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Carnavalize

 

Arte por Lucas Monteiro

Texto: Débora Moraes
 
Rosa Magalhães e Leandro Vieira são os carnavalescos que mais tiveram seus trabalhos exibidos em exposições em instituições de arte. Além de colecionarem esse título, ambos tiveram apenas uma exposição individual dedicada ao que haviam apresentado naquele ano com o mesmo objetivo: mostrar que existe muito mais na produção do carnaval das escolas de samba do que o exibido no desfile. Nesse texto, vamos analisar como a cobertura dos jornais sobre as duas exposições e os dois carnavalescos foi diferente, mesmo com as exposições sendo tão semelhantes, a ponto de até as fotos ilustrando as matérias (que possuem 27 anos de diferença) serem parecidas.

A exposição do Leandro acontece com o apoio do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que acompanhou todo o processo da Mangueira para 2017, contribuindo para a pesquisa sobre o enredo e registrando a memória do processo, que resultou na exposição e na publicação “Arte e Patrimônio no carnaval da Mangueira”. “#bastidoresdacriação – Arte aplicada ao carnaval” foi uma das quatro exposições inauguradas em junho de 2017, no Paço Imperial, como parte da agenda de comemoração dos 80 anos do Iphan.

Figurinos em exposição no Paço Imperial, 2017, foto de Léo Martins.

Já “Salgueiro 90” é organizada por Rosa Magalhães junto com a direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tendo a agremiação alvirrubra pago cerca de Cr$500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros) para a exposição acontecer. Para os jornais, Rosa afirma que “não são todas as escolas que têm condições de bancar um projeto desse tipo”, indicando que os quinhentos mil cruzeiros que custou era um preço elevado. Para termos uma ideia dos valores à época, na transmissão do carnaval de 1990 pela Globo, durante o desfile da São Clemente (então também parte do Grupo Especial), os repórteres perguntam aos foliões o preço das fantasias, e uma delas diz ter pagado NCZ$ 600,00 (seiscentos cruzados novos), o que alega ser “muito barato”. Um dos repórteres anuncia que para participar dos desfiles estava sendo cobrado a turistas o preço de NCZ$ 3.000,00 (três mil cruzados novos), com fantasia inclusa. E outra repórter pergunta a uma foliã, que diz ser lojista e ter pagado NCZ$ 3.500,00 (três mil e quinhentos cruzados novos), se ela precisou economizar o ano todo para comprar a fantasia. A moeda mudou do Cruzado Novo (NCZ$) para o Cruzeiro (Cr$) em março de 1990, e a conversão entre as moedas era NCZ$ 1,00 para Cr$ 1,00, ou seja, um cruzado novo equivalia a um cruzeiro. 

A “Salgueiro 90” levou para o Parque Lage quinze fantasias, quatorze esculturas, faixas e estandartes, desenhos de figurinos (com amostras de pano), de carros alegóricos e de esculturas, além de centenas de fotos do processo de criação do desfile “Sou Amigo do Rei”. Ainda havia quatro sessões, ao longo do dia, exibindo um vídeo sobre a criação das esculturas, desde o corte do isopor e a produção da fibra de vidro. 



Rosa Magalhães posa ao lado da escultura de onça na piscina ao centro do prédio da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Foto de Renan Cepede para o Jornal do Brasil.

A “#bastidoresdacriação” teve a curadoria feita pelo próprio Leandro Vieira, que levou as fantasias mais marcantes do enredo “Só com a ajuda do Santo”, como a da porta-bandeira Squel Jorgea, a da bateria de São Francisco, a das baianas com os saquinhos de Cosme e Damião e outras. Havia também desenhos (com pedaços de tecido e anotações), maquetes das alegorias, miniaturas das fantasias, um vídeo making-off do desfile, um painel com o cronograma da confecção de um desfile e dúzias de fotos e textos – dos desenhos, das fantasias, do barracão, do pré e pós desfile.

Apesar de apresentarem um material semelhante e com objetivo parecidos, os carnavalescos, ao falarem sobre as exposições em entrevistas, se comportam de maneira quase opostas. Em relação aos seus papéis como carnavalescos, Leandro é adamante quanto a sua posição na criação de cada etapa do enredo e desfile enquanto Rosa se afasta da atribuição de centralidade. A própria Rosa fala que “podemos dizer que esta exposição tem a assinatura de todo o Morro do Salgueiro” (ALONSO, 1990). Os jornalistas que escrevem sobre a exposição ecoam essas palavras em suas matérias:

Esta não é uma exposição individual, mas uma coletiva (RIZZO, 1990)

A exposição tem uma só assinatura: ‘Morro do Salgueiro!’ (RITO, 1990)

O Salgueiro quer, na verdade, homenagear a coletividade através do produto de um trabalho também coletivo, com a participação dos artistas do morro e do asfalto (O FLUMINENSE, 1990)

Reportagem do O Globo de 1990.


As matérias contribuem para o entendimento de que esta não é uma exposição de Rosa Magalhães (como carnavalesca ou como artista), embora ela assine o enredo, além de ter feito a curadoria da mostra junto com a direção da Escola de Artes Visuais (EAV). Isso contrasta com a postura de Leandro, que é retratado como o carnavalesco que abre uma exposição individual (em que também é responsável pela curadoria), mesmo que também estivesse exibindo o trabalho do desfile da Mangueira. Os posicionamentos dos carnavalescos nas suas respectivas entrevistas provavelmente influenciaram o que os jornalistas reportaram sobre cada um.

Rosa se posiciona contra uma visualização das peças para além do desfile, enquanto Leandro não queria “trazer nada que lembrasse a Sapucaí” (BRUNO, 2017).  A carnavalesca diz que a “intenção é resgatar a plasticidade do carnaval e evitar a tendência de que as peças criadas para os desfiles, vistas em outro espaço, ganhem nova configuração” (LISBOA, 1990). Ela ainda afirma que a obra não deve ser vista da mesma forma que “uma peça de museu”, mas que “carregue a versatilidade do desfile” (LISBOA, 1990). Para Vieira, ao contrário, “quando surgiu a oportunidade de fazer esta exposição num lugar como o Paço, achei que era a chance de mostrar o carnaval como arte” (BRUNO, 2017).

Podemos argumentar que a simples ação de retirar as partes do desfile do ato que acontece na Passarela do Samba e transportá-las para o Parque Lage já é dar a elas uma nova configuração: uma escultura em cortejo versus um objeto imóvel, uma fantasia vestida por um integrante sambando versus em um manequim parado, as peças vistas de longe da arquibancada versus vistas de perto. Mas é mais interessante perceber que Rosa parece contra a ideia de as criações do desfile serem vistas como a arte de museus e galerias e, por isso, fale de uma “versatilidade” que existe no desfile e não na “peça de museu”. Enquanto isso, Leandro trabalha o material de forma que ele não seja idêntico ao do desfile, exatamente porque deseja que aquilo seja visto como a arte que possa fazer parte de galerias e museus.

Frederico Morais, importante crítico da arte brasileira, é o responsável pela apresentação da exposição de Rosa Magalhães, o que faz com exaltação ao comentar que a considera um ponto de “confluência das diferentes tendências do carnaval” (MORAIS, 1990). As observações do crítico se estendem primeiro ao carnaval em geral, quando comenta sobre a estética de outras escolas e carnavalescos (Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Fernando Pamplona) a partir de suas próprias análises da festa por meio de “categorias estéticas eruditas”, ressaltando-a como forma de arte brasileira. 

A apresentação de Morais, considerando sua campanha a favor da obra de Fernando Pinto, em 1983, e seus textos acerca da festa evocam um apoio à presença do carnaval num espaço de arte de vanguarda, como no trecho em que convida os alunos e professores do Parque Lage a trocarem as salas de aula por barracões. No entanto, é interessante notar que em nenhum momento, neste texto, Rosa Magalhães é chamada de “artista”, ainda que seu autor use categorias da arte para tratar do carnaval e de outros carnavalescos.

