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Carnavalize

Foto: Stéphanne Munnier | Arte: Vítor Melo/Carnavalize



Por Beatriz Freire
Revisão de Felipe Tinoco

Aos que pensam que só o sagrado tem elementos celestiais, saibam que nosso profano carnaval também tem anjos. Em especial, há um “dos Anjos” que empresta suas asas - que o ajudaram a alçar altos voos na carreira de bailarino - a crianças, jovens e adultos de todas as idades, para que possam sonhar - e realizar - juntos tantos desejos. Hoje, o Carnavalize conta brevemente, em forma de homenagem, a história de vida e carreira de um dos grandes nomes da cultura brasileira: Manoel dos Anjos Dionísio, o Mestre da arte de mestre-salas e porta-bandeiras, para comemorar os trinta anos de sua imensa contribuição aos casais à frente da escola que fundou.

Mestre Dionísio, o mineiro de Além Paraíba que chegou ao Rio de Janeiro ainda menino, aos oito anos, sempre demonstrou encanto pela dança. Apesar disso, ainda na juventude surgiu o impasse convencional da idade para escolher a estrada que a partir dali pavimentaria sua trajetória profissional. A carreira militar, da qual não era exatamente um entusiasta, foi escanteada por esse exímio jogador de futebol do São Cristóvão, dividido entre os gramados e a possibilidade de entregar-se ao ofício da dança. A escolha pelos palcos, aposentando as chuteiras, veio depois de uma conversa sincera com a mãe, quando expressou seu desejo de seguir essa carreira. O acolhimento da aquiescência materna, que soou como uma bênção para que pudesse fazer o que lhe alegrava, impulsionou a dedicação ao bailado. A opção, segundo o próprio Mestre, deu-se em razão de nunca ter gostado de trabalhar: “A dança, para mim, não é trabalho, é lazer. Quem diz que gosta de trabalhar está mentindo”, afirma, sempre bem-humorado.


Todo o vigor de Manoel Dionísio, bailarino de dança afro-brasileira, como faz questão de ressaltar. Foto: Acervo pessoal.

Aos dezenove anos, no ano de 1955, veio a formação como bailarino afro-brasileiro pelo Balé Folclórico Mercedes Baptista, criado pela inconfundível bailarina que gravou seu nome na história da dança brasileira e do carnaval. A amizade com a mestra, parceira de uma vida toda, foi tecida pelo sentimento de gratidão, a quem diz reconhecer tudo que conquistou. Ele esteve próximo de sua mentora até os últimos dias de vida dela, falecida em 2014. Dionísio é um dos tantos discípulos do seu legado na dança e faz questão de frisar que repassa aos alunos da escola tudo que aprendeu. "Só não sei fazer mais a quinta posição por causa da idade", brinca, ao se referir à posição da dança em que os dois pés juntos, um atrás do outro, em posições paralelas, apontam a sentidos contrários.

Nos festejos do momo, o Mestre desfilou como integrante do grupo capitaneado por Mercedes no Salgueiro, sua escola de coração, a partir de 1959, e estava presente na famosa ala do minueto do desfile campeão da agremiação sobre Xica da Silva, em 1963. Na carreira de bailarino, ganhou o mundo com a companhia. Morou na Alemanha por mais de uma década, e, no retorno ao Rio, dançou e atuou na remontagem da peça Orfeu da Conceição, dirigida por Haroldo Costa, no palco do Theatro Municipal, aos 58 anos de idade

A histórica ala do Minueto, do Acadêmicos do Salgueiro, de 1963, na qual o homenageado do texto desfilou. Foto: Reprodução Tantos Carnavais.
O envolvimento com a folia não garantiu apenas o cargo de bailarino em desfiles. Mestre Dionísio foi assistente técnico de carnaval da Riotur e porta-voz da Federação dos Blocos, investido no cargo de diretor social. Aliás, suas origens na festa estão profundamente atreladas a essas organizações, já que ele fundou o Império do Pavão dentro da sala da própria casa, na favela Pavão-Pavãozinho, tendo sido criada, como desdobramento do bloco em fusão com outras escolas, a agremiação Alegria da Zona Sul, pela qual é sempre saudado com carinho e respeito, principalmente pela velha-guarda.

Em 1989, os blocos, com problemas de balizas e porta-estandartes, contrataram os segundos casais de agremiações para seus desfiles. No carnaval seguinte, a ideia do Mestre para economizar dinheiro e formar novos responsáveis pelos estandartes se espalhou: cada comunidade deveria levar a ele dois casais de jovens para que pudesse ensaiá-los e acabar com o problema. Assim, tanto lapidaria balizas e porta-estandartes peritos na dança, barateando o custo com o "aluguel" dos segundos casais - o que seria suficiente para vestir mais desfilantes -, quanto estaria vinculando os guardiões aos seus berços, representando suas comunidades. Por sinal, era necessário que fossem dois casais, e não apenas um, justamente porque é possível que os corpos do par recém-formado não se identifiquem, que falte a eles o entrosamento indispensável a um casal; dessa forma, haveria uma alternativa de aproveitamento. Neste mesmo 17 de julho, em 1990, há exatos trinta anos, surgiu, assim, a Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte. 

Edição de 07 de novembro de 1990 do Jornal O Globo. Foto: Acervo O Globo.
Na casa de ferreiro, o espeto nem sempre é de pau. O talento do Mestre se manifestou em seus herdeiros, como se orgulha ao falar da beleza do bailado da filha Magda durante o curto tempo que foi porta-bandeira. Hoje, os olhos orgulhosos do avô coruja se miram sobre Bárbara Dionísio, segunda porta-bandeira da Vila Isabel. "É lindo ver minha neta dançar na Avenida", confidenciou ele, ressaltando que não deixa que ela o veja nos ensaios de rua, para manter a discrição. No dia seguinte, faz os elogios e as recomendações, postura típica de um incentivador nato, confiante que todos sempre têm algo a mais para dar. "Eu não digo nada pra ela e também não estou falando só porque é minha neta, não, mas dança bem pra caramba". 

A generosidade não permite individualizar o conhecimento. Está sempre aberto a dividir informações (ele tem as mais encantadoras e preciosas, diga-se de passagem) e também as suas opiniões, como quando questionado sobre a posição dos casais nos desfiles atuais. Desde 2002, com a inovação proposta pelo diretor de carnaval Laíla, à época na Beija-Flor, e aceita por Selminha Sorriso e Claudinho, majoritariamente, os casais passaram a vir atrás das comissões de frente, logo na cabeça da escola. "Nada contra a modernidade, mas sou um eterno saudosista", abre a fala que tem na sequência argumentos mais do que convincentes aos ouvidos atentos à voz experiente. Segundo Mestre Dionísio, o casal deve vir à frente da bateria por uma simples questão: a batida do surdo de primeira está no pé do desfilante, com a pulsação já marcada, fator indispensável para o ritmo do casal. 

Edição de 07 de novembro de 1990 do Jornal O Globo. Foto: Acervo O Globo.
Ele ainda encara as comissões de frentes como as grandes adversárias dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, principalmente após 2010, quando a apresentação da Unidos da Tijuca (É Segredo!, com as trocas de roupa em plena pista) revolucionaram e espetacularizaram o quesito: "Até 2010, o casal era esperado. Hoje, todo mundo espera a comissão de frente". Acrescenta: "lá na frente não se ouve o samba, está muito distante da bateria e, por isso, sempre digo para os mestre-salas e porta-bandeiras que eles têm que ter a coreografia e o samba na cabeça, caso dê algum problema". Quanto ao uso de coreografia, não oferece nenhuma resistência, mas com algumas condições, sendo duas as principais: coreógrafo não pode mudar o tipo de dança do mestre-sala nem da porta-bandeira, e o casal pode fazer sua coreografia à vontade, desde que feche com o tradicional.

O carinho e a cordialidade fazem de Seu Dionísio um colecionador de bons amigos por onde passa. Dentre eles, carrega com alegria e saudades o companheirismo do ilustre Delegado, o maior mestre-sala da história do carnaval, com quem teve a honra de trocar palavras a partir de 2009, na Mangueira, quando o Mestre era o apresentador de Marquinhos e Giovanna, defensores do pavilhão verde e rosa naquele momento. A partir do encontro, surgiu, junto com a amizade, o convite para que o histórico mestre-sala fosse conhecer a Escola. Por lá, Delegado seguiu passando às novas gerações todo o conhecimento que adquiriu com seu talento; da vida de Dionísio, só se despediu quando foi bailar para os astros ao lado de Neide, a eterna companheira de dança, no ano de 2012. Os dois bambas do riscado, aliás, tiveram suas histórias contadas no livro "Delegado e Dionísio: vidas em passos de arte", publicada pela Editora Hamma, com a autoria de Sérgio Gramático Júnior. 

A amizade de dois pilares da arte dos casais de mestre-sala e porta-bandeira: Delegado e Dionísio, respectivamente.
Foto: Sérgio Gramático Júnior.
O que nos trouxe a esse texto é a comemoração do aniversário de trinta anos da Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte Manoel Dionísio que, apesar de ter sido idealizada por ele, só ganhou o nome do Mestre no ano de 2012. Nada mais justo. Até aqui, são incontáveis talentos sendo revelados pelo projeto gratuito que ministra aulas aos sábados, para crianças, jovens e adultos. Há também turmas para pessoas com deficiência. Lú Rufino é a primeira porta-bandeira cadeirante da escola e defende o pavilhão da Embaixadores da Alegria, escola que abre os festejos do Sábado das Campeãs na Sapucaí. A ideia é que mais duas porta-bandeiras se juntem a ela quando as aulas retornarem. Seu Dionísio se orgulha de todos que por lá passaram, famosos ou anônimos, desde a aluna mais nova, com dois aninhos, à mais vivida, com sessenta e seis, no que ele diz ser a melhor idade.

