• Home
  • Quem somos?
  • Contato
  • Lojinha
  • Exposições
  • Selo Literário
  • Apoiadores
Tecnologia do Blogger.
facebook twitter instagram

Carnavalize

O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossas divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal.

Arte e visual: Vítor Melo/Carnavalize | Foto: G1/Globo.com
                                                                                                           Por Juliana Yamamoto e Leonardo Antan
                                                                                                          Revisão: Felipe Tinoco

Essa foi sem dúvidas uma década e tanto para o carnaval de São Paulo. Além de se mostrar cada vez mais competitivo, os desfiles do Anhembi cresceram também em importância no cenário nacional, ganhando cada vez mais destaque e repercussão e revelando talentos que se projetaram pelo país afora. Esteticamente e estruturalmente, a folia paulistana também cresceu e muito com o aumento de investimento e de apoio de infraestrutura dos governantes locais. Prova disso foi a inauguração da Fábrica do Samba, na qual se reúnem os barracões das agremiações do Grupo Especial. Com uma disputa cada vez mais equilibrada, surgiram ainda um número expressivo de três campeãs inéditas nesses últimos anos: Tatuapé em 2017, Mancha Verde em 2019 e Águia de Ouro em 2020. 

Essas informações reiteram que, ainda que se preservem algumas polêmicas na apuração e críticas à folia da cidade, o carnaval da Terra da Garoa está entre os maiores do Brasil E é assim, nesses 10 anos de folia, que o Sambódromo do Anhembi foi presenteado com inesquecíveis e marcantes apresentações. A seleção abaixo apresenta algumas campeãs, outras não - mas todos são desfiles que se destacaram por sua força, com a colaboração de um grande samba-enredo e também a competência de profissionais nos quesitos. 

Chega de papo e venha conferir os 10 desfiles que elencamos como os mais marcantes do Grupo Especial do Sambódromo do Anhembi na década de 2011 a 2020! (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)


Vai-Vai 2011 
(A Música Venceu)

Feliz da vida, lá vem o Bixiga! O som de doces violinos se juntou à batida ancestral da bateria Pegada de Macaco para louvar um dos maiores nomes da música clássica brasileira. Mostrando que "A música venceu" em seu enredo, a escola do povo levou para a Avenida a história de vida e de superação do maestro João Carlos Martins. Embalada por um dos melhores e mais emocionantes sambas-enredos da década, a Saracura foi a penúltima a desfilar na sexta-feira, com o sol já raiando. A obra musical misturava todo o lirismo que o enredo pedia com a garra característica do exemplo de comunidade da Bela Vista. Ambos os aspectos deram o tom para arrebatar o Anhembi.

Detalhes do abre-alas do Vai-Vai que possuía mais de 70 metros. Foto: G1 (Globo)
Na parte plástica, a batuta ficou por conta do experiente carnavalesco Alexandre Louzada em sua estreia na folia paulistana. Por isso, não faltaram grandiosas alegorias no cortejo: só o abre-alas possuía mais de 70 metros. Apesar do carro ter sofrido uma pequena avaria na lateral ao entrar no Sambódromo, não comprometeu a emocionante apresentação. Outro destaque foi a Comissão de Frente, com elementos que lembravam a obra de Salvador Dalí. Ela trouxe ainda símbolos que marcaram a vida do artista como a música, a política, as mulheres e o futebol. Na parte musical, a bateria comandada pelo Mestre Tadeu também brilhou com seus 300 ritmistas e o samba defendido pelo carro de som comandado pelo intérprete Wander Pires. Eles ajudaram a conduzir a preta e branca para seu 14º título do carnaval de São Paulo.

Mocidade Alegre 2012 
(Ojuobá – No Céu, os Olhos o Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, um Obá Muito Amado!)

Tenho sangue guerreiro, sou Mocidade… Não dava para falar dessa década na folia paulista sem lembrar da agremiação que mais faturou títulos por lá. Depois uma apresentação problemática em 2011, a Morada do Samba escolheu um enredo em comemoração ao centenário do escritor Jorge Amado, tendo como fio condutor o livro “Tenda dos Milagres”, de 1969. Mergulhando na cultura baiana, na narrativa proposta não faltaram elementos do candomblé, da capoeira e da luta contra a intolerância religiosa - os quais integram o universo do livro que Jorge mais gosta de ter escrito.