A intenção de expor uma escola de samba dentro de um espaço de arte vanguardista como o Parque Lage gera uma certa comoção na imprensa, de maneira que uma jornalista chega a dizer (erroneamente) que “esta é a primeira vez que uma escola de samba traz suas fantasias, bandeira e esculturas para um espaço tradicionalmente dedicado aos artistas de vanguarda” (LISBOA, 1990). Na verdade, menos de uma década antes havia ocorrido uma exposição de Fernando Pinto. Outros jornalistas ainda fazem questão de ressaltar que a mostra significa o encontro do popular com o erudito vanguardista (LISBOA, 1990; AYALA, 1990), até mesmo citando o texto de Morais. Importante destacar que, diante dessas matérias nos meios de comunicação, a exposição “Salgueiro 90” não parece ter sido aproveitada para estender a possibilidade de outras escolas e carnavalescos também ocuparem esses espaços.


Reportagem do jornal O Globo de 12/06/2017.


Enquanto isso, o posicionamento de Leandro em seus discursos gira em torno do reconhecimento das criações para as escolas de samba enquanto material artístico e cultural, ponto que toma conta das matérias que saem a respeito. Uma delas chega a dizer que ele é “como um pilar dessa resistência cultural [do carnaval] ante a sanha do entretenimento” graças à insistência do carnavalesco em defender a visão do carnaval como arte. Em entrevista, ele explica que “quis fazer uma coisa que mostrasse os bastidores do processo artístico. Porque o Carnaval já vive há muito tempo, não é de agora, esse esvaziamento da produção artística. Das pessoas não olharem essa produção como uma produção de arte gigante, como arte plena. Tem o preconceito da sociedade brasileira como um todo com relação ao carnaval” (VIEIRA, 2020).

Os discursos de ambos os carnavalescos diante de suas exposições é importante para demarcar como eles se veem e como vão influenciar outros a vê-los. Leandro, que se coloca como criador individual e produtor de arte, e Rosa, que vê o desfile e, consequentemente, a exposição no Parque Lage como resultado de um trabalho coletivo. Seus posicionamentos também refletem a forma como querem que seus trabalhos sejam vistos – Leandro, que deseja que suas criações sejam vistas como arte por si só, e Rosa, querendo que elas permaneçam como parte do desfile.

Essa diferença de discurso se torna mais interessante quando voltamos a suas carreiras. Vieira é grande admirador de Rosa Magalhães e ambos estudaram na mesma Escola de Belas Artes da UFRJ, inicialmente nutrindo desejos de serem artistas plásticos. Magalhães chegou a ser selecionada, ainda na graduação, para a I Bienal da Bahia, em 1966. Já Vieira, apesar do desejo de ser “artista de galeria” desde jovem, começou a trabalhar no carnaval e alcançou a entrada na galeria a partir do reconhecimento do seu trabalho como carnavalesco. Rosa parecia nutrir um desejo por ser “artista de galeria” antes de entrar para o carnaval e, talvez por isso, para ela, esteja muito bem definida a diferença entre essa arte que ela vivenciou nos tempos de universidade e a arte que passou a criar numa escola de samba.

Ela vai na contramão do pensamento geral de um carnavalesco como artista/criador individual, mencionando a ideia de produção coletiva e colaborativa. Até mesmo sua vontade de que a produção não se torne arte institucional parece apontar para uma intenção do carnaval como arte popular, como festa que é produzida a muitas mãos para aquele objetivo específico, neste caso, o desfile. Sua história nas escolas de samba começa como parte de um grupo, dos alunos de Pamplona, onde dividia as criações nos desfiles com Joãosinho Trinta, Maria Augusta e muitos outros. Para Rosa, talvez esteja tão clara a diferença entre a arte que produzia e a que passou a produzir, que seja esse o motivo pelo quando chame tanta atenção para o fato de que ali a criação é coletiva e que as obras não são como as de museu. Com esse discurso, ela chama atenção para outra face do carnaval, quase oposta da posição tomada pela maioria dos carnavalescos e estudiosos. A visão de Rosa Magalhães nos oferece uma nova possibilidade de visão do artista dentro do carnaval. 



Referências bibliográficas

ALONSO, Paulo. Exposição traz de volta a folia. O Globo, 30 abr. 1990. 
RIZZO, Walter. Exposição do Salgueiro. Publicado na coluna “Bola Social”, em Jornal dos Sports, 2 de maio de 1990.
O SAMBA também gera exposição. Jornal o Fluminense, Niterói, 8 mai. 1990.
BRUNO, Leonardo. Carnavalesco da Mangueira abre exposição no Paço Imperial. Publicado em O Globo, 12 jun. 2017a. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/carnavalesco-da-mangueira-abre-exposicao-no-paco-imperial-21465049?fbclid=IwAR38FMc0-tMzpp6yhsQkFkxtp_25h-II1JRm7_aP45FwXu5BNK6Nl8pksWk>. Acesso em 17 jun. 2021.
LISBOA, Salete. Salgueiro mostra sua arte. Publicado em Jornal O Dia, 5 de maio de 1990.
MORAIS, Frederico. Texto de Frederico Morais sobre a exposição Salgueiro 90. Rio de Janeiro, abr. 1990. Disponível em <https://www.memorialage.com.br/luiz-aquila/texto-de-frederico-morais-sobre-exposicao-salgueiro-90/>. Acesso em 9 set. 2021.
AYALA, Walmir. Amiga do Rei. Última Hora, 4 de maio de 1990.
VIEIRA, Leandro. Entrevista com Leandro Vieira. Revista Concinnitas, Rio de Janeiro, v. 21, n. 37, jan. 2020. p. 12-39. Entrevista concedida a Alexandre Sá, Claudia Saldanha, Inês Araújo, Felipe Ferreira, Luiz Guilherme Vergara.



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Texto: Beatriz Freire
Revisão: Luise Campos 

Mês a mês mergulhando em diversos universos particulares que formam as complexas organizações que são as escolas de samba, o Carnavalize decidiu derrubar o protocolo social convencional de evidenciar mulheres apenas em março, quando comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Por isso, durante o mês de agosto, às segundas-feiras, nossos leitores acompanharam em nosso site um novo capítulo de uma série pensada para enaltecer, contar histórias, lembrar figuras e propor reflexões acerca do papel feminino no carnaval. Hoje, no quarto texto, nos despedimos desta temporada com uma única mensagem possível: obrigada! 

Líderes, fundadoras, passistas, rainhas, porta-bandeiras, intérpretes, ritmistas… por onde se repousa o olhar, nota-se a presença feminina nos diversos segmentos das agremiações. Nossa viagem de quatro semanas tem como destino final as fábricas momescas que moldam os sonhos à realidade; elas também arregaçam as mangas e dividem-se entre criação, planejamento, execução e coordenação. Nos barracões, estas heroínas fazem do trabalho uma extensão de seus próprios corpos - já que cada nova forma de esculturas, alegorias e fantasias nasce da força braçal delas - e também um compromisso destinado a sacramentar grandes ideias e narrativas.


Marie Louise Nery: o sopro fundamental para o vendaval 


Em 1957, Marie Louise trocou as baixas temperaturas das cidades suíças pelo calor do Rio de Janeiro, onde desembarcou a contemplar golfinhos em plena baía de Guanabara. Ela não encabeça a lista por coincidência: é considerada a primeira mulher a trabalhar ativamente no desenvolvimento de um desfile de escola de samba. De corpo e coração aquecidos pelo clima tropical e pela energia do cortejo que já encantava Marie, a figurinista e cenógrafa recebeu, ao lado do marido, também cenógrafo e aderecista, Dirceu Nery, o convite de Nelson de Andrade, presidente do Salgueiro, para que juntos assinassem o desfile do carnaval de 1959 da agremiação alvirrubra. 

Foto: Rafael Andrade/Folhapress.