A escola já teve diversos endereços, como a Rua Regente Feijó, onde tudo começou, o setor 02 da Marquês de Sapucaí e o Centro de Cultura Calouste Gualbekian, no qual está instalada atualmente desde 2018, na Praça XI. A equipe conta com instrutores especializados, diretamente relacionados ao universo dos casais e da dança, pedagogos, psicólogos e preparadores físicos, entre outros colaboradores. O aproveitamento das turmas rende mestre-salas e porta-bandeiras que dançam em escolas do Grupo E ao Especial. Todos os alunos de 1991 a 2009 brilham nas grandes agremiações cariocas hoje, e novas gerações vêm sendo treinadas. "A casa começa de baixo pra cima, do Grupo E ao Grupo Especial. Tem que haver respeito com os casais da Intendente Magalhães, os presidentes também têm que ter carinho com os segundos casais". O caminho é longo e exige muito trabalho. Na Sapucaí, a Escola do Mestre Dionísio exportou talentos para quase todas as escolas.

Na Vila Isabel, além de sua neta, Marcinho e Cristiane Caldas, o primeiro casal da agremiação, também foram alunos do projeto. Marcinho Siqueira chegou à escola do Mestre em 2005, encaminhado pelo desejo da mãe. Por lá, encontrou o acolhimento do histórico mestre-sala Peninha, e depois de Claudinho, da Beija-Flor, com quem aprendeu boa parte do que sabe: “Eu acho muito importante existir de fato um lugar para essa arte ser disseminada. Hoje a gente acaba aprendendo com a ajuda dos vídeos, mas ter contato com a arte, com alguém que dança ou já dançou e sentiu na pele o que é carregar um pavilhão na avenida é muito importante”. Tanta riqueza de conhecimento germinou a vontade de Marcinho contribuir ainda mais com a preservação da dança do casal, seguindo o passo de seus mestres: “Ainda não acho que estou nesse nível, mas um dia eu acho que vou chegar ao nível de passar o que eu tenho de conhecimento e experiência. Eu tenho, com certeza, essa pretensão de, quando ficar mais velho, não deixar essa arte morrer. Ela é muito linda e eu sou apaixonado por ela. Apesar de não ser uma intenção minha desde o início ser mestre-sala - eu me tornei por causa da minha mãe-, hoje em dia não me vejo fazendo outra coisa”.

Matéria do Jornal O Globo, em outubro de 2006. À época, Marcinho tinha 13 anos de idade, dando os primeiros riscados na carreira de mestre-sala. Foto: Acervo O Globo.
Cris chegou ainda criança ao projeto: "Se hoje eu sou uma porta-bandeira, eu devo ao Dionísio, porque eu comecei bem novinha lá. Ele foi meu instrutor, assim como tive outros, como a Soninha, a Irene (porta-bandeiras de sucesso)... eu sou muito grata, costumo dizer que com dois meses de projeto eu já tinha duas escolas e dali eu fui chegar ao Especial, quando fui Estandarte de Ouro pela Paraíso do Tuiuti, em 2001. Eu era bem nova, sei que hoje ele está muito feliz por eu estar na Vila e eu também fico muito feliz por isso. Tenho muito carinho e gratidão eterna por ele. Minha madrinha, a Terezinha, trabalhou com ele, foi secretária do projeto por mais de dez anos, então temos um ligação bem legal. Esse projeto não pode acabar e para o que ele precisar, pode contar comigo. Ele me chamava de fio desencapado, o restinho da minha infância e a minha adolescência toda foram dentro do projeto. Fiz muitas amizades que levo até hoje pra minha vida".

A porta-bandeira Cris Caldas, no ano do seu Estandarte de Ouro, em 2001, pela Paraíso do Tuiuti. Hoje, ela e Marcinho, também ex-aluno da Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, são o primeiro casal da Vila Isabel. Foto: Liesa/Tantos Carnavais.

Cintya Santos, hoje primeira porta-bandeira da Porto da Pedra, não é a única da família a ter ligações com Seu Dionísio: "A minha trajetória no mundo do samba o senhor Manoel Dionísio acompanha desde quando eu era criança, ele era amigo da minha falecida avó Dina, também porta-bandeira. No ano de 2000, a minha avó me aconselhou a frequentar a escola do senhor Manoel Dionísio, foi a partir daí que eu comecei a conhecer o carnaval do Rio, as escolas de samba, e aprimorar a minha dança. Sou muito grata a ele pela porta-bandeira que me tornei, principalmente pelos conselhos que ele me deu e pelas palavras de carinho comigo. Hoje, a escola completa mais um ano de existência e só quero pedir a Deus que continue dando muita saúde para que ele forme muitos outros casais. Obrigada, meu amigo, seu Manoel Dionísio!".


Cintya Santos, porta-bandeira da Porto da Pedra, é a terceira geração de uma família de defensoras de pavilhões, e também foi aluna do Mestre Dionísio. Foto: Nobres Casais.

Como todo processo de aprendizagem é uma via de mão-dupla, o Mestre reconhece que também adquiriu muito conhecimento ao longo dessas três décadas. Ao idealizar o projeto, tratou de se inscrever em um curso de relacionamento pessoal e interpessoal, já que sabia que ia lidar com as mais diversas personalidades de colaboradores e alunos. Agradece, inclusive, por não ter problema com ninguém: "Eu brigo mas no segundo sábado de dezembro (data da confraternização) beijo e abraço todos. Quando chega maio, recomeça tudo e volto a brigar, mas para o benefício deles. Me perguntam: 'tá bom?' E eu digo: 'tá quase bom', para que possam sempre melhorar".

O Dossiê Matrizes do Samba tem o nome de Manoel Dionísio como integrante da lista de depositários reconhecidos da tradição, o que é uma honra para ele, referência do bailado do mestre-sala e da porta-bandeira. Faz questão de ensinar também a teoria, não só a prática, para não deixar a dança do casal terminar. A receita do sucesso, de acordo com Mestre, foi ter procurado informações preciosas com figuras do mais alto gabarito, todas pessoas amigas: Neide, Mocinha, Vilma Nascimento, Dodô da Portela - sua madrinha no samba -, Élcio PV, Maria Helena e Chiquinho. Nunca se acomodou com o conhecimento que adquiriu ao longo da vida e fez mais de quatro "reciclagens" para se atualizar sobre o bailado dos casais, buscando o aperfeiçoamento para se manter como referência. Frisa que busca ensinar exatamente do jeito que aprendeu, metodologia deixada por Mercedes em sua vida.

A dança do casal teve três pilares de difusão do conhecimento: Seu Mansur, percursor da Mangueira; Delegado, o mestre-sala que por 36 anos vestiu as cores verde e rosa; e, hoje, Mestre Dionísio, que deseja que todo seu conhecimento seja passado adiante: "É um legado".

Os olhares aprendizes atentos aos ensinamentos do Mestre. Foto: Folia do Samba.
A apresentação de si mesmo tem uma riqueza (e modéstia característica de algumas das grandes personalidades de um ramo) resguardada sobre as palavras simples e tranquilas de quem já viveu grandes momentos e não tem medo de nada: "Um negro de 1,86m, 83 anos, que tem quatro netas, quatro netos e dois bisnetos. Uma pessoa justa, que gosta das coisas certas, e quem me ensinou isso foi Angélica Maria da Conceição, minha mãe. Depois que fui para a parte artística, dou o mesmo tratamento que Mercedes dava a todos os alunos; ensino com paciência mas não quero indisciplina". Os 83 anos de vida, que ganham mais uma unidade no próximo dia 04 de agosto, não freiam seus sonhos, sempre protegidos por São Francisco de Assis, o santo de devoção: "O meu sonho é que Deus me dê vida e saúde para ser difusor do segmento, do samba e do carnaval. Quero agradecer o respeito e carinho que têm por mim. Foi muito difícil, mas nada tirou meu ânimo".

A EMSPBPE Manoel Dionísio encontra-se com as atividades temporariamente paralisadas em virtude da pandemia do coronavírus. Para garantir o retorno das atividades em um momento seguro e oportuno, a escola lançou um financiamento coletivo. A contribuição é bem-vinda da forma que for possível para cada um, seja doando ou divulgando a campanha. Para mais informações, clique aqui.

Todas as preciosas informações foram recolhidas em um fluxo de muitas conversas, principalmente por telefone, em um contato pelo qual Mestre dividiu sua história em mais de 1h30min de ligação. No término da chamada inesquecível, agradeci. Fui gentilmente interrompida para dizer que não tinha pelo que agradecer, frase seguida dos mais doces e simpáticos elogios e palavras de afeto. Mestre Dionísio, o samba se curva à sua trajetória e o reverencia com aplausos incansáveis. Para encerrar, ele deixa um recado: "Se vocês não me entenderam, procurem me compreender". Que venham mais 30 anos de compreensão dessa arte!


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por Beatriz Freire e Juliana Yamamoto
Revisão: Leonardo Antan e Felipe Tinoco
Arte: Vitor Melo

Com o calendário inicial da nossa série #GiroAncestral planejado para quatro semanas seguidas ao longo do mês de junho, escolhemos encerrar nosso breve ensaio sobre a arte do casal de mestre-sala e porta-bandeira com o presente texto, um resumo simplificado sobre os manuais e análises de julgamentos dos casais do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Para falar sobre a boa recepção da série, além de agradecer a todos que leem semanalmente nossas produções, anunciamos um texto extra para a próxima semana, ainda quarta-feira, para fechar com chave de ouro. Agora, é chegado o momento de falarmos mais um pouco sobre os elementos que envolvem a avaliação de cada um dos casais.


Análise de julgamento: Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, os jurados são guiados por um manual sucinto e sem grandes restrições. Pouco aprofundado, ele abre brechas para considerações dos julgadores que estão revestidas de maior grau de subjetividade do que aqueles que já são intrínsecos ao exercício do julgamento, por mais que disponham e estejam submetidos ao uso de parâmetros para fazerem suas considerações e atribuições de notas. Assim, sem engessamento e inflexível rigor, muitas vezes os jurados acabam criando costumes que servem como diretrizes não explícitas em texto, mas extraídos do gosto desses profissionais, seja no modo de vestir e até mesmo de bailar. 

