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Carnavalize


Por Guilherme Niegro

Em nossos sete textos desta parceria com o Carnavalize, abordamos valores tradições africanos e afrodiásporicos que estão inseridos no dia a dia das Comunidades carnavalescas. Esses valores são marcas de memória, os quais o colonialismo não conseguiu apagar e tampouco conseguirá a elite branca, que teima em espoliar estas agremiações negras. Esta memória que falamos permanece a cada nascer de um corpo preto, tendo em vista que o corpo é o nosso sagrado; é a partir dele que manifestamos nosso contato com a energia/axé das manifestações da natureza, numa simbiose ontológica de troca mútua. E é a partir dela que se dá a circularidade em nossas cosmogonias. 



Para nossa ancestre Azoilda Loretto Trindade, os Valores Civilizatórios são os exemplos máximo da Circularidade - “O terreiro tem o papel importantíssimo de resgatar a Mãe África, mesmo que através de uma nostalgia, de um lamento. E é esse território representado pelo círculo que vai reaparecer em várias atividades, de cunho religioso e também no espaço lúdico. Essa mesma roda está presente na capoeira, no jongo, no tambor de crioula, na gira da umbanda e no samba”.

Osmar Filho


Para nós, a “morte” só existe a partir do esquecimento. É com esse esquecimento que se deixa de existir um ancestral. Somos o contrário dessa lógica eurocêntrica de enxergar a “morte” como o fim. Em nossas cosmogonias, a “morte” é o novo começo, ou seja, o axé/energia se renova, e é a partir da oralidade que se permanece cultuando nossos ancestrais. Oralidade que a todo momento tentam nos ceifar, a partir de um olhar maior estética quase sempre acadêmica/eurocentrista.

Hampaté Bâ (2003, p. 23) nos ensina que “na África tradicional, o indivíduo é inseparável de sua linhagem, que continua a viver através dele e da qual ele é apenas um  prolongamento”, ao que Munanga (1984, p. 70) complementa: “a morte não tem um caráter trágico na África, pois há apenas o desaparecimento de um ser cuja realidade última é inteiramente relativa às entidades preexistentes […] A morte não é uma ruptura, é uma mudança de vida”.

Para esta ancestralidade continuar existindo, devemos estar sempre olhando para aqueles e para aquelas que estiveram antes de nós, que circularam pelas grandes centros, que foram marginalizados, que tiveram que anular uma identidade para que hoje possamos exaltar estes homens negros e estas mulheres negras que deram suas vidas pelo samba, pelo terreiro e para as escolas de samba.

Para os povos africanos e para nós africanos em diáspora, a circularidade está em tudo. Na manifestação do axé, ao se encontrar com o corpo, surgem novas formas para esta energia, que por consequência se dá em manifestações culturais que ligam ENERGIA + CORPO, resultando no Quilombo, na Umbigada, na Capoeira, no Maracatu, no Samba, na Batucada, no Jongo, no Urbano e no Rural, nos Cucumbis e nas Escolas e em toda união entre ENERGIA + CORPO. 

Os povos negros sempre louvaram aos seus ancestrais e orixás com o corpo: cantando, dançando, batucando. É o princípio da corporeidade que parte da ideia de Princípio e na Espiritualidade temos Exu: o início de toda comunicação e de todo movimento. 

A Terra gira em torno de si e do Sol e nós giramos com ela. Através desse movimento estabelecemos comunicação e entramos em harmonia com todo o Universo. Assim, ao girar as porta-bandeiras e baianas se harmonizam com o Universo, evocam as forças ancestrais, os princípios de quem deu origem à sua Escola de Samba, e ao gerar o movimento no ar, recolhe e espalha o axé para toda a comunidade. Corpo individual e corpo coletivo do Quilombo Escola de Samba, em equilíbrio com a natureza. 

A dança, o giro, é ao mesmo tempo arte e reza. Arte porque tem o poder de encantar e expressa o sentimento de um povo. É uma reza porque carrega toda ancestralidade da comunidade.  

O Batuque da bateria é a voz do tronco do imbondeiro (Baobá), árvore sagrada. Nela foram talhados os primeiros instrumentos ainda no continente Mãe. Para os Sobas, o embondeiro já nasce velho, nasceu com o mundo e, portanto, são os mais sábios pela experiência. Esta madeira, ao se encontrar com o couro outrora de animal, hoje sintético, dá a liga e a sintonia enérgica desta comunicação que corta o ar e penetra nossos corpos nos dando o ritmo e o axé! 

Nossos corpos são QUILOMBOS, nossas raízes são Quilombolas, somo seres do Axé, da Força Vital, da Palavra, do Ritmo, do Princípio, manifestamos tudo isso através do Samba, nossa maior expressão de Comunicação de nossa Comunidade. Fazemos Circular nossa memória sem saber, pois o Samba não se explica, ele se samba!

“Porque mesmo que queimem a escrita
Não queimarão a oralidade.
Mesmo que queimem os símbolos,
Não queimarão os significados.
Mesmo queimando o nosso povo,
Não queimarão a ancestralidade.”
 
NEGO BISPO (2020)






 

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O Quilombo do Samba é um coletivo negro de pesquisadores do carnaval brasileiro propondo uma discussão afrocentrada sobre a festa. Quinzenalmente aos sábados, suas reflexões vão ar aqui no Carnavalize.


Texto: Vivian Pereira


O corpo é a porção da matéria que marca nossa presença no mundo. É o local em que guardamos nossa herança genética, no qual se manifestam as nossas vontades, desejos e o que foi aprendido ao longo de nossa trajetória. Por isso, além de construção biológica, o corpo é também um produto de construção social, em que carregamos, nas representações culturais e simbólicas, uma sociedade. 

Nas representações cartesianas, o corpo é um conjunto de átomos, moléculas, células que formam órgãos. Nas cosmogonias africanas, porém, o corpo é uma particularidade cultural. A música, a dança, a pintura e a evocação dos ancestrais são modos de celebrar a vida. Na cultura africana, o corpo é parte da criação material e imaterial. Além disso, o corpo é veículo entre o mundo visível e invisível. É o território de formação da identidade e de pertencimento, em que os saberes fluem e se reconfiguram. O corpo é lugar de convivências e de experiências que agrega a memória ancestral, a circularidade da vida e o sentimento de pertencimento. O corpo negro não é um corpo individual, mas sim um corpo comunitário, participativo, no qual se estabelece uma identidade coletiva. 

Arte: Osmar Filho.

Quando falamos em oralidade, o corpo se comporta como portador da memória, da herança, aquele que guarda as histórias. Essa memória corporal se manifesta nas festas, rituais e cerimônias – cada uma com seu significado, mas sempre buscando conexão entre os mundos interior e exterior, o mundo real e espiritual. Expressam uma de organização social que define o papel dos indivíduos dentro da sociedade.

Durante a diáspora forçada, os corpos negros tornaram-se receptáculos da memória de diversos povos. Impedidos de trazer consigo seus pertences, objetos sagrados ou não, seus corpos se tornaram ferramenta e linguagem, abrigo simbólico e expressivo da memória de suas danças e rituais, com objetivo de manter sua identidade cultural. O corpo se tornou o arquivo da memória coletiva. O corpo africano que foi objetificado, coisificado, também se coloca como um arquivo que carregava o registro de muitas experiências. Essas memórias foram úteis para sobrevivência no Novo Mundo. 

A reorganização social teve suporte no corpo para reestabelecer, de alguma forma, os vínculos com a África. Citando Muniz Sodré, em O terreiro e a cidade, o negro no Brasil resistiu e impediu que seu corpo fosse feito de máquina coisificada. Ao invés disso, seu corpo foi plástico, cheio de vitalidade, firmando-se nos quilombos e nas cidades e reconstruindo, aqui, uma África na palavra, no corpo, na música, no ritmo, na ancestralidade. Seja pela religiosidade, pela dança ou pela luta, a expressão corporal foi instrumento de resistência e construção da identidade. 

No texto anterior, falamos sobre a musicalidade, os batuques das escolas de samba, a herança africana. Pois bem: se o batuque é troca de energia, como falamos, o corpo é o instrumento por onde a energia passa. Muniz Sodré, em Samba: o dono do corpo, diz que o samba é formado por uma síncopa; a ausência no compasso da marcação de um tempo que repercute em outro tempo mais forte. Essa síncopa incita quem ouve o samba a preencher esse vazio com palmas, balanços, danças. Esse corpo que palmeia, que balança e dança é o mesmo corpo que a escravatura tentou coisificar e reprimir: o corpo negro. 

O corpo, então, é parte do samba. As mãos que batucam, os pés que batem no chão, os quadris que se movem fazem e são a alma do samba, pelos caminhos em que se flui a energia do som. O samba, logo, é mais do que a expressão cultural de um povo. É um instrumento de luta para a afirmação negra na sociedade brasileira. O som – nesse caso, o samba – é resultado de um processo em que um corpo busca contato com outro corpo para acionar o axé. Assim, a música e o corpo estão interligados. A música pode ser elaborada através dos movimentos do corpo, dos pés que batem no chão em protesto, das mão que batem no peito demonstrando força ou dos quadris e pernas que gingam mostrando agilidade; ou o corpo que dança pode dar forma, pode ser a versão visual da música. Essa relação música – corpo vai ainda mais além, sendo um meio de comunicação, afirmação e identificação social ou um ato de dramatização.  

Arte: Osmar Filho.

O que são os desfiles das escolas de samba senão um ato de comunicação, afirmação de identidade e uma dramatização? Os corpos que formam o cortejo estão ali defendendo a identidade de sua comunidade, o seu pavilhão. Quando os passistas sambam, as baianas e a porta-bandeira giram, o mestre-sala risca o chão da Sapucaí e toda a comunidade canta e dança, eles dão forma ao batuque da bateria, eles contam a história da comunidade e também do enredo; comunicam-se ao público a sua alegria em estar ali, fazendo parte daquele cortejo sagrado e profano.  

Pensemos por que as baianas e as porta-bandeiras giram. As primeiras são as grandes matriarcas do samba, símbolo de cuidado e afeto, e guardam o axé dos ancestres; as segundas, carregam, guardam e defendem o pavilhão, símbolo maior de uma escola de samba, que contém o axé da comunidade. Essas duas figuras giram para espalhar a energia vital, o axé para toda a comunidade que participa do cortejo. Tempos atrás as porta-bandeiras desfilavam à frente das baterias. Por quê? O batuque gera som. Som é energia que surge da interação do corpo do ritmista com o couro do instrumento. Quando a porta-bandeira gira, ela recolhe o axé oriundo da batucada, que se junta ao axé do pavilhão, e espalha para todos. Energia que faz todo mundo cantar, sambar; energia que faz a comunicação entre os mundos visíveis e invisíveis. 

Arte: Osmar Filho.

Vejamos, agora, as rainhas de bateria. Não é uma obrigatoriedade, não conta ponto para a escola, porém, quando paramos para analisar, é um posto carregado de significados e simbologias. Ela reina porque personifica o som da batucada, seu corpo, sua ginga, preenche a síncopa do samba – ela é o samba. Portanto, uma rainha de bateria é aquela que, com seu corpo, dá vida ao som que sai da bateria.
  
Assim, ritmo e corpo se complementam, formando o samba. O corpo é o elemento gerador do som, a voz, o batucar dos instrumentos, mas também é o elemento que dá vida ao ritmo. Baianas, passistas, porta-bandeiras, rainhas de bateria, intérpretes e ritmistas são alguns dos corpos que captam e emanam a energia do samba. Eles e elas materializam e dão visualidade ao som preenchendo sua síncopa, formando o samba, ritmo-dança africano e diaspórico. Corpos negros que se unem nas quadras, nas ruas ou na Avenida formando um corpo único e ancestral chamado escola de samba. 


