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Carnavalize

 

Arte de Lucas Xavier

Por Adriano Prexedes

O ano era 2012, considerado por muitos um dos maiores carnavais da história do Sambódromo do Anhembi. A folia, geralmente, é lembrada pelo grande público por causa da confusão generalizada no final da leitura das notas, no dia 21 de fevereiro daquele ano, mas não se resume apenas a esse fato.

As catorze agremiações que formavam o Grupo Especial na ocasião proporcionaram ao público presente e aos telespectadores que acompanharam a transmissão momentos e imagens memoráveis. Entre estas escolas, estava uma ainda jovem integrante que se preparava para o que oficialmente seria seu sexto (guarde este número) desfile na elite do samba paulistano. Mas, antes de falarmos da apresentação de 2012, precisamos falar um pouco da trajetória da alviverde e de sua matriarca, Dona Norma de Luca. 

Em 1983, como resultado da fusão de três torcidas antigas, surge a Mancha Verde. Entre seus fundadores estavam Cléo Sóstenes e Paulo Rogério de Aquino, o Paulo Serdan. Além de frequentar os estádios, seus integrantes também eram foliões. A torcida chegou a ter uma ala no Águia de Ouro, agremiação oriunda do bairro da Pompéia, que também tem ligação com o futebol por ter surgido a partir de um clube de várzea, o Faísca de Ouro.
 
O grande sonho de Cléo era que a torcida tivesse uma escola de samba própria, e desfilasse um dia no grupo especial junto das principais agremiações da cidade. Infelizmente, meses após o carnaval de 1988, Sóstenes foi assassinado. Apesar da ideia não ter ido pra frente, o sonho não havia acabado. A semente plantada por ele ainda iria germinar.
Cléo Sóstenes (ao centro) e componentes da ala da torcida Mancha Verde nos preparativos do desfile de 1988 do Águia de Ouro. Crédito: acervo GRCES Mancha Verde.

A torcida seguiu crescendo e ganhando notoriedade, até que em 1995, após um conflito com um grupo adversário, a entidade palmeirense teve que ser extinta por força de uma decisão judicial. A torcida foi extinta, mas o espírito de celebração e alma sambística não. Muitos integrantes ainda faziam batuque e desfilavam. E foi em 1995, mais precisamente no dia 18 de outubro, que o sonho de Cléo começou a ganhar forma. Pela união de integrantes da torcida, entre eles Paulo Serdan, nasce o Grêmio Recreativo Cultural Bloco Carnavalesco Mancha Verde. A fundação contou com o apoio de alguns nomes do samba paulistano, como Eduardo e Ernani Basílio, da Rosas de Ouro, que se tornou a escola madrinha da alviverde.

Entre as figuras-chave para se contar a história da Mancha está a de Dona Norma de Luca, mãe do presidente Paulo Serdan. A ligação de Norma com a escola não se resume apenas à relação de parentesco com o comandante da entidade. Ela era uma mãe no sentido amplo da palavra. Muito cuidadosa, foi a grande incentivadora do sonho manchista desde a época da torcida. Quando Serdan foi presidente da torcida, ela esteve lá confeccionando bandeiras e acessórios para os jogos. 

No primeiro carnaval da Mancha, foi ela quem garantiu que o desfile acontecesse. E foi assim nos anos seguintes. Norma cedeu um espaço em seu estabelecimento comercial, que se tornou a sede e ateliê do então bloco. Lá, acompanhada dos “seus meninos”, componentes e voluntários, confeccionava todas as fantasias que seriam usadas nas apresentações. Em 1998, o bloco conseguiu sua primeira quadra, na Avenida Abraão Ribeiro e Dona Norma seguiu no comando da produção das fantasias, virando noites junto de seus meninos e meninas para garantir que tudo ficasse pronto a tempo.

E foi assim até o ano de 2003. Nesse tempo, o amor e a dedicação à agremiação foram se tornando cada vez maiores. A matriarca chegou a enfrentar as autoridades para garantir a segurança dos componentes e da quadra. Ao longo dos anos, ela se tornou a maior referência para a entidade por sua garra, amor, dedicação e perseverança. Dona Norma teve participação em vários setores da agremiação, desde a escolha do samba até a ala das baianas, pela qual tinha um carinho muito grande e se tornou madrinha.
Dona Norma de Luca nos preparativos para o desfile de 1998. Crédito: acervo GRCES Mancha Verde.

O primeiro desfile oficial da Mancha Verde foi em 1996, realizado no bairro de Vila Maria pelo grupo de espera de Blocos. O enredo era um chamado em prol da preservação das matas, que rendeu um vice-campeonato. Em 1997, a entidade se apresentou no Grupo 1 de blocos cantando a noite paulistana e conquistou o primeiro campeonato de sua história. É necessário abrir um parêntese aqui, pois, em 1997, ressurgiu oficialmente a torcida organizada, dois anos após a extinção da antiga Mancha Verde em 1995. Com o nome Mancha Alvi-Verde, o coletivo de torcedores não possui ligação jurídica com a agremiação carnavalesca.

Em 1998 se apresentou pela divisão de Blocos especiais, no Sambódromo do Anhembi, com um simpático samba-enredo sobre as palmeiras, que remetem ao nome do time de futebol ao qual a entidade presta reverência. O resultado foi mais um campeonato. No ano seguinte, um vice-campeonato. Tanto em 1998, quanto em 1999, a agremiação contou com a presença ilustre do intérprete Quinho, à época no Salgueiro. A alviverde contou com nomes importantes do carnaval no início de sua trajetória como Mestre Juca, Mestre Sombra, Douglinhas e Agnaldo Amaral.
Time de canto da Mancha Verde em 1998. Crédito: acervo GRCES Mancha Verde| Acervo Pessoal Douglinhas.

