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Carnavalize

 

Arte por Lucas Monteiro

Texto: Débora Moraes
 
Rosa Magalhães e Leandro Vieira são os carnavalescos que mais tiveram seus trabalhos exibidos em exposições em instituições de arte. Além de colecionarem esse título, ambos tiveram apenas uma exposição individual dedicada ao que haviam apresentado naquele ano com o mesmo objetivo: mostrar que existe muito mais na produção do carnaval das escolas de samba do que o exibido no desfile. Nesse texto, vamos analisar como a cobertura dos jornais sobre as duas exposições e os dois carnavalescos foi diferente, mesmo com as exposições sendo tão semelhantes, a ponto de até as fotos ilustrando as matérias (que possuem 27 anos de diferença) serem parecidas.

A exposição do Leandro acontece com o apoio do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que acompanhou todo o processo da Mangueira para 2017, contribuindo para a pesquisa sobre o enredo e registrando a memória do processo, que resultou na exposição e na publicação “Arte e Patrimônio no carnaval da Mangueira”. “#bastidoresdacriação – Arte aplicada ao carnaval” foi uma das quatro exposições inauguradas em junho de 2017, no Paço Imperial, como parte da agenda de comemoração dos 80 anos do Iphan.

Figurinos em exposição no Paço Imperial, 2017, foto de Léo Martins.

Já “Salgueiro 90” é organizada por Rosa Magalhães junto com a direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tendo a agremiação alvirrubra pago cerca de Cr$500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros) para a exposição acontecer. Para os jornais, Rosa afirma que “não são todas as escolas que têm condições de bancar um projeto desse tipo”, indicando que os quinhentos mil cruzeiros que custou era um preço elevado. Para termos uma ideia dos valores à época, na transmissão do carnaval de 1990 pela Globo, durante o desfile da São Clemente (então também parte do Grupo Especial), os repórteres perguntam aos foliões o preço das fantasias, e uma delas diz ter pagado NCZ$ 600,00 (seiscentos cruzados novos), o que alega ser “muito barato”. Um dos repórteres anuncia que para participar dos desfiles estava sendo cobrado a turistas o preço de NCZ$ 3.000,00 (três mil cruzados novos), com fantasia inclusa. E outra repórter pergunta a uma foliã, que diz ser lojista e ter pagado NCZ$ 3.500,00 (três mil e quinhentos cruzados novos), se ela precisou economizar o ano todo para comprar a fantasia. A moeda mudou do Cruzado Novo (NCZ$) para o Cruzeiro (Cr$) em março de 1990, e a conversão entre as moedas era NCZ$ 1,00 para Cr$ 1,00, ou seja, um cruzado novo equivalia a um cruzeiro. 

A “Salgueiro 90” levou para o Parque Lage quinze fantasias, quatorze esculturas, faixas e estandartes, desenhos de figurinos (com amostras de pano), de carros alegóricos e de esculturas, além de centenas de fotos do processo de criação do desfile “Sou Amigo do Rei”. Ainda havia quatro sessões, ao longo do dia, exibindo um vídeo sobre a criação das esculturas, desde o corte do isopor e a produção da fibra de vidro. 



Rosa Magalhães posa ao lado da escultura de onça na piscina ao centro do prédio da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Foto de Renan Cepede para o Jornal do Brasil.

A “#bastidoresdacriação” teve a curadoria feita pelo próprio Leandro Vieira, que levou as fantasias mais marcantes do enredo “Só com a ajuda do Santo”, como a da porta-bandeira Squel Jorgea, a da bateria de São Francisco, a das baianas com os saquinhos de Cosme e Damião e outras. Havia também desenhos (com pedaços de tecido e anotações), maquetes das alegorias, miniaturas das fantasias, um vídeo making-off do desfile, um painel com o cronograma da confecção de um desfile e dúzias de fotos e textos – dos desenhos, das fantasias, do barracão, do pré e pós desfile.

Apesar de apresentarem um material semelhante e com objetivo parecidos, os carnavalescos, ao falarem sobre as exposições em entrevistas, se comportam de maneira quase opostas. Em relação aos seus papéis como carnavalescos, Leandro é adamante quanto a sua posição na criação de cada etapa do enredo e desfile enquanto Rosa se afasta da atribuição de centralidade. A própria Rosa fala que “podemos dizer que esta exposição tem a assinatura de todo o Morro do Salgueiro” (ALONSO, 1990). Os jornalistas que escrevem sobre a exposição ecoam essas palavras em suas matérias:

Esta não é uma exposição individual, mas uma coletiva (RIZZO, 1990)

A exposição tem uma só assinatura: ‘Morro do Salgueiro!’ (RITO, 1990)

O Salgueiro quer, na verdade, homenagear a coletividade através do produto de um trabalho também coletivo, com a participação dos artistas do morro e do asfalto (O FLUMINENSE, 1990)

Reportagem do O Globo de 1990.


As matérias contribuem para o entendimento de que esta não é uma exposição de Rosa Magalhães (como carnavalesca ou como artista), embora ela assine o enredo, além de ter feito a curadoria da mostra junto com a direção da Escola de Artes Visuais (EAV). Isso contrasta com a postura de Leandro, que é retratado como o carnavalesco que abre uma exposição individual (em que também é responsável pela curadoria), mesmo que também estivesse exibindo o trabalho do desfile da Mangueira. Os posicionamentos dos carnavalescos nas suas respectivas entrevistas provavelmente influenciaram o que os jornalistas reportaram sobre cada um.

Rosa se posiciona contra uma visualização das peças para além do desfile, enquanto Leandro não queria “trazer nada que lembrasse a Sapucaí” (BRUNO, 2017).  A carnavalesca diz que a “intenção é resgatar a plasticidade do carnaval e evitar a tendência de que as peças criadas para os desfiles, vistas em outro espaço, ganhem nova configuração” (LISBOA, 1990). Ela ainda afirma que a obra não deve ser vista da mesma forma que “uma peça de museu”, mas que “carregue a versatilidade do desfile” (LISBOA, 1990). Para Vieira, ao contrário, “quando surgiu a oportunidade de fazer esta exposição num lugar como o Paço, achei que era a chance de mostrar o carnaval como arte” (BRUNO, 2017).

Podemos argumentar que a simples ação de retirar as partes do desfile do ato que acontece na Passarela do Samba e transportá-las para o Parque Lage já é dar a elas uma nova configuração: uma escultura em cortejo versus um objeto imóvel, uma fantasia vestida por um integrante sambando versus em um manequim parado, as peças vistas de longe da arquibancada versus vistas de perto. Mas é mais interessante perceber que Rosa parece contra a ideia de as criações do desfile serem vistas como a arte de museus e galerias e, por isso, fale de uma “versatilidade” que existe no desfile e não na “peça de museu”. Enquanto isso, Leandro trabalha o material de forma que ele não seja idêntico ao do desfile, exatamente porque deseja que aquilo seja visto como a arte que possa fazer parte de galerias e museus.

Frederico Morais, importante crítico da arte brasileira, é o responsável pela apresentação da exposição de Rosa Magalhães, o que faz com exaltação ao comentar que a considera um ponto de “confluência das diferentes tendências do carnaval” (MORAIS, 1990). As observações do crítico se estendem primeiro ao carnaval em geral, quando comenta sobre a estética de outras escolas e carnavalescos (Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Fernando Pamplona) a partir de suas próprias análises da festa por meio de “categorias estéticas eruditas”, ressaltando-a como forma de arte brasileira. 

A apresentação de Morais, considerando sua campanha a favor da obra de Fernando Pinto, em 1983, e seus textos acerca da festa evocam um apoio à presença do carnaval num espaço de arte de vanguarda, como no trecho em que convida os alunos e professores do Parque Lage a trocarem as salas de aula por barracões. No entanto, é interessante notar que em nenhum momento, neste texto, Rosa Magalhães é chamada de “artista”, ainda que seu autor use categorias da arte para tratar do carnaval e de outros carnavalescos.

