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Carnavalize


O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram na lista principal. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Por Vitor Melo, com colaboração de Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco
Artes e visual: Vitor Melo

Dos nove quesitos avaliados hoje em dia, chegamos ao único deles, que é, desde os primeiros desfiles, submetido a julgamento: o samba-enredo. Mostra-se, portanto, não só o peso histórico do gênero que nomeia e caracteriza as escolas, mas explicita a importância quantitativa intrínseca dos sambas em relação ao espetáculo geral apresentado. Por outro lado, é inegável dizer que o gênero samba-enredo teve sua importância relegada com a supremacia do visual durante bons anos. Esse cenário certamente se relativizou nos últimos anos, quando grandes obras começaram a romper as convenções estabelecidas e intensificar sua comunicação com o grande público. Prova disso foi a dificuldade que nossa equipe teve para entrar em um consenso e listar os 10 melhores sambas e as menções honrosas desta década pelo grande número de inspiradas obras - fato que não talvez não se repetisse em recortes temporais anteriores.

Com a busca interminável pelo “Ita perdido” e a tentativa pela replicação do sucesso salgueirense com o explosivo samba de 1993, o gênero samba-enredo enfrentou uma grave “crise estética” do início dos anos 90 até os primeiros anos desse nosso recorte, como definem Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas no livro “Samba de enredo:  história e arte”. Nessa monotonia criativa, sobraram sambas estruturalmente idênticos e faltaram composições que pudessem furar a bolha carnavalesca e se posicionarem como grandes obras do gênero. Tais características foram subvertidas notoriamente nos últimos anos, o que colocou em discussão não só o estilo das obras, mas todo o seu processo de feitura. Não faltaram debates sobre os prós e contras dos formatos das disputas de samba, o surgimento das encomendas como uma espécie de salvação das agremiações e muito outros pormenores que vêm sendo discutidos ao longo dos últimos anos. Como a missão desse panorama é grande e trabalhosa, vamos cortar o papo e partir já para a lista que falará de tudo isso por si mesma, pois o primeiro integrante pode ser considerado, sem dúvidas, o divisor de águas e a virada de chave desse panorama.

Confira um panorama mais detalhado sobre as transformações do gênero na última década neste ensaio da Série Sambas.

Obs.: Preparamos uma playlist para você se sentir por dentro de cada samba dos listados nesse texto, com exceção ao samba do Império da Tijuca de 2013, que não possuí faixa no Spotify. Clique aqui para ouvir.


 Portela 2012
E o Povo na Rua Cantando é Feito Uma Reza, Um Ritual
Compositores: Luiz Carlos Máximo, Wanderley Monteiro, Toninho Nascimento e Naldo

Que “Madureira sobe o Pelô” - como ficou, de fato, conhecido a obra musical portelense de 2012 - é um divisor de águas para o gênero sambas-enredo, não há dúvidas. Tanto que podemos concordar também que foi quem deu sobrevida e colocou a Portela nos trilhos para que pudesse voltar a ser a escola competitiva como registra os áureos momentos de sua história. Seguindo a cartilha, o carnavalesco recém-contratado Paulo Menezes apresentou uma elogiadíssima sinopse à época e inflou as expectativas para a safra da Majestade do Samba. Querendo esquecer a turbulência administrativa dos últimos carnavais, essas expectativas não precisaram esperar por muito tempo para serem concretizadas. Nas primeiras audições da safra, já havia um samba que se despontava como franco favorito desde o início da disputa e o qual foi coroado como um fenômeno da internet, introduzindo nesta conversa um importante mecanismo de divulgação e consolidação de favoritismo durante o período das disputas de samba.


Concebido com um primor de letra e uma estrutura totalmente inovadora diante do cenário citado na introdução da lista, o samba contava com três refrães e também um fio condutor que, além de cumprir sua função de forma majestosa ao contar o enredo, era genuinamente portelense: Clara Nunes. Tiro e queda! Mesmo que com certa apreensão pelos compositores e pelos fãs da obra por não saberem se a escola optaria por essa quebra ao padrão dos sambas da época, a parceria felizmente se sagrou campeã. Com um pré-carnaval longe do Portelão, que passava por uma reforma, os ensaios de rua da escola causavam grande euforia. Com essa energia, a Portela fez um desfile com garra e com total destaque ao seu chão, cantando, com emoção e a plenos pulmões, o melhor samba daquele ano – uma composição à altura das maiores da safra da azul e branco de Madureira, e como há tempo não se via por lá. A Portela terminou aquele carnaval em 6º lugar, com muitos méritos à qualidade da obra, e afastou de vez a triste memória do incêndio que assolou a agremiação, além de Grande Rio e União da Ilha, no carnaval precedente.



Unidos de Vila Isabel 2012
Você Semba de Lá, Que Eu Sambo de Cá - O Canto Livre de Angola
Compositores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens


Ainda falando desse essencial ano de reinvenção do gênero, vamos comentar uma obra que já apareceu nesse panorama da década que estamos fazendo, destacando o protagonismo não só dessa composição, mas também do desfile que ela embalou. (“Os 10 desfiles mais marcantes do Grupo Especial Carioca”, clique aqui para ler). A parceria multicampeã de André Diniz, vencedora de sete das dez disputas dessa década da Vila Isabel, contou com a chegada de peso do imperiano Arlindo Cruz naquele ano. O grupo, que tinha a incumbência de contar os laços afetivos que ligam Brasil e Angola, apresentou também, como acima, algo que rompesse estruturalmente com o que se encontrava em voga no quesito. A parceria optou por apenas um refrão clássico, que acertava em cheio ao brincar com o título do enredo, evidenciando forte influência do ritmo semba de Angola no nosso samba, “Semba de lá/Que eu sambo de cá”.