O suntuoso e imponente abre-alas da Morada do Samba. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP/Veja
Se no Anhembi o que se viu foi uma apresentação inesquecível, poucos se lembram que em janeiro de 2012 um incêndio atingiu o barracão da escola no qual algumas alegorias e esculturas foram danificadas. A diretoria e a comunidade se uniram para terminar o carnaval e mesmo com o contratempo a agremiação do bairro do Limão apresentou um magnífico desfile, evidenciando a força dos seus quesitos e, principalmente, da comunidade. Um dos sambas mais fortes da história da Mocidade Alegre foi a trilha sonora do desfile marcado pela emoção e superação, muito bem embalado pela bateria Ritmo Puro, que ousou com paradinhas que levantaram o público. No visual da apresentação, o trabalho da dupla de carnavalescos Sidnei França e Márcio Gonçalves foi impecável e se destacou pela impactante abertura em tons de vermelhos e alaranjados. Tantas qualidades resultaram não só em um desfile para lá de marcante, como também no incontestável campeonato.

Acadêmicos do Tucuruvi 2013 
(Mazzaropi: o adorável caipira. 100 anos de alegria)

Sai da frente a alegria vai passar! Depois de apresentações mais emocionantes e imponentes, trazemos um pouco de leveza para a lista. Foi com um visual colorido e alegre que o Acadêmicos do Tucuruvi levou para a Avenida uma grande homenagem ao humorista Mazzaropi, que no ano anterior havia comemorado o seu centenário. O desfile marca o belo casamento entre a azul e branco e o carnavalesco Wagner Santos. À época, o artista estava indo para o seu quarto ano na escola, por onde seguiria por mais alguns carnavais.

O abre-alas do Tucuruvi representava o circo, parte importante da vida de Mazzaropi. Foto: Reprodução Jovem Pan.
Contando a história do ator que levou multidões ao cinema brasileiro, o enredo abordou a carreira profissional do artista, suas paixões pessoais e fatos marcantes da sua trajetória. Os carros alegóricos representavam as cinco áreas de atuação sobre as quais o homenageado passeou: o circo, o teatro de rua, o rádio, o programa Rancho Alegre e o cinema. Wagner abusou das cores e apresentou um visual bonito, com a irreverência que fazia jus ao homenageado. Esse tom também foi percebido no excelente samba-enredo de letra descontraída, comprado pela arquibancada e muito bem conduzido pelo intérprete Igor Sorriso, estreante na Terra da Garoa. Foi tanta leveza que o “Zaca” deslizou no sambódromo, divertindo e  encantando o público como se fosse uma obra do Caipira mais amado do Brasil. Pena que o final dessa história não foi tão feliz e os jurados não enxergaram tantas qualidades na comédia estrelada pelo Tucuruvi. A agremiação terminou em um modesto 6º lugar.

Mocidade Alegre 2014 
(Andar com Fé Eu Vou, Que a Fé Não Costuma Falhar)

Depois de 2012, a Mocidade Alegre reaparece na lista com o último título de um tricampeonato que se encerrou em uma emocionante apresentação cujo tema era Fé. Muito inspirada na figura da presidente Solange Bichara, famosa por seus terços nas apurações, a vermelho, verde e branco do Limão falou de todo o tipo de fé no enredo que novamente contou com a assinatura de Sidnei França e Márcio Gonçalves. Abordando as diferentes maneiras de vivenciá-la, a Morada do Samba mostrou a religiosidade de várias partes do mundo e, notadamente, do Brasil.

Detalhes do abre-alas da Mocidade que trouxe elementos que representam a fé. Foto: Flavio Moraes/G1 (Globo)
Um dos destaques foi a comissão de frente comandada pelo coreógrafo Robério Theodoro. Ela representou o poder da sedução, com parte dos bailarinos vendados, guiados apenas pela voz do coreógrafo. Ainda que tenha gerado uma bela imagem, foi outro o grande marco daquele desfile: uma coreografia ousada que envolveu toda a escola, quando os componentes se ajoelhavam em determinados momentos do samba. A bateria do Mestre Sombra abusou novamente de bossas e paradinhas características. Outro destaque ficou com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emerson e Karina, que conquistou a nota máxima. Apesar de não ser uma unanimidade como 2012, o desfile possuí consistência técnica de sobra que contribuiu para o derradeiro título da escola na década.

Vai-Vai 2015 
(Simplesmente Elis - A fábula de uma voz transversal do tempo)

Carnaval, a Bela Vista está em festa! Depois da bela homenagem ao maestro João Carlos Martins, foi apostando em mais um tributo a um grande nome da música brasileira que a Escola do Povo voltou a fazer uma apresentação para lá de emocionante. A escolhida na ocasião foi ninguém menos que Elis Regina, considera por muitos a maior cantora brasileira e com uma forte ligação com o bairro do Bixiga. Nos anos 70, ela gravou sambas do compositor Adoniran Barbosa, que se tornou o maior símbolo do bairro. O enredo optou por não contar simplesmente a biografia da homenageada, relembrando as grandes e inesquecíveis canções eternizadas na voz da Pimentinha. Se o samba-enredo corria o risco de virar uma colcha de retalhos com tantas citações, a missão foi muito bem cumprida pela parceira vencedora da disputa que ousou ao criar um refrão que lembrava a canção "Maria, Maria", de Milton Nascimento. Sambão garantido, a comunidade do Bixiga fez seu dever de casa mais uma vez e contagiaram o Anhembi sob a brilhante condução do intérprete Gilsinho.