Após o carnaval de 1999 era dado um passo importante na história da Mancha: a entidade deixava de ser um bloco e passava a ser Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mancha Verde. Mais uma etapa na realização do sonho de Cléo Sóstenes era concretizada. Em 2000, então, foi realizado o primeiro desfile como escola de samba. No Grupo 3 da UESP (atual Acesso 1 de Bairros), o enredo foi “Brasil, que história é essa?”, que questionava pontos da história oficial do país. Quinho também foi o intérprete oficial, tendo se dividido entre a madrinha Rosas de Ouro e a afilhada. O resultado foi um vice-campeonato e o acesso para o Grupo 2 UESP (atual Especial de Bairros). E foi lá, que em 2001, a escola fez o seu primeiro enredo “afro”: “A busca da paz no axé dos Orixás”, que convocava uma grande gira para saudar os Orixás e pedir paz na Terra no início do novo milênio. E, tendo sido campeã do grupo 2, foi então promovida ao Grupo 1 da UESP (atual Acesso 2).

No Grupo 1 da UESP, mais um campeonato: a exaltação das lutas e conquistas da classe trabalhadora permitiu que a Mancha ficasse cada vez mais perto do seu objetivo de chegar ao Grupo Especial. No ano de 2003, o resultado foi muito positivo: um 3º lugar ao falar da cor verde. Após este carnaval, a confecção das fantasias deixava de estar sob a batuta de Dona Norma, que coordenava a produção das indumentárias na quadra, e passou a ser feita em ateliês externos. No carnaval monotemático dos 450 anos de São Paulo, a Mancha Verde brilhou ao cantar a influência italiana na capital paulista. Campeã do grupo de Acesso, a agremiação conquistou seu lugar entre as grandes.

Em sua estreia na elite do carnaval paulistano, a escola causou um impacto positivo com sua apresentação falando sobre o estado do Mato Grosso. O resultado final foi um 12º lugar que garantiu a permanência na divisão principal. Entretanto, os dois carnavais seguintes reservariam grandes emoções. A humildade e, principalmente, a perseverança, mais do que nunca, se tornaram tônicas na trajetória da agremiação.

Apesar de não estar juridicamente ligada à torcida organizada, a escola ainda mantinha e mantém uma ligação com os torcedores e o time. E assim, com o acesso dos Gaviões da Fiel em 2005 (a escola havia sido rebaixada em 2004), entrou em vigor uma regra imposta pela Liga-SP que determinava que as agremiações que tivessem relação com torcidas/clubes de futebol fossem alocadas em uma nova divisão: o Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas. Em teoria, na ocorrência de mais de uma escola de samba “de torcida” no Grupo Especial, todas seriam colocadas nesta divisão e disputariam um título à parte.

Na prática, não foi bem assim que as coisas se desenrolaram. Gaviões da Fiel e Mancha Verde procuraram juntas as vias jurídicas para reverter o efeito desta regra. Porém, apenas uma delas conseguiu. Os Gaviões obtiveram uma liminar, apoiada em uma brecha do regimento, que permitiu sua participação no Grupo Especial de 2006. Já a Mancha acabou não sendo contemplada com a decisão e foi obrigada a disputar sozinha o grupo das desportivas. Isolada, a alviverde ainda teve de lidar com a perda de sua maior incentivadora, Dona Norma de Luca. A matriarca faleceu dias antes da apresentação. Os componentes, baqueados pela perda de sua maior referência, ainda tiveram que lidar com outros problemas: primeiro, uma tentativa de invasão ao ateliê; e depois, um incêndio que destruiu o carro abre-alas que teve de ser reconstruído. Além disso, um dos componentes da comissão de frente teve de ser substituído a poucos dias do desfile.
Carro abre-alas da Mancha Verde em 2006 após o incêndio e durante o desfile, já reconstruído.

Com o enredo “Bem aventurados sejam os perseguidos por causa da justiça dos homens… porque deles é o reino dos céus”, uma clara referência a toda a situação a qual foi submetida, a agremiação foi a campeã do grupo das desportivas, já que era a única integrante. Para 2007, o isolamento se manteve mesmo sem a presença dos Gaviões na primeira divisão (a alvinegra foi rebaixada em 2006). “Decifra-me ou devoro-te! Apocalipse: quatro cavaleiros, três profecias e quatro segredos” foi o enredo que deu para a Mancha mais um título da divisão das desportivas. Caso tivesse disputado o Especial em 2006 e 2007, a escola teria ficado em 7º e 11º lugar, respectivamente.

Após a folia de 2007, o Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas foi dissolvido e, pela primeira vez, teríamos duas escolas “de torcida” desfilando pelo Grupo Especial, já que os Gaviões foram campeões do Acesso. Em 2008, a Mancha fez uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna. A escola também enfrentou problemas para colocar o desfile na pista, mas as situações foram controladas e o resultado foi um 7º lugar no carnaval que é considerado por alguns a estreia oficial da agremiação no Grupo Especial. No carnaval de 2009, a Mancha cantou o estado de Pernambuco e ficou em 10º lugar. Consolidando-se na elite, em 2010 veio o primeiro resultado expressivo: com uma homenagem aos mestres e professores obteve um 4º lugar, que garantiu o primeiro desfile das campeãs como integrante do Especial. Em 2011, manteve o bom resultado tendo ficado em 4º lugar mais uma vez. O enredo “Uma ideia de gênio” levou para o Anhembi os pensamentos e ideias de grandes gênios da humanidade.
Entrada da Mancha Verde no carnaval 2011.Crédito:Daigo Oliva|G1

Agora, sem mais delongas, voltemos para o ano de 2012. O enredo da Mancha era “Pelas mãos do mensageiro do Axé a lição de Odu Obará: a humildade”, desenvolvido por uma comissão de carnaval formada a época por Pedro Alexandre “Magoo”, Troy Oliveri, Thiago de Xangô e Paolo Bianchi. Os Odus, traduzidos do Iorubá como “destinos”, são as figuras principais do enredo. São peças utilizadas no oráculo de Ifá, instrumento divinatório de religiões de matriz africana. São 16 os Odus principais e cada um deles possui mensagens (itans) associadas a si de acordo com as possibilidades de leitura.

