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Carnavalize

 

Arte: Vítor Melo.

por João Vitor Silveira
Revisão: Luise Campos


Começar o texto com um questionamento é sempre uma estratégia interessante para estimular o leitor e fazê-lo pensar junto sobre o assunto que queremos tratar. Porém, neste momento em que vivemos, essa pergunta vai para além de uma simples estratégia de escrita ou maneira de produzir um título de impacto. É uma reflexão que se faz necessária e muito tem me causado aflição – e acredito que não seja o único. 

Não é de hoje que esse tipo de ponderação ronda a cabeça daqueles que vivem e respiram o Carnaval e, de alguma maneira, também conversam com outros corações apaixonados pelas agremiações. Sempre se discute o afastamento gradual delas suas comunidades, a distância das quadras de suas origens, as cifras que comandam a manifestação cultural e o foco quase exclusivo no aspecto competitivo do Carnaval.

A rapidez com que muitos chegam à conclusão de que as escolas estão sob o risco de acabar, ainda mais diante de um ano em que os festejos e o cortejo não irão ocorrer, evidenciam que perdemos o prumo em algum momento dessa caminhada. Quando pensamos em tudo o que nos faz amar a cultura do Carnaval, o desfile deveria ser tratado como um momento de euforia, um instante em que todos aqueles aspectos artísticos, culturais e musicais se concentram num grande momento de explosão catártica e cativante.

Os desfiles deveriam ser um subproduto da nossa cultura, não o objetivo final. 

Existe um momento em que todo amante do Carnaval precisa defender aquilo que tanto ama. Para isso, evoca o que deveria significar de fato o termo “Escola de Samba”. Essa, geralmente, é a hora de adentrar o contexto da criação das escolas, em que elas se colocavam na posição de gerar sociabilidade para suas comunidades, sendo um ponto de convergência para um povo marginalizado que tinha no canto, na dança, nas tradições religiosas uma forma de se enxergar como iguais e se ver com orgulho como o povo forte que é. 

As “Escolas de Samba” têm, acima de tudo, um compromisso social para com a sua comunidade. E aí não resumindo comunidade ao termo geográfico, mas significando toda a rede que apoia e encontra apoio na existência de uma agremiação. Encontrar maneiras de resistir e reexistir são essenciais. E foi justamente assim que as escolas fizeram para chegarem até aqui vivas, escapando do destino que atingiu as grandes sociedades, os ranchos e os cordões. 

Isso tudo é mais latente e grave quando pensamos no contexto em que vivemos. Como em nenhum outro momento deste século, a comunidade das agremiações precisa da presença viva das escolas em sua vida, da maneira que lhes são possíveis, respeitando as limitações sanitárias existentes. Mas é preciso ter clareza para enxergar as decisões como sendo provenientes de uma preocupação sanitária ou meramente de uma preocupação competitiva. 

No modelo atual de feitura dos desfiles, a roda gira muito rápido na cadeia produtiva do Carnaval. Sempre se teve em mente os momentos do calendário em que os enredos seriam divulgados, os sambas iriam começar a ser disputados e a grande obra se sagraria vencedora. Esse tempo se dava de maneira que, por quatro ou até cinco meses, o samba pudesse ser trabalhado junto à comunidade de forma exaustiva, para que fosse apresentado nos desfiles e pudesse alcançar um bom desempenho. 

Na nossa realidade hoje, essa é uma questão delicada. Um samba escolhido em janeiro de 2021 teria pelo menos um ano de maturação com seu público antes de ser defendido na Avenida. Considerando a janela de tempo padrão, seria quase o triplo do tempo em que esses sambas estariam sendo defendidos. A preocupação com essa janela de tempo provém do risco de o samba ficar saturado com sua comunidade (e até mesmo com a comunidade externa à agremiação) e não render bem no desfile. 

Mas deveria ser a nossa preocupação neste momento o possível rendimento de um samba no próximo desfile?

Se a resposta, que para mim é evidente, for um não, qual é a justificativa para as escolas cancelarem as disputas? A grande parte de seu público, no ano de 2020, esperou ansiosamente pelo momento em que teriam a oportunidade de ter contato com as agremiações que compõem e tanto amam. As disputas se encaixam nesse contexto, indo além de uma mera seleção de sambas. Elas também foram uma forma de trazer alento para uma comunidade que se viu afastada do seu mecanismo de sociabilidade, de laços e de sobrevivência durante um ano tão difícil. 

Mas, no contexto que enfrentamos, esse pensamento não se baseia apenas na manutenção dos ideais sociais das escolas. Ele também se reflete no rigor do sustento de tantos trabalhadores que serão afetados com a não realização dos desfiles no ano de 2021. As lives com as disputas de samba seriam uma maneira com que as escolas poderiam manter a roda girando para os seus próprios funcionários, arrecadando fundos por intermédio de patrocínios, podendo assim pagar seus trabalhadores mais fragilizados. Além disso, estariam também aquecer a economia para os seus intérpretes e músicos, que voltaram a defender as obras concorrentes e estabilizar sua renda com isso.

Podemos, ainda, ir além de enxergar apenas os sambas como uma maneira de se conectar com sua comunidade e de angariar fundos. As escolas têm em seu quadro de funcionários alguns dos artistas mais talentosos e proficientes de todo o país. Não há a possibilidade de realizar, em suas quadras, exposições visuais contando com obras desses artistas que trabalham na escola e, a partir disso, se conectar com a comunidade e também trazer patrocínios para as escolas? 

É preciso pensar em maneiras de ocupar o calendário do ano, para que não se veja mais um ano de afastamento das escolas de seus públicos, num momento de tanta dificuldade, horando assim o nome “escola de samba”, se conectando com sua comunidade e abandonando a lógica de funcionar com o único e exclusivo intuito de desfilar. As escolas de samba devem desfilar porque existem e não existirem para desfilar, pois no momento em que qualquer contexto adverso ameaça a organização do desfile per se, ameaça também a existência das agremiações. 

E também é preciso pensar com cuidado, dentre as escolas que decidiram por interromper as disputas, no contexto em que esses concursos vão retornar. Os regulamentos durante a pandemia possibilitaram a participação de compositores que, considerando os custos usuais das disputas, não teriam a chance normalmente de fazerem parte desse processo. Mas, no modelo em vigência, vários puderam entregar suas obras e participar do concurso, muito por conta dos baixos preços exigidos para as inscrições e também pela falta de necessidade de pagar torcida, camisas e cerveja, entre outros gastos. 

Mas, mesmo assim, a despesa com gravações e com o palco durante as disputas não é pequeno e, sendo assim, houve a necessidade para essas parcerias de um extenso e cuidadoso planejamento financeiro, que pode ser atirado pela janela caso as escolas só decidam retomar esse processo num momento em que o acesso às quadras seja permitido. Nesse contexto, com o público ávido por poder voltar à atividade que tanto amam, os pequenos compositores serão atropelados pelos custos exorbitantes que não estão gastando no momento. A possibilidade da retirada de obras em massa ou de compositores que não terão torcida frente aos grandes escritórios é grande. As escolas precisam se assegurar que essas parcerias estejam resguardadas.

De uma forma ou de outra, mesmo que decidam manter a suspensão das disputas, é urgente que as escolas encontrem maneiras de promover a sociabilidade, dentro dos limites sanitários impostos, promovendo a conexão com suas comunidades para fazê-las sobreviver, tanto no aspecto financeiro quanto sendo verdadeira para com os seus ideais. Sumir do imaginário social até ser possível realizar as disputas de forma presencial é jogar mais uma pá de cal no ideal das “Escolas de Samba” e chegar mais perto das “Escolas de Desfile”.





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Foto: Divulgação Pública/GettyImages | Arte: Vítor Melo/Carnavalize

Por Vítor Melo com colaboração de Juliana Yamamoto


Com a bipolaridade política latente de nosso país e o crescente desprezo pela cultura nacional, chancelado por demagogos chefes de estado, acostumamos-nos a ter de defender e de argumentar contra a visão estritamente mercadológica que atribuem ao carnaval e às escolas de samba. É natural ouvirmos, portanto, que o festejo de momo "não se paga" e deveria sobreviver pelas próprias pernas, mesmo que esse, a cada ano, supere as cifras investidas pela injeção direta do arrecadado durante os dias de festa na economia ativa dos municípios em que ocorre. As escolas, de fato, podem e deveriam conseguir articular mecanismos que as possibilitassem serem autossuficientes financeiramente, mas também não merecem ser utilizadas como objetos de discursos eleitorais, nem pintadas como algozes do povo e destino dos investimentos que não vão à saúde e à educação. À vista disso, elas são utilizadas por governantes com intuito de desviar a atenção de péssimas gestões e camuflar processos asfixiatórios à cultura popular - principalmente, a com vertentes afro-brasileiras, exatamente onde o carnaval se encontra enquanto manifestação.

Por outro lado, as escolas de samba são gigantescas instituições culturais com pujantes responsabilidade social e ofício humanitário. Em contramão ao viés econômico citado anteriormente, elas devem ser lembradas e reverenciadas pelas ações que democratizam o acesso ao lazer, à educação, à profissionalização e promovem um interessante universo de possibilidade às inferiores camadas sociais presentes nas comunidades em que muitas ainda mantêm suas quadras e/ou centros comunitários/olímpicos. Dessa forma, surge a ideia do presente texto que elenca as diversas ações que escolas de samba de todo Brasil vêm tomando a fim de dirimir o impacto desse contexto pandêmico em que estamos inseridos na luta contra o Coronavírus. Com todas as ações que citaremos ao longo dessas linhas, floresce o mais genuíno significado de solidariedade provindo desses grêmios recreativos e, mais do que nunca, reafirma-se a importância sociocultural das escolas dentro de um cenário nacional, tantas vezes deixada de lado pelo senso comum, privilegiando as incessantes narrativas ditas acima.

Obs.: se alguma das informações abaixo se encontrar defasada ou incorreta, por gentileza, entre em contato conosco por nossas redes sociais e corrigiremos brevemente. 


Rio de Janeiro

Mesmo sentenciadas ao esquecimento pelo bispo Marcelo Crivella, que está prefeito do Rio de Janeiro, as escolas de samba cariocas vêm dando um exemplo de organização e união em prol desse obstáculo coletivo que enfrentamos. Confecção de máscaras e aventais, arrecadação de donativos, doação de cestas básicas às comunidades e refeições a moradores de ruas são um pouco do que elas têm promovido durante essa quarentena. Começando pela campeã do último carnaval, a Viradouro foi uma das primeiras escolas a se mobilizarem. A vermelho e branco confeccionou aproximadamente 5 mil máscaras, que foram distribuídas inicialmente aos componentes que desfilaram em 2020, com tecidos remanescentes do desfile desse ano. Partindo pro terreiro de Tatalondirá, a Grande Rio arrecadou 2,2 mil kits com alimentos e materiais de higiene destinados à população caxiense, componentes da própria tricolor e da escola mirim Pimpolhos da Grande Rio que se encontram em situação de insegurança alimentar. Muitas celebridades vêm se engajando ao movimento, como a rainha de bateria Paola Oliveira, que enviou mil cestas básicas à quadra da escola como contribuição. Além dela, a musa Antônia Fontenelle intermediou a doação de 6,5 toneladas de alimentos, que virarão mais cestas básicas destinadas ao povo de Caxias.