Com Nelson no comando do enredo "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", o casal de artistas plásticos ficou responsável pelo planejamento e confecção das fantasias que vestiriam toda a escola; as indumentárias reproduziam gravuras de Jean-Baptiste Debret, principal nome da Missão Artística Francesa e expoente do cotidiano do Brasil colonial, homenageado daquele carnaval. A agremiação optou por não apresentar nenhuma alegoria naquele ano como uma resposta às sucessivas críticas feitas pelo júri que perduraram por cinco carnavais. Sem que existisse propriamente o espaço que conhecemos atualmente por barracão, Marie Louise subia as ladeiras do morro do Salgueiro para trabalhar junto às costureiras e aderecistas da escola. 

Na noite dos desfiles, atrasos e confusões antecederam a passagem do Salgueiro pela Avenida Rio Branco. A escola adentrou a pista como primeira escola daquela noite, subvertendo a ordem original que a designava como quinta agremiação a se apresentar. Em um cortejo que abusou - no melhor sentido da palavra - de bom gosto e teatralização, o requinte e a originalidade estéticas marcaram presença, aliadas a uma narrativa cuidadosamente trabalhada pelo presidente-enredista. Não há como deixar de coroar com louros Marie Louise pela contribuição estética fundamental no desfile vice-campeão que roubou a atenção de um jurado em especial, um tal Fernando Pamplona, e preparou as bases da revolução salgueirense que se reafirmaria no carnaval seguinte.

Um das singelas aulas do desfile salgueirense de 1959. Foto: O Globo.

Mais tarde, Marie seguiu pelas coxias e palcos, prestando serviço a espetáculos, balés e peças de teatro. No carnaval, passou ainda pela Portela e retornou ao Salgueiro, mas encerrou a carreira de lantejoulas e fantasias luxuosas logo após a morte do marido, ao final da década de 1960. Dedicou-se também às salas de aula, quando teve como aluna Rosa Magalhães. Da vida, despediu-se neste maio de 2020, vítima da covid-19, na Suíça, longe do calor do carnaval, eternizada como precursora de nomes femininos e antecessora fundamental de um movimento que mudou os rumos dos desfiles. 


Iemanjá enriqueceu o visual… e fez reluzir o seu brilho feminino


Sobre o já mencionado Pamplona e a já citada revolução salgueirense, convém destacar o grupo tocado pelo artista em seu legado na escola da Tijuca, no qual estavam presentes nomes como Arlindo Rodrigues - o grande parceiro - e Joãosinho Trinta, outro ícone que se revelaria poucos carnavais depois. Porém, em especial, três "pupilas" fizeram arte pelo Salgueiro afora. Maria Augusta, a primeira delas, era aluna da Escola de Belas Artes e junto a Fernando Pamplona trabalhava nas decorações de carnaval do Copacabana Palace. Não tardou para dar expediente pelas bandas do Salgueiro e, em 1969, com o histórico "Bahia de todos os deuses" era componente da frutífera equipe do Professor. Naquele ano, a imagem mais marcante da apresentação foi a imensa alegoria de Iemanjá, repleta de espelhos redondos que reluziram toda a pista à luz do dia. Os caminhos estavam abertos. 

Dois carnavais depois, a mente brilhante da jovem artista propôs a temática a ser contada naquele ano: a escola levaria para o grande público a visita de um rei africano a Pernambuco holandesa de Maurício de Nassau. Não teve quem não pegasse no ganzê e no ganzá; do estalo inicial de Augusta, tudo se materializou e o Salgueiro saiu vitorioso daquele carnaval. 

Maria Augusta posa com a ala que a homenageou no desfile da São Clemente de 2018. Foto: Leonardo Bruno.

Quando a relação entre o pai da revolução e o Torrão Amado amargou, foram ela e o companheiro de equipe, Joãosinho, com quem rivalizaria visual e narrativa em carnavais futuros, os herdeiros diretos do legado do mestre à frente da alvirrubra. Em 1973, faturaram juntos o terceiro lugar com "Eneida, amor e fantasia". Desde o carnaval anterior, em 1972, Augusta já fazia dupla jornada entre o Salgueiro e a ainda inexpressiva União da Ilha do Governador. Para 1974, após o rompimento com a dupla e a escola que havia lhe recebido há cinco carnavais, Augusta tirou aquele e mais um ano sabático à frente da criação artística do carnaval das escolas de samba. Em 1976, voltou às terras insulanas, desta vez para ficar… e fazer história. 

Em 1977, uma inspiração pessoal de Augusta lançou a tricolor como protagonista de um mundo inverso ao luxo e opulência crescentes no carnaval. Criatividade, cores e simplicidade formavam a tríade triunfal da carnavalesca. "Domingo" seria uma ode à alegria da menina que saía do internato em que estudava para aproveitar o dia e desfrutar da companhia da família; uma exaltação à leveza de um dia de descanso, ao contemplar quase sempre desapressado do nascer e do pôr do sol, às comemorações de reuniões e encontros, dentre outras cenas do cotidiano abarcadas por aquele que para alguns é o primeiro, para outros, o último dia da semana. A União da Ilha não veio apenas escandalosamente simples e bela - elementos que se reforçavam mutuamente - mas também brincou no asfalto, conquistando um terceiro lugar. Era aquele o auge de uma trajetória curta e intensa de enredos abstratos e carnavais brincantes, presentes para os olhos e corpos foliões, marcados por sambas inesquecíveis da discografia da escola. 

A visão geral de "O Amanha" em 1978. Foto: Revista Manchete.

No ano seguinte, lançou mão de todo o seu misticismo ao desfilar com o grandioso "O Amanhã". Mais uma boa posição - a Ilha terminou como quarta colocada - chegava pelo segundo ano consecutivo para o currículo da escola que, até então, havia faturado o nono lugar como posição máxima. Em 1979, Augusta teve os caminhos interrompidos após um desentendimento com a diretoria da escola. Consagrada pelos históricos carnavais dos anos anteriores, acabara ali a rápida fase meteórica com a mentora de uma identidade que é associada à agremiação até hoje. Nos anos seguintes, a carnavalesca passou pela Paraíso do Tuiuti, Tradição e, como a vida é grandiosa demais para permitir meras coincidências, encerrou a carreira na Beija-Flor, em 1993, substituindo Joãosinho Trinta, o antigo companheiro que também marcou seu nome na agremiação nilopolitana. Maria Augusta, dona de uma mente criativa única e definitiva para a história carnavalesca, transpira ainda um sentimento comum entre todos os amantes da festa: a emoção de sempre ao relembrar seus feitos no carnaval.

Agora, retomemos o fio que nos conduz ao início dessa história para lembrar que mais duas personagens ajudam a escrever nossas próximas páginas.

Lícia Lacerda e Rosa Magalhães comemoram o título de 1982.

Antes de falarmos propriamente da mais longeva - e campeã - herdeira de Pamplona, passemos por mais uma integrante do fecundo grupo. Lícia Lacerda, também discente da Escola de Belas Artes, marcou sua assinatura no carnaval em parcerias com Rosa Magalhães, nossa próxima personagem, ao faturarem juntas o título pelo Império Serrano com o lendário "Bumbum Paticumbum Prugurundum", em 1982, um "metacarnaval" inspirado em uma ideia de Fernando Pamplona e embalado por suas sucessoras como uma crítica ao grandiosismo que invadia a folia em todos os sentidos. Nos carnavais seguintes, fez passagens rápidas pela Imperatriz Leopoldinense, Estácio de Sá e também pela Tradição, quando foi campeã com a agremiação pelo segundo grupo em 1993 e, em 1994, garantiu uma vaga para a escola dissidente da Portela no desfile das campeãs, com o famoso "Passarinho, passarola, quero ver voar". No carnaval de 1997, um mês antes dos desfiles, deixou a agremiação, que desfilou com o enredo "Do barril ao Brasil", sobre a história da cerveja, terminando rebaixada. Longe do ofício de carnavalesca desde então, Lícia relembra até hoje as dores e delícias da parceria com a amiga, Rosa, e da carreira solo. 


De aluna a professora, eis a soberana artista 


Para destrincharmos bem toda a trajetória desta fundamental figura, precisaríamos esmiuçar surpreendentes cinquenta anos em atividade da maior expoente da arte carnavalesca do nosso país. Filha de dois artistas - o pai das letras e a mãe do teatro -, ela já tinha no sangue um rascunho traçado de caminhos que muito provavelmente a conduziriam pelas criações, figuras e formas. "Faça-se assim", disse a vida. Rosa Magalhães, nem sempre professora - ela também é mais uma artista egressa da EBA -, iniciou a carreira junto às demais companheiras de trabalho nos preparativos dos carnavais salgueirenses de Pamplona. Os passos autônomos, que sinalizavam estar um nível acima da condição de "aprendiz", vieram na década seguinte, em 1974, pela Beija-Flor, quando foi a responsável pelo carnaval "O Brasil no Ano 2000", em plena ditadura militar. 

Rosa comemorou a incrível marca de 50 anos dedicados à folia. Foto: Leo Martins/O Globo

O boom como autora de carnavais veio anos depois, quando, no episódio já mencionado, com Lícia Lacerda fez o desfile campeão do Império Serrano, em 1982. Um feito imenso para duas artistas ainda em busca de experiência, que se consagraram campeãs por uma das mais tradicionais agremiações cariocas. As duas carnavalescas (imaginem se tivéssemos uma dupla de carnavalescas no dias de hoje!) trabalhavam de forma tão coesa que a parceria se alongou por mais dois carnavais: Imperatriz (Alô, mamãe), em 1984, e Estácio de Sá (O ti-ti-ti do sapoti) em 1987. Este último foi a passagem definitiva para Rosa se lançar na carreira solo a partir do ano seguinte. Ali, apareceria um dos seus principais traços: a mistura da história oficial com o cotidiano, entre o fato e a suposição, passeando pelo real e o inventado. Pela escola do São Carlos permaneceu por mais dois carnavais, em 1988 (O boi dá bode) e 1989 (Um, dois, feijão com arroz), vestindo as mesmas narrativas de cunho político que escolas como Caprichosos de Pilares e São Clemente levaram para a pista de desfiles após os primeiros anos de redemocratização.

Em 1990, veio um reencontro rápido com o Salgueiro, importante estágio para a carnavalesca que se tornara até ali, em mais dois desfiles: "Sou amigo do rei", em 1990, e o famoso "Me masso se não passo pela rua do Ouvidor", em 1991, quando conquistou, respectivamente, o terceiro lugar e o vice-campeonato. Apesar das brigas que levaram ao desligamento de Rosa da alvirrubra, estava provado que o grande cortejo das escolas de samba dispunha de uma artista do mais alto nível, herdeira dos ensinamentos valiosos de um mestre e que, mais importante do que serem exatamente assimilados, foram por ela reinterpretados e manifestados à sua própria forma, expressados como uma marca única no universo das escolas de samba.

Uma artista da grandeza de Rosa merecia um acolhimento à altura, digno de rainha. Digno, na verdade, de uma Imperatriz. Ela já havia feito uma breve passagem pela escola de Ramos, em 1984. Mas foi em 1992 que ela assumiu a escola a convite de Viriato Ferreira, iniciando de fato sua marcante trajetória na agremiação. O artista, já com a saúde debilitada, confiou à Rosa o comando da verde e branca. Nasceu, assim, o casamento mais vitorioso da história do carnaval. Ela protagonizou, ainda que não escancaradamente, o duelo principal entre o seu barroco (que talvez venha da devoção aos santos herdada de sua mãe) e o high-tech de Renato Lage na Mocidade Independente. As verde e brancas, uma de Ramos e outra de Padre Miguel, quase brincaram de revezamento entre títulos e disputas acirradas. De 1993 a 2001, Rosa conquistou cinco campeonatos (1994, 1995 e o tri em 1999, 2000 e 2001), dois vices (1993, ano da sua reestreia, e 1996) e um terceiro lugar (1998). A posição mais baixa foi um seguro sexto lugar, em 1997, uma exceção frente à competitividade - e excelência! - dos carnavais de Rosa.

O desfile de 2000 da Imperatriz Leopoldinense, meiuca de um histórico tricampeonato. Foto: Wigder Frota. 

Maior campeã solo da Era Sambódromo, ela saiu vitoriosa em todas as décadas. Após o tri que marcou a virada do século, não conquistou mais nenhum título, mas se reinventou e não sinalizou qualquer desgaste em sua carreira vitoriosa, independente de canecos e notas do júri. Rosa usou e abusou da sua habilidade para introduzir fábulas às narrativas e, como sempre, abalou a estética de alegorias e fantasias, em materiais e formatos, do barroco ao popular, entre anjos, índios e piratas. Em 2009, chegou ao fim o casamento de dezoito inesquecíveis - e prósperos - carnavais pela Imperatriz Leopoldinense. Para 2010, foi contratada pela Ilha do Governador com a missão de não permitir que a escola fosse rebaixada, já que era recém-chegada ao Grupo Especial. Dito e feito. Em uma viagem pelos contos de "Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis" a professora garantiu a permanência da escola que recuperou o orgulho de cruzar novamente a Marquês de Sapucaí pelo grupo principal.

Na última década, foi fazer história lá na escola de Noel. Depois de um carnaval sobre cabelos à sua própria moda, embarcou na ideia de Martinho da Vila para cantar Angola no enredo "Você Semba Lá …. Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola". O desfile afro, até então inédito na carreira de Rosa, emocionou componentes e arquibancadas. Por um detalhe a Vila Isabel não terminou campeã, mas faturou o vice. No ano seguinte, com a escola mordida pelo gostinho do "quase" campeonato, a carnavalesca conduziu o enredo "A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo. Água no feijão que chegou mais um". A Sapucaí, perto do amanhecer, viu se armar na pista uma verdadeira festa no arraiá; uma emoção em cores, samba e evolução da escola. Na quarta de cinzas, deu azul, branco e… Rosa. A escola saiu vitoriosa e a carnavalesca conquistou mais um título na nova década.

Nos últimos anos, a Mangueira recebeu a professora para um breve carnaval que não rendeu os mesmos frutos que o desfile campeão do ano anterior. Em seguida, a São Clemente se viu possibilitada a sonhar pelos olhos de Rosa, que esteve na escola de 2014 a 2017. Em 2015, uma homenagem da aluna ao mestre Fernando Pamplona arrancou aplausos e fez as lágrimas rolarem durante o desfile da preta e amarela de Botafogo. Apesar de um injusto nono lugar - há quem diga que a escola merecia uma colocação entre as campeãs -, pairou a certeza da maestria da artista. Em 2018 e 2019, sua passagem pela Portela garantiu dois quarto lugares. Em 2020, ano de reencontro com a Estácio de Sá e dos seus cinquenta carnavais em atividade, Rosa teve pela primeira vez o desgosto de um rebaixamento - também injusto. Tudo tem uma primeira vez.

Para o próximo carnaval, ela reencontra a sua parceira mais longeva e frutífera. Rosa, com a experiência que tantos anos de dedicação ao ofício pode trazer, retoma os ares juvenis de quase trinta anos atrás para sentar-se novamente no seu trono de Imperatriz. A contribuição inestimável para o carnaval, dentro e fora da pista, já que ela exportou a festa para grandes eventos europeus, lhe garante a figura de uma artista admirada e ainda muito bem quista por todos. O seu desabrochar nos fez eternos contempladores de sua existência, revestida de beleza modesta e ao mesmo tempo escandalosa que só as flores mais bonitas - as rosas - têm.