Cintya e Rodrigo, o casal da Porto da Pedra, no desfile de 2019, com vestes majestosas, ao gosto do júri. Foto: Juliana Dias/SRZD.
Aliás, o primeiro ponto disposto no instrumento de avaliação é a indumentária dos defensores da escola, atendendo a adequação à dança, formas e acabamentos que imprimam beleza e bom gosto. Não é raro que se encontre referências que digam que o casal, independentemente do enredo, deve se adequar ao visual de nobreza da narrativa que se conta, sem que se deixe de lado a ideia de que eles são, por natureza, figuras majestosas. Hoje, por exemplo, é difícil pensar em uma fantasia de casal de mestre-sala e porta-bandeira que será unanimemente recepcionada com bons olhos pelo júri sem ter os elementos que eles entendem que atribuem riqueza e identidade opulenta ao visual, como muitas penas dos mais variados tipos em saias e costeiros, imprimindo uma estética um tanto quanto hegemônica ao visual do quesito. 

No nosso primeiro texto, discorremos sobre o ponto do casal em qualquer momento não poder sambar, tendo como dever, na verdade, bailar ao ritmo do samba, o que compõe uma das diretrizes técnicas de avaliação dispostas no manual. A execução de passos característicos da dança é obrigatória, com “meneios, mesuras, giros, meias-voltas e torneados, sendo obrigatória a sua exibição diante dos módulos de julgamento”, como dispõe o livro. Não será mera coincidência encontrar muitos pontos aqui relacionados a assuntos dos quais já tratamos anteriormente nos três textos produzidos na série. Todos os elementos técnicos e de visual exigem treino, preparo e um pensamento planejado e cuidadoso dos casais para que formem um trabalho homogêneo e de boa impressão ao aliar todos os pontos elencados, um a um.

Raphaela Caboclo e Feliciano Júnior, em 2017, no Império Serrano, substituíram as tradicionais penas por capim barba de bode. Foto: Jeanine Gall/SRZD.
Prosseguindo, deve-se notar, ainda, a harmonia entre o casal, envolvendo diretamente os papéis do mestre-sala de cortejar e defender, além de apresentar, seu pavilhão e também a sua dama, que por sua vez conduzirá e apresentará sua bandeira sempre desfraldada, sendo considerado um erro que ela se enrole em seu próprio eixo, sem nunca deixá-la sob a responsabilidade do mestre-sala. Além de erros técnicos, de entrosamento, conceito visual e execução que possam surgir, o manual carioca autoriza os jurados a despontuarem eventuais perdas ou quedas de itens que compõem a indumentária, como sapatos, costeiros, chapéus, penas, etc.

No último carnaval, em uma análise direta da justificativa, a maior incidência de decréscimo nas notas se deu em virtude da famosa teatralização. Teatralizar, para ser mais exata, é quando o casal incorpora à dança uma considerável quantidade de elementos e referências que compõem a caracterização dos papéis que estão representando narrativamente dentro do enredo, muitas vezes usando a seu serviço a letra do samba como base. Registre-se, porém, que marcar a coreografia seguindo os versos do samba-enredo nem sempre vai caracterizar a tal teatralização. Fato é que a investidura do mestre-sala e porta-bandeira nesses personagens em doses pouco moderadas acabam escanteando o pavilhão, que é, por direito, a estrela principal da apresentação de um casal. Por isso, os jurados constantemente fazem o alerta de que representar é diferente de teatralizar, e que movimentos que sugiram as referências ao que se propõe dentro do enredo são mais do que bem-vindas, desde que não ofusquem a dança que exalta a própria bandeira e o seu simbolismo ou que façam os defensores esquecerem por algum momento que são guardiões deste tal símbolo, não atores.

Marcella Alves e Sidclei, defensores do Salgueiro neste ano, representam personagens sem ofuscarem o pavilhão. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
A coreografia da arte, inclusive, é um ponto controverso do desenvolvimento do casal ao passar dos anos. A dança solta, tradicional, que conta com o jogo da imprevisibilidade e da combinação quase ao acaso dos corpos em movimentos, didatizados e acostumados um ao outro pela técnica e, principalmente, pela sintonia, não é mais vista com bons olhos como em outrora. Há de se convencionar, portanto, que é preciso ter um roteiro daquela dança, que é exaustivamente pensada e ensaiada para ser brilhantemente executada diante do júri. E tal apresentação, na visão dos julgadores, precisa ser pensada também do ponto de vista da ocupação física; o uso pouco explorado do chão da passarela como espaço cênico para desenvolvimento dos mais diversos desenhos coreográficos (círculos, diagonais, etc) é um ponto que vira uma constante repetição de alerta dos jurados em suas justificativas. Não basta dançar bonito, há de se exercitar a criatividade do bailado em seus mais diversos sentidos.


Análise de Julgamento: São Paulo

Desembarcando agora na Terra da Garoa, o quesito por lá possui um manual completo e detalhado. O casal precisa evoluir e realizar seu bailado por toda pista e o jurado deverá observá-los durante todo o campo de visão da sua cabine, não apenas quando passam à sua frente. Presente no “módulo dança”, há 3 pontos de avaliação técnica para o julgamento do quesito. O primeiro deles é o entrosamento. Nele, o jurado deverá avaliar a dança de mestre-sala e porta-bandeira considerando os seguintes pontos:

Integração do casal e seus movimentos obrigatórios: apresentar todos os movimentos presentes na dança de mestre-sala e porta-bandeira. A dama deverá realizar giros completos em 360 graus horário e anti-horário e giros no próprio eixo, enquanto o mestre-sala deverá realizar a meia-volta (giros 180 graus ao redor da sua dama, em sentido horário e sentido anti-horário - movimento de proteção), riscado (trabalho de pernas), torneados (giro em torno do próprio eixo), mesuras (menção de reverência) e meneio (a forma de conduzir sua parceira). Não pode-se também esquecer da principal função de um casal, que é a apresentação do pavilhão. Além disso, precisam realizar o minueto (dança de passos miúdos), caracterizada pela delicadeza dos movimentos e a execução dos giros e reverências um para o outro.

Uilian Cesario e Karina Zamparolli em desfile oficial da Mocidade Alegre. O casal foi nota 30 em 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.
Durante a apresentação aos jurados, na qual a realização dos movimentos é obrigatória, há outros pontos que são levados em conta durante a evolução do casal. Enquanto executa seu bailado, o mestre-sala não poderá deixar o pavilhão bater em seu corpo, assim como não deve existir choque corporal com a sua dama e nem ele deve realizar o bailado de forma individual, tornando sua parceira e o seu pavilhão como meros coadjuvantes. Os mesmos também não podem verbalizar durante a dança. A falta de elegância, simpatia e leveza da dupla durante o bailado também é muito importante e passível de perda de décimos. No último carnaval, também foi integrado um novo tópico de avaliação em entrosamento: finalização de movimentos. O casal deverá apresentar a finalização dos movimentos na dança, evidenciando e destacando ainda mais a sincronia entre os dois.

O segundo ponto de avaliação técnica é a postura do casal. Nele, avalia-se a forma de conduzir e apresentar o pavilhão com altivez, simpatia e elegância. Para isso, a porta-bandeira precisa manter o pavilhão desfraldado (aberto) em seus giros, não poderá deixá-lo enrolar no seu corpo ou no próprio mastro e a mesma também não poderá se curvar a qualquer pessoa durante sua dança, já que ostenta o símbolo maior de uma escola de samba. O mestre-sala não poderá tocar o pavilhão de forma brusca, nem encostar seu joelho no chão. Os dois em hipótese alguma podem cair durante a apresentação e o cavalheiro também não pode executar movimentos que não são direcionados ao pavilhão e à sua dama, nem dar as costas para a mesma, exceto quando estiver realizando giros no seu próprio eixo (torneados). 

O terceiro e último ponto de avaliação técnica do quesito é a integridade das fantasias. O jurado deverá verificar a indumentária do casal de mestre-sala e porta-bandeira e observar se existem tecidos rasgados, adereços quebrados, saiotes arqueados e queda ou perda de parte da fantasia, mesmo que seja acidental, como costeiros e chapéus, por exemplo. 


Marcelo e Adriana, primeiro casal da Mancha Verde, gabaritaram o quesito em 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.
Como já citado anteriormente, o manual do quesito é didático - não só para os julgadores, mas também para o público em geral. Para atribuição da nota ao casal, os erros cometidos durante a apresentação são divididos em quatro tipo de falhas: leve (1 ponto de ocorrência - 0,1); média (2 pontos de ocorrência - 0,2); grave (3 pontos de ocorrência - 0,3) e gravíssimo (4 pontos de ocorrência - 0,4). No manual, as possíveis falhas em cada ponto de avaliação técnica (entrosamento, postura de casal e integridade das fantasias) já são separados em leve, médio, grave e gravíssimo. Um casal que se comunicar verbalmente durante sua apresentação e tiverem problemas na finalização de movimentos estão realizando falhas de nível leve e perderão 0,1 por cada erro, por exemplo. Se durante o bailado o pavilhão não se manteve desfraldado, é considerada  uma falha de nível médio, e o casal em questão terá o desconto de 2 décimos.

No carnaval de 2020, a maior perda de décimos entre os  casais de mestre-sala e porta-bandeira foi no ponto de avaliação entrosamento: finalização de movimentos, considerado como erro leve. Os jurados enxergaram que houve falhas de entrosamento entre os casais, em que, ao finalizarem algum passo, o mestres-salas pararam antes das suas parceiras ou vice-versa, dando a sensação que não estavam sincronizados. Outro fato que também pode ocorrer é quando, ao terminar algum movimento, a finalização dos bailantes não era evidente e marcada. Um outro ponto também apontado pelos jurados, mas em menor escala em suas justificativas, foi a postura do casal - pavilhão desfraldado, quando a dançarina não consegue manter o pavilhão aberto todo o tempo. 


