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Carnavalize

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.

Foto: Fernando Grilli/Riotur
Sempre bem quistos no carnaval, os enredos de temática "afro" se tornaram garantia de bons sambas, com pegada e força para embalar um bom desfile. Historicamente ligadas às religiões afro-brasileiras, as escolas de samba demoraram a levar esta temática de fato para suas apresentações. A forte negociação com o poder público acabou por fazer as agremiações cantarem a história oficial branca durante muito tempo. Por isso, foi apenas em 1966 que o nome de um orixá apareceu num samba-enredo pela primeira vez, quando a São Clemente e o Império Serrano inseriram "Iemanjá" em suas letras. 

Louvando as temáticas de raízes africanas, preparamos essa lista cheia de axé, focando nos enredos biográficos dos orixás, que se tornaram muitos comuns na Série A nos últimos anos, mas que já foram contados há décadas. Então, prepare o terreiro e vem com a gente nesse xirê.

Arranco 1977 - Logun, príncipe de Efan


Foi só em 1977 que se registrou o primeiro samba-enredo biográfico sobre um orixá afro-brasileiro, segundo o livro "Samba de Enredo: história e arte", de Luiz Antônio Simas e Alberto Mussa. A história se torna ainda mais curiosa por se tratar de uma das divindades menos conhecidas em terras brasileiras. 

Logunedé, que significa feiticeiro de Edé, é o filho de Oxóssi e Oxum, nasceu no gênero masculino mas ganhou o poder de se transformar para o feminino. Na versão cantada pela azul e branco do Engenho de Dentro, Logun seria um bastardo condenado após a morte de Xangô, marido da deusa das águas doces. O obra tem uma belíssima letra e garantiu não só um honroso vice-campeonato para a agremiação na segunda divisão da folia carioca, como também o Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo naquele ano. 

Imperatriz 1979 - Oxumaré, a Lenda do Arco-íris


Dois anos depois, finalmente, um orixá teve sua história contada numa escola do primeiro grupo. E esse suposto pioneirismo aconteceu por uma escola inusitada, a Imperatriz Leopoldinense, que é pouco ligada historicamente a temas "afro". A Rainha de Ramos levou para a Avenida "Oxumarê, a Lenda do Arco-íris", um enredo que tinha como figura principal um dos mais conhecidos orixás, simbolizado pelo arco-íris e por uma grande serpente, que liga os reinos de Orun e Ayê (terra e céu). 

O desfile trouxe os príncipes africanos em sua comissão de frente, moças e alas nas sete cores do arco-íris e, claro, a roda da fortuna de Oxumarê, já que o intuito era trazer a lenda do arco-íris sob a perspectiva da tradição afro no Brasil. No final, o resultado conferiu à escola um sétimo lugar e a Avenida reverenciou as cores do majestoso orixá! Arroboboi!

Império da Tijuca 2015 - O Império nas águas doces de Oxum 

Fonte: G1

Dando um grande salto no tempo, desembarcamos no Morro da Formiga, que logo após a ligeira passagem pelo grupo especial levou à Sapucaí toda a riqueza, beleza e fertilidade de Oxum, mãe do ouro, da beleza e dos amores. O enredo, desenvolvido por Junior Pernambucano, foi batizado de "O Império nas Águas Doces de Oxum". A trajetória da iabá começa em seu nascimento no ventre de Odudúa e passa por suas águas doces, símbolo da fertilidade, onde reina soberana e dança com seu abebê encantado, sempre formosa e discreta. 

A rainha das águas doces foi representada por Érika Januza no desfile oficial e a escola, no fim das contas, conquistou um modesto sexto lugar no seu primeiro ano de volta à Série A, mas encantou com majestosa passagem, digna da homenageada. Ora, ieie ô! Salve Oxum!