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira do Vai-Vai, Pingo e Paulinha. Foto: Alexandre Schneider/UOL
Mais uma vez, a preto e branco não deixou a dever em emoção, como na bela Comissão de Frente da agremiação que contou com a presença de ninguém menos que Maria Rita, filha caçula da homenageada. Além dela, os outros herdeiros da cantora, João Marcelo e Pedro Mariano, também marcaram presença. Se comunicação com o público não faltou tanto pela obra musical quanto pelo enredo de fácil assimilação, a escola deixou a desejar nos quesitos plásticos, principalmente em alegorias. Apesar de problemático, o visual assinado por Alexandre Louzada, que dessa vez assinou com André Marins e Delmo de Moraes, não tirou a escola da disputa com uma apresentação muito mais ilustre nos quesitos musicais e de pista. Desbancando a tricampeã Mocidade Alegre, que também fez um ótimo carnaval, o Vai-Vai acabou conquistando o seu décimo quinto título da escola nos braços de seu povo.


Império de Casa Verde 2016 
(Império dos Mistérios)

Uma nação guerreira, a grande estrela desse carnaval! Parecia que esse verso do samba-enredo do Império de Casa Verde premeditava o que aconteceria naquele ano de 2016. Neste carnaval, a grande estrela da folia paulistana foi o renascimento da agremiação. A escola havia marcado sua identidade com grandiosos e luxuosos desfiles na década anterior, conquistando nada menos que um bicampeonato no período 2005-2006. O espírito opulento do Tigre, que estava adormecido, foi retomado com a chegada do carnavalesco Jorge Freitas à agremiação.

O carnavalesco Jorge Freitas trouxe de volta o luxo característico do Império. Foto: Jefferson Pancieri/ SPTuris
O enredo abordava os grandes mistérios da humanidade, passando pelo lado inexplicável da fé, da vida após a morte e da origem da humanidade. Com carros extremamente luxuosos e impecáveis fantasias, o casamento entre Jorge Freitas e o Império não poderia ter se iniciado de forma mais interessante. O abre-alas imponente possuía nada menos que 75m de comprimento e 15m de altura. Além de apresentar o melhor visual das duas noites, a comunidade da Casa Verde mostrou a sua força. Junta ao excelente desempenho da Barcelona do Samba, o chão colaborou ainda mais para a quebra do jejum que já durava dez anos, garantindo o terceiro título da história da agremiação.


Dragões da Real 2017 
(Dragões canta Asa Branca)

Vem forrozear que o sanfoneiro vai tocar! Mesmo com pouca idade, a Dragões da Real se mostrava destinada a uma trajetória grandiosa na folia paulistana. A agremiação formada pela torcida organizada do time São Paulo se fixou no Grupo Especial logo na primeira metade da década e aos poucos foi conquistando posições e mais destaque. Assim, a competência da tricolor se confirmou com uma das grandes apresentações da década. Após temáticas mais lúdicas, a inspiração veio de um clássico de Luiz Gonzaga e a famosa Asa Branca guiou um enredo que homenageou o Nordeste do Brasil (que segurou o país nas costas nas eleições do ano seguinte).

O abre-alas da Dragões da Real foi um dos grandes destaques do desfile. Foto: Acervo/Reprodução Dragões da Real
Assinada por uma comissão de carnaval formada por Jorge Silveira, Márcio Gonçalves, Dione Leite e Rogério Félix, a agremiação da Vila Anastácio impressionou com suas alegorias e recursos criativos que renderem um belíssimo efeito. Além do visual, a vermelho e branco conquistou o público presente por meio do animado samba-enredo inspirado na música que foi eleita pela Academia Brasileira de Letras como uma das mais marcantes do século 20. A bateria comandada pelo Mestre Tornado ousou em paradinhas e bossas, elevando ainda mais o nível da apresentação. A comissão de frente representando o esforço dos sertanejos para conseguir plantar também causou forte comoção. A Dragões, então, escreveu seu nome na história no Anhembi com um desfile emocionante e valente. Uma pena foi que a alegria se tornou um lamento sertanejo na apuração. Inexplicavelmente, a escola perdeu o título na última nota no quesito samba-enredo para o Acadêmicos do Tatuapé, faturando apenas o vice-campeonato. A colocação não tirou o brilho de um desfile inesquecível da comunidade de gente feliz e arretada.