Paralelo entre as cidades


Essa fascinante arte que se mantém a cada ano e é perpetuada para novas gerações possui tradicionalidade e importância no carnaval. Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, os casais realizam a mesma dança, apresentando os seus movimentos obrigatórios, exercendo sua principal função e atribuindo o destaque ao maior símbolo de uma escola. Cada casal tem seu estilo de dança, seja tradicional ou moderno, com um bailado forte ou leve, mas todos precisam apresentar o que a arte propõe. Entretanto, o quesito possui suas peculiaridades em São Paulo e no Rio de Janeiro.

João Carlos e Ana Reis, primeiro casal do Águia de Ouro, campeã do carnaval 2020. Foto: Luciano Garcia/Faixa Amarela.


Na Marquês de Sapucaí, os casais de mestre-sala e porta-bandeira realizam sua apresentação em frente ao módulo de jurados, enquanto em São Paulo os dançarinos precisam evoluir por toda pista e são avaliados de maneira contínua. A própria cabine no Sambódromo do Anhembi é feita para que o jurado do quesito consiga ter uma visão ampla do casal. Em relação ao bailado, não há muitas diferenças entre as duas cidades, já que os principais movimentos são obrigatórios em ambas. Entretanto, enquanto os casais cariocas montam uma coreografia específica que será realizada em um espaço determinado em frente ao módulo julgador e durante uma passada do samba-enredo, os casais paulistanos possuem uma coreografia para evoluir por toda a pista, sendo movimentos constantes. Um fato curioso é que no Rio a porta-bandeira pode se curvar durante a apresentação, em forma de reverência e respeito ao grande símbolo que ostenta. Já em São Paulo, isso é proibido e, caso alguma porta-bandeira realize esse movimento, uma falha é considerada.

Apesar do manual do quesito da cidade carioca ser mais simples do que o paulista, os jurados são trabalhados para expandir sua análise acerca da dança do casal e ir além do que está descrito no manual, que não é descritivo. Além disso, são guiados a expressarem suas opiniões nas justificativas. Por estarem há muito tempo na função, isso contribui para se aprofundarem e entenderem ainda mais o quesito. Já no carnaval de São Paulo, apesar do manual ser completo e detalhado, falta uma melhor orientação aos jurados no que se refere ao julgamento, pois há pontos para avaliação que envolvem a subjetividade, como elegância, postura e leveza de um bailado. Os mesmos necessitam de uma melhor referência e conhecimento para poder discernir o que é um bailado elegante ou não e também ter a possibilidade de ampliar sua análise além do manual, pois, caso contrário, acaba se tornando uma avaliação engessada e mecânica, principalmente no que tange às justificativas, nas quais os jurados não exprimem suas opiniões.

Ruhanan Pontes e Ana Paula em desfile oficial pela Colorado do Brás em 2020. Foto: Luciano Garcia /Faixa Amarela.

Os casais de mestre-sala e porta-bandeira possuem uma grande importância dentro de uma escola de samba e, principalmente, dentro de um desfile. Apenas duas pessoas representam um único quesito. Além de encantar o público com seu bailado, também precisam levar essa magia para os jurados. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o julgamento do quesito preza pela tradicionalidade da dança. Mesmo com a singularidade de cada cidade, é preciso compreender que a arte é uma só e que os casais estão constantemente na busca pela nota máxima. 

E você, conseguiu entender um pouco mais como funciona um julgamento de mestre-sala e porta-bandeira? Seria um bom jurado? Fique com a gente e carnavalize conosco. Semana que vem voltamos para o último capítulo dessa primeira temporada da série #GiroAncestral! 


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Texto: Beatriz Freire e Juliana Yamamoto
Revisão: Leonardo Antan e Felipe Tinoco
Arte: Vítor Melo

Com nossa devida reverência, desfraldamos o pavilhão do Carnavalize para trazer hoje o terceiro e penúltimo texto da Série #GiroAncestral, depois de fazermos um breve introdução à arte de mestre-sala e porta-bandeira e de apresentarmos as parcerias mais longínquas dos casais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Se há um quesito rigorosamente atribuído à tradicionalidade pelo júri, ele é o de mestre-sala e porta-bandeira. É certo que a coreografia, as fantasias, os movimentos e até a posição no desfile foram atualizados ao longo dos anos; de certa forma, podemos dizer que essas mudanças tiveram sucesso, já que substituíram antigos protocolos e costumes. 

Porém, a ousadia dos casais, muitas vezes atendidas por esses defensores a partir dos pedidos de suas diretorias ou carnavalescos, nem sempre é recebida com bons olhos por quem os avalia. Assim, entoando Martinho Vila e também Unidos de Vila Isabel em 2018, rememoramos apresentações que tentaram aliar “o moderno e o tradicional”. Algumas, vale ressaltar, foram muito bem recebidas pelo público, mas nem tanto na aprovação do júri.

Para ver as apresentações citadas, basta clicar no link que colocamos nos subtítulos. 



Mocidade Independente 1997 - Rogério Dornelles e Lucinha Nobre


“Girar… o sonho de uma bailarina”... e, também, de uma porta-bandeira! Já pensou na mistura das duas em uma só? O enredo sobre o corpo humano, desenvolvido por Renato Lage, na Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1997, deu à Lucinha Nobre a chance de reunir melhor do que ninguém o combo “dois em um”, já que por anos dedicou-se ao ballet clássico, quando já dava passos na carreira de porta-bandeira. Ao lado do parceiro Rogério Dornelles, em um pas-de-deux do samba, Lucinha veio trajada como Odete, de O Lago dos Cisnes, com direito a tutu bandeja todo branco, contrastando com o verde de seu pavilhão. Nos pés, ficaram de lado os saltos ou botas para entrarem as ponteiras por baixo das sapatilhas de ponta. Suas guardiãs formavam o corpo de baile que compunha a apresentação. 

A fantasia da bailaria de Lucinha no desfile da Estrela da Zona Oeste em 1997. Foto: O Globo.

Apesar de diversos movimentos comuns, são distintas as duas danças, principalmente por uma ser erudita e a outra popular. Assim, o esforço de Lucinha, de ofício porta-bandeira, mas defensora nata da classe das bailarinas, não poderia deixar a desejar a nenhum dos dois lados. O desafio de manter o equilíbrio das pontas dos pés, sem titubear, para seguir a todo instante elegante ao portar seu pavilhão e executar o bailado ao lado do mestre-sala não foi o único ponto que impressionou. Se saias mais curtas são até hoje motivos de debate entre os jurados e os conservadores do quesito, imagine uma saia de bailarina, em que as pernas ficam inteiramente descobertas?! Só uma profissional tão segura e destemida como Lucinha poderia ter protagonizado tal feito. Na quarta-feira de cinzas, no momento de abertura dos envelopes, o casal ganhou três notas máximas, despontuado apenas pelo jurado Tito Canha, que atribuiu à apresentação uma nota 9. Apesar dos comentários controversos, Lucinha tem orgulho da primeira que foi uma série de grandes novidades em suas passagens pela Sapucaí. Será que outras ainda passarão nesse texto? A conferir!


Viradouro 2007 - Julinho Nascimento e Simone Pereira

Onde tem invenção com mestre-sala e porta-bandeira, tem Paulo Barros! O carnavalesco das alegorias humanas e invencionices também não pode ver um casal quietinho que já arruma motivo para dar o que falar. Em 2007, na Viradouro, o artista comandou o desfile “A Viradouro vira o jogo!” e não deixou os defensores do pavilhão alvirrubro escaparem de suas ideias. Vestido de crupiê, Julinho cortejava Simone, que representava uma roleta. A fantasia do mestre-sala era bastante simples; já a porta-bandeira usava uma saia quase tão curta quanto a de Lucinha Nobre como bailarina. Ao girar, a roleta soltava faíscas, em um show pirotécnico bem característico do artista responsável pela escola. 

A pirotecnia do porta-bandeira vestida como uma roleta de Cassino na Viradouro em 2007. Foto: Francisco Guimarães.
Um casal tão elegante quanto aquele se viu prejudicado no momento da apuração das notas, já que ganharam apenas uma nota dez e viram correr pelo chão sete décimos perdidos nas demais cabines. Beatriz Badejo, experiente julgadora do quesito, atribuiu a menor nota a Julinho e Simone, um 9,7, com a seguinte justificativa: “A escolha da saia curta (semelhante à de uma bailarina clássica) para a porta-bandeira causou uma impressão visual ruim e inadequada, deixando suas pernas à mostra e comprometendo o seu bailado”. Superado o descarte, Simone pareceu não se deixar abalar pelo desconto. No ano seguinte, ainda na Viradouro, em entrevista ao jornal Extra, revelou estar ansiosa por uma fantasia que seria ainda mais ousada que a do último carnaval. O que acabou não se realizando, apesar da empolgação da dançarina. 


Mangueira 2012 - Raphael Rodrigues e Marcella Alves


Em 2012, a Mangueira levou para à Marquês de Sapucaí um enredo em homenagem ao bloco Cacique de Ramos, que naquela época completava 50 anos. Para o desfile, a escola contou com várias inovações, como a “paradona” da bateria e a apresentação do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Marcella Alves. Os dois vieram no terceiro setor, intitulado “Grande Carnaval”, e suas indumentárias representavam os blocos Cacique de Ramos e Bafo da Onça, rivais históricos do carnaval de rua. Para se apresentar em cada módulo, os ritmistas da bateria abriam passagem para o casal passar e, assim, começarem a sua apresentação. Além do início diferente, a fantasia da dupla também era muito fiel aos personagens que representavam. Marcella vinha como Bafo da Onça, com direito a todo o rosto pintado e a indumentária com as cores e a textura do animal. Já Raphael Rodrigues, que representava o Cacique de Ramos, tinha presente em seu figurino referências indígenas em um estilo estadunidense, tal qual o símbolo da organização homenageada. 


Marcella Alves e Raphael Rodrigues em desfile oficial da Mangueira em 2012. Foto: Valeria del Cueto.
Após o desfile, a apresentação da dupla teve uma grande repercussão, muito por conta de sua inovação e ousadia. Entretanto, na apuração, os jurados não viram o mesmo e tiraram décimos importantes do casal. Neste ano, a dupla recebeu as seguintes notas: 9,6/9,7/9,9 e apenas um 10. Em uma das justificativas, o jurado Tito Canha afirma: “Demandado alguns esforços deste julgador para entender o 'modo' como a escola apresentou o quesito, digo que não entendo como adequado o tratamento que a Mangueira dedicou a tão nobre e tradicional quesito. Falo de indumentária e espaço físico oferecido para a apresentação. O casal foi tratado como acessório da bateria, em uma performance de natureza duvidosa [...]” 

Assim como Tito, outros avaliadores enfatizaram como problemas aspectos como a fantasia, principalmente a saia curta da porta-bandeira, a representação excessivamente teatralizada dos personagens e a interação junto com a bateria, influenciando diretamente na tradicionalidade da arte e no bailado. Outro fator levado em conta foi a demonstração de uma rivalidade, quando o simbolismo dos defensores do pavilhão envolve romantismo e parceria. Apesar do resultado negativo, quando perguntada sobre o desfile, Marcella diz que não se arrepende e que adorou a experiência, mas que não faria novamente. De fato, embora não terem alcançado o resultado desejado, a apresentação do primeiro casal na Estação Primeira em 2012 foi significativa. 


Beija-Flor 2014 - Claudinho e Selminha

O casal com a parceria mais longínqua do carnaval, detentores de vários prêmios e presentes em vários títulos da Beija-Flor; Selminha e Claudinho levaram para a avenida em 2014 uma apresentação inovadora e que deu o que falar. Naquele ano, a Deusa da Passarela fez uma homenagem a José Bonifácio de Oliveira - o Boni - ao contar a história da evolução da comunicação. O primeiro casal vinha logo no primeiro setor representando o rei e rainha de um jogo de xadrez, demonstrando o fator da estratégia, tão presente na seara comunicacional. Em uma apresentação simultânea junto à comissão de frente, eles se tornaram parte do segmento. Além de serem julgados individualmente na defesa do quesito mestre-sala e porta-bandeira, também foram avaliados junto ao grupo de abertura. Em um espaço delimitado, os dançarinos realizavam o seu bailado com os movimentos obrigatórios. Concomitantemente, os componentes da comissão faziam suas coreografias em torno do casal. Houve também o uso de fumaça durante a encenação. 

Claudinho e Selminha em desfile oficial da Beija-Flor em 2014. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
A azul e branco apostava em uma apresentação ousada e vibrante, esperando um bom resultado por parte dos jurados, ainda que existissem os riscos. Na quarta-feira de cinzas, entretanto, as notas mostraram que os donos da caneta ficaram divididos. Enquanto dois deram a nota máxima, outros dois jurados deram 9,7 e 9,9 respectivamente. Em suas justificativas, argumentaram a interação com a comissão de frente e o espaço limitado para o bailado, prejudiciais à apresentação. Tito Canha não poupou críticas. Elencando vários pontos, o jurado enfatizou: “Não ficou claro o início da apresentação, sobretudo pelo fato do casal estar postado à frente da CF. O espaço cênico criado pela escola limitou o campo de dança do casal, impedindo a plena evolução do bailado. O julgador, em dado momento, teve sua visão obstruída por um elemento da comissão de frente. Este fato repetiu-se durante a utilização de efeito especial (fumaça) que escondeu o casal [...]” 

Já nas notas de comissão de frente, a escola nilopolitana recebeu apenas um 10, com direito a um 9,9, um 9,7 e um 9,5. Em suas justificativas, os julgadores destacaram que toda ousadia e inovação trazem riscos e que a apresentação simultânea de dois quesitos prejudicou seu  entendimento e a principal função de uma comissão. Selminha Sorriso, em entrevista para o Ouro de Tolo, em 2015, perguntada sobre o desfile, afirma que era um sonho que poderia dar certo e, mesmo com o resultado, a tentativa foi válida. Apesar das críticas feitas por parte dos jurados, a inovação proposta pela agremiação de Nilópolis deixou sua marca. 


Mocidade Independente 2015 - Diogo Jesus e Lucinha Nobre 

Após uma fase complicada, a estrela-guia de Padre Miguel buscava se reerguer e alçar novamente voos maiores no Grupo Especial em 2015. Para isso, contratou o carnavalesco Paulo Barros que faria a sua estreia na agremiação com o enredo “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse esse dia?”. Em seu tom sempre polêmico, o artista levou para avenida um desfile recheado de surpresas, principalmente para o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira: Diogo Jesus e Lucinha Nobre.

Com a fantasia dos dois batizada de “O fim do mundo, de onde viria?”, a dama representava um corpo celeste em colisão com a Terra e, seu parceiro, a cauda de luz que acompanha sua trajetória, em uma alusão aos asteroides e cometas. Assim como no caso da Beija-Flor um ano antes, a apresentação da dupla aconteceu junto à comissão de frente. Após os componentes realizarem a sua primeira encenação, abriam passagem para o defensores do pavilhão iniciar o bailado em frente ao módulo de jurados. Em determinado momento, ocorria a integração do casal com a comissão, na qual se apresentavam simultaneamente. O ápice daquela situação ocorria quando Lucinha Nobre literalmente pegava fogo na avenida por meio de um efeito especial em seu figurino. O público presente na Sapucaí quase não conseguiu presenciar a ação, já que aquele domingo de carnaval foi castigado com uma forte chuva. Por sorte, na hora do desfile da Estrela Guia, São Pedro deu uma aliviada, ainda que o recurso visual não tenha demonstrado resistência e durabilidade.

Lucinha Nobre pegando fogo na avenida no carnaval de 2015. Foto: Claudio Andrade/Rio News.
Assim como aconteceu em 2014, com Claudinho e Selminha na Beija-Flor, os jurados também não viram com bons olhos a tentativa de inovação por parte da escola no quesito. Nas notas, Diogo e Lucinha receberam: 9,9/9,8/9,7 e 9,8. Luiz Carlos Correa comentou sobre a interação entre o casal e a comissão em sua justificativa: “[...] O casal precisa cuidar mais na incorporação e confiança nos movimentos da dança com o entrosamento da comissão de frente. A preocupação com efeitos especiais atrapalhou a dança.” Beatriz Badejo, outra avaliadora do quesito, também criticou a inovação proposta. Ela afirma que “[...] tal escolha comprometeu, ao meu ver, a posição de destaque que MS e PB ocupam tradicionalmente, dentro de suas agremiações, por sua importante função de proteger e conduzir o pavilhão respectivamente…”. A comissão de frente da Estrela Guia também recebeu notas baixas dos jurados: três 9.9 e um 9,8. 

Para o júri não ficou nítido o sentido da interação entre os dois quesitos, além dos efeitos especiais. Em entrevista para o jornal O Globo em 2019, Lucinha Nobre comenta que faria tudo de novo; não só quando pegou fogo, mas também quando veio de bailarina na primeira apresentação dessa lista. Mesmo com as notas, o casal surpreendeu a Sapucaí com sua coragem. 


Vila Isabel 2018 - Raphael Rodrigues e Denadir Garcia

A gente avisou que Paulo Barros foi um grande contribuinte para a formação deste texto, não é? Pela terceira vez nessa seleção, o carnavalesco designou ao casal uma indumentária que seguiu a proposta de seus conhecidos LEDs. Algumas primaveras anteriores, em 2013, o ex-comissário de bordo já havia produzido uma fantasia inteiramente preta com show de luzes para Marquinhos e Giovanna na Unidos da Tijuca. Mas com Raphael e Denadir ele foi além. No enredo “Corra que o futuro vem aí!”, em 2018, na Vila Isabel, o artista prometeu muitos efeitos especiais e os incorporou em todos os segmentos da agremiação. Vestido com a elegância que pede um mestre-sala, Raphael veio devidamente trajado em uma fantasia preta e dourada. Denadir acompanhava a identidade visual do parceiro apenas na parte superior da indumentária. Da cintura para baixo, em toda a extensão da saia, a porta-bandeira não tinha qualquer decoração que lembrasse uma fantasia de carnaval, mas somente uma tela de led que pesava 40 kg e reproduzia, ao acionar um botão, as imagens de fogo, elemento reproduzido pelo casal.

O enorme telão que Denadir vestiu no desfile de 2018 pesava em torno de 40kg. Foto: Alexandre Durão.
Impedida de desempenhar com a elegância e a técnica incontestáveis de seu bailado, Denadir foi mais um alvo das inovações que prejudicaram a arte do casal. Áurea Hämmerli, outra experiente jurada, descontou dois décimos do casal em seu módulo. Na justificativa, ela afirma: “Durante a apresentação, o casal não desenvolveu bem a coreografia, sendo prejudicado pelo peso e responsabilidade em fazer acontecer o efeito da saia do figurino. Durante a dança, senti os dois sem liberdade e seguindo roteiro, presos ao efeito. Também a figura da  PB foi prejudicada esteticamente. Saia curta onde botas não ajudaram na beleza da sua figura”. Discreta, Denadir não se pronunciou abertamente sobre a apresentação, mas sabemos que o desagrado passou longe de reproduzir o talento da veterana.


Império Serrano 2019 - Diogo Jesus e Verônica Lima

Em seguida, outro Paulo, dessa vez o Menezes, aplicou ao casal de mestre-sala e porta-bandeira no Império Serrano, uma instituição de raiz do carnaval carioca, uma ideia que, para muitos, era prenúncio de um problema. Ele propôs colocar os defensores do pavilhão para dançarem nas alturas. A apresentação foi realizada em cima do tripé da comissão de frente, que erguia o casal por um elevador até uma altura de dois metros do chão. Verônica, experiente porta-bandeira, revelou ao portal SRZD que um dos seus maiores desafios seria justamente estar tão distante do solo, já que tem fobia de altura. 

O palco onde o casal se apresentou no desfile do Império Serrano em 2019. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
Abrindo os desfiles de domingo após a permanência em 2018, graças à virada de mesa da Grande Rio, a escola passava por um sério momento de dificuldades administrativas e financeiras. Para deixar a situação mais tensa, iniciou sua apresentação sob chuva na Sapucaí. Em cima da plataforma, apreensivos pela altura e atrapalhados pela chuva, o casal fez uma apresentação pra lá de insegura; Verônica enfrentou o contratempo do vento e chegou a enrolar o pavilhão em frente à cabine de jurados.

A apresentação da escola naquele ano é motivo de desgosto para os imperianos, que não ficaram nada satisfeitos com o rumo da agremiação. Nas notas, a julgadora Beatriz Badejo atribuiu um 9,7 à apresentação com a seguinte justificativa: “O G.R.E.S. Império Serrano procurou inovar, trazendo um novo espaço cênico para o casal de MS e PB, que foi erguido e conduzido, através de uma plataforma, ao elemento cenográfico da comissão de frente. Tal procedimento, por si só, não é penalizado [...], mas nesse caso, além do piso molhado da chuva, gerou tensão ao bailado, sendo possível perceber uma certa dificuldade para dar início à exibição”. Apesar da apresentação falha, Diogo Jesus, em entrevista ao UOL, disse que o importante foi terem passado uma energia boa. 


Portela 2020 - Marlon Lamar e Lucinha Nobre

Para encerrarmos a nossa lista, vamos a uma apresentação recente, ocorrida no carnaval de 2020. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Portela, Marlon Lamar e Lucinha Nobre, levaram para a avenida uma apresentação leal aos personagens que representavam e com uma “surpresa” ao final. Com o enredo “Guajupiá, Terra sem males”, os dançarinos possuíam uma fantasia intitulada "Irim-magé e purabore (mulher grávida) - os povoadores da terra". A dupla realizou uma apresentação inspirada no mito de origem Tupinambá. Segundo a lenda, quando Monã castigou a humanidade, apenas Irim-magé foi poupado e levado aos céus. Vendo a sua solidão, Monã o ofereceu uma mulher para que pudessem povoar o mundo novamente. Baseado nessa lenda e nos seus personagens, o casal se apresentou diante dos módulos e, no final da coreografia, faziam uma encenação especial ao público, com o nascimento de uma criança. 

Marlon e Lucinha em apresentação oficial pela Portela no carnaval de 2020. Foto: Leo Cordeiro.
A Águia altaneira esperava boas notas no quesito, mesmo com os riscos tomados por parte da indumentária e a encenação final. Entretanto, os jurados não se envolveram a proposta da escola e o casal recebeu 9,9/9,8/9,9/9,9/9,8 em notas. A maioria dos jurados justificou a exagerada teatralização por parte do casal em representação aos personagens, a fantasia da porta-bandeira - uma saia muito grande - e a encenação do nascimento do bebê. O avaliador João Wlamir afirmou: “A pouca sutileza na terminação dos movimentos, provocada pelo excesso de teatralização, conduziu à uma perda de elegância do casal em alguns momentos, da sua dança. Obs: o nascimento da criança ficou gratuito e gerou um anticlímax na sua realização.”

Já a jurada Áurea Hämmerli também pontua isso em sua justificativa: “[...] o mesmo acontece para o figurino, nesse caso quando um não elemento esteve presente na roupa, indumentária da PB. O casal nesse momento precisa ter extremo cuidado, durante os ensaios e preparação". Em uma de suas redes sociais, Lucinha desabafou após a quarta-feira de cinzas. A dama não esperava as notas baixas. Afirmou, porém, que qualquer observação de erro que fosse apontada nas justificativas seria corrigida com esmero. Independentemente do resultado, o primeiro casal da Portela levou à Sapucaí uma corajosa encenação. 


Campeã no quesito inovação, Lucinha Nobre tem uma lista grande de figurinos inusitados. Em 2006, ela se fantasiou de CD. Foto: Henrique Matos.
Haja inovação! Eles marcaram o carnaval com apresentações diferentes, um tanto quanto ousadas, mas sempre com o intuito de ajudar suas respectivas agremiações. Ao tentarem unir a tradição e as novidades no quesito, por meio de fantasias, interações com outros segmentos e efeitos especiais, estavam cientes dos riscos que tomariam. Tornou-se evidente que os jurados de mestre-sala e porta-bandeira sempre prezam pela tradicionalidade da nobre arte e nunca deixar o pavilhão como segundo plano durante uma apresentação. Apesar disso, é importante destacar estes profissionais por suas tentativas de inovações as quais, de alguma forma, marcaram suas épocas. 

E o que você achou da lista? Lembra das apresentações que citamos? Tem mais alguma que gostaria de ter visto aqui? Conte pra gente e sempre acompanhe a nossa série #GiroAncestral. Quarta que vem, o último texto dessa temporada!

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Texto: Beatriz Freire e Juliana Yamamoto.
Revisão e edição: Felipe Tinoco e Leonardo Antan.
Arte: Vítor Melo.

No segundo texto da série #GiroAncestral, depois de destrincharmos o quesito em sua história, movimentos, vestimentas e itens no texto de estreia, é chegada a hora de conhecermos mais sobre os homens e as mulheres que assumem os papéis de defensores e condutoras dos pavilhões das escolas de samba.

Como foi relatado na introdução à arte de mestre-sala e porta-bandeira, a cumplicidade é fundamental para o bom entrosamento de um casal. A troca enamorada de olhares e o notório laço de parceria são dois dos maiores aliados para o bailado sincronizado. Se antigamente apenas a beleza do pavilhão estava subordinada ao julgamento, hoje, apesar dele ainda ser o elemento principal, o casal importa e muito para a avaliação do quesito no desempenho de suas funções. Podemos dizer, assim, que um casal é a base fundamental que auxilia a percepção do protagonismo e da soberania de um pavilhão perante ao júri.

Ao longo dos anos, as escolas de samba contaram com inesquecíveis representantes de seus símbolos e cores; alguns tiveram a experiência de trabalhar com diversos parceiros, outros firmaram verdadeiros casamentos de sucesso que se estenderam e duraram até onde seus braços, pernas e ombros aguentaram servir a estes nobres cargos. Reverenciando a incrível capacidade do encontro de corpos educados de maneiras tão distintas, mas que se juntaram com maestria e complementaram um ao outro em verdadeiras duplas de sucesso da folia.

Vem conferir nossa homenagem os casais de mestre-sala e porta-bandeira que por mais tempo se mantiveram juntos no posto principal das escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Começaremos pelas praias carioca antes de pousar no Anhembi!

Delegado e Neide (21 carnavais juntos)

Os antigos carnavais também têm espaço garantido na nossa lista e trazem a nostalgia de um casal inigualável na história da folia. Delegado, carinhosamente chamado de "mestre dos mestre-salas" e Neide, uma porta-bandeira que fez história na verde e rosa, carregaram juntos os pavilhão mangueirense por vinte e um carnavais, dezoito deles consecutivos, a partir do ano de 1954.

Delegado já era mestre-sala da escola há dez anos e fazia dupla com Nininha, quando, no referido carnaval, Neide passou a ocupar o posto de porta-bandeira ao seu lado. A entrega e paixão dos dois pela dança, traduzidos em tanta elegância, criaram um bailado único e muito enamorado. Os rodopios e o V da vitória são marcas inconfundíveis da porta-bandeira; Delegado nunca tirou nota menor que dez e assumiu também cargos como diretor de bateria, harmonia e ritmista na escola. Os dois ficaram separados por seis carnavais, depois da saída de Delegado, enquanto Neide seguiu no cargo e teve como companheiros mestre-salas também históricos: Élcio PV, Rogerinho e Roxinho. No carnaval de 1978, Delegado retornou ao posto para dar continuidade ao casamento de sucesso com Neide, que à época já lutava contra um câncer que tentou esconder até quando foi possível, para não ser cortada do desfile.

Delegado e Neide dançam juntos. Foto: Reprodução Sonhos de Carnavais.

O último ano dos dois como casal de mestre-sala e porta-bandeira foi no carnaval de 1980. Como dissemos da introdução, muitos casais só encerraram suas parcerias quando se viram impedidos pelos próprios corpos, depois que já tinham ultrapassado seus limites em nome do compromisso e do amor pela escola. Foi uma preparação para contarmos o final desta vitoriosa dupla. Neide estava cada vez mais magra com a progressão da doença e fato chegou a motivar um pedido para que suas fantasias fossem menos pesadas. Ela vestiu o verde e o rosa, como cria do morro e apaixonada pelas cores, como ela mesma disse em entrevista ao Jornal do Brasil, até quando seu corpo não conseguiu mais sustentar. Em 1981, Cosme e Damião perderam uma grande devota; a Mangueira perdeu uma das suas maiores e mais fiéis profissionais de todos os tempos e o carnaval, por fim, chorou com a partida de uma grande porta-bandeira. Neide deixou sua trajetória marcada nas páginas da festa ao lado de Delegado, que após a morte de sua parceira de mais de duas décadas seguiu como mestre-sala da Mangueira por mais oito carnavais. Em 1998, Delegado foi condecorado com a Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Ele marcou presença na escola até a velhice e, em 2012, o mestre faleceu. Certamente, foi bailar com Neide no infinito.

Marquinhos e Giovanna (22 carnavais juntos)

Ocupar um cargo na Estação Primeira é uma verdadeira herança. Para Giovanna, esse presente, ou essa, missão poderia ter chegado mais cedo, mas foi frustrado pelas negativas que a moça tinha dado a seu pai, dirigente da escola, e a Ivo Meirelles, que reforçava o coro de insistência para que ela assumisse o cargo de primeira porta-bandeira, confiando em seu talento. Na Mangueira do Amanhã, a escola-mirim da Estação Primeira, ela já fazia dupla com Marquinhos. Se pudéssemos fazer os cálculos fora do posto de casal oficial, certamente os dois beliscariam uma posição ainda mais alta nesta crescente de anos acumulados em parceria. Em 1995, os dois estrearam como defensores de uma das mais tradicionais agremiações cariocas, com a mesma responsabilidade que tiveram Neide e Delegado. Eles não decepcionaram. Por vinte e dois carnavais ostentaram com maestria a linda bandeira de cetim em verde e rosa, faturando pela escola dois dos quatro títulos que conquistaram juntos, em 1998 e 2002.

Os lindos sorrisos dos dançarinos ao empunhar e defenderem o pavilhão mangueirense. Foto: André Coelho.
Em 2010, pela primeira vez à frente de outra escola, vestiram amarelo e azul para ostentar o pavilhão da Unidos da Tijuca. Tanta experiência e entrosamento renderam quatro notas dez e um nove vírgula nove descartado da quinta cabine, contribuição fundamental para o título que a escola conquistou depois de setenta e quatro carnavais. Pelo Borel, repetiram o feito em 2012 e integraram mais uma vez o time campeão com a pontuação máxima do quesito, quatro notas dez. A parceria duraria mais um ano na Tijuca, até fazerem a troca com um casal já citado, Julinho e Rute, que ocuparam a vaga por eles deixada na Tijuca quando partiram para a vizinha Vila Isabel, onde só dançaram por um único carnaval, em 2014.

Em 2016, depois de um ano sabático, foram contratados pela Viradouro e no ano seguinte defenderam as cores do Paraíso do Tuiuti. Logo em seguida, foi anunciada a separação do casal, que garantiu ter mantido a amizade e o respeito de sempre. Giovanna segue atuante até hoje, ao lado de Fabrício Pires, com seus inconfundíveis giros e mastro alto, heranças dos tempos de aprendiz em Mangueira. 

Chiquinho e Maria Helena (24 carnavais juntos)

Quando ouvimos alguém dizer que o amor pelo samba está no sangue, não faltam exemplos para ilustrar. Um dos maiores deles é o desta dupla que está presente no imaginário de muitas gerações de apaixonados pelo carnaval carioca. A relação geracional, aliás, é justamente o que identifica nosso casal: Chiquinho e Maria Helena são mestre-sala e porta-bandeira, cavalheiro e dama e também filho e mãe.
Mãe e filho participam da comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense em 2018. Foto: Gabriel Nascimento/Riotur.
A mineira Maria Helena chegou ainda menina ao Rio de Janeiro, aos 15 anos de idade, para trabalhar como empregada doméstica e costureira. Sua carreira teve início em blocos e passou por escolas como a Unidos da Ponte, União da Ilha e Unidos da Tijuca, até se reencontrar novamente com a Imperatriz Leopoldinense em 1982, agremiação pela qual teve uma ligeira passagem no carnaval de 1977. Maria Helena é dona de um giro solto e ao mesmo tempo saltado inconfundível. Acostumado a ver a mãe ensaiar em casa e  frequentar as quadras, Chiquinho desenvolveu rapidamente o talento de um jovem mestre-sala. Sua boa desenvoltura garantiu sua estreia como primeiro mestre-sala no ano de 1984, na Imperatriz, já com a nota dez. Era apenas o início de uma vitoriosa, premiada e memorável parceria que transcende a Avenida.

Como um rei e uma rainha, seguiram coroados em Ramos por vinte e dois carnavais. As raízes familiares da dupla ainda se estenderam para Elizangela, segunda porta-bandeira da escola, nome que Maria Helena por anos preparou para passar o seu bastão de primeira porta-bandeira, como uma verdadeira herança. Foram campeões pela primeira vez em 1989, com o famoso "Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós", de Max Lopes. Fica aqui o registro que o casal não desfilou no ano de 1993 por terem sido cortados por Luizinho Drumond antes do desfile, tendo sido substituídos por Jerônimo e Neide. A partir de 1994, com Rosa Magalhães assinando sozinha os desfiles da escola, foram campeões mais cinco vezes. Em 2005, em uma discussão conturbada, Chiquinho e Maria Helena sofreram com a pressão do título que escapou das mãos da Imperatriz e se despediram da escola. Já com sessenta anos, ela dançou por mais dois carnavais junto do filho pela Alegria da Zona Sul, onde encerraram suas carreiras. Há alguns anos voltaram a frequentar a Imperatriz Leopoldinense e são constantemente homenageados pela escola que teve a felicidade de ver defender suas cores com grande maestria de dois dos maiores nomes do quesito, donos da parceria duradoura que consagrou o talento familiar.
 
Ana Paula e Robson (26 carnavais juntos)

Alguns casais levam o “namoro” da dança e a troca de olhares mais à risca do que outros. Robson Sensação e Ana Paula são um bom exemplo. Há impressionantes trinta anos juntos, eles se conheceram em 1990, quando a paquera não tinha a internet como facilitador. Robson, que já era o primeiro mestre-sala da Viradouro, começou a lançar suas investidas sobre Ana Paula, que tinha acabado de chegar à escola depois de um concurso para a escolha de segunda porta-bandeira da agremiação. Uma semana depois, veio da diretoria a notícia da promoção da moça ao cargo de primeira porta-bandeira da escola; nasceu, assim, uma história de amor e companheirismo dentro e fora da Avenida. A passagem dos dois enquanto casal pela alvirrubra de Niterói durou pouco. Depois da estreia, em 1991, tomaram logo o caminho da Leão de Nova Iguaçu, escola na qual também só permaneceram por um carnaval. Na Caprichosos, foram contratados após uma vitória unânime de um concurso com mais vinte e três casais, e lá permaneceram por quatro anos com notas máximas, como revelaram em entrevista ao site Feras do Carnaval. Contaram ainda com muitas escolas no currículo, passaram ainda pela Grande Rio – a convite de Alexandre Louzada – e pela União da Ilha do Governador, todas com chuva de notas dez.
A felicidade do casal ao defender o pavilhão da Viradouro em 2009. Foto: Regina/ginasant.
O ano de 2001 marcou o carnaval de reencontro do casal com a Caprichosos de Pilares. Sem qualquer dúvida do prestígio que tinham, só deixaram a escola em 2005, quando não participaram do carnaval daquele ano por questões políticas. A partir daí, novas descobertas e mais reencontros cruzaram o caminho dos dois, sempre muito valorizados. De volta à folia em 2006, permaneceram por dois anos no Império Serrano e por um breve carnaval na Porto da Pedra. Foi defendendo as cores do tigre de São Gonçalo, aliás, que Ana Paula conquistou seu primeiro Estandarte de Ouro, no ano de 2008. Sondados pela vizinha, o casal sensação aceitou o convite da Viradouro para retornar à escola em que tudo começou; a segunda passagem durou três anos. Em mais um reencontro, dançaram pela Mocidade, em 2012, onde Alexandre Louzada, o mesmo carnavalesco que os levou para a Grande Rio no final dos anos 90, assinaria o carnaval. Por fim, encerraram a passagem pelo Grupo Especial em 2013, empunhando o majestoso pavilhão portelense. Incontestavelmente entrosados, admiradores da tradição da dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira mas atentos às exigências de inovação do júri, Robson e Ana Paula são donos de cumplicidade e leveza raras. Em 2014, desfilaram pela Santa Cruz e também defenderam as cores da Guerreiros de Jacarepaguá em 2018. Na apuração do carnaval de 2020, conquistaram junto com a Em Cima da Hora a vaga de retorno à Sapucaí pela Série A. Mais do que um prazer testemunhar a trajetória de vinte e cinco carnavais em atividade, é uma alegria tê-los de volta à Marquês de Sapucaí. 

Claudinho e Selminha Sorriso (29 carnavais juntos)

Um casal exemplar. Talento, simpatia, dedicação e entrosamento foram componentes fundamentais e comuns a Claudinho e Selminha Sorriso, que formam a dupla defensora do cargo principal de mestre-sala e porta-bandeira mais duradoura. Coincidência ou não, o ano de estreia como casal pela Estácio de Sá já deu aos dois o sabor do campeonato com a pontuação máxima do quesito. Pela vermelho e branco continuaram até o carnaval de 1995, quando se despediram da agremiação e embarcaram num voo sobre as asas de um beija-flor que os conduziu até Nilópolis a convite de Laíla. 

A dança do histórico casal em mais um campeonato pela Beija-Flor, em 2015. Foto: Fábio Rosso/O Globo.
Na Deusa da Passarela, colecionam notas máximas e nove campeonatos, recorde de conquistas entre os casais de mestre-sala e porta-bandeira. Fazendo shows pelo exterior e reconhecidos pelos carnavais de diversos estados do Brasil, os dois compartilham vinte e cinco destes vinte e nove anos totais de trajetória como casal principal do Acadêmicos do Campo do Galvão, escola de samba de Guaratinguetá, em São Paulo, onde são presença confirmada após o desfile oficial do Rio de Janeiro. Parceiros de uma vida inteira, não houve um ano sequer que não tenham defendido juntos o mesmo pavilhão desde que dançaram pela primeira vez. Selminha, além de dona do sorriso mais famoso do carnaval, é a maior campeã do Estandarte de Ouro ao lado de Jamelão: foram seis prêmios que a elegeram a melhor do quesito a cada ano. No que depender do amor, disposição física e vontade comum, Selminha e Claudinho continuarão juntos por um bom tempo, já que mantêm a excelência de seus trabalhos e são verdadeiras majestades na escola de Nilópolis. Vai ser difícil superar a marca estabelecida por esses dois.

Mestre Gabi e Vivi (11 anos de parceria)

Pegando nossa tradicional ponte-aérea, chegamos ao Trevo da Barra Funda, que possui em sua história um dos casais mais emblemáticos e marcantes do carnaval de São Paulo: Mestre Gabi e Vivi Martins. Tudo iniciou no carnaval de 1983, quando o então passista recebeu o convite da porta-bandeira do Barroca Zona Sul - na época, Alice dos Santos - para ser seu parceiro. No desfile, ainda na Avenida Tiradentes, Mestre Gabi e Alice entraram como segundo casal, posto que não recebia nota. Entretanto, naquele ano, o diretor de harmonia informou aos jurados para que os avaliassem. O resultado foi a pontuação máxima e o início de uma linda história no mundo do samba.