O Odu destacado no enredo era Obará, o sexto na ordem de resposta do jogo, e, portanto, frequentemente associado ao número seis e seus múltiplos. E curiosamente, a escola estava oficialmente indo para o seu sexto desfile no Grupo Especial, além do ano em questão terminar em 12, um múltiplo de seis. Por mais que haja associação de Obará com o número 6, quando se olha para a chamada ordem de chegada na Terra, este Odu é o sétimo. E aí reside outra curiosidade, já que a agremiação foi a 7ª a desfilar.

No itan, Obará era o mais pobre dos 16 irmãos príncipes. Em uma visita anual ao Babalaô (sacerdote do culto de Ifá) os outros 15 irmãos foram presenteados com Morangas (abóboras), das quais desdenharam. Após este encontro, os 15 Odus seguiram para a casa de Obará, que era muito simples. Mesmo com todas as dificuldades, Obará usou todos os seus recursos para alimentar os irmãos, que após passarem a noite em sua casa se foram. Obará acabou ficando sem nenhum alimento, exceto as abóboras deixadas por seus irmãos. Sem ter o que comer, ele pede a esposa que abra as abóboras, e os dois se deparam com muito ouro e pedras preciosas. Obará prosperou. A grande lição é que a generosidade e a humildade devem prevalecer sobre o orgulho, a ganância e a vaidade. A narrativa proposta utiliza o conto para pedir uma mudança da atitude dos seres humanos em relação ao seu entorno, prezando por um convívio mais harmônico e menos destrutivo. Última escola da primeira noite, foi por volta das 7h da manhã já do sábado, 18 de fevereiro de 2012, que a Mancha Verde adentrou a avenida. Porém, antes, um susto: o braço da escultura principal do carro abre-alas se soltou. Entretanto, o problema foi solucionado e não causou maiores contratempos. 
Detalhe da comissão de frente da Mancha Verde em 2012.Crédito: Levi Bianco

Embalado pelo samba-enredo de Freddy Vianna (também o intérprete); Armênio Poesia e Channel, o cortejo se iniciava com a comissão de frente que trazia 14 Orixás (Exu; Ogum; Oxóssi; Obaluaiê; Nanã; Ossain; Xangô; Oxumarê; Oxum; Iansã; Ewa; Obá; Iemanjá e Oxalá), designados pelo Deus supremo e associados às forças da natureza. A performance encabeçada por Exu abria os caminhos para o carro abre-alas “O mundo em destruição” que trazia um cenário de devastação com peixes em decomposição, mar poluído e um grande esqueleto. Na parte traseira, uma figura feminina representava a natureza agonizando em razão do dano causado pela ganância e soberba do homem. A alegoria retratava a passagem inicial do enredo, onde sob uma perspectiva negativa, um babalaô recorre ao tabuleiro de Ifá em busca de respostas. O sacerdote é respondido pelo mensageiro, Exu, que começa a lhe revelar a lição.

“A fé eu fui buscar
Com meu clamor ao mensageiro
Sou babalorixá
A dor de um mundo inteiro”
Traseira do abre-alas da Mancha Verde. Crédito: Reprodução Internet

Exu se encontrava também representado em um tripé e na segunda ala do desfile, após o abre-alas. Na sequência, vinha a bateria comandada por Mestre Moleza e Mestre Caju. Os Ogãs da escola representavam os Ogãs do Candomblé, responsáveis pela condução rítmica e musical nos rituais da religião. Seguindo a bateria, estava a ala de passistas e, logo depois, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Fabiano Dourado e Jéssika Gioz. Ele vinha como um babalorixá, enquanto ela representava um tabuleiro do jogo de ifá com uma saia vazada com plumas e adereços em branco e tons de marrom/palha.
1º casal da Mancha Verde em 2012.Crédito:José Cordeiro|SPTuris

“A resposta que vem dos búzios” era o nome da segunda alegoria, que ilustrava justamente o jogo do Ifá e a leitura das respostas. Chama-se atenção para as representações trazidas nas esculturas principais do carro: sentado, aparece um babalaô fazendo a leitura dos búzios. A frente, aguardando as respostas, uma figura feminina, clara referência à Dona Norma de Luca. Já foi comentado anteriormente sobre a relação maternal de Norma com a escola e sua comunidade: Mas talvez poucos saibam sobre a vida religiosa da grande dama da Mancha, que era praticante do Candomblé, iniciada em Oxumarê. Atrás da segunda alegoria vinham as baianas, xodós de dona Norma, que estavam vestidas como “Ayê, a mais bela criação de Olorum”, que representava a criação da Terra pelo Deus supremo. A indumentária em verde com a barra da saia em azul era adereçada com muitas flores.
Segunda alegoria da Mancha Verde. Crédito: Reprodução| Palmeiras Online

“Tenho a sede do saber
E ainda muito o que aprender
Se Olorum é o pai da criação
eu sou mais um dos filhos desse chão”

As alas, na sequência, falavam da criação do mundo e dos elementos da natureza, também representados pelo segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Leandro e Luana. A mensagem começava a ser revelada para o babalaô. Olorum ao criar o universo, designou a vida e também os Orixás. Ao perceber que o ser humano seria falho e entraria num ciclo de degradação e perdição, o Deus supremo designa Orunmilá, senhor dos destinos. Com o dom da eternidade, Orunmilá acumula experiência e sabedoria a ser passada aos seres humanos. E, para que essas mensagens fossem transmitidas, o Orixá dos destinos designa os Odus, aqui representados por príncipes, que tinham a missão de revelar as verdades e ensinar suas lições aos homens.

“Orunmilá
Criou senhores do destino
A cada irmão deu seu ensino
E o dom em conhecer as direções”

Na história contada pela Mancha, a revelação era a lição de Odu Obará, representada na terceira alegoria, “A recompensa de Odu Obará”. O carro trazia no centro a morada de Obará, uma casa simples de palha e madeira. A casa era rodeada por grandes abóboras, aquelas deixadas por seus irmãos, onde composições vinham vestidas como as joias contidas nos frutos. Na parte traseira, aparecem referências à Xangô, Orixá justiceiro que junto de Oxóssi é associado ao Odu Obará.

“Obá! Obá!
O olhar de cobiça vai perceber
Babalaô! Faz a justiça vencer, meu pai Xangô
A simplicidade vai determinar a riqueza na lição de Obará”

Exu ainda mostra ao babalaô o presente de Olorum ao Universo na forma dos Orixás, regentes das forças da natureza, para que assim se tomasse consciência de toda a riqueza e exuberância dada ao homem, da qual o mesmo não soube usufruir. O setor era aberto com uma ala em referência a Ogum, sucedida pela ala de Oxóssi, senhor das matas. O terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representava o senhor das folhas, Ossain. O poder de cura e regeneração vinha na potência de Obaluaiê, representada na ala seguinte. Oxumarê vinha como o símbolo do renascimento e renovação. Em seguida temos Nanã, da lama, dos pântanos e da sabedoria. Oxum, senhora das águas doces e símbolo de beleza e riqueza era representada na ala que sucedia a de Nanã e dava lugar ao quarto carro alegórico, “Orixás: os presentes do criador”. O cenário era encabeçado por Iemanjá, divindade das águas salgadas associada à maternidade e à vida, e trazia também representações de outros Orixás do panteão Iorubá. 

“Que os ventos de Iansã
Levem Oxum, Obá, Nanã
No encontro com o mar, a vida é linda, salve Oxalá
Sementes vão trazer às folhas o poder
É o fim de uma era que se regenera em Obaluaiê”

Depois de absorver e compreender as mensagens reveladas, o babalaô cai aos prantos e clama por perdão pelos erros do homem. Ele pede que lhe seja mostrado o caminho para mudança, que lhe seja dada a devida punição, o devido castigo por suas falhas e pelas falhas da humanidade.

“Ó, senhor
Perdoai a humanidade
Iluminai a consciência
Pra guiar essa mudança”

Exu transmite a mensagem de Olorum, que concede o perdão e enxerga no babalaô o desejo de mudança e a humildade ensinada na lição de Odu Obará ao vê-lo assumir os erros de toda a humanidade. Assim, o sacerdote é designado o mensageiro do axé, incumbido com a missão de transmitir para toda humanidade a lição aprendida, para que assim o Universo passe a trilhar o caminho para o “Mundo que Olorum sonhou”. Esse é o nome do quinto e último carro do cortejo, que se contrapõe à imagem do abre-alas, trazendo a Terra regenerada com águas limpas, animais vivos e as matas exuberantes. Na parte traseira, a escultura feminina, agora diferente do início, era verde e viva.

“Vou guardar no coração, levar em minhas mãos
A mensagem de esperança”
Traseira do último carro da Mancha Verde.Crédito: Rivaldo Gomes|FolhaPress

Com uma evolução tranquila, a Mancha Verde, banhada pelos raios de sol, encerrou uma apresentação tocante e emocionante. E, ao fechar os portões, ecoavam os gritos de “é campeã” dos componentes. Apesar do visual mais simples, o que denotava recursos mais limitados em relação às escolas grandes da época, a Mancha cumpriu o seu papel em nos ensinar a lição de Odu Obará. Seus grandes trunfos foram o belíssimo samba-enredo, cujos versos foram citados ao longo deste texto, e a bateria dos já citados Caju e Moleza. O envolvimento da comunidade também fez a diferença na apresentação. Na conturbada apuração, a agremiação terminou no quarto lugar com o total de 159,5, meio ponto atrás da campeã. Os descontos foram nos quesitos fantasias (0,3), mestre-sala e porta-bandeira (0,1) e harmonia (0,1).

Independentemente da classificação, a Mancha Verde cumpriu a missão de ser a mensageira do axé e nos ensinar uma valiosa lição. E, mais do que isso, o enredo de 2012 evoca valores e sentimentos que sempre estiveram presentes na história da escola. A humildade e, principalmente, a perseverança marcam a trajetória da agremiação que, por muitas vezes, viu o seu sonho ameaçado. Hoje o ideal de Cléo Sostenes é uma realidade. 

A Mancha é uma das principais e mais estruturadas escolas de São Paulo, com dois títulos e dois vice-campeonatos na elite. E se hoje tudo isso é real, em boa parte se deve a uma estrela mãe, que mostrou qual o caminho a seguir. É para ela que este desfile é dedicado, como deixado explícito pelo presidente Paulo Serdan durante seu discurso naquele ano. A “Norma da sabedoria”, como diz o samba de 2010, hoje em dia dá nome a rua onde se localiza a quadra da alviverde e continua regendo e iluminando os caminhos da Mancha para uma história de glórias e conquistas.

Agradecimentos:
Carlos Costa – Diretor do coletivo LGBTQIAP+ palmeirense PorcoÍris
Lucas Malagone – Equipe de comunicação do Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mancha Verde


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Por Redação Carnavalize


Última escola a passar pela Avenida no tão aguardado carnaval de 2022, a Unidos de Vila Isabel celebrou a vida de seu maior baluarte. Martinho da Vila, figura de grande importância para a agremiação e para a cultura brasileira, recebeu da escola do coração os louros pela sua obra e trajetória. A escola também rendeu favoritismo durante o pré-carnaval, aliando a pertinência do enredo à sua confortável situação financeira. No entanto, antes mesmo da escola pisar na pista, estava confirmada a saída do carnavalesco Edson Pereira para a chegada do carnavalesco Paulo Barros para o próximo carnaval.

A comissão de frente, assinada por Márcio Moura, trouxe um ritual tribal angolano, saudando a ancestralidade de Martinho. O corpo de dança apresentou uma coreografia aguerrida e tocou alguns tambores. O ponto alto da abertura da escola foi a aparição do homenageado, quando o belo elemento alegórico se abria e Martinho era coroado por Omolu. A presença do ícone levantou o público, causando frisson. Recém-chegados à agremiação, Marcinho Siqueira e Cris Caldas fizeram uma exibição ousada, apostando em paradas diferentes. O primeiro casal explorou a letra do samba na marcação da coreografia. A dupla estava tecnicamente perfeita.

Abertura da escola impactou (Foto: Pedro Umberto)

No que diz respeito ao enredo, vale dizer que ele deixa a desejar no desenvolvimento, no sentido de que se começa um tema que não é concluído em sequência. Kizomba, por exemplo, aparece três vezes em momentos diferentes do cortejo. O conjunto visual trouxe a assinatura de requinte do carnavalesco, apostando no luxo e na volumetria. As alegorias estavam bem acabadas e mostraram um competente uso de materiais. Os figurinos, por sua vez, eram irregulares, oscilando entre alas boas e outras nem tanto. O destaque ficou por conta da utilização do azul, uma das cores da escola.

Uma das belas alegorias da Vila (Foto: Leonardo Antan)

A bateria de Mestre Macaco Branco “tirou onda” em uma apresentação consistente e empolgante, garantindo um bom andamento para o samba-enredo. A comunidade vibrou e quicou na avenida, evoluindo com fluidez e energia. 

Sem enfrentar perrengues e com quesitos bem defendidos, a Vila se colocou na disputa pelas primeiras colocações. 





 

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Por Redação Carnavalize


Depois de ver o título de 2020 escapar pelas mãos no momento do desempate, a Grande Rio direcionou toda a vontade de vencer para construir o enredo "Fala, Majeté! As sete chaves de Exu", que versa sobre a influência de Exu no cotidiano, se manifestando nas mais variadas formas, lugares e situações, desmistificando a demonização que o racismo religioso atribuiu ao orixá. Estamira, catadora de lixo do Jardim Gramacho, que dizia se comunicar diretamente com Exu, faz a ligação entre a escola e o orixá.

A comissão de frente do casal Beth e Helio Bejani, intitulada “Câmbio, Exu!”, encantou ao tratar justamente da relação entre Estamira e Exu. O orixá foi o personagem central da performance, que, em determinado momento, é erguido em um globo, levantado pela mão de Estamira. O elemento alegórico fez referência ao Jardim Gramacho e trouxe componentes em deslocamentos pendulares, retratando o movimento enquanto preceito de Exu. No geral, a comissão impressionou pelo vigor da dança dos integrantes, pela encenação e gestual perfeitos e pelo capricho do tripé e dos figurinos. Por sua vez, o primeiro casal, formado por Daniel Werneck e Taciana Couto, se exibiu com segurança e sintonia, explorando o espaço cênico. 

Detalhes da Comissão de Frente da escola (Foto: Pedro Umberto)

Multifacetado, como pede Exu, o enredo de Leonardo Bora e Gabriel Haddad é desenvolvido com maestria. O orixá abriu os caminhos para um competente passeio pela cultura afro-brasileira. Impactante desde a volumosa abertura, o conjunto visual se destacou pela concepção arrojada, pela exploração das formas e das cores, pela proposta ousada e muito bem executada. As alegorias e os figurinos não ficaram devendo em nada, com todos os elementos trabalhados com excelência. Cabe ressaltar que a terceira alegoria passou apagada no segundo módulo, mas, felizmente, acendeu na sequência. 
As alegorias da Grande Rio se destacaram pelo primor estético (Foto: Leonardo Antan)

O ritmistas de Mestre Fafá fizeram uma excelente passagem, sustentando o elogiado samba-enredo e garantindo um chão avassalador. A escola teve forte comunicação com a arquibancada, que comprou e cantou o samba. Apesar da evolução lenta em alguns momentos, a agremiação também não teve problemas de evolução, sem buracos ou correria.

Aclamada pelo público, aos gritos de “é campeã!”, a Grande Rio despontou como a grande favorita ao título. 





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Por Redação Carnavalize


Após resultados inexpressivos nos últimos anos, a Unidos da Tijuca passou por uma reestruturação em sua equipe para voltar a sonhar com melhores classificações e até mesmo com o título do carnaval carioca. Com o enredo "Waranã - A reexistência vermelha", a escola contou a história do guaraná e dos sateré-mawé, com uma abordagem pertinente aos dias atuais quanto à temática indígena.

Em seu primeiro trabalho pela agremiação, Sérgio Lobato, ao lado de Patrícia Salgado, trouxe uma comissão intitulada “A reexistência vermelha”, retratando o surgimento da etnia mawé em vários momentos. A abertura da escola contou com um elemento alegórico de proporções medianas, que mostrou a dualidade entre sol e lua, dia e noite, parte da proposta do enredo. O tripé serviu para a troca de personagens durante a performance, que, apesar de densa, se mostrou de fácil leitura, além de competente. Um dos pontos altos foi uma folha de guaraná, aberta ao final pelos integrantes, com os dizeres: “Brasil terra indígena”. Estreando como casal, Phelipe Lemos e Denadir Garcia vieram trajados de vermelho e demonstraram muita sintonia. Sem criar coreografia mirabolante, optaram pelo clássico e pelo bem feito.

Comissão de Frente trouxe forte mensagem (Foto: Lucas Monteiro)

O desenvolvimento primoroso do enredo confirmou Jack Vasconcelos como um dos melhores enredistas do carnaval. A sequência da narrativa é muito clara e bem costurada. Plasticamente, chamou a atenção o espírito de fábula, que se refletiu na paleta de cores, proporcionando uma cromática delirante e um tapete exuberante. O trabalho de sobreposição de formas geométricas também se destacou. No geral, o que se viu foi um lindo conjunto visual. Vale ressaltar a beleza do setor do povo do Guaraná, todo em vermelho.

Uma das belas alegorias da escola (Foto: Leonardo Antan)

A Pura Cadência de Mestre Casagrande passou correta, como sempre, sustentando com maestria o inspirado samba-enredo e a potente harmonia tijucana. Animado, leve, lúdico, o cortejo se mostrou extremamente agradável.

Com uma evolução fluida e sem enfrentar perrengues, a Tijuca se colocou muito forte na briga pelas primeiras posições.







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Por Redação Carnavalize


Sob as bênçãos de Oxóssi, a Mocidade, terceira escola a desfilar, levou à Avenida uma homenagem ao orixá e seu padroeiro, com o enredo "Batuque ao caçador", assinado pelo carnavalesco Fábio Ricardo. A agremiação despontou entre as favoritas durante todo o pré-carnaval, principalmente pela força de seu samba, um dos mais elogiados do Grupo Especial. 

Experientes no quesito e veteranos da escola, Jorge Teixeira e Saulo Finelon trouxeram uma comissão de frente representando o mito que fez Oxóssi ficar conhecido como “caçador de uma flecha só”, no qual ele flechava um pássaro que carregava uma maldição. O ponto alto da apresentação era quando a ave, em cima do elemento alegórico, era acertada por uma flecha (drone) que sobrevoou a avenida. No chão, vários guerreiros encenavam um ritual com tambores, os quais chamaram a atenção por se movimentarem sozinhos. Apesar de competente, a comissão não produziu grande impacto. Cabe destacar que o elemento alegórico não era um primor estético. Por sua vez, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos, representou “Mutalambô”, com uma das indumentárias mais bonitas que passaram pela Sapucaí. A dupla fez uma apresentação segura, com giros limpos. Foi perceptível uma evolução do casal em relação ao ano passado.

Performance da Comissão de Frente da escola (Foto: Lucas Monteiro)

Mergulhando na história de Oxóssi, o enredo apresentou bem a ligação do orixá com a escola de samba, apesar de alguns cortes abruptos na narrativa, como entre o império de Daomé, no terceiro carro, e a alegoria de Tia Chica. As fantasias, no geral, se destacam em cor e proposta, sendo ainda leves e bem acabadas. Chamou a atenção o modo eficiente como o carnavalesco combina o dourado e o prata com o verde da agremiação. Já as alegorias deixaram bastante a desejar em acabamento. As concepções eram boas, mas quase todos os carros tinham problemas nesse sentido.

Último carro alegórico da Mocidade (Foto: Juliana Yamamoto)

A bateria de Mestre Dudu, assim como o excelente e animado samba, foram os destaques positivos do cortejo. Forte musicalmente, a escola só não teve um chão melhor por vários problemas de evolução, desencadeados por dificuldades com os carros alegóricos, como foi o caso do acoplamento do abre-alas.

Oscilando entre quesitos fortes e frágeis, a Mocidade deve brigar, na terça, por um vaga no desfile das campeãs.










 

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Por Redação Carnavalize


Prestes a se tornar uma escola centenária em 2023, a Portela escolheu um enredo "afro" para o carnaval de 2022, cinquenta anos após Ilu Ayê, carnaval de 1972, último carnaval referenciado na temática negra. Novamente comandada pelo casal Márcia e Renato Lage, a azul e branca foi galgando pouco a pouco posições de favoritismo durante o pré-carnaval com o enredo "Igi osé Baobá".

Para tentar superar seu histórico problema de comissão de frente, os coreógrafos Leo Senna e Kelly Siqueira apostaram em um ritual tribal africano. O corpo de dança trouxe uma boa coreografia, aguerrida. Infelizmente, um dos integrantes da comissão acabou tropeçando diante do primeiro módulo de julgamento. A abertura da escola contou ainda com um elemento alegórico singelo, representando o baobá, bem decorado e bastante funcional. Por sua vez, o casal formado por Marlon Lamar e Lucinha Nobre veio com uma indumentária em tons terrosos, na parte de baixo, e azulada, em cima. Bem vestida, a dupla exibiu uma coreografia sincronizada, caracterizada pelos movimentos limpos. Marlon e Lucinha se mostraram bem entrosados, afastando quaisquer comentários negativos que tenham circulado sobre eles ensaio técnico, mostrando que as críticas não se sustentavam, e não tiveram problemas.
Comissão de Frente da azul e branco (Foto: Lucas Monteiro)

Apesar do enredo genérico e repetitivo em relação ao que já se viu em outros carnavais na Sapucaí, a Portela apresentou um espetáculo estético, da comissão de frente ao último carro. O conjunto visual é muito competente, tanto em termos de escolha cromática quanto do uso primoroso de materiais de alto custo. As fantasias seguem esse padrão elevado e têm fácil leitura, apesar da narrativa não se provar completamente. A terceira alegoria trouxe um belo trabalho artesanal, apesar de algumas avarias, como é o caso do globo do terceiro carro, que estava com problema de encaixe. Cabe ressaltar ainda o mal gosto de colocar a cabeça de negros escravizados sobre um navio tumbeiro, no quarto carro. Apesar disso, o júri deve avaliar a agremiação com bons olhos.

Uma das belas alegorias da Portela (Foto: Maria Rita)

A Tabajara do Samba, sob regência do Mestre Nilo Sérgio, deu um show ao longo do cortejo, sustentando muito bem o samba-enredo, defendido com primor pelo excelente carro de som. Em termos musicais, a Portela arrebatou, também com uma das melhores harmonias da festa há alguns anos.

Com a evolução invejável, a agremiação mostrou porque é, há alguns anos, uma escola referência nos quesitos de chão, que credenciam a Portela para brigar na cabeça na próxima terça-feira. 








 

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Por Redação Carnavalize


Primeira escola a desfilar no segundo dia do Grupo Especial, o Paraíso do Tuiuti passou por uma troca de enredos no hiato entre carnavais. O martelo batido deu origem a "Ka Ri Ba TI Ye - Que nossos caminhos se abram", em um enredo de valorização à negritude. Em clima de despedida, o carnavalesco da escola, Paulo Barros, assinou com a Unidos de Vila Isabel para 2023 antes mesmo da escola azul e amarela de São Cristóvão passar pela pista.

Estreando pela escola, a coreógrafa Claudia Mota, trouxe a comissão de frente “A criação do homem”, que retratou Oxalá modelando o barro e criando o homem. O ponto alto da performance foi justamente o surgimento de pessoas a partir do barro, em cima de um elemento alegórico gigantesco, que parecia mesmo um carro. Apesar de bem feito, o tripé não dialogava, cromaticamente, com a cabeça da escola. A dança dos integrantes era vigorosa e as vestimentas bonitas. Correta, a comissão tinha muitos momentos, sendo, por isso, relativamente complexa. Por sua vez, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, veio de Zumbi e Dandara dos Palmares, nas cores amarelo e laranja. Juntos pelo primeiro ano, se mostraram sintonizados. A dupla dançou entrosada, com movimentos limpos. Graciosa, Dandara lembrou a dança dos orixás de candomblé.

Detalhes da Comissão de Frente da escola (Foto: Pedro Umberto)


O enredo teve um desenvolvimento burocrático e genérico. O que se viu foi uma lista de chamada de personalidades negras, com bastante repetição de informações pelo carnavalesco, que tentou legendar demais o desfile. Muitas alas traziam repetições dos homenageados em estandartes e na representação deles no meio da ala. O conjunto de fantasias trouxe materiais que deixaram a desejar e um trabalho cromático pouco elaborado. As alegorias eram bonitas esteticamente, em termos de acabamento e escolha de materiais. Porém, os truques repetidos não ajudaram a contar a história do enredo. Destaque para o último carro, que se afasta da estética usual do carnaval, mas foi bastante belo.

Carros do Tuiuti apostaram nos truques de Paulo Barros (Foto: Pedro Umberto)

A bateria do renomado Mestre Marcão foi o ponto alto do desfile, abusando das bossas e colocando a escola para cantar. O bom samba-enredo foi defendido com maestria pelo potente carro de som. Com uma das melhores harmonias que passaram pelo Sambódromo, o Tuiuti ostentou um chão poderoso, que deve garantir a permanência da agremiação no Especial sem sustos.

A evolução, entretanto, compromete bastante. Além de abrir alguns buracos, a escola passou muito lenta, em decorrência da extensão da performance da comissão de frente e do efeito do abre-alas. Assim, acabou estourando o tempo em 2 minutos. 












 

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Última escola a desfilar no primeiro dia do Grupo Especial carioca, a Beija-Flor de Nilópolis voltou às suas raízes negras para desfilar o enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz do Beija-Flor”, uma narrativa que promoveu artistas e intelectuais negros em uma perspectiva decolonial e afrocentrada. Com direção artística do carnavalesco Alexandre Louzada, a escola contou com o reforço do talentoso André Rodrigues e sua equipe para a construção do carnaval nilopolitano.

O coreógrafo Marcelo Misailidis trouxe a comissão de frente em cima de um tablado. Os integrantes dançavam apenas sobre a estrutura. Curiosamente, havia areia no chão do elemento, recurso também utilizado pelo Salgueiro. O ponto alto da performance foi a encenação de uma revolta de escravizados contra seus algozes. O busto de um escravagista era explodido. A comissão apostou em uma tela de LED, que exibia lutas negras. Ao final do número, os componentes, inclusive, formaram os dizeres “Vidas negras importam” no chão do tablado. No geral, a apresentação de abertura não gerou grande impacto, em que pese a importância da mensagem. Por sua vez, o experiente casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha Sorriso, estava muito bem vestido, em preto e azul escuro. A porta-bandeira ostentou, ainda, uma “falsa” careca. A apresentação da dupla foi competente, apesar de um leve desencontro entre os dois antes da saída do primeiro módulo.

Apresentação do primeiro casal da Beija-Flor (Foto:Beatriz Freire)


O pertinente enredo mostrou embasamento e fez um movimento interessante, começando com a ancestralidade e passando por diversas manifestações artísticas e filosóficas da negritude. O conjunto visual é bastante arrojado, com belas alegorias, apesar de alguns problemas de acabamento e de queijos vazios bem visíveis no segundo carro. As fantasias têm volumetria acentuada, mas deixam a desejar no trabalho cromático. No geral, o que se viu foi uma concepção melhor do que a execução.

Laila foi homenageado em carro da agremiação (Foto: Leonardo Antan)

A bateria dos Mestres Plínio e Rodney passou redonda, sustentando o ótimo samba-enredo. A tradicional cadência nilopolitana rendeu um cortejo bastante agradável. O carro de som mostrou sua competência, como de costume. A comunidade cantou o samba e demonstrou animação com sua agremiação. 

Com alguns problemas pontuais de evolução, devido, inclusive, à dificuldade de dois carros para entrar na avenida, a Beija-Flor fez um cortejo tranquilo. Sem perrengues graves, a escola se credenciou para lutar pelas primeiras posições. 



 

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A grande missão de preservar um título chegou para a Viradouro. Após o campeonato do carnaval de 2020, a escola manteve integralmente a equipe para brigar pelo bicampeonato. Muito falada durante todo o pré-carnaval pelo seu samba em forma de carta, a escola levou para a Sapucaí o enredo intitulado “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, sobre o carnaval de 1919, ocorrido após a gripe espanhola, com traços de comparação ao cenário causado pela pandemia do coronavírus.

Os coreógrafos Alex Neoral e Márcio Jahu apostaram em uma comissão de frente apoiada em um gigantesco elemento alegórico, um pouco “trambolhoso”. Entretanto, o desenrolar da coreografia aconteceu no chão. No primeiro ato, um pierrot protegia um baú enquanto batalhava com a gripe espanhola. Os integrantes do corpo de baile vestiam preto e tinham rostos de caveira. Em um segundo momento, o Pierrot tirava uma chave da caixa, a morte desaparecia e surgiam foliões com uma carta na mão. O globo do tripé, então, ficava branco, prateado. E a chave (drone) sobrevoava, chegando às mãos do rei momo, quando explodiam foguetes e componentes abriam a cartinha com dizeres “Carnaval, te amo”. No geral, a comissão se exibiu de modo correto, em que pese, comparativamente, seja inferior a outras que passaram na mesma noite. Por sua vez, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves, ostentou uma indumentária preta com detalhes prateados. A dupla estava entrosada e dançou bem. Infelizmente, o mestre-sala acabou perdendo o sapato ao final da apresentação diante do primeiro módulo de julgamento, o que deve acarretar, pelo regulamento, a perda de um décimo.

Enorme elemento alegórico da Comissão de Frente (Foto: Thomas Reis)

No que diz respeito ao enredo, chamou a atenção o interessante trabalho de pesquisa de imagem e construção. O desfile passeou por manifestações culturais da elite e populares. O desenvolvimento foi, em suma, satisfatório, bastante criativo. A abertura do cortejo foi ousada, em preto, monocromática. O conjunto de fantasias se mostrou consistente e o de alegorias deixou um pouco a desejar, com soluções visuais pouco inspiradas, principalmente com relação à segunda e à terceira. O quinto setor, do obaluaê, se destacou positivamente, com um carro lindíssimo. O final também, com a alegoria que trouxe a barca de Niterói se dirigindo ao Rio. 

Detalhes de alegoria da Viradouro (Foto: Leonardo Antan)

A bateria do Mestre Ciça passou reta, pelo setor 3, sem repetir com frequência sua tão esperada paradinha. Os ritmistas não se apresentaram para o módulo de jurados, realizando a bossa entre as cabines no meio da avenida. O andamento acelerado dificultava o canto de alguns trechos do samba-enredo e culminou em uma harmonia apenas regular, sem explosão.

A evolução da agremiação não sofreu com grandes perrengues, sendo a passagem tranquila, porém fria, sem muita vibração. 

Alternando entre quesitos bons e outros regulares, a Viradouro deve brigar para voltar no Sábado das Campeãs.


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Ano a ano cotada à briga pela permanência no Grupo Especial, após o ótimo carnaval de 2020, a São Clemente passou por uma reestruturação quase completa de sua equipe, dentre elas a saída do carnavalesco Jorge Silveira e a promoção de Tiago Martins, veterano da casa, ao cargo de carnavalesco da agremiação. Apesar de uma dança das cadeiras tumultuada até que se chegasse ao time atual, incluindo também troca de enredo, a São Clemente comoveu durante o pré-carnaval em razão da homenagem a Paulo Gustavo, ator e humorista que faleceu vítima de Covid-19.

A comissão de frente, comandada pelo coreógrafo Júnior Scapin, trouxe um elemento alegórico rotacionável representando um camarim, com três andares. Em cada pavimento, ocorria alguma performance. Dona Hermínia, personagem icônica de Paulo Gustavo, foi retratada. O ponto alto da apresentação residiu no surgimento, em certo momento, de Dona Déa, mãe do homenageado, presença que emocionou o público. A comissão teve problemas ao longo do cortejo com a falha na iluminação do tripé, que já não era muito interessante em termos estéticos. Estreando como primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira no Grupo Especial, os irmãos Vinicius e Jack Pessanha, foram atrapalhados, no primeiro módulo, pelos guardiões ao redor. Eles fizeram uma coreografia com suas hastes que ofuscou a dupla, afetando a evolução de Vinicius e Jack, que chegaram a ficar um tempo parados, sem dançar. Já diante da última cabine de jurados, a bandeira dela, infelizmente, enrolou duas vezes.

Detalhes do figurino da Comissão de Frente (Foto: Pedro Umberto)

O pertinente enredo acabou não saindo do lugar comum, tendo um desenvolvimento extremamente básico. Não se viu a tentativa de gerar imagens interessantes. As fantasias, apesar de serem de fácil leitura, de acordo com a falta de aprofundamento da proposta, sinalizaram a inexistência de um trabalho cromático. Muitos figurinos foram se desintegrando ao longo do desfile. Alguns eram de gosto duvidoso. O conjunto alegórico sofreu com problemas de acabamento, com peças, inclusive, despencando. Todavia, o último carro se destacou positivamente pela beleza. No geral, a escola não acertou plasticamente.

Uma das alegorias da São Clemente (Foto: Pedro Umberto)

A Fiel Bateria, regida por mestre Caliquinho, foi o destaque positivo do cortejo, em que pese o recuo ter sido caótico, com abertura de buraco. Apesar de animado, o samba-enredo não levantou o público. Apontada por muitos como um problema antigo da São Clemente, a harmonia ficou devendo bastante. 

No que diz respeito à evolução, a agremiação enfrentou problemas para fazer a curva com duas alegorias, o que se refletiu no andamento do desfile, que sofreu com a oscilação de ritmo. Em alguns momentos, a escola chegou a ficar parada na avenida. 

Comprometida na maioria dos quesitos, a São Clemente deve, infelizmente, figurar nas últimas colocações, correndo sério risco de rebaixamento. 


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