Acadêmicos do Tatuapé 2018 
(Maranhão: os tambores vão ecoar na terra da encantaria)

A segunda metade da década de 2010 foi marcada pela competência de uma agremiação: Acadêmicos do Tatuapé. A história vitoriosa começou anos antes, em 2016, quando a azul e branco surpreendeu ao conquistar o vice-campeonato homenageando a coirmã carioca Beija-Flor de Nilópolis. No ano seguinte, o esperado primeiro título da história da escola foi conquistado em cima do desfile da Dragões comentado anteriormente. Depois, porém, para quem achava que tinham sido dois acasos, o resultado de 2018 acabou com as dúvidas e firmou o estilo de desfilar mais técnico do bairro da Zona Leste.

Detalhes do abre-alas da escola da Zona Leste. Foto: Reprodução LigaSP
Após uma passagem marcante no Tucuruvi, o carnavalesco Wagner Santos fez sua estreia pela agremiação e levou um Maranhão multicolorido ao público. No desfile foram abordados diversos aspectos da cultura do estado, como suas lendas e sua música. O carnavalesco, que é maranhense, já havia abordado o tema em 2010 pelo Tucuruvi, mas conseguiu apresentar originalidade na apresentação. Além do belo trabalho plástico, uma das principais forças no desfile foi o samba-enredo, considerado um dos melhores da safra. Ele foi onduzido pelo carismático e talentoso Celsinho Melody, uma revelação da década que também brilhou no Sambódromo carioca. A bateria do Mestre Higor se destacou com paradões e bossas ao ritmo de reggae, muito popular no Maranhão. A comunidade novamente deu conta do recado e mostrou que estava confiante em busca do segundo título. No desfile imponente e técnico, o carnaval de São Paulo se deparou com a confirmação de uma nova estrela. 

Gaviões da Fiel 2019 
(A saliva do santo e o veneno da serpente)

“Sou Gavião você pode acreditar”. Os Gaviões da Fiel tentavam voltar aos seus tempos áureos buscando as primeiras posições. Para isso, a escola decidiu apostar em uma reedição do enredo de 1994, que naquele ano os levou ao vice-campeonato. “A saliva do santo e veneno da serpente” foi assinada pelo carnavalesco Sidnei França e encerrou o carnaval de 2019 com um desfile arrebatador. A reedição contou a história, as lendas, os benefícios e malefícios do tabaco. Sidnei recontou o tema apresentado há 25 anos pelo carnavalesco Raul Diniz com seu toque. Algumas adaptações nas alegorias foram feitas, mas a essência do enredo se manteve a mesma.

O abre-alas do Gaviões representa o medo e a fé. Foto: Marcelo Brandt/G1
A trilha sonora do desfile foi a principal atração. O samba-enredo é até hoje cantado pela torcida do Corinthians nos estádios, construindo sua grande popularidade. “Sarava, saravá, salve o santo guerreiro” foi entoado pela arquibancada no Sambódromo, fortalecendo ainda mais a apresentação. O público vinha abaixo com a escola a cada verso defendido pelo intérprete Ernesto Teixeira. Durante a apresentação, por alguns momentos o cantor dizia: “esse ano vai dar, eu falei”. A bateria do Mestre Ciro foi uma das melhores da noite e recriou as mesmas bossas apresentadas vinte e cinco anos antes. As alegorias, por sua vez, não apresentaram uma regularidade durante o desfile. Entretanto, isso não atrapalhou o espetáculo apresentado pela agremiação alvinegra. Assim, o carnaval de 2019 foi encerrado com uma apresentação estupenda, arrebatando todos que estavam presentes. Pena que a emoção do desfile não foi o suficiente para conquistar integralmente o polêmico júri paulistano, que deu apenas o 9º lugar a Gaviões.

Mocidade Alegre 2020 
(Do Canto das Yabás, Renasce Uma Nova Morada)

Nossa Morada renascerá… Depois de conquistar seu tricampeonato, a Mocidade Alegre patinou entre apresentações que não mostraram a mesma força de antes. Após complicações, a escola pisou no Anhembi em 2020 buscando renascer e, para isso, resolveu apostar novamente em um dito enredo afro. Reforçando o time de carnavalesco da alvirrubra, Edson Pereira se juntou a Márcio Gonçalves e Paulo Brasil na assinatura do cortejo. O enredo “Do canto das Yabás, renasce uma nova Morada” foi responsável por encantar o Anhembi na apresentação plasticamente irretocável e com a força característica e única da Morada do Samba.

