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Carnavalize

 



por Artur Paschoa

Mais uma vez, o resultado final da apuração das notas dos desfiles das escolas de samba de São Paulo deixou aqueles que acompanhamos o carnaval paulistano com um gosto amargo na boca. Pela segunda vez em quatro carnavais, quatro escolas empataram no topo da tabela do Grupo Especial, definindo-se o título através de notas em teoria descartadas. Essa situação não é mero acaso, mas fruto de um modelo de julgamento implementado e reforçado pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LigaSP) nos últimos anos.

Fundamentalmente, o modelo adotado pela LigaSP estabelece grandes restrições à possibilidade dos jurados de penalizarem as escolas, diminuindo o número de pontos retirados das agremiações e produzindo dois fenômenos simultâneos: apurações cada ano mais acirradas, como evidenciado pela ocorrência dos dois empates quádruplos, e a chamada “chuva de 10”, já característica das apurações paulistanas. Não se trata de simples impressão; neste ano, das 504 notas atribuídas pelos jurados às 14 escolas do grupo especial, apenas 120, ou 23,8%, não foram a nota máxima. A título de comparação, no carnaval carioca, 46,9% das notas atribuídas tiveram desconto.

Ainda mais grave que a banalização da nota 10 — que ironicamente o manual do julgador da própria LigaSP alerta como prejudicial ao espetáculo — é o desequilíbrio gerado entre os próprios quesitos em julgamento. Neste ano, pela terceira vez consecutiva, nenhuma escola do grupo especial foi penalizada no quesito Samba-enredo, desconsiderando os descartes. Ora, qual o sentido de um quesito que não é capaz de diferenciar a apresentação das escolas? É justo dizer que não houve qualquer diferença qualitativa em letra e melodia entre os 42 sambas do grupo especial que passaram pelo sambódromo do Anhembi nos últimos três carnavais?

Infelizmente, o problema tampouco restringe-se ao quesito Samba-enredo: Harmonia, que neste ano não penalizou nenhuma agremiação, retirou apenas um décimo em 2020 e dois décimos em 2019; Bateria, um décimo neste ano, dois décimos em 2020 e nada em 2019; Enredo, dois décimos neste ano, quatro em 2020 e três em 2019.

Mais do que a simples constatação de que quatro dos nove quesitos em julgamento foram virtualmente inúteis nos últimos carnavais, fica evidente a desvalorização dos quesitos musicais e de chão, em favor dos quesitos visuais e coreográficos. Neste ano os quesitos que mais despontuaram as escolas foram Evolução (1,3 ponto) e Mestre-sala e Porta-bandeira (1,2 ponto); em 2020, Alegoria (4,1 pontos) e Fantasias (2,6 pontos), que juntos foram responsáveis por mais da metade do total de deduções; e em 2019 Alegoria (2,4 pontos) e Comissão de Frente (2,3 pontos) — naquele ano, todos os demais quesitos somados foram responsáveis pela subtração de apenas mais 2 pontos.

A Águia de Ouro conquistou seu primeiro título na folia em 2020. (Foto: R7)


Esse modelo produz graves distorções sobre o que entendemos como a manifestação cultural e artística das escolas de samba. Hoje, uma agremiação paulistana que não possua a mesma estrutura de barracão ou patamar financeiro, com alegorias e fantasias que não atinjam o mesmo nível de acabamento que de suas coirmãs, por exemplo, não consegue mais encontrar na força de um enredo poderoso ou de um grande samba a possibilidade de se colocar em pé de igualdade. 

Evidentemente que a trajetória recente das agremiações reconhecidas como mais tradicionais da folia paulistana é bastante complexa, mas não é difícil ver o impacto desse modelo de julgamento sobre escolas que sempre tiveram no samba e no chão seus principais trunfos. Não custa lembrar que neste ano, o Vai-Vai foi novamente rebaixado ao Grupo de Acesso I, onde se juntará à Nenê de Vila Matilde e ao Camisa Verde e Branco; Leandro de Itaquera e Unidos do Peruche disputarão ano que vem a terceira divisão do carnaval paulistano. Não se trata de achar que essas escolas merecem tratamento especial, mas de entender que o modelo de julgamento da LigaSP prioriza aspectos de um desfile diferente daqueles em que essas agremiações costumam se destacar, deixados de lado na avaliação oficial.

Ao ultrapassarmos a camada meramente quantitativa das deduções em cada quesito e nos debruçarmos sobre o que efetivamente vem sendo penalizado, encontramos um problema ainda mais grave. O manual do julgador da LigaSP torna explícita sua busca por um julgamento estritamente “objetivo”: “O julgamento é a tentativa de dar consistência técnica a um desfile de escola de samba, fazendo com que os julgadores se tornem a média matemática do espetáculo, levando em consideração menos sua subjetividade e mais critérios técnicos previamente definidos que ‘medem’ o equilíbrio de cada escola. (...) Lembramos que não é função do julgador gostar ou não da exibição de um quesito, mas sim analisar o desempenho técnico do mesmo”.

O manual ainda define com grande detalhamento o que deve ou não ser punido em cada um dos quesitos, e em que medida, apresentando inclusive uma lista de “termos subjetivos” interditados de serem utilizados nas justificativas das notas. A consequência dessa metodologia que busca a objetividade absoluta é um julgamento mais semelhante a uma conferência de critérios que devem ser cumpridos do que à avaliação de uma expressão artística e, portanto, inerentemente subjetiva. Ironicamente, o manual da LigaSP estampa logo na terceira página uma frase do pesquisador Hiram Araújo: “Se o ato de julgar fosse simplesmente uma conferência de requisitos básicos, não haveria a necessidade de jurados e sim uma comissão fiscalizadora realizaria o trabalho”.

Para não ter dúvidas de que o corpo de jurados da LigaSP tem atuado mais como comissão fiscalizadora do que como órgão capaz de efetivamente produzir um julgamento sobre o que é apresentado por cada escola, basta olhar com mais atenção para a maneira como a entidade instrui os jurados a realizarem seu trabalho. Primeiramente, a tarefa de “ponderar e analisar até que grau a agremiação cumpriu a totalidade dos requisitos”, nas palavras de Araújo, é tomada pela própria entidade, que apresenta para cada quesito uma tabela que indica qual deve ser o desconto aplicado à nota para a quantidade de “ocorrências” de cada agremiação. Além disso, a tabela ainda indica e exemplifica quais são essas ocorrências passíveis de punição, por vezes dividindo em subquesitos.

O quesito Alegoria, por exemplo, um dos principais responsáveis pelas deduções dos últimos anos (0,8 ponto neste ano, 4,1 em 2020 e 2,4 em 2019) é subdividido pela LigaSP em Execução — se as alegorias apresentadas estão de acordo com o descrito pela escola na pasta entregue aos jurados —, Realização — variação de cores e formas, proporção das esculturas e volumetria da alegoria — e Acabamento. Fica claro que há pouco ou nenhum espaço para avaliação da concepção das alegorias, ou seja, se transmitem a mensagem proposta pela escola para aquele momento do desfile e se o fazem de maneira plasticamente adequada. 

É vedada ao jurado a possibilidade de avaliar se a produção artística da escola é interessante, se engaja e atrai visualmente, ou se oferece uma plástica simplória e monótona. Seu trabalho se limita, portanto, a uma simples conferência. Os elementos estão de acordo com o descrito na pasta? Não há rasgos ou amassados? As esculturas estão na proporção “correta”? Se o conjunto de alegorias preencher todos os requisitos, o jurado é forçado pelo manual a conceder a nota máxima, ainda que possa ter uma opinião diferente sobre a plástica apresentada.

Observando as justificativas dos jurados de Alegoria no carnaval deste ano, das 20 notas inferiores à máxima, 13 se tratava apenas de problemas de acabamento nas alegorias, quatro apontavam também problemas de proporção nas esculturas, três a presença de elementos alheios à alegoria e uma a divergência com o apresentado na pasta. O mesmo se repete nas justificativas apresentadas para o carnaval de 2020, em que as falhas de acabamento são responsáveis pela grande maioria dos pontos deduzidos.