As caçadoras de histórias


Mas nem sempre elas estão, necessariamente, investidas nos cargos de carnavalescas. Há, ainda, mulheres que se dedicam à busca pelas histórias a serem narradas. Márcia Lage ocupa um caminho do meio entre esses papéis que até podem se misturar, mas não estão inequivocamente interligados. A cenógrafa viu as escolas de samba cruzarem sua vida de forma mais contundente nos anos 1990, quando era assistente de seu marido, Renato Lage, nos áureos tempos de Mocidade. Os registros só listam Márcia como autora de narrativas e carnavais, efetivamente, a partir de 2002, o último do casal pela escola de Padre Miguel, com "O grande circo místico". 

O trabalho de Márcia é constantemente associada ao marido ou até invisibilizado. Foto: TV Brasil. 
 
Verdade seja dita, o grande público, os dirigentes e mesmo o júri a puseram à margem seu protagonismo exercido no suado e desgastante dia a dia de trabalho em prol da construção de carnavais. Ela esteve presente no Salgueiro por treze carnavais, seguiu pela Grande Rio e pelo segundo ano defenderá as cores da Portela. Em 2009, assinou um carnaval solo pelo Império Serrano, ano em que a escola reeditou o enredo "A lenda das sereias", de 1976. Fato é que Márcia, muitas vezes questionada em sua contribuição para ideias e construções e, podemos dizer, de sua posição fundamental dentro do trabalho que carrega a marca Lage, precisa ser mais reconhecida.

Outra peça fundamental no fazer-pensar do que contam as escolas de samba na Avenida está em Nilópolis. Na Beija-Flor, dentro do molde da famosa comissão de carnaval capitaneada por Laíla durante muitos carnavais, Bianca Berhends, chegada à escola em 2002, é a verdadeira narradora nilopolitana. Cientista social por formação, ela está há nada menos do que vinte carnavais imersa nas pesquisas de enredo da escola. Em 2008, foi premiada com o troféu Plumas e Paetês na categoria pesquisadora. Hoje, Bianca está à frente do Departamento Cultural da escola. 


A herdeira


As brilhantes trajetórias que contamos neste texto marcam uma triste realidade: elas ainda são a exceção. Beira o inimaginável crer que mulheres não sonhem em ser carnavalescas. Nos últimos anos, ainda bem, para além de todo o majestoso trabalho desenvolvido por Rosa, Márcia e Bianca, surgiu Annik Salmon, mais uma egressa da Escola de Belas Artes. Na Porto da Pedra, iniciou a carreira em 2003, como assistente do carnavalesco Alexandre Louzada, a quem acompanhou por mais cinco carnavais, até 2008, em passagens pela Vila Isabel, Cubango e Beija-Flor. A assinatura de um trabalho veio exatamente pela verde e branca de Niterói em 2007, quando integrou a comissão de carnaval responsável pelo enredo que homenageou a cidade de Paracambi. 

Poucos anos mais tarde, em 2009, encontrou Paulo Barros e Alex de Souza, quando trabalhou com eles pela Vila Isabel, no ano que a escola rendeu homenagens ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A partir de então, Paulo Barros a convidou para ser seu "braço direito" no carnaval de 2010 da Unidos da Tijuca, escola para onde o carnavalesco retornara depois de alguns anos. Era impossível prever até o momento em que a escola cruzou a Avenida, mas ela viria a se consagrar campeã com a pontuação máxima. A permanência de toda a equipe esteve, portanto, garantida. Como integrante da agremiação do Borel, Annik participou da conquista de mais dois títulos, em 2012 e 2014. Desfrutou com todo o merecimento do conforto de seguir na escola, já que ela sempre esteve inteirada e participava ativamente de todos os processos de desenvolvimento de cada um desses projetos.


Annik assinou seu primeiro desfile solo em 2020 na Porto da Pedra.

Em 2015, quando Paulo Barros despediu-se da Tijuca, Annik seguiu o próprio caminho e permaneceu na escola para assinar seu primeiro carnaval pelo Grupo Especial como integrante de uma comissão. Logo na "estreia", chegou a um grato quarto lugar. No ano seguinte, em 2016, o enredo que flertava com o agronegócio e a cidade de Sorriso garantiu o vice-campeonato à agremiação. Por lá, a artista adquiriu mais e mais experiência, sempre coordenando as etapas necessárias para o melhor desfile que a escola pudesse apresentar, e garantiu um décimo primeiro lugar - em virtude do trágico acidente com um carro da escola em 2017 - e dois sétimos lugares. 

Em 2020, alçou novos voos: foi assinar seu primeiro carnaval solo, dessa vez, voltando ao grupo de acesso do carnaval carioca, pela Porto da Pedra. Não podemos deixar de assinalar que sua voz se fez ouvir, nessa estreia, num homenagem às personagens femininas fundamentais para o surgimento do samba: o enredo "O que é que a Baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí", reverenciou as matriarcas que nos deram a todos nós - a todas nós - chão e fundamento para caminhar. E foi assim, revestida de ancestralidade, que Annik conduziu a escola a um honroso terceiro lugar, que lhe rendeu a renovação do contrato com a agremiação. Para o próximo carnaval, ela segue no intuito de dar visibilidade a narrativas de grandes mulheres: desenvolverá o belíssimo enredo "O caçador que traz alegrias", homenagem à mãe Stella de Oxóssi.


Mãos à obra


Para além de pensar o carnaval artisticamente, também temos uma função que fundamental para que os sonhos e narrativas da folia ganhem vida. E se enganou redondamente quem pensou que o trabalho braçal dos barracões conta apenas com a presença masculina. Elas estão presentes no planejamento, projeção e feitura de alegorias e nada mais justo do que mencionar aqui também algumas das artistas e trabalhadoras que enfrentam a resistência diária às suas presenças causada pelo simples fato de serem mulheres.

A cenógrafa e projetista Penha Lima é um desses exemplos, assim como a escultora Andréa Vieira. As duas tiveram boa parte de suas carreiras dedicadas a acompanhar Rosa Magalhães; Andréa, formada em cenografia pela Escola de Belas Artes, dá formas às esculturas do carnaval há mais de vinte e cinco anos, muitos deles ao lado da professora. Na Inocentes de Belford Roxo, Luana Rios exerce hoje uma função que, infelizmente, não conta com muitas representantes do gênero feminino: é diretora artística de barracão, cargo conquistado após oito anos de suor em diversas agremiações. Ela foi chefe de ateliê de escolas como União do Parque Curicica, Alegria da Zona Sul e Vila Isabel, além de carnavalesca em 2016 pela Arranco do Engenho de Dentro e assistente do carnavalesco Marcus Ferreira no carnaval de 2019, pela Inocentes.

Andréa Vieira posa ao lado de Rosa Magalhães e Mauro Leite com o Emmy conquistado pela equipe. 

E todas as mulheres aqui citadas contam em suas equipes com muitas outras, formando um elo que aqui fazemos questão de visibilizar. Por isso, não podemos deixar de citar as costureiras que se dedicam exaustivamente na confecção de fantasias e às aderecistas que dão forma às decorações das alegorias. Todas elas, certamente, têm seu grau de contribuição para a folia, mostrando na prática o que buscamos dizer nessas quatro semanas com nossos textos da Série Mulheres: elas estão presentes e são capazes de desempenhar qualquer atividade no carnaval. 

Desta forma, finalizando nosso passeio pelos mais diversos espaços que o feminino ocupa dentro das escolas, chegamos ao fim dessa trajetória carregando a documentação de nomes fundamentais de mulheres que criaram e carregam legados, perpetuando a presença feminina dentro das agremiações. Obrigada a todas pela inspiração!