“Nas águas de Iemanjá” foi um dos carros que mais chamou a atenção no desfile. Foto: Juliana Yamamoto/Carnavalize
A narrativa exaltava o poder das orixás femininas – as yabás - para reconstruir o planeta. Através do canto das divindades, existia a esperança para que a humanidade melhorasse e retomasse sua conexão com Olorum, o criador do mundo, possibilitando com que a Terra voltasse a ser um paraíso. O samba-enredo forte e muito bem interpretado por Igor Sorriso embalou uma apresentação esteticamente impressionante, com destaques para o Abre-Alas com a Morada de Olorum e o segundo carro "Nas Águas de Iemanjá". Este contou com 5 mil litros de água reutilizada em fontes e bolhas.

Mais uma vez, a Ritmo Puro levantou as arquibancadas e arrepiou o público com várias paradinhas e bossas. A comunidade do bairro do Limão também teve um excelente desempenho na busca pelo campeonato. Uma apresentação irretocável em todos os quesitos mostrou a força da Morada e a força das mulheres, que representavam 70% dos componentes no desfile. A agremiação não foi campeã - terminou na 3º colocação - mas nos presenteou com um espetáculo e com a certeza que a Mocidade Alegre renasceu.

Menções honrosas:

Não faltaram apresentações grandiosas e marcantes no Anhembi na última década e, por isso, a seleção não foi nem um pouco fácil. Procuramos traçar um panorama que mostrasse as transformações e o crescimento da folia paulistana, embaladas pelo investimento e o aperfeiçoamento de sua infraestrutura. Como comentado, esses aspectos contribuíram para o aumento da competitividade da festa, que coroou ainda o surgimento de novas protagonistas. Já que citar apenas dez desfiles era missão difícil, separamos alguns outros espetáculos que também valem ser relembrados como destaques dos últimos anos. 

Rosas de Ouro 2012 (O Reino de Justus)

Águia de Ouro 2013 (Minha missão: O canto do povo, João Nogueira)

Mocidade Alegre 2015 (Nos palcos da vida, uma vida no palco… Marília!)

Acadêmicos do Tatuapé 2017 (Mãe-África conta a sua história: Do berço sagrado da humanidade ao abençoado menino da terra do ouro)

Império de Casa Verde 2018 (O povo, a nobreza real)

Mancha Verde 2019 (Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra)

Águia de Ouro 2020 (O Poder do Saber – Se saber é poder… Quem sabe faz a hora, não espera acontecer)

Dragões da Real 2020 (A Revolução do Riso: A arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria).

Para você, qual seria o #TOP10? Qual desfile colocaria ou tiraria da nossa lista principal? Comente com a gente! #CarnavalizeSP.

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
por Beatriz Freire e Leonardo Antan
Revisão: Felipe Tinoco
Artes e visual: Vitor Melo

O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna com um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia! Para traçar um panorama de tudo que aconteceu nestes últimos anos, tem texto novo todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Além disso, nos dias seguintes às divulgações dos textos - ou seja, terças, quintas e sábados - um podcast especial será lançado com nossos comentários em áudio sobre os desfiles, os bastidores das escolhas, e as nossa divergências de opiniões!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal.

No texto de hoje, falaremos das escolas do segundo grupo da Marquês de Sapucaí. O Acesso passou por uma forte transformação durante a década, após uma série de polêmicas nos resultados dos carnavais da Lesga. Recém-criada em 2009, a nova liga para gerir as apresentações durou apenas quatro anos. Em 2013, um novo formato surgiu com a fundação de outra liga, a Lierj, e a junção os antigos grupos A e B em apenas um: a Série A. Até então, ela conta com dois dias de desfiles, transmitidos pela TV Globo. No último ano, outros acontecimentos políticos também movimentaram o liga da Série A e as escolas envolvidas, com direito ao surgimento de outros coletivos.

Inicialmente com o número de 19 escolas integrantes, a desregularidade entre as agremiações da Série A foi forte. Com o aperfeiçoamento do grupo ao longo da década, essa impressão foi se amenizando. Vale lembrar que, das grandes missões do grupo de acesso, a de impulsionar novos talentos e personalidades aconteceu em diversos segmentos: carnavalescos, casais, coreógrafos. Dessa forma, algumas apresentações históricas aconteceram.