Mestre Gabi e Vivi escreveram sua história no Camisa Verde e Branco, sendo um dos casais mais importantes da escola. Foto: reprodução Facebook.
A partir daí, pulamos quase dez primaveras no tempo. O ano era 1991 e marcava a estreia do Sambódromo do Anhembi. A menos de um mês para o carnaval, a diretoria do Camisa descobriu que a atual primeira porta-bandeira da escola estava grávida e impossibilitada de desfilar. A responsável por treinar o casal oficial decidiu chamar Vivi, rainha de bateria da Mocidade Alegre que sonhava em ser porta-bandeira do alviverde. O atual mestre-sala na época recusou-se em desfilar, e, em razão disso, chamaram seu marido, Mestre Gabi, para formarem o novo casal oficial. Logo no primeiro ano foram nota máxima e campeões, iniciando uma parceria de muito sucesso e vitórias. Além do título de 1991, o casal foi campeão também em 1993. A dança tradicional e elegante tornou-se sua marca registrada e também referência e inspiração para os novos casais que surgiram. Dançaram por 11 anos ininterruptos, de 1991 a 2002, e conquistaram o título de casal do século e soberano do carnaval, apresentando-se até hoje no Anhembi, ainda nos brindando com sua elegância e parceria.

Ednei Mariano e Maria Gilsa (17 anos de parceria)

Após uma passagem na Barra Funda, desembarcamos na Freguesia do Ó, que em sua grandiosa história presenteou os foliões com um casal muito importante para o carnaval paulistano: Ednei Mariano e Maria Gilsa. A parceria de muito sucesso, porém, foi iniciada antes, no carnaval de 1983 no Acadêmicos do Tucuruvi. Nessa época, o Zaca estava no Grupo 2 (atual grupo de Acesso) e procurava novos defensores pro pavilhão da agremiação. Ednei, que já atuava como mestre-sala no Barroca Zona Sul, foi convidado. O responsável por apresentar Maria Gilsa foi Seo Jammil, presidente da agremiação. Ao se encontrarem, foi amor à primeira vista pela dança um do outro e, desde então, não desgrudaram. Estiveram de 1983 a 1986 na azul e branco. No período de 1985 a 1987 também defenderam o pavilhão da Renascença da Lapa.
 
Ednei e Gilsa com vibrante fantasia em desfile oficial do Rosas de Ouro. Foto: Carlos Ricon.
Maria Gilsa encantava todos com seu doce sorriso, mas principalmente pelo bailado forte. Nascida em Ipiaú, na Bahia, trocou a cidade por São Paulo aos 9 anos para trabalhar como empregada doméstica. Em 1973,  defendeu o pavilhão da extinta Primeira do Itaim Paulista pela primeira vez. A partir daí não parou mais, tornando-se uma das porta-bandeiras mais consagradas da Terra da Garoa. Após o carnaval de 1994, recebeu o convite para defender o pavilhão oficial da Rosas de Ouro, junto de Ednei. Até então, os dois haviam dado uma pausa na parceria em 1987, dançando com novos parceiros nos anos seguintes. Permaneceram até 2001 na azul e rosa, onde criaram uma história inesquecível, com apresentações impecáveis e notas máximas.

A arte de mestre-sala e porta-bandeira corria na veia da dupla, que mesmo após encerrar suas carreiras, desfilaram em 2004 como casal de honra no Acadêmicos do Tucuruvi e 2006 a 2008 no Rosas de Ouro, firmando 17 anos de cumplicidade. Gilsa faleceu no ano de 2008, deixando como legado sua alegria e sua energia, seu forte bailado e a sua filha, também porta-bandeira, Adriana Gomes. Ednei é atualmente o presidente da AMESPBEESP (Associação de Mestres-salas, Porta-bandeiras e estandartes de São Paulo), perpetuando seu conhecimento para outras pessoas

Michel e Ildely (17 anos de parceria)

Imaginem um casal que acompanhou a sua agremiação no seu primeiro ano no Grupo Especial, que esteve ao seu lado em vitórias e glórias, mas também em derrotas. A dupla que tem o sangue preto e branco correndo em suas veias e que dedicaram 17 anos de sua carreira a uma única agremiação: Gaviões da Fiel. Este dois artistas do samba são Michel e Ildely. Ambos já frequentavam a alvinegra na época em que ainda era um bloco e acompanharam toda sua ascensão. A trajetória dos dois começou em 1990 já como defensores oficiais do pavilhão. A partir daí, iniciaram uma história de muito amor e integridade à bandeira da preto e branco por 17 anos ininterruptos.

Como casal soberana, a dupla desfile em 2010 na Gaviões da Fiel. Foto: Lilian Romanelli.
Com a carreira dedicada à escola da torcida corinthiana, a dupla esteve não só presente em todos os títulos da preto e branco (1995, 1999, 2002 e 2003), mas também acompanhou-a nos seus piores momentos, como em 2005 e 2007, quando bailaram no Grupo de Acesso. Os dois enfrentaram alguns problemas em apresentações, como no ano de 2000, na ocasião em que o costeiro da porta-bandeira caiu na segunda cabine de jurados e prejudicou sua evolução. Ou em 2006, com a quebra do mastro da dama em plena Avenida. Nenhuma circunstância, porém, apaga o brilho de uma história de lealdade, com apresentações regulares e várias notas máximas. Após encerrarem suas carreiras, receberam o título de casal soberano do Gaviões e até hoje são inspirações para os novos casais da alvinegra. 

 Pingo e Paulinha (16 anos de parceria)

“Vem novamente à disputa, meu povo à luta, Vai-Vai". Mais um casal em nossa lista que possui sangue preto e branco e vem dedicando a sua carreira na arte de mestre-sala e porta-bandeira à uma única escola. Reginaldo Pingo e Paula Penteado, mais conhecidos como Pingo e Paulinha, possuem seus nomes marcados na história da Saracura e sobretudo no carnaval de São Paulo, sendo uma das parcerias mais longas e que se perpetua até hoje. Paulinha é da família dos fundadores da escola. Seu bisavô, Frederico Penteado, foi um deles. Começou a desfilar pela agremiação em 1986, na ala das crianças. Já Pingo chegou na escola do povo em 2001, atuando como terceiro mestre-sala. A parceria dos dois se iniciou no carnaval de 2006, quando tiveram a difícil missão de substituir Renatinho e Fabíola, outro casal consagrado do carnaval paulistano. O resultado foi tão positivo que a dupla dança junta até hoje.

Pingo e Paulinha em ensaio técnico para o carnaval 2020. Foto: Felipe Araújo/LIGASP.

Antes do ano de estreia como casal oficial, Paulinha era segunda porta-bandeira ao lado de Paulinho Santa Cruz. Após a saída do primeiro casal, assumiram o posto. Porém, faltando 40 dias para o desfile, Paulinho precisou se desligar da agremiação por compromissos profissionais e passou o pavilhão para Pingo assumir. Foram dias intensos de ensaio, correndo contra o tempo. A dança dos dois fluiu magnificamente e logo no primeiro ano já foram nota máxima. Em sua trajetória, possuem três títulos do Grupo Especial (2008, 2011 e 2015) e um do Grupo de Acesso (2020), além de vários prêmios e apresentações sempre impecáveis e regulares. Para o carnaval de 2021, vão para o seu décimo sexto ano de parceria.

Jairo e Simone (26 anos de parceria)

“E toda gente que é feliz, em breve saberá de cor…” O nosso último casal da lista é o que possui a parceria mais longa do carnaval de São Paulo: 26 anos. Jairo Pereira e Simone Gomes formaram uma linda dupla não só dentro da passarela, mas como fora dela. A maior parte de suas carreiras tem sido defender o pavilhão da Tom Maior. Os dois se conheceram em um baile e, nessa época, Simone já era segunda porta-bandeira do Pérola Negra. Começaram a namorar e Jairo a fez escolher entre ele e o carnaval. A dama decidiu pelo carnaval, pois era seu sonho ser primeira porta-bandeira. Entretanto, o namorado não desistiu de sua parceira e, depois desse episódio, teve seu interesse pela festa despertado, acompanhando a namorada no desfile do Pérola na Avenida Tiradentes. Assim, ele começou a mergulhar de vez na folia, participando de concurso de casais nos anos seguintes ao lado da irmã de Simone e, desde então, não parou mais.


Jairo e Simone no desfile da Tom Maior em 2020. Foto: Felipe Araújo/LIGASP.
A história dos dois com a Tom Maior começou no carnaval de 1994, quando bailaram pela primeira vez juntos ao pavilhão oficial da agremiação. Permaneceram até o carnaval de 2004, quando também defenderam o pavilhão do Império da Casa Verde no Grupo Especial. Em 2006, retornaram a Tom Maior e desde então nunca mais saíram da agremiação, permanecendo até os dias de hoje com a parceria mais longínqua do carnaval de São Paulo, sendo 25 anos apenas na vermelho e amarelo. Com uma dança tradicional e muito elegante, a dupla marcou e vem marcando história na escola da Sumaré.

FIM! 
Eles encantaram e ainda encantam por onde passam, seja na Marquês da Sapucaí ou no Sambódromo do Anhembi. Juntos criaram um forte laço e uma parceria duradoura e que gerou bons frutos pelas agremiações que defenderam. Escreveram histórias, participaram de desfiles marcantes, fizeram apresentações impecáveis. Dedicaram parte de suas vidas em prol desta nobre arte e em prol do pavilhão que defendiam. Tornaram-se inspiração e exemplo para os novos casais que surgem, além de sempre estarempresentes em nossa memória carnavalesca.

Qual é o seu casal favorito da lista? Gostou de saber um pouco mais sobre as duplas? Acompanhe a nossa série #GiroAncestral que acontece toda quarta-feira em nosso site! Carnavalize conosco!

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