila Isabel. 



Com o campeonato da azul e branco do Largo da Batalha e sua ascensão ao grupo A, o compositor seguiu sendo o ousado artista por trás da composição de obras musicais da agremiação, e lideraria uma sequência de letras que pensariam novas estruturas e soluções para o gênero. Após a obra sem rimas, Filósofo e a escola apostaram em uma obra em formato de diálogo no enredo sobre a atriz Zezé Motta e uma sem a presença de verbos, ao exaltar os diversos rituais da humanidade. Ambas foram novas tentativas de soluções para o formato exaurido das composições carnavalescas. 

O Céu de Sherazade e o canto do Juremê


Após o importante carnaval de 2016, o ano seguinte guardou uma série de surpresas para as escolas de samba em seus diversos aspectos. Mas se restringindo ao tema samba-enredo, duas obras despontaram em agremiações que ainda não haviam se destacado no quesito durante a década, polarizando assim as discussões a respeito das transformações do gênero. De um lado, a Beija-Flor começou sua escolha de samba com um fator decisivo para o nascimento de uma grande composição: uma disputa acirrada. Um samba-enredo com uma série de elementos inusitados chamou a atenção nas redes sociais a partir da produção de um videoclipe com status de superprodução, com direito a atores e encenação do enredo sobre Iracema.  



Quem diria que um samba com um refrão principal de improváveis oito versões, um refrão do meio com apenas uma frase repetida quatro vezes e que trouxe ainda a repetição da palavra "amor" no mesmo verso poderia dar tão certo? Contrariando todas as verdades pré-estabelecidas, a obra de Claudemir, Maurição, Ronaldo Barcellos, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos se alastrou feito pólvora no universo carnavalesco, fazendo todo mundo cantar "juremê" e "pegar no aremê". Cantado por Neguinho da Beija-Flor e aliado à garra de toda a comunidade de Nilópolis, a obra deu o Estandarte de Ouro da categoria para a azul e branco após uma década sem realizar a conquista. 

Apesar de bem quisto pela maioria arrasadora dos sambistas naquele ano, a disputa de melhor samba do ano era grande e vinha de Padre Miguel o concorrente da Soberana. Após mais de uma década sem apresentar sambas com expressão, a Mocidade Independente teve em sua obra musical o guia para voltar a ser protagonista. Apesar do carnaval sobre o Marrocos começar desacreditado e com uma sinopse confusa, uma obra liderada por Altay Veloso e Paulo César Feital subverteu o texto base e criou suas próprias imagens sobre o trânsito cultural entre Marrocos e Brasil, promovendo o encontro entre Alá e Xangô. Surpreendendo ainda ao rimar Mocidade não com "cidade ou comunidade", mas com o Sherazade, e com belas imagens e soluções de letra que fugiam aos clichês usuais, o samba tinha ainda uma melodia marcante e cadenciada. 


O trânsito cultural e a homenagem a um país de cultura distante a nossa seguiu no melhor estilo Glória Perez para o ano seguinte na verde e branco, e a parceria de grandes nomes da MPB seguiu vitoriosa com uma obra ainda mais bonita e que reforçou as características do ano anterior, fazendo roncar a pele do tambor da eternidade, brindando o pública com mais uma linda melodia.

E o agora, e o amanhã?


Cinco anos após ter dado início às transformações no formato do samba-enredo, a Portela foi campeã com uma das obras com menos qualidades do que dos anos anteriores. Ao contar o enredo sobre os rios, os compositores liderados por Samir Trindade aliaram à narrativa personagens da história da escola, o que gerou uma série de críticas, apesar da ferramenta reforçar uma característica narcisista da azul e branco, presente em outros sambas antológicos da Águia, como "Contos de Areia" e "Tributo a Vaidade".

Em meio às transformações do gênero, crises das agremiações, falta de verbas e inviabilidades no formato das disputas e sua alta necessidade financeira, a alternativa da Renascer de Jacarepaguá e o sucesso de suas obras fez o recurso da encomenda se espalhar em outras agremiações chegando até o Grupo Especial. Após um criticado samba de 2017 para defender o ótimo enredo acerca do movimento tropicalista, a Paraíso do Tuiuti resolveu encomendar sua obra a grandes compositores da agremiação e nomes consagrados do mundo do samba, como Cláudio Russo e Moacyr Luz. Mais uma vez, deu resultado: a obra embalou um desfile apoteótico sobre os 130 anos da abolição da escravidão, que levou a escola para um surpreendente vice-campeonato, inédito na história da azul e amarela. 



Já na Série A, o grupo de obras escolhidas sem as tradicionais disputa de composições cresceu vertiginosamente. Além da Renascer, as escolas Rocinha, Alegria da Zona Sul, Sossego e Inocentes escolheram os autores de seus sambas e delegaram a eles a missão de compor suas obras. Apesar de polêmicas, todas as obras encomendadas apresentaram uma boa qualidade musical, deflagrando uma discussão necessária sobre a medida. Para o bem ou para o mal, a encomenda não pode ser relativizada como causa da perda de protagonismo das escolas de samba, o avanço dos ditos escritórios de compositores e a perda de força das alas de músicos dentro das agremiações, mas sim como sintoma de todo esse processo iniciado há décadas. 

Para 2019, a ausência de disputa na Série A não só segue com força; mas se disseminou também no Especial causando desdobramentos e polêmicas. Em meio a tantos processos, o Império Serrano apostou em uma medida inédita ao levar uma obra musical já composta e fora da métrica do samba-enredo para a Avenida. A canção "O quê é, o que é", de Gonzaguinha, será interpretada pelo cantor Leléu e iniciou uma série de discussões sobre os rumos dos sambas de enredo. Será que o corpo de uma escola em cortejo terá ritmo para dar voz ao clássico da MPB e levantar as arquibancadas?

No meio de várias tensões, essa e diversas questões surge. Uma delas clama por sabedoria às diretorias e aos compositores das escolas: será que a salvação para a perpetuação da festa, diante do contexto de graves crises política e social em que se encontram as agremiações, passa pela força das obras musicais levadas para a avenida?



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