A Tucuruvi criticou os rumos da folia paulistana em seu desfile em 2022. (Foto: Metrópoles)


Tal filosofia de julgamento, baseada na tentativa invariavelmente frustrada de enquadrar em critérios absolutamente objetivos uma manifestação de natureza artística, incentiva as escolas não a uma produção cultural complexa, ousada ou impactante, mas à reprodução de modelos simplistas, de fácil produção e acabamento, seja em alegorias, aqui tomadas como exemplo, ou em qualquer dos demais quesitos. Alguma escola paulistana ousaria a criação de uma alegoria produzida inteiramente de lixo do carnaval, que dificilmente pode ser descrita com exatidão numa pasta, como a apresentada pela Grande Rio no encerramento de seu carnaval campeão deste ano? Não porque falte criatividade ou competência aos artistas e trabalhadores engajados na produção do carnaval paulistano — mas as escolas topariam o risco de sofrerem sanções de “acabamento”, “proporção” ou “fidelidade à pasta”?

Na prática, esse modelo de julgamento tende a um acomodamento completo das escolas, a esta altura já acostumadas à produção de desfiles protocolares, muito mais propícios a produzirem bons resultados na apuração. Na busca por um carnaval livre de “subjetividades”, a LigaSP se livrou também da criatividade, da ousadia e da inovação em todas as diversas facetas de uma manifestação cultural tão complexa quanto as escolas de samba. Ao invés de rumar “ao maior carnaval do Brasil”, os desfiles das escolas de samba paulistanas rumam a passos largos à monotonia e ao esquecimento.

Corrigir o rumo ainda é possível, mas as mudanças precisam ser drásticas e imediatas. É preciso olhar para as raízes do carnaval de São Paulo, como nos mostrou este ano a Acadêmicos do Tucuruvi em seu desfile-protesto, cuja colocação quase no fim da tabela é a prova viva daquilo que critica:

"E hoje a alma do sambista
Engessada nessa pista
Onde quem tem muito pode mais
Um show que só impera a vaidade
E o samba de verdade vai ficando para trás
Os baluartes que fizeram nossa história
Esquecidos na memória
Implorando o seu valor
No choro da velha baiana, há esperança no olhar
E a força da nossa raiz ninguém pode calar"



Arquiteto e urbanista pela USP e graduando em Cenografia pela UFRJ, Artur Paschoa integra a equipe do carnavalesco Edson Pereira, atualmente no Acadêmicos do Salgueiro. Participa também do Observatório de Carnaval (OBCAR - LABEDIS/MN/UFRJ), onde desenvolveu pesquisa acerca do imaginário das favelas nos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, e é carnavalesco no Carnaval Virtual.
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Texto: Talitha Dejesus 

Oxum: a orixá das águas doces é a deusa do amor, da beleza, fertilidade, ternura e riqueza. Representa sensibilidade, delicadeza e paixão para motivar a essência da vida. É ela a responsável por nos acolher durante as tempestades emocionais, nos tranquilizando e orientando os caminhos a seguir.

Mas qual a relação de Oxum com as escolas de samba? Todos sabemos da influência dos negros e das religiões de matrizes africanas no carnaval que conhecemos hoje, e não por acaso, enredos com temáticas sobre a negritude são recorrentes na nossa folia. E, graças a Oxalá, porque a gente adora um enredo afro, né?

Seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, é quase certo que todo ano vai haver a presença de um orixá nos enredos e consequentemente nos sambas. Por isso, listamos enredos paulistanos recentes que trouxeram Oxum à Avenida. Bora relembrar? Ora yê yê ô Oxum!

 
Nenê de Vila Matilde - 2006 


O abre-alas da escola daquele carnaval. Foto: Keiny Andrade/Folha Imagens.

O enredo deste ano, “Mamma Bahia - Ópera Negra, Lídia de Oxum’’, foi inspirado na ópera que foi apresentada em 1994, na Bahia. É considerada a primeira montagem de uma ópera afro-brasileira e uma demonstração de força do povo negro, visto que o gênero musical, em sua maioria, é elitista e muitas vezes inacessível. O enredo é incrível, e apesar do triste desfile, a Nenê contava com um dos melhores sambas do ano.
 

X9 Paulistana - 2015

Alegoria da escola representando Oxum! Foto: Reprodução/Grito de Carnaval.

Após uma tempestade que prejudicou algumas escolas no Carnaval de 2014, a X9 Paulistana decidiu exaltar a chuva no enredo do ano seguinte. No desfile, o destaque ficou para o icônico intérprete Royce do Cavaco cantando o enredo ‘’Sambando na Chuva, num Pé D’Água ou na Garoa. Sou a X-9 numa Boa’’, que transitava por tudo ligado a chuva, como por exemplo, cigarras, o dilúvio bíblico e a Arca de Noé, chuva de arroz em casamentos e a importância da água no mundo, em um momento em que São Paulo passava por uma crise hídrica. Além disso, a escola trouxe os orixás ligados à água. E lá estava Oxum…


Camisa Verde e Branco - 2016

Ivi Pizzott, rainha de bateria do Camisa Verde e Branco em 2016. Foto: Léo Franco/AGNews.

Nem só de Grupo Especial vive Oxum. Em 2016, ela passou pelo grupo de Acesso com o Camisa Verde e Branco. O enredo ‘’Nas águas sagradas de Oxum, Iemanjá e Oxalá, Camisa Verde dá um banho de alegria!” contava a história do banho desde as antigas civilizações até sua presença no dia a dia e também a relação dos Orixás com as águas. 


Vai-Vai - 2017

Comissão de frente da Vai-Vai. Oxum era a orixá de Mãe Menininha. Foto: Reprodução/ BOL Fotos.

“No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu…Menininha, mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil” foi o enredo do Vai-Vai para 2017, homenageando um dos nomes mais importantes do candomblé no Brasil. Dessa vez, Oxum apareceu por ser a orixá da cabeça da ialorixá. Empolgando as arquibancadas como sempre, as alas e alegorias da escola representaram os elementos da natureza e sua ligação com os orixás. A homenagem a Oxum veio na comissão de frente e também no último setor que retratava a água. 


Colorado do Brás - 2018

A porta-bandeira da Colorado do Brás no ensaio técnico da escola. Foto: Felipe Araujo.


Após 25 anos fora do Grupo Especial, a Colorado do Brás voltou à elite paulistana com o enredo ‘’Axé, Caminhos que levam a fé.’’. O tema abordava a cultura do Candomblé desde a criação do mundo por meio de suas tradições aos ensinamentos dos orixás. Junto com o desfile, um pedido de bênçãos e paz no que a escola chamou de ‘’banho de Axé’’. Não poderia faltar Oxum, evidentemente!


Mancha Verde - 2019

Oxum da abertura da campeã Mancha Verde de SP!. Foto: Fábio Tito/G1.

Consagrando-se campeã do Carnaval de São Paulo pela 1ª vez, a escola de samba Mancha Verde contou a história de Aqualtune. "Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra", desenvolvido pelo consagrado Jorge Freitas, retratou a vida da negra que nasceu princesa no Congo e foi trazida ao Brasil para ser escravizada. Oxum veio representada na comissão de frente ao lado de Xangô e de guerreiros guardiões que celebraram a chegada da herdeira ainda no Congo.


Mocidade Alegre - 2020 

Representação de Oxum na alegoria da Mocidade Alegre no último carnaval. Foto: Magaiver Fernandes.

“Do Canto das Yabás, Renasce uma Nova Morada” trouxe uma celebração à vida e à natureza através das orixás femininas do panteão afro-brasileira de tradição nagô-iorubá. O desfile emocionou a comunidade e o público presente no Anhembi e marcou um momento de transição da Mocidade. O enredo exaltou a força e o poder feminino por meio das yabás como Iemanjá, Obá, Nanã, Ewá e nossa estrela do texto de hoje, Oxum.






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Texto: Juliana Yamamoto
Revisão: Luise Campos


No mês de outubro, mergulhamos na folia paulistana, conhecendo suas características e identidade que se expressam nos desfiles das escolas de samba que vemos atualmente. Passeamos pela origem dos cordões carnavalescos com Camisa Verde e Branco e Vai-Vai, compreendemos a influência das festas do interior nos sons da bateria e dos sambas-enredo, entendemos como se construiu a estética visual dos desfiles e, para encerrar a série Raízes da Garoa, abordaremos as peculiaridades que envolvem a dança no carnaval paulistano, mais precisamente os quesitos de mestre-sala e porta-bandeira e comissão de frente. 