Alegria da Zona Sul 2016 - Ogum

Foto: Widger Frota

Ogum é um dos orixás masculinos mais difundidos no imaginário brasileiro, talvez por seu forte sincretismo com santos igualmente muito cultuados. No Sudeste, possui forte ligação com o popular São Jorge, enquanto na região Nordeste, com Santo Antônio. Ogum é o orixá guerreiro, senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Era ele mesmo quem forjava suas ferramentas, tanto para a caça, quanto para a agricultura e para as batalhas.

A história do orixá foi narrada pela Alegria da Zona Sul em 2016, assinada pelo carnavalesco Marco Antônio Falleiros, passando desde a origem do guerreiro até toda sua atuação entre Orun e Ayê, terminando, obviamente, com sua ligação ao santo guerreiro católico. Com um desfile agradável, que se destacou pelo samba valente e forte, a vermelho e branco da Zona Sul terminou na modesta décima posição. Ogunhê!

Renascer de Jacarepaguá 2016 - Ibejís, nas brincadeiras de crianças: Os orixás que viraram santos no Brasil.

Foto: G1
Os Ibejis são entidades pouco conhecidas, mas que no Brasil ganharam novas proporções com o desenvolvimento do sincretismo afro-católico. As divindades gêmeas foram aglutinadas na figura de São Cosme e Damião, num complexo e fascinante processo de troca cultural. A mistura acabou por fazer do Brasil um dos poucos lugares do mundo onde os santos católicos são representados com feições infantis, sem ainda falar na inclusão de Doum nessa mistura boa, mais fortemente na umbanda. 

Toda essa relação complexa de troca e negociação entre as culturas europeias e africanas foi contada na apresentação da Renascer de Jacarepaguá em 2016, no desfile assinado por Jorge Caribé, que possui reconhecida experiência na temática. O desfile foi leve e empolgante, como pedia a temática, embalado por um samba leve, encomendado a grandes compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo e Teresa Cristina, no modelo que a vermelho e branco segue desde 2014.

Unidos de Padre Miguel 2017 - Ossain, o poder da cura 

Foto: Riotur

Um dos carnavais recentes mais marcantes contando a história de um orixá foi o desenvolvido pela Unidos de Padre Miguel em 2017. A escola, que tem se fixado pela estética afro, optou por louvar um membro pouco difundido do panteão africano. Ossain é orixá ligado às folhas, à cura e à força da floresta, e, embora fundamental, acabou se tornando pouco difundido pelos terreiros brasileiros. 

O desfile maravilhoso foi o último do bem-sucedido casamento da escola de Padre Miguel com Edson Pereira, apostando em grandes esculturas e alegorias monumentais muito bem elaboradas. Apesar de toda a beleza e força, é impossível esquecer do trágico incidente que marcou a apresentação: a queda da primeira porta-bandeira que acarretou na torção de sua perna, durante sua dança para o módulo duplo - já extinto - de julgadores. Vale lembrar que o orixá é, por vezes, representado exatamente com apenas uma perna só. Arrepiante!

 Império da Tijuca 2018 - Olubajé: um banquete para o rei 

Última alegoria do Imperinho do desfile de 2018 (Foto: Carnavalesco)

Atotô! 2018 marcou o primeiro ano da escola da Tijuca após o seu longo e bem sucedido casamento com o carnavalesco Junior Pernambucano, especialmente ligado aos grandes desfiles com temática afro. Mas mesmo com a saída do artista, o Morro da Formiga se apresentou apostando na magia dos orixás, sob comando de Sandro Gomes e Jorge Caribé. 

"Olubajé, um Banquete para o Rei" foi o enredo que saudou Olubajé com uma grande homenagem, desde o seu nascimento, passando pela transformação em um bom caçador e encerrando com um lindo banquete em plena Sapucaí, com, claro, banho de pipoca no final! A estética da agremiação surpreendeu por sua beleza e força, contando o enredo de maneira digna e com um grande samba composto por uma parceira encabeçada por Samir Trindade. 