 

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O Quilombo do Samba é um coletivo negro de pesquisadores do carnaval brasileiro propondo uma discussão afrocentrada sobre a festa. Quinzenalmente aos sábados, suas reflexões vão ar aqui no Carnavalize.


por Osmar Filho e Vivian Pereira

Não há como se segurar quando a bateria de uma escola de samba começa a tocar. Quando uma bateria de escola de samba começa a tocar, o som invade a quadra ou a avenida e uma energia potente toma conta de tudo e todos. Energia. Som é energia, ondas mecânicas que se propagam deslocando ar. O homem africano descobriu esse fenômeno físico há milênios, com troncos de árvores recobertos com pele de animais, que produziam sons que utilizavam para a comunicação entre si e com os ancestrais. Se o som é energia, não só o ar vibra, produzindo ritmo, música, mas também as moléculas que formam os corpos humanos, levando ao transe e religando os corpos negros com seus ancestrais. O ritmo e o batuque, então, podem ter diferentes intencionalidades – das sacerdotais às recreativas. 

Autor: Osmar Filho.

Podemos dizer que na cultura africana o batuque assume três funções principais: comunicação, celebração e divinização. Todas as três funções interligadas, porque o som está intimamente ligado com o espírito. Essa relação som – espírito é uma forma de o homem se elevar e propagar vibrações, energia, comunicar-se com os irmãos e com seus ancestrais e celebrar a vida. Como diz o refrão do samba de 2014 do Império da Tijuca, vai tremer, o chão vai tremer. [...] Coisa de pele, batuque ancestral. A música criada em África foi propagada para todos os continentes, tanto na diáspora espontânea, quanto na forçada pela escravização moderna, criando diversas manifestações culturais. 

Em África, a música assume diversas finalidades, desde manifestar sentimentos até contar histórias. No Brasil, não é diferente. Além de expressarem suas tristezas e alegrias, também cantavam e batucavam em forma de protesto contra a escravização. Com seus batuques, clamavam aos orixás para que todos os males findassem e a liberdade fosse uma realidade. Esses cantos de protestos, cultos e rituais deram origem às batucadas no Brasil. Batucadas essas que são sagradas e profanas ao mesmo tempo. 

Dentre essas batucadas, temos o maracatu. A sua relação com o batuque foi contada este ano na avenida pela Sossego, com o enredo Tambores de Olokun. O maracatu é manifestação cultural negra e brasileira nascida em Pernambuco, que teria se originado a partir das cerimônias em que africanos angola-congoleses escravizados remontavam a coroação dos reis e das rainhas do Congo. O rei e a rainha escolhidos representariam os negros, sendo estes livres ou escravizados. No período de carnaval, os escravizados podiam sair para manifestar em público suas tradições e sua fé, celebrando a coroação da corte. O maracatu é reconhecido como uma prática cultural de negros, relacionado às religiões de terreiros (candomblé, jurema e umbanda), pois os escravizados colocavam no cortejo elementos religiosos – como os tambores, por exemplo. 

Autor: Osmar Filho.

Há pouco mais um século, os negros brasileiros transformaram o legado dos tambores ancestrais ainda presente nos terreiros de candomblé e umbanda em algo mais profano também, que pudesse expressar o transe do mesmo corpo nas ruas. E assim surge o samba. Mantendo o princípio básico da musicalidade africana, a percussão rítmica e a síncope no corpo, o samba aflorou um novo velho universo sonoro, sendo ele um legado ao mesmo tempo africano e diaspórico, negro e brasileiro. Se nos terreiros o batuque é sacralizado aos ancestres e orixás, nos 4 dias que temos para carnavalizar a vida esses corpos e vidas se unem como comunidade em várias vertentes e direções, sendo a bateria uma das mais importantes. 

As baterias e os cantores de samba-enredo são a versão profana do que fazem os ogans e alabes diante dos corpos sagrados incorporados por orixás, voduns e nkisis. As baterias tocam, no ritmo do samba, padrões rítmico-sonoros que evocam as forças da natureza presentes em cada um de nós. É impossível permanecer apático à temperatura vibracional de uma Furiosa, por exemplo. Não Existe nada Mais Quente que mais de 300 pessoas fazendo outras 85 mil acompanharem a mesma condução energética. Em torno da mesma energia tribal de aldeias Tabajaras e Invocadas batidas do coração de cada escola; tamborins de respeito que fazem o corpo chacoalhar, vibrar e emanar energia. 