Como já citado no nosso primeiro texto, no qual abordamos a origem da festa em São Paulo, antes do surgimento das escolas, os primeiros agrupamentos carnavalescos foram os cordões. Neles, a figura que mais se “aproximava” da formação de mestre-sala e porta-bandeira como conhecemos hoje era a porta-estandarte e o baliza. O estandarte era uma espécie de “bandeira” que representava e identificava o cordão que estava se apresentando. Como era muito comum a prática da captura ou destruição do estandarte adversário por integrantes de outros cordões, existia a figura do baliza, que tinha como função proteger e defender este símbolo. Com o passar dos anos e o surgimento das escolas de samba, com a devida oficialização dos desfiles em 1967 pelo prefeito José Vicente Faria Lima, iniciou-se um processo de padronização inspirado nos desfiles cariocas, fazendo com que os cordões fossem extintos e alguns elementos que eram presentes nesses grupos tiveram que ser adaptados, surgindo assim o casal de mestre-sala e porta-bandeira.



Casal de mestre-sala e porta-bandeira dançando no Anhangabaú em 1973. (Foto: Eder Chiodetto - Folhapress)

Assim como os sambas-enredo e baterias que receberam forte influência das festas do interior do Estado, a dança também adquiriu características desses folguedos populares. Considerados como os ancestrais do samba paulistano, o samba de bumbo (de Pirapora) e o samba-lenço (caipira), eram manifestações presentes nas festas e caracterizavam muito a dança dos seus integrantes, que seriam vistas posteriormente nos cordões carnavalescos e, em seguida, nas escolas de samba. As danças, naquela época, guardavam traços que se aproximavam do jongo e do batuque. A influência dessas manifestações populares foi tão forte que influenciou na dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira e criou algumas peculiaridades. Apesar de a função ser a mesma, ou seja, a de carregarem o símbolo maior de uma agremiação com os devidos movimentos obrigatórios, a dança do mestre-sala do Rio de Janeiro está muito relacionada aos arquétipos do boêmio e do malandro. Já em São Paulo está ligada à figura do caipira e da roça, remetendo ao estilo peculiar de dança que se fazia em Pirapora e em outras cidades rurais. Isso influencia no famoso riscado (jogo de pernas) do mestre-sala e sua característica ao bailar. Já em relação as porta-bandeiras, pode-se perceber uma maior influência do estilo europeu na Terra da Garoa. No Rio, as danças negras tiveram um peso muito forte no bailado. 


Uma criança de 9 anos imitando os movimentos de mestre-sala no intervalo dos desfiles das escolas na Avenida Tiradentes em 1988. (Foto: Sergio Tomisaki - Folhapress)

Não é só na origem que há peculiaridades envolvendo a dança do mestre-sala e porta-bandeira em São Paulo. Há alguns pontos que valem a nossa atenção e que, às vezes, passam despercebidos por nossos olhos. Na Terra da Garoa, além do pavilhão oficial que o primeiro casal carrega, há o pavilhão de enredo. Nele há o logotipo do enredo (tema) que a escola apresentará na Avenida. Além disso, os outros pavilhões não precisam necessariamente serem iguais ao oficial, podendo ser os antigos da agremiação ou até mesmo apresentar cores diferentes. Outro fato curioso é que em terras paulistanas há o costume de se chamar o maior símbolo de uma agremiação de pavilhão, enquanto no Rio de Janeiro intitula-se apenas bandeira. Por fim, o tradicional movimento que grande parte das porta-bandeiras fazem nos ensaios de quadra ou até mesmo nos desfiles, o de se curvar e abaixar seu corpo, é proibido em São Paulo. Caso realizem esse movimento durante a apresentação para os jurados, possivelmente serão perdidos décimos. Isso não é permitido porque a porta-bandeira é vista como uma grande “rainha” e, por ostentar o maior símbolo, não pode se curvar perante os demais. Além desse ponto, o julgamento do quesito é avaliado da seguinte forma: entrosamento (integração do casal), postura do casal (a forma de conduzir e apresentar o pavilhão) e integridade das fantasias (verificar se a indumentária está totalmente completa, sem tecidos rasgados ou adereços quebrados). O julgamento é muito objetivo e o casal precisa evoluir por toda pista, sem parar em frente à cabine julgadora como no Rio. Assim, o jurado avaliará até onde seu campo de visão permitir. 


Passistas da Unidos do Peruche no carnaval de 1974. (Foto: Folhapress)

Já a comissão de frente tem como principal função apresentar a escola e saudar o público durante o desfile. Por muitos anos, essa “ala” não apresentava coreografias e grandes fantasias, porém com a modernização dos desfiles, esse quesito se modificou. Em São Paulo, a partir da década de 1990, ele passou a incorporar características típicas do teatro e balé, recebendo forte influência das escolas cariocas. A Imperatriz Leopoldinense, em 1979, e posteriormente a Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1991, foram as primeiras a mudar a apresentação tradicional da comissão de frente. O resultado deu tão certo que a ideia aos poucos foi sendo introduzida no carnaval paulistano. Algumas agremiações, nos primeiros anos, resistiram e foram resistentes à ideia de trazer a ala coreografada. Porém, com as sucessivas notas baixas, acabaram se adequando ao novo “padrão”. 

Esse quesito não possui tantas diferenças na dança com relação às agremiações do Rio de Janeiro. Na verdade, o que mais se distingue é o julgamento e a evolução da ala durante o desfile da escola. Enquanto em terras cariocas a comissão se apresenta durante 1 a 2 minutos em frente à cabine julgadora, na Terra da Garoa, a ala evolui por toda a Avenida. Além disso, por não pararem em determinados momentos do desfile, a comissão em São Paulo acaba tendo um impacto menor no público que no Rio. Já tivemos vários casos na Cidade Maravilhosa em que o quesito impressionou e encantou a plateia a ponto de ser o fator principal para que determinada escola alcançasse um grande desfile. O caso da Unidos da Tijuca em 2010 é um dos mais emblemáticos. Como isso não é comum em São Paulo, também acaba influenciando no pouco uso de efeitos especiais nas fantasias dos componentes ou tripés das comissões paulistanas. Já em relação à avaliação, são observados 3 pontos: fundamento (a ala precisa realizar sua função durante o desfile: saudar o público, apresentar a escola e manter a ligação com o cortejo), plástica artística (qualidade visual da apresentação e sua criatividade) e acabamento (integridade das fantasias, adereços e elementos cenográficos de acordo com o que foi apresentado na pasta para os jurados). 

E chegamos ao fim do nosso desfile! A série Raízes da Garoa sobrevoou um pouco o carnaval paulistano, do Vale do Anhangabaú até o Sambódromo do Anhembi, fazendo com que conhecêssemos um pouco da origem da folia na cidade e o surgimento das escolas de samba. Há muitas peculiaridades que envolvem essa grande festa popular, com sua identidade própria e única e características singulares. Desde que os desfiles começaram oficialmente, as agremiações se reinventaram, evoluíram e se modernizaram. O último texto da série finaliza mostrando que até os quesitos de dança possuem suas diferenças. O carnaval paulistano a cada ano mostra a grandeza que possui e a sua importância para a cidade. Continue nos acompanhando e carnavalize conosco!



Referências Bibliográficas:


http://www.bibliotecavirtual.sp.gov.br/temas/sao-paulo/cultura-e-folclore-paulista-dancas-e-folguedos.php

http://g1.globo.com/Carnaval2007/0,,AA1458030-8037,00-CARNAVAL+PONTE+AEREA+OS+DIFERENTES+RITMOS+DO+RJ+E+SP.html

https://www.31rba.abant.org.br/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjIzNTIiO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiZTg1NGQ3MjM3YTk2ZGRiMThmZDdjMWE1OWRmYmYwYTYiO30%3D

https://sasp.com.br/wp-content/uploads/2020/02/ManualdoJulgadorOFICIAL_2020.pdf

http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Da%20oficializa%C3%A7%C3%A3o%20ao%20samb%C3%B3dromo.pdf




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Texto: João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos


Chegamos no mês de outubro e iniciamos a nova série do Carnavalize, Raízes da Garoa. Todas as segundas-feiras, iremos destrinchar o carnaval de São Paulo, desde suas origens, até a sonoridade dos seus sambas-enredo e bateria, além de outros segmentos importantes: o visual e a dança. O objetivo desta série é explicar as peculiaridades e diferenças que envolvem a folia paulistana e a sua importância para a cidade. 

É impossível discutir o carnaval sem levar em consideração a sua sonoridade. A festa é repleta de conceitos importantes e bem trabalhados, que oferecem a conexão e a conversa com o público, presente de diversas maneiras. Seja dialogando com o público que preenche as fileiras da Avenida ou com a audiência fiel que, do conforto do seu sofá, acompanha os desfiles, o carnaval e as escolas de samba contam com diversas ferramentas para criar a identificação com a comunidade que assiste e respira a folia momesca. Por intermédio de uma comissão de frente cativante, uma fantasia deslumbrante ou uma alegoria impactante.

Mas todos esses quesitos se conectam através de uma constante: o som. Conforme as imagens passam à frente dos seus olhos - e você se sente maravilhado por elas -, existe uma constante sonora chegando aos seus ouvidos, que ajuda a gravar e perpetuar aquelas sensações. E, ao falar do carnaval de São Paulo, é necessário considerar todas as variáveis relacionadas à sua origem, que fazem com que o samba paulistano tenha influências particulares, que o tornam característico e único, com todo o mérito. 

Capa do CD do projeto sobre o Samba de Roda de Bom Jesus de Pirapora - Foto: Acervo das Tradições

Ao observar a maneira como o carnaval cresce ao longo do século XX, é necessário considerar-se a influência carioca na folia e as ligações que fazem com que ele tenha se tornado, na visão geral, o “padrão” de festejo carnavalesco do país. O papel do Rio de Janeiro enquanto capital federal nas primeiras décadas do último século influencia diretamente uma visão, que perdura até os dias de hoje, de que aquele seria o modelo a ser seguido e que, portanto, os outros carnavais seriam diferentes do carnaval carioca, com todo o juízo de valor que isso pode trazer.

É necessário ir de encontro a essa narrativa e considerar todas as particularidades que envolvem a formação, construção e consolidação de uma cultura popular. Quando colocamos o carnaval da capital paulistana sob a lupa, é possível observar que a sua origem se fundamenta sob influências e perspectivas diferentes. Como foi bem abordado no primeiro texto da série (colocar o link), a origem das escolas de samba de São Paulo nascem da conexão entre os cordões carnavalescos e a influência do samba rural do interior paulista. 

Dessa maneira, as características musicais presentes no samba rural paulista se conectam de forma profunda com as escolas de samba em seu berço, de forma que essas diferenças estejam presentes na forma que o samba e o carnaval paulista se forma, se constrói e se consolida, ainda que existam aproximações com o carnaval carioca ao longo de sua formação. Esse processo foi encabeçado pelo Seu Nenê que, por ter parentes no Rio de Janeiro e por fazer visitas recorrentes à cidade e às escolas cariocas, foi um dos pioneiros na inclusão de instrumentos cariocas nas baterias, na Nenê de Vila Matilde. 

Carnaval no Parque do Ibirapuera Arquivo Histórico de São Paulo.- Escola de Samba Nenê de Vila Matilde - Bateria, 1960

Ainda assim, alguns aspectos musicais vão estar carregados das festas religiosas do interior paulista para os cordões carnavalescos que, por sua vez, vão influenciar também a formação da sonoridade do carnaval paulista. Muitos dos primeiros líderes das agremiações dos festejos populares na terra da Garoa tinham uma influência muito grande dessas festas religiosas, como, por exemplo, a festa de Bom Jesus de Pirapora. A festa seria um dos pontos de aglutinação do samba de bumbo, um dos aspectos culturais do interior paulista fortemente ligado com a herança cultural negra, tendo principalmente origem bantu.

Enquanto o samba carioca, com a influência da Turma do Estácio e do samba de partido alto, se descola da rítmica do maxixe e se aproxima da marcha, o samba paulistano também vai se aproximar da marcha, a partir de sua marcha-sambada, mas com menos influência urbana nessa transformação. Assim, a influência do samba de bumbo se torna bastante presente e reconhecível no carnaval paulista. Dessa maneira, características ligadas de forma intrínseca àquele tipo de samba são observáveis primeiramente nos cordões e depois nas escolas de samba. O bumbo, instrumento característico que dá nome ao termo “guarda-chuva” que abrange diversas manifestações culturais do interior paulista, se faz presente nas baterias até o fim da década de 1960. 

Fotos do Samba Lenço de Mauá na Festa do Folclore de Olímpia, SP - Foto: Acervo Ayala

Essa cultura se faz tão forte e presente que, ainda que haja uma aproximação com o samba carioca ao longo das décadas de 1930 a 1960, os instrumentos de sopro, que eram parte essencial das festas populares paulistas, se fazem presente nas baterias também até o final da década de 1960. E vale destacar que eles já tinham sido barrado das baterias cariocas muito antes. Entretanto, as baterias das escolas de samba são, assim como o próprio carnaval, um organismo vivo que se reinventa e se transforma. Assim, as baterias paulistas passam por diversas transformações ao longo dos anos, como na afinação dos instrumentos e no seu andamento. Assim como, é claro, com a intensa troca entre o carnaval paulista e carioca, que nunca deixou de acontecer.

Nesse esforço para aprender mais sobre o carnaval e, principalmente, as baterias paulistas, nada melhor que falar com uma de suas referências para entender mais sobre as diferenças e semelhanças presentes nelas. Assim, conversei um pouco com Rodrigo Neves, mais conhecido como Mestre Moleza, comandante da bateria da Unidos de Vila Maria sobre essas conexões:

Mestre Moleza no comando da Cadência da Vila no desfile de 2020 - Foto: Felipe Araújo LIGASP


“Existem as influências dos cordões tradicionais e também do carnaval do interior, que era bem tradicional. Mas, ao longo do tempo, vão ocorrendo transformações. As baterias são muito de época, né? Houve épocas em que o andamento veio para trás, outras épocas em que o andamento veio para frente. Poucas escolas mantiveram aquelas influências lá da origem, porque vai ocorrendo o intercâmbio entre as escolas. A questão das terceiras desenhadas, que viraram tendência, vêm muito da influência do mestre Odilon, com as inovações na Grande Rio, e do finado mestre Marcone. Não é uma característica que nasceu em São Paulo, e sim veio de uma tendência do Rio, e que hoje já ganha uma retomada para um toque de mais levada, de padrão, sustentação.”

Além disso, o mestre Moleza também aponta o que, na sua visão, são as diferenças mais significativas entre as baterias do Rio e de São Paulo. Para além da questão sonora, em que ocorre muita troca e intercâmbio, de maneira que haja uma aproximação grande, uma das grandes diferenças está na estrutura: 

“Hoje eu vejo bastante semelhança entre as boas baterias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Existem outras diferenças, como, por exemplo, as baterias do Rio de Janeiro que saem mais volumosas, em termos de quantidade. Existe uma questão cultural forte também. Muitos ritmistas no Rio herdam isso de um pai que já tocava, de um avô que já tocava, enquanto aqui em São Paulo a gente trabalha muito com a questão das escolinhas de bateria. Então é a construção com pessoas que talvez nunca tiveram contato com música e acabam desenvolvendo e aprendendo a tocar. Aqui a gente tem muito pouco a questão das escolas mirins, que ajuda no desenvolvimento desde cedo, então tudo passa bem mais pela visão das escolinhas de bateria.”

O mestre Moleza, junto com a sua diretoria de bateria, esteve à frente de um projeto inovador na Unidos de Vila Maria durante a pandemia do novo coronavírus. A escolinha de bateria da agremiação, que é um projeto bem fundamentado e conhecido - além de bastante concorrido - não parou durante esse ano. Eles adotaram uma estrutura diferente, partindo num primeiro momento das aulas remotas, com inovações bem interessantes para permitir aos alunos acompanharem as aulas e simularem os instrumentos em casa. Foi feita, por exemplo, a confecção de agogôs a partir de latas de achocolatado e foram utilizados cadernos para simular as caixas, tudo pensado para uma posterior transição. O processo culminou na formatura dos alunos no último domingo, 04 de outubro. 

A equipe da Unidos de Vila Maria que conduziu o projeto da Escolinha de Bateria, através da qual a bateria se renova para continuar seu trabalho de excelência: São 7 anos garantindo a nota 30 - Foto: Reprodução - Instagram Cadência da Vila

O exemplo do mestre Moleza e de sua equipe demonstram que, no final das contas, não há diferença entre as baterias de São Paulo ou Rio de Janeiro no que diz respeito ao cumprimento de sua função mais humana: formular mudança e agregar positivamente, por intermédio da cultura e da música, à sociedade. Precisamos todos desconstruir a noção do diferente e entender que cada bateria e cada escola vão ter suas próprias características e isso apenas engrandece a nossa festa. Seja em São Paulo, no Rio, Vitória ou Uruguaiana. 

Na semana que vem, a Raízes da Garoa volta para comentar sobre a construção visual do carnaval paulista. Não deixe de acompanhar e #CarnavalizeConosco!

Referências: 

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao40/materia06/ 

https://www.sambariocarnaval.com/index.php?sambando=paulista01 

https://globoplay.globo.com/v/8290718/ 

http://www.patrimonioimaterial.sp.gov.br/wp-content/uploads/2018/04/enecult-samba-de-bumbo-2017.pdf 

A Batucada da Nenê de Vila Matilde - Bateria de Escola de Samba Paulistana - Documentário de Chico Santana.

Uma História do Samba: As Origens - Lira Neto





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Chegamos no mês de outubro e iniciamos a nova série do Carnavalize, Raízes da Garoa. Todas as segundas-feiras, iremos destrinchar o carnaval de São Paulo, desde suas origens, até a sonoridade dos seus sambas-enredo e bateria, além de outros segmentos importantes: o visual e a dança. O objetivo desta série é explicar as peculiaridades e diferenças que envolvem a folia paulistana e a sua importância para a cidade. 

A nossa tradicional festa desenvolveu-se de diferentes formas no país. Em São Paulo, sua origem está ligada à manifestação do entrudo, uma brincadeira que existiu desde o século XV em que os foliões atiravam água e outros líquidos entre si. Entretanto, a principal influência foi com a crise da economia cafeeira, período em que as populações migraram do campo para a cidade. Com o êxodo rural, as famílias se deslocaram em busca de trabalho e melhora na qualidade de vida e, com os novos laços comunitários formados, desencadearam o início do carnaval paulistano. Muitas das manifestações de samba surgiram em bairros com forte concentração operária, como Bela Vista e Barra Funda, onde duas das escolas mais tradicionais da cidade foram criadas anos depois e estão localizadas até hoje. Estamos falando da Vai-Vai e da Camisa Verde e Branco, respectivamente. 

Os cordões carnavalescos aconteciam na Avenida São João e Anhangabaú. (Foto: Acervo - SRZD)

O carnaval tinha como manifestação central, inicialmente, os cordões, dentre os quais se destacavam o próprio Vai-Vai e Camisa já citados anteriormente. O primeiro cordão foi criado em 1914 por Dionísio Barbosa e chamava-se Cordão da Barra Funda. Dionísio, por ter morado durante anos no Rio de Janeiro, teve contato com os ranchos carnavalescos de lá e decidiu criar um em São Paulo. Foi em 1934 o primeiro desfile oficializado pela prefeitura dos cordões existentes na época. 

Eram neles que se desenvolviam o samba paulistano, que tinham como principal elemento musical a batucada, responsável pela manutenção do ritmo, que tinha como base a execução de instrumentos de percussão e sopro, com destaque para o bumbo e o choro. O ritmo interpretado pelos cordões era a marcha-sambada, que mesclava elementos de sambas rurais paulistas e da marcha. 

Ademais, por conta dos primeiros líderes de grupos carnavalescos virem do interior do estado, eles, ao frequentarem as festas de caráter religioso-profano das pequenas cidades, como a de Bom Jesus de Pirapora, absorviam seus elementos musicais e coreográficos que seriam manifestados posteriormente na folia paulistana. Com isso, os sambas rurais da festa de Pirapora iriam também influenciar a música dos cordões paulistanos e as escolas de samba.

A escola de samba Lavapés foi a primeira a se firmar no carnaval paulistano. (Foto: EBC - Divulgação)

Os cordões tiveram forte influência nas primeiras escolas que surgiram na terra da garoa, assim como aconteceu no Rio. Em virtude disso, nas primeiras agremiações paulistanas, houve uma mescla de elementos dos cordões com características musicais e coreográficas do carnaval carioca. Apesar de o primeiro desfile das escolas ter acontecido apenas em 1955, no Ibirapuera, as primeiras agremiações surgiram na década de 1930. 

A “Primeira de São Paulo”, é considerada por muitos a pioneira, mas foi a Lavapés, fundada em 1937 por Madrinha Eunice e Chico Pinga a primeira a se firmar no carnaval paulista. Nos anos seguintes, outras escolas tradicionais começaram a surgir, como a Nenê de Vila Matilde - responsável pela popularização do carnaval na década de 1950 e 1960 - e a Unidos do Peruche. Elas mantiveram por muitos anos elementos dos cordões, como o baliza e estandarte. Já no âmbito musical, mesmo com o intuito de se aproximar do samba carioca, a influência dos sambas rurais paulistas era cada vez maior, com a presença do bumbo e de instrumentos de sopro até o fim da década de 1960. 

Os primeiros desfiles das escolas eram realizados no Ibirapuera. Na foto, desfile da Nenê de Vila Matilde em 1960.  (Foto: Arquivo Histórico de São Paulo)

Ainda naquela década, ocorreu aos poucos o surgimento de novas agremiações, como a Unidos do Morro da Vila Maria (atualmente Unidos de Vila Maria) e Unidos do Morro de Casa Verde (atualmente Morro de Casa Verde). Em 1965, os desfiles passaram a ser transmitidos pela rádio e em 1967 o carnaval foi finalmente oficializado pelo prefeito na época José Vicente Faria Lima, um carioca, apreciador de samba e simpatizante das manifestações populares. Com a sua oficialização, os principais cordões da época, Vai-Vai e Camisa Verde e Branco foram extintos. Dava início a um processo de padronização dos desfiles que se mantém até os dias de hoje. 

Em 1968, ocorreu o primeiro desfile reconhecido como "oficial" pelo poder público, na Avenida São João, tendo como campeã a Nenê de Vila Matilde, com o enredo “Vendaval Maravilhoso”. A azul e branca, fundada em 1949 por um grupo de amigos, tendo como “líder” Alberto Alves da Silva, o seu Nenê, foi a pioneira na inclusão de elementos do carnaval carioca em seus desfiles. Alberto tinha familiares na cidade maravilhosa e contato com vários componentes das agremiações, o que o ajudou a se consolidar quando os desfiles foram oficializados, conquistando um tricampeonato logo nos primeiros anos. A importância da azul e branco ainda maior, dada seu pioneirismo das temáticas negras no carnaval brasileiro, como contamos nesse texto. Durante os anos de 1950 e 1960, a escola levou enredos como "Zumbi dos Palmares", "Xica da Silva" e "Casa Grande e Senzala". 

Camisa Verde e Branco se apresentando em 1984 na Avenida Tiradentes. (Foto: Sergio Araki - Estadão)

No final da década de 1960, novas escolas também começaram a surgir, como a Mocidade Alegre. A agremiação tornou-se uma referência por muitos anos por seus desfiles técnicos, conquistando três campeonatos seguidos (1971, 1972 e 1973) e surpreendendo sambistas mais antigos. O ano de 1972, além de consagrar o bicampeonato da Morada do Samba, também resultou oficialmente no fim dos cordões carnavalescos, Vai-Vai e Camisa Verde e Branco receberam o convite para participar dos desfiles como escolas de samba. 

Em 1974, o Trevo da Barra Funda conquistou o primeiro título, iniciando o seu tetracampeonato. Em 1978, é a vez de o Vai-Vai chegar ao seu primeiro campeonato. Com o apoio da prefeitura, a festa continuou a crescer e se tornou cada vez maior. Em 1977, os desfiles foram para a Avenida Tiradentes, onde foram construídas arquibancadas para acomodar o público. A década de 1970 também marcou a fundação de uma das escolas que faria história no carnaval paulistano, a Sociedade Rosas de Ouro, que a partir dos anos 1980 se tornou uma potência. 

Um dos grandes momentos do carnaval paulistano foi em 1985, quando a campeã teria a oportunidade de desfilar na Sapucaí no desfile das campeãs. Após um jejum de 14 anos, a Nenê de Vila Matilde conquistou mais um título e, comandados pelo seu Nenê, os componentes da azul e branco invadiram a passarela do samba carioca com mais de 2 mil componentes. 

No ano seguinte, foi fundada a Liga das Escolas de Samba de São Paulo (LIGA-SP) para ajudar na organização e administração dos desfiles, mostrando que o carnaval em São Paulo estava se tornando cada vez mais profissional. A partir de 1991, os desfiles passaram a ser realizados no Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo, mais conhecido como Sambódromo do Anhembi, construído com o intuito de sediar o maior espetáculo da Terra. É onde os cortejos acontecem até os dias de hoje. 

O Sambódromo do Anhembi para o carnaval de 1991. Detalhe para as arquibancadas móveis naquela época. (Foto: Arquivo - Estadão)

O carnaval de São Paulo atualmente possui suas peculiaridades e diferenças e, para entendê-lo, é preciso voltar ao passado e conhecer suas origens. Sob influência da população resultante do êxodo rural causado pela crise do café, a festa paulistana começou a ganhar forma, assim como os sambas que receberam forte inspiração das festas do interior do Estado. 

Tudo isso colaborou para a construção e surgimento das escolas que, ao longo dos anos, foram criando a sua própria identidade e características únicas. Semana que vem, a série Raízes da Garoa voltará para abordar mais profundamente a sonoridade dos sambas-enredo e da bateria do carnaval paulistano. Não deixe de acompanhar nossos outros textos. Venha e #CarnavalizeConosco!

Quer saber mais sobre a história do carnaval paulistano, além da importância da Nenê de Vila Matilde e seus enredos afro-brasileiros? Adquira o livro "Sou da negritude, o fruto e a raiz", de Emerson Porto Ferreira, publicado pelo Selo Carnavalize. 









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Referências Bibliográficas:

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao40/materia06/

https://www.ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/9894/historia-do-carnaval-de-sao-paulo


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A #SérieDécada traça um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, com texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na listagem principal.

Texto de Juliana Yamamoto, com colaboração de Leonardo Antan.
Artes e visual: Vítor Melo.


Voltamos para a Terra da Garoa com o nosso panorama sobre a última década da folia para conhecer os sambas-enredos que marcaram história na trajetória das agremiações paulistanas. De 2011 a 2020, fomos presenteados com grandes e inesquecíveis obras musicais que ajudaram a refrescar o gênero e embalar grandes desfiles. 

Se no Rio de Janeiro os sambas passaram por um forte momento de transformação, como conferimos no texto sobre as grandes composições de lá, o período na festa do Anhembi foi mais instável, com altos e baixos. E é unanimidade que nos últimos anos as safras deixarem cada vez mais a desejar, sobretudo com um julgamento que caneta as obras bem menos do que deveria. Ainda assim, não se pode deixar de dizer que há compositores que brilham e produzem grandes obras para o carnaval de São Paulo no Grupo Especial. Então vem com a gente para relembrarmos esses grandes clássicos paulistanos!

Mais uma vez, registramos que a lista não tem ordem hierárquica. Ela está disposta de forma cronológica. 


Vai-Vai 2011
“A Música Venceu”
Compositores: Zeca do Cavaco, Afonsinho, Ronaldinho FDQ e Fábio Henrique.

A Saracura agora vem cantar! O Vai-Vai é uma das escolas mais tradicionais de São Paulo. Não à toa é comumente intitulada como “Escola do Povo”; a que mais interage com o público no Sambódromo e costumar contagiar as arquibancadas como poucas conseguem fazer país afora. Além de sua história e tradição, a força dos seus sambas-enredos contribui bastante para esses momentos catárticos na avenida. Com grandes obras em toda trajetória, em 2011 a preto e branco emocionou com um samba-enredo sobre a vida e a carreira do maestro João Carlos Martins.




A obra foi assinada pela parceria do Zeca do Cavaco, um dos compositores que mais tem história vitoriosa na escola, em que ganhou várias disputas. Fator fundamental na grande apresentação do Bixiga, o samba, considerado um dos melhores de 2011, conta com uma letra forte ao retratar com muita eficiência os principais pontos da vida do maestro. Um dos versos mais importantes e emocionantes diz que “Na sua fé, resistiu, e a dor da adversidade, suplantou, com muita garra e amor”, referindo-se ao acidente que João Carlos sofreu e tirou parte do movimento de suas mãos.  Esses versos que consistiam no refrão do meio da composição foram muito bem interpretados por Wander Pires, em sua estreia na folia paulistana. Acompanhado por seu carro de som, o artista fazia um interessante contra-canto com os outros intérpretes. A brilhante atuação de Wander ajudou a eternizar a canção, tornando-a uma das obras mais inesquecíveis e emocionantes que já passaram pelo Anhembi.


Mocidade Alegre 2012
"Ojuobá – No Céu, os Olhos o Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, um Obá Muito Amado!"
Compositores: Fernando, Leandro Poeta, Renato Guerra, Rodrigo Minuetto, Thiago e Vitor Gabriel.


O rufar do tambor vai ecoar! Um dos maiores desfiles da década de São Paulo foi embalado por um grande e forte samba-enredo, à altura da apresentação que conquistou o primeiro título do tricampeonato da Mocidade Alegre. Dessa forma, consagrou-se como uma das maiores obras da história da tricolor do bairro do Limão. O samba composto por Fernando, Leandro Poeta, Renato Guerra, Rodrigo Minuetto, Thiago e Vitor Gabriel se destacou desde as eliminatórias ao traduzir muito bem o enredo em comemoração ao centenário do escritor Jorge Amado. A homenagem teve como fio condutor o seu livro “Tenda dos Milagres” e proporcionou um samba que contou com maestria o que foi visto no Anhembi.



A letra da obra possui trechos marcantes e a transição entre os setores também era de fácil compreensão, como no trecho: “E assim, cruzando o mar de Yemanjá aponta o seu oxé a nos guiar. Raiou o sol da liberdade a quebrar correntes. E nessa terra o negro vence”, referindo-se ao setor “Dos Braços de Yemanjá às Ladeiras da Lendária Bahia... O Negro é Livre!”. Também se percebe uma nítida alusão ao setor “Obá de Xangô Pelas Mãos de Mãe Senhora... Um Obá Muito Amado!”,  pelos versos “No Ylê a sua luz brilhou, a mão de Mãe Senhora o consagrou. Eternizado, é coroado Obá de Xangô”. A qualidade melódica também é característica potente desse samba, junto a dois grandes refrões que sabem evocar a ginga ao falar da Bahia e nos transportar para o estado nordestino. Uma obra irretocável e que se tornou trilha sonora de um desfile imponente da Morada.


Mancha Verde 2012
“Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”

Compositores: Armênio Poesia, Channel e Fredy Vianna.


O dia veio anunciar. A humildade é a voz da nação… O ano de 2012 trouxe uma grande safra de sambas-enredos nas terras paulistanas, quando muitas escolas levaram para avenida obras de alto nível. Uma delas foi a Mancha Verde. O enredo era “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”, que contava a história de um príncipe que simbolizava uma das 16 peças do jogo de búzios, Odu Obará. Ele era um de 16 irmãos príncipes que tinham como missão ensinar aos homens os valores necessários para a vida. Por intermédio desse enredo poético, a verde e branco presenteou os foliões com um samba emocionante, extremamente tocante e muito forte. 



O samba foi composto por Armênio Poesia, Channel e Fredy Vianna. Fredy também fez a sua estreia como intérprete oficial da agremiação, na qual permanece até hoje. A alviverde foi a primeira escola daquele ano a escolher a sua obra e também a primeira do Brasil a realizar a final de concurso de samba-enredo ao vivo pela internet para todo o planeta. A escola levou para um estúdio os compositores dos três sambas finalistas, no qual os mesmos se apresentaram. Essa transmissão também contou com os diretores da bateria Puro Balanço - na época, uma dupla formada por Mestre Caju e Mestre Moleza -, a ala musical e os diretores de vários setores. Essa inovação proposta pela Mancha Verde proporcionou que milhares de internautas pudessem acompanhar a final. O fato do samba-enredo ser narrado em primeira pessoa, com Odu Obará transmitindo uma mensagem a todos, tornou-o ainda mais marcante. Trechos como “Oh senhor, perdoai a humanidade, iluminai a consciência pra guiar essa mudança” e “vou guardar no coração, levar em minhas mãos a mensagem de esperança” traduzem a importância do enredo e fazem esse samba se tornar ainda mais emocionante e inesquecível. 

Águia de Ouro 2013
“Minha missão: O canto do povo, João Nogueira”

Compositores: Diogo Nogueira, Ciraninho, Rafinha, Leandro e Serginho Castro. 



Ninguém faz samba só porque prefere... Após um ano traumático, o Águia de Ouro buscava se reerguer após um 12° lugar. Para isso, escolheu uma homenagem ao cantor e compositor João Nogueira. Fazendo jus ao homenageado, a azul e branco encantou o Sambódromo do Anhembi com a qualidade do seu samba-enredo e a força da comunidade, terminando na terceira colocação. A obra é considerada uma das melhores da safra e também da história da escola da Pompéia. Com o enredo “Minha missão: O canto do povo, João Nogueira”, assinado pelo carnavalesco Claudio Cebola, o samba-enredo teve como um dos compositores ninguém menos Diogo Nogueira, filho do homenageado.

Diogo Nogueira foi um dos compositores do samba-enredo para o seu pai. Foto: Iwi Onodero / EGO - Agência Reuters

A obra foi um dos principais destaques do pré-carnaval e também do desfile do Águia. Ela foi resultante de um processo conduzido internamente e já chamou a atenção assim que foi apresentado para o público na voz do intérprete oficial da agremiação, o Serginho do Porto. A letra de fácil compreensão conta a trajetória da vida de João, destacada em passagens como “Ê vida boa...no Méier labareda no olhar. Ê vida a toa... boêmio a luz do luar. Ê vida voa... o Clube do Samba desperta saudade”. Os versos se referem à cidade na qual o homenageado nasceu e viveu e também ao bloco Clube do Sambe, que Nogueira ajudou a fundar . Já em relação à sua escola de samba de coração, uma azul e branca carioca, o samba continua: “Vem, vem poeta nos braços da paz, ver a Portela de tempos atrás, realizar o seu sonho de bamba...". Outro ponto a se destacar é a melodia, diferente dos padrões que estávamos acostumados a ver escutar em São Paulo. As variações melódicas contribuíram para elevar a qualidade da obra, como nos trechos “Compor mais um lindo samba… canta sabiá, vai resplandecer; a nação Xingu não vai se render” e “Hoje o espelho é você… e o meu medo maior é o espelho se quebrar…”. A ótima qualidade musical impulsionou uma grande apresentação da Pompeia. Se não fosse o estouro do tempo regulamentar prejudicando, a Águia teria conquistado o primeiro título da sua história, que só chegou agora em 2020.


Vai-Vai 2015 
“Simplesmente Elis - A fábula de uma voz transversal do tempo”

Compositores: Zeca do Cavaco, Zé Carlinhos e Ronaldinho FDQ. 

Na batucada da vida, um samba no Bixiga vai amanhecer! A Escola do Povo volta a aparecer na nossa lista e com mais um tributo a um grande nome da música brasileira. Dessa vez saindo do erudito para a MPB, recordou de forma tocante uma das maiores cantoras nacionais: Elis Regina. A obra assinada novamente pela parceria do Zeca do Cavaco se destacou na safra do respectivo ano e foi a principal responsável por um desfile emocionante e com uma boa comunicação entre o público presente.



O enredo “Simplesmente Elis - A fábula de uma voz transversal do tempo” gerou um dos sambas mais marcantes da história da Saracura. Um dos principais destaques da obra é o refrão principal que lembrava a canção “Maria, Maria”, de Milton Nascimento, eternizada na voz da cantora, com o “Lare larera lare larera lare la re rerere”. Esse verso foi entoado pelos componentes durante o desfile e também caiu no gosto do público do Sambódromo, o que ajudou a alavancar e emocionar ainda mais a apresentação. O interessante é que o trecho não existia na versão concorrente e foi inserido após o samba-enredo ser escolhido. Outros trechos marcantes do samba passearam por citações a canções famosas interpretadas por Elis. A melodia forte, que é característica dos sambas da Saracura, contribuiu para a qualidade musical da composição, que cresceu ainda mais na valente interpretação de Gilsinho. Tantos aspectos positivos fizeram desse um dos casos dos sambas que caíram nas graças do povo e deram a tônica imponente ao desfile da preto e branco. “A grande estrela deste meu país” tornou o Vai-Vai a estrela do carnaval de São Paulo em 2015 com uma composição inesquecível.

Unidos do Peruche 2016
“Ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que ninguém no mundo vence a beleza que tem o samba…100 anos de samba, minha vida, minha raiz”

Compositores: Jairo Roizen, Ronny Potolski, Madureira, Marcelo Madureira, Alex Barbosa, Bagé, Toni, Tubino, Igor Vianna, Thiago Sousa, Gilson, Meiners e Victor Alves.

O meu batuque ecoou, um lindo canto de amor, a filial chegou! Naquele ano, a Unidos do Peruche retornava ao Grupo Especial após 5 anos no Acesso paulistano. Para se firmar na elite do carnaval, a Filial do Samba levou para a avenida a temática sobre o centenário do samba. A agremiação conseguiu garantir sua permanência e também nos presenteou com um dos sambas mais marcantes do ano, afirmando sua tradição na folia do Anhembi. 



O enredo, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo, fez uma justíssima homenagem iniciando as comemorações aos 100 anos de "Pelo Telefone" (Ernesto dos Santos e Mauro de Almeida), considerado o primeiro samba registrado do gênero. A escolha da obra foi feita por meio de um concurso com eliminatórias abertas ao público. Desde o início, o samba-enredo composto pela parceria de Jairo Roizen se destacou e ganhou vários admiradores nas redes sociais, além de uma torcida cada vez maior. O concorrente campeão passou por algumas mudanças, mas nada que tirasse o brilho da obra final. Com uma melodia envolvente e letra fácil, a composição passeia por toda história do samba desde o seu surgimento. Interessantes variações melódicas acompanham a letra que cumpriu muito bem a função de fazer alusões a grandes clássicos do gênero homenageado, inclusive o mais marcantes deles, Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Como diz a obra, “a filial chegou” ao principal grupo do carnaval paulistano e permaneceu com a ajuda de um grande samba-enredo que marcou a sua história e também a da década. Viva o samba!

Dragões da  Real 2017
“Dragões Canta Asa Branca”

Compositores: Thiago SP, Turko, Leo, R. Malva, Rodrigo Atração, Renne Campos, 
Alemão da Ilha, Paulinho Miranda e Tigrão.

Vou me embora, seguir meu destino... Saindo do samba para o baião, e da tradição perucheana para a inovação da Vila Anastácio. Desde que surgiu ao Grupo Especial nos primeiros anos da década, a Dragões buscava se afirmar e conquistar seu primeiro título. Apesar de uma das escolas mais jovens do carnaval paulistano, a agremiação tricolor apresentou desfiles técnicos nos quais se tornou evidente a força da sua comunidade. Isso contribuía para o retorno ao desfile das campeãs e na esperança que o sonhado título logo chegasse. Porém, faltava uma peça muito importante que fez a diferença (ou quase) em 2017: samba-enredo. Com o enredo baseado em dos maiores clássicos da música popular brasileira, a canção Asa Branca, parecia uma difícil missão traduzir os versos de Luiz Gonzaga em samba-enredo, mas a agremiação teve uma disputa musical de alto nível. Recebendo 8 concorrentes, selecionou 5 por meio de uma audição interna e os mesmos se apresentaram na Caverna do Dragão. 


A obra composta pela parceria encabeçada por Thiago SP contava a vida do nordestino com versos muito marcantes. A letra da composição narrada em primeira pessoa era totalmente envolvente e “chamava” para cantar junto. Um dos trechos mais marcantes é o segundo refrão, com os versos: “Sou nordestino arretado, sim sinhô e na bagagem trago o sonho de vencer, oh Rosinha, sem ocê não sei viver”. O verso de chamada, antes do refrão principal, também se destacou: “Não chore não, viu que eu vortarei, viu, pro meu sertão”. Outro trunfo da agremiação foi a excelente iniciativa de contar com a simpatia do cantor Fagner para entoar versos originais da canção de Gonzagão, tanto na gravação para o álbum dos sambas, quanto na apresentação oficial no Anhembi. Esse fator, aliado à simpatia da obra e à sua qualidade técnica, foi um grande trunfo para uma verdadeira explosão no Anhembi. Assim, o elemento que faltava para um cortejo definitivamente marcantes da tricolor finalmente chegou.  Uma pena que o final não foi da forma como gostariam, terminando em segundo lugar, mas deixou na memória dos foliões paulistanos o maior samba da história da escola.


Vai-Vai 2017
“O xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu - Menininha, mãe da Bahia - Ialorixá do Brasil”

Compositores: Edegar Cirillo, Marcelo Casa Nossa, André Ricardo, Dema, Leonardo Rocha e Rodolfo Alves.



Bate cabeça, abre a roda pra saudar… Mãe Menininha do Gantois! Transformando o Anhembi num grande Xirê, o Vai-Vai voltou a apresentar uma grande obra musical em um tributo a uma das grandes líderes religiosas da história brasileira. Com sua identidade musical bem delimitada, a Escola do Povo no brindou mais uma vez com uma composição digna de nota, registro e o que valha! Antes mesmo da escolha do samba oficial a ser entoado pela Saracura, a disputa da preto e branco movimentou o pré-carnaval de São Paulo com uma campeonato interno acirrado entre grandes composições em suas eliminatórias. 

O samba de Mãe Menininha viralizou nas redes sociais na voz de Grazzi Brasil que ganhou destaque na disputa. Foto: Felipe Araújo.

Nessa disputa, destacou-se o samba 8, encabeçado por Edegar Cirillo, que começou a repercutir de forma meteórica nas redes sociais, ganhando uma torcida cada vez maior. Fazendo surgir também uma das maiores personalidades da década do carnaval de São Paulo: Grazzi Brasil. A cantora ficou conhecida por dar voz à versão concorrente junto de Igor Sorriso, além de registrar uma gravação solo. A obra ganhou tanta força dentro da comunidade que a apresentação nas eliminatórias era sempre uma catarse, mostrando que não poderia existir outro campeão. A parceria conseguiu desbancar Zeca do Cavaco e Zé Carlinhos, que colecionavam vitórias na Saracura, como os dois outros sambas da agremiação nesta lista.

O samba possui uma melodia envolvente e letra muito forte.“Iaô ô iaô que lindo arco íris que oxumaré pintou” se tornou um “terceiro refrão” após o samba ser escolhido. Um outro  lindíssimo trecho diz que “Eu vou lavar a alma nas águas de oxalá e sinto que o amor resplandeceu, o bem e o dom que deus lhe deu”. Confirmando seu efeito catártico mostrado na disputa, a canção se tornou um caso a parte nos ensaios técnicos. O público vinha junto com a escola e tornava a apresentação ainda mais intensa e única. Apesar do desempenho não ter sido o mesmo no desfile oficial, isso não diminui o brilho de um dos maiores sambas da década da Terra da Garoa.


Rosas de Ouro 2018
“Pelas estradas da vida, sonhos e aventuras de um herói brasileiro”

Compositores: Aquiles da Vila, Guiga Oliveira, Fabiano Sorriso, JC Castilho, 
Marcus Boldrini, Rafa Crepaldi, Rapha SP, Salgado Luz e Vaguinho.

Razão do meu viver, vou te emocionar, quando a Roseira passar… A Rosas de Ouro voltava a sonhar com seus tempos áureos. Após o retorno às campeãs em 2017, a escola da Freguesia do Ó almejava voos maiores e para isso decidiu contar a vida dos caminhoneiros no Anhembi. Apesar do desfile ter sido bem abaixo plasticamente, o samba-enredo foi um dos principais pontos positivos e também um dos mais marcantes da safra. 




Já nas eliminatórias da Roseira, a obra que se tornaria a vencedora começou a receber um grande apoio da comunidade. Deu, assim, mais um título para a parceria encabeçada pelo compositor Aquiles da Vila, uma das mais vitoriosas da história da azul e rosa. Os sambas de 2009, 2010, 2011, 2017 e 2020 também são deles. Partindo para uma análise da letra, os versos foram narrados em primeira pessoa contando sobre a vida do caminhoneiro, com uma letra de fácil entendimento. “Canta o galo ao despertar, chegou a hora. Adeus, já vou me despedir, amor não chora” faz referência à partida de casa para uma nova jornada. Também se destaque uma bonita passagem em homenagem a São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. Outros trechos marcantes são os dois refrães, empolgantes e com uma leve melodia, fazendo todos cantarem junto. O samba teve um ótimo desempenho na avenida, mesmo que o espetáculo visual não tenha acompanhado a boa qualidade musical.


X-9 Paulistana 2019
“O show tem que continuar! Meu lugar é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor!”

Compositores: Arlindo Neto, André Diniz, Cláudio Russo, Márcio André Filho, 
Marcelo Valência e Darlan Alves

Samba de arerê pra você voltar, Zona Norte é Madureira... O último samba da nossa lista é sem dúvidas um dos mais emocionantes. A X-9 Paulistana, após a permanência no Grupo Especial no ano anterior, decidiu apostar em uma justíssima homenagem ao cantor e compositor Arlindo Cruz. Para isso, a agremiação da Parada Inglesa contou com a ajuda do filho do artista - Arlindo Neto - e outros amigos e parceiros do homenageado, como André Diniz e Cláudio Russo, para compor o samba-enredo.



O enredo foi assinado pelo carnavalesco Amarildo de Mello e contou com uma grande obra à altura do homenageado. Ao invés do que aconteceu no carnaval passado, a escola decidiu encomendar o samba e contou com nomes de peso na parceria, como os já comentado. Márcio André Filho, Valência e Darlan Alves também estavam presentes. Para a divulgação da canção, foi realizada uma grande festa na quadra que contou com vários convidados. O samba possui uma letra forte e muito emocionante, com trechos marcantes como: “Aquela, que sente na pele, as chagas da vida, a dor do país, X-9 a cantar, conduz até seu lugar a luz” e o marco “Não subestime um filho de Xangô a recompor a vida...”. A melodia é diferente do que estamos acostumados a ver em São Paulo, assim como o falso refrão do meio. De qualquer forma, caiu no gosto dos foliões paulistanos e tornou-se inesquecível, embalando uma emocionante homenagem em vida a um dos maiores sambistas do nosso país. 

Menções honrosas

Escolher os sambas mais marcantes da década foi uma tarefa difícil. Para isso tivemos que procurar composições que alinhassem qualidade melódica e beleza em letra. Ao chegar em 10 obras, algumas precisaram ficar de fora. Isso não diminui a sua importância na folia paulistana, visto que também marcaram de alguma forma o seu respectivo ano. Por conta disso, também separamos uma lista com mais algumas obras que por pouco não estiveram entre os escolhidos principais.

Pérola Negra 2011: Abraão, o patriarca da fé
Compositores: Mydras, Carlinhos, Regianno, Michel e Bola.

Acadêmicos do Tucuruvi 2013: Mazzaropi: o adorável caipira. 100 anos de alegria
Compositores: Felipe Mendonça, Maurício Pito, Leandro Franja, Márcio Alemão, Henrique Barba e Fábio Jelleya.

Acadêmicos do Tatuapé 2014: Poder, fé e devoção. São Jorge guerreiro.
Compositores: Marcio André, Márcio André Filho e Waguinho.

Nenê de Vila Matilde 2015: Moçambique – A Lendária terra do Baobá sagrado!
Compositores: Afonsinho, D'Malva, Dede, Jair Brandão e Rubens Gordinho.

Unidos de Vila Maria 2017: Aparecida - a rainha do Brasil. 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro.
Compositores: Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto.

Acadêmicos do Tatuapé 2018: Maranhão, os Tambores vão Ecoar na Terra da Encantaria.
Compositores: Fabiano Tenor, Mike e Luiz Ramos.

Vai-Vai 2019: Vai-Vai, o quilombo do futuro. 
Compositores: Edegar Cirillo, Marcelo Casa Nossa, André Ricardo, Dema, Gui Cruz, Rodolfo Minuetto, Rodrigo Minuetto e Kz.

Mocidade Alegre 2020: Do canto das Yabás renasce uma nova morada.
Compositores: Biro Biro, Fabio Souza, Luis Jorge, Maradona, Rafa do Cavaco, Ratinho, Silas Augusto, Turko e Zé Paulo Sierra.

E aí, o que achou da lista? Mudaria alguma coisa, incluiria ou tiraria algum samba? E qual seria a sua lista dos sambas mais marcantes da década no carnaval de São Paulo? Conte pra gente!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir! Se liiiga e carnavalize conosco!










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