Foto: Rádio Arquibancada
Apesar de um discurso que critica os enredos sobre as macumbas brasileiras por sua repetição temática e visual, em alguns casos, é sempre importante as escolas de samba reafirmarem suas raízes africanas, sobretudo num cenário intolerante e segregador. Mas sem nunca deixar de procurar novas soluções estéticas e narrativas para temas já conhecidos por parte do público. Nós que adoramos um xirê estamos sempre preparados para incorporar na avenida e ver ainda muitos orixás sendo celebrados na Sapucaí! Axé! 

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Por Leonardo Antan



Dia dois de fevereiro, dia da rainha. Dos terreiros à figura sincrética religiosa, a deusa das águas salgadas suplantou barreiras no imaginário brasileiro. Fruto da miscigenação e do sincretismo, a rainha do mar se tornou uma figura religiosa brasileira ecumênica, celebrada pelos mais diferentes povos. Seja jogando suas rosas no dia 31, seja participando das procissões no dia 2, todos já saudaram a ela. E no carnaval, festa sincrética por natureza, a mítica orixá já rendeu não só pelos sambas, mas alegorias inesquecíveis. E entre versos e imagens, listamos representações marcantes da sereia. 


"Yerê, yerê de abê ocutá em louvor à rainha do mar Iemanjá, Iemanjá"


Como sabemos, não foi sempre que a cultura negra esteve presente no enredo das escolas de samba, apesar da formação identitária negra, as agremiações, sempre negociadoras,, cantavam a história oficial branca em seus desfiles. Por isso, foi apenas em 1966 que o nome de um orixá apareceu num samba-enredo pela primeira vez, e a honrada foi exatamente a rainha dos mares. E logo por duas escolas, a São Clemente e mais marcantemente no samba do Império Serrano, com "Glórias e Graças da Bahia". 



Depois, foi em 1969 que a orixá entrou de vez no imaginário carnavalesco. No que podemos chamar de a primeira grande alegoria das escolas de samba, reverenciada e lembrada até hoje. O cenário era a grande revolução salgueirense liderada por Pamplona e Arlindo, o enredo "Bahia de todos os deuses". Já passava do meio-dia e o ânimo da escola não era dos melhores, diz a lenda que a escultura sairia no fim do cortejo e, como forma de melhorar a apresentação, decidiram trazer a bela sereia para a frente. 

Com cerca de três metros de largura e dois de altura, a alegoria, concebida por Arlindo Rodrigues e realizada por Joãosinho Trinta, introduzia o uso do espelho no carnaval. Conforme ela foi passando pela concentração, seu brilho à luz da manhã foi levantando os desanimados componentes. O impacto foi tanto que coroou um desfile campeão da lendária década negra salgueirense. Dizem, ainda, que o brilho era tanto que a tecnologia fotográfica da época não era o suficiente e, por isso, os registros da alegoria não são dos melhores.



Em 1971, o Império da Tijuca seguiria a tendência lançada pelo Salgueiro anos antes, cantando o enredo "O Misticismo da África ao Brasil", a agremiação representou a divindade afro-brasileira num belo carro alegórico. 

Império da Tijuca em 1971 (Foto: O Globo)

Anos depois, em 1976, a Unidos de Lucas nos brindaria com outro dos seus sambas inesquecíveis. O belíssimo "Mar Baiano em Noite de Gala" contaria os festejos baianos dando ênfase ao dia 2 de fevereiro. O enredo foi assinado por Max Lopes, então iniciante na agremiação. Ouça:




No mesmo ano, o Império Serrano, comandado pelo carnavalesco Fernando Pinto, apresentaria uma samba-enredo que se tornaria clássico ao falar da deusa. "A lenda das sereias, rainhas do mar" abordava diversas entidades aquáticas, dando destaque a Iemanjá. O enredo seria reeditado em 2009, por Márcia Lage, dando nova forma à rainha do mar. O samba viraria clássico da MPB na voz de vários intérpretes, como Marisa Monte.

O desfile do Império Serrano de 1976.

Em 1982, a Serrinha voltaria a prestar homenagem à rainha dos mares. O enredo “Bumbum paticumbum prugurundum” sobre a história das escolas de samba até ali eternizaria uma homenagem a Iemanjá salgueirense de 1969, lembrada no clássico verso "Iemanjá enriquecendo o visual". A divindade apareceu redesenhada por Lícia Lacerda e Rosa Magalhães, herdeiras do mestre Pamplona, no último título Império Serrano.

Desfile Imperiano de 1982. (Foto: O Globo)

Passados nove anos, outra homenagem marcante veio no enredo sobre as águas da Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1991. O carnaval "Chué, chuá, as águas vão rolar", de Renato Lage e Lilian Rabello, fazia uma citação aos orixás ligados ao elemento natural e não faltou uma belíssima alegoria com espelhos e elementos clássicos ligado à deusa das águas salgadas. 



Famosa por algumas apresentações afro marcantes, a Beija-Flor já trouxe belas Iemanjás para a Sapucaí. Uma das mais simbólicas, foi a inovação na representação da deusa afro-brasileira, sem seus espelhos e cabelos compridos característicos. No enredo de 2007, a comissão de carnaval liderada por Alexandre Louzada optou por não trazer a imagem clássica de um navio negreiro marcando a vinda dos negros escravizados para o Brasil. Numa visão lúdica, o carro alegórico os trazias carregados no braço da divindade afro-brasileira, que ganhou uma representação estilizada. 

(Foto: Widger Frota)

Anos mais tarde, em 2011, quando homenageou Roberto Carlos, a azul e branco nilopolitana trouxe a versão mais conhecida de deusa numa alegoria que lembrava os cruzeiros marítimos do cantor brasileiro. 



Com dois enredos exaltando a Bahia em 2012, não faltaram lindas sereias no desfile das escolas de samba daquele ano. Tanto a Portela, com seu samba arrasta-quarteirão sobre as festas baianas, lembrou a divindade na letra da sua música: "No mar, procissão dos navegantes, eu também sou almirante de Nossa Senhora Iemajá". Como também, a entidade apareceu numa representação prateada na segunda alegoria da agremiação de Madureira. Logo na sequência do desfile, a Imperatriz prestou tributo ao escritor Jorge Amado e trouxe a deusa das águas logo em seu abre-alas, no carnaval assinado por Max Lopez.

Segundo carro do desfile portelense de 2012.

Na terra da garoa, as águas já rolaram várias vezes. Uma história curiosa envolvendo a orixá é o desfile emblemático da Rosas de Ouro em 2005, com o seu "Mar de Rosas". O belo samba da escola cantava "Iemanjá, abre os caminhos minha escola vai passar", mas a divindade só apareceu representada no fim do cortejo da azul e rosa. O que acabou não trazendo muita sorte, já que logo na sequência desfilou o Império de Casa Verde, que acabou campeão daquele carnaval, enquanto a Roseira amargou o sétimo lugar.



Outras representações marcantes sobre o tema na folia paulista vieram da Águia de Ouro em 2014, que cantou o centenário do cantor e compositor Dorival Caymmi. Famoso por suas canções envolvendo o mar, uma grande deusa afro-brasileira veio abrindo os caminhos do ótimo desfile da agremiação. Anos depois, em 2016, a Tucuruvi cantando as festas de fé, sob a assinatura de Wagner Santos, também representou os festejos em louvação a famosa entidade.

A imponente Iemanjá da Águia de ouro em 2014.

Fechando essa lista extensa, a Mangueira louvou a orixá duas vezes nos últimos anos. Primeiro em 2014, quando tratou das grandes festas brasileiras, a louvação a Iemanjá ganhou sua própria alegoria no desfile assinado pelo professora Rosa Magalhães. 


E mais recentemente, no último carnaval, mais uma vez a dona das águas salgadas ganhou uma marcante representação na apresentação da verde e rosa. Com o enredo "Só com a ajuda do santo", o carnavalesco Leandro Vieira dedicou a alegoria do setor que abordava o sincretismo para exaltar a rainha. De aspecto simples, a escultura da vinha num barco em meio as águas e composições que lembravam a cantora Clara Nunes, com cestos de flores e efeitos de água, numa alegoria basicamente pintada. 



Foi só em 2019 que Iemanjá ganhou finalmente um enredo totalmente dedicada a ela e seus festejos, apresentando pela Renascer de Jacarepaguá na Série A. "Dois de fevereiro no Rio Vermelho", da dupla Alexandre Rangel e Raphael Torres, que se transformou num belíssimo samba composto por Cláudio Russo, Moacyr Luz e Diego Nicolau. A letra evocava não só a divindade e seus festejos, mas mergulhava no imaginário de Salvador e seus pontos mais famosos, além de uma citação a obra de Jorge Amado. 


O belo e animado desfile contou com diversas representações da deusa em suas alegorias, tanto as versões embranquecidas quanto as negras, mostrando a complexidade da formação dos cultos a rainha e seu aspecto sincrético. Não deixando de permear o imaginário baiano que a envolve. 


O abre-alas trouxe uma Iemanjá com feições negras, apostando numa pintura prateada. A alegoria simbolizava a diáspora africana de maneira poética, afinal, foi a vinda dos escravizados que popularizou em terras brasileiras o culto a divindade, que seria fundida tanto as santas católicas como divindades indígenas, como a Iara. 


A terceira alegoria criada pelos Alexandre Rangel e Raphael Torres reproduzia o museu Casa de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho. O espaço abriga um centro sincrético em devoção a deusa, além de assistir a todo dia  2 de fevereiro a procissão em homenagem à Rainha que atravessa o mar da costa soteropolitana. Na escultura principal da alegoria, uma Iemanjá embranquecida foi representada como uma sereia e espelho, mostrando o sincretismo com Iara. Na frente da alegoria, dois foliões lembravam o escritor Jorge Amado e a sua personagem Gabriela. A casa do baiano fica no bairro que dava título ao enredo. 


Por fim, uma enorme embarcação simbolizando o cortejo marítimo em homenagem à rainha norteou a proposta da última alegoria, que trouxe dessa vez uma representação mais clássica da divindade, corando uma bela apresentação da Renascer que terminou em sétimo lugar. 




Hoje e sempre, salve a rainha do mar! Odoiá!

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por Beatriz Freire


De volta com as listas temáticas, o Carnavalize embarca em mais um 7x1 para mostrar sambas afro pouco conhecidos pelo grande público. O conceito de tempo é relativo e, com certeza, nem todas as obras são totalmente desconhecidas, sobretudo pelos bambas que caminham há mais tempo que nós na estrada da folia. O importante, no entanto, é permitir que conheçamos sambas bonitos e que foram esquecidos, ou talvez nunca lembrados, pelos foliões ao longo de tantos anos. Assim, nossas duas e até três gerações podem sentar juntas e apertar o play para relembrar, descobrir e se apaixonar pelos hinos de escolas que cantaram temáticas negras em nosso carnaval. Apertem os cintos porque nossa viagem ao passado começa agora.


A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó 
Unidos do Cabuçu (1983)


A Unidos do Cabuçu, do fim da década de 70 até os primeiros anos de 80, ficou conhecida como uma escola extremamente competente por fazer lindos sambas com a temática africana. Como a lista abrange apenas 7 faixas, a prioridade será dada à variedade de escolas. Cabe, no entanto, louvar o samba de 1981 da agremiação, "De Daomé a São Luis, a pureza mina jêje'', que carrega beleza singular e seria facilmente encaixado ao lado do que será apresentado. Fato é que o Cabuçu, em 1983, levou ao público momesco o enredo "A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó" para o seu desfile, à época pelo grupo 1B. O samba de enredo composto por Grajaú e Jacob é um dos mais bonitos da história da escola e talvez até mesmo do Acesso carioca. Pode ser que não tenha alçado voos mais altos – e conquistado seu lugar num imaginário popular ao lado dos outros hinos antológicos – por conta da pouca visibilidade que se perpetua, principalmente dos antigos carnavais, aos grupos mais baixos das divisões do carnaval. De toda forma, o samba conduzido por Di Miguel, intérprete da agremiação, conquistou o coração de muitos sambistas e torcedores da escola, carregado de muita história a respeito dos reinos iorubás de Ifé e Oyó. Sob o talento dos carnavalescos Gustavo Coutinho e Ronaldo Marins, a escola do Lins conseguiu um confortável 4º lugar – posição que lhe deu estabilidade para o campeonato no carnaval seguinte – naquele ano carregado de axé.


Orun-Ayê 
Boi da Ilha (2001)


O Boi da Ilha pode não ser um conhecido do grande público que acompanha o carnaval quando fevereiro se aproxima. É, porém, uma escola que há alguns anos conta com a simpatia dos sambistas fiéis ao festejo. Sem nunca ter alcançado os holofotes do Grupo Especial, a agremiação teve seus melhores momentos em passagens pelo Grupo A. A primeira delas acontece justamente em 2001, o que torna tudo melhor, ainda mais pelo enredo a ser apresentado naquele ano; "Orun-Ayê" foi a temática escolhida pelo carnavalesco Guilherme Alexandre para o desfile da escola da Freguesia da Ilha do Governador. O enredo contava o mito da criação e a coexistência de Orun, palavra iorubá que se refere ao mundo espiritual, e do Ayê, que está ligado ao mundo físico. A história desenvolvida rendeu um lindo samba, composto por Aloisio Villar, Paulo Travassos, Silvana da Ilha e Clodoaldo Silva. O microfone, por sua vez, foi comandado pela bela voz de Ronaldo Yllê, e o lindo conjunto de letra e melodia rendeu à agremiação a premiação do Estandarte de Ouro de melhor samba. Com ventos mais do que favoráveis, a escola insulana conquistou um satisfatório quinto lugar pelo Grupo A, melhor resultado nesses seus quase 30 anos de vida.

Geledés, o retrato da alma
Arranco (2006)


Contando a história das máscaras e da personalidade humana por meio delas, da África antiga ao momento à época, o Arranco também presenteou o mundo do samba com uma belíssima obra. O ano era 2006 e a escola estava de volta ao Grupo A, após um período de quase 10 anos em uma divisão mais baixa. Jorge Caribé, carnavalesco conhecido pelo seu competente trabalho de enredos afro, foi o profissional que assumiu a agremiação do Engenho de Dentro e teve que driblar os problemas financeiros e a falta de recursos para montar o carnaval daquele ano. Com o papel e o lápis na mão, os consagrados compositores Sylvio Paulo e Juan Espanhol se uniram a Fernando, Bira Só Pagode e Bola para dar ao carnaval um dos sambas mais bonitos de 2006. Zé Paulo Sierra, que fez sua estreia como intérprete oficial, comandou o canto com pouco menos da experiência que era necessária, é verdade, mas conseguiu dar voz ao hino que ganharia prêmios de melhor samba-enredo; Estandarte de Ouro, o troféu S@mba-net, Jorge Lanfond e Tribuna da Imprensa foram as premiações concedidas. O resultado da quarta de cinzas garantiu a permanência no Grupo A para 2007, a partir de um 7º lugar.

As três mulheres do rei 
Império da Tijuca (1979)


Não é de hoje que o primeiro Império da corte do samba faz enredos africanos que trazem novos e bons ventos. Desde os anos 50, a escola já mostrava como contar uma boa história vinda lá da Mãe África. Nos anos 70, fez uma aposta firme na temática e especificamente para o ano de 1979 apresentou o enredo "As três mulheres do rei", desenvolvido pelo carnavalesco Mário Barcelos. A história girava em torno de Xangô e suas três esposas: Obá, Oxum e Oyá. O samba que embalou o desfile do Imperinho foi composto e cantado por Marinho da Muda, figura do bairro e da própria escola. A beleza, além da letra singela, objetiva e bem costurada, fica justamente pelo tom melódico do samba e da própria voz de Marinho. O resultado foi um campeonato que coroou mais uma vez a comunidade do Morro da Formiga.



Ganga Zumba, raiz da liberdade 
Engenho da Rainha (1986)



Tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, o Engenho da Rainha também entrou na nossa lista, e com muito louvor. A escola apresentou, em 1986, um lindo samba que cantava o enredo de Elson Mendes sobre Ganga Zumba, o primeiro líder de Palmares, e a passagem da opressão, do sofrimento e da dor ao anseio e luta por liberdade, através da simbólica resistência do Quilombo dos Palmares. Ciganerey, que ainda era conhecido como Paulinho Poesia, cantou os lindos e melodiosos versos escritos pelas mãos de Jacy Inspiração, Bizil, De Minas e Guará. Felizmente reconhecido, o samba faturou o prêmio do Estandarte de Ouro e, injustamente, a escola amargou um satisfatório 4º lugar, que garantiria pelo menos a permanência da escola no Grupo 1B.

Catopês do Milho Verde, de escravo a rei da festa 
Colorado do Brás (1988)


O Colorado de Brás, no centenário da Lei Áurea, levou a afrobrasilidade para o público e nos presenteou com um dos sambas mais bonitos da folia paulista. O enredo "Catopês do Milho verde, de escravo a rei da festa" fazia referência a Chico Rei e ao catopê, tipo de dança do congado, uma tradição encontrada em Minas Gerais a partir da figura do príncipe-escravo que conseguiu sua liberdade. O festejo tem ligações religiosas com Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, exatamente o que foi cantado pela escola num samba escrito por Dom Marcos, Edinho, Xixa, Minho e Roná Gonzaguinha. Apesar da fama na Terra da Garoa, as novas gerações pouco conhecem o hino que foi cantado pelo próprio Dom Marcos e, mais tarde, por Freddy Vianna em uma reedição da própria escola. Chico Rei coroou, assim, o Colorado com o 9º lugar do Grupo Especial de SP.

Do Iorubá ao Reino de Oyó 
Cabeções da Vila Prudente (1981)


Finalizando nosso 7x1, a escola da Vila Prudente pede passagem para seu maior samba. Como dito anteriormente, não é totalmente desconhecido – é, na verdade, bem elogiado pelos bambas e cantado até em rodas do Rio de Janeiro – mas ainda é um samba desconhecido por muitos. O microfone foi assumido por Dom Marcos, também compositor, e mais tarde regravado por Leandro Lehart, quando ganhou maior destaque. Fez, também, uma ponte aérea RJ-SP e foi parar na Sapucaí com a Unidos de Padre Miguel, em 2013, sendo usado como esquenta da escola da Zona Oeste. Aos apaixonados de pouca idade ou aos que por alguma razão desconhecem o samba, fica a oportunidade de escutar e aprender uma das maiores joias do querido carnaval paulista, que, apesar da beleza, embalou um desfile que garantiu um 10º lugar no Grupo Especial naquele ano.

A temática africana no carnaval não é novidade para ninguém; apesar disso, a lista mostra como o assunto rende histórias muitas vezes não contadas e sambas lindos, que nem sempre permanecem na memória do grande público. Mais uma vez, repetimos que há uma lista interminável de faixas que poderíamos citar, como o belíssimo samba de 1979 da Imperadores do Samba (ouça abaixo), escola de Porto Alegre. De toda forma, a dica de quem vos escreve é que se deliciem e aprendam muito com estes verdadeiros hinos e que busquem outros novos para que possamos dividir e repassar às novas gerações aquilo que formou o nosso carnaval atual. Até a próxima!




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