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Carnavalize

 


Texto: Beatriz Freire
Revisão: Luise Campos 

Mês a mês mergulhando em diversos universos particulares que formam as complexas organizações que são as escolas de samba, o Carnavalize decidiu derrubar o protocolo social convencional de evidenciar mulheres apenas em março, quando comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Por isso, durante o mês de agosto, às segundas-feiras, nossos leitores acompanharam em nosso site um novo capítulo de uma série pensada para enaltecer, contar histórias, lembrar figuras e propor reflexões acerca do papel feminino no carnaval. Hoje, no quarto texto, nos despedimos desta temporada com uma única mensagem possível: obrigada! 

Líderes, fundadoras, passistas, rainhas, porta-bandeiras, intérpretes, ritmistas… por onde se repousa o olhar, nota-se a presença feminina nos diversos segmentos das agremiações. Nossa viagem de quatro semanas tem como destino final as fábricas momescas que moldam os sonhos à realidade; elas também arregaçam as mangas e dividem-se entre criação, planejamento, execução e coordenação. Nos barracões, estas heroínas fazem do trabalho uma extensão de seus próprios corpos - já que cada nova forma de esculturas, alegorias e fantasias nasce da força braçal delas - e também um compromisso destinado a sacramentar grandes ideias e narrativas.


Marie Louise Nery: o sopro fundamental para o vendaval 


Em 1957, Marie Louise trocou as baixas temperaturas das cidades suíças pelo calor do Rio de Janeiro, onde desembarcou a contemplar golfinhos em plena baía de Guanabara. Ela não encabeça a lista por coincidência: é considerada a primeira mulher a trabalhar ativamente no desenvolvimento de um desfile de escola de samba. De corpo e coração aquecidos pelo clima tropical e pela energia do cortejo que já encantava Marie, a figurinista e cenógrafa recebeu, ao lado do marido, também cenógrafo e aderecista, Dirceu Nery, o convite de Nelson de Andrade, presidente do Salgueiro, para que juntos assinassem o desfile do carnaval de 1959 da agremiação alvirrubra. 

Foto: Rafael Andrade/Folhapress.

Com Nelson no comando do enredo "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", o casal de artistas plásticos ficou responsável pelo planejamento e confecção das fantasias que vestiriam toda a escola; as indumentárias reproduziam gravuras de Jean-Baptiste Debret, principal nome da Missão Artística Francesa e expoente do cotidiano do Brasil colonial, homenageado daquele carnaval. A agremiação optou por não apresentar nenhuma alegoria naquele ano como uma resposta às sucessivas críticas feitas pelo júri que perduraram por cinco carnavais. Sem que existisse propriamente o espaço que conhecemos atualmente por barracão, Marie Louise subia as ladeiras do morro do Salgueiro para trabalhar junto às costureiras e aderecistas da escola. 

Na noite dos desfiles, atrasos e confusões antecederam a passagem do Salgueiro pela Avenida Rio Branco. A escola adentrou a pista como primeira escola daquela noite, subvertendo a ordem original que a designava como quinta agremiação a se apresentar. Em um cortejo que abusou - no melhor sentido da palavra - de bom gosto e teatralização, o requinte e a originalidade estéticas marcaram presença, aliadas a uma narrativa cuidadosamente trabalhada pelo presidente-enredista. Não há como deixar de coroar com louros Marie Louise pela contribuição estética fundamental no desfile vice-campeão que roubou a atenção de um jurado em especial, um tal Fernando Pamplona, e preparou as bases da revolução salgueirense que se reafirmaria no carnaval seguinte.

Um das singelas aulas do desfile salgueirense de 1959. Foto: O Globo.

Mais tarde, Marie seguiu pelas coxias e palcos, prestando serviço a espetáculos, balés e peças de teatro. No carnaval, passou ainda pela Portela e retornou ao Salgueiro, mas encerrou a carreira de lantejoulas e fantasias luxuosas logo após a morte do marido, ao final da década de 1960. Dedicou-se também às salas de aula, quando teve como aluna Rosa Magalhães. Da vida, despediu-se neste maio de 2020, vítima da covid-19, na Suíça, longe do calor do carnaval, eternizada como precursora de nomes femininos e antecessora fundamental de um movimento que mudou os rumos dos desfiles. 


Iemanjá enriqueceu o visual… e fez reluzir o seu brilho feminino


Sobre o já mencionado Pamplona e a já citada revolução salgueirense, convém destacar o grupo tocado pelo artista em seu legado na escola da Tijuca, no qual estavam presentes nomes como Arlindo Rodrigues - o grande parceiro - e Joãosinho Trinta, outro ícone que se revelaria poucos carnavais depois. Porém, em especial, três "pupilas" fizeram arte pelo Salgueiro afora. Maria Augusta, a primeira delas, era aluna da Escola de Belas Artes e junto a Fernando Pamplona trabalhava nas decorações de carnaval do Copacabana Palace. Não tardou para dar expediente pelas bandas do Salgueiro e, em 1969, com o histórico "Bahia de todos os deuses" era componente da frutífera equipe do Professor. Naquele ano, a imagem mais marcante da apresentação foi a imensa alegoria de Iemanjá, repleta de espelhos redondos que reluziram toda a pista à luz do dia. Os caminhos estavam abertos. 

Dois carnavais depois, a mente brilhante da jovem artista propôs a temática a ser contada naquele ano: a escola levaria para o grande público a visita de um rei africano a Pernambuco holandesa de Maurício de Nassau. Não teve quem não pegasse no ganzê e no ganzá; do estalo inicial de Augusta, tudo se materializou e o Salgueiro saiu vitorioso daquele carnaval. 

Maria Augusta posa com a ala que a homenageou no desfile da São Clemente de 2018. Foto: Leonardo Bruno.

Quando a relação entre o pai da revolução e o Torrão Amado amargou, foram ela e o companheiro de equipe, Joãosinho, com quem rivalizaria visual e narrativa em carnavais futuros, os herdeiros diretos do legado do mestre à frente da alvirrubra. Em 1973, faturaram juntos o terceiro lugar com "Eneida, amor e fantasia". Desde o carnaval anterior, em 1972, Augusta já fazia dupla jornada entre o Salgueiro e a ainda inexpressiva União da Ilha do Governador. Para 1974, após o rompimento com a dupla e a escola que havia lhe recebido há cinco carnavais, Augusta tirou aquele e mais um ano sabático à frente da criação artística do carnaval das escolas de samba. Em 1976, voltou às terras insulanas, desta vez para ficar… e fazer história. 

Em 1977, uma inspiração pessoal de Augusta lançou a tricolor como protagonista de um mundo inverso ao luxo e opulência crescentes no carnaval. Criatividade, cores e simplicidade formavam a tríade triunfal da carnavalesca. "Domingo" seria uma ode à alegria da menina que saía do internato em que estudava para aproveitar o dia e desfrutar da companhia da família; uma exaltação à leveza de um dia de descanso, ao contemplar quase sempre desapressado do nascer e do pôr do sol, às comemorações de reuniões e encontros, dentre outras cenas do cotidiano abarcadas por aquele que para alguns é o primeiro, para outros, o último dia da semana. A União da Ilha não veio apenas escandalosamente simples e bela - elementos que se reforçavam mutuamente - mas também brincou no asfalto, conquistando um terceiro lugar. Era aquele o auge de uma trajetória curta e intensa de enredos abstratos e carnavais brincantes, presentes para os olhos e corpos foliões, marcados por sambas inesquecíveis da discografia da escola. 

A visão geral de "O Amanha" em 1978. Foto: Revista Manchete.

No ano seguinte, lançou mão de todo o seu misticismo ao desfilar com o grandioso "O Amanhã". Mais uma boa posição - a Ilha terminou como quarta colocada - chegava pelo segundo ano consecutivo para o currículo da escola que, até então, havia faturado o nono lugar como posição máxima. Em 1979, Augusta teve os caminhos interrompidos após um desentendimento com a diretoria da escola. Consagrada pelos históricos carnavais dos anos anteriores, acabara ali a rápida fase meteórica com a mentora de uma identidade que é associada à agremiação até hoje. Nos anos seguintes, a carnavalesca passou pela Paraíso do Tuiuti, Tradição e, como a vida é grandiosa demais para permitir meras coincidências, encerrou a carreira na Beija-Flor, em 1993, substituindo Joãosinho Trinta, o antigo companheiro que também marcou seu nome na agremiação nilopolitana. Maria Augusta, dona de uma mente criativa única e definitiva para a história carnavalesca, transpira ainda um sentimento comum entre todos os amantes da festa: a emoção de sempre ao relembrar seus feitos no carnaval.

Agora, retomemos o fio que nos conduz ao início dessa história para lembrar que mais duas personagens ajudam a escrever nossas próximas páginas.