Então chega de papo e vamos conferir o segundo #TOP10 da #SérieDécada: os desfiles mais marcantes do Acesso carioca. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)

Ps.: se quiser ver lindas fotos de cada um dos desfiles, clique nas primeiras palavras de suas análises. Com exceção do ano 2016, que não possui álbum, todos os outros desfiles possuem fotos, disponibilizadas pela Riotour sejam em álbuns individuais, sejam em uma galeria compartilhada do dia de desfiles.


Império Serrano 2012 
(Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba)

Lindos acontecimentos do carnaval, e futuras belas memórias, ocorrem quando uma escola valoriza sua própria história na figura de algum de seus principais baluartes. E se tratando de Império Serrano, a verde e branco não deve nada em personalidades icônicas. Naquele ano, a rainha Dona Ivone Lara completava 90 anos em plena atividade. Para sorte dos sambistas a Serrinha escolheu a simbólica data para materializar a homenagem a uma de suas principais torcedoras. No bastidores, a agremiação passava por mais uma de suas eleições conturbadas. Desta vez, o ex-mestre de bateria da escola Átila assumiu a presidência no pré-carnaval prometendo retornar às origens da histórica agremiação. 

A Dama do Samba, Ivone Lara, no desfile imperiano em sua homenagem. Foto: Raphael David/Riotour


Para comandar a parte visual, o já consolidado Mauro Quintaes foi contratado, e para criar um clássico musical necessário para esta compositora histórica, ninguém menos que uma parceria liderada por um outro sambista de peso: Arlindo Cruz. Ele assinou o samba ao  lado de Arlindo Neto e Tico do Império e a obra foi conduzida na avenida por Freddy Vianna e Tiãozinho Cruz. Sua letra traduziu com a delicadeza e beleza a vida da homenageada, passeando por sua herança ancestral africana, sua ligação com Heitor Villa-Lobos, sua obra musical e o clássico hino “Os cinco bailes da história do Rio de Janeiro”. Com problemas estruturais nos bastidores da folia, a plástica da apresentação se mostrou mais singela, mas a Serrinha não ficou devendo em emoção. A alegoria mais bonita da apresentação foi justamente a que veio a homenageada, lembrando o desfile imperiano Mãe Baiana Mãe, de 1983. Outro trunfo da Serrinha foi a experiência de Carlinhos de Jesus no comando da Comissão de Frente. Mesmo com a apresentação mais emocionante do grupo, o Império terminou em 2º lugar e ficou atrás da Inocentes de Belford Roxo. Os boatos de manipulação do resultado foram fortes e aquele ano marcou a última apresentação do acesso comandada pela LESGA. 


Império da Tijuca 2013 
(Negra, pérola mulher)

No primeiro ano do atual formato do Acesso, foi com uma dose de favoritismo – devido à competência do trabalho impecável de um ano inteiro – que o Império da Tijuca encerrou os trabalhos inaugurais da Série A. O desfile marcou a estreia do carnavalesco Júnior Pernambucano pelo carnaval carioca, e foi apenas o início de um casamento com a escola da Formiga que durou cinco anos. Em reverência e exaltação às mulheres pretas, a escola desfilou toda a ancestralidade e legado de guerreiras, rainhas, quilombolas e artistas. A ideia principal do desfile era exaltar estas mil facetas de mulheres que protagonizaram suas próprias histórias, investidas no papel de representantes da força criadora e transformadora de todas as coisas. 

Visão panorâmica do belo desfile do Império da Tijuca no carnaval 2013. Foto: Raphael David/Riotour
O samba-enredo da turma de Samir Trindade embalou as grandes expectativas que se tinha para aquela noite, já que era considerado por muitos como o grande destaque da safra. A linha de início foi cruzada pelas mulheres da comissão de frente de Junior Scapin, representando as feiticeiras em culto à Eleyé. As vestes em tons escuros e saias alaranjadas contrastavam lindamente com a enorme entidade de asas pretas, figura central do grupo, em uma fortíssima apresentação que emanou muito axé na abertura da passagem do Imperinho. Esteticamente, o conjunto assinado por Pernambucano tinha lindas soluções de fantasias e alegorias. Um imponente trio de rostos trazia mulheres em cima de cada um deles e foi uma das imagens mais marcantes e, por que não?, simbólicas da apresentação da escola. Todo a força da aura feminina conduziu uma passagem sem defeitos da escola, que homenageou até Xica da Silva à frente dos ritmistas da Sinfonia Imperial. Com tamanha emoção, não tinha como ser diferente: a escola foi campeã com a pontuação máxima dos quesitos e entrou para a história dos grandes carnavais do Acesso.