Confira os demais textos da Série Mulheres, que investigam a história das escolas de brasileira pela ótica feminina. O passeio começa pelo seio feminino das ancestrais do samba, segue pelas líderes e fundadoras que fizeram história.  O terceiro capítulo passa pelas Rainhas do canto e da dança: a atuação das mulheres no universo musical, até chegar na Heroínas do barracão: a atuação feminina na construção artística do carnaval



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Ela voltou! Premiada, multi-facetada, acadêmica e popular. Rosa Magalhães é das maiores artistas brasileiras em tempos. Completando cinquenta anos de atuação no carnaval, ela retorna a escola com quem teve o casamento mais duradouro e frutífero. São cinco títulos em dezoito anos, dois vice-campeonatos, três terceiros lugares... Em apenas quatro oportunidades dessa parceria, Rosa e escola de Romas não voltaram nas campeãs. São números impressionantes!

Através de suas narrativas, a professor fez jus a alcunhar ao dar tantas aulas na Avenida. Celebrou brasis, misturando densos caldeirões com uma alquimia única, unindo referências históricas e literárias a narrativas com sabores que só ela sabe dar! Juntou povos pela diáspora, tingiu de ondas e mares a pista da Avenida. No balanço dos navios, viajou o mundo sem nunca deixar de celebrar o nosso povo com um jeito bem-humorado que só ela tem.

Reuniu ao torno de si profissionais incríveis e invetivos, como o talentoso figurinista Mauro Leite que há mais de três décadas atua com a professora. Além de projetistas, arquitetos, cenógrafos, aderecistas, maquiadores, peruqueiras. Nomes que reforçam o caráter coletivo da festa e mostram seu poder de liderança e sua missão de professora de passar saberes adiante. 

Embarque com a gente rumo a uma viagem pelos carnavais de Rosa na Imperatriz!



1992 - Não existe pecado abaixo do Equador 
(3º lugar)

A Comissão de frente do desfile de 92. (Foto de Wigder Frota)

Rosa chegou em Ramos após uma bem-sucedida passagem no Salgueiro, com a doença de Viriato Ferreira que havia assinado o carnaval da verde e branco, ela foi chamada para assumir a agremiação. A estreia foi com um enredo em comemoração aos 500 anos de descoberta das Américas, brincava com a visão de paraíso perdido dos colonizadores se inspirando em registros literários. 

Onça: um dos animais mais recorrentes dos desfiles de Rosa. (Foto de Wigder Frota)
Como filha de acadêmicos, Rosa sempre traz referências literárias para sua obra, na ocasião foi o livro de Visão de Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda. Outro Buarque de Holanda, o Chico, ajudou com o título do enredo, extraído de umas das musicas da peça Calabar. Foi transformando papagaios em anjos e indígenas em Adão e Eva, que Rosa mostrou seu gosto pelo tropical numa bela apresentação.  

Barcos: alegorias que Rosa adora levar para a avenida. (Foto de Wigder Frota)

Para história, a ala dos peixinhos recriava um grande oceano com um tecido bem pintado. Uma solução simples e genial, que depois virou lugar comum no carnaval. Guardava ainda uma inspiração na obra da neoconcreta Lygia Pape, que rendeu uma polêmica e um processo da artista da obra original. 



A ala de 92 e a obra da artista Lygia Pape.


1993 - Marquês que é marquês do sassarico é freguês! (Vice-campeã)

Enormes pierrôs animados girando no abre-alas (Foto de Wigder Frota)

O bicentenário do Marquês de Sapucaí rendeu um enredo onde Rosa reinterpretava a história do carnaval através de seus três grandes criadores: Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães. Um olhar gentil e atento da professora sobre seus mestres e a história da folia no Brasil desde seus primórdios. 

A comissão de 93 foi a primeira assinada por Fábio de Mello. (Foto de Wigder Frota)

No carnaval, Rosa contou com o auxílio luxuosa de Viriato Ferreira, carnavalesco da verde e branco em 91, que enfrentava graves problemas de saúde e tinha indicado a professora ao cargo de carnavalesca da escola de Ramos. Ele chegou a desenhar alguns croquis para o desfile, mas faleceu precocemente durante o processo de feitura do desfile. Assim, a última alegoria trazia a mensagem "No sassarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira", em uma homenagem a esse enorme figurinista.

1994 - Catarina de Médic'is na corte dos Tupinambôs e Tabajères 

(Campeã)


Muitas onças! (Foto de Wigder Frota)

Histórias que só Rosa Magalhães pode e sabe contar - parte 1: uma festa de índios brasileiros para uma corte francesa. O encontro exótico entre duas  "civilizações" tão diferentes: o índio é um forte!

Barcos e imagens marítimas: lugares comuns que Rosa adora explorar (Foto de Wigder Frota)

Depois de anos procurando referências para esse enredo que tinha em mente fazia algum tempo, foi dividindo um táxi, que Rosa conseguiu as informações que faltavam. O felizardo era diretor do Arquivo da Cidade e sabia de documento em português narrando a festa francesa. Juntando outros relatos e referências veio um aula de bom-gosto, unindo seus figurinos requintados com cenários bem alinhados.

O índio é um forte! (Foto de Wigder Frota)

Para a história: A parceria de Rosa Magalhães com o coreógrafo Fábio de Mello revolucionou o quesito Comissão de Frente, criando danças bem coreografadas e amarradas em elementos simples mas de impacto: a beleza dos leques dourados e verdes. 

Os belos leques da Comissão daquele ano.


1995 - Mais vale um jegue que me carregue 
que um camelo que me derrube, lá no Ceará... 
(Campeã)



Sombrinhas: mas um truque simples e de efeito na CF.

Histórias que só Rosa Magalhães pode contar - parte 2: a expedição que exportou camelos para o sertão brasileiro. A história que ocorreu no século XIX terminou com tempero clássico da professora,  valorizando a força do jegue, autêntico produto nacional em detrimento do exportado: 
"Mas vale a simplicidade, a criar mil novidades e gerar complicações. Esquecendo o bom e útil renegar o que é nosso, gera insatisfação..."

Fuxicos, borados, colagens: técnicas populares no desfile de 95. (Foto de Wigder Frota)

Como fazer um patrocínio: o enredo foi rebatizado após uma parceria comercial com o governo do Ceará, o título já extenso ganhou o plus "lá no Ceará" para reforçar onde se passava a história. No desfile, famosos do estado, como Renato Aragão e Fagner desfilaram. Na comissão, enormes guarda-chuvas dourados e verdes davam um efeito promissor.

Imagens da corte: figuras monárquicas são outra recorrência nos carnavais de Rosa. (Foto de Wigder Frota)


1996 - Imperatriz Leopoldinense Honrosamente Apresenta: Leopoldina, a Imperatriz do Brasil  (Vice-campeã)

O tropicalíssimo abre-alas daquele ano. (Foto de Wigder Frota)

Patrocinada pelo governo Austríaco, um dos grandes enredos de Rosa na Imperatriz foi o que contava a história de Maria Leopoldina, a monarca brasileira que dá nome a escola de Ramos. Na narrativa: uma ode a brasilidade e ao nosso povo com uma clara mensagem ao final, apesar de sua importância ter sido relegada, Leopoldina também era uma das responsáveis pela nossa independência. Na Comissão de Frente, nobres tocadores de violinos repletos de frutos mostravam um tropicalismo de Rosa: uma mistura inusitada de signos tropicais e europeus.

Além da sua genialidade ao narrar e descobrir histórias curiosas, Rosa sempre esteve bem amparada por uma ala de compositores das mais capacitadas e brilhantes, que sabiam reproduzir as histórias da professora com maestria, sofisticação e simplicidade. Os versos descritivos e genias de 96 são um dos exemplos mais claros. Valeu o Estandarte de Ouro em samba. 

Os nobres tropicalistas da Comissão de Frente de 96. (Foto de Wigder Frota)

Viagem internacional: Rosa é uma das carnavalescas que mais passeou com suas criações da folia em museus e instituições culturais. Depois do Parque Lage (em 90) e Museu Histórico Nacional (95), a artista expôs peças do desfile sobre a Imperatriz na terra de origem da monarca: a Áustria. 