Lícia Lacerda e Rosa Magalhães comemoram o título de 1982.

Antes de falarmos propriamente da mais longeva - e campeã - herdeira de Pamplona, passemos por mais uma integrante do fecundo grupo. Lícia Lacerda, também discente da Escola de Belas Artes, marcou sua assinatura no carnaval em parcerias com Rosa Magalhães, nossa próxima personagem, ao faturarem juntas o título pelo Império Serrano com o lendário "Bumbum Paticumbum Prugurundum", em 1982, um "metacarnaval" inspirado em uma ideia de Fernando Pamplona e embalado por suas sucessoras como uma crítica ao grandiosismo que invadia a folia em todos os sentidos. Nos carnavais seguintes, fez passagens rápidas pela Imperatriz Leopoldinense, Estácio de Sá e também pela Tradição, quando foi campeã com a agremiação pelo segundo grupo em 1993 e, em 1994, garantiu uma vaga para a escola dissidente da Portela no desfile das campeãs, com o famoso "Passarinho, passarola, quero ver voar". No carnaval de 1997, um mês antes dos desfiles, deixou a agremiação, que desfilou com o enredo "Do barril ao Brasil", sobre a história da cerveja, terminando rebaixada. Longe do ofício de carnavalesca desde então, Lícia relembra até hoje as dores e delícias da parceria com a amiga, Rosa, e da carreira solo. 


De aluna a professora, eis a soberana artista 


Para destrincharmos bem toda a trajetória desta fundamental figura, precisaríamos esmiuçar surpreendentes cinquenta anos em atividade da maior expoente da arte carnavalesca do nosso país. Filha de dois artistas - o pai das letras e a mãe do teatro -, ela já tinha no sangue um rascunho traçado de caminhos que muito provavelmente a conduziriam pelas criações, figuras e formas. "Faça-se assim", disse a vida. Rosa Magalhães, nem sempre professora - ela também é mais uma artista egressa da EBA -, iniciou a carreira junto às demais companheiras de trabalho nos preparativos dos carnavais salgueirenses de Pamplona. Os passos autônomos, que sinalizavam estar um nível acima da condição de "aprendiz", vieram na década seguinte, em 1974, pela Beija-Flor, quando foi a responsável pelo carnaval "O Brasil no Ano 2000", em plena ditadura militar. 

Rosa comemorou a incrível marca de 50 anos dedicados à folia. Foto: Leo Martins/O Globo

O boom como autora de carnavais veio anos depois, quando, no episódio já mencionado, com Lícia Lacerda fez o desfile campeão do Império Serrano, em 1982. Um feito imenso para duas artistas ainda em busca de experiência, que se consagraram campeãs por uma das mais tradicionais agremiações cariocas. As duas carnavalescas (imaginem se tivéssemos uma dupla de carnavalescas no dias de hoje!) trabalhavam de forma tão coesa que a parceria se alongou por mais dois carnavais: Imperatriz (Alô, mamãe), em 1984, e Estácio de Sá (O ti-ti-ti do sapoti) em 1987. Este último foi a passagem definitiva para Rosa se lançar na carreira solo a partir do ano seguinte. Ali, apareceria um dos seus principais traços: a mistura da história oficial com o cotidiano, entre o fato e a suposição, passeando pelo real e o inventado. Pela escola do São Carlos permaneceu por mais dois carnavais, em 1988 (O boi dá bode) e 1989 (Um, dois, feijão com arroz), vestindo as mesmas narrativas de cunho político que escolas como Caprichosos de Pilares e São Clemente levaram para a pista de desfiles após os primeiros anos de redemocratização.

Em 1990, veio um reencontro rápido com o Salgueiro, importante estágio para a carnavalesca que se tornara até ali, em mais dois desfiles: "Sou amigo do rei", em 1990, e o famoso "Me masso se não passo pela rua do Ouvidor", em 1991, quando conquistou, respectivamente, o terceiro lugar e o vice-campeonato. Apesar das brigas que levaram ao desligamento de Rosa da alvirrubra, estava provado que o grande cortejo das escolas de samba dispunha de uma artista do mais alto nível, herdeira dos ensinamentos valiosos de um mestre e que, mais importante do que serem exatamente assimilados, foram por ela reinterpretados e manifestados à sua própria forma, expressados como uma marca única no universo das escolas de samba.

Uma artista da grandeza de Rosa merecia um acolhimento à altura, digno de rainha. Digno, na verdade, de uma Imperatriz. Ela já havia feito uma breve passagem pela escola de Ramos, em 1984. Mas foi em 1992 que ela assumiu a escola a convite de Viriato Ferreira, iniciando de fato sua marcante trajetória na agremiação. O artista, já com a saúde debilitada, confiou à Rosa o comando da verde e branca. Nasceu, assim, o casamento mais vitorioso da história do carnaval. Ela protagonizou, ainda que não escancaradamente, o duelo principal entre o seu barroco (que talvez venha da devoção aos santos herdada de sua mãe) e o high-tech de Renato Lage na Mocidade Independente. As verde e brancas, uma de Ramos e outra de Padre Miguel, quase brincaram de revezamento entre títulos e disputas acirradas. De 1993 a 2001, Rosa conquistou cinco campeonatos (1994, 1995 e o tri em 1999, 2000 e 2001), dois vices (1993, ano da sua reestreia, e 1996) e um terceiro lugar (1998). A posição mais baixa foi um seguro sexto lugar, em 1997, uma exceção frente à competitividade - e excelência! - dos carnavais de Rosa.

O desfile de 2000 da Imperatriz Leopoldinense, meiuca de um histórico tricampeonato. Foto: Wigder Frota. 

Maior campeã solo da Era Sambódromo, ela saiu vitoriosa em todas as décadas. Após o tri que marcou a virada do século, não conquistou mais nenhum título, mas se reinventou e não sinalizou qualquer desgaste em sua carreira vitoriosa, independente de canecos e notas do júri. Rosa usou e abusou da sua habilidade para introduzir fábulas às narrativas e, como sempre, abalou a estética de alegorias e fantasias, em materiais e formatos, do barroco ao popular, entre anjos, índios e piratas. Em 2009, chegou ao fim o casamento de dezoito inesquecíveis - e prósperos - carnavais pela Imperatriz Leopoldinense. Para 2010, foi contratada pela Ilha do Governador com a missão de não permitir que a escola fosse rebaixada, já que era recém-chegada ao Grupo Especial. Dito e feito. Em uma viagem pelos contos de "Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis" a professora garantiu a permanência da escola que recuperou o orgulho de cruzar novamente a Marquês de Sapucaí pelo grupo principal.

Na última década, foi fazer história lá na escola de Noel. Depois de um carnaval sobre cabelos à sua própria moda, embarcou na ideia de Martinho da Vila para cantar Angola no enredo "Você Semba Lá …. Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola". O desfile afro, até então inédito na carreira de Rosa, emocionou componentes e arquibancadas. Por um detalhe a Vila Isabel não terminou campeã, mas faturou o vice. No ano seguinte, com a escola mordida pelo gostinho do "quase" campeonato, a carnavalesca conduziu o enredo "A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo. Água no feijão que chegou mais um". A Sapucaí, perto do amanhecer, viu se armar na pista uma verdadeira festa no arraiá; uma emoção em cores, samba e evolução da escola. Na quarta de cinzas, deu azul, branco e… Rosa. A escola saiu vitoriosa e a carnavalesca conquistou mais um título na nova década.

Nos últimos anos, a Mangueira recebeu a professora para um breve carnaval que não rendeu os mesmos frutos que o desfile campeão do ano anterior. Em seguida, a São Clemente se viu possibilitada a sonhar pelos olhos de Rosa, que esteve na escola de 2014 a 2017. Em 2015, uma homenagem da aluna ao mestre Fernando Pamplona arrancou aplausos e fez as lágrimas rolarem durante o desfile da preta e amarela de Botafogo. Apesar de um injusto nono lugar - há quem diga que a escola merecia uma colocação entre as campeãs -, pairou a certeza da maestria da artista. Em 2018 e 2019, sua passagem pela Portela garantiu dois quarto lugares. Em 2020, ano de reencontro com a Estácio de Sá e dos seus cinquenta carnavais em atividade, Rosa teve pela primeira vez o desgosto de um rebaixamento - também injusto. Tudo tem uma primeira vez.

Para o próximo carnaval, ela reencontra a sua parceira mais longeva e frutífera. Rosa, com a experiência que tantos anos de dedicação ao ofício pode trazer, retoma os ares juvenis de quase trinta anos atrás para sentar-se novamente no seu trono de Imperatriz. A contribuição inestimável para o carnaval, dentro e fora da pista, já que ela exportou a festa para grandes eventos europeus, lhe garante a figura de uma artista admirada e ainda muito bem quista por todos. O seu desabrochar nos fez eternos contempladores de sua existência, revestida de beleza modesta e ao mesmo tempo escandalosa que só as flores mais bonitas - as rosas - têm.


As caçadoras de histórias


Mas nem sempre elas estão, necessariamente, investidas nos cargos de carnavalescas. Há, ainda, mulheres que se dedicam à busca pelas histórias a serem narradas. Márcia Lage ocupa um caminho do meio entre esses papéis que até podem se misturar, mas não estão inequivocamente interligados. A cenógrafa viu as escolas de samba cruzarem sua vida de forma mais contundente nos anos 1990, quando era assistente de seu marido, Renato Lage, nos áureos tempos de Mocidade. Os registros só listam Márcia como autora de narrativas e carnavais, efetivamente, a partir de 2002, o último do casal pela escola de Padre Miguel, com "O grande circo místico". 

O trabalho de Márcia é constantemente associada ao marido ou até invisibilizado. Foto: TV Brasil. 
 
Verdade seja dita, o grande público, os dirigentes e mesmo o júri a puseram à margem seu protagonismo exercido no suado e desgastante dia a dia de trabalho em prol da construção de carnavais. Ela esteve presente no Salgueiro por treze carnavais, seguiu pela Grande Rio e pelo segundo ano defenderá as cores da Portela. Em 2009, assinou um carnaval solo pelo Império Serrano, ano em que a escola reeditou o enredo "A lenda das sereias", de 1976. Fato é que Márcia, muitas vezes questionada em sua contribuição para ideias e construções e, podemos dizer, de sua posição fundamental dentro do trabalho que carrega a marca Lage, precisa ser mais reconhecida.

Outra peça fundamental no fazer-pensar do que contam as escolas de samba na Avenida está em Nilópolis. Na Beija-Flor, dentro do molde da famosa comissão de carnaval capitaneada por Laíla durante muitos carnavais, Bianca Berhends, chegada à escola em 2002, é a verdadeira narradora nilopolitana. Cientista social por formação, ela está há nada menos do que vinte carnavais imersa nas pesquisas de enredo da escola. Em 2008, foi premiada com o troféu Plumas e Paetês na categoria pesquisadora. Hoje, Bianca está à frente do Departamento Cultural da escola. 


A herdeira


As brilhantes trajetórias que contamos neste texto marcam uma triste realidade: elas ainda são a exceção. Beira o inimaginável crer que mulheres não sonhem em ser carnavalescas. Nos últimos anos, ainda bem, para além de todo o majestoso trabalho desenvolvido por Rosa, Márcia e Bianca, surgiu Annik Salmon, mais uma egressa da Escola de Belas Artes. Na Porto da Pedra, iniciou a carreira em 2003, como assistente do carnavalesco Alexandre Louzada, a quem acompanhou por mais cinco carnavais, até 2008, em passagens pela Vila Isabel, Cubango e Beija-Flor. A assinatura de um trabalho veio exatamente pela verde e branca de Niterói em 2007, quando integrou a comissão de carnaval responsável pelo enredo que homenageou a cidade de Paracambi. 

Poucos anos mais tarde, em 2009, encontrou Paulo Barros e Alex de Souza, quando trabalhou com eles pela Vila Isabel, no ano que a escola rendeu homenagens ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A partir de então, Paulo Barros a convidou para ser seu "braço direito" no carnaval de 2010 da Unidos da Tijuca, escola para onde o carnavalesco retornara depois de alguns anos. Era impossível prever até o momento em que a escola cruzou a Avenida, mas ela viria a se consagrar campeã com a pontuação máxima. A permanência de toda a equipe esteve, portanto, garantida. Como integrante da agremiação do Borel, Annik participou da conquista de mais dois títulos, em 2012 e 2014. Desfrutou com todo o merecimento do conforto de seguir na escola, já que ela sempre esteve inteirada e participava ativamente de todos os processos de desenvolvimento de cada um desses projetos.


Annik assinou seu primeiro desfile solo em 2020 na Porto da Pedra.

Em 2015, quando Paulo Barros despediu-se da Tijuca, Annik seguiu o próprio caminho e permaneceu na escola para assinar seu primeiro carnaval pelo Grupo Especial como integrante de uma comissão. Logo na "estreia", chegou a um grato quarto lugar. No ano seguinte, em 2016, o enredo que flertava com o agronegócio e a cidade de Sorriso garantiu o vice-campeonato à agremiação. Por lá, a artista adquiriu mais e mais experiência, sempre coordenando as etapas necessárias para o melhor desfile que a escola pudesse apresentar, e garantiu um décimo primeiro lugar - em virtude do trágico acidente com um carro da escola em 2017 - e dois sétimos lugares. 

Em 2020, alçou novos voos: foi assinar seu primeiro carnaval solo, dessa vez, voltando ao grupo de acesso do carnaval carioca, pela Porto da Pedra. Não podemos deixar de assinalar que sua voz se fez ouvir, nessa estreia, num homenagem às personagens femininas fundamentais para o surgimento do samba: o enredo "O que é que a Baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí", reverenciou as matriarcas que nos deram a todos nós - a todas nós - chão e fundamento para caminhar. E foi assim, revestida de ancestralidade, que Annik conduziu a escola a um honroso terceiro lugar, que lhe rendeu a renovação do contrato com a agremiação. Para o próximo carnaval, ela segue no intuito de dar visibilidade a narrativas de grandes mulheres: desenvolverá o belíssimo enredo "O caçador que traz alegrias", homenagem à mãe Stella de Oxóssi.


Mãos à obra


Para além de pensar o carnaval artisticamente, também temos uma função que fundamental para que os sonhos e narrativas da folia ganhem vida. E se enganou redondamente quem pensou que o trabalho braçal dos barracões conta apenas com a presença masculina. Elas estão presentes no planejamento, projeção e feitura de alegorias e nada mais justo do que mencionar aqui também algumas das artistas e trabalhadoras que enfrentam a resistência diária às suas presenças causada pelo simples fato de serem mulheres.

A cenógrafa e projetista Penha Lima é um desses exemplos, assim como a escultora Andréa Vieira. As duas tiveram boa parte de suas carreiras dedicadas a acompanhar Rosa Magalhães; Andréa, formada em cenografia pela Escola de Belas Artes, dá formas às esculturas do carnaval há mais de vinte e cinco anos, muitos deles ao lado da professora. Na Inocentes de Belford Roxo, Luana Rios exerce hoje uma função que, infelizmente, não conta com muitas representantes do gênero feminino: é diretora artística de barracão, cargo conquistado após oito anos de suor em diversas agremiações. Ela foi chefe de ateliê de escolas como União do Parque Curicica, Alegria da Zona Sul e Vila Isabel, além de carnavalesca em 2016 pela Arranco do Engenho de Dentro e assistente do carnavalesco Marcus Ferreira no carnaval de 2019, pela Inocentes.

Andréa Vieira posa ao lado de Rosa Magalhães e Mauro Leite com o Emmy conquistado pela equipe. 

E todas as mulheres aqui citadas contam em suas equipes com muitas outras, formando um elo que aqui fazemos questão de visibilizar. Por isso, não podemos deixar de citar as costureiras que se dedicam exaustivamente na confecção de fantasias e às aderecistas que dão forma às decorações das alegorias. Todas elas, certamente, têm seu grau de contribuição para a folia, mostrando na prática o que buscamos dizer nessas quatro semanas com nossos textos da Série Mulheres: elas estão presentes e são capazes de desempenhar qualquer atividade no carnaval. 

Desta forma, finalizando nosso passeio pelos mais diversos espaços que o feminino ocupa dentro das escolas, chegamos ao fim dessa trajetória carregando a documentação de nomes fundamentais de mulheres que criaram e carregam legados, perpetuando a presença feminina dentro das agremiações. Obrigada a todas pela inspiração!

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval



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Todas as segunda-feiras do mês de agosto, nossos leitores acompanham no Carnavalize a Série Mulheres, na qual contamos histórias, lembramos figuras históricas e enaltecemos mulheres que fizeram e fazem história no Carnaval e no mundo do samba. 



Texto: Juliana Yamamoto
Revisão: Luise Campos

O protagonismo das mulheres no Carnaval está crescendo constantemente. A ocupação de cargos importantes vem se tornando cada vez mais comum e adquirindo notoriedade. Em alguns âmbitos da folia momesca, ainda há redutos majoritariamente formado por homens, mas, aos poucos, as damas vêm se firmando em funções que até então eram apenas exercidas por representantes do gênero masculino, diminuindo o “estereótipo” e machismo intrínseco. No âmbito musical, com o passar das décadas, muitas mulheres vêm surgindo e tentando marcar seu espaço num segmento em que ainda possuem pouco destaque.


Sim, voz feminina combina com samba-enredo


Há registros de que já na década de 1940, os puxadores (como eram comumente chamados os intérpretes de samba-enredo na época) eram acompanhados em seu canto pelas famosas pastoras, coro formado por mulheres que cantavam em um tom mais alto, lembrando o canto bonito das lavadeiras. Essa tradição jamais se perdeu e deu origem a um grupo que muito contribuiu para o destaque das mulheres num time de canto nos desfiles.  “As gatas”, conjunto de vozes formado por quatro cantoras - Dinorah, Nara, Zélia e Zenilda - que, desde 1968, foram também responsáveis pelos corais nas faixas dos sambas-enredos nas gravações dos discos. Elas também costumavam ser apoio dos intérpretes oficiais, estreando na função em 1977 pela Beija-Flor. 

Mas a primeira cantora mulher a defender um samba num desfile foi Carmen Silvana, em 1964, emprestando a voz que lhe rendeu a alcunha de “rouxinol do Império Serrano” o lendário desfile Aquarela Brasileira da escola de Madureira. A agremiação voltaria, na década seguinte, protagonizar outro grande momento ao apostar em outra mulher para integrar o seu time de canto. Em 1972, a verde e branca contratou uma das famosas cantoras do rádio, a estrela Marlene, para conduzir o samba-enredo “Alô, alô, taí Carmen Miranda”. A rainha do rádio, que já em 1968 havia participado do show “Carnavália, uma antologia do Carnaval”, foi a voz feminina que deu o tom a um desfile que levou a escola ao campeonato. Com o sucesso de sua apresentação, Marlene permaneceu mais um ano na Serrinha, defendendo dessa vez o samba “Viagem fantástica de Pindorama adentro”, em 1973. Mas, voltando aos anos 1960, outro nome chama a atenção por se tratar de uma das personalidades mais conhecidas até os dias de hoje no mundo do samba: Tia Surica, baluarte da Portela, em 1966, foi uma das intérpretes de “Memórias de um Sargento de Milícias”, ao lado de Maninho e Catoni.

Elza Soares no desfile oficial da Mocidade Independente em 1976. Foto: Acervo O Globo.

Elza Soares também foi muito importante na defesa de sambas e uma das pioneiras em sua trajetória. A cantora, que já era consagrada no país, recebeu o convite para conduzir em 1969 o samba-enredo do Salgueiro “Bahia de todos os deuses”, que deu à agremiação seu quarto título. Após uma louvada apresentação, a artista mudou de escola e começou a trilhar seus caminhos na Mocidade Independente de Padre Miguel, onde dividiu o posto oficial como intérprete ao lado de Ney Vianna por 3 anos, nos carnavais de 1974 (Festa do Divino), 1975 (O mundo fantástico do Uirapuru) e 1976 (Mãe Menininha do Gantois). Após uma breve pausa nos desfiles, Elza retornou ao microfone de uma escola de samba em 1979, ano em que defendeu mais um samba-enredo, mas pelo Carnaval de Niterói, no Acadêmicos do Cubango. 

Depois de 20 anos, a cantora retornou à verde e branco, em sua estreia num carro de som na Sapucaí. Se Elza não foi a primeira, certamente foi uma das presenças femininas mais marcantes no canto das escolas de samba. Quando aceitou o convite de conduzir o samba do Salgueiro, a artista tornou-se um espelho para novas vozes femininas surgirem no segmento nos anos seguintes e, sem dúvida, por sua carreira tão notável, até os dias de hoje.

Por falar em ícone da música popular brasileira, há alguns nomes que não podem ser esquecidos nessa compilação. Um deles é o de Beth Carvalho, figurinha carimbada quando o assunto são as mulheres na condução de um samba-enredo. A eterna madrinha, que sempre frequentava rodas de samba e fez sua carreira gravando obras que se tornaram clássicos do gênero, em 1974, deu voz a “Mangueira, em tempo de folclore”, já que Jamelão estava, na ocasião, impossibilitado de gravar por questões contratuais. Beth também esteve presente em algumas oportunidades no time de canto da Estação Primeira, ajudando a conduzir as obras na Avenida. 

Clara Nunes desfilando pela Portela em 1982. Foto: Acervo O Globo.

E não para por aí. Muitos não sabem, mas Clara Nunes foi uma das grandes precursoras nesse âmbito carnavalesco. No ano de 1971, ela gravou dois sambas-enredo, um para o Império da Tijuca (“Misticismo da África no Brasil”) e outro para o Salgueiro (“Festa para um rei negro), que acabou sendo o estopim para a seu sucesso no samba, já que antes percorreu outros gêneros musicais. Em 1975, esteve no carro de som da Portela, ao lado do intérprete oficial Silvinho do Pandeiro, defendendo o samba-enredo “Macunaíma”. Clara também contribuiu para que muitas canções que remetiam universo do Carnaval fizessem sucesso, como “Portela na avenida” e o “Canto das três raças”. Seu pioneirismo feminino foi homenageado, mais tarde, por outro nome feminino marcante do mundo da música. Alcione foi convidada, por ter sido amiga próxima de Clara, a gravar a reedição de “Contos de Areia”, pelo GRES Tradição, no ano de 2004. 

No entanto, antes disso, na década de 1980, o número de mulheres no carro de som diminuiu consideravelmente. Apenas em 1989 as vozes femininas começaram a surgir nos times de canto novamente. A cantora Simone dividiu o posto de intérprete oficial ao lado de Candanda pela Tradição, juntos defendendo o samba-enredo “Rio, samba, amor e tradição”. Entretanto, a artista recebeu muitas críticas pela sua apresentação. Outros nomes também vieram surgindo, como da conhecida Leci Brandão, que começou como cantora e compositora na década de 1960. A artista participou de vários festivais de samba e MPB e, em seus álbuns, costumava regravar sambas clássicos. Em 1995, recebeu o convite do Acadêmicos do Santa Cruz para defender o samba-enredo “Deuses e costumes na terra da Santa Cruz”, pelo Grupo de Acesso.

Eliana de Lima fez história no carnaval de São Paulo. Foto: Pérola News.

Vale também destacar que não foi apenas em terras cariocas que as mulheres lutaram por um espaço no segmento musical. Em São Paulo, algumas artistas marcaram seu nome na história e tornaram-se referência para muitos que surgiram posteriormente - Eliana de Lima é uma delas. A cantora é uma das mais consagradas vozes do samba do país e iniciou sua trajetória no Carnaval paulistano, no ano de 1979, quando começou a frequentar a quadra da escola Cabeções de Vila Prudente. Apesar do seu inegável talento para a música, Eliana sofreu resistência e muito preconceito para ser reconhecida e ter seu devido espaço. A carreira como intérprete começou em 1980, defendendo o samba-enredo da escola Príncipe Negro. Eliana passou por várias agremiações, mas seus principais destaques foram pela Unidos do Peruche e Leandro de Itaquera. Grandes clássicos paulistanos foram gravados na voz da artista, como “Os sambas filhos da mãe preta”, de 1988, da Peruche, oportunidade em que dividiu o posto oficial de intérprete com o grande Jamelão e “Babalotim - A história dos afoxés”, de 1989, da Leandro. 

Conhecida como a “tulipa negra do samba”, Bernadete foi outro nome muito importante para a folia paulistana. A intérprete protagonizou um dos momentos mais marcantes do Carnaval de São Paulo, quando foi chamada às pressas pela Unidos do Peruche para substituir Eliana de Lima no dia do desfile oficial, já que a cantora havia dado à luz. Com isso, Bernadete foi a primeira intérprete mulher a defender um samba-enredo no recém-inaugurado Sambódromo do Anhembi, em 1991. Além de sua passagem pela Filial do Samba, ela também esteve presente em outras agremiações como Barroca Zona Sul, Império de Casa Verde, Dom Bosco, Acadêmicos do São Jorge, sempre integrando o time de canto. 

A artista precisou lidar com o machismo para conseguir ganhar o seu espaço e se firmar no segmento. Em entrevista concedida ao portal Catraca Livre, em 2017, ela afirmou: “Absolutamente nada mudou. Eu estou no palco, estou no carro de som, mas ninguém pensa em dar o microfone principal para mim – nem para nenhuma outra. É necessário fazer com que as mulheres sejam respeitadas e reconhecidas por todo esse trabalho que vem empreendendo.” Por ser uma figura simbólica da Unidos do Peruche, a artista retornou à agremiação em 2005 e, em 2008, tornou-se a primeira mulher a possuir o cargo de diretora da ala de compositores da escola, permanecendo até hoje.

Grazzi Brasil em desfile oficial do Paraíso do Tuiuti em 2019. Foto: Site Carnavalesco.

Todas as mulheres citadas foram muito importantes para que pudessemos ver mais vozes femininas nos times de canto hoje em dia, ainda que em número pequeno. Desta forma, não podemos esquecer de mencionar Grazzi Brasil, uma das vozes femininas mais fortes dos últimos anos. A cantora iniciou a sua trajetória no Vai-Vai, onde integrava o time de canto dos sambas-enredos concorrentes campeões de 2015 e 2016. Mas foi em 2017, quando defendeu a obra “Mãe Menininha do Gantois”, que alcançou a sua consagração e notoriedade. Recebeu o convite para integrar o carro de som da Saracura no mesmo ano e dividiu a faixa do CD ao lado do intérprete Wander Pires. Em 2018, tornou-se a primeira intérprete feminina da história da escola do povo, onde permaneceu até o Carnaval 2019. O grande talento da cantora fez com que ela ganhasse uma oportunidade no Rio de Janeiro, onde foi intérprete do Paraíso do Tuiuti e da São Clemente.  


O dom de compor é coisa de mulher


Permanecendo no âmbito musical, é preciso reconhecer que ainda há poucas mulheres figurando nas alas de compositores de uma escola de samba. Este é outro segmento formado na sua maioria por homens e em que ainda há forte resistência à presença feminina. Mesmo com essas questões, tivemos mulheres que conseguiram fazer história e marcar o Carnaval com suas composições. Tudo indica que a primeira compositora e uma das pioneiras foi Carmelita Brasil, da Unidos da Ponte. De 1959 a 1964, Carmelita foi responsável pelos enredos e também pela composição dos sambas da agremiação. Não bastasse isso, Carmelita também foi presidente da escola da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. 


Dona Ivone Lara desfilando pelo seu Império Serrano em 1985. Foto: Acervo O Globo

Um dos nomes mais marcantes e importantes no mundo do samba é o da famosa e consagrada Dona Ivone Lara. A cantora perdeu seus pais quando era criança e foi criada pelos seu tio, que era músico e lhe ensinou tocar cavaquinho. Tendo recebido educação musical formal no colégio que frequentava, desde os 12 anos já escrevia várias canções. Foi nessa idade que compôs “Tiê”, um dos grandes sucessos de sua carreira.. Ao se casar com o filho do fundador da escola de samba Prazer da Serrinha, Oscar, sua vida ficou ainda mais atrelada ao samba. Seu primo, mestre Fuleiro, foi um dos fundadores do Império Serrano e, com isso, Ivone Lara começou a frequentar a nova agremiação. 

No fim da década de 1940, os sambas que a artista havia composto eram apresentados como se fossem do seu primo, pois naquela época o preconceito ainda era grande e não havia espaço para mulheres compositoras. As coisas começaram a mudar em 1965, um ano inesquecível e muito importante para a artista. O samba-enredo “Cinco Bailes da História do Rio”, composto para o desfile da verde e branca de Madureira, de autoria de Ivone junto ao mestre Silas de Oliveira e Bacalhau, tornou-se um clássico, deixando como marca seu nome como a primeira compositora mulher a assinar um samba-enredo numa grande escola do Rio de Janeiro. Além disso, a artista quebrou outro tabu, quando tornou-se a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma agremiação. Em 1961, Ivone já havia desfilado como componente da ala, mas apenas quatro anos depois passou a fazer parte dela oficialmente. 

Personagem já citada neste texto, Leci Brandão, além de ter sido intérprete, também foi compositora. No ano de 1972, entrou para a ala dos compositores da Estação Primeira de Mangueira, sendo a primeira mulher a conseguir tal feito na verde e rosa. Participou de várias disputas de sambas-enredos, porém, nunca foi campeã, conquistando o segundo lugar em duas oportunidades, sendo a última no Carnaval de 1998.

Outra compositora muito experiente é Dona Zezé, que faz parte da ala dos compositores do Paraíso do Tuiuti e tem quatro sambas assinados na escola: 2004, 2011, 2018 e 2019. A artista já comentou que não enfrentou muitas complicações para participar de parcerias e assinar obras na escola, diferente de muitas outras compositoras. Dona Zezé, que tem 74 anos, começou na escola de São Cristóvão como presidente de ala, ajudou na confecção de fantasias e começou a compor sambas por curiosidade, junto com seu filho Eric. 


Manu da Cuíca é autora do samba-enredo campeão de 2020 da Estação Primeira. Foto: Site Carnavalesco.

No Carnaval de 2020, tivemos duas compositoras mulheres vencedoras de concursos de sambas-enredo no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro: Manu da Cuíca conseguiu emplacar seu samba na Mangueira, assim como Sandra de Sá o fez na Mocidade Independente de Padre Miguel. Manu, que em 2019 também foi uma das autoras da obra campeã da Mangueira, ainda que não tenha assinado oficialmente a obra num primeiro momento, é uma das artistas que está em ascensão na folia carioca, graças ao seu inegável talento. Em entrevista realizada para O Globo em 2019, ela enfatizou:

“É um ambiente marcadamente masculino. As mulheres nas escolas de samba participam, historicamente, de outros segmentos. E não é que não queiram, mas porque há predomínio masculino mesmo. Não faltam, por exemplo, sambas que exaltam belezas femininas com algumas demarcações de inferioridade que chegam a ser ridículas. Eu jamais faria um samba assim. É sempre desconfortável. Não faltam mulheres para compor, mas a gente tem que mostrar o tempo inteiro que está fazendo samba.”

Como se pode notar, o preconceito que Dona Ivone Lara sentiu na década de 1940, infelizmente, ainda está presente na atualidade. 


Vêm chegando as batuqueiras


Outro universo que também, por muitos anos, era predomínio dos homens é o da bateria das escolas de samba. Consideradas o “coração” de uma agremiação e que, junto ao samba-enredo, formam a trilha sonora de um desfile, por muitos anos, as orquestras percussivas tinham como ritmistas e diretores apenas representantes do gênero masculino, o que vem mudando gradativamente. Essa restrição se dava por motivos religiosos: num paralelo com o universo das religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé, em que uma mulher não pode ocupar o cargo de ogã - o responsável por tocar o tambor nas cerimônia -, essa proibição se estendeu aos cortejos carnavalescos. No entanto, atualmente, essa tradição não é mais seguida e se pode ver, em média, 30% de mulheres numa bateria, sendo que, em algumas agremiações, há um número ainda maior. Apesar da figura feminina ser mais presente apenas recentemente, a primeira mulher a desfilar em uma bateria de escola de samba foi Dagmar, em 1938, pela Portela, onde tocava surdo. 

Dagmar, a primeira mulher a desfilar numa bateria em 1938 pela Portela. Foto: Portela - Facebook

Ainda é raro encontrar mulheres comandando baterias, mas a presença de ritmistas e diretoras de bateria está se tornando mais frequente. Uma das ritmistas mais antigas do Carnaval carioca é Neide Tamborim, que desde a década de 1970 toca o instrumento na Beija-Flor. Naquela época, Neide sofreu muita resistência por parte dos homens. A tradicional Mangueira por exemplo, começou a aceitar mulheres na sua bateria apenas a partir do carnaval de 2007, quando somente 11 delas foram selecionadas. E, mesmo sendo ainda incomum, tivemos algumas mulheres como mestres de bateria. A primeira foi Helen Maria Silva Simão, de 2009 a 2011, quando foi mestre da extinta Unidos do Uraiti, do Grupo E do Rio de Janeiro. Oito anos depois, mais uma ganhou a oportunidade de realizar a função. Em 2019, Thais Rodrigues tornou-se mestre de bateria da escola Feitiço do Rio, que disputa a Série E, o Grupo de Avaliação do Carnaval carioca. Além disso, ela também é diretora de surdo na bateria do Acadêmicos da Rocinha.

Em São Paulo, as baterias contam com muitas mulheres como ritmistas. Em consequência disso, algumas também estão ocupando a função de diretoras. Talita Badia é a atual diretora de chocalho da Cadência da Vila, da Unidos de Vila Maria, cargo que ocupa desde 2015. Sua história no Carnaval iniciou em 2006, quando começou a tocar chocalho na bateria da Mancha Verde. No ano seguinte, assumiu o naipe de chocalhos da verde e branco, até ir para a agremiação do Jardim Japão. Além dela, temos outros exemplos: Gabriela Barranqueiro é diretora de agogô da X9 Paulistana desde 2017, com passagens anteriores por Águia de Ouro, Dragões da Real e Rosas de Ouro e Tamara Santana foi diretora de bateria da Puro Balanço da Mancha Verde de 2015 a 2019, tendo começado a batucar muito pequena, aos 5 anos, tocando tamborim.

Talita Badia em ensaio técnico para o carnaval de 2018 pela Vila Maria. Foto: Igor Catanhende

Em 2020, tivemos uma mulher comandando uma bateria no Grupo de Acesso 1 de Bairros da UESP. Rafaella Rocha Azevedo, a Rafa, é mestre de bateria da Imperatriz de Pauliceia. Ela, que já havia liderado os ritmistas da “Swing da Paulicéia” em 2015, retornou no último Carnaval. O início de sua carreira foi na X9 Paulistana, em 2007 como ritmista, onde, através de sua disciplina e talento, se destacou e começou a cavar ainda mais seu espaço. 


A diversidade de bailados


Para além das vanguardistas, há segmentos no Carnaval que, desde muito cedo, foram ocupados pelas mulheres, como é o caso das passistas. No entanto, é importante salientar que o papel delas numa escola de samba está além de se restringir aos seus corpos seminus e esbeltos. Por anos, as donas do samba no pé sofreram com a objetificação de suas imagens, resultado do olhar daqueles que consomem o Carnaval apenas como produto, sem levar em conta seus códigos culturais. Através de uma luta de conscientização que iniciou há décadas, as mulheres tentam mostrar por meio de sua dança o quanto são fortes, independentes e donas de seus corpos, dos mais variados tipos, empoderando umas às outras.

Uma das primeiras passistas a fazer sucesso nacionalmente foi Maria Mercedes, mais conhecida como Maria Lata D'Água, por sambar e dançar equilibrando, como diz sua alcunha, uma lata d’água na cabeça. Iniciou sua trajetória no Salgueiro, porém, quando frequentou a agremiação, não podia usar o símbolo que a tornou conhecida. Foi apenas na Portela que voltou a usar a sua famosa lata. Teve passagens por outras agremiações, como Beija-Flor, Mocidade Independente de Padre Miguel e Estácio de Sá. Foram 45 anos dedicados ao Carnaval, presenteando os foliões com seu carisma característico e samba no pé.


Paula do Salgueiro foi a responsável pelo surgimento do termo passista. Foto: Revista Manchete.

O termo “passista” surgiu graças a Paula da Silva Campos, uma salgueirense que encantou a todos com seu gingado. Paula tinha uma forma de dançar única e diferente de outras mulheres, por isso, os jornalistas na época, acharam necessário a criação de um nome para batizar a sua dança. Antes da definição do termo, era comum chamarem-na de malabarista. A artista iniciou sua trajetória na década de 1940, em Niterói, na escola “Combinado do Amor”. Seu grande sucesso foi pelo Acadêmicos do Salgueiro, escola em que chegou em 1954 e permaneceu desfilando até a década de 1980. Ela foi destaque não só da vermelho e branco, mas do Carnaval carioca, com sua alegria, roupas características e por ter simbolizado o espírito do povo carioca. 

Por sua vez, Pinah não é considerada uma passista, mas uma destaque de chão, porém, ela marcou seu nome no Carnaval pelo seu característico samba no pé. Sua grande explosão no Carnaval foi quando aceitou o convite do seu amigo carnavalesco Joãosinho Trinta para ir a Beija-Flor de Nilópolis. A artista o conheceu no Salgueiro, na década de 1970, e esteve presente nos títulos de 1974 e 1975. Pinah ficou mundialmente conhecida em 1978 quando dançou com o príncipe Charles, que estava visitando a cidade maravilhosa e participando de uma festa com a presença da azul e branco de Nilópolis para mais de 400 convidados. Em 1983, a Cinderela Negra foi homenageada ao lado de outros artistas pela deusa da passarela, ganhando alguns versos no samba-enredo: “Pinah êêê Pinah, a Cinderela negra que ao príncipe encantou, no Carnaval com o seu esplendor”. Seu último ano desfilando pela Beija-Flor como destaque foi em 1989, no inesquecível “Ratos e Urubus: larguem minha fantasia”. 

Pinah ao lado do príncipe Charles. A cena ganhou os holofotes internacionais.


Outro nome marcante da Beija-Flor foi Sônia Maria Regina, mais conhecida como Soninha Capeta. A artista ganhou esse nome pela forma acelerada como sambava, mexendo os quadris muito rapidamente. Soninha possui uma forte história de superação: ela perdeu seu filho quando tinha 21 anos e chegou até morar na rua por alguns anos. Foi rainha de bateria da escola da Baixada Fluminense por quase duas décadas e seu último desfile no posto foi em 2003, quando deu lugar à Raíssa. Soninha e tantas outras, como Narcisa do Salgueiro, Gigi da Mangueira, Adele Fátima e Nega Pelé escreveram seu nome na história do Carnaval e encantaram com seu gingado e samba. Muitas vezes tratadas como meros símbolos sexuais, essas mulheres merecem ser valorizadas e reconhecidas na história do Carnaval.

Assim como as passistas, as porta-bandeiras têm uma função muito importante dentro de uma escola de samba, ao lado do mestre-sala. A dama tem a função de ostentar o símbolo maior de uma agremiação, além de apresentá-lo junto ao seu parceiro com muita elegância e leveza. O casal está extremamente ligado à figura da porta-estandarte e do baliza nos antigos carnavais. O baliza, à época, tinha como principal função proteger a porta-estandarte para que ninguém pegasse a sua bandeira. Roubar o pavilhão do outro grupo era como uma forma de troféu, por isso, sua proteção, inclusive do ponto de vista da força física, era necessária. Muito por conta disso, os primeiros porta-estandartes eram homens, posição essa que foi incorporada nas escolas de samba. Um dos primeiros porta-bandeiras foi Ubaldo, da Portela. Já Maria Adamastor foi uma das primeiras mestre-salas que fez história no posto. Ao longo dos anos, essa ordem foi invertida e o que temos até os dias de hoje é a figura do mestre-sala ligado ao homem e a figura da porta-bandeira ligada à mulher. 

Nos últimos meses, não sem certa polêmica, vimos o surgimento de Anderson Morango, segundo porta-bandeira no Acadêmicos do Sossego. Como já citado, historicamente as primeiras pessoas porta-bandeiras eram homens, antes dos papéis de acompanhantes do pavilhão cruzarem as identificações de gênero. Rupturas com os padrões de normatividade e os papéis dos gêneros construídos socialmente geram desconforto naqueles que pregam por um conservadorismo enfadonho. Independentemente de sua identificação, que deve ser respeitada e defendida, Anderson está ciente da sua figura e da responsabilidade que possui dentro de uma agremiação. E é isso o que mais importa para uma pessoa exercer o carregar da bandeira.

Maria Helena uma das maiores porta-bandeiras do carnaval carioca. Foto: Leandro Milton - SRZD

A porta-bandeira, figura que possui o status de “rainha”, tem um bailado elegante, sempre com um sorriso no rosto e mantendo o seu pavilhão desfraldado. Muitas porta-bandeiras marcaram seu nome no Carnaval, como Neide, Maria Helena, Vilma Nascimento, Eneidir Gomes e Maria Gilsa. Elas e tantas outras foram detentoras de grande responsabilidade em seus desfiles, pois, junto ao mestre-sala, representam um único quesito. Em suas mãos, o maior símbolo de uma agremiação tem seu destaque e sua devida valorização. Além de uma linda dança, precisam carregar uma fantasia muito pesada - podendo chegar até 40kg - e manter uma evolução constante por toda a Avenida. 

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval

Confira ainda a #SérieBatuques sobre a batida de grandes baterias brasileiras. Imperdível! 



Referências Bibliográficas:

https://catracalivre.com.br/samba-em-rede/bernadete-primeira-mulher-puxar-um-samba-enredo-no-anhembi/

http://soulart.org/artes/bernadete-lanca-minibiografia-literaria

https://www.fatopaulista.com.br/index.php/cotidiano/item/2953-bernadete-a-tulipa-negra-do-samba

http://www.sambariocarnaval.com/index.php?sambando=mulheres

https://www.geledes.org.br/mulheres-vencem-machismo-em-disputa-de-samba-enredo-das-escolas-do-grupo-especial/

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2016/05/03/interna_diversao_arte,530121/sambas-que-retratam-mulheres-marcam-nova-fase-menos-preconceituosa.shtml

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Mês a mês mergulhando em diversos universos particulares que formam as complexas organizações que são as escolas de samba, o Carnavalize decidiu derrubar o protocolo social convencional de evidenciar mulheres apenas em março, quando comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Por isso, a partir de agosto, todas às segundas-feiras, nossos leitores acompanharão em nosso site um novo capítulo de uma série pensada para enaltecer, contar histórias, lembrar figuras e propor reflexões acerca do papel feminino no carnaval. 
Arte: Lucas Monteiro

Texto: Luise Campos
Revisão: Beatriz Freire



“Dona da casa, me dá licença / Me dê seu salão para eu vadiar”


O samba urbano carioca, este fenômeno que catalisou agrupamentos, reuniões, festas e organizações que deram origem às escolas de samba que hoje são – com a devida permissão do chavão – o maior espetáculo da Terra, foi gestado em ventre de mulher. Isso porque consagrou-se como consenso que foi Tia Ciata a grande matriarca de todos nós, sambistas apaixonados. (Como você pode conferir no primeiro texto da nossa série.)

Para além do fato de ser ela apenas uma das que foram as grandes personagens do movimento cultural surgido da inventividade do povo negro ex-escravizado – e, portanto, já louvando todas as outras “tias” que não têm seus nomes registrados nos compilados mais famosos –  venho destacar um viés dessa narrativa que me servirá de mote para começar a falar dessas mulheres. Dessa forma, questiono: quantas vezes Ciata não funcionou como metonímia de sua casa? Ou seja, não é raro que, quando se pense em sua contribuição para o surgimento desse complexo cultural de saberes e significados que hoje chamamos de samba, vem à mente que foi em sua residência o local onde se deram tais dinâmicas sociais.

Fosse isso e já seria grande o feito. Afinal, casa é acolhida. E elas efetivamente receberam a comunidade que se juntava em torno delas, reforçando laços de sociabilidade e identidade por meio de festas e batuques que ali aconteciam. No entanto, o fato histórico, é bom lembrar, se compõe de versões, prismas e camadas: ao passo que se busca conhecê-lo, se revelam sempre novas possiblidades de leitura para um acontecimento. Ciata de Oxum, mais do que líder comunitária e espiritual, foi também a idealizadora de ranchos carnavalescos como o “O Macaco é Outro”, além de ter passado a comandar o “Rosa Branca”. Além disso, há indícios de que tenha sido uma das compositoras de “Pelo Telefone”, obra que é considerada como o primeiro samba registado com essa classificação pela indústria fonográfica.

Fato é que a presença notável das mulheres em todas as frentes dos movimentos de sambistas é real. Jurema Werneck é uma das autoras que, chamando a atenção para que o samba foi uma construção coletiva de diversos gêneros desde sua origem, chegando a afirmar que grande parte das escolas de samba tiveram representantes femininas como fundadoras. Logo, se vê que elas não foram perdendo espaço ao longo do tempo; na verdade, elas sempre estiveram ali, o que nos faz pensar num apagamento nada inocente de suas marcas e vestígios na história.

Portanto, nossa tarefa aqui é apontar algumas dessas representantes que se tornaram mais conhecidas, em nome de todas as outras que, a despeito de existirem, lhes foi outorgado o anonimato. A lista, é claro, não pretende ser exaustiva; é sabido que pesquisas futuras descobrirão mais nomes ainda desconhecidos e, por outro lado, há aquelas cuja trajetória não daremos conta de registrar neste modesto texto. Mas que, ao menos, todas as mulheres se sintam tanto representadas quanto inspiradas pelas histórias das que aqui estão.


O mundo a partir de África e o tambor que fez a gira girar – em São Paulo


Uma mulher bem sabe ser capaz de criar um mundo. Tanto é que, inspirada por uma visita à Praça Onze, no Rio de Janeiro, Deolinda Madre, ou Madrinha Eunice volta para sua casa, em São Paulo, com uma ideia na mala: fundar uma escola de samba. E assim foi. Em 9 de fevereiro de 1937 nasce Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Escola de Samba Lavapés, que passou a ser presidida por ela e é hoje a mais antiga em atividade na capital paulista. Além disso, convém assinalar, a agremiação é também uma das pioneiras da cidade: a “Primeira de São Paulo”, fundada por Eupídio de Faria, havia nascido apenas dois anos antes, em 1935.

Deolinda, fundadora da Lavapés (arquivo pessoal)


Até o ano de 2019, a Lavapés só havia sido dirigida por duas mulheres: Deolinda e Rose Marcondes, sua neta. Em 1995, com o falecimento da avó, Rosemeire toma a frente da agremiação e mantém seu legado. Em 2003, a escola perdeu seu barracão e a preparação do Carnaval passou a acontecer na residência da então presidenta. Quase um século depois, é a casa que abriga a fantasia da representatividade e do lugar no mundo por meio da cultura de tantos descendentes daqueles sambistas de primeira hora.

Hoje, a agremiação é presidida pelo ator Ailton Graça, que lança mão de seu prestígio como artista para obter recursos para a escola. Em 2020, a Lavapés Pirata Negro, como agora é chamada, foi campeã do grupo de acesso II, desfilando no Carnaval de bairros organizado pela Uesp, com o enredo “O mundo a partir de África e o tambor que faz a gira girar”, que não à toa nos apropriamos no título desta seção do presente artigo.

Na esteira de Madrinha Eunice vieram muitas: hoje, o Carnaval de São Paulo conta com um número muito maior de mulheres presidentes do que o Rio de Janeiro, por exemplo. Com trajetórias de sucesso, temos Angelina Basílio, à frente da Rosas de Ouro há quase duas décadas, ganhando um campeonato e três vices no Grupo Especial; a multicampeã Solange Cruz, na Mocidade Alegre desde 2003, já havendo conquistado seis vezes o título; Luciana Silva, da Tom Maior desde 2011; Érica Ferro, que assumiu a Camisa Verde e Branco em 2018, assim como Sheila Mônaco, em 2017, na Pérola Negra. Tudo isso sem falar na lendária Dona Guga, do Morro da Casa Verde, que liderou a escola de 1991 até 2017 e hoje é presidente de honra.


“Veio, no calcanha, de Além Paraíba / Dançando uma xiba, arrastando a sandália”


Voltando para o Rio de Janeiro, mas vindo dos lados do Sul Fluminense, chegamos à Serrinha, morro da Zona Norte carioca, que foi o berço de uma das escolas de samba mais notórias do panteão das agremiações carnavalescas: o Império Serrano. Em São José do Além Paraíba, estado de Minas Gerais, nasce Eulália do Nascimento, no ano de 1909, vindo morar ainda criança em Madureira. Ali, sua família construiu uma sólida tradição de participação e liderança em festejos de cultura popular. Após passagem na antecessora Prazer da Serrinha, um grupo decide fundar uma nova escola. É de Molequinho, irmão de Eulália, o relato que dá conta de como culminou o processo que vinha se desenrolando desde 1946:


“Felizmente no dia 23 de março do ano de 1947, reunimo-nos na casa de Eulália, uma das grandes figuras do Império Serrano, com o propósito da fundação da nossa escola.
Naquela data histórica, e com a presença de consagrados sambistas, foi solicitado aos presentes que apresentassem para discussão o nome que se daria à escola recém-nascida, e as cores de seu pavilhão.
Foi proposto por mim o nome de IMPÉRIO SERRANO, o qual foi aceito por unanimidade; propus também a cor azul e amarelo ouro, não sendo aprovado. A cor verde e branca, que tanto nos tem abrilhantado, foi escolhida pelo Antenor (...)”  
(Trecho do livro "Serra, Serrinha, Serrano", de Rachel Valença e Suetônio Valença)



Voltando a falar de registros históricos e apagamentos, surge a surpresa: dos 31 nomes que constam da ata de fundação da agremiação, não se vê o de Eulália do Nascimento ou de qualquer outra mulher. Consta, por outro lado, o de José do Nascimento Filho, seu esposo, quem, a bem da verdade, era muito menos atuante do que ela em assuntos de samba – sua influência maior era no jongo.

Ainda assim, é de Eulália a carteirinha de número 1 do Império Serrano, onde jamais deixou de desfilar até o fim de sua vida. Viveu até os 97 anos de idade, muito mais do que seu marido, falecido em 1953 – motivo pelo qual, devido ao luto, deixou de desfilar na escola que se confunde com sua vida, ao que consta, foi a única vez em que isso aconteceu. No ano de 2018, a rua Balaiada, onde fica a casa em que morou toda a vida, no alto de morro da Serrinha, passou a ser chamada de rua Tia Eulália, se juntando a tantas outras que há homenageavam anteriormente outros sambistas lugar, como as ruas Mano Décio da Viola, Compositor Silas de Oliveira e Antônio dos Santos Fuleiro. 

A história de Tia Eulália, certamente, não é o único caso de uma fundadora que não teve seu nome dos documentos oficiais – apesar de, no caso dela, a força de sua figura tenha feito com que, ainda assim, seu reconhecimento como líder seja incontestável. Desta forma, passamos a falar daquelas que, ainda que não tenham participado do nascimento das agremiações, chefiaram-nas com rigor e pulso firme: as presidentes.

Tia Eulália no Morro da Serrinha, em 1992, na rua que levaria seu nome em 2018. Foto: Madureira, ontem e hoje.


Há muito pouco em termos de registro formal, crônico problema no que se refere ao tema cultura popular e memória, mas, até onde se sabe, podemos apontar uma possível pioneira no âmbito da presidência feminina nas escolas de samba do Rio de Janeiro: Carmelita Brasil. Líder da Unidos da Ponte durante o longo período que vai de 1959 a 1979, ela foi a responsável por registrar os estatutos da agremiação em 1957, fazendo com que a agremiação se filiasse à AESCRJ e passasse a desfilar dois anos depois no Rio de Janeiro.

Num momento em que não havia, como hoje, a estrutura gigantesca que fez com que as tarefas sejam muito bem divididas em distintos setores de uma agremiação, ela foi, como era comum, responsável pelos enredos e sambas de enredo da Ponte desde o início de seu mandato até o ano de 1964. Vale destacar, ainda, que ela foi também uma das fundadoras da escola e, como é de se esperar, era conhecida por ser rígida e mandona – de que outra maneira uma mulher poderia alcançar tal feito?


Therezinha Monte: a enamorada do samba


Outra história marcante é a de Therezinha Monte, que reivindica (por que não?) sua cota de primazia: se não foi a primeira presidente mulher da folia carioca, foi a primeira delas a ocupar esse cargo sendo eleita. Esteve à frente da Unidos do Cabuçu de 1982 até 1998, ano em quando começa a se despedir da escola que amargava cada vez mais dificuldades financeiras. Mas, nesse período, levou a escola à glória, conduzindo-a ao Grupo Especial, onde ficou por seis anos. Além disso, pode-se dizer que foi a inventora do enredo patrocinado. Num esforço de angariar recursos para fazer bons e competitivos desfiles, lançou mão de parcerias comerciais que se estendem até os dias de hoje nas escolas de samba.

Foi em sua gestão, ainda, que personagens vivos começaram a ser homenageados em enredos – e as “celebridades” passaram a ser figurinhas fáceis na Marquês de Sapucaí. Destaca-se o enredo sobre Beth Carvalho, que levou a escola ao campeonato do Grupo 1B. Quis o destino que o momento mais glorioso de Therezinha à frente de sua Cabuçu fosse rendendo flores em vida a uma mulher. 

Therezinha Monte desfila pela Cabuçu em 1987, no enredo sobre Roberto Carlos. Acervo pessoal.


Após deixar a presidência, voltou a desfilar como enredo. Em 2004, a escola de bairro de Lins de Vasconcelos contou a história de “Therezinha Monte, a guerreira do samba e seus 20 anos de folia na Cabuçu” pelas mãos do carnavalesco Luiz Carlos Guimarães. A personagem foi aclamada, como não poderia deixar de ser: era querida tanto pelos componentes da escola mais humildes quanto pela cúpula de dirigentes da folia durante todo o tempo em que esteve na agremiação. Porém, o desfile não foi bem-sucedido, alcançando um decepcionante 11º lugar que rebaixaria a escola para o Grupo C. O que não apaga em nada o legado da presidente que se dedicou de corpo e alma à sua escola e à sua comunidade.


Ruça: a chefe da Kizomba 


Depois de Therezinha, outras mulheres alcançaram o cargo de maior importância em uma escola de samba. Elisabeth Nunes fez história no Salgueiro, assumindo a escola em 1986; Pildes Pereira, na Unidos de Vila Isabel, em 1987. Mas, neste mesmo ano, assumiu a presidência Lícia Maria Caniné, a Ruça, ficando na escola até 1990, aquela que entrou para a história por ser responsável por um título histórico da agremiação das bandas de Noel: em 1988, a azul e branco foi campeã com “Kizomba, festa da raça”, desfile que é considerado como um dos mais marcantes da história.

Ruça era casada com Martinho da Vila, que foi o criador do enredo campeão e era seu parceiro nos assuntos da escola. Ele, um dos maiores expoentes da cultura brasileira, pode não ter ficado satisfeito em ver sua brava companheira sofrendo do apagamento a que nos referimos tantas vezes nesse texto, dessa vez na transmissão televisiva do histórico cortejo, momentos antes de a escola entrar na Avenida. Ali, Ruça se transformou simplesmente na “mulher de Martinho da Vila”, não sendo mencionado em nenhum momento da entrevista o fato de que era ela a presidente da agremiação.  

Reprodução da transmissão televisiva da TV Globo.

Após o lendário campeonato da agremiação, a presidenta seguiu na liderança por ainda mais dois marcantes carnavais, em enredos ligados fortemente a pautas sociais. Depois do grito negro no centenário da abolição, veio "Direito é direito", em 1989, sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e "Se essa terra fosse minha", em 1990, em defesa da reforma agrária, projeto constitucional de 1988 que até hoje não vingou. Não à toa: Ruça e Martinho pertenciam, à época, ao Partido Comunista Brasileiro, chegando a se opor formalmente à Liga Independente das Escolas de Samba, o Capitão Guimarães, que também já havia liderado a escola do bairro de Noel. Além de boas colocações, os desfiles ajudaram a moldar uma Vila Isabel historicamente sempre engajada nas questões políticas (saiba mais).


“O mundo do samba precisa aprender a respeitar uma mulher”


Final de samba-enredo do Acadêmicos do Salgueiro. Expectativa máxima de todo o público para conhecer a obra que a vermelha e branca da Silva Teles levaria para a Avenida Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2016. O enredo “Ópera dos Malandros” havia proporcionado uma safra de sambas da melhor qualidade e a ansiedade tomava conta da quadra para o anúncio da parceria campeã. Já era quase dia claro quando a presidente da agremiação, Regina Celi, toma o microfone para fazer dar o resultado, não sem antes começar seu discurso com a frase: “o mundo do samba precisa aprender a respeitar uma mulher”. O desabafo tinha um motivo: um áudio vazado de WhatsApp em que sua vida sexual era motivo de questionamento acerca do possível ganhador da disputa.

Se, por um lado, nenhuma novidade há com relação a rusgas e desentendimentos nos concursos de samba-enredo e seus resultados, fica claro que, ao se tratar de uma presidente do gênero feminino, a questão vai além. Alguém se lembra de um homem ter sua gestão administrativa em alguma agremiação ser questionado por causa de algum possível envolvimento amoroso? De fato, notícias de anedotas nesse sentido não faltam, as quais sempre acabam fazendo parte das folclóricas anedotas que envolvem a festa.

Para além das polêmicas – que não foram poucas – que envolveram seus anos à frente da Academia do Samba, teve uma trajetória vitoriosa: assumiu a presidência em 2009, já sendo campeã com o enredo “Tambor” e mantendo a escola na liderança no ranking da LIESA por anos, dada a regularidade das boas apresentações da agremiação. Em 2018, deixa a agremiação em mais um episódio conturbado, graças a uma eleição questionada nos Tribunais de Justiça do Rio de Janeiro. 

Atualmente, no Rio de Janeiro, temos poucas representantes femininas à frente de uma escola de samba. Recentemente, Vera Lúcia Corrêa, que presidia o Império Serrano, deixou a escola após o último Carnaval. Nos grupos de acesso, para citar exemplos, estiveram à frente Kátia Paz, da jovem Renascer de Jacarepaguá, e Tatiana Irineu, do Arranco do Engenho de Dentro, com a responsabilidade de levar à frente o legado de uma escola de samba de um bairro tradicionalíssimo para a história dos certames carnavalescos. O mesmo Arranco hoje tem à frente Diná Santos – é nos grupos menores que as mulheres presidentes, atualmente, se fazem representar. Menção honrosa também para Elizabeth da Cunha, a Betinha, presidente do Acadêmicos do Vigário Geral, escola da Série A do Carnaval carioca. Porém, ainda que recentemente tenhamos visto nomes como Neide Coimbra e a própria Vera (Império Serrano), Chininha (Mangueira) e Beta (Vila Isabel), chegamos a 2020 sem nenhuma mulher presidente no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Que as donas da casa possam, cada vez mais, sentar à sala e participar do banquete principal.

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval


Referências bibliográficas
 
Alma de Cabrocha: uma autobiografia cheia de samba, de Therezinha Monte
Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, de Rachel Valença e Suetônio Valença
O samba segundo as ialodês: mulheres negras e a cultura midiática, de Jurema Pinto Werneck (tese de doutorado)
https://medium.com/@raphasalomo/a-lavap%C3%A9s-no-abre-alas-4a37c8163fa3
https://almapreta.com/editorias/realidade/lavapes-escola-de-samba-mais-antiga-de-sp-vence-carnaval-tradicional-dos-bairros
https://oglobo.globo.com/rio/celina/mulheres-vencem-machismo-em-disputa-de-samba-enredo-das-escolas-do-grupo-especial-24029820


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