O ritmo das baterias guarda a tradição religiosa das escolas de samba. Isso porque a maioria delas tem ligação forte com o candomblé. Os antigos dizem que os surdos de terceira (marcação) eram tocados apenas por ogans. Por isso, cada escola de samba era reconhecida ao longe pelo batuque de sua bateria, que tocava para saudar o orixá de sua agremiação. A relação das escolas de samba, nos desfiles, musicalmente e na dança, com fundamentos das religiões de matriz africana, era muito nítida nos primeiros desfiles. Os componentes seguiam um cortejo a caminho da Praça Onze e reverenciavam mães de santo, como Tia Ciata e Tia Fé, com as baterias. Então, o batuque das baterias, as ondas sonoras, conduzem o "axé", a energia, a força e o poder da natureza, invocando os orixás a participarem do cortejo, mantendo viva ancestralidade do povo negro. 

Autor: Osmar Filho.

Também é imprescindível falar dos cantores e cantoras que marcaram com suas vozes negras a história da musicalidade preta quilombola das escolas de samba. O que dizer dos poucos reconhecidos tenores e barítonos do samba, com vozes que na vertente popular e solta do samba pouco têm a dever a cantores consagrados pela cultura não negra dentro e fora do Brasil. Jamelão, por exemplo, do alto de sua realeza canora, nunca tendo aceitado a alcunha de “puxador” de samba, sempre advogou o próprio valor como intérprete, e por isso eternizou suas interpretações nos desfiles da Estação Primeira de Mangueira. Certamente sua tessitura vocal deve estar como as vozes de Ney Vianna, os David do Pandeiro e Correia, vibrando por aí, fazendo o universo sambar. 

Toda essa trama sonora não pode ser completa sem a presença da imaginação poética dos compositores, que nos bridam com as palavras cantadas, aquelas que carregam o “ofó”, o sopro que dá a vida aos versos que todo brasileiro conhece: de vocalizes desinteressados em simples laia laias às sentenças que expõem rincões de nossa cultura, como em “Vejam essa maravilha de cenário”, do Amazonas ao Rio dos cantos e batucadas. 

A musicalidade das escolas de samba, herança africana, portanto, é mais que uma celebração, um festejo ou um ritmo. O batucar dos tambores, as vozes que ecoam os versos de um samba, os corpos que dançam; tudo isso é som, propagado em ondas que fazem tudo tremer. É a energia em movimento, que sai dos batuques dos tambores, das cordas vocais e da ginga do corpo, e enche o espaço, ganhando o universo e nos reconectando com a nossa ancestralidade.



Para saber mais sobre as batidas de cada bateria acompanhe a nossa Série Batuques nas quarta-feiras de agosto. Já sobre a relação de devoção entre as agremiações e seus protetores a pedida é a Série Padroeiros. 

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Por Guilherme Niegro e Vivian Pereira

“Pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte" Solano Trindade 

As três matriarcas. Autor: Osmar Filho

No senso comum, a escola tradicional ocidental é a única forma de se oferecer um ofício. Só por meio da educação institucionalizada, oferecida pela Estado, é que ocorre ou é compreendida a prática da educação. No caso da cosmovisão Bantu, a educação é algo ligado à coletividade da comunidade por intermédio da partilha de conhecimento. Assim, são gerados os ofícios para serem exercidos dentro e fora da comunidade; na diáspora, os quilombos eram organizados dessa forma, e no pós-abolição, com o surgimento das Escolas de Samba, esta cosmovisão permanece dentro destas sociedades.