Viradouro 2014 
(Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar)

Niterói já foi capital estadual e não fica para trás quando o assunto é excelência no mundo do samba. A competência do município se reflete não apenas nos desfiles das agremiações de origem na cidade, como também já foi enredo. Orgulhosamente, a Viradouro contou a história de sua região natal em um carnaval desenvolvido pelo jovem carnavalesco João Vitor Araújo. Ele estreou no posto após assessorar o trabalho de Max Lopes na vermelho e branco no anterior.

Início do desfile da vermelho e branco de Niterói em 2014. Foto: Gabriel Santos/Riotour
Já na comissão de frente, coreografada por Luciana Yegros, era trazida a imagem de Araribóia, o chefe dos temiminós, que ajudou os portugueses na conquista da Baía de Guanabara na disputa contra tamoios e franceses. Como recompensa, a terra logo próxima lhe foi dada - hoje chamada de Niterói. Dali pra frente, o desfile seguiu pela história da Cidade Sorriso, em conexões por diversos momentos com o próprio Rio de Janeiro, sua cidade vizinha. Mesmo que João Vitor ainda estivesse em fase inicial de sua construção como artista da festa, a agremiação apresentou um conjunto alegórico e de fantasias para nenhum carnavalesco experiente – tampouco o júri – colocar defeito. E se o visual brilhou, o que dizer do chão da escola? Na icônica paradinha de Mestre Pablo, dava para se escutar “canta, Viradouro!”, como gritavam os componentes, do outro lado da ponte. O orgulho de contar a história de seu chão transcendeu os limites físicos da Sapucaí e foi coroado com a conquista do tão sonhado campeonato da alvirrubra, que conquistou o direito de retornar ao Grupo Especial.

Unidos de Padre Miguel 2015 
(O Cavaleiro Armorial mandacariza o carnaval)

Uma das escolas que mais se destacou após a criação da Série A, a Unidos de Padre Miguel começou a mostrar sua envergadura no primeiro ano do novo formato ao trazer um enredo africano que mostrou a força do chão da Zona Oeste. No ano seguinte, em 2014, a vermelho e branco mais uma vez surpreendeu o público com seu carnaval grandioso e o belo trabalho estético de Edson Pereira no tema sobre charadas. Ainda distante dos primeiros lugar até então, a vermelho e branco mostrou que já estava pronta para sua consolidação definitiva em 2015, em um desfile que confirmou a sinergia desse casamento tão marcante da década.  

Clique da torre fotográfica da Sapucaí do carnaval da Unidos de Padre Miguel no carnaval 2015. Foto: Alexandre Macieira/Riotour
No enredo em homenagem ao movimento armorial, simbolizado pela figura de Ariano Suassuna, Edson confirmou todas as características que se fixaram no imaginário popular de sua estética: o luxo, as grandiosas esculturas articuladas e o apuro estético aplicados em belas fantasias e alegorias. Com uma grande atuação, o intérprete Marquinhos Art’Samba defendeu muito bem o simpático samba-enredo da escola, cantado a plenos pulmões pela comunidade de Padre Miguel. Ainda assim, mesmo com tantas qualidades, o desfile não foi considerado o campeão pelo júri, faturando o vice-campeonato após ficar apenas três décimos atrás da Estácio de Sá.

Paraíso do Tuiuti 2016 
(A farra do boi)

E falando em casamento entre agremiação e escola que marcou a década, saímos da Zona Oeste em direção a São Cristóvão para lembrar de outra parceria para lá de frutífera. Depois de alguns desfiles nem tão expressivos, a Paraíso da Tuiuti surpreendeu em 2015 ao trazer um enredo divertido e inventivo do carnavalesco Jack Vasconcelos sobre a obra de Hans Staden. Depois da 5ª posição alcançada, a parceria seguiu para mais um carnaval. Com a liberdade que precisava para desenvolver seus temas na escola, Jack mostrava sua maturidade artística naqueles carnavais depois de quase dez anos em atividade.

A deslumbrante apresentação da Tuiuti, assinada por Jack Vasconcelos. Foto: Wigder Frota


O enredo escolhido para 2016 já trazia a crítica e a irreverência que ficariam marcados entre o casamento dos dois para os próximos anos. Em “A Farra do Boi”, uma fábula nordestina sobre a história do Boi Mansinho, o artista falou da comercialização da fé de modo bem-humorado e cheio de brasilidade. O desfile começou com uma abertura negra impactante, com uma excelente comissão coreografada por Junior Scapin. O casal de irmãos Vinícius e Jackeline Pessanha também brilhou logo na cabeça da amarela e azul, trajando um figurino ousado e uma maquiagem arrepiante. O único senão do ótimo trabalho estético foi o curto nas duas primeiras alegorias que desfilaram sem iluminação, mas o que em nada prejudicou o conjunto geral. Para fechar o time campeão, a bateria SuperSom garantiu mais uma vez a nota máximo sob a batuta do mestre Ricardinho. Tanta qualidade técnica teve apenas um resultado possível: um título que ganhou todos os dez possíveis na apuração e fechou em impressionantes 270 pontos, garantindo a vaga no especial que o Tuiuti ocupa até hoje.  