1997 - Eu sou da lira, não posso negar… (6º lugar)

Piano me diz quem é... a pioneira! As teclas do piano da CF. (Foto de Wigder Frota)

E vamos de mais uma homenagem e também feminista: a história da pioneira Chiquinha Gonzaga. Mais uma aula de brasilidade e folia. Uma grande celebração. Na Comissão, mais um efeito marcantes: enormes capas se abriam trazendo as teclas do piano da homenageada. 

Uma das belas alegorias do desfile mal classificado de 97 (Foto de Wigder Frota)

A alcunha de certinha e técnica da verde e branco da zona da Leopoldina foi para o buraco esse ano: o belo desfile teve problemas sérios de evolução, com vários clarões abertos na pista e a segunda alegoria que também deu problema, complicando a passagem da agremiação. Foi um sexto lugar amargo apesar do bom trabalho plástico e do animado samba composto pelo grande Zé Katimba.   

1998 - Quase Ano 2000… (3º lugar)

Abre-alas: na virada do milênio, o formato com um globo giratório era muito reutilizado por Rosa.
(Foto de Wigder Frota)

Rosa high-tech? Brincando com a alcunha do seu grande rival Renato Lage naquela década, a professora surpreendeu a todos com um enredo sobre as visões de futuro produzidas pela humanidade em livros, filmes e na cultura pop em geral. Afinal, faltava pouco pro século XXI e a virada do milênio aterrorizava a humanidade.

A última alegoria de 98 fazia um clamor pela preservação. (Foto de Wigder Frota)
Mostrando que era muito mais que uma pesquisadora nata e acadêmica, Rosa mergulhou numa estética futurista e pop da cultura de massa, com direito a Superman e Robôs em referência o filme Metrópolis. Terminando num grito a favor da preservação do planeta. 

A bela bateria com balões. (Foto de Wigder Frota)

Para a história: uma das mais belas e revolucionárias fantasias de bateria que a Sapucaí já vi, hastes com balões davam um efeito incrível ao grupo de rimistas que representavam robôs e supercomputadores. 

1999 - Brasil mostra a sua cara em… Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae (Campeã) 

Anjinhos barrocos: não pode faltar em desfile da mestra. (Foto de Wigder Frota)

Histórias que só Rosa Magalhães pode contar - parte 3:  O Teatro com as coisas naturais do Brasil um livro achado após anos perdidos, produzido por holandeses catalogando nossa fauna e flora, mostrava assim uma página esquecida da nossa história social e artística. 

A bela ala que lembrava seres aquáticos. (Foto de Wigder Frota)

Mais uma característica do trabalho da professora: apesar da história complexa, tudo foi contado de maneira simples. Nas alas e alegorias, mais um belo e vibrante mergulho em signos tropicais explorando uma aula cromática impecável.


Onças em meio a biblioteca: imagens bem características do estilo de Rosa. (Foto de Wigder Frota)
Uma das páginas mais felizes da parceria entre Rosa-Imperatriz foi as vezes que a artista criou, ao lado de seu figurinista Mauro Leite, alas de baianas memoráveis. Seja pela sua riqueza estética e delicadeza, as borboletas de 99 são uma dos exemplos mais belos e singelos. Foram nada menos que 7 estandartes de ouros da categoria em dezoito anos de parceria. 

As belíssimas e premiadas baianas de 99. (Foto de Wigder Frota)

2000 - Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval (Campeã)

Comissão e abre-alas: uma formato de abertura impactante mesmo que com poucos elementos. (Foto de Wigder Frota)

Nos quinhentos anos da chegada dos portugueses, mais um mergulho de Rosa na história brasileira, dessa vez sem tanta invetividade mas uma visão mais linear e clássico do encontro de raças que deu origem a nação. Na comissão de frente, mais um trabalho inesquecível com belos adereços multi-usos que formavam desde uma caravela aos monstros marinhos que assombravam o pensamento da época. 

O lendário casal Chiquiho e Maria Helena. (Foto de Wigder Frota)

Para a lembrança, um dos mais belos figurinos que Rosa criou para inesquecível casal de mestre-sala e porta-bandeira Maria Helena e Chiquinho. Elementos africanos se destacavam na indumentária de mãe e filho que fizeram história e foram ao lado da carnavalesco e do intérprete Preto Joia, da rainha de bateria Luiza Brunet, personagens inesquecíveis desse era de ouro.

Rei momo: umas das muitas figuras da iconografia de Rosa Magalhães. (Foto de Wigder Frota)

O lado festivo e jocoso da artista apareceu ao nomear o enredo inspirado numa marchinha de Lamartine Babo, enredo campeão da agremiação em 1981, que apareceu homenageado na última alegoria da escola ao lado de um enorme Rei Momo. Para finalizar, Rosa sempre gostou de uma festa!


2001 - Cana-caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, Pernambuco… Quero vê descê o suco, na pancada do ganzá (Campeã)

O belo efeito da Comissão de Frente daquele ano. (Foto de Wigder Frota)

Aula de Brasil e Narrativa 8: como transformar um enredo que tinha tudo para ser burocrático e histórico, num delicioso passeio multi-cultural. A viagem que passeou de Veneza ao oriente, não perdeu o sabor brasileiro característico e que exaltou nossa cultural numa singela homenagem e lúdica homenagem ao compositor Carlos Cachaça. 

A bela alegoria sobre as Cruzadas. (Foto de Wigder Frota)

As escolhas de Rosa Magalhães podem até ser simples em algumas ocasiões, mas nunca óbvias. No enredo sobre a cana e cachaça, o último setor se vestia de verde e rosa e até fez os que torciam o nariz para a escola certinha de Ramos a olharem com mais carinho. Curiosidade é que a Imperatriz veio exatamente antes da Estação Primeira naquela ocasião e ainda completada 73 anos de fundação.

Uma das alas homenageando o verde e rosa mangueirense. (Foto de Wigder Frota)

Com a repercussão do desfile que passava por Veneza, Rosa após aquela apresentação foi parar num dos eventos de arte mais prestigiado do mundo: a Bienal de Veneza. Ao lado de outros artistas consagrados, como Vik Muniz, Ernesto Neto, Miguel do Rio Branco e Tunga, a carnavalesca ocupou com suas fantasias e adereços o pavilhão brasileira na mostra de arte internacional.  

Anjinhos barrocos: sempre! (Foto de Wigder Frota)

2002 - Goitacazes… Tupi or not Tupi in a South American Way (3º lugar)

O colorido tropical da alegoria sobre Carmem Miranda. (Foto de Wigder Frota)

Campos: vai um dinheiro aí para falar da minha história? 

*Rosa revira vários livros atrás de um forma de contar esse enredo*

Foi lendo uma ata da câmera de vereadores que uma discussão lhe chamou atenção: tinha que ter ou não, o Goitazaces no nome da cidade? 

pesquisar: "goitazaces eram índios canibais"... 
Canibais? Antropofagia... Carlos Gomes... Modernismo... Tropicalismo... Carmem Miranda! 
Um enredo sobre a antropofagia, afinal. Quem poderia esperar.

Rosa: Tá pronto, Campos! 

Campos: Essa enredo não é sobre a gente! Devolve o meu dinheiro aqui. 

A alegoria com elementos de Tarsila. (Foto de Wigder Frota)

Tarsila e Rosa: a artista modernista é uma referência constante do trabalho da professora, o traço da pintora apareceu de maneira marcantes em um dos setores do desfile, reproduzindo a obra em fantasias e alegorias. Antropofagia pura! 

Os bichos-papões da Comissão de Frente. (Foto de Wigder Frota)
Na comissão, o lado jocoso e fofo da professora: enormes bichos papões engoliam a Sapucaí.

Uma aula de enredo em cultura e história da arte brasileira. Tantas histórias e análises sobre esse carnaval que já rendeu até pesquisa de mestrado. Recomendo A antropofagia de Rosa Magalhães, do Leonardo Bora, editado pelo Selo Carnavalize. Saiba mais sobre esse desfile na coluna Do Setor 1 à Apoteose, clique aqui.

Saiba mais sobre o livro clicando na aba Selo Carnavalize.

2003 - "Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau…"  (4º lugar)

A porta-bandeira Maria Helena e as alas de baianas. (Foto de Wigder Frota)

Foi após ter seu cartão de crédito clonado, que Rosa teve a ideia de uma narrativa menos inspirada mas muito interessante sobre a pirataria através dos tempos. O samba-enredo era mais pra cima do que o habitual, mostrando uma preocupação da Imperatriz em tentar se livrar da fama de certinha e técnica. 

(Foto de Wigder Frota)

Aula de artes: uma das alegorias mais bonitas do desfile seria uma caveira repleta de diamantes. Feita primeiro por Rosa Magalhães, a mesma ideia seria refeita pela polêmico artista britânico Damien Hisrt e se tornaria uma obra contemporânea famosa no circuito artístico institucionalizado. 

A caveira coberta de jóias: arte contemporânea na veia. (Foto de Wigder Frota)

2004 - Breazail (5º lugar)

A enorme bruxa do abre-alas. (Foto de Wigder Frota)

Ah é, tá todo mundo fazendo nome de enredo gigantesco só por minha culpa? Então, o meu título só vai ter oito letras. 

E vamos de mais um olé de patrocínio: Cabo Frio > Pau-brasil > brasa > vermelho. 

Os moisaicos que lembravam a arte de Gaudí.

Na abertura, pelas bruxas de vestidos verdes e meias vermelhas mostravam bem o grande caldeirão que a deusa ia oferecer.  Mais uma narrativa rebuscada que falava de utopias, imaginários viajantes e diásporas: Rosa trazia nesse carnaval referências a artistas como Bosch e Gaudí. Mais uma característica da professora:uma viagem multicultural menos óbvia e mais fragmentada. 

2005 - Uma delirante confusão fabulística (4º lugar)

O belo abre-alas sobre o escritor Hans Christian Andersen. (Foto de Wigder Frota)

Uma simples biografia aos bicentenário de Hans Christian Andersen? Nada disso! Uma delirante história juntando as histórias do dinamarquês com as brasileiríssimas narrativas de Monteiro Lobato. 

Nada de gigantismo! Os famosos caixotinhos de Rosa são uma aula na necessidade desmedida de alegorias gigantescas que nada dizem e brilham por brilhar.  Neste ano, Rosa criou brilhantes cenários que mostravam sua maestria criativa em detalhes singelos e vibrantes. 

(Foto de Wigder Frota)

O carro da porcelana chinesa é um dos meus favoritos. O samba-enredo ajudou a consagrar a escola de Ramos mais uma vez, conseguiu de maneira inteligente inserir o nome do homenageado em seus versos animados e poéticos.

Um enorme e multi-colorido carro que lembrava um quarto infantil. (Foto de Wigder Frota)

E tem mais exposição! Voltando a frequentar o cenário dos museus e centros culturais, o carnaval deste ano também lhe rendeu frutos no meio das artes institucionalizadas. Pequenos manequins do figurinos e maquetes dos setores sobre o escrito europeu ficaram em exibição no Museu em sua homenagem na Dinamarca. 

2006 - Um por todos e todos por um (9º lugar)

A comissão de frente lembrava os mosqueteiros de Dumas. (Foto de Wigder Frota)

Aula de literatura? Também temos! Filha de acadêmicos, Rosa sempre primou por referências literárias em seus desfiles. Para contar a história de Giuseppe e Anita Garibaldi uniu as histórias de cavaleiros de Alexandre Dumas no balaio. Esteticamente, a artista deixou os tons dourados e vibrantes para apostar numa abertura negra.  

(Foto de Wigder Frota)

Vamos navegar? Em seus carnavais, Rosa foi uma das artistas que mais levou embarcações em seus desfiles. Símbolo da utopia, para o filósofo Foucault, o barco pode ser um objeto de interessante análise dessa artista que sempre fala de deslocamento e diásporas. Em 2006, um recorde pessoal: foram três tipos de embarcações diferentes representadas nas alegorias. 

2007 - Teresinhaaa, uhuhuuuu!! Vocês querem bacalhau? (9º lugar)


A abertura misturava bacalhau e Chacrinha. (Foto de Wigder Frota)

Uma história chata e burocrática? Nada disso! Um enredo espinhoso ganhou ares jocosos ao misturar Chacrinha, mitologia nórdica e blocos de carnavais nas mãos da professora. Mesmo controversa e pecando aqui e ali esteticamente, a salada de bacalhau tinha sabores interessantes.  Mesmo com qualidades e erros, os tempos do casamento entre Ramos e Rosa parecia não dar mais o caldo de antes.

Final festeiro: uma homenagem ao bloco Bacalhau do Batata.

Foi o último ano da parceria entre Rosa Magalhães e o coreógrafo Fábio de Mello, após quatorze anos. De legado, ficaram sombrinhas, leques, violinos, bruxas, bichos papões e imagens que revolucionário o quesito de abertura com simplicidade, genialidade e bom-gosto.

Aula de mitologia nórdica: O choque do gelo do norte, com o fogo ardente do sul. (Foto de Wigder Frota)

2008 - João e Marias (6º lugar)

Festa para os nobres, fome para os pobres: aula de revolução francesa. (Foto de Wigder Frota)

Histórias óbvias que ganham contornos divertidas pelas mãos de Rosa Magalhães - parte 4: a comemoração do bicentenário da chegada da família real portuguesa rendeu um enredo focado em figuras femininas e que revistou a história brasileira com um final bem característico: uma grande celebração carnavalesca do caldeirão que forma o Brasil. 




Depois de orçamentos milionários que garantiram o bom gosto e requinte, Rosa mostrou que saberia trabalhar também com números mais reduzidos apresentando um carnaval mais singelo. Das alegorias de embarcações propostas por Rosa, foi nesse ano uma das mais interessantes: um solitário D. João navega numa baleia escamada inspirada numa gravura medieval.

As perucas de Divina Luján na Comissão de Frente irreverente. (Foto de Wigder Frota)

Outro grande destaque do desfile foram as invetivas perucas feitas de EVA pela peruqueira Divina Luján, a artista que dá expediente no Teatro Municipal há décadas, tem uma parceria longa com Rosa e introduziu com maestria o uso de emborrachada num trabalho maravilhoso. Uma reprodução da peça esteve na nossa exposição no CMAHO.

2009 - Imperatriz… só quer mostrar que faz samba também! (7º lugar)


A abertura daquele ano. (Foto de Wigder Frota)

Foi como uma auto-homenagem a Imperatriz e ao bairro de Ramos que terminou, de modo mais melancólico, o vitorioso casamento Rosa-Imperatriz. Sem tanta inspiração e as características positivas do seu estilo, Rosa apresentou um carnaval mais simples e sem grandes momentos. A imagem mais lembrada o cortejo foi um destaque negativo: uma reprodução alegoria que relembrava a apresentação de 1989, em um projeto mal-acabado. 

A alegoria que trazia um enorme Rei Momo. (Foto de Wigder Frota)

Depois de tantos, mais um Rei Momo apareceu na trajetória da artista para lembrar a festa. A predileção pelo personagem tinha seus motivos, foi seu pai Raimundo Magalhães, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, um dos responsáveis pelo resgaste da figura no imaginário carioca durante as primeiras décadas do século XX.

Ilustração de Antônio Vieira. 

Foram dezoito desfiles que entraram para a história da folia. Belas páginas escritas. Que Rosa e Imperatriz reencontrem os dias de festa na corte, com um banquete de frutas tropicais, histórias e causos inesquecíveis, a alegria de índios e nobres se misturando entre leques e sombrinhas. Uma utopia de um caldeirão festeiro e brasileiro que só festejando pode se tornar mais feliz. Amém! 

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Do setor 1 à Apoteose: Goitacazes, tupy or not Tupy, in a South American Way! - Imperatriz Leopoldinense 2002

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