O reforço de peso que chegou à ala de compositores da Vila naquele ano, Arlindo Cruz. Foto: Rodrigues/Riotur

O samba incorporava Kizomba, retomando o inesquecível carnaval de 1988 da escola, em uma busca satisfatória de evocar sua comunidade e inflamar o chão da terra de Noel. Outro ponto inventivo da parceria foi propor um falso refrão delicioso, “Reina ginga ê matamba (...)”. Além disso, finalizando os recursos criativos da parceria, os compositores ousaram ao adicionar um contracanto na segunda do samba, iniciado em “Pelos terreiros (Dança, jongo e capoeira)” e finalizado por “A nossa Vila (Agradece com carinho)”, que teve um ótimo funcionamento no desfile, embora arriscado por agregar complexidade a fluidez da harmonia. Se não podemos dizer que esse samba coroou o campeonato da Vila Isabel em 2012, ficando ali no bairro vizinho com a Unidos da Tijuca, pode-se afirmar que, ao menos, ele figura instintivamente as memórias dos sambistas ao relembrar os expoentes do gênero.


Unidos de Vila Isabel 2013
A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo
Compositores: Martinho da Vila, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Tunico da Vila

Vamos de dobradinha! O povo de Noel começou a década com o pé na porta quando o quesito foi fazer samba bom. Dessa vez, com duas modificações na parceria que vencera no ano anterior, saíram Artur das Ferragens e Evandro Bocão e entraram ninguém menos do que Martinho e Tunico da Vila. Traduzindo o enredo da professora Rosa Magalhães, a obra musical é de uma sutileza ímpar e a forma poética como foi composta evidencia a narrativa proposta perfeitamente. Prova disso é a capacidade de nos transportar à rotina e ao cotidiano dos homens do campo. Estruturalmente, a obra não apresenta invenções tão marcadas quanto no ano anterior, mas prima por uma combinação poderosa de letra e melodia excepcionais, reafirmando todo o lirismo possível contido no enredo.


Dito isso, a grande sacada que diferenciou a letra, e deu ares criativos a ela, foi um bacana jogo de palavras, ação-consequência, no refrão principal entre os verbos “plantar/colher”. Se elencar as passagens melódicas inspiradíssimas desse samba ou, até mesmo, citar os brilhantes versos dele é chover no molhado, também é indispensável citar a força que ele adquiriu pela internet. Ao viralizar, sendo assistido e ouvido milhares de vezes no pré-carnaval, figura ainda hoje como um dos mais vídeos mais assistidos do gênero. Toda a repercussão ratifica a grandiosidade dessa obra que não só foi a trilha sonora do campeonato incontestável da Vila Isabel, mas também é o primeiro dessa lista que conseguiu a proeza de furar a bolha do carnaval e se manter ativo após a festa de Momo no imaginário popular. Vale comentar também a força desta canção ao colaborar criativamente e propiciar mudanças no enredo original da professora Rosa Magalhães. A carnavalesca, em algumas entrevistas naquele pré-carnaval, confirmou a mudança em sua ideia inicial, alinhando o desenvolvimento do tema com figuras construídas pelo samba.


Renascer de Jacarepaguá 2015
Candeia! Manifesto ao povo em forma de arte!
Compositores: Moacyr Luz, Teresa Cristina e Cláudio Russo


Muitos consideram a encomenda de samba-enredo maléfica ao gênero em si e ao surgimento de novos sambistas e compositores no geral. Veremos ao decorrer da lista, entretanto, que esse sistema recorrentemente utilizado pelas escolas tem gerado ótimos frutos, mesmo que por um caminho controverso. A escola de Jacarepaguá, a homenagear um dos fundadores da Majestade do Samba, Candeia, precisava de uma composição à altura do nome em questão. Por isso, a Renascer optou por repetir o sistema de encomenda que funcionara no carnaval de 2014, com a inclusão de Teresa Cristina à dupla de compositores Moacyr Luz e Cláudio Russo. Mais do que funcionar, a agremiação desfilou com um dos maiores sambas de sua história.   


Com uma melodia impressionante desde os primeiros versos, a letra se inicia de forma arrebatadora e impecável. Chegando ao primeiro refrão, o inspirado trio de autores optou por uma dupla de curtos versos bisados, evocando o homenageado e iniciando a também belíssima segunda estrofe de forma bastante agradável melodicamente. Com uma levada valente na medida certa, a letra inspiradíssima – com destaque para os versos “Não basta ter inspiração/Pra cantar samba é preciso muito mais/A rima suada pra ganhar o pão/Lamento em louvor aos orixás” – encaminhando de forma valente para o refrão principal de uma obra impecável. Com muitos problemas financeiros durante a preparação para o carnaval, os quesitos musicais da agremiação foram o pilar fundamental para que a escola desfilasse com alegria e garra, impulsionando a apresentação e garantindo um digno 9º lugar e a permanência no grupo de acesso. Teresa Cristina, uma das compositoras do samba, também atuou no carro de som da Renascer. Responsável por emocionar todos os fãs de Candeia e do samba, a música também se emocionou na avenida, gerando uma bela imagem na arrancada da escola.

Unidos do Viradouro 2016
O Alabê de Jerusalém, a saga de Ogundana!
Compositores: Paulo César Feital, Zé Gloria, Felipe Filósofo, Maria Preta, Fabio Borges, William, Zé Augusto e Bertolo

Outro samba dessa lista que nasceu fadado ao sucesso. Com uma repercussão rápida e batendo a casa de milhares de acessos nas primeiras semanas de divulgação, ainda como samba concorrente, dava as caras uma parceria com gongá fixado na MPB e que viria render ótimos frutos pro gênero carnavalesco. O grupo era encabeçado por Paulo César Feital, amigo de Altay Veloso, um dos autores da sinopse que gerou o “Alabê” viradourense daquele carnaval. Eles apresentaram uma obra singular, que já despontava não só para se consagrar como um dos melhores do ano, mas também como destaque da década. A parceria escolheu por iniciar o samba pedindo que o padroeiro da escola, Xangô, sincretizado na letra também como São João Batista, junto a Oxum, guiasse e desbravasse o caminho que viria no enredo e em toda impecável letra do samba.