Unidos de Padre Miguel 2017 
(Ossain: o poder da cura)

Primeiro ano da gestão do prefeito-bispo, inimigo declarado das escolas de samba, 2017 foi uma temporada marcada por aflições inimagináveis vividas dentro e fora da pista da Marquês de Sapucaí. A Unidos de Padre Miguel, sempre favorita na Série A pelos seus ótimos desfiles, preparou o enredo “Ossain: o poder da cura”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira. Com um samba elogiadíssimo e muito bem defendido por Pixulé, por mais um ano muito se aguardou a passagem da agremiação da Vila Vintém. 

O impactante abre-alas da escola no carnaval 2017. Foto: Fernando Grilli/Riotour
Aparentemente, a agremiação estava pronta para ascender ao Especial. O samba empolgava seus componentes e a escola pulsava, enquanto se via um arrebatador espetáculo visual. Após alguns minutos de desfile, a porta-bandeira Jéssica, durante sua apresentação, tropeçou e torceu o joelho. Rapidamente auxiliada pelo apoio da escola e pelo seu mestre-sala, Vinícius, a porta-bandeira se viu fisicamente impedida de continuar o desfile. Em um clima de tensão, Cássia, segunda porta-bandeira da escola, foi levada à frente das alas para se apresentar ao lado de Vinícius. A espera do mestre-sala, até que a substituição fosse feita, rendeu uma das imagens mais fortes daquele carnaval: sozinho, portou e protegeu seu pavilhão em posição de reverência, sem sua porta-bandeira. À época, o historiador Luiz Antônio Simas lembrou que, em alguns poemas de Ifá, Ossain é o orixá que tem apenas uma perna. Coincidência?

Vinicius segurando o pavilhão da escola após recém-lesão de sua porta-bandeira. Foto: Gabriel Monteiro/Riotour
Apesar de terem seguido firmes e cumprido muitíssimo bem seus deveres, a queda do casal ocorreu diante do módulo duplo, que ficava no Setor 6, gerando doloridos decréscimos. Além disso, a evolução da escola também acabou prejudicada. O desfile seguiu e a exuberância visual da UPM saltou aos olhos: todos os carros contaram com grandiosas esculturas articuladas e riqueza de detalhes cenográficos. As fantasias traziam uma sequência de orixás e a realização delas foi outro ponto alto da apresentação. Uma das primeiras alas trazia o iroko, com a árvore-orixá como elemento cenográfico, enredo da escola para o carnaval 2021. Ao fim daquela quarta de cinzas, a agremiação não ganhou o título, apenas um 5º lugar e um digno Estandarte de Ouro de melhor escola. Ainda que o resultado tenha sido justo, se o título não veio, novamente frustrando as expectativas do público, a UPM já tinha conquistado as páginas da história do carnaval com um desfile pulsante e inesquecível. 

Império Serrano 2017 
(Meu quintal é maior que o mundo)

Em seu oitavo carnaval longe do Grupo Especial, o Império Serrano vinha de bons resultados, com exceção de 2014, mas não conseguia desencantar. Em 2017, depois de duas boas apresentações assinados por Severo Luzardo, a escola apostou no jovem carnavalesco Marcus Ferreira para desenvolver uma homenagem à vida e à obra de ninguém menos que o poeta Manoel de Barros. A abertura da escola com um abre-alas metade dourado, metade barroso, fazendo alusão ao Eldorado e ao Pantanal, foi uma belíssima primeira imagem de desfile. Ela trazia uma escultura segurando a coroa, símbolo maior da Serrinha, e foi o ponto de partida para um conjunto alegórico de ótimo nível.

O inexorável símbolo do Império Serrano: a coroa imperial. Foto: Paula Portilho/Riotour
Ainda que pudesse haver discussão sobre ser ou não o melhor samba do ano, a letra e melodia entoadas pela Serrinha tinham versos inspirados que propiciaram um canto orgulhoso dos componentes e das arquibancadas. Um dos grandes destaques daquela apresentação, vale ressaltar, foi o casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Feliciano Junior e Raphaela Caboclo. Em vestes sem as tradicionais penas utilizadas, mas feitas de capim seco, os dois jovens e experientes talentos representavam o índio e a perdiz, personagens de “O primeiro poema” - curiosamente o último poema do livro “Menino do mato” de autoria do homenageado. