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Carnavalize

 


por Bernardo Pilotto

Nos anos 1930, os diversos morros da Tijuca já eram habitados há alguns anos e em vários deles as manifestações carnavalescas se faziam presentes. Em 31 de dezembro de 1931, integrantes de 4 blocos da região decidiram se juntar para fundar a primeira escola de samba daquela área e assim nasceu a Unidos da Tijuca, sediada no Morro do Borel. 

A nova escola já nasceu grande e foi a campeã do carnaval em 1936, com o enredo “Sonhos Delirantes”. Eram tempos ainda de consolidação dos desfiles, que tinham aspectos muito diferentes dos de hoje. A Unidos da Tijuca teve, inclusive, papel importante nesse processo, visto que é atribuída a ela o uso de alegorias que se relacionassem com o enredo proposto. Após esse carnaval, seu melhor resultado se deu em 1948, quando foi vice do Império Serrano.

Dentre esse período, a escola se manteve desfilando em alto nível e entre as grandes escolas até 1959, quando foi rebaixada. Coincidentemente (ou não), esse é ano que o Acadêmicos do Salgueiro, escola de um morro vizinho ao Borel, começa a ganhar destaque fortíssimo no carnaval carioca. 

Comemoração do vice-campeonato da Tijuca em 1948. Foto: Jornal do Brasil/Reprodução: Leonardo Bruno.


O rebaixamento em 1959 teve grande impacto na Tijuca, que ficou no segundo grupo até 1980, quando conseguiu o acesso ao ser campeã do grupo precedente. Era um momento de “mudança de ares”, tanto no Brasil quanto na agremiação. A partir daí, a escola passa a ter enredos que dialogavam com o momento de luta por abertura política que nosso país vivia, passando a chamar atenção, mesmo sem ficar nas primeiras colocações. 

São desse período, por exemplo, os enredos “Macobeba - O que dá pra rir, dá pra chorar” (1981), “Lima Barreto, mulato pobre, mas livre” (1982) e “Templo do Absurdo - Bar Brasil” (1988). 

O pavão foi conquistando colocações intermediárias durante os desfiles seguintes, até que em 1998 foi novamente rebaixada. Mas, diferente do ocorrido em 1959, logo se recuperou, com um grandioso desfile e um ótimo samba (“O Dono da Terra”) em 1999. Ao só receber notas 10 dos jurados, a Unidos da Tijuca voltou com tudo para o Grupo Especial. 

Nos anos 2000, a agremiação tijucana voltou a disputar as primeiras colocações. Foi vice-campeã em 2004 e 2005, quando o carnavalesco Paulo Barros apresentou ao mundo as suas “alegorias humanas”, que logo se tornaram um dos temas de debate dos apaixonados pela festa na época. A Unidos da Tijuca passou a sempre constar entre as favoritas dos desfiles e o título veio finalmente em 2010, repetindo-se em 2012 e 2014. Em 2016 a escola ainda foi novamente vice-campeã. 

Nesses últimos anos, a agremiação vem passando por um processo de reorganização, fruto também do acidente com um carro alegórico no caótico carnaval de 2017. Em 2020, com “Onde Moram Os Sonhos”, teve um dos melhores sambas-enredo do ano, embora não tenha feito uma grande apresentação. Para o próximo carnaval, a Unidos da Tijuca apostou no carnavalesco Jack Vasconcelos e apresentará um enredo sobre o guaraná.


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por Bernardo Pilotto

Nesse dia 12 novembro de 2020, a Unidos de Padre Miguel comemora mais um aniversário. Fundada em 1957 a partir do bloco de carnaval do mesmo nome, a escola da Zona Oeste, nos últimos anos, ficou no “quase” para chegar ao Grupo Especial por diversas vezes. 

Nos anos 1950, dois blocos dividiam as atenções do carnaval na Zona Oeste: o “Mocidade do Independente” e o “Unidos de Padre Miguel”. O último, por suas cores, era também conhecido como “Boi Vermelho”. Em 1955, o “Mocidade” se transformou em escola de samba, movimento seguido pelo “Unidos” apenas dois anos depois, com poucos dias de diferença da fundação das duas escolas. 

O primeiro desfile da UPM foi no carnaval de 1959, quando já se consagrou campeã do Grupo 2. Apresentando-se entre as principais escolas em 1960 e 1961, a escola não conseguiu se firmar e acabou sendo rebaixada, voltando ao grupo de elite do carnaval apenas em mais 3 ocasiões: 1964, 1971 e 1972. 

Com o crescimento da Mocidade Independente nos anos 1970, a UPM ficou em segundo plano nas atenções dos foliões do bairro, entrando num período em que na maioria das vezes não emplacou grandes desfiles. Por conta disso, a agremiação chegou a desfilar na terceira divisão no final dos anos 1980. Em 1990, teve seu pior momento, quando não se apresentou. 

Por conta da sua ausência, a escola teve que retornar ao “Grupo de Avaliação”, a quinta divisão dos desfiles no Rio de Janeiro. Tentando retomar seus bons desfiles dos primeiros anos de existência, a Unidos foi se reestruturando e pouco a pouco subindo de divisão, até que em 2010 chegou ao Grupo A. 

O rebaixamento em 2010 não teve o mesmo efeito que os reveses de outros momentos tiveram e a escola voltou à Séria A já em 2013, com a criação da Lierj e a fundição de dois grupos. A partir de 2014, começou a figurar entre as grandes do grupo. 

Com ótimos enredos, boa estrutura financeira e sambas que caíram no gosto popular, a UPM foi vice-campeã do principal grupo de Acesso em 4 ocasiões. E mesmo quando não ficou com o vice a escola quase “chegou lá”: em 2017, por exemplo, sua porta-bandeira Jéssica torceu o joelho durante o desfile. A apresentação, até então arrebatadora, acabou perda notas no segmento do casal e em evolução, que a deixou em 4º lugar, impossibilitando o campeonato. 

Para o próximo carnaval, a UPM vai trazer o enredo "Iroko - É tempo de Xirê" e pretende deixar a sina de “bater na trave” definitivamente de lado. Edson Pereira retorna à agremiação ao lado de sua equipe criativa que assinará o desfile junto com o carnavalesco.  


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por Bernardo Pilotto

Em 10 de novembro de 1969, foi fundada a Acadêmicos do Sossego, escola do Largo da Batalha, em Niterói, que completa hoje seu 51º ano de existência. Muita gente passou a conhecer ela nos últimos a partir de sua chegada à Sapucaí em 2017. Mas, muito antes disso, a escola já se destacava no carnaval niteroiense. 

Como tantas outras agremiações, a Sossego nasceu como um bloco e fazia seus desfiles nos concursos da sua cidade de origem. Foi assim até o início dos anos 1980 quando, já se reconhecendo como escola de samba, ela passou a frequentar grupo de elite do carnaval de Niterói. 

Em 1985, a escola começou a se destacar ao ficar na frente das duas grandes escolas do carnaval niteroiense (Acadêmicos do Cubando e Unidos do Viradouro) e conquistar o 2º lugar, após uma polêmica apuração. Nos anos seguintes, aproveitando-se do espaço aberto a partir da ida das duas maiores agremiações para o carnaval carioca, a Sossego se sagrou tricampeã. Em 1990, a escola sagrou-se novamente campeã. 

Após uma sequência de vice-campeonatos, a escola decidiu se aventurar do outro lado da baía, estreando no carnaval carioca em 1996. Em poucos anos, a escola chegou ao Grupo B, que nessa época se apresentava na Sapucaí. Foi assim, portanto, que a escola teve, em 2002 e 2003, sua primeira passagem pelo principal palco do carnaval. 

Depois de ser rebaixada e também após mudanças na organização dos grupos de acesso na cidade, a Sossego voltou a ficar “na beirada” da Sapucaí em 2013, quando chegou novamente ao Grupo B. Em 2016, com um enredo dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad (atualmente na Grande Rio) sobre o poeta Manoel de Barros e que contou com um destacado samba-enredo, sem rimas (tal qual as poesias do homenageado), a escola foi a grande campeã do Grupo B e conquistou o direito a voltar para a Sapucaí. 

De lá pra cá, a escola vem se firmando no Grupo de Acesso, trazendo enredos culturais e algumas inovações em seus sambas-enredo. Depois do samba-enredo sem rima, a escola apostou num samba com diálogos de teatro para homenagear Zezé Motta em 2017 e em um samba sem verbos em 2018 para o enredo “Ritualis). Para o próximo carnaval, a escola aposta no enredo “Visões Xamânicas”, com uma promissora participação na Série A. 



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Por Bernardo Pilotto


Foi num dia ‪10 de novembro‬ que a turma que batia bola no Independente Futebol Clube resolveu formalizar a fundação da G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel. Eles já se reuniam há alguns anos e das rodas de samba após os jogos de futebol já havia nascido o bloco “Mocidade do Independente”, em 1953. Dois anos depois, fruto do crescimento do bloco e da rivalidade com outras agremiações da região, os boleiros batuqueiros resolveram fundar a escola. ‬

Nesses 65 anos de história, a Mocidade Independente se tornou umas das grandes e das mais conhecidas escolas do carnaval carioca, sendo campeã em 6 ocasiões. 

Localizado na Zona Oeste da cidade, Padre Miguel sempre foi um bairro de trabalhadores, especialmente aqueles que estavam empregados na Fábrica de Tecidos Bangu. Foi nesse contexto que se formou o Bangu Atlético Clube em 1904 e a G.R.E.S. Unidos de Bangu em 1937, instituições que em muito serviram para o espírito de comunidade e pertencimento dos moradores do bairro. Na região ainda se destacam a G.R.E.S. Unidos de Padre Miguel (fundada em 1957) e a G.R.E.S. Acadêmicos de Santa Cruz (fundada em 1959). 

A Mocidade Independente começou a ganhar destaque nos anos 1970, quando se consolidou na elite do carnaval carioca e passou a contar com o patrocínio de Castor de Andrade, um de seus maiores torcedores. Em 1979 ganhou seu primeiro campeonato, com o enredo "O Descobrimento do Brasil". 

Até então, a escola era mais conhecida pela sua bateria, comandada por Mestre André. Ela foi vanguarda na elaboração de conceitos que hoje são base da maior parte das baterias, como a paradinha (que, em uma de suas versões, pode ter sido criada acidentalmente por Mestre André) e o surdo de terceira, inventado por Tião Miquimba, um ritmista da agremiação. 

Depois de ser vanguarda com a sua bateria, a verde-e-branco da Zona Oeste também ganhou destaque, de 1973 até 1987, com os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto, que inovaram cada um com sua vertente criativo, o primeiro mais ligado ao barroco e a história, já o segundo com narrativas tropicalistas e inovadoras. 

Sua ala de compositores também é responsável por grandes sambas-enredo, como "A Festa do Divino" (1974), "Mãe Menininha do Gantois" (1976), "Como era Verde meu Xingu" (1983), "Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas" (1985), "Tupinicópolis" (1987), "Sonhar não custa nada, ou quase nada" (1992) e, mais recentemente, "As mil e uma noites de uma 'Mocidade' pra lá de Marrakesh" (2017) e "Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você" (2018).

Em 2020, a escola homenageou Elza Soares, uma das mais importantes torcedoras da escola, quem defendeu seus sambas na avenida em alguns carnavais nos anos 1970. Com um desfile bastante marcante, a escola conquistou o 3º lugar. No próximo carnaval, trará o Batuque ao Caçador”, voltando a fazer um enredo da dita temática afro após mais de 40 anos. 




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Texto: Bernardo Pilotto

Hoje é aniversário de 59 anos da G.R.E.S. São Clemente. Fundada em 1961, ela é uma escola tradicional da Zona Sul, especialmente do bairro de Botafogo e do Morro Santa Marta. A escola se aproxima dos seus 60 anos no melhor período de sua trajetória: desde 2011, vem desfilando no Grupo Especial, na mais longa presença da agremiação em sequência na elite do carnaval carioca. 

A São Clemente foi fundada a partir de um time de futebol, que primeiro originou um bloco de carnaval e depois transformou-se em escola de samba. A ligação com o futebol não ficou só por aí: suas cores (amarelo e preto) foram escolhidas em homenagem ao Peñarol, um dos mais tradicionais times de futebol da América do Sul. 

Na época de sua fundação, Botafogo era um bairro bastante boêmio, com vários blocos de carnaval, rodas de samba e outras manifestações culturais. É o bairro em que moraram grandes sambistas, como Paulinho da Viola, Walter Alfaiate, Mauro Duarte, Niltinho Tristeza, Zorba Devagar, Mical e Jovelina Pérola Negra. 

Nos anos 1980, a escola ganhou destaque com seus enredos críticos e politizados, chegando a ficar conhecida como a "PT do samba". Naquele momento, isso era o equivalente a dizer que a escola priorizava uma crítica a situação social do país, mesmo que isso lhe custasse a chance de título, patrocínios (que começavam a surgir com força) e até a própria permanência no Grupo Especial.

E os enredos da São Clemente naquele período eram quase que como setoriais de um partido de esquerda. Em 1985, o samba foi “Quem casa quer casa“, sobre as demandas por moradia, e a escola acabou sendo rebaixada; em 1986, o tema foi saúde (“Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são“) e a escola conseguiu novamente subir para o Grupo Especial; em 1987, o tema foram os meninos de rua, no emocionante “Capitães de Asfalto“, e a escola ficou em 10º lugar, permanecendo na elite do samba; em 1988 o tema foram as lutas sociais de modo geral em “Quem Aviso Amigo É” e a escola novamente ficou em 10º lugar; em 1989 a crítica veio firme contra os espoliadores do país, nacionais ou estrangeiros, em “Made in Brazil, yes nós temos banana” e a escola se segurou no Grupo Especial com a 13ª colocação; já em 1990, a escola conquistou sua melhor colocação da história, arrancando um 6º lugar com “E o Samba Sambou…“, em uma análise de desaprovação ao processo de mercantilização do carnaval.  

Esses sambas impressionam pela potência e pela vanguarda de suas críticas. A escola, por exemplo, falou de temas que ainda nem eram considerados direitos sociais e amplamente discutidos, com alguns que desfiles foram feitos antes mesmo da Constituição de 1988. Em 1986, a agremiação falou que a Nova República daria um “fim no Delfim”, que havia sido o ministro da economia mais identificado com os militares. O samba de 1987 é incrivelmente antenado com a luta contra a redução da maioridade penal (antes mesmo do surgimento do ECA) e em 1990 a escola parece adota um tom profético ao futuro de ainda mais mercantilização dos desfiles.  

Após esse período de críticas, a escola seguiu o tom geral do carnaval, com desfiles mais "técnicos". Coincidentemente ou não com a trajetória do PT, que novamente encontra-se na oposição, na atual conjuntura a escola vem tentando retomar seus desfiles irreverentes e assertivos.  

Desde 2011 no Especial, a preto e amarela já teve como seu carnavalescos Fábio Ricardo e Rosa Magalhães. A surpreendente parceria com a professora gerou três bons desfiles da trajetória da agremiação, dentre eles a inesquecível homenagem a Fernando Pamplona, em 2015. Em 2019, com a reedição do enredo de 1990, agradou bastante o público presente na Sapucaí. Numa segunda-feira em que todos esperavam ansiosamente pelo desfile da Mangueira, a São Clemente conseguiu arrancar atenção e simpatia da plateia. Em 2020, ainda com Jorge Silveira, isso se repetiu com o enredo “O Conto do Vigário”. 

Para o próximo carnaval, após a troca de seu carnavalesco, a escola anunciou o enredo “Ubuntu”.  


 

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por Bernardo Pilotto


Em Duque de Caxias, uma das maiores cidades da Baixada Fluminense, há uma tradição carnavalesca que remonta para o período de fundação do município, nos anos 1940. Nessa época, a escola Cartolinhas de Caxias despontou, chegando a desfilar por três vezes entre as grandes do Rio de Janeiro. Além da Cartolinhas (que deixou o samba “Benfeitores do Universo”, de 1953, como sua marca), havia a União do Centenário, a Capricho do Centenário e a Unidos da Vila São Luís. 

Nos anos 1970, aconteceu uma primeira tentativa de unificação, com a fundação da Grande Rio (sem o “Acadêmicos”). Posteriormente, em 22 de setembro 1988, a Grande Rio se junta com a Acadêmicos Duque de Caxias e surge então a Acadêmicos do Grande Rio, uma das maiores escolas de samba da atualidade. 

Ao longo desses anos, a Grande Rio disputou título, fez enredos históricos, outros nem tanto, ganhou famas boas e ruins e quase sempre esteve desfilando entre as grandes do carnaval, estando 14 vezes entre as 6 primeiras colocadas. 

No início da sua trajetória, a escola caxiense apostou em temáticas identificadas com a negritude. Com bons desfiles, rapidamente chegou ao Grupo Especial, já em 1991. A escola ficou em último lugar, mas se reabilitou com um grandioso desfile e samba ("Águas claras para um rei negro") em 1992, quando foi campeã do Grupo de Acesso, chegando novamente à elite do carnaval em 1993, de onde nunca mais saiu. 

Depois dessa primeira fase muito identificada com a negritude, a escola foi migrando para enredos de caráter histórico. Em 1996, com "Na era dos Felipes o Brasil era espanhol", o samba trouxe o famoso refrão que afirmava “dar um banho de cultura”. E assim seguiu a Grande Rio até o final dos anos 1990, tendo sua melhor colocação em 1999 (6º lugar). 

Foto do desfile de 1996 que trouxe o famoso refrão que marcou a escola. Foto: Wigder Frota. 

Com a virada para o novo século, a escola embarcou na onda de enredos patrocinados e muitas vezes de valor cultural questionável. Também foi a partir dessa época que a escola passou a receber a presença de muitos artistas de televisão. Se olharmos os desfiles, veremos que a Grande Rio acabou ganhando a fama por um fenômeno que se alastrava por quase todas as agremiações. 

Mesmo enfraquecida em quesitos como enredo e harmonia, a agremiação chegou a boas colocações, tendo sido vice-campeã em 2006, 2007 e 2010. Tudo parecia caminhar bem e o título era uma questão de tempo. 

Só que as mudanças que o desfile das escolas de samba passou a viver, a partir especialmente de 2016, fez com que a forma de construir carnaval da Grande Rio ficasse defasada. O alerta definitivo para isso se deu em 2018, quando a escola só não caiu porque uma virada de mesa acabou fazendo com que nenhuma agremiação fosse rebaixada naquele ano, após um problema no carro alegórico.

Foi assim que a Grande Rio resolveu se reconectar com os valores que marcaram o começo de sua trajetória. O primeiro passo disso foi a valorização de nomes da própria escola para o comando de quesitos importantes, como a bateria, com Fafá. Para 2020, contratou os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, ganhadores do Estandarte de Ouro de melhor escola do Grupo de Acesso em 2018 e 2019 pela Acadêmicos do Cubango. Com enredo "Tata Londirá: O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias", acabou ganhando o vice-campeonato, além de vários prêmios. Aparentemente, o desfile caracterizou uma virada para a história dessa agremiação.

Todo esse processo de mudança e de reconexão com muitas das características que marcaram a escola nos anos 1990 acabou por trazer um novo olhar para a Grande Rio, além de voltar a empolgar muito dos seus componentes. Para o próximo carnaval, ela manteve a dupla de carnavalescos e segue apostando na receita que deu certo em 2020 ao escolher o enredo "Fala, Majeté! Sete chaves de Exu". 

O universo do carnaval só tem a agradecer a essa escolha que a Grande Rio fez. 






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Foto: Riotur/Tata Barreto | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Por Bernardo Pilotto

Hoje é um dia festa no Largo do Tanque, em Jacarepaguá: há 28 anos atrás, em 02 de agosto de 1992, foi fundada a Renascer de Jacarepaguá. Ainda que tenha tido um resultado ruim em 2020, a escola se destacou nos últimos anos pela qualidade dos seus sambas-enredo e foi um dos pilares da renovação desse gênero nessa última década. 

Desde a sua fundação, a agremiação bebeu na fonte do bloco Bafo do Bode, que animou os foliões cariocas de 1959 até constituição da Renascer. O Bafo do Bode realizava desfiles em Jacarepaguá e também no centro do Rio de Janeiro, participando dos concursos de blocos de enredo. 

Diferentemente de outras escolas de samba que desfilaram no Grupo de Acesso nos últimos anos e tiveram uma rápida ascensão, a Renascer demorou um tempo maior para subir degraus até chegar na Sapucaí. Entre 1993 e o ano 2000, alternou desfiles pela quarta e quinta divisão. Foi somente na virada do século que a escola conseguiu começar sua ascensão. Foi assim, então, que ela desfilou pela primeira vez no Grupo A (a segunda divisão da época) em 2005.

Thainá Teixeira defendendo o primeiro pavilhão da Renascer em 2019. Foto: Riotur/Raphael David


Após se consolidar nesse nível, a escola chegou ao ponto alto do carnaval em 2012, após vencer o segundo grupo em 2011. Porém, com um desfile sobre Romero Britto, não teve uma boa apresentação e acabou sendo rebaixada. De volta ao Grupo A e após um desfile sem grandes aspirações em 2013, a Renascer resolveu inovar para o ano seguinte: com dificuldades em fazer disputas de samba por conta da falta de acesso à sua quadra devido às obras da Transcarioca, a agremiação optou por encomendar seus sambas-enredo, o que alterou bastante seus rumos nos anos seguintes.

A partir de 2014, contando com sambas-enredo de Claudio Russo, que já era um compositor reconhecido de sambas-enredo, e Moacyr Luz, até então um compositor de muitos sambas de meio de ano, ainda não aventureiro de Sapucaí, a escola passou a se destacar por belos hinos, alguns deles vencedores de prêmios (como o Estandarte de Ouro em 2015). Por vezes, essa parceria ainda agregou outros grandes nomes, como Teresa Cristina (em 2015 e em 2016) e Diego Nicolau (de 2017 a 2020). 

Renascer de Jacarepaguá lança samba para o Carnaval 2019 - 09/09 ...
Diego Nicolau (em pé), Moacyr Luz (esq.) e Cláudio Russo (dir) em anúncio do samba de 2020. Foto: Léo Cordeiro/UOL

Mesmo com desfiles que muitas vezes pecaram pela parte visual, a Renascer conseguiu se firmar a partir dessas boas obras culturas e com enredos culturais. A escola foi, ainda que não exatamente se planejando para tal, vanguarda do novo e controverso momento do desfile de escolas de samba que vivemos hoje. 

Nesses anos, vale destacar os enredos sobre Candeia (2015), os Ibejis (2016) e “O Papel e o Mar” (2017), que trouxe um encontro entre Carolina de Jesus e João Cândido. 

Com outras escolas adotando também enredos críticos e culturais (que acabaram tendo como consequência melhores sambas), a Renascer deixou de ser pura exceção. Este pode ter sido um dos motivos de seu rebaixamento em 2020. Agora, para o próximo carnaval, o desafio dela é manter seus bons enredos e sambas, para que suas chances de voltar para a Série A aumentem.
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Por Bernado Pilotto

Fundada em 11 de julho de 1993, a Inocentes de Belford Roxo completa hoje 27 anos. A escola é uma das representantes da Baixada Fluminense na Sapucaí e marcou o desfile de 2020 com uma homenagem à jogadora Marta, com um samba que grudou nos ouvidos. Mas, entre a fundação da agremiação e o desfile desse ano, muita fantasia foi costurada e muito enredo foi pensado pelos lados de Belford Roxo. 

A história da escola acaba se confundindo com a do próprio município, criado a partir de um desmembramento de Nova Iguaçu (também localizado na Baixada) em 1990, e efetivamente instalado assim que começou o ano de 1993. Desta forma, em julho daquele ano, os moradores do bairro Parque São Vicente avaliaram que era preciso criar uma escola de samba para representar o novo município – e assim nasceu a Inocentes. 

Antes da fundação da escola, junto ao processo de organização do novo município, já havia acontecido a tentativa de organização de um outro grêmio recreativo na cidade, a Unidos da Matriz. A agremiação chegou a desfilar por duas vezes no Grupo C, que na época se apresentava na Av. Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, mas logo acabou sendo substituída pela Inocentes. Assim como a Matriz, a Inocentes começou já desfilando no carnaval carioca, sendo diferente, portanto, de outras escolas da Baixada e da região metropolitana, que primeiro participaram de carnavais em sua cidade de origem. 

Em seu primeiro ano, a nova escola resolveu homenagear a cantora Carmen Miranda e foi assim que ela entrou na avenida para o desfile de avaliação (Grupo E) no carnaval de 1994. Começando sua trajetória nos grupos inferiores, com altos e baixos, a escola estreou na Sapucaí em 1999, pelo Grupo B, quando conquistou um vice-campeonato e teve direito a estar no Grupo A no ano seguinte. Novamente com altos e baixos, a escola se consolidou no a partir de 2009 no Grupo A, no qual foi campeã em 2012, ganhando o direito a se apresentar no Grupo Especial em 2013. 

Estreando no Grupo Especial, a Inocentes não conseguiu se firmar e ficou em último lugar, sendo rebaixada para a Série A, por onde continua até hoje. Nesses últimos anos, seu melhor resultado foi o 4º lugar, em 2018 e 2020, em dois momentos que o quesito samba-enredo da escola chamou atenção positivamente. 

Sediada em um dos municípios com menores IDH da Baixada Fluminense, a escola tem cumprido um papel importante enquanto associação comunitária durante a crise sanitária e econômica causada pela pandemia de COVID-19. Quando alguns moradores da cidade lutaram pela sua fundação, há 27 anos atrás, certamente eles também tinham essa dimensão social como um fator para que uma escola de samba fosse criada naquela região!

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Por Bernardo Pilotto:

Naquele ano de 1946, o sambista Nelson Jangada andava insatisfeito com o Bloco União do Viradouro, do qual era um entusiasta. Nelson era um importante baluarte do samba na cidade de Niterói e uma referência para o Morro da União, no bairro Santa Rosa. Foi então que, em um 24 de junho, dia de S. João Batista, padroeiro da cidade, ele teve a iniciativa de fundar a Unidos do Viradouro, em conjunto com outros sambistas, como Nelson Braga, Lindolfo dos Santos e Dona Nazaré.

Na cidade, já existiam diversas manifestações carnavalescas, como blocos, banhos de mar à fantasia, batalhas de confete e até escolas de samba (a Combinado do Amor, por exemplo, foi fundada em 1936 e a Sabiá, em 1938), mesmo ainda não existindo uma competição entre elas. No carnaval de 1946, aconteceu o primeiro desfile com competição entre as escolas e isso certamente influenciou para que Jangada e sua turma resolvessem fundar a Viradouro.

Nesse momento, Niterói era a capital do estado do Rio de Janeiro, já que a cidade do Rio de Janeiro ficava no Distrito Federal, por ser a capital do Brasil. Mesmo após a mudança da capital para Brasília, essa situação se manteve até 1975, quando o estado do Rio de Janeiro se fundiu com o estado da Guanabara (que substituiu o Distrito Federal) e então Niterói deixou de ser a capital.

Sendo capital, Niterói ganhava bastante atenção e investimento. O desfile das escolas de samba da cidade era considerado o segundo maior do país e havia uma grande rivalidade entre a Viradouro (18 vezes campeã) e a Acadêmicos do Cubango (11 vezes campeã). Com a fusão dos estados, Niterói teve uma diminuição dos investimentos que recebia e isso se refletiu no carnaval.

Diante desse cenário, a Viradouro resolveu se arriscar no carnaval do Rio de Janeiro. Em 1986, começou na última divisão e foi subindo, chegando ao Grupo Especial em 1991. E nas suas primeiras participações ela logo conquistou corações, chegando ao 7º lugar nesse primeiro ano e fazendo um grande desfile em 1992, atrapalhado por um carro alegórico que pegou fogo perto do Setor 11.

Seguindo sua trajetória ousada, contratou Joãosinho Trinta para o desfile de 1994. E logo na sequência, três anos depois, chegou ao seu auge: conquistou seu primeiro título do mais importante desfile de escolas de samba.

O primeiro campeonato teve muitas questões marcantes, como a paradinha funk na bateria do Mestre Jorjão, um carro abre-alas todo escuro (simbolizando o big bang que criou o universo) e a voz marcante de Dominguinhos do Estácio. Depois de ter sido a grande agremiação do carnaval de Niterói, a Unidos do Viradouro agora conquistava o título também entre as grandes escolas.

A agremiação seguiu disputando o topo das posições nos anos seguintes, estando 9 vezes no Desfile da Campeãs em 10 carnavais. Nesse momento, a escola começou a passar por uma crise política que acabou gerando desfiles bem abaixo do que a agremiação vinha produzindo e que culminaram com o seu rebaixamento em 2010.

“Orgulho de ser NiteróI
Reluz no Rio
O meu tesouro
De braços abertos
Olhai por nós
Canta, Viradouro!”

("Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar" - Dudu Nobre / Diego Tavares / Zé Glória / Paulo Oliveira / Dílson Marimb /, Junior Fragga / D. Oliveira / Arlindo Neto / LC / William Neves)

O carnaval de 2014 marcou uma nova fase na história da escola. Com um enredo em que reafirmava o orgulho em representar a cidade de Niterói, a Viradouro foi vencedora da Série A e obteve o direito de voltar ao Grupo Especial no ano seguinte. Mesmo com um novo rebaixamento em 2015, com um desfile muito prejudicado pela chuva, marcou seu espaço.

Em 2016, novamente fez um grande desfile, ficando em 3º lugar na Série A, quase alcançando um novo acesso. Embalado por um grande samba-enredo, escolhido em vários lugares como o melhor de todo o carnaval daquele ano, a Viradouro trouxe uma mensagem firme, posicionando-se contra a intolerância religiosa. Em 2017, também forte na disputa, ficou com o vice do grupo.

Após finalmente conquistar o Acesso em 2018, logo em seu retorno ao Grupo Especial foi vice-campeã. Para o carnaval de 2020, voltou a apostar em um enredo autor de uma dupla nova de carnavalescos, Marcus Ferreira e Tarcisio Zanon. Com um samba que colou, a Viradouro trouxe para a avenida o vitorioso enredo “Viradouro de Alma Lavada”, sobre as ganhadeiras de Itapuã, na Bahia. A escola cativou o público a tal ponto que seu intérprete, Zé Paulo Sierra, deixava de cantar um trecho do refrão do samba e isso não prejudicava a harmonia, já que o sambódromo cantava em uníssono.

Além de um bom samba e um ótimo enredo, o aspecto administrativo também ajudou a escola, que se organizou financeiramente nos últimos anos, tanto pelo apoio de um patrono, quanto pelo apoio financeiro dado pela Prefeitura de Niterói (algo que as escolas da cidade do Rio de Janeiro deixaram de contar). Foram esses fatores somados que garantiram o segundo título da agremiação.

Para o próximo carnaval, a escola largou novamente na frente, com o anúncio do enredo "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria", que vai abordar o carnaval de 1919, o primeiro ocorrido após a pandemia de Gripe Espanhola, que em 1918 infectou cerca de metade da população carioca.

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Por Bernardo Pilotto

A Unidos do Jacarezinho, escola de samba fundada em 1966, faz aniversário hoje, 16 de junho. Fruto da fusão entre três organizações (as escolas Unidos do Jacaré e Unidos do Morro Azul e o bloco Não Tem Mosquito), ela já esteve por 4 ocasiões no desfile principal carioca. 

Em sua trajetória, a Unidos de Jacarezinho quase sempre trouxe para a avenida enredos com caráter histórico e/ou cultural. Por muitas vezes, por exemplo, homenageou o samba e o carnaval, com temáticas exaltando o rancho Ameno Resedá (em 1973), Paulo da Portela (em 1981), Geraldo Pereira (em 1982), Candeia (em 1986), Monarco (em 2005), Nelson Sargento (em 2012) e Jamelão (em 2013) e Cartola e Dona Zica (2018).


Escultura de Dona Zica desfila na Intendente Magalhães, em meio a flores, em desfile do carnavalesco Eduardo Gonçalves. Foto: Jorge Bezerra.

Em 2020 não foi diferente: a escola falou de Paulo da Portela e Paulinho da Viola com o enredo ““Do Professor ao Sucessor. Brilha o passado e o presente Azul e Branco”, baseado na música “De Paulo a Paulinho”, de Monarco e Chico Santana. 

O portelense Monarco, inclusive, tem uma ligação íntima com a escola. Foi por lá que ele se refugiou quando teve problemas com a direção da azul-e-branco de Madureira. Por duas ocasiões, Monarco compôs o samba-enredo para a escola do Jacarezinho: em 1969, com “História de Vila Rica do Pilar”, e em 1982, com “Geraldo Pereira, Glória Eterna do Samba”. A Unidos do Jacarezinho tem a honra de ter algo que a Portela não tem, já que Monarco nunca compôs um samba-enredo para sua escola de coração.

Desde que desfilou pela última vez na Sapucaí em 2013 (pelo Grupo A) e foi rebaixada, a escola alterna apresentações entre os vários grupos da Intendente Magalhães. Em 2015, o retorno à Sapucaí bateu na trave, com o vice-campeonato no Grupo B. No próximo carnaval, a escola deverá desfilar pelo Grupo Especial da Intendente, último degrau antes da volta para o Sambódromo. 


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Por Bernardo Pilotto:

Dos anos 1930 a meados dos anos 1960, duas escolas de samba rivalizavam para ser a maior da região da Leopoldina, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Além da grande rivalidade entre si, Aprendizes de Lucas e Unidos do Capela também disputavam de igual para igual com Portela e Mangueira, chegando a alguns vice-campeonatos (a Aprendizes foi vice-campeã em 1950, 1951 e 1960) e a dois títulos (a Unidos do Capela foi campeã em 1950 e 1960).

A ideia de unificá-las, seguindo o exemplo do que acontecera no Morro do Salgueiro, parecia certeza de sucesso. Mas não foi bem assim…

Fundada em 01º de maio de 1966, a Unidos de Lucas acabou nunca se firmando entre as grandes do carnaval, por vários motivos. A rivalidade pré-união acabava sendo motor para as duas escolas crescerem, assim como a violência urbana na localidade da agremiação era forte. A Unidos de Lucas, então, acabou sendo uma daquelas escolas que estão sempre lutando para não enrolar a bandeira, com alguns lampejos de bons momentos.

E alguns desses “bons momentos” foram, na verdade, gigantes. Em 1968, apenas no seu segundo desfile, a escola veio pra avenida com um dos grandes sambas-enredo da história: Sublime Pergaminho. Composto por Carlinhos Madrugada, Zeca Melodia e Nílton Russo para o enredo de Clovis Bornay, o samba tem passagens belíssimas, como a descrição do momento em que é assinada a Lei Áurea. Marcando os 80 anos da abolição formal da escravidão, esse desfile possui uma temática que pode servir de inspiração outros momentos da folia, como na apresentação da Mangueira em 1988 e do Paraíso do Tuiuti em 2018. 


 Depois de 1968, a Unidos de Lucas voltou a emplacar pelo menos mais 3 grande sambas: em 1976 (com “Mar Baiano em Noite de Gala”, que ganha destaque mesmo no ano de uma das melhores safras de sambas-enredo de todos os tempos), 1982 (com “Lua Viajante”, em homenagem a Luiz Gonzaga) e 1983 (com “Senta Que o Leão É Manso”, que acaba fazendo parte dos enredos críticos da década). Os dois últimos foram ganhadores do prêmio Estandarte de Ouro de melhor samba no Grupo 1B - a segunda divisão da época. Ainda nos anos 1980, a escola bateu na trave na busca de conquistar a vaga para o desfile principal.

Posteriormente, seguiu alternando desfiles nos grupos de acesso, chegando a desfilar na sexta (e última) divisão em 2011. De lá pra cá, a escola voltou a subir na escala de grupos, chegando a desfilar na Série B em 2019, então terceira divisão. Atualmente, integra a LIVRES, liga que reúne escolas insatisfeitas com a organização dos desfiles da Intendente Magalhães.
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Foto: Ritout/Gabriel Nascimento | Arte: Vítor Melo.
Por Bernardo Pilotto:

Em meados de 2015, o cenário em uma das mais conhecidas escolas de samba do Rio de Janeiro era desanimador. Vinda de alguns desfiles ruins, ficando fora do Sábado das Campeãs seguidamente, cheia de dívidas, a Mangueira estava desacreditada. Nos carnavais precedentes, em 2008, a verde e rosa tinha optado por uma tentativa de enredo patrocinado ao invés de homenagear o centenário de Cartola; em 2007, tirou Beth Carvalho, uma das suas principais componentes, do desfile e perdeu a mais marcante voz da Sapucaí, depois que Jamelão (intérprete entre 1949 e 2006) teve um AVC.

Alguns anos depois, o cenário é totalmente diferente. Campeã duas vezes nesse período (em 2016 e 2019), a Mangueira voltou a ser protagonista dos desfiles desde então. E não só pelos títulos: com o carnavalesco Leandro Vieira, a escola aliou uma excelente estética com ótimos sambas e um discurso político potente. Juntou tradição e ousadia. Deu certo. Uma mudança que honra os mais de 90 anos de história da agremiação.


Duas das bandeiras que encerraram o desfile inesquecível da Mangueira em 2019. Na imagem, Marielle e Jamelão em verde e rosa. Foto: Erica Modesto.


"Habitada por gente simples e tão pobre

Que só tem o sol que a todos cobre
 

Como podes, mangueira, cantar?”

(“Sala de Recepção” - Cartola)


Fundada em 28 de abril de 1928, a G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira ganhou esse nome por estar localizada junto à estação que se seguia à Central do Brasil, de onde partiam os trens para o subúrbio carioca. Localizado, portanto, próximo ao centro da cidade, o Morro da Mangueira era local de moradia de muitos trabalhadores ex-escravos, que mantinham por ali manifestações culturais típicas das culturas da diáspora africana.


O surgimento da Estação Primeira é fruto da junção de vários blocos e manifestações carnavalescas que já existiam no Morro, sendo o Bloco dos Arengueiros o principal. Desse bloco participavam alguns dos fundadores da escola, como Carlos Cachaça, Saturnino Gonçalves e Maçu da Mangueira.


A escola participa das competições do carnaval desde os primórdios, no começo da década de 1930, tendo sido a primeira campeã, feito que se repetiu em mais 19 ocasiões. A Mangueira foi fundamental para a fundação e consolidação de várias agremiações, como o Acadêmicos do Salgueiro, que já homenageou a madrinha em um desfile só pra ela.


Ao longo de sua história, a verde e rosa se tornou uma instituição cultural das mais importantes do país, tanto pelos nomes que de lá surgiram para o cenário nacional, como Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira, Dona Neuma, Dona Zica, Padeirinho, Hélio Turco, Delegado, Tantinho, Nelson Sargento, Xangô da Mangueira, quanto pelos mangueirenses ilustres, como Chico Buarque, Milton Gonçalves, Moacyr Luz, Alcione e Beth Carvalho.

Em muitas carnavais, a Mangueira acabou homenageando grandes nomes da cultura brasileira, como Braguinha (1984), Chiquinha Gonzaga (1985), Dorival Caymmi (1986), Carlos Drummond de Andrade (1987), Tom Jobim (1992), Os Doces Bárbaros (1994), Chico Buarque (1998), Nelson Cavaquinho (2011) e Maria Bethânia (2016).


Essas homenagens acabaram gerando importantes frutos, com a gravação dos álbuns “No Tom da Mangueira” (de 1993), “Chico Buarque de Mangueira” (de 1997) e “Mangueira - A Menina dos Meus Olhos” (de 2019). Em 1978 a comissão de frente da escola tinha, entre outros, Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Juvenal. Já em 87, à frente da escola desfilaram Chico Buarque, João Nogueira, Aldir Blanc, Hermínio Bello de Carvalho... A Mangueira foi se firmando ao longo do tempo como um polo de encontro.


Cartola, dos maiores compositores brasileiros, à frente da Mangueira no desfile de 1978. Foto: Ricardo Beliel.

“Quando ouvir essa batida

Foi Mangueira quem chegou
 

A escola que dá diploma ao sambista
 

A escola que envaidece o artista
 

As cabrochas mangueirando nas cadeiras
 

Abre ala Iaiá, quem chegou foi Mangueira”
 

(“Mangueira Chegou” - Zé Ramos)
 


Mas não são apenas seus membros, os desfiles ou suas cores que fazem a Mangueira uma escola única. Criada por Lúcio Pato, China e Baiano, a batida de surdo da verde e rosa tem características muito particulares, o que é lembrado em vários dos seus sambas. Diferentemente das demais escolas, que possuem um surdo de resposta, a Mangueira conta apenas com o “surdo um” para a marcação. E, fazendo uma função similar ao surdo de terceira das outras baterias, a verde e rosa conta com o “surdo mor”, que tem um tamanho menor e uma batida mais seca.


Essa diferença tem impactos importantes para a escola, em questões de harmonia e também em relação ao seus sambas-enredo, que precisam ter uma melodia que encaixe com essa forma de tocar os surdos.


A bateria pode ser vista como um dos símbolos do peso da tradição na escola. Ela foi, por exemplo, uma das últimas a aceitar mulheres entre seus membros e é conhecida por não fazer muitas inovações nos desfiles.


Mas essa pegada tradicional não impediu a Mangueira de trazer inovações em vários momentos. Foi assim com os enredos biográficos, com o primeiro samba-enredo gravado (em 1967) e, mais recentemente, com os enredos críticos e bem brasileiros. Foi assim que a escola conquistou 8 títulos desde a criação do Sambódromo (em 1984), sendo uma das maiores vencedoras desse período. Para o carnaval de 2020, a agremiação também trouxe inovações na forma de escolha do samba-enredo, com um mecanismo mais democrático.


Dessa forma, a escola tem conseguido equilibrar bem a sensível balança entre a necessidade de ser sofisticada e a demanda por se manter firme em suas raízes. Jovem e experiente, a Mangueira é peça fundamental para o complexo cultural do carnaval brasileiro.
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Por Bernardo Pilotto:


“No livro da nossa história tem conquistas a valer

Juro que nem posso me lembrar

Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”

(“Passado de Glória” - Monarco)


Hoje é um dia especial para todas e todos que gostam de carnaval e de todo o complexo cultural que o envolve: foi nesta data que, em 1923, a Portela foi fundada. Maior campeã do carnaval, com 22 títulos, a Majestade do Samba chega aos 97 anos, continuando a ser uma escola de vanguarda. E essa é uma característica marcante da escola desde a sua fundação.


Originada como um bloco carnavalesco, o Conjunto Osvaldo Cruz, a agremiação ainda mudou de nome por duas vezes antes de ganhar o título de Portela, uma referência à estrada onde estava localizada. Depois de um curto período se chamando Quem Nos Faz É o Capricho, os sambistas adotaram Vai Como Pode como denominação. Mas, ao buscar seu registro oficial, tiveram que abandonar a expressão, visto que o delegado Dulcídio Gonçalves, responsável pela Delegacia de Costumes, considerou o nome inadequado. Ao perguntar de onde eram os sambistas, o delegado sugeriu então que a escola se chamasse Portela.


Sob a liderança de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela, a agremiação teve papel de destaque na consolidação das escolas de samba e dos desfiles ainda nos anos 1930. Com grande poder de articulação, Paulo se tornou uma figura fundamental na negociação com os poderes instituídos, no diálogo com a imprensa e demais esferas com as quais as escolas precisavam conversar.


Paulo da Portela, um dos nomes mais importantes da história do samba e do carnaval. Foto: reprodução Acervo Portelense


Muito do carnaval que conhecemos hoje podemos colocar na conta dos portelenses. Foi, por exemplo, lá que surgiu o primeiro carro alegórico, em 1935, e também aquele que é reconhecido como o primeiro samba-enredo (Teste Ao Samba), em 1939. Até então, as escolas escolhiam um tema para o desfile e cantavam sambas que não necessariamente correspondiam ao tema. Parte deles era, inclusive, feita de versos de improviso. Mas, em 1939, os portelenses resolveram trajar os desfilantes com referências à educação e com isso tivemos de forma inédita um desfile com samba-enredo, fantasias e demais alegorias abordando o mesmo tema.


Com essa junção entre pioneirismo, grande capacidade de articulação e ainda um grupo de notáveis compositores, não é de se estranhar que a azul e branco tenha logo conquistado muitos títulos. No intervalo entre 1935 e 1960, a escola ganhou o carnaval por 15 vezes, incluindo aí um heptacampeonato nos anos 1940.


Nos anos e décadas seguintes, a Portela viu sua concorrência aumentar, com a entrada em cena na disputa por títulos do Salgueiro e posteriormente de Beija-Flor, Imperatriz e Mocidade Independente. Se nesses primeiros 25 anos a escola conseguiu 15 títulos, posteriormente foram “apenas” 7 títulos, com direito a grandes períodos de jejum.


A discussão sobre os rumos que a escola deveria seguir, muitas vezes feito num ambiente não exatamente democrático, foi responsável por algumas crises, como a que culminou na saída do grupo de Candeia em 1975 e outra que gerou a criação da Tradição em 1984.


Mesmo com momentos longe de seus melhores dias, a escola se manteve de pé. Além de seus sambas, criou identidade e referência pela presença da águia nos seus desfiles (desde 1968, a alegoria está presente), por grandes baluartes do carnaval (como Dona Dodô, Manuel Bam Bam Bam e Lucinha Nobre) e por sua velha guarda musical, tão caracterizada pela presença das pastoras (como Tia Surica e Tia Eunice). E, atualmente, podemos dizer que a Portela é vanguarda no processo de resgate do papel das escolas de samba como agremiações comunitárias.

A águia da Portela chegando à Apoteose no campeonato de 2017, após um longo jejum vivido pela agremiação. Foto: Gabriel Monteiro / Riotur


Hoje a Portela é uma escola que desfile porque existe e não o contrário. Em sua quadra acontecem eventos o ano todo, como a Feijoada da Família Portelense e o concurso de samba de terreiro, assim como cursinho pré-vestibular comunitário, aulas de idiomas, feiras literárias etc.


A escola também vem tendo papel fundamental na retomada do gênero samba-enredo. Em 2012, o enredo “...E o povo na rua cantando... É feito uma reza, um ritual…” foi acompanhado de um samba símbolo dessa retomada, pois trazia uma melodia mais cadenciada. E é muito simbólico que isso aconteça na agremiação que mais deixou sambas e sambistas como herança.


Sim, antes que esqueçamos, é importante lembrar que nem só dos 4 dias de carnaval e de seu desfile viveu a Portela ao longo desses 97 anos. É de lá que surgiram para o Brasil grandes nomes da nossa música. E, tantos outros, que de lá não surgiram, mas lá foram abrigados. Estamos falando de Heitor dos Prazeres, Alcides Malandro Histórico, Tia Surica, Antônio Caetano, Paulinho da Viola, Antônio Rufino, Monarco, João Nogueira, Teresa Cristina, Clara Nunes, Jair do Cavaquinho, Argemiro, Chico Santana, Zé Keti, Candeia, Waldir 59 e tantos outros. Como disse um deles, se hoje formos falar da Portela...
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Por Bernardo Pilotto:


Escola fundada em 05 de abril, o Paraíso do Tuiuti completa hoje 68 anos. Com origem no Morro do Tuiuti, no bairro São Cristóvão, a escola era, até 2018, desconhecida do grande público. O desfile do Tuiuti daquele ano fez com que a escola ficasse mundialmente conhecida. Até chegar ali, porém, ela já tinha muita história.


Existem registros de que o Morro do Tuiuti abrigava sambistas desde os anos 1930. No clássico livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sergio Cabral, há uma passagem que traz um recorte do jornal O Globo, de 1933, no qual um compositor do morro é entrevistado sobre a confecção de uma cuíca, instrumento até então desconhecido do grande público. Nessa época também foi criada no morro a Unidos do Tuiuti, que chegou a conquistar um terceiro lugar no desfile de 1939. Em 1940, a Paraíso das Baianas também surgiu no morro.


Retrato do momento de fé, prévio ao desfile, de dois componentesda  histórica comissão de frente do Tuiuti no desfile de 2018. Foto: Erica Modesto.


A decadência dessas duas escolas não acabou com o samba no morro. Ao contrário, fez com que os sambistas se reorganizassem, se unissem e criassem o Paraíso do Tuiuti. Ao ser fundada em 1952, portanto, a escola trouxe consigo alguns anos de desfiles e de organização comunitária.

O primeiro desfile da nova escola foi em 1955, com o enredo "Apoteose a Edgar Roquete Pinto". Com a divisão das escolas em mais de um grupo, a agremiação amarela e azul ficou nas divisões inferiores e assim foi indo durante os anos, alternando desfiles pelo segundo, terceiro e até quarto grupo.

A proximidade do Morro do Tuiuti com o Morro da Mangueira trouxe sempre um grande intercâmbio entre o Paraíso do Tuiuti e a Estação Primeira. Foi assim, por exemplo, com o carnavalesco Júlio de Mattos, que começou na escola do Morro do Tuiuti e depois esteve à frente de vários carnavais mangueirenses, conquistando cinco títulos pela verde e rosa. 


No começo dos anos 1980, a escola também teve grande destaque nos grupos de acesso, quando contou com a carnavalesca Maria Augusta, que havia feito inesquecíveis carnavais na União da Ilha alguns anos antes. 


“Tu és meu sonho, Tuiuti

Tens um destino a cumprir

É brilhar no carnaval

No desfile principal

Todo povo a te aplaudir”
(“Um Mouro no Quilombo” - César Som Livre / Kleber Rodrigues / David Lima / Cláudio Martins)

Depois de muitos anos desfilando nos grupos inferiores, o Paraíso do Tuiuti conquistou o título do Grupo de Acesso no ano 2000, chegando pela primeira vez ao Grupo Especial. Mas, no desfile de 2001, a escola não conseguiu se consolidar entre as maiores do carnaval e foi rebaixada. Foram mais uns anos nos grupos de acesso até que finalmente o prognóstico do samba-enredo do carnaval de 2001 começou a virar realidade.
Em 2014 chegou na escola o carnavalesco Jack Vasconcelos para fazer o carnaval do ano seguinte – e dos outros cinco anos seguintes. Ele propôs enredos com fortes cunhos cultural e histórico e esse caminho deu certo: a escola ficou em 5º lugar em 2015 e em 2016 ganhou o Grupo de Acesso, conquistando o direito de voltar ao Grupo Especial.
No primeiro ano na volta ao Grupo Especial, a escola não deu sorte e acabou ficando na última colocação. Mas, devido a acidentes ocorridos no desfile da própria escola e no desfile da Unidos da Tijuca, nenhuma agremiação acabou rebaixada.

E o Paraíso do Tuiuti não desperdiçou a nova chance. Com "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?" (uma referência ao samba “Sublime Pergaminho”, da Unidos de Lucas, de 1968), a escola apresentou um desfile comovente, com uma plástica extremamente visual, e politicamente crítico e engajado. Embalados pelo ótimo samba-enredo do Moacyr Luz, Claudio Russo e demais parceiros e uma comissão de frente emocionante, o Paraíso do Tuiuti ganhou o público na Sapucaí e na TV e saiu do desfile de domingo como uma das favoritas para ganhar o carnaval.

Vampirão.jpg
O destaque vestido de vampiro no último carro do desfile do Paraíso do Tuiuti em 2018. Foto: Marcos Serra Lima | G1.


Foi um arrebatamento coletivo. Sob um cenário de retirada de direitos trabalhistas e golpe parlamentar, esse desfile apareceu como um grito contundente, para o mundo, da situação que o Brasil estava passando (e ainda passa).


De domingo até a abertura das notas na quarta-feira, a única dúvida era se o peso da bandeira ia contar na avaliação dos jurados. E o resultado também surpreendeu por isso: o Paraíso do Tuiuti foi acumulando notas 10 e chegou ao vice-campeonato, o maior resultado de sua história.


A mudança de patamar da escola trouxe novas responsabilidades e expectativas. Em 2019 e 2020, a escola voltou a apresentar bons desfiles, mantendo semelhante linha temática, ainda que sem a mesma aclamação de 2018. Para 2021, a escola resolveu inovar e vai contar com a presença do carnavalesco Paulo Barros.

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Por Bernardo Pilotto:


Em 04 de abril de 1946, há 74 anos atrás, foi fundada uma das mais simpáticas e queridas escolas de samba do Brasil: a G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel. A branca e azul nasceu a partir da articulação de Seu China, que havia se mudado há pouco tempo do Morro do Salgueiro para o Morro dos Macacos e achava que o bairro merecia uma escola de samba para representá-lo.


“Afinal, eu sou filho dessa terra das calçadas musicais


Me inspirei na boemia pra buscar meus ideais


Bate forte no meu peito minha Vila Isabel


O meu samba é de respeito, sou do bairro de Noel”



(“Filho da Vila” - Dinny da Vila / Gilson Bernini)


E Seu China tinha razão: a Vila Isabel já era, naquela época, um bairro com grande tradição carnavalesca e musical. Por suas ruas desfilavam blocos (como o Acadêmicos da Vila), aconteciam batalhas de confete e outras manifestações típicas das festas de Momo. Fundar uma escola de samba parecia um caminho natural, só faltando alguém que liderasse o movimento. E foi esse o papel desempenhado por Seu China e outros sambistas, como José Ferreira Leite, Paulo Brazão, Dulcineia Gomes de Aquino e Tuninho Carpinteiro.


Martinho da Vila extasiado com a apresentação de sua escola Foto: Gabriel de Paiva / O Globo
Martinho da Vila na Apoteose, após o ótimo desfile de 2012 da Unidos de Vila Isabel em homenagem ao país de Angola.


O bairro de Vila Isabel, no começo do século XX, era um território com muitas fábricas e pequenas vilas de casas onde moravam os operários que lá trabalhavam. Faziam também parte do bairro o Morro dos Macacos e o Morro do Pau-Bandeira. Surgido a partir da iniciativa do Barão de Drummond, de 1872, o bairro contava com uma estrutura urbana moderna para os padrões da época, com avenidas grandes e bondes de tração animal.


A tradição musical do bairro também era conhecida por conta da presença de uma das grandes figuras da música brasileira: Noel Rosa. Um dos responsáveis pela consolidação do samba como gênero musical que conhecemos hoje, Noel, nascido em uma família de classe média, circulava bastante entre os morros do Rio de Janeiro, sendo frequente sua presença no Morro da Mangueira e no Morro de S. Carlos (no bairro do Estácio). Sua obra e sua presença contribuíram para esse caldo de cultura que possibilitou a fundação da escola de samba. Mesmo nunca tendo sido parte da escola (o poeta da Vila morreu cerca de 10 anos antes de sua fundação), Noel continua sendo até hoje uma referência para a agremiação.


“Foi num quatro de abril


Três dias depois da mentira


Que o poeta descobriu


Seu amor e sua lira


Com alguém se reuniu


Com ação de quem conspira


Mas fundou com devoção


A escola de samba da Vila”


(“Quatro de Abril” - Nelson Afonso Nogueira Junior / Wilson Caetano)


Nos seus primeiros anos, a escola ficou em colocações intermediárias, chegando a desfilar no terceiro grupo. Em 1965, a agremiação conquistou o acesso e voltou para a elite do carnaval. Mas outro fato foi mais importante para a Vila Isabel naquele ano: a chegada de Martinho José Ferreira aos quadros da escola.


Oriundo da Aprendizes da Boca do Mato, Martinho da Vila foi responsável por diversas mudanças que aconteceram na Vila Isabel e no carnaval de forma geral. Ele, por exemplo, mudou a forma de compor do samba-enredo à época, inspirando-se na forma com que já compunha seus outros sambas, propiciando versos mais leves e suaves. Logo em seu início na nova escola, Martinho emplacou 4 sambas-enredos, de 1967 a 1970.


Mais do que um compositor, Martinho passou a ser uma grande liderança da escola, com papel decisivo na definição de vários enredos, incluindo o que levou a escola a seu primeiro título, em 1988. Com seu sucesso enquanto compositor e cantor de sambas, levou o nome da escola e do bairro para o Brasil e ao mundo.


Além desses primeiros 4 sambas-enredo para a escola, a Unidos de Vila Isabel desfilou com sambas de Martinho em mais 7 ocasiões, sendo a última em 2016. De certa forma, a história de Martinho e da escola passaram a se confundir.


“Vamos renascer das cinzas


Plantar de novo o arvoredo


Bom calor nas mãos unidas


Na cabeça de um grande enredo”



(Renascer das Cinzas - Martinho da Vila)


A chegada de Martinho mudou a prateleira da Vila Isabel, fazendo com que a escola passasse a ser mais respeitada e fosse reconhecida como uma das grandes escolas de samba cariocas. Mesmo assim, ela ainda não disputava as primeiras posições do carnaval e, em 1978, chegou a ser rebaixada.


Com a volta ao grupo principal em 1980, a Vila conquistou o vice-campeonato, sua melhor posição até então. A escola seguia angariando simpatia pelos seus enredos e pela qualidade dos seus sambas. Mas faltava chegar ao topo do carnaval. 

Desfile da Unidos de Vila Isabel em 1988 (Foto: Agência O Globo)
Abertura do apoteótico desfile da Unidos de Vila Isabel de 1988. Foto: Agência O Globo.


Foi aí que veio o carnaval de 1988, um dos desfiles mais emblemáticos do carnaval carioca de todos os tempos. Com o enredo “Kizomba, A Festa da Raça”, no ano do centenário da abolição, a agremiação ganhou seu primeiro título, quando já tinha quase 42 anos de estrada. Um título que é emblemático não só pelo seu desfile ou pela disputa palmo a palmo com a Mangueira (que quase foi tricampeã também com um enredo sobre os 100 anos da abolição), mas todo o processo que envolveu a preparação do carnaval, em um momento no qual a Vila se encontrava diante de uma grave crise financeira, não tendo nem quadra para organizar seus ensaios.


Após esse ápice, a escola se consolidou entre as grandes. Ao longo da década seguinte, apresentou grandes carnavais, como a sua homenagem ao seu bairro em 1994. No começo dos anos 2000, voltou a desfilar no Grupo de Acesso. Sua volta ao Grupo Especial em 2005 veio também com um novo gás na escola, que conquistou mais dois títulos, em 2006 e 2013, além de disputar o título em outras ocasiões.


Nesses anos todos, a Vila se firmou como uma das principais forças do carnaval carioca, solidificando uma grande torcida, que envolve todo o bairro onde está localizada, aglutinando tanto moradores dos morros e também do asfalto. Certamente é uma das agremiações em que essa relação entre seu território e a escola mais se confunde, de forma umbilical.


Para 2021, a escola já anunciou que Martinho da Vila será seu enredo, o que traz grande esperança de que veremos, mais uma vez, a escola com um grande desfile e um grande samba.
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Por Bernardo Pilotto:

Fundada a partir da fusão de 3 blocos carnavalescos que agitavam uma das maiores favelas da América Latina, a Acadêmicos da Rocinha completa hoje 32 anos um tanto distante de seus melhores momentos. Com o último lugar no desfile da Série em 2020, a escola vai desfilar na Intendente Magalhães no próximo ano e precisará se reconstruir, tal como já fez em outras momentos.

Assim como outras escolas cariocas, a Rocinha teve uma ascensão fulminante em seu começo. Com a participação do consagrado carnavalesco Joãosinho Trinta em seus primeiros desfiles, a agremiação foi logo campeã de grupos inferiores em 1989, 1990 e 1991, chegando ao Grupo A (nome da segunda divisão à época) em 1992. Depois de se estabilizar no grupo, a escola foi vice-campeã do carnaval de 1996 e conquistou o direito de desfilar entre as maiores do carnaval em 1997.  

Abertura da útlima passagem da Rocinha no Grupo Especial, em 2006. Foto: reprodução Liesa.

Na sua estreia no Grupo Especial, a Rocinha optou por um enredo polêmico: a escola se aproveitou do fim da proibição de temas estrangeiros para os enredos e trouxe para o desfile o universo infantil dos parques da Disney, com A Viagem Fantástica do Zé Carioca à Disney. Ainda que não tenha sido eliminada tal qual a Vizinha Faladeira em 1939 (quando a agremiação da Zona Portuária apresentou o enredo Branca de Neve e os sete anões e foi desclassificada devido ao regulamento da época), a Rocinha não foi bem em seu cortejo e acabou ficando em último lugar, voltando para o Grupo A.  
  
Nos anos seguintes, a escola alternou bons e maus desfiles, chegando a desfilar pelo Grupo B em algumas ocasiões. Em 2006 desfilou novamente pelo Grupo Especial, tendo novamente ficado em último lugar, voltando ao Grupo A.  
  
Desde então, a escola obteve sua melhor colocação em 2017, com um 6º lugar. É deste ano também o enredo da escola que mais chamou atenção, com a homenagem a Viriato Ferreira, um importante personagem do carnaval carioca. Viriato foi importantíssimo figurinista de carnavalescos como Rosa Magalhães, na Imperatriz, e Joãosinho Trinta, na Beija-Flor, por onde assinou as roupas de Ratos e Urubus, em 1989. Como carnavalesco, Viriato desenvolveu trabalhos na Portela (com destaque para o título de 1980), Santa Cruz e Imperatriz Leopoldinense.  

O belo desfile da Rocinha, em 2017, em homenagem a Viriato Ferreira. Foto: Fat Press / Liesa.
  Nesses últimos anos, a Rocinha também foi celeiro de carnavalescos que hoje estão em importantes escolas do Grupo Especial. Foi assim com Alex de Souza (atualmente no Salgueiro), Fábio Ricardo (responsável pela Mocidade Independente para 2021), Marcus Ferreira (campeão do carnaval com a Viradouro) e João Vitor Araújo (recentemente contratado pela São Clemente).
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