Com uma variação melódica envolvente ao decorrer da obra, ela realizou com primazia a missão de sintetizar a luta expressa na narrativa épica proposta pelo enredo. A segunda do samba salta aos olhos pelo encantador casamento entre melodia e letra com destaque para os seguintes versos: “Ó, meu Brasil/Cuidado com a intolerância/Tu és a pátria da esperança/À luz do Cruzeiro do Sul/Um país que tem coroa assim tão forte/Não pode abusar da sorte/Que lhe dedicou Olorum”. Eles são  cirurgicamente precisos em narrar o enredo e encaminham o samba para um refrão poderoso, no qual se evocava novamente a dupla divina de orixás da cabeça da letra para o refrão principal, mexendo com o brio do componente. Vale ressaltar ainda na parceria a presença de Felipe Filósofo. Ele também se destacou como compositor inventivo na década e assinou grandes obras na conterrânea da vermelho e branco, a Acadêmicos do Sossego.


Renascer de Jacarepaguá 2017
O Papel e o Mar
Compositores: Claudio Russo, Moacyr Luz e Diego Nicolau


Com a manutenção do sistema de encomendas, e a ratificação do sucesso dessa fórmula, a Renascer aparece pela segunda vez na nossa lista e se consolida como uma das eminentes escolas de sambaços na década. Dessa vez, o samba também é assinado por um dos intérpretes da escola à época: Diego Nicolau. Ao descrever o fictício encontro entre dois guerreiros negros que se encontravam nas trincheiras da mesma causa social, a escritora e catadora de papel Carolina Maria de Jesus e o almirante negro João Cândido, o samba dispensou a sinopse, não divulgada pela escola, e expôs o enredo de forma poética, lírica e ímpar. A parceria optou por iniciar a letra na primeira pessoa, e a escritora dirige-se de forma comovente e poética ao mestre-sala dos mares com esta emocionante sucessão: “Eu fiz dos versos a fortaleza pra morar/Sou a filha da miséria/Você nasceu pra guerrear”.

Os intérpretes da Renascer, Evandro Malandro e Diego Nicolau, que é um dos compositores do samba. Foto: Gabriel Santos/Riotur
Seguindo no desenrolar do enredo, a canção conta com uma dupla de curtos versos bisados, seguidos por um falso refrão de felicidade única, mostrando o caráter criativo da obra e introduzindo a mudança de pessoa fundamental para entender a narrativa proposta. Nos próximos versos, entra em cena João Cândido, narrado em 3ª pessoa, mas igualmente poético à primeira do samba. A composição é de uma felicidade fantástica e parece crescer e crescer a cada verso que se sobrepõe. A obra-prima chega ao ápice no refrão principal, com a retomada da interlocução de Carolina de Jesus e a conversa com João. Em uma pergunta da intelectual, o samba se finaliza de forma fenomenal: “Ó, mestre sala/Quem te ensinou a bailar?/Um marinheiro sabe o balanço do mar/A chibata não estala mais/Quantos sonhos guarda o velho cais”. Os versos fazem referência ao clássico da MPB "O mestre-sala dos mares", compostos por Aldir Blanc e João Bosco, eternizado na voz de Elis Regina. No desfile, a composição cresceu ainda mais graças à atuação entrosada dos intérpretes da vermelho e branco, Diego Nicolau e Evandro Malandro. A ala musical da Renascer garantiu uma boa colocação defronte de uma plástica bem mais modesta. 



Beija-Flor 2017
Iracema, a virgem dos lábios de mel
Compositores: Claudemir, Ronaldo Barcellos, Maurição, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos

Se a Beija-Flor não foi uma escola com contínuos destaques de samba-enredo na frutífera década ao carnaval, seu samba de 2017 é uma belíssima exceção. A obra foge completamente ao padrão da escola de melodias pesadas e letras densas de outrora, registrando sua importância. A composição possui ousadias que podiam muito bem não terem funcionado, como um refrão de impressionantes oito linhas e a repetição da palavra "amor" em um mesmo verso. O que poderia soar como pobreza estética, no entanto, ganhou uma cadência melódica envolvente, que ajudou na imprescindível função em não deixar a letra se arrastar. Além disso, em relação ao teor criativo, a parceria optou por um refrão do meio com quatro repetições do mesmo verso (“Pega no amerê, areté, anamá”), outra solução ousada que teve adesão maciça dos fãs do gênero e se tornou uma das marcas características da composição. Ainda bem que arte não precisa seguir regras!


A jandaia, de fato, cantou no alto da palmeira e sagrou o samba da parceria de Claudemir, Ronaldo Barcellos, Maurição, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos como um dos melhores da década. Diferentemente da ideia inicial proposta pela comissão de carnaval nilopolitana, a parceria foi para outro lado narrativo e abordou termos, episódios e figuras marcantes do livro Iracema, o enredo da Beija-Flor. Os compositores contrabalancearam positivamente a sinopse da escola daquele ano - a qual, por sua vez, tinha um viés mais lúdico e não abordava elementos das linhas de José de Alencar. A melodia que se tornou um pouco mais cadenciada para atender ao estilo do consagrado Neguinho não foi um fator negativo, como alguns esperavam, mas sim um dos pontos altos da apresentação. O andamento do samba na pista se harmonizou de forma satisfatória com o também ousado visual apresentado pela agremiação.


Mocidade Independente de Padre Miguel 2018
Namastê... A Estrela Que Habita em Mim Saúda a Que Existe em Você
Compositores: Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Denilson do Rozário, Carlinhos da Chácara, Alex Saraiça e M. Meiners

O compositor Paulo César Feital, que encabeçou a parceria campeã da Viradouro em 2016, volta à nossa lista em outra composição marcante e que, dessa vez, contou a presença de seu amigo e consagrado músico-compositor Altay Veloso. Com uma ótima sinopse, assinado pelo jornalista e escritor Fábio Fabato, o grupo de compositores apresentou uma eminente obra, que cativava desde a primeira audição o ouvinte de forma rápida e instintiva. A linha melódica fugia ao lugar comum, repetindo a equação do ótimo samba também da Mocidade do ano anterior. A letra elencava e situava juntos símbolos e imagens da Índia e do Brasil, ao mesmo tempo que evocava capítulos e passagens da história da própria Estrela Independente. O único porém dessa composição foi o verso “Deite e Holi”, trocadilho com o festival indiano. Após críticas, a passagem foi trocada a tempo e não comprometeu a primazia dessa obra durante o desfile.


De cara, dá pra perceber que esse samba é coisa séria quando seu primeiro verso inicia com "Khamadenu”. A expressão foi encaixada perfeitamente na composição, em uma construção que não poderia sair de qualquer parceria - afinal, adaptar uma seleção vocabular desse tipo em um samba-enredo exige muita competência. Brincadeira à parte, faz-se necessário a citação dos versos “Do sal à doce liberdade/Há tempo ainda! /Desobedecer pra pacificar/Como um dia fez a Índia!” em uma poética alusão à Marcha do Sal indiana de 1930 e brincando com a sinestesia de uma dualidade de sensações, “Do sal à doce liberdade”. Encaminhando-nos para o fim, vê-se como todo o samba em questão é pensado de forma gradativa até chegar ao clímax do refrão principal, traçando um paralelo entre Nova Déli e Brasil com uma linda imagem entre o céu indiano e o brasileiro: “Bendita seja a Santíssima Trindade!/Em Nova Délhi ou no céu tupiniquim/Ronca na pele do tambor da eternidade/O amor da Mocidade sem início, meio e fim!”. Emocionante, o samba fez a Estrela assinar sua importância no quesito musical na década comentada.


Paraíso do Tuiuti 2018
Meu Deus, Meu Deus! Está extinta a escravidão?
Compositores: Cláudio Russo, Moacyr Luz, Jurandir, Zezé e Aníbal

Próximos de chegar ao fim, falaremos de um dos sambas que mais tiveram repercussão fora da bolha do carnaval nesse passado recente - seja pelo posicionamento pertinente do enredo em relação ao contexto social no qual vivemos, seja pela exuberância poética e pela força melódica presentes nessa composição. Como mais um dos sambas encomendados dessa lista, podemos ratificar a importância e a necessidade da discussão dos caminhos a serem seguidos pela festa no que tange ao gênero que a embala. Além das pratas da casa Jurandir, Zezé e Anibal, a parceria contou com os nomes de peso de Cláudio Russo e Moacyr Luz, e apresenta desde os primeiros versos todo o esforço dos autores para nos entregar algo à ura do tema pedido. E conseguiram fazê-lo em toda composição.


O samba é narrado na primeira pessoa, dando pessoalidade e contornos dramáticos que enriqueceram a narrativa exposta e protagonizaram ainda mais o teor poético da obra. Abordando o aspecto criativo do samba, destaca-se a sucessão de dois refrães (de meio) de quatro versos pujantes, os quais denotam a força de sua letra, propondo novas soluções estruturais. Chegando ao refrão principal, a parceria retoma um trecho do título do enredo e encabeça de forma cirúrgica a mensagem que sintetiza o cheque feito pelo carnavalesco e pela escola em relação às sequelas contemporâneas da abolição da escravidão brasileira: “Liberte o cativeiro social!”.  Esse primor embalou o melhor desfile da trajetória do Paraíso do Tuiuti e levou a escola à melhor posição de sua história, o vice-campeonato do Grupo Especial carioca daquele ano.

Mangueira 2019
História pra Ninar Gente Grande
Compositores: Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Márcio Bola, Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo

“O samba fala das maiorias, e não das minorias. A maioria das pessoas não é príncipe, princesa ou rainha. A maioria são os 'heróis de barracões'”. Dessa forma, a letrista e compositora do samba da Mangueira de 2019, Manu da Cuíca, define um dos principais trunfos desse samba antológico: o autorreconhecimento. Ao abordar heróis à margem da oficialidade que não estão nos retratos tradicionais, a composição assinada por uma parceria considerada azarona da disputa foi ganhando corpo desde o primeiro minuto após o áudio do samba ter sido vazado na rede de mensagens WhatsApp. Tendo como grande aliada a internet, os compositores viram o nascimento de fãs que se sentiam representados por aquele discurso pertinente ao enredo e pelos retratos do cotidiano expostos nas lacunas sociais apontadas pela proposta do carnavalesco, cirurgicamente sintetizadas no samba. Na disputa, o samba contou com uma repercussão orgânica e de contorno monumental, contando com uma torcida de peso formada por comentaristas de carnaval, artistas fora da bolha e políticos. O percurso foi trilhado até que a zebra fosse consagrada o samba da Estação Primeira para o carnaval de 2019.


Um fato interessante desse samba é o caminho inverso que ele percorreu. Como fazia a justa e pertinente menção à Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada, ele captou atenção e furou a bolha carnavalesca antes do desfile ocorrer. Por isso, gerou não só um maior interesse popular pelo desfile da Mangueira, como também certa curiosidade e prévio conhecimento do samba de uma forma intensa como há tempo não se via. Com a sua melodia valente, a letra é precisa ao citar heróis da história “alternativa” brasileira. A adesão popular, predominantemente carente ao samba-enredo, encontrou nessa obra o combo perfeito para exponenciar ainda mais o protagonismo da verde e rosa como uma das principais instituições culturais desse país, além de ratificar essa década como um marco da oxigenação do gênero samba-enredo. Tirou toda a poeira dos porões!


Menções honrosas:

Nunca foi tarefa fácil fazer essa lista, confessamos! Muitas obras importantes e marcantes ficaram de fora, mostrando como foi frutífera a década para o quesito recordado. Para essa seleção, vale destacar, tentamos escolher as composições que aliam qualidade melódica e inovações em sua narrativa. Dessa forma, não necessariamente foram escolhidos os mais populares e marcantes de cada ano.

No debate de obras que propuseram novas estruturas e formatos em letra e melodia, não pode ficar de fora também toda a discussão em torno dos processos de escolhas das obras musicais. Da principal delas, a encomenda é assunto já conhecido, visto que mesma criticada, gerou três obras presentes na lista. Fato é que em 2020 muitas escolas propuseram novas formas de disputa aliadas nesse debate. O que não falta é assunto para muito debate!

É notório, de qualquer forma, a bela renovação do gênero e a quantidade de obras cheias de qualidade. Exatamente por isso, como dez era um número pequeno, separamos uma outra seleção de menções honrosas com mais outras dez obras que por pouco não figuraram entre os escolhidos finais. 


Mangueira 2011: O Filho Fiel, Sempre Mangueira
Compositores: Aílton, Cesinha Maluco, Alemão Xavier, Te e Baiano

Império da Tijuca 2013: Negra, Pérola Mulher
Compositores: Samir Trindade, Serginho Aguiar, Araújo, Walace Menor e Alexandre M

Salgueiro 2014: Gaia - A vida em nossas mãos
Compositores: Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa

Imperatriz Leopoldinense 2015: Axé Nkenda! Um Ritual de Liberdade
Compositores: Marquinho Lessa, Zé Katimba, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna

Vila Isabel 2016: Memórias de 'Pai Arraia' - um sonho pernambucano, um legado brasileiro!
Compositores: André Diniz, Martinho da Vila, Martinália, Arlindo Cruz e Leonel
Intérprete: Igor Sorriso

Cubango 2017: Versando Nogueira nos cem anos do ritmo que é nó na madeira!
Compositores: Gabriel Martins, Belo, Rafael Coutinho, Robson Ramos, Sergio Careca, Dema Chagas, Tricolor, Vinicius Xavier, Thiago Farias e Duda

Mocidade 2017: As Mil e Uma Noites de uma 'Mocidade' prá lá de Marrakesh
Compositores: Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Dadinho, Zé Paulo Sierra, Gustavo, Fábio Borges, André Baiacú e Thiago Meiners

Unidos de Padre Miguel 2017: Ossain: o poder da cura
Compositores: Samir Trindade, W. Corrêa, Claudio Russo Marquinhos, Alan Santos, Jr. Beija-Flor Carlinhos do Mercadinho e Cabeça do Ajax

Santa Cruz 2019: Ruth de Souza – Senhora liberdade. Abre as asas sobre nós
Compositores: Samir Trindade, Elson Ramires e Júnior Fionda

Grande Rio 2020: Tatalondirá - O Canto Do Caboclo No Quilombo De Caxias
Compositores: Derê, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro e Toni Vietnã

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos no samba-enredo. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos sambas do Rio de Janeiro dessa década?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
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por Beatriz Freire e Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco
Artes e visual: Vitor Melo

O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossa divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal.

No texto de hoje, falaremos das escolas do segundo grupo da Marquês de Sapucaí. O Acesso passou por uma forte transformação durante a década, após uma série de polêmicas nos resultados dos carnavais da Lesga. Recém-criada em 2009, a nova liga para gerir as apresentações durou apenas quatro anos. Em 2013, um novo formato surgiu com a fundação de outra liga, a Lierj, e a junção os antigos grupos A e B em apenas um: a Série A. Até então, ela conta com dois dias de desfiles, transmitidos pela TV Globo. No último ano, outros acontecimentos políticos também movimentaram o liga da Série A e as escolas envolvidas, com direito ao surgimento de outros coletivos.

Inicialmente com o número de 19 escolas integrantes, a desregularidade entre as agremiações da Série A foi forte. Com o aperfeiçoamento do grupo ao longo da década, essa impressão foi se amenizando. Vale lembrar que, das grandes missões do grupo de acesso, a de impulsionar novos talentos e personalidades aconteceu em diversos segmentos: carnavalescos, casais, coreógrafos. Dessa forma, algumas apresentações históricas aconteceram.

Então chega de papo e vamos conferir o segundo #TOP10 da #SérieDécada: os desfiles mais marcantes do Acesso carioca. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)

Ps.: se quiser ver lindas fotos de cada um dos desfiles, clique nas primeiras palavras de suas análises. Com exceção do ano 2016, que não possui álbum, todos os outros desfiles possuem fotos, disponibilizadas pela Riotour sejam em álbuns individuais, sejam em uma galeria compartilhada do dia de desfiles.


Império Serrano 2012 
(Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba)

Lindos acontecimentos do carnaval, e futuras belas memórias, ocorrem quando uma escola valoriza sua própria história na figura de algum de seus principais baluartes. E se tratando de Império Serrano, a verde e branco não deve nada em personalidades icônicas. Naquele ano, a rainha Dona Ivone Lara completava 90 anos em plena atividade. Para sorte dos sambistas a Serrinha escolheu a simbólica data para materializar a homenagem a uma de suas principais torcedoras. No bastidores, a agremiação passava por mais uma de suas eleições conturbadas. Desta vez, o ex-mestre de bateria da escola Átila assumiu a presidência no pré-carnaval prometendo retornar às origens da histórica agremiação. 

A Dama do Samba, Ivone Lara, no desfile imperiano em sua homenagem. Foto: Raphael David/Riotour


Para comandar a parte visual, o já consolidado Mauro Quintaes foi contratado, e para criar um clássico musical necessário para esta compositora histórica, ninguém menos que uma parceria liderada por um outro sambista de peso: Arlindo Cruz. Ele assinou o samba ao  lado de Arlindo Neto e Tico do Império e a obra foi conduzida na avenida por Freddy Vianna e Tiãozinho Cruz. Sua letra traduziu com a delicadeza e beleza a vida da homenageada, passeando por sua herança ancestral africana, sua ligação com Heitor Villa-Lobos, sua obra musical e o clássico hino “Os cinco bailes da história do Rio de Janeiro”. Com problemas estruturais nos bastidores da folia, a plástica da apresentação se mostrou mais singela, mas a Serrinha não ficou devendo em emoção. A alegoria mais bonita da apresentação foi justamente a que veio a homenageada, lembrando o desfile imperiano Mãe Baiana Mãe, de 1983. Outro trunfo da Serrinha foi a experiência de Carlinhos de Jesus no comando da Comissão de Frente. Mesmo com a apresentação mais emocionante do grupo, o Império terminou em 2º lugar e ficou atrás da Inocentes de Belford Roxo. Os boatos de manipulação do resultado foram fortes e aquele ano marcou a última apresentação do acesso comandada pela LESGA. 


Império da Tijuca 2013 
(Negra, pérola mulher)

No primeiro ano do atual formato do Acesso, foi com uma dose de favoritismo – devido à competência do trabalho impecável de um ano inteiro – que o Império da Tijuca encerrou os trabalhos inaugurais da Série A. O desfile marcou a estreia do carnavalesco Júnior Pernambucano pelo carnaval carioca, e foi apenas o início de um casamento com a escola da Formiga que durou cinco anos. Em reverência e exaltação às mulheres pretas, a escola desfilou toda a ancestralidade e legado de guerreiras, rainhas, quilombolas e artistas. A ideia principal do desfile era exaltar estas mil facetas de mulheres que protagonizaram suas próprias histórias, investidas no papel de representantes da força criadora e transformadora de todas as coisas. 

Visão panorâmica do belo desfile do Império da Tijuca no carnaval 2013. Foto: Raphael David/Riotour
O samba-enredo da turma de Samir Trindade embalou as grandes expectativas que se tinha para aquela noite, já que era considerado por muitos como o grande destaque da safra. A linha de início foi cruzada pelas mulheres da comissão de frente de Junior Scapin, representando as feiticeiras em culto à Eleyé. As vestes em tons escuros e saias alaranjadas contrastavam lindamente com a enorme entidade de asas pretas, figura central do grupo, em uma fortíssima apresentação que emanou muito axé na abertura da passagem do Imperinho. Esteticamente, o conjunto assinado por Pernambucano tinha lindas soluções de fantasias e alegorias. Um imponente trio de rostos trazia mulheres em cima de cada um deles e foi uma das imagens mais marcantes e, por que não?, simbólicas da apresentação da escola. Todo a força da aura feminina conduziu uma passagem sem defeitos da escola, que homenageou até Xica da Silva à frente dos ritmistas da Sinfonia Imperial. Com tamanha emoção, não tinha como ser diferente: a escola foi campeã com a pontuação máxima dos quesitos e entrou para a história dos grandes carnavais do Acesso.

Viradouro 2014 
(Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar)

Niterói já foi capital estadual e não fica para trás quando o assunto é excelência no mundo do samba. A competência do município se reflete não apenas nos desfiles das agremiações de origem na cidade, como também já foi enredo. Orgulhosamente, a Viradouro contou a história de sua região natal em um carnaval desenvolvido pelo jovem carnavalesco João Vitor Araújo. Ele estreou no posto após assessorar o trabalho de Max Lopes na vermelho e branco no anterior.

Início do desfile da vermelho e branco de Niterói em 2014. Foto: Gabriel Santos/Riotour
Já na comissão de frente, coreografada por Luciana Yegros, era trazida a imagem de Araribóia, o chefe dos temiminós, que ajudou os portugueses na conquista da Baía de Guanabara na disputa contra tamoios e franceses. Como recompensa, a terra logo próxima lhe foi dada - hoje chamada de Niterói. Dali pra frente, o desfile seguiu pela história da Cidade Sorriso, em conexões por diversos momentos com o próprio Rio de Janeiro, sua cidade vizinha. Mesmo que João Vitor ainda estivesse em fase inicial de sua construção como artista da festa, a agremiação apresentou um conjunto alegórico e de fantasias para nenhum carnavalesco experiente – tampouco o júri – colocar defeito. E se o visual brilhou, o que dizer do chão da escola? Na icônica paradinha de Mestre Pablo, dava para se escutar “canta, Viradouro!”, como gritavam os componentes, do outro lado da ponte. O orgulho de contar a história de seu chão transcendeu os limites físicos da Sapucaí e foi coroado com a conquista do tão sonhado campeonato da alvirrubra, que conquistou o direito de retornar ao Grupo Especial.

Unidos de Padre Miguel 2015 
(O Cavaleiro Armorial mandacariza o carnaval)

Uma das escolas que mais se destacou após a criação da Série A, a Unidos de Padre Miguel começou a mostrar sua envergadura no primeiro ano do novo formato ao trazer um enredo africano que mostrou a força do chão da Zona Oeste. No ano seguinte, em 2014, a vermelho e branco mais uma vez surpreendeu o público com seu carnaval grandioso e o belo trabalho estético de Edson Pereira no tema sobre charadas. Ainda distante dos primeiros lugar até então, a vermelho e branco mostrou que já estava pronta para sua consolidação definitiva em 2015, em um desfile que confirmou a sinergia desse casamento tão marcante da década.  

Clique da torre fotográfica da Sapucaí do carnaval da Unidos de Padre Miguel no carnaval 2015. Foto: Alexandre Macieira/Riotour
No enredo em homenagem ao movimento armorial, simbolizado pela figura de Ariano Suassuna, Edson confirmou todas as características que se fixaram no imaginário popular de sua estética: o luxo, as grandiosas esculturas articuladas e o apuro estético aplicados em belas fantasias e alegorias. Com uma grande atuação, o intérprete Marquinhos Art’Samba defendeu muito bem o simpático samba-enredo da escola, cantado a plenos pulmões pela comunidade de Padre Miguel. Ainda assim, mesmo com tantas qualidades, o desfile não foi considerado o campeão pelo júri, faturando o vice-campeonato após ficar apenas três décimos atrás da Estácio de Sá.

Paraíso do Tuiuti 2016 
(A farra do boi)

E falando em casamento entre agremiação e escola que marcou a década, saímos da Zona Oeste em direção a São Cristóvão para lembrar de outra parceria para lá de frutífera. Depois de alguns desfiles nem tão expressivos, a Paraíso da Tuiuti surpreendeu em 2015 ao trazer um enredo divertido e inventivo do carnavalesco Jack Vasconcelos sobre a obra de Hans Staden. Depois da 5ª posição alcançada, a parceria seguiu para mais um carnaval. Com a liberdade que precisava para desenvolver seus temas na escola, Jack mostrava sua maturidade artística naqueles carnavais depois de quase dez anos em atividade.

A deslumbrante apresentação da Tuiuti, assinada por Jack Vasconcelos. Foto: Wigder Frota


O enredo escolhido para 2016 já trazia a crítica e a irreverência que ficariam marcados entre o casamento dos dois para os próximos anos. Em “A Farra do Boi”, uma fábula nordestina sobre a história do Boi Mansinho, o artista falou da comercialização da fé de modo bem-humorado e cheio de brasilidade. O desfile começou com uma abertura negra impactante, com uma excelente comissão coreografada por Junior Scapin. O casal de irmãos Vinícius e Jackeline Pessanha também brilhou logo na cabeça da amarela e azul, trajando um figurino ousado e uma maquiagem arrepiante. O único senão do ótimo trabalho estético foi o curto nas duas primeiras alegorias que desfilaram sem iluminação, mas o que em nada prejudicou o conjunto geral. Para fechar o time campeão, a bateria SuperSom garantiu mais uma vez a nota máximo sob a batuta do mestre Ricardinho. Tanta qualidade técnica teve apenas um resultado possível: um título que ganhou todos os dez possíveis na apuração e fechou em impressionantes 270 pontos, garantindo a vaga no especial que o Tuiuti ocupa até hoje.  

Unidos de Padre Miguel 2017 
(Ossain: o poder da cura)

Primeiro ano da gestão do prefeito-bispo, inimigo declarado das escolas de samba, 2017 foi uma temporada marcada por aflições inimagináveis vividas dentro e fora da pista da Marquês de Sapucaí. A Unidos de Padre Miguel, sempre favorita na Série A pelos seus ótimos desfiles, preparou o enredo “Ossain: o poder da cura”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira. Com um samba elogiadíssimo e muito bem defendido por Pixulé, por mais um ano muito se aguardou a passagem da agremiação da Vila Vintém. 

O impactante abre-alas da escola no carnaval 2017. Foto: Fernando Grilli/Riotour
Aparentemente, a agremiação estava pronta para ascender ao Especial. O samba empolgava seus componentes e a escola pulsava, enquanto se via um arrebatador espetáculo visual. Após alguns minutos de desfile, a porta-bandeira Jéssica, durante sua apresentação, tropeçou e torceu o joelho. Rapidamente auxiliada pelo apoio da escola e pelo seu mestre-sala, Vinícius, a porta-bandeira se viu fisicamente impedida de continuar o desfile. Em um clima de tensão, Cássia, segunda porta-bandeira da escola, foi levada à frente das alas para se apresentar ao lado de Vinícius. A espera do mestre-sala, até que a substituição fosse feita, rendeu uma das imagens mais fortes daquele carnaval: sozinho, portou e protegeu seu pavilhão em posição de reverência, sem sua porta-bandeira. À época, o historiador Luiz Antônio Simas lembrou que, em alguns poemas de Ifá, Ossain é o orixá que tem apenas uma perna. Coincidência?

Vinicius segurando o pavilhão da escola após recém-lesão de sua porta-bandeira. Foto: Gabriel Monteiro/Riotour
Apesar de terem seguido firmes e cumprido muitíssimo bem seus deveres, a queda do casal ocorreu diante do módulo duplo, que ficava no Setor 6, gerando doloridos decréscimos. Além disso, a evolução da escola também acabou prejudicada. O desfile seguiu e a exuberância visual da UPM saltou aos olhos: todos os carros contaram com grandiosas esculturas articuladas e riqueza de detalhes cenográficos. As fantasias traziam uma sequência de orixás e a realização delas foi outro ponto alto da apresentação. Uma das primeiras alas trazia o iroko, com a árvore-orixá como elemento cenográfico, enredo da escola para o carnaval 2021. Ao fim daquela quarta de cinzas, a agremiação não ganhou o título, apenas um 5º lugar e um digno Estandarte de Ouro de melhor escola. Ainda que o resultado tenha sido justo, se o título não veio, novamente frustrando as expectativas do público, a UPM já tinha conquistado as páginas da história do carnaval com um desfile pulsante e inesquecível. 

Império Serrano 2017 
(Meu quintal é maior que o mundo)

Em seu oitavo carnaval longe do Grupo Especial, o Império Serrano vinha de bons resultados, com exceção de 2014, mas não conseguia desencantar. Em 2017, depois de duas boas apresentações assinados por Severo Luzardo, a escola apostou no jovem carnavalesco Marcus Ferreira para desenvolver uma homenagem à vida e à obra de ninguém menos que o poeta Manoel de Barros. A abertura da escola com um abre-alas metade dourado, metade barroso, fazendo alusão ao Eldorado e ao Pantanal, foi uma belíssima primeira imagem de desfile. Ela trazia uma escultura segurando a coroa, símbolo maior da Serrinha, e foi o ponto de partida para um conjunto alegórico de ótimo nível.

O inexorável símbolo do Império Serrano: a coroa imperial. Foto: Paula Portilho/Riotour
Ainda que pudesse haver discussão sobre ser ou não o melhor samba do ano, a letra e melodia entoadas pela Serrinha tinham versos inspirados que propiciaram um canto orgulhoso dos componentes e das arquibancadas. Um dos grandes destaques daquela apresentação, vale ressaltar, foi o casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Feliciano Junior e Raphaela Caboclo. Em vestes sem as tradicionais penas utilizadas, mas feitas de capim seco, os dois jovens e experientes talentos representavam o índio e a perdiz, personagens de “O primeiro poema” - curiosamente o último poema do livro “Menino do mato” de autoria do homenageado. Como o que não podia faltar era a aura da poesia, o Império Serrano foi catártico e fez uma excelente apresentação. “Pelo toque do agogô”, já sabíamos que a possibilidade de gritar “é campeã” na quarta-feira era grande. Não deu outra: no seu 70° ano de vida, o Menino de 47 soltou o grito entalado e explodiu Madureira, já que a Portela também havia conquistado o caneco do Grupo Especial naquela tarde. 

Unidos do Viradouro 2018 
(Vira a cabeça, pira o coração - Loucos, gênios da criação)

Unidos da Expectativa poderia substituir muito bem o nome da Viradouro em 2018 até os últimos segundos antes do desfile. No ano anterior, a escola ganhou uma injeção de dinheiro a pouquíssimos dias do desfile desenvolvido por Jorge Silveira, que terminou com o vice-campeonato. Para o carnaval em questão, depois da chegada da família Calil à gestão da agremiação e de todo um planejamento de reestruturação, a Viradouro possuía boas credenciais no pré-carnaval. Com o enredo sobre figuras geniais, Edson Pereira tinha a missão de fazer jus e representar muito bem os versos do samba que diziam “sou Viradouro, sou paixão”, em alusão a um famoso samba de outros carnavais. 

O imponente abre-alas da escola foi uma das marcas da grandiosidade daquele desfile. Foto: Raphael David/Riotour
O orgulho de ser viradourense, naquele momento, significava tanto a força da comunidade em abraçar a escola e os feitos de sua diretoria quanto a demonstração a todo o público de que o projeto da Viradouro era a aliança entre uma boa administração e uma comunidade forte que rasgava a pista. Com um barracão adiantadíssimo e grandioso, a agremiação pisou forte na Marquês para contar as invencionices e loucuras de grandes mentes criadoras da humanidade, e apresentou um carnaval de alto nível. Longe de ser uma obra-prima, mas contagiante, o samba foi fortemente comunicado pela sempre ativa comunidade da escola, muitíssimo identificada com o intérprete Zé Paulo Sierra. Começou aí o primeiro dos grandes passos da Viradouro na história recente dos desfiles: deu Niterói nas cabeças e a escola foi consagrada a grande campeã da Série A naquele ano. A apresentação marca a retomada da vermelho e branco de maneira poderosa que a levou para o título conquistado esse ano no grupo Especial. 

Acadêmicos do Cubango 2018 
(O rei que bordou o mundo)

Resgata, Cubango! Depois de brigar fortemente pelo título do Acesso no início da década, a verde e branco de Niterói acabou patinando entre desfiles menos impactantes nos anos seguintes. Com uma apresentação problemática em 2017, a má-fase gerou uma eleição agitada no pré-carnaval para o ano seguinte. A chapa Resgata Cubango fez forte oposição ao grupo liderado pelo então presidente Pelé, o qual acabou deixando o comando da escola após quatorze anos. Rei morto, rei posto. A nova direção decidiu apostar em uma dupla de estreantes na Sapucaí: Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Eles tinham dado o título da Série B de 2016 para a vizinha Acadêmicos do Sossego.

A história de Bispo do Rosário foi contada de forma espetacular pela dupla de carnavalescos. Foto: Gabriel Monteiro/Riotour
Após a especulação sobre um enredo acerca da cidade de Nova Friburgo, a dupla conseguiu propor um tema sobre Arthur Bispo do Rosário, dialogando com a tradição de enredos negros da agremiação. A inovação se dava ao exaltar uma personalidade pouco conhecida no senso comum, ainda que badalada no circuito das artes visuais. Embalados por um ótimo samba-enredo que captou da linha poética do enredo, os estreantes conseguiram carnavalizar de modo brilhante a estética do homenageado. As alegorias e fantasias não mostraram uma simples cópia de suas obras, mas reinventaram-nas na linguagem carnavalesca. Com momentos emocionantes, o destaque vai para a última alegoria do desfile, que trouxe uma reprodução gigantesca e artesanal do Manto de Apresentação, uma das obras mais marcantes de Bispo do Rosário, criada pelo artista para seu encontro com o criador. A apresentação marcou o renascimento da escola de Niterói e o talento de Leonardo e Gabriel, numa estreia brilhante. O desfile acabou no 5º lugar do grupo, após apresentação canetada em harmonia e evolução. 

Imperatriz Leopoldinense 2020 
(Só dá Lalá)

Após uma apresentação complexa em 2019, a Imperatriz surpreendentemente compôs a dupla de escolas rebaixada do Grupo Especial. Sua diretoria bem que tentou aplicar a terceira virada de mesa seguida no carnaval carioca, mas não conseguiu, então tratou de se reforçar. Ela decidiu contratar o carnavalesco mais badalado do momento, Leandro Vieira, quem já havia dando expediente na agremiação como figurinista nos belos desfiles de 2013 e 2014. Com o atraso da escola em se preparar para o carnaval depois dos imbróglios jurídicos-liesáticos, a solução foi apostar em uma reedição. Com isso, a canção escolhida foi a apresentada em 1981, em homenagem ao compositor Lamartine Babo. Batizado originalmente de “O teu cabelo não nega”, o enredo foi alterada para “Só dá Lalá”.

Abre-alas que iniciou o primoroso conjunto alegórico da escola. Foto: Wigder Frota

Reinterpretando o desfile antes assinado por Arlindo Rodrigues, Leandro Vieira deu mais uma aula estética, apostando na singeleza e no colorido das alegorias e fantasias. A Imperatriz desfilou de forma leve e vibrante na pista, passeando por antigas carnavais, pelas festas juninas e pelos times de futebol para os quais Lamartine compôs seus hinos. A comissão de frente também contou com um reforço poderoso: a dupla Beth e Hélio Bejani fez um excelente trabalho visual. No microfone, a nostalgia falou alto no retorno de Preto Joia para dividir a condução da clássica obra de Zé Katimba com Arthur Franco, embalados pela ótima bateria de mestre Lolo. Esta contou com ninguém menos que a badalada cantora Iza reinando à frente dos ritmistas. Diante de uma apresentação impecável e arrebatadora, a Rainha de Ramos se reencontrou na pista, faturando inquestionavelmente o título com a pontuação máxima.


Menções honrosas: 

Haja desfile bom! Para conseguirmos chegar a esses dez, muitos ficaram de fora! Mas não tema: separamos algumas outras grandes apresentações que deixaram seu lugar no coração do sambista e ganham nossa menção honrosa. 


Paraíso do Tuiuti 2015 (Curumim chama cunhantã que eu vou contar…)

Caprichosos de Pilares 2015 (Na minha mão é mais barato)

Porto da Pedra 2016 (Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?)

Rocinha 2017 (No saçarico do Marquês, tem mais um freguês)

Unidos de Padre Miguel 2018 (Eldorado submerso: Delírio Tupi-Parintintin)

Cubango 2019 (Igbá Cubango, a alma das coisas e a arte dos milagres)

Estácio de Sá 2019 (A fé que emerge das águas)

Inocentes de Belford Roxo 2020 (Marta do Brasil - Chorar no começo para sorrir no final)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos seus desfiles marcantes do Acesso?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidade… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!

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