Integrantes da harmonia e o mestre de bateria, Fafá, da Grande Rio com uma parte das cestas arrecadas. Foto: Reprodução escola

Chegando a Padre Miguel, a Mocidade Independente, na figura de seu departamento social (sigam-nos no Instagram, clicando aqui), tem promovido semanalmente arrecadações tanto de alimentos não perecíveis, como de agasalhos. A escola recebe os donativos toda segunda, quarta e sexta em sua quadra na Vila Vintém das 14h às 16h, localizada na Rua Coronel Tamarindo, nº 38. A distribuição é feita de forma previamente anunciada nas redes sociais da escola e é destinada a famílias da Vila Vintém. Pelas bandas de Nilópolis, a Beija-Flor, em parceria com mercados atacadistas do bairro, promoveu a entrega de diversas cestas às camadas nilopolitanas mais necessitadas. Já a Mangueira iniciou a campanha "#ficaemcasa", compartilhando dicas de prevenção do contágio e orientações de higiene pessoal em seu site e em suas redes sociais. Além disso, a verde e rosa segue a campanha de arrecadação, encabeçada por seu carnavalesco Leandro Vieira e por sua rainha de bateria Evelyn Bastos. A escola já contabiliza 3 mil cestas básicas, 12 mil máscaras e 2,5 mil ovos de páscoa doados à sua comunidade - a escola também doou mil aventais confeccionados por suas costureiras ao hospital da UFRJ, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ).








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Uma publicação compartilhada por GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS (@beijafloroficial) em 20 de Abr, 2020 às 4:48 PDT


Chegando à rua Silva Teles, vamos falar do Salgueiro! A Academia do Samba iniciou a campanha "Salgueiro Solidário", recebendo doação de voluntários e parceiros comerciais desde a segunda quinzena de março, visando a doação de cestas básicas à sua comunidade - ultrapassando em meados de abril o número de 500 cestas básicas doadas. Além disso, a vermelho e branco da Tijuca lançou a #FiqueEmCasaComoSalgueiro. Aderindo à ideia das lives, a agremiação transportará a tradicional feijoada feita pelas baianas salgueirenses a cada um de nós nesse domingão pelo seu canal no Youtube. Inscreva-se clicando aqui. A transmissão servirá para arrecadar mais donativos para a confecção das cestas e promoveu a entrega de 2 mil refeições no último sábado (02/05) a moradores de rua - além de matar a saudade de curtir um sambinha que a gente tá! Continuando pelas redondezas, a Vila Isabel também está utilizando sua quadra como central de arrecadações de alimentos não perecíveis e materiais de higiene. As doações serão direcionadas ao bairro de Vila Isabel e adjacências. Além disso, a escola foi uma das que disponibilizou costureiras para produção, em parceria com a Prefeitura do Rio (quem diria!?), de capotes descartáveis utilizados por profissionais de saúde no combate ao COVID-19.


Salve o samba, salve a santa, salve ela! A Portela apresentou diversas ações desde o final de março capitaneadas pelos departamento social e de cidadania da escola. A escola distribuiu aprox. mil refeições a moradores de ruas de Oswaldo Cruz e Madureira no início de abril. Também lançou uma campanha, chamada "Águia Solidária", solicitando alimentos não perecíveis e materiais de higiene. As doações devem ser feitas de segunda a sexta das 09h às 16h na quadra portelense. Mais de 1 tonelada de alimentos e 300 cestas foram arrecadadas pelasa Majestade do Samba, ajudando mais de 130 famílias previamente cadastradas pelos departamentos citados. Além das parte alimentícia, a escola produziu no seu barracão cerca de 5 mil máscaras de tecidos, que foram doadas à sua comunidade e a profissionais de saúde de Madureira e vizinhança. Outrossim, a primeira porta-bandeira da escola doou 100 máscaras de tecido, direcionadas principalmente aos componentes da velha-guarda, baianas, bateria e velha-guarda show portelenses. Por fim, a Portela também criou o "Portela Por Todos", projeto em que vai abrir espaço em suas redes sociais para divulgar gratuitamente produtos e serviços de pequenos empreendedores de Madureira, Oswaldo Cruz e bairros vizinhos - dando uma força para quem teve suas vendas drasticamente reduzidas diante da pandemia do coronavírus. 





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Uma publicação compartilhada por Portela (de 🏠) (@oficialportela) em 17 de Abr, 2020 às 1:20 PDT

Unidos da Tijuca, não é segredo eu amar você! A escola do morro do Borel também cedeu costureiras à parceria com a prefeitura como a Vila. A amarelo-ouro e azul-pavão tijucana não parou por aí, a agremiação também distribuiu 1,1 tonelada de frango e linguiça às famílias em situação de vulnerabilidade. Além disso, repassou à Associação de moradores do Morro do Borel e Favela Indiana 200 cestas básicas doadas através do Vasco da Gama. Por fim, também doou 400 máscaras de proteção produzidas em seu barracão e estuda viabilizar doações que abranjam as comunidades do Santo Cristo (Morro do Pinto e Providência), bairro onde atualmente fica localizada a quadra de ensaios da escola. Chegamos à São Clemente! O ateliê da escola iniciou nesta última semana a produção de máscaras para distribuição e, em três dias, 4,5 mil unidades já foram produzidas, assim como a foram doadas 2,6 mil cestas básicas. Além disso, a escola continua arrecadando e tem data marcada para ajudar o morro do Santa Marta: 10 de maio. O "Amigos clementianos para o Santa Marta" ocorrerá na Praça Corumbá e tem foco de arrecadação de alimentos não perecíveis e material de higiene/limpeza. O Paraíso do Tuiuti também não ficou para trás! A escola de São Cristovão tem arrecadado desde o fim de março diariamente donativos em sua quadra, localizada no Campo de São Cristovão, nº 33 e também já produziu duas mil máscaras de tecido para doar à comunidade do morro do Tuiuti.

Doação das cestas arrecadadas pela Unidos da Tijuca no morro do Borel. Foto: Reprodução Escola

A Estácio de Sá conseguiu arrecadar e produzir aproximadamente 100 cestas básicas, direcionadas às famílias atendidas pelo projeto Reforço do Futuro, do Instituto Meta Educação. A escola ratifica que a quadra estará sempre aberta para doações durante os dias de semana dentro do horário comercial, localizada na Avenida Salvador de Sá, nº 206, Estácio de Sá. Ademais, a agremiação também aderiu à parceria com a Liesa e produziu 500 máscaras de pano que foram doadas em sua quadra junto de 500 quentinhas de feijoadas, feitas pelas mãos das baianas estacianas. A União da Ilha produziu cerca de 2 mil máscaras de tecido e 1,5 mil capotes descartáveis, doados a profissionais da saúde, moradores do bairro e adjacências e prestadores de serviços essenciais que se encontram pelas ruas da Ilha do Governador. A escola também promoveu até o dia 11 de abril arrecadação em sua quadra de de alimentos não perecíveis e produtos de higiene pessoal a fim de doá-los aos integrantes da escola e de comunidade do bairro.

Entrega de máscaras e capotes a funcionária da Policlínica Newton Alves Cardozo (Combú). Foto: Reprodução Escola

São Paulo


Fizemos a ponte aérea e descemos na terra da garoa! Engana-se quem pensa que a onda solidária é exclusividade das escolas cariocas; as agremiações de São Paulo estão dando um show e também mostrando grande poder de mobilização e solidariedade. Começando também pela escola campeã, a Águia de Ouro contou com colaboração de parceiros comerciais e viabilizou a confecção de aprox. 2,5 mil máscaras de pano, destinadas a seus componentes e à sua comunidade. Além disso, a escola da Pompeia abriu as suas redes sociais para os comerciantes do bairro que tiveram de fechar seus empreendimentos, oferecendo propaganda gratuita, a fim de contrabalancear a redução das vendas. Chegamos à Mancha Verde! A agremiação se movimenta desde o fim do mês de março em busca de donativos e ações voluntárias. No início de abril, a Mancha produziu e entregou para pessoas em situação de rua do centro de São Paulo 350 quentinhas. Além disso, tem organizado um massivo processo de arrecadação e distribuição de cestas básicas, alcançando o incrível número de 70 toneladas de alimentos, destinados a variados bairros paulistas e também a coirmã Vai-Vai num belo ato promovido pela escola. Por fim, a Mancha Verde, na figura de seu diretor Emerson Dias, psicólogo (especialista em psicologia clínica comportamental pela USP), organizou um grupo de vinte psicólogos voluntários para oferecer atendimento psicológico gratuito a profissionais de saúde que trabalhem na linha de frente na contenção pandêmica contra o COVID-19. Bravo!

Componentes da Mancha Verde entregando cestas destinadas à escola do Bixiga. Foto: Reprodução Escola
No bairro do Limão, a mobilização continua! A Mocidade Alegre iniciou um financiamento coletivo para arrecadar mil cestas básicas, que, infelizmente, ainda está bem longe da meta - clique aqui para participar. Além disso, a escola disponibilizou as suas redes sociais para seus componentes e moradores do bairro que possuem a possibilidade de ofertar seus produtos/serviços de forma online e garantir a entrega. A quadra da Morada do Samba está disponível para quem quiser entregar doações pessoalmente. O horário de recebimento é das 10h às 20h. O Acadêmicos do Tatuapé promoveu, no dia de São Jorge, o padroeiro da agremiação, a doação de feijoada para a sua comunidade e famílias da região. Chegando à Vila Maria, a escola está com a quadra aberta para receber doações de alimentos e itens de higiene pessoal que serão entregues à comunidade. Além disso, o barracão da escola está sendo utilizado para a confecção de máscaras e aventais para o uso de profissionais da saúde. Aroximadamente 10 mil unidades de cada serão produzidos. Por fim, a agremiação se uniu a um grupo de psicólogas voluntárias que criaram o projeto “O abraço que faltava.” O intuito é oferecer acolhimento psicológico para familiares, responsáveis e cuidadores de pacientes graves ou falecidos pelo COVID-19. 


Em campanha desde o começo de abril, a Dragões da Real já arrecadou mais de 7 toneladas de alimentos em cestas básicas, distribuídas às pessoas mais necessitadas da Vila Anastácio, bairro que abriga a Caverna do Dragão e aos componentes que pediram auxílio para a agremiação. Para ajudar a campanha da escola, basta levar doações de alimentos não perecíveis, produtos de higiene e itens de higiene pessoal para a quadra, que fica na avenida Embaixador Macedo Soares, nº 1018. A Dragões recebe as doações de segunda a sexta, das 10h às 18h. Quem preferir, também pode ajudar com uma contribuição em dinheiro, pela conta na seção "Serviço" ao final do texto. Alô, Roseira! A Rosas de Ouro, na figura de seu projeto social, está arrecadando fraldas descartáveis (tamanhos P, M, G, GG e XG), lenços umedecidos e sabonetes, para ajudar no cuidado com as crianças atendidas. As doações devem ser entregues na sede do projeto, na quadra da Rosas de Ouro, que fica na rua Coronel Euclides Machado, nº 1066 das 7h às 11h. Além disso, a escola, em união com um de seus parceiros comerciais confeccionará 20 mil máscaras de tecido para serem doadas a entidades filantrópicas, a ONGs e à própria comunidade da agremiação. A escola Barroca da Zona Sul abriu a porta de sua quadra desde o início de abril em via de arrecadar donativos e cestas básicas, chegando aprox. ao número de 100 doações à sua comunidade.




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Uma publicação compartilhada por Sociedade Rosas de Ouro (@rosasdeouro) em 23 de Abr, 2020 às 4:38 PDT

Os Gaviões da Fiel além de distribuir cestas básicas para os mais afetados pelo isolamento social, também estão se preparando para oferecer marmitas às pessoas em situação de rua. Doações de arroz, feijão, macarrão, óleo, sal, molho de tomate, açúcar e sardinha em óleo são recebidas todos os sábados, das 10h às 15h, na quadra da agremiação, que fica na rua Cristina Tomás, nº 183, no Bom Retiro. Outra opção é o delivery, por meio de agendamento via Whatsapp, pelos telefones: (11) 98203-4963 / (11) 98382-6657 / (11) 98382-0741. Alô, X9! Para ajudar aos mais afetados pelo isolamento social como medida de prevenção contra o coronavírus, a X-9 Paulistana está arrecadando alimentos para doação. Basta agendar por pelo telefone (11) 99578-0976 ou pelas redes sociais da agremiação. A agremiação se responsabiliza por retirar os alimentos doados na casa do doador. O Vai-Vai, por meio da doação feita pela Mancha Verde citada anteriormente, doou 50 cestas básicas a famílias de sua comunidade. Chegamos à Mooca! A MUM, Mocidade Unida da Mooca distribuiu mil unidades de frascos de álcool gel para asilos da região e casa de atenção a crianças com necessidades especiais. Além disso, a escola arrecadou 500 kits com cestas básicas e itens de higiene, destinados à sua comunidade.





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Uma publicação compartilhada por ESCOLA DE SAMBA VAI-VAI (@vaivaioficial) em 24 de Abr, 2020 às 1:12 PDT

Com tantas demonstrações solidárias desse tipo, é difícil de dizer que o peito não enche de esperança que breve, breve poderemos voltar às nossas vidas cotidianas e estarmos perto daqueles que gostamos e encontramos nos sambas da vida. Nessa lista, apenas elencamos mobilizações das escolas dos grupos especiais do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, mas temos plena consciência e convicção de que os atos solidários se estendem por muitas outras escolas, cidades e estados. De qualquer forma, listaremos abaixo as informações das campanhas que continuam em atuação para que você, caso interessado, possa participar.

Nota: gostamos sempre de lembrar que o Carnavalize é feito colaborativamente! Portanto, se você possui informações de mobilizações, campanhas e ações em prol da luta contra o Coronavírus que não estejam abaixo, enviem-nas pelas nossas redes sociais ou para o e-mail do autor do texto: vitormelo@carnavalize.com. 

Serviço

Rio de Janeiro

Mocidade Independente de Padre Miguel: recebe doações de alimentos não perecíveis, agasalhos e materiais de higiene toda segunda, quarta e sexta;
Endereço: Quadra Histórica da Vila Vintém, em frente à estação de trem;
Horário: das 14h às 16h;

Beija-Flor de Nilópolis: recebe doações de alimentos não perecíveis e materiais de higiene de segunda a sexta;
Endereço: tanto na quadra da escola (Rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025 - Centro, Nilópolis), como na Cidade do Samba (R. Rivadávia Corrêa, 60, Gamboa), no barracão da escola;
Horário: das 09h às 18h;

Acadêmicos do Salgueiro: recebe doações de alimentos não perecíveis e também doações em dinheiro para confecção de cestas básicas de segunda a sexta;
Endereço: quadra da escola, rua Silva Teles, nº 104, Andaraí;
Horário: das 13h às 17h;
Para doações em dinheiro: 
Banco: Caixa Econômica Federal 
Agência: 0211 / Operação: 003 / Conta: 2936-1
CNPJ: 42535807/0001-79 - GRES Acadêmicos do Salgueiro

Estação Primeira de Mangueira: recebe doações em dinheiro para aquisição das cestas básicas;
Banco: Bradesco 
Agência: 2819 / Conta: 46000-1
CNPJ: 08505606/0001-90 - Instituição Mangueira Esperança

Portela: recebe doações em dinheiro para aquisição das cestas básicas;
Banco: Bradesco 
Agência: 3469 / Conta: 026838-0
CNPJ: 42255075/0001-63 - GRES Portela
Link para doação pelo Picpay: Portela Picpay

Unidos de Vila Isabel: recebe doações de alimentos não perecíveis, remédios, roupas, materiais de higiene e produtos de limpezas de segunda a sexta;
Endereço: quadra da escola, Boulevard 28 de Setembro, nº 382;
Horário: das 09h às 17h;

São Clemente: O "Amigos clementianos para o Santa Marta" ocorrerá na Praça Corumbá e tem foco de arrecadação de alimentos não perecíveis e material de higiene/limpeza no dia 10 de maio;
Endereço: Praça Corumbá, Botafogo;
Horário: a partir das 10h;

Estácio de Sá: recebe doações de alimentos não perecíveis de segunda a sexta;
Endereço: quadra da escola, Avenida Salvador de Sá, nº 206, Estácio de Sá;
Horário: das 13h às 17h;

Imperatriz Leopoldinense: realiza a entrega de máscaras de pano à sua comunidade de segunda a sexta;
Endereço: quadra de ensaios da escola, Rua Professor Lacé, 235 - Ramos;
Horário: das 1h às 16h;
Pessoa responsável: Oscar

Império da Tijuca: recebe doações de alimentos não perecíveis e também doações em dinheiro para confecção de cestas básicas de segunda a sexta;
Endereço: quadra da escola, rua Medeiros Pássaro, nº 84, Tijuca;
Horário: das 09h às 17h;
Coleta de donativos: agenda a coleta de sua doação pelo número (21) 96404-3881;
Para doações em dinheiro: 
Banco: Itaú
Agência: 9350 / Conta: 31311-1
CNPJ: 27929896/0001-44 - Dutra Cesta
O valor unitário da cesta é de R$ 70,00. Ao efetuar a transferência ou depósito na conta do fornecedor, envie o comprovante para o número (21) 96404-3881 e a escola receberá a quantidade de cestas que você adquiriu.

São Paulo


Mancha Verde: recebe doações em dinheiro para aquisição de cestas básicas (valor unitário R$ 41,00);
Para doações em dinheiro: 
Banco: Itaú
Agência: 0064 / Conta: 50059-8
CNPJ: 00964741/0001-92 - GRCBC Mnacha Verde

Mocidade Alegre: a escola iniciou uma vaquinha online para arrecadar mil cestas básicas para a sua comunidade, você pode acessar o link, clicando aqui. A quadra da Morada do Samba também está aberta diariamente para o recebimento de donativos;
Endereço: Rua Samaritá, 1020 - Jardim das Laranjeiras
Horário: das 10h às 20h

Vila Maria: recebe doações de alimentos não perecíveis e também doações em dinheiro para confecção de cestas básicas;
Endereço: R. Cabo João Monteiro da Rocha, 448 - Jardim Japao;
Horário: diariamente das 12h às 17h;
Para doações em dinheiro: 
Banco: Banco do Brasil
Agência: 0584-3 / Conta: 11153-8
CNPJ: 43156728/0001-10 - GRCSES Unidos de Vila Maria

Dragões da Real: recebe doações de alimentos não perecíveis, materiais de higiene pessoal e produtos de limpeza e também doações em dinheiro para confecção de cestas básicas;
Endereço: Av. Emb. Macedo Soares, 1018 - Vila Anastácio;
Horário: diariamente das 12h às 16h;
Para doações em dinheiro: 
Banco: Banco do Brasil
Agência: 0386-7 / Conta: 61315-0
CNPJ: 03781090/0001-93 - GRCES Dragões da Real

Rosas de Ouro: recebe fraldas descartáveis (tamanhos P, M, G, GG e XG), lenços umedecidos e sabonetes;
Endereço:  R. Cel. Euclídes Machado, 1066 - Jardim das Gracas;
Horário: diariamente das 07h às 11h;

Gaviões da Fiel: doações de arroz, feijão, macarrão, óleo, sal, molho de tomate, açúcar e sardinha em óleo são recebidas todos os sábados;
Endereço: R. Cristina Tomás, 183 - Bom Retiro
Horário: aos sábados, das 10h às 15h;
Além da doações presenciais, a escola promove a coleta de donativos por delivery, agende via Whatsapp pelos telefones: (11) 98203-4963 / (11) 98382-6657 / (11) 98382-0741

X9-Paulistana: a escola está mobilizando uma campanha de doação não-presencial, agende via Whatsapp pelo número a seguir e a agremiação se responsabiliza pela coleta em sua residência: (11) 99578-0976. Além do número, você pode acionar a escola por suas redes sociais, são aceitos alimentos, produtos de higiene pessoal, material de limpeza e agasalhos.
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Por Bernardo Pilotto:


Depois de muitos anos de disputa acirrada entre as escolas Filhos do Deserto e Flor do Lins, dos vizinhos Morro da Cachoeira Grande e da Cachoeirinha, em 07 de março de 1963 a paz se firmou, a união prevaleceu e foi fundada a Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial.

Nos seus primeiros anos, a escola adotou a linha de enredos que prevalecia na época, com conteúdos históricos clássicos. Mas, nos anos 1970, a escola inovou e passou a ter enredos com temas literários, como “Bahia de Jorge Amado” (1973) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1975). Foi dessa forma que a agremiação chegou à elite do carnaval carioca pela primeira vez, ao vencer o Grupo 2 no já citado carnaval de 1975.

Desfile da Lins Imperial no grupo especial sobre Madame Satã, em 1990.

Depois de novamente desfilar nos grupos de acesso, a Lins Imperial voltou ao Grupo Especial somente em 1990, para suas duas últimas participações (em 1990 e 1991) no desfile entre as maiores do carnaval. Apesar de dois bons enredos (“Madame Satã” e “Chico Mendes, O Arauto da Natureza”), a escola não sustentou a permanência na elite.

A partir daí, a agremiação alternou desfiles entre as divisões inferiores do carnaval, chegando a ir parar na 5ª divisão (Série D) em 2014. O sonho de voltar para a Sapucaí (local em que passam os Grupo Especial e Série A) parecia cada mais inatingível. Dessa forma que se iniciou um processo de reconstrução da escola: foi vice-campeã em 2014 e subiu para o Grupo C, novamente vice-campeã em 2017, subindo para o Grupo B, até que agora, em 2020 foi campeã, ganhando o direito de estar na Série A em 2021.


Ao longo de todos esses anos, a Lins fez muitos enredos homenageando personalidades do samba, da cultura e do carnaval, como “Glauber Presente” (1983), “Tenda dos Milagres” (1987), “"Primavera, é tempo de saudade, tributo a Zinco e Caxambu" (1988), "As quatro damas negras: Ruth de Souza - Léa Garcia - Xica Xavier - Zezé Motta" (1999) e "Segura a Marimba! Aroldo Melodia vem aí" (2003). No processo recente de reconstrução da escola, essa característica foi marcante, nos enredos "O Monarco do samba" (2017), “Zicartola” (2018), “Malandro é malandro, Bezerra é da Silva” (2019) e “Pinah, a Soberana” (2020).

Desfile Lins Imperial 2019. Foto: Nícolas Barbosa/SRzd

Para 2021, a expectativa é que a escola siga sua reconstrução, fortalecendo os laços com sua história e sua comunidade, para que a agremiação não tenha mais momentos tristes como os vistos anos atrás.
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Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieIdentidade vai dominar o site em julho e no início de agosto, com textos novos às segundas e quintas.


Abrindo os trabalhos na #SérieIdentidade, atravessamos a Ponte Rio-Niterói rumo à São Gonçalo, município com mais de um milhão de habitantes que abriga grandes escolas de samba que surgiram no carnaval na década 1990. Inspirada da vizinha Viradouro, que deu adeus ao carnaval de Niterói querendo alçar voos maiores, a Porto da Pedra também cruzou a baía de Guanabara para brincar a folia carioca. Fundada, em 1978, como bloco de enredo, só virou escola de samba no início da década de 1980, disputando os campeonatos na cidade natal.

Após quase uma década inativa, foi em 1993 que a escola voltou à cena e decidiu rumar para outros carnavais. O primeiro desfile do tigre na capital do estado foi em 1994, quando se apresentou no antigo grupo de acesso 3. No ano seguinte, uma rixa entre diferentes entidades organizadoras  fez as escolas se dividirem em diferentes ligas, promovendo um rearranjo nas agremiações. Com a confusão, a vermelho e branco de São Gonçalo foi convidada a integrar o grupo de acesso 1. Organizada e estruturada, contratou o então estreante Mauro Quintaes, que vinha trabalhando como assistente do carnavalesco Max Lopes. Com o enredo "Campo, cidade em busca da felicidade" a escola foi a campeã numa bela apresentação, garantindo a estreia no grupo especial da folia em apenas dois anos de retomada e chegada ao carnaval do Sambodrómo.



"No reino da folia, cada louco com sua mania" (1997)

"Eu canto, eu pinto, eu bordo/ Sapucaí é a tela/ Porto da Pedra enlouquece a passarela"


Foto: Wigder Frota/Rádio Arquibancada

Não só permanecendo, mas fazendo um desfile arrebatador na sua estreia na folia principal, a Porto mostrou que ninguém era vermelho e branco impunemente - como brincou o comentarista Fernando Pamplona ao elogiar a apresentação da escola. Contando a história do carnaval pelo mundo, o Tigre se mostrou "endiablado" e garantiu um surpreendente nono lugar. Para o ano seguinte, as expectativas não podiam ser modestas.

Mauro Quintaes ia para seu terceiro carnaval em conjunto com a comunidade de São Gonçalo, imprimindo uma marca moderna e de traços arrojados para agremiação, com enredos leves e animados. E a narrativa sobre a loucura continuou dando à Porto essa personalidade jovial e alegre, que se tornaria característica. O samba-enredo acompanhava essa marca de empolgação e foi muito bem defendido pelo intérprete Wantuir, em início de carreira. "Doida pra ganhar o carnaval", a escola fez uma das melhores apresentações de sua história, marcando-se definitivamente como grande agremiação do carnaval fluminense. Num desfile leve e empolgante, soube aliar um belo trabalho plástico de Quintaes a uma comunidade comendo o chão da avenida. carregada de euforia. O resultado foi um honroso quinto lugar, que garantiu a volta nas campeãs, sendo a melhor posição da história da escola no grupo especial até hoje.


"Serra acima, rumo à Terra dos Coroados" (2002)

"Serra Acima/ Rumo a terra dos coroados/ Porto da Pedra vem exaltar/ E coroada hoje vai te coroar"




Após os ótimos carnavais de 1996 e 1997, o tigre de São Gonçalo oscilou entre os dois primeiros grupos em idas e vindas. Em 2001, a escola consagrou-se campeã e ascendeu novamente ao especial, desta vez comandada pelo jovem carnavalesco Cahê Rodrigues, que iniciava sua carreira. Em 2002, a escola homenageou Petrópolis com o enredo "Serra acima, rumo à terra dos coroados", um carnaval definitivo para a permanência da alvirrubra de forma consolidada na elite carioca dali em diante, onde permaneceu por dez anos. 

O desfile passou bem plasticamente e a condução do samba escrito por Evaldo Melodia, Ernesto do Cavaco e Beto Grande foi de ninguém mais que Preto Jóia, uma das maiores vozes do carnaval, que naquele ano retornou à Sapucaí depois de uma temporada em São Paulo. O enredo sobre a cidade imperial foi uma verdadeira aula de história, desde os caminhos da mineração, passando por Pedro II, Teresa Cristina e chegando até grandes nomes de sucesso do Brasil que tiveram afinidade com a cidade. A sorte sorriu para a comunidade de São Gonçalo e com apenas uma rebaixada naquele ano, a Porto da Pedra, enfim, buscaria um suado 11º lugar, mas que garantiu a permanência no grupo definitivamente. 


"Carnaval - Festa Profana" (2005)
"Eu vou tomar um porre de felicidade/ Vou sacudir, eu vou zoar/ Toda a cidade"


Foi em 2005, porém, que a Porto da Pedra fez a Sapucaí vibrar com um samba pra lá de empolgado e velho conhecido dos sambistas: Festa Profana, enredo de 1989 da União da Ilha, sua escola madrinha, que havia sido desenvolvido por Ney Ayan, naquele ano passaria então nas cores do tigre de São Gonçalo, sob o comando de Alexandre Louzada. O enredo era uma metalinguagem: a história do próprio carnaval era contada num passeio por outras festividades clássicas, passando pelas orgias do deus Baco, as comemorações no Egito à Deusa Íris, os bailes em Veneza e chegando até o carnaval de rua de outrora, com o famoso entrudo. 


Escola e arquibancadas tinham o samba na ponta da língua, de forma muito vibrante, sem espaço para o desânimo na noite daquela segunda-feira. As cores da escola estiveram bem presentes no cortejo, e alguns pontos do desenvolvimento do enredo se mostraram diferentes do desfile original, mas nada disso prejudicou a escola, que cruzou a linha final da Avenida com boas esperanças de um retorno no sábado das campeãs. A quarta-feira de cinzas trouxe o presente dos deuses momescos: um sétimo e confortável lugar foi o resultado final. Se a Ilha tinha motivos de sobra para guardar com carinho o inesquecível samba, a Porto da Pedra passou a compartilhar do mesmo sentimento.



"O sonho sempre vem pra quem sonhar..." (2011)

"No tablado consagrando a criação/ É a arte, vida em transformação/ Meu tigre chegou, aplausos no ar/ É Clara que me faz sonhar!"



Após patinar numa série de carnavais medianos, o Tigre voltou a mostrar que é uma escola grande quando deixou enredos históricos e mais densos de lado, apostando na leveza e jovialidade que são suas características mais marcantes. O enredo "O sonho sempre vem pra quem sonhar..." prestou uma homenagem à dramaturga Maria Clara Machado, grande nome do teatro infantil no Brasil e criadora do Tablado. 

Paulo Menezes ia para seu segundo carnaval na alvirrubra e repetia o tributo à escritora, tema que já havia realizado na União da Ilha em 2003, no grupo de Acesso. Embalado por um lindo samba, dos mais bonitos daquele ano, o intérprete Luizinho Andanças soube dar ainda mais beleza a obra melódica que fazia um bela passagem pelas principais obras da autora, sendo muito bem cantado pela escola na pista.

Desfilando no dia de seu aniversário, 8 de março, a escola apostou em um carnaval colorido e leve, como pedia o tema. Ficam marcadas no imaginário momesco imagens singelas do cortejo, como o belo "Pluft, o fantasminha" sobrevoando a bateria em um balão de lua. A escola resgatou o estilo jovial e animado, que não vinha a alguns carnavais. Elogiada, a apresentação chegou em oitavo lugar na apuração, melhor resultado da escola em cinco apresentações, mas que sem dúvida poderia render uma volta nas campeãs com folga. 


"Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?!" (2016)
"Paixão e orgulho... do meu lugar/ tá certo ou não tá? Vem com a gente brincar/ sou Porto da Pedra, sou pura emoção/ com essa trupe conquistei seu coração"



Após o indigesto rebaixamento de 2012, a Porto da Pedra demorou a se recuperar após o infeliz desfile patrocinado sobre o iogurte. Uma polêmica eterna do carnaval carioca. Com problemas de administração e trocas de carnavalesco, a escola batalhou para se apresentar em 2013, no Acesso. Apesar de uma boa apresentação no ano seguinte, com uma homenagem aos casais de mestre sala e porta-bandeira, a vermelho e branco fez um difícil carnaval sobre a energia no ano de 2015. A escola só conseguiu se restabelecer totalmente e voltar a brigar pelo acesso ao grupo principal em 2016, quando Jaime Cezário fez o primeiro de uma sequência de desfiles leves e muito bem relacionados com o público e com a própria comunidade de São Gonçalo, resgatando a personalidade da escola.

O enredo "Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?!" fez uma homenagem a um dos maiores palhaços brasileiros, famoso no picadeiro, na TV e nas rádios que alavancaram tantos de seus sucessos, relacionando ainda com o fato de ele ter sido ilustre morador de São Gonçalo, lugar onde viveu e morreu aos 90 anos. Muitos foram os bordões de sucesso, como "hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor!" e as músicas que embalaram a infância da criançada, e a proposta era justamente fazer com que o público se reconhecesse na nostalgia do desfile. As referências musicais estavam representadas nas alegorias e a comissão de frente logo abriu o desfile com acrobatas, bailarinos e os palhaços que ficaram famosos no país, usando um picadeira inflável que gerou um belo efeito. A escola saiu da Avenida com o conforto de uma boa posição na parte de cima da tabela, certeza confirmada com um 5º lugar na classificação final, um marco de um novo momento que traria bons ares e outros ótimos carnavais nos anos seguintes.



Vivendo uma boa fase, a Porto da Pedra vem de uma trilogia de enredos que resgataram sua identidade leve e jovial, como a que a fez brilhar nos meados dos anos 90. A escola dá sequência ao feliz casamento com o carnavalesco Jaime Cezário e renderá tributo ao ator Antônio Pitanga para o ano que vem. Apesar de oscilar entre as posições e os grupos, nos seus mais de vinte anos desfilando em solo carioca, a Porto da Pedra se mostrou uma das grandes novas agremiações surgidas nas últimas décadas. Marcada pela leveza, a escola criou com seu Tigre um dos grandes símbolos da folia brasileira e que merece voltar a brilhar com seus carnavais, como vem fazendo.



*Texto dedicado a Rodrigo Cardoso, um dos membros iniciais do site e colaborador em diversas áreas, que escolheu a Porto da Pedra como escola do coração, mesmo morando no Rio Grande do Sul. 
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