Entende-se, com isso, a importância da ancestralidade e dos mais velhos dentro destes espaços nos quais conhecimento é compartilhado de forma geracional. Ressalva-se aqui que, mesmo com a espoliação branca dentro destes espaços - reflexo de nossa sociedade -, permanecem reexistindo dentro deles as tradições bantuísticas, principalmente de forma oral. “Uma variedade de raízes de palavras proto-Bantu revela as maneiras em que as sociedades compartilhavam conhecimento e educavam os jovens”, como diz o livro África Bantu. Ou seja, a divisão ocorre de forma oral e se reinventando tanto no continente africano quanto na diáspora do outro lado do Atlântico.

Foi o que o nosso ancestral Mestre Ismael Silva enxergou ao denominar o seu Quilombo de Escola de Samba, pois ali se ensinava o ofício de ser sambista e as artes nobres do samba; tocar, criar e sambar, de forma coletivizada. As movimentações surgem em um período no qual era negada aos negros e às negras a educação plena nos espaços de ensino tradicionais oferecidos pelo Estado, em um ensino euro-estadunidense cristão, focado na ideologia eugenista. Os Quilombos do Samba eram a reinterpretação das sociedades Bantu no século XX.

A obra "Escola de Samba: A árvore que esqueceu a Raiz”, de Cadeia e Isnard, versa sobre o conhecimento que veio de fora para dentro destes espaços, prejudicando o crescimento ou a continuidade destes ensinamentos, a partir da entrada e da dominação do fazer carnaval não só dos carnavalescos acadêmicos, como também dos brancos paternalistas que transformaram as Escolas de Samba em espaços de crescimento financeiro individual e de poder perante a comunidade, com ou sem a participação do Estado.  

No livro “Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile”, Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti descreve as diferenças em dois grupos.

“Os sambistas tinham filiações comunitárias ao morro, à escola de samba, às suas expressões artísticas e aos seus antecedentes históricos: o samba de terreiro, o samba de partido-alto, o jongo, o samba de roda e o candomblé, ao passo que os carnavalescos mediavam as demandas econômicas e culturais do mundo ‘fora’ da comunidade: o turismo, os consumidores de classe média da zona sul, e a indústria fonográfica”.

A grande mãe. Autor: Osmar Filho

A denominação do “carnavalesco” individualiza o que era organizado de forma coletiva e, assim, faz perder o sentido de comunidade. Passa a ser para a comunidade, e não mais dentro do conceito de PRETAGOGIA, que é a partilha, a organização e o sentido de criação (feito de preto e preta para pretos/pretas e não-pretos/as). Não adianta termos uma enxurrada de enredos de temática afro/negra se os principais espaços de execução são ocupados por brancos e  sobretudo acadêmicos, sem ligação aos Quilombos do Samba, que passam a folclorizar e a enxergar essas histórias apenas como temáticas carnavalizadas.

A figura do carnavalesco acaba interferindo, também, na produção dos sambas-enredos. Os compositores tinham maior liberdade para comporem os sambas, trazendo a visão da comunidade sobre o enredo. As obras musicais retratavam aquela realidade. Porém, quando o que era coletivo (o processo de desenvolvimento e execução do enredo) fica centrado em uma única figura, o carnavalesco, a visão passa a ser dele, o enredo toma a personalidade dele. Como a maioria dos carnavalescos são homens brancos, o enredo fica embranquecido. O samba-enredo também fica com a cara que o carnavalesco quer, já que é a ideia do carnavalesco que acaba imperando nos samba enredo - agora, a tradução musicada de uma sinopse. Não bastando isso, depois das disputas, o samba campeão pode passar por modificações para se “adequarem” ao enredo proposto. E aí, retornamos à questão: não adianta ter enredos com temática afro/negra se quem executa é branco, se as ideias, os pensamentos sobre os enredos, são deles. 

Assim, o que temos hoje como samba-enredo é a ideia de apenas uma figura ou de um pequeno grupo de pessoas (majoritariamente brancas) que detém o poder intelectual nas escolas de samba. Ganha o samba que melhor traduz a ideia do(s) carnavalesco(s). Com isso, a composição de samba-enredo vira uma indústria, em que qualquer um que saiba musicar uma situação e que tenha capital econômico pode chegar. Esses acabam dominando tais espaços, sem que saibam em qual terreno estão pisando, sem saber dos fundamentos e tradições que fazem parte daquele lugar, deixando de lado quem chegou ali primeiro. E a comunidade acaba silenciada, o compositor local não tem vez, perdendo-se, dessa maneira, a ancestralidade, a tradição e oralidade. 

Escutar, falar, assimilar ideias e práticas e desempenhar ações coletivamente conferem sabedoria e fortalecem o senso de pertencimento, bem como a educação nos Quilombos do Samba (o ensino dos mais velhos/as como histórias orais, contos, mitos, canções, charadas e provérbios narrados nas conversas em forma de roda, de samba, do jongo, do maracatu e afins)!

Exemplo clássico dessa relação geracional é narrada pelo ancestral Tantinho da Mangueira no programa Ensaio (disponível aqui). Tantinho fala que sua família pertencia à Estação Primeira de Mangueira, e ele ingressa na ala da bateria entre seus 5 e 6 anos de vida. Aos 13 anos, é convidado pelo Mestre Cartola para integrar a ala de compositores da escola. No programa, ele conta que sem antes passar por um teste, todos e todas que quisessem integrar a Ala de Compositores tinham que passar pelo crivo do Professor Cartola. Esse processo vem se perdendo dentro das novas disputas de sambas-enredos, com a falta de identificação dos compositores com as Escolas, a partir dos escritórios do samba, que visam lucrar com as competições. 

Os membros mais velhos destes Quilombos têm a responsabilidade de corrigir, questionar aspectos das histórias, das letras ou da tradição oral que eles consideram que o “carnavalesco" ignore, esqueça, ou narre de forma incorreta. Nada é mais importante dentro de um Quilombo do Samba do que o respeito à opinião dos nossos e das nossas pessoas mais velhas, pois com elas está o conceito de educação quilombola que deu origem às escolas de samba.
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Autor Ilustração: Osmar Filho/Arte Capa: Vítor Melo

Texto por Gabriela Sarmento, Osmar Filho e Vívian Pereira

Mãe Ciata d’Oxum imortal. Autor: Osmar Filho
Quando falamos em matriarcado, logo somos levados a pensar no sistema que a visão ocidental nos levou a imaginar, no qual as mulheres mandam, detêm todo o poder, são superiores ao homem. Porém, o matriarcado africano não funciona bem assim. Nesse matriarcado, as mulheres têm força de comando na sociedade, mas não se inferioriza o homem. A mulher é o centro porque é dela que vem a vida, é ela quem alimenta a criança nos primeiros anos de vida, ela é quem pode espalhar essa energia vital para sociedade. Essa mulher negra africana faz isso quando ela cuida da sua casa, dos filhos, quando ela educa meninos e meninas, transmitindo conhecimentos. Quando ela prepara o alimento. Aliás, o alimento é uma forma de se dar e receber a energia vital. Por tudo isso, a mulher é exaltada e respeitada. O homem possui suas funções dentro dessa sociedade, não existe um ou outro, o poder não é um campo de disputa, não há sobreposição de forças. O que existe é um conjunto de forças que juntas constroem e mantêm uma sociedade.

Essa característica do matriarcado se manteve durante a diáspora. A manutenção e a transmissão  da cultura e da luta pela liberdade tiveram o protagonismo da mulher negra, como bem contaram o Império da Tijuca, em 2013 (Negra pérola mulher), a Mangueira, em 2019 (História pra ninar gente grande), e, em 2020, o Porto da Pedra (O que é que a baiana tem - do Bonfim à Sapucaí) e a Viradouro (Viradouro de alma lavada).

As mulheres vindas da África para cá ajudaram e muito na reorganização social, cultural e econômica dos povos negros, trouxeram cultura e a guardaram. Até mesmo no sentido do vestuário, tudo isso foi trazido de lá para cá e foi mantido, adaptado ou transformado. Essas mulheres foram muitas vezes o esteio das suas famílias. Garantiam a sobrevivência dos seus, lavando roupas, vendendo seus quitutes. Além disso, eram mães de santo e davam grandes festas nos seus terreiros de candomblé e protegiam os primeiros sambistas das perseguições policiais no período pós-abolição. Em dias de desfiles, os grupos carnavalescos recebiam as bençãos dessas mulheres; elas garantiam a alimentação dos sambistas e dos desfilantes, já que eram também as quituteiras que garantiam a sobrevivência das suas famílias com a venda de alimentos nas ruas. O alimento restaura as forças e por meio dele também há e se obtém a energia vital.

Migraram do espaço das ruas para os terreiros de candomblé, migraram para a escola de samba, também, e aí, a gente começa a enxergar alguns elementos estéticos bem parecidos em cada lugar de manifestação dessa cultura, assim como o que cada um tem em comum com o outro. Os elementos estéticos que essas mulheres usavam no período escravocrata enquanto elas trabalhavam nas ruas são os mesmos elementos que, hoje, usa-se nos terreiros. O pano da costa e o camisu, a saia rodada com anágua e o torso, além dos balangandãs e fios de conta de orixás de devoção ancestral são composições de baiana durante uma apresentação na quadra ou durante o desfile da escola de samba. A manutenção, adaptação ou transformação desses aspectos é a preservação da história e da memória do negro no Brasil.

É por isso que há ala das baianas, obrigatória em todas as escolas de samba. O segmento é uma justa homenagem à Hilária Batista Almeida, a Tia Ciata. Ela escondia e defendia os sambistas, promovia festas em seu terreiro, alimentava e benzia os foliões que brincavam carnaval. Foi uma verdadeira guardiã do samba e do que viriam a ser as escolas de samba. A ala de baianas não existe à toa; elas são as matriarcas das escolas de samba, são responsáveis por guardar e espalhar o axé a toda comunidade, tal como abrem os caminhos para seu povo seguir seu cortejo e contam a história da comunidade, guardando toda a ancestralidade. Por isso, o máximo respeito às mães do samba. Todo o cuidado é pouco quando se trata da fantasia das baianas para os desfiles das escolas de samba.

Mãe do samba. Autor: Osmar Filho

Assim como nas baianas, o matriarcado africano também está presente nas figuras das porta-bandeiras. As bandeiras, o símbolo maior da escola, são carregadas com energia ancestral acumulada na agremiação. Por isso, um dos papéis da porta-bandeira é distribuir essa energia, o axé, para a comunidade. Toda vez que a porta-bandeira dança e gira, assim como as baianas, espalha o axé a todos da comunidade. Além disso, toda a vez que a porta-bandeira ergue o pavilhão, ela assume a função de uma bússola, apontando o caminho a serem seguido sem esquecer das raízes. Assim, também cabe a ela cuidar para que a história da agremiação não seja esquecida, mantendo firmes as raízes, conduzindo a comunidade pelos novos caminhos. A função de cuidado não é só com o pavilhão, que representa a comunidade, mas também cuidar das pessoas que compõem a comunidade. Conhecer e participar da vida da comunidade é essencial na função de porta-bandeira. Assim como se torna uma bússola quando ergue o pavilhão, a dançarina também é um referencial para a comunidade, à medida em que as pessoas passam a se identificar com ela.

Com o cuidado, vem também a função de educar, e assim elas se tornam uma espécie de mãe da comunidade, protegendo poeticamente os filhos e filhas da comunidade nas barras de suas saias rodadas, seja nos eventos de ruas, seja nos rituais de comunhão ancestral nos terreiros ou nas quadras e nos desfiles. Como vemos, o papel da porta-bandeira vai muito além de só guardar e defender o pavilhão da escola, mas de cuidar e dar continuidade à sua história.

Quando lançamos um olhar afrocentrado às escolas de samba, vemos que o matriarcado está lá, preservado pela figura das mães baianas, pela figura das porta-bandeiras. Com isso, não podemos deixar de comentar que a despeito de tanta desvalorização sócio-racial, essas mulheres acham, na celebração de suas culturas pretas africanas e indígenas, a força para continuar brilhando e fazer suas filhas e seus filhos brilharem.
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