A intenção de expor uma escola de samba dentro de um espaço de arte vanguardista como o Parque Lage gera uma certa comoção na imprensa, de maneira que uma jornalista chega a dizer (erroneamente) que “esta é a primeira vez que uma escola de samba traz suas fantasias, bandeira e esculturas para um espaço tradicionalmente dedicado aos artistas de vanguarda” (LISBOA, 1990). Na verdade, menos de uma década antes havia ocorrido uma exposição de Fernando Pinto. Outros jornalistas ainda fazem questão de ressaltar que a mostra significa o encontro do popular com o erudito vanguardista (LISBOA, 1990; AYALA, 1990), até mesmo citando o texto de Morais. Importante destacar que, diante dessas matérias nos meios de comunicação, a exposição “Salgueiro 90” não parece ter sido aproveitada para estender a possibilidade de outras escolas e carnavalescos também ocuparem esses espaços.


Reportagem do jornal O Globo de 12/06/2017.


Enquanto isso, o posicionamento de Leandro em seus discursos gira em torno do reconhecimento das criações para as escolas de samba enquanto material artístico e cultural, ponto que toma conta das matérias que saem a respeito. Uma delas chega a dizer que ele é “como um pilar dessa resistência cultural [do carnaval] ante a sanha do entretenimento” graças à insistência do carnavalesco em defender a visão do carnaval como arte. Em entrevista, ele explica que “quis fazer uma coisa que mostrasse os bastidores do processo artístico. Porque o Carnaval já vive há muito tempo, não é de agora, esse esvaziamento da produção artística. Das pessoas não olharem essa produção como uma produção de arte gigante, como arte plena. Tem o preconceito da sociedade brasileira como um todo com relação ao carnaval” (VIEIRA, 2020).

Os discursos de ambos os carnavalescos diante de suas exposições é importante para demarcar como eles se veem e como vão influenciar outros a vê-los. Leandro, que se coloca como criador individual e produtor de arte, e Rosa, que vê o desfile e, consequentemente, a exposição no Parque Lage como resultado de um trabalho coletivo. Seus posicionamentos também refletem a forma como querem que seus trabalhos sejam vistos – Leandro, que deseja que suas criações sejam vistas como arte por si só, e Rosa, querendo que elas permaneçam como parte do desfile.

Essa diferença de discurso se torna mais interessante quando voltamos a suas carreiras. Vieira é grande admirador de Rosa Magalhães e ambos estudaram na mesma Escola de Belas Artes da UFRJ, inicialmente nutrindo desejos de serem artistas plásticos. Magalhães chegou a ser selecionada, ainda na graduação, para a I Bienal da Bahia, em 1966. Já Vieira, apesar do desejo de ser “artista de galeria” desde jovem, começou a trabalhar no carnaval e alcançou a entrada na galeria a partir do reconhecimento do seu trabalho como carnavalesco. Rosa parecia nutrir um desejo por ser “artista de galeria” antes de entrar para o carnaval e, talvez por isso, para ela, esteja muito bem definida a diferença entre essa arte que ela vivenciou nos tempos de universidade e a arte que passou a criar numa escola de samba.

Ela vai na contramão do pensamento geral de um carnavalesco como artista/criador individual, mencionando a ideia de produção coletiva e colaborativa. Até mesmo sua vontade de que a produção não se torne arte institucional parece apontar para uma intenção do carnaval como arte popular, como festa que é produzida a muitas mãos para aquele objetivo específico, neste caso, o desfile. Sua história nas escolas de samba começa como parte de um grupo, dos alunos de Pamplona, onde dividia as criações nos desfiles com Joãosinho Trinta, Maria Augusta e muitos outros. Para Rosa, talvez esteja tão clara a diferença entre a arte que produzia e a que passou a produzir, que seja esse o motivo pelo quando chame tanta atenção para o fato de que ali a criação é coletiva e que as obras não são como as de museu. Com esse discurso, ela chama atenção para outra face do carnaval, quase oposta da posição tomada pela maioria dos carnavalescos e estudiosos. A visão de Rosa Magalhães nos oferece uma nova possibilidade de visão do artista dentro do carnaval. 



Referências bibliográficas

ALONSO, Paulo. Exposição traz de volta a folia. O Globo, 30 abr. 1990. 
RIZZO, Walter. Exposição do Salgueiro. Publicado na coluna “Bola Social”, em Jornal dos Sports, 2 de maio de 1990.
O SAMBA também gera exposição. Jornal o Fluminense, Niterói, 8 mai. 1990.
BRUNO, Leonardo. Carnavalesco da Mangueira abre exposição no Paço Imperial. Publicado em O Globo, 12 jun. 2017a. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/carnavalesco-da-mangueira-abre-exposicao-no-paco-imperial-21465049?fbclid=IwAR38FMc0-tMzpp6yhsQkFkxtp_25h-II1JRm7_aP45FwXu5BNK6Nl8pksWk>. Acesso em 17 jun. 2021.
LISBOA, Salete. Salgueiro mostra sua arte. Publicado em Jornal O Dia, 5 de maio de 1990.
MORAIS, Frederico. Texto de Frederico Morais sobre a exposição Salgueiro 90. Rio de Janeiro, abr. 1990. Disponível em <https://www.memorialage.com.br/luiz-aquila/texto-de-frederico-morais-sobre-exposicao-salgueiro-90/>. Acesso em 9 set. 2021.
AYALA, Walmir. Amiga do Rei. Última Hora, 4 de maio de 1990.
VIEIRA, Leandro. Entrevista com Leandro Vieira. Revista Concinnitas, Rio de Janeiro, v. 21, n. 37, jan. 2020. p. 12-39. Entrevista concedida a Alexandre Sá, Claudia Saldanha, Inês Araújo, Felipe Ferreira, Luiz Guilherme Vergara.



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Agora o Carnavalize está no YouTube!

No nosso primeiro vídeo, traçamos um panorama de várias referências artísticas e características do trabalho requintado de Leandro Vieira. O carnavalesco passeia por um trânsito de obras populares e institucionalizadas, sem nunca perder uma forte veia da brasilidade!

#Panorâmica é a nossa coluna no canal dedicada a pesquisar e investigar a atuação de grandes nomes do carnaval e a sua contribuição para a festa. 

Confira o vídeo: 



Todas as terças e quintas traremos vídeos inéditos e especiais a vocês - sempre com o propósito de enaltecer as escolas de samba como expressões artísticas fundamentais da cultura do nosso país!

Texto: Leonardo Antan e Felipe Tinoco 
Narração: Felipe Tinoco 
Edição: Pedro Umberto 
Capa: Vitor Melo
Vinheta: Lucas Monteiro 

Para nos apoiar a produzir conteúdo de qualidade, conheça nosso programa de apadrinhamento, no PADRIM: https://www.padrim.com.br/carnavalize

 

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A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!  

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na listagem principal.

Artes e visual: Vitor Melo.
Texto: Beatriz Freire, com colaboração de Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco

Não se constrói um carnaval sem mentes pensantes e muitos agentes que atuam nos bastidores da festa colocando a mão na massa e virando noites em claro para brilharem no grande dia. Se viemos nos últimos textos discutindo os melhores sambas e as apresentações mais marcantes da folia, hoje lembraremos os grandes artistas por trás desses verdadeiros espetáculos, figuras fundamentais para pensar a transformação da festa no período de tempo dessa década.

Passeando pelos mais diversos segmentos e abrangendo o maior número de representantes possíveis, o Carnavalize selecionou 10 personalidades simbólicas dos anos 2011-2020. Na seleção estão presentes carnavalescos experientes, estreantes no período, revolucionários. Também perambulam por aqui um casal tão unido que vale como uma figura única; um intérprete apaixonado e uma porta-bandeira apaixonante; um mestre da bateria e outro das palavras e melodias; um dirigente de uma instituição e outro de uma bateria, o coração de toda escola. 

Se você não está se aguentando de curiosidade, é só rolar a página e se deliciar com os grandes profissionais que marcaram a década nesta debatida lista! (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Marcos Falcon 
(Presidente da Portela)
Marcos Falcon comandando um ensaio técnico da Portela na avenida. Foto: Leandro Andrade/Facebook da Portela.
Para falar da primeira personalidade desta lista, precisamos fazer o recorte do momento que vivia a Portela no início da década. O carnaval de 2011 foi de lamento para a escola. Após um incêndio na Cidade do Samba que atingiu o barracão da azul e branca – e de mais duas coirmãs – a pouquíssimos dias do carnaval, o desafio era recuperar os prejuízos que destruíram praticamente um ano inteiro de trabalho. Cabem, aqui, parênteses para introduzir ao leitor que nesse mesmo ano Marcos Falcon assumiu o cargo de diretor cultural da agremiação, ainda na gestão de Nilo Figueiredo. 

Apesar de não ter sido julgada naquele ano, o momento sobre o qual a escola atravessara marcou o ápice de uma crise financeira e administrativa em Madureira. Nos carnavais seguintes, mesmo com enredos interessantes e bons sambas, a Portela simplesmente não acontecia dentro da avenida, como reflexo das problemáticas que envolviam a gestão e o barracão. As eleições de 2013 colocaram em apertada disputa as chapas “Portela Nossa Paixão”, representada por Nilo, e “Portela Verdade”, encabeçada pela figura de Serginho Procópio, tendo Marcos Falcon como vice. Estes saíram vitoriosos e a oposição tomou conta da agremiação. É aí que nasce para o carnaval a importância do ofício de Falcon. Inicialmente, trabalhou ao lado do então presidente, Serginho, e foi ganhando protagonismo aos poucos no processo de reconstrução administrativa e, ousa-se dizer, identitária da agremiação.

Falcon foi homenageado na última alegoria do carnaval campeão de 2017. Foto: Vítor Melo/Carnavalize.
Uma instituição do tamanho e da importância da Portela apenas não podia aceitar as dificuldades que vinha enfrentando sem ao menos lutar para mudar e se reerguer. A partir do carnaval de 2014, com um lindo desfile sobre a Avenida Rio Branco e a história do Rio de Janeiro que lá pulsa, acontece o resgate do orgulho e da competitividade portelense, abrindo uma série de bons e ótimos carnavais que voltaram a figurar na parte mais alta da tabela, diretamente na briga pelo título. Nos anos em que isso não aconteceu, como no caso de 2015, quando terminou em 5º lugar com a inesquecível Águia Redentora, ainda havia motivo de sobra para a escola ser feliz pelo trabalho realizado de forma contínua. Todos os passos tinham o dedo de Falcon. Foi ele, inclusive, o responsável pela chegada de Paulo Barros à escola para o carnaval de 2016. Nesse mesmo ano, no mês de setembro, em um de seus comícios para o cargo de vereador, Falcon foi assassinado. O então vice-presidente e ex-diretor cultural da escola Luis Carlos Magalhães assumiu o cargo e levou a Águia para o seu sonhado título, após seu histórico jejum. Ainda que sem a presença física de Falcon, fato é que é impossível falar da Portela que temos hoje, assim como do seu campeonato de 2017, deixando de associar o sucesso da escola à figura do ex-presidente. São esses motivos suficientes para fazê-lo digno de representar os dirigentes da folia enquanto uma das personalidades da década.

Paulo Barros 
(Carnavalesco)
A personalidade no desfile das campeãs em 2019, acima da fênix da Viradouro. Foto: Raphael David/Riotur.
Não há como falar nos dez anos comentados sem pensar em Paulo Barros. A década tem o recorte temporal de 2011 a 2020, mas faremos uma rápida menção ao carnaval de 2010 para relembrar o histórico desfile “É Segredo”. O famoso carnaval do artista deu um título à Unidos da Tijuca 74 anos depois de seu primeiro, e até então único, campeonato. Paulo, portanto, iniciou a década como o carnavalesco campeão do carnaval, sendo o principal nome por trás de grandes mudanças na festa. É dele, inclusive, a responsabilidade pela presença massiva de pessoas como arremates principais nas alegorias e pela pirotecnia de efeitos especiais - com direito até a botar fogo na porta-bandeira em pleno desfile, como fez com Lucinha Nobre, em 2015, na Mocidade. 

Outro ponto muito conhecido de Paulo foi a interferência no trabalho dos coreógrafos de comissão de frente. Depois da parceria com Priscilla e Rodrigo na Unidos da Tijuca, o carnavalesco ficou conhecido por sempre dar uma opinião a mais no trabalho de outros profissionais, chegando a influenciar a contratação de novos nomes para a Portela a vinte dias do carnaval. Aliás, foi ao povo de Madureira que ele deu um título que chegou depois de trinta e três sonhados carnavais, no de 2017. Anos depois, também esteve à frente da retomada da Viradouro, já no Grupo Especial, quando a escola conquistou um surpreendente vice-campeonato vinda da Série A, outro marco histórico. Figura midiática do carnaval, Paulo Barros dá o que falar, mas tem seu público fiel, ainda que os seus efeitos em alegorias não surpreendam tanto quanto no início da década. Não tem como dispensar a importância de um carnavalesco sempre muito comentado, que marcou expediente em cinco escolas diferentes no último decênio e esteve por trás de momentos marcantes e polêmicos.  

Relembre algumas características marcantes do estilo de Paulo Barros na nossa coluna 10 Vezes. Você também pode ouvir uma entrevista com o artista antes do carnaval de 2020 em nosso podcast.

Leandro Vieira 
(Carnavalesco)
O vigor de nossa personalidade do fantástico desfile de 2019 da Mangueira. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
Leonino e modesto, Leandro Vieira disfarça quando o assunto é protagonismo, importância de seus feitos e marcos na festa. O artista começou os últimos dez anos ainda por trás dos holofotes, como assistente de carnavalescos como Fábio Ricardo e Cahê Rodrigues. Trabalhar em uma escola de samba nunca foi diretamente um objetivo ou sonho, simplesmente aconteceu ao artista. E foi em 2015, nesses acasos, que o jovem carnavalesco foi contratado pela Caprichosos de Pilares para assinar seu primeiro carnaval solo, em um momento financeiramente difícil que era enfrentado pela escola. Após uma apresentação comentada e elogiada sobre o comércio popular, a Mangueira, também em crise e sem condições de arcar com artistas renomados da festa, resolveu apostar as fichas no talentoso e promissor rapaz. E não é que deu certo? 

Em 2016, ano de sua estreia no Grupo Especial e na velha Manga, Leandro rendeu uma homenagem brasileiríssima e com a cara da escola à Maria Bethânia, icônica figura da cultura brasileira. Do encantamento na pista ao grito de campeão na quarta de cinzas, o jovem artista assumiu a ponta do carnavalesco mais comentado e esperado da segunda metade desta década. Em cinco carnavais pela Mangueira, rumo ao sexto, o que se viu foi uma chuva de bons resultados, estética e narrativas expressivas, criando imagens e obras tão icônicas que repercutiram país afora. Leandro não tem papas na língua, nem faz questão de atribuir a si mesmo o título de um grande nome ou de artista fundamental; apenas afirma seguir suas crenças próprias. Expoente da arte brasileira, ele levou o carnaval e sua arte aos museus, com exposições no Paço Imperial e no Museu de Arte do Rio. Queira ele ou não, o Carnavalize faz questão de frisar a importância de um talento incontestável, já dono de um legado na Mangueira e responsável pelo reencontro da Imperatriz consigo mesma após um rebaixamento. No próximo carnaval, mais uma jornada dupla de muita responsabilidade: além da Mangueira, a dura missão de trazer de volta a majestade do Império Serrano para a elite da Sapucaí. Leandro Vieira faz tudo!

Confira nosso artigo que mapeia as referências artísticas do carnavalesco em seus primeiros carnavais na coluna Carnavalizadores de Primeira. Além disso, Leandro também já foi entrevistado na série Processos da Criação. Para o carnaval de 2020, foi o convidado de estreia do nosso podcast.

Squel Jorgea 
(Porta-bandeira)
O desbunde de Squel no desfile campeão de 2016. Foto: Alexandre Macieira/Riotur.
A Squel tá careca! Mas muito mais que isso, a história dessa porta-bandeira se destacou na década em que desabrochou e marcou sua ligação com a mais querida do planeta. Não bastasse carregar o sangue de Xangô da Mangueira, seu avô, Squel é uma porta-bandeira de ponta do carnaval carioca. Apesar dos elos familiares com a Estação Primeira, nossa personalidade solidificou sua carreira em quatorze carnavais portando o pavilhão da Grande Rio, escola frequentada pelo pai, na qual permaneceu até 2012. Depois de uma breve passagem pela Mocidade em 2013, ela chegou no ano seguinte à Mangueira, uma extensão de sua casa, para alçar voos ainda maiores em sua carreira. A estreia na Velha Manga não trouxe os sonhados quarenta pontos, mas a conquista era questão de (pouquíssimo) tempo. Dona de um estilo clássico e muito próprio, Squel se firmou como uma potência do quesito e uma verdadeira referência da arte.

A partir de 2015, quando foi vencedora do Estandarte de Ouro, a porta-bandeira não perdeu nenhum décimo das notas atribuídas pelo júri, nem mesmo contando as que foram descartadas… até 2020, quando a tradição de só notas 10 se quebrou, mas não diminuiu em nada os méritos e o brilho da bailarina. Vale retroceder nesses carnavais mangueirenses que preenchem a segunda metade da década para exaltar o desfile campeão que homenageou Maria Bethânia, em 2016, quando Squel fez uma das apresentações mais fortes da sua carreira. Careca, ela veio lindamente vestida de iaô, uma imagem marcante das páginas da folia. Em 2017, ela ganhou a parceria de Matheus Olivério, seu tio, filho de Xangô, para ser seu mestre-sala. Mais do que uma ligação sanguínea, os dois se mostram um casal cada vez mais entrosado e exímios defensores de seus papeis enquanto mestre-sala e porta-bandeira. Ah, e como tanto talento é digno de reverências, Squel faturou, além do título com a Mangueira, o Estandarte de Ouro de melhor porta-bandeira pela segunda vez em 2019. Merece ou não merece um lugar especial no nosso TOP10 essa nossa divindade verde e rosa?


Priscilla Mota e Rodrigo Negri 
(Coréografos de comissão de frente)

A dupla que aqui contamos como uma só pessoa no vitorioso desfile das campeãs de 2019. Foto: Widger Frota

Essas personalidades são tão grandes, que são dois em um! O casal mostrou que a parceria fez sucesso no amor e também no carnaval. Priscilla e Rodrigo começaram a década surfando na euforia do sucesso que foi a comissão de frente comandada por eles em 2010, quando seus bailarinos trocavam de roupa em plena avenida, em um piscar de olhos. Um marco absoluto que influenciaria todos os anos seguintes, não só dos próprios trabalhos, mas como do decisivo quesito que capitaneiam. Em 2011, fizeram a Sapucaí perder a cabeça com um efeito de pescoços que caíam pelos corpos dos integrantes em uma comissão que tinha um toque de terror bem humorado. Na passagem pela Unidos da Tijuca, colecionaram prêmios e notas dez, sempre garantindo os trinta pontos até o ano de 2017, já em outra escola.

Depois de um desgaste artístico na amarela e azul, os dois ganharam uma nova casa e assumiram a comissão da Grande Rio. Por lá, fizeram mais história, com destaque para o excelente trabalho logo em seu primeiro ano pela tricolor, em 2015, com o enredo “A Grande Rio é do baralho”. No município de Caxias, afirmaram seu talento e deram sequência a um trabalho de excelência, mostrando uma combinação rara de competência, profissionalismo e criatividade. Em 2017, também foram os responsáveis pela famosa comissão que teve como integrante a ilustríssima Ivete Sangalo, no ano em que a própria cantora era a homenageada da escola. Desta parceria, chegaram a coreografar apresentações da cantora, com destaque para o Rock in Rio. Hoje, os dois estão vivendo um momento de amor com a Mangueira, escola que defendem desde o carnaval de 2019, na qual apresentam trabalhos mais enxutos e com menos efeitos tecnológicos ou ilusórios. Excelentes bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Priscilla e Rodrigo revolucionaram o quesito, mostrando que são ótimos diretores e produtores dentro e fora das pistas. Será que eles revelam o segredo de um trabalho tão consolidado e de constante excelência?

Para saber mais do trabalho da dupla, confira nossa entrevista com eles na série Processos da Criação. 

Tinga 
(Intérprete)
A personalidade comandando o carro de som da Vila Isabel no desfile de 2019. Foto: Eduardo Hollanda.
Solta o biiiiiiiicho! Quando Tinga tá na pista, ninguém segura a fera. Dono de uma famosa voz da folia, o intérprete coleciona excelentes carnavais na bagagem e muita experiência, apesar dos modestos 46 anos de idade vividos com a vitalidade de um garoto. A história na folia começou no carro de som da Vila Isabel como apoio do inesquecível Jorge Tropical. Sua primeira apresentação solo à frente do microfone principal da agremiação veio em 2004. Dois carnavais depois, Tinga experimentou o gosto de ser intérprete campeão do Grupo Especial com “Soy loco por tí, América: a Vila canta a latinidade”, em 2006, um trabalho pra lá de elogiado do cantor. Apesar de defender excelentes sambas na avenida, principalmente nos anos de 2012 e 2013, com os famosos “Angola” e “Festa no Arraiá”, obras aclamadas pelo público e pela crítica, o intérprete nunca foi agraciado com a premiação do Estandarte de Ouro nos últimos anos. Esse intrigante fato não diminui, de forma alguma, a potência e a qualidade de seu trabalho. 

Em 2014, Tinga chegou na Unidos da Tijuca abrilhantando sambas de nível mediano. Aliás, foi nesse ano que fez sua dobradinha de campeão por dois carnavais consecutivos em agremiações diferentes. Foi ele também o grande incentivador da escola no trágico ano de 2017, quando houve o desabamento do teto de uma alegoria da agremiação que ocasionou o ferimento de componentes. Diante do caos e de momentos de tensão, sem que o desfile fosse interrompido, Tinga puxou a escola com palavras de incentivo e amor, naquele cenário de aflição e dor e, visivelmente emocionado, cantou até a dispersão. Naquele momento, protagonizou um dos símbolos mais fortes de entrega ao ofício. O carnaval seguinte foi o último do intérprete na escola tijucana, garantindo cinco desfiles de uma ótima parceria entre os dois. Fora da pista, tornou-se um dos mais requisitados nomes para defender sambas durante as disputas. As grandes parcerias sempre têm Tinga, craque e pé-quente, como foco. Em um único ano, ele já chegou a ser o defensor de mais de seis sambas campeões. Como o coração e as oportunidades falaram mais alto, Tinga retornou à Vila Isabel em 2019, sua escola de origem – fato que não faz nenhuma questão de esconder – na qual continua como voz oficial. Cabe destacar aqui o ótimo trabalho que fez na faixa da escola no CD de 2020. Com tantas passagens marcantes e sempre humilde, ninguém duvida que Tinga, duas vezes campeão na década, é uma das nossas grandes estrelas.

Claudio Russo
(Compositor)
Nossa personalidade compôs o samba do maior desfile da história do Tuiuti. Foto: Alba Valéria Mendonça/G1.
Talvez uma das figuras mais desconhecidas do grande público nesta lista, Claudio Russo foi o escolhido para representar os compositores que revolucionaram o gênero nessa década, como vimos no nosso Top 10 de sambas-enredo. Longe de ser um novato da festa, quem olha para o renomado poeta mal imagina que suas mãos trabalham em prol do samba-enredo há trinta e um anos. Ainda jovem, compôs os primeiros sambas e pegou a manha do ofício na Portela. Lá chegou na década de 1990. Nos anos 2000, marcou de vez sua importância ao criar obras musicais que embalaram os títulos da Beija-Flor em 2004, 2007 e 2008.

Durante a década, Claudio passeou pelas mais diversas agremiações entre diferentes estados e grupos. E movimentou a polêmica discussão sobre a encomenda de samba, modelo que despontou na década como resposta a custosas e por vezes problemáticas disputas de samba. Defensor desta ferramenta e um dos compositores mais requisitados pelas escolas, o artista já criou obras inesquecíveis para agremiações como Renascer de Jacarepaguá, Paraíso do Tuiuti, Inocentes de Belford Roxo. Ao todo, os sambas campeões de Claudio figuraram em mais de 21 escolas de samba diferentes, entre grupos principais e de acesso, Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. Claudio carrega e faz do samba mais do que uma singular bandeira. Dentre os registros da internet, estima-se que apenas nessa década ele assinou pelo menos trinta e seis obras ganhadoras - sem levar em consideração as parcerias que perderam disputas de samba ou ganhadoras que por ventura não tenham seu nome. É ou não é um poeta de mão cheia? 

Casagrande 
(Mestre de bateria)
A grande figura da bateria da Tijuca beijando seu pavilhão. Foto: Reprodução Facebook.
É o meeeeestre! Mas se engana quem acha que vamos falar de Fernando Pamplona. Nosso homenageado é grande até no nome; o Casão, ou Casagrande para os menos íntimos. Quem representa muito bem o coração de uma escola de samba, uma bateria. Dos componentes em atuação mais antigos de Unidos da Tijuca – ele chegou à escola há quarenta anos –, Casagrande foi aprendiz do inesquecível mestre Marçal. À primeira vista ele tem cara de bravo, mas receptividade e bom humor não faltam ao comandante da Pura Cadência. Luiz Calixto, nome de batismo do nosso mestre, fora do carnaval é taxista. Dentro da Sapucaí, ele orquestra uma das melhores e mais respeitadas baterias das escolas de samba cariocas. 

Em entrevista ao site Carnavalesco, certa vez, revelou que o trabalho de construção da identidade do ritmo tijucano teve início em 1999, momento em que já acompanhava o segmento, mas não como mestre. Desde o carnaval de 2008 é ele o responsável pela bateria tijucana, sempre muito respeitado pelos ritmistas, com uma postura que diz ter herdado ao admirar o comportamento de mestre Marçal. No nosso decênio, Casagrande conquistou nada menos do que dois títulos, um Estandarte de Ouro em 2015 e uma chuva de notas dez. Assim como Tinga, seu trabalho foi o impulso que fez a escola terminar de cruzar a avenida no desfile de 2017. Visivelmente emocionado e cabisbaixo, Casão se apresentou sem nenhuma alegria para o júri, mas seguiu digno e firme ao comandar seus ritmistas, igualmente abalados. Mesmo não sendo dos mais ousados, o músico sempre apresenta um trabalho de excelência e forte continuidade nesses anos de Sapucaí, possuindo ainda uma identificação marcante com a azul e amarelo do Borel. Dá um show, Tijuca!

Jack Vasconcelos 
(Carnavalesco)
Com microfone em punho, Jack é dos principais comunicadores dos desfiles das escolas. Foto: Eduardo Hollanda.
Mais um carnavalesco a integrar a lista, Jack Vasconcelos não foi um nome que começou a década sob os holofotes como Paulo Barros. O artista bateu ponto na Série A nos primeiros anos, mas uma virada de chave fundamental aconteceu a partir de 2015, em um carnaval pra lá de surpreendente no Paraíso do Tuiuti. Naquela apresentação, revelou o auge de sua maturidade como um artista da festa ao apresentar um grande trabalho plástico e narrativo. Logo em seguida, Jack faturou o campeonato do grupo com a escola em 2016, citado na nossa lista dos dez desfiles mais marcantes da Série A, e voltou ao Grupo Especial em 2017. 

Depois do último lugar neste carnaval em razão de um trágico acidente no desfile sobre a Tropicália, quando não houve rebaixamento, o carnavalesco usou o enredo – um dos seus grandes trunfos – a seu favor em 2018 e faturou um surpreendente vice-campeonato ao falar sobre os 130 anos da Lei Áurea. Afirmado para o mundo carnavalesco como um dos nomes mais promissores dos últimos anos, Jack deu um grande passo de um movimento de primazia pelo enredo, de valorização da narrativa como foco principal dos seus desfiles. Não é por acaso que o artista foi muito premiado com troféus do quesito, inclusive faturando o Estandarte de Ouro de melhor enredo em 2019, com “O Salvador da Pátria”. Em tempos de discursos vazios e histórias distorcidas no momento político e social do país (temas que aparecem nos desfiles do artista), assistir um carnaval de Jack é a certeza de ser ouvinte de uma boa história a ser contada, sem deixar faltar muito bom humor.

Confira como Jack marca um novo diálogo entre a academia das Escolas de Belas Artes com o carnaval neste artigo da nossa Série Carnavalescos. Ouça também a entrevista que fizemos com o artista em nosso podcast.


Milton Cunha
(Comentarista e apresentador)
O divinérrimo no desfile das campeãs de 2020. Foto: Andre Melo Andrade/MyPhoto Press.
Um acontecimento (no superlativo, se for possível, amadíssimos!). Milton Cunha é figurinha brilhante da folia brasileira. Nosso carnavalesco carrega muitos desfiles de sua autoria na bagagem com passagens por escolas como Beija-Flor, Unidos da Tijuca, União da Ilha e São Clemente. Porém, não foi qualquer trabalho propriamente assinado pelo artista dentro de um barracão, ou posto na avenida, que fez Milton ser um integrante ilustre da nossa lista. Durante a década, o serviço de Milton ao carnaval transcendeu os desenhos, desenvolvimentos de enredo e defesa de quesitos. Foi com seu conhecimento (e que conhecimento! Basta dar um Google no currículo da nossa querida personalidade para ver que não estamos mentindo) sobre materiais, narrativas, profissionais e todas as dinâmicas que envolvem a arte em sua expressão mais ampla e popular, a das escolas de samba, que seu carisma conquistou a todos nós. 

Em 2013, o paraense ganhou um lugar todo especial para comentar os desfiles da Série A e do Grupo Especial no Carnaval Globeleza, com presença cativa todos os anos desde então. Cheio de pontuações, observações e reações cada vez mais ricas e muitas vezes inesperadas, Milton faz jus ao título de grande conhecedor da festa. Além disso, ele é presença mais do que especial em todo e qualquer evento carnavalesco que frequenta. A exuberância na roupa e no jeito de falar e chegar do pós-doutor não ofusca a pessoa apaixonada pelo ofício e carregada de carisma. Durante todo o pré-carnaval, o “Enredo e Samba”, quadro do jornal local da TV Globo, é uma atração sempre aguardada pelos telespectadores e pelos componentes das agremiações. Sua fama transborda as escolas de samba e chegou até a um aplicativo de rotas e destinos, ao qual emprestou sua voz para guiar os condutores. Para dizer o que Milton é, mais fácil falar o que não é! Tá pra nascer quem não ame este homem! 


Menções honrosas 

Eita missão difícil escolher apenas dez profissionais que deram um show de competência nessa década! Por isso, confira também as menções honrosas de personalidades que brilharam no período em suas áreas por diversos fatores; por se reinventarem, tentarem propor novidades para festa, ou ainda pelo desabrochar de seu talento e  de sua afirmação. São figuras que se destacaram no enredo que estamos propondo contar com a #SérieDécada. Personalidades que também contaram os anos e ajudaram a desenhar os rumos do que foi os carnavais de 2011 a 2020 - e por pouco não entraram na lista principal.

Ambas as listas não possuem ordem hierárquica.

Phelipe Lemos (mestre-sala)

Marcella Alves (porta-bandeira)

Evelyn Bastos (rainha de bateria)

Rosa Magalhães (carnavalesca)

Laíla (diretor de carnaval)

Patrick Carvalho (coreógrafo)

Ito Melodia (intérprete)

André Diniz (compositor)

Ciça (mestre de bateria)

Marcelinho Calil (dirigente)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos quais foram as principais personalidades em diversos segmentos. Fique à vontade para fazer sua lista e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 de artistas do Rio de Janeiro dessa década?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir! Se liiiga e carnavalize conosco!
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Por Leonardo Antan




Nascido em 10/01/1904, Lamartine de Azeredo Babo viu sua vida se cruzar com o carnaval diversas vezes. Foi um maiores músicos brasileiros quando o assunto é a folia e quando virou enredo de escola de samba, deu um título marcante para a Imperatriz Leopoldinense em 1981, com um samba que será reeditado agora em 2020.

"Com serpentinas enrolando foliões, dominós e colombinas envolvendo corações"


Nas primeiras décadas do século XX, o rádio era o principal meio de comunicação e ajudou a definir a cultura nacional, encontrando na música popular um expoente fundamental. Nas ondas do som, surgiram artistas fundamentais da nossa história: Lamartine foi um deles!

Sua atuação no Carnaval foi decisiva no momento em que a folia se definia como a grande festa da identidade nacional. O modernismo fez da festa nosso maior patrimônio. Lamartine transformou essa alegria em músicas que explodiram nos dias comandados por momos. Ao lado de João de Barros, Lalá ajudou a criar o que conhecemos como marcha-carnavalesca, que já tinha expoentes como Sinhô e Eduardo Souto, figura que o introduziu nesse universo. As músicas de carnaval eram vitais no contexto do rádio e se tornavam sucessos de rádio e público!


As letras criadas por Lamartine captaram muito bem as necessidades rítmicas (samba ou marcha carnavalesca), melódicas (simples e fáceis de memorizar) e temáticas (muito humor, paródias, crítica do cotidiano) exigidas pela rede formada pela indústria fonográfica e radiofônica. Uma das mais conhecidas é “O Teu Cabelo Não Nega”, hit da folia de 1932, que após o sucesso de outrora provoca diversas discussões entre o movimento negro. Com frases explicitamente racistas, os versos revelam bem como o preconceito era naturalizado naquela época. O que hoje seria inaceitável.

Mas se de folia vivia Lalá, em 1931, em parceria com Ary Barroso, lançou o samba-canção (ou samba de meio de ano) “No Rancho Fundo”. Após ser por Elisa Coelho e por Sílvio Caldas em 1939, tornou-se um grande clássico da música popular brasileira.

"Eu vou me embora, vou no Trem da alegria, ser feliz um dia"


Um trecho famoso do samba-enredo foi traduzido brilhantemente pelo Arlindo Rodrigues em gigantesca locomotiva colorida que soltava fumaça em plena Avenida. A referência é ao programa Trem da Alegria, programa da rádio Mayrink Veiga, criado por Lamartine nos anos de 1940. Foi neste programa, comandado por Heber de Boscoli, que surgiu um desafio para Lalá: compor um hino por semana para clubes de futebol do Rio. Com isso, no final da década de 1940, todos os 11 times que disputavam o Campeonato Carioca já tinham os seus hinos, em um enorme sucesso!‬

‪Sem pretensões extras, ele compôs uma marchinha para o Fla no carnaval de 1945, que acabou virando o hino informal do time, usado até hoje. Assim surgiram os hinos para Vasco, Fluminense, Botafogo, América, Bangu, Madureira, Olaria, Bonsucesso, Canto do Rio e São Cristóvão!‬

O compositor torcia pelo América, e por isso dizem que o hino do clube é o mais belo de todos os compostos pelo artista. Fato curioso é que em 1960, ele festejou o título do Estadual vestido de diabo, desfilando em carro aberto com a fantasia. Foi a última vez que a equipe venceu o torneio.

"Nossa escola se encanta, o povo se agiganta"


‪O desfile de 1981 foi o segundo título assinado por Arlindo na Imperatriz e o primeiro solo da escola, quando Arlindo faturou seu tri, iniciado em 79 na Mocidade. Em 80, levou Ramos ao pódio com “O que é que a Bahia tem?", em um campeonato dividido com Portela e Beija-Flor.‬



‪O casamento com Arlindo consagrou a Imperatriz como uma das penetras que invadiu a hegemonia entre Império, Portela, Manga e Sal, as 4 grandes. Um dos trunfos da escola era a apadrinhamento de bicheiros. Na Gresil, entrou em cena Luizinho Pacheco Drummond, até hoje na agremiação.‬

‪A boa fase financeira foi benéfica para a chega de Arlindo Rodrigues, que se consagrava com um dos maiores artistas dos desfiles, marcando seu legado em meios às transformações que aconteciam no visual do carnaval. O casamento marcou a escola como barroca, requintada e histórica.‬ Arlindo tinha um estilo barroco e propunha uma estética opulenta e grandiosa. Mas, em 81, com leveza e cores alegres, mostrou que sabia adaptar seu estilo ao enredo proposto. Ícones do carnaval exaltados por Lalá, pierrôs, arlequins e colombinas desfilaram em marcantes tripés.‬



‪Arlindo dividiu o enredo com placas e tripés com escritos relativos à trajetória de Lamartine. Isso reforçou a coerência com a qual o enredo era montado e ainda equilibrou uma divisão cromática que variava do verde e branco da escola ao colorido presente na vida do compositor.‬ Também não faltaram as citações ao futebol e aos hinos dos clubes do Rio de Janeiro, outras famosas composições de Lamartine. Uma enorme ala com bandeiras de América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco deu o tom da alegria.



A arquibancada cantou o tempo todo com a Imperatriz, até porque o samba-enredo era curto e empolgante. Composição de Gibi, Serjão e Zé Katimba, um dos maiores compositores do carnaval carioca. Em 1972, sua obra Martin Cererê já havia sido sucesso nacional na novela Bandeira 2.

Umas das presenças ilustres do desfile foi de As Frenéticas. As rainhas da discoteca brasileiro tinham lançado no ano anterior o álbum Babando Lamartine, em homenagem ao compositor. O grupo desfilou em uma das alegorias da escola.

A bateria da Rainha de Ramos, como já vinha sendo hábito, sustentou com categoria o ritmo e num andamento impecável. A Imperatriz deixou a pista favorita ao bicampeonato, com gritos de “já ganhou” vindos do público, que não arredava pé mesmo com o sol fortíssimo. A escola recebeu o principal prêmio do Estandarte de Ouro de "Comunicação com o público", já que na época ainda não havia a categoria de Melhor Escola.

Quem dera que a vida fosse assim... Canta, sambar e nunca mais ter fim...


‪Em 2000, Lalá e Imperatriz se reencontraram no enredo de Rosa Magalhães sobre o Descobrimento do Brasil, nomeado com uma marchinha do compositor: "Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval". Ele virou uma escultura no último carro!‬

Para 2020, a Imperatriz Leopoldinense irá reeditar o samba-enredo em homenagem ao artista. O desfile será assinado por Leandro Vieira, bicampeão do carnaval carioca pela Mangueira e um dos artistas mais badalados dos últimos anos. A apresentação promete resgatar o orgulho e a força do torcedor gresilense que irá desfilar na Série A, colocando fim a uma sequência de quarenta anos da verde e branco no Grupo Especial. O seu último rebaixamento havia sido em 1977.



A escolha pela reedição de uma apresentação assinada por Arlindo não foi à toa. Em debate promovido pelo Carnavalize em homenagem a Arlindo, Leandro Vieira esteve presente e falou de como o estilo do artista é uma das referências do seu trabalho. A proposta de Leandro Vieira é misturar seu estilo a um carnaval leve e colorido, mas sem perder o rigor estético que é marca do seu trabalho. Um dos grandes momentos do desfile promete ser o último setor, que trará os times de futebol, com fantasias que já repercutiram na internet.



A Rainha de Ramos será a quinta a se apresentar no sábado de Carnaval! “Quem dera, que a vida fosse assim... Cantar, sambar, e nunca mais ter fim!"
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Por Redação Carnavalize

A menos de quarenta dias do início dos desfiles das escolas de samba, o Carnavalize prepara uma série de entrevistas com profissionais da maior folia do mundo!

O “Processos da criação” é movido pela curiosidade em compreender como se dão as maneiras de conceber a arte do carnaval pelos trabalhadores do maior espetáculo do mundo! Para isso, conversaremos com os profissionais sobre suas identidades, o cotidiano de suas funções, as suas perspectivas acerca de seus ofícios e o que mais envolve o processo criativo!

Para começar, apresentamos a vocês o bate-papo do Carnavalize com Leandro Vieira, o talentoso carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira. Simbora!

Carnavalize: Começando pela escolha do enredo, de que maneira a decisão da história escolhida dá o tom visual do desfile? Ela é um ponto de partida da maneira que você ajustará a estética para o desfile? De onde você tira as referências?

Leandro: Ele é fundamental. Eu tiro as referências da minha memória afetiva e dos livros de História, das imagens que ilustraram os livros que eu estudei; dos contornos mais populares que existem em torno dos contornos feitos pelo Victor Meirelles, pelo Pedro Américo, estátuas do Museu Nacional de Belas Artes, das pinturas épicas, da Batalha do Avaí, o grito do Ipiranga, um índio tamoio, a estátua equestre de Dom Pedro, que tem aqueles índios lindos na Praça Tiradentes.... É uma seleção afetiva.


C: O enredo é pautado sobre outros personagens; você tira esses atores da História oficial e coloca no centro outros subalternizados. De que maneira você consegue retratá-los esteticamente?

L: Eu utilizo da estética épica para dar contorno épico a esses personagens que não tiveram isso. É uma tradução simbólica dotada de heroísmo. Algo importante de se falar é que os que são apresentados com contorno épico na narrativa oficial vêm de forma chargista, mais ligada à caricatura e à anedótica. Os que não são exaltados ganham o contorno épico.

Fantasias divulgadas para o carnaval 2019.

C: Sobre as referências das quais estamos falando, sabemos que você retira muitas ideias das pinturas das artes canônica, erudita e popular. Mas o cotidiano da cidade também é uma presença sua, certo?

L: Eu sempre digo isso: eu tenho uma seleção afetiva, ela é da minha memória. Tudo que eu escolho é o que me emociona, é o que de alguma forma fica cristalizado na minha memória. Eu sou um artista que valoriza a questão estética indígena, eu gosto de artistas plásticos, populares ou não, que se debruçaram na construção de signos da cultura afro. Então é a minha seleção, é o meu repertório.

 "Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar."

C: Já que estamos falando mais uma vez de Brasil, você está indo para o quarto enredo na Mangueira. De que forma você acha que eles dialogam entre si? É por ter o país e a cultura brasileira como guia? Você acha que eles podem ser entendidos como um conjunto narrativo?

L: O grande conjunto narrativo disso é o fato de ser desenvolvido por mim porque todos eles são baseados no meu repertório de Brasil e isso já dá uma unidade. Mas de alguma forma, também, eu acho que tem muito do meu pensamento crítico. Então desde 2016, para falar sobre a Mangueira - mas posso afirmar que desde 2015, na Caprichosos -, eu sigo falando do Brasil que eu acredito. Em alguns momentos exaltando. E a escolha do tema que o exalta reflete, para mim, um pensamento crítico. Em outros momentos, me colocando, colocando a minha arte, meu trabalho e meu carnaval em defesa desse conteúdo artístico popular do Brasil, que é o que eu acho que fica mais evidente nos últimos dois anos (2018 e 2019). Isso no sentido de colocar o meu trabalho em defesa do Brasil e da cultura popular, mas que também já estavam presentes em 2016 e 2017, já eram impregnados disso.


C: Partindo para a estética, seu trabalho ficou muito marcado pelo uso de certos materiais e cores com as famosas plumas de acetato. Por mais que haja discordância, as pessoas reproduzem esse tipo de discurso a seu respeito. Em uma formatação estética de desfile de carnaval que já é tão consolidada, era sua intenção criar o tipo de uma linguagem própria ou isso se deu naturalmente?

L: Eu discordo totalmente disso porque eu tenho quatro carnavais – sem contar o próximo – e com quatro carnavais você não é nada, você não é ninguém. Não é o suficiente para você desenvolver uma linha estética, para tomar conhecimento do artista que você é. Não é nada. “Quatro carnavais” é uma condição numérica que só me permite fazer experiências, nada mais que isso. Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar. “Ficou marcado pelo uso das penas de acetato” é reduzir demais. Ano passado eu não usei as tais penas de acetato em nenhum esplendor. Mas será que porque em 2016 e em 2017 eu usei esse recurso, que dialogava para mim com aquele universo que eu estava trabalhando, é uma previsão de que daqui a dois anos estarei usando? A única coisa que eu sei a respeito do artista que eu sou agora, e eu gostaria de seguir com algumas coisas dele, é que eu tenho interesse de continuar falando daquilo que eu acredito. O “verde-água e rosa-bebê” fazia sentido para mim no ano passado, mas esse ano não faz.


C: Mas esses rótulos chegam ao seu conhecimento? Eles te influenciam de alguma maneira?

L: Chegam, as pessoas escrevem nas minhas redes sociais. Eu acho que é uma opinião. Vou dar um exemplo: em 2016, meu carnaval não tinha tons ditos “bebês”. Eu não acho que meu desfile daquele ano foi um desfile em tons pastéis; tinha tons metálicos, terrosos e ficava colorido no final. Claro que algumas combinações com rosa-bebê tinham. Em 2017, o ano do santo, eu acho que tinha um setor rosa, com nuances de rosa. Os outros eram brancos, o último era muito colorido, vermelho com amarelo, azul royal…. O meu carnaval mais bebê foi o último e de alguma forma as pessoas padronizaram meu trabalho assim. Elas tomam uma coisa pelo todo. Mas quando eu fiz 2016 e 2017 eu ouvi que eu era um carnavalesco que só fazia carnavais religiosos. Eu só fiz dois carnavais, mas disseram: “ele só faz carnavais religiosos”. Agora, por 2018 e 2019, eu sou o que só faz enredos críticos (risos) e no fim das contas eu sou o mesmo. É igual o cara que diz que a Rosa é barroca e o Renato é high tech.

"Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar."

C: Falando sobre cor assim, ela parece um elemento fundamental para o seu o processo criativo.

L: Eu sou pintor!


C: Você parte da cor para pensar o todo? Você tem essa noção da primeira ala até a última ala, você faz um desenho de cores ou é de cada momento?

L: Cara, isso é um negócio muito doido, porque a minha construção artística é muito doida. Primeiro, ela não resulta da cartela cromática, não resulta mesmo. Eu fui assistente de carnavalesco durante muito tempo, então eu fiz. Alguns carnavalescos fazem isso; pegam azul, azul escuro, verde água, amarelo…. E desenvolvem tipo a escala cromática da escola e decidem a partir disso o que vão realizar. Eu não consigo fazer isso porque nas minhas escolhas eu estou muito mais preocupado em me agradar do que atender recursos estéticos. E aí, para eu me agradar, eu tenho algumas ferramentas. Uma ferramenta é a forma, outra ferramenta é a cor e outra ferramenta é a escolha dos signos do desfile. E as minhas escolhas todas são em cima disso: a forma, a cor e os signos.



Tudo é particular, mas os signos ganham um contorno mais particular. Por exemplo, em 2016, eu usei o rosto da minha ex-mulher como referência para construção das orixás do carro. Em 2017, eu usei como referência para construção do cristo-oxalá a obra de um artista que eu ganhei de presente no dia em que uma mãe de santo disse qual era o meu orixá de cabeça. Então as escolhas partem de eu olhar e me identificar. Aquilo registra quando eu quero fazer, por exemplo, o setor da umbanda de 2017, que são as escolhas das cores que eu vi e são cores muito longe das imagens que todo mundo tem a respeito de umbanda e candomblé. A cor é importante porque ela tem a capacidade de dar um simbolismo muito grande. O carnavalesco dos tons pastéis de 2018 era o carnavalesco, a pessoa, o humano que tem um entendimento romântico a respeito do carnaval.  E a escolha daquela cartela traduzia a minha interpretação de um carnaval nostálgico.


C: E como uma foto, ela era meio desbotada. De onde vieram esses tons?

L: Isso, que é como eu enxergo o carnaval. E eu sou uma pessoa que se emociona com o carnaval. O de escola de samba me emociona menos, mas o de rua me emociona muito e eu sou folião do carnaval de rua. Uma coisa engraçada a respeito disso é que ano passado eu queria fazer um encerramento apoteótico no desfile de 2018. Todo mundo quer encerrar de forma apoteótica e eu queria. Fiz o que eu achava que era apoteótico a partir das minhas escolhas. Aí eu encontrei, meses depois do carnaval, o Ricardo Lourenço e ele falou para mim: “olha, seu carnaval foi incrível, eu fiquei extasiado com o desfile da Mangueira, mas o final foi triste. Aquilo foi a coisa mais linda que passou naquela noite, mas era de uma melancolia… Era uma melancolia linda mas faltou o arrebatamento”. Eu fiquei com isso na cabeça. Fiquei pensando como a ideia de arrebatamento é diferente. Àquele final, eu fui buscar dentro de mim o que era a apoteose de um carnaval quanto à minha experiência, e a apoteose do meu carnaval sempre foi a Banda de Ipanema na porta da Igreja Nossa Senhora da Paz. Quando ela interrompe a sequência de marchas animadas e toca a sequência de marcha-rancho, porque o Pixinguinha morreu dentro da igreja, eles tocam “Carinhoso”. A partir de “Carinhoso” eles engrenam na sequência de marcha-rancho, como “Máscara negra”, “Bandeira branca”…. Aquilo para mim é apoteótico por causa da ideia da dualidade do próprio carnaval. Isso é inevitavelmente melancólico, mas em mim nunca soou como a melancolia da tristeza, sim como a apoteose da grandeza dos sentimentos. Eu acabei fazendo um encerramento com sabor de marcha-rancho, que era lindo, mas algumas pessoas não entenderam da forma que eu entendo. Se eu errei, eu não sei, mas é a minha verdade e eu prefiro prevalecer com a minha verdade.



C: Seu cotidiano influencia diretamente seu processo criativo… De que maneira você tem esse entendimento?

L: Total. A primeira coisa que eu resolvi foi abolir o projeto. Eu tenho um esboço do que eu vou fazer, mas nenhum funcionário meu trabalha com projeto. Hoje, cada vez mais, isso existe menos. Primeiro porque durante muito tempo eu fui refém do desenho e isso é horrível. Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar. Todos os anos eu faço, mas eles não veem porque eu não dou a eles a oportunidade de interpretar porque quando você entrega um projeto – e o figurino é um projeto –, o modelista, o aderecista, o chapeleiro, o ferreiro…. Eles têm uma experiência vivida e eles costumam interpretar isso a partir dessas suas experiências. Quando eles não sabem o que é, eles estão reféns de mim, entendeu? Eles estão reféns da minha proporção, da minha escolha de material, de onde eu acho que a calça tem que apertar ou não, do tamanho da manga e da gola de arame que eu acho que tem que ter, da minha colocação de plumas…. Eles são reféns. Agora, a alegoria é na base do vai fazer. “Forra isso de verde, agora pinta”. A pessoa não sabe o que vai ter.


C: É uma forma de controlar todo esse processo…

L: Sim, é. Talvez seja por conta disso que se diga que eu consegui desenvolver uma assinatura em quatro anos, porque é meu mesmo, porque literalmente não passa na mão de ninguém.


C: Você consegue ter esse controle até sobre as fantasias que são feitas fora daqui?

L: Todas são feitas a partir do meu protótipo, como casal. Destaque menos, eu não sou chegado a destaque, embora eu ache que os meus são excelentes. Talvez eu não goste de destaque porque eles têm a condição de interpretar. Mas casal não, inclusive em 2017, a duas semanas do desfile, mandei tingir as penas todas de novo porque eu queria que a roupa fosse rosa bebê e ela estava fotografando salmão.


C: Qual é a importância disso? É centralizar? O que tem por baixo desse processo?

L: É me descobrir, eu preciso saber o artista que sou, o que sou capaz de fazer, o que é que eu sei fazer….


C: Isso tem a ver com o fato de você ter passado quase dez anos desenhando, porque de certa forma você não tinha controle sobre aquilo….

L: Nenhum controle, meu desenho estava submetido à interpretação do carnavalesco e aí não tinha a minha cara. Uma ou outra tem mais: Zico, Pará.


C: Falando agora sobre outro assunto que talvez more no seu processo. Você é um carnavalesco dito “da escassez”. Muita gente gosta de falar que você é um carnavalesco “barato”.

L: É, sou. Primeiro porque enxergo a atividade do carnavalesco como isso. Se for diferente disso é cinema, vai fazer cenografia de filme. Eu não faço isso, eu busco sempre olhar para o meu carnaval da maneira que eu fazia e faço ainda a roupa para ir brincar no Bola Preta. É a mesma coisa, para mim não tem diferença nenhuma. Se eu me distanciar muito disso, eu tô fazendo outra coisa. Essa interpretação, essa característica mambembe, do mal-ajambrado…. Eu acho meu carnaval de 2018 o meu melhor carnaval, mal-ajambrado, tudo remendado, eu acho lindo. Esse último carnaval que passou é o carnaval onde eu estou mais presente e que eu mais me diverti. Aquele último setor com fantasia de gorila, só com sobra de tecido do barracão, usar toalha, cortina, sabe? Era o que eu fazia para arrumar minhas roupas para brincar carnaval. Só que, claro, eu não peguei toalha; eu escolhi o tecido toalha, eu escolhi o tecido toalha de banho, o tecido toalha de mesa, escolhi caneca…


C: Falando dessa questão financeira, sempre temos essa frase: “não consegui fazer 80% do meu projeto inicial”.

L: Eu acho que essa é a pior frase que um carnavalesco pode falar. Eu lamento um carnavalesco falar isso porque eu sempre atinjo a totalidade do meu projeto pelo fato de que meu projeto não existe. Se eu tivesse um figurino com duzentas plumas e eu conseguisse fazer dez, eu talvez ficasse um pouco frustrado com isso, mas se eu não tiver pluma, também não tinha no projeto.

"Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade."

C: O interessante dessa inexistência de projeto é poder sobrepor ideias ao longo do tempo, como daqui até o carnaval transformar algo….

L: Isso para mim é fundamental, se eu fechar o projeto perde a graça rápido. Eu mantenho meu projeto aberto.


C: Teve algum elemento de suas criações que só pensou às vésperas dos desfiles e que fez a diferença no seu carnaval?

L: O judas, no último desfile. Para esse carnaval agora, de 2019, eu mudei e mexi em muitas coisas. Passei por algumas situações pessoais e quis impregnar meu carnaval nessas situações. Pensei: “se eu olhar, vou lembrar, isso aqui foi por causa disso”.


C: Você diria que sua relação no barracão com os profissionais é o que define seu trabalho?

L: Eu tenho que estar (no barracão). Eles brincam que se eu não estiver aqui não tem trabalho. Falo “vamos resolver isso, agora faça dez desse aqui, agora esse...”.



C: Pensando no seu carnaval, a comissão de frente pode estar ou não ligada ao carnavalesco e ela foi o calcanhar de Aquiles dos últimos carnavais da Mangueira. Com a chegada do Rodrigo e da Priscilla, que são o grande gabarito desde 2010, cria-se a expectativa de “como será?”, por eles terem vindo de projetos espetaculosos. Como você acha que seus trabalhos se encaixarão?

L: No meu carnaval a comissão de frente não está ligada ao carnavalesco. Eu acho que a Priscilla e o Rodrigo são artistas contemporâneos, e o meu trabalho é todo em cima do universo contemporâneo também, eu não vejo essa distância. Talvez o processo seja diferente; eles estão acostumados com projetos juntos a outros artistas, não só o Paulo Barros. Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade. Mas claro que sempre é feito em acordo comigo, tanto é que as comissões dialogam com meu trabalho, existe uma pertinência estética. Em alguns anos eu me meti mais, noutros menos…. Acho que esse ano estaremos bem.


C: Mudando de assunto, de que maneira você acha que o sucesso de seu trabalho está relacionado a uma crise identitária das escolas de samba?

L: Eu só sou o carnavalesco da Mangueira porque as escolas passam por uma crise de identidade. Ninguém nunca vai conseguir me enganar dizendo que eu só me tornei o carnavalesco da escola em 2016 porque meu trabalho era maravilhoso. Eu me tornei porque o carnaval passa por uma crise, os profissionais estão caros e eu era o carnavalesco mais barato disponível naquele momento. Foi a crise que me revelou e continua me revelando. A dificuldade que as pessoas dizem ter de fazer carnaval sem dinheiro existe para quem experimentou um dia fazer carnaval com dinheiro.


C: Você acha então que seus enredos são um tipo de resposta a esse momento em que as escolas estão esvaziadas simbolicamente?

L: É uma preocupação minha não para as escolas de samba, mas para o que elas são e o que devem permanecer sendo.  Eu acho que a escola de samba deve fazer escolhas para assumir a identidade popular mesmo, falar do Brasil. Não o Brasil genérico, mas daquele que acredito; regional, original.


C: O que é o Brasil para você a partir de uma imagem?

L: O Brasil é o povo do Morro da Mangueira. O Brasil é o funk, o samba, a mulher negra, o homem negro, a criança, o idoso, o evangélico. É o umbandista e o candomblecista de lá, é o povo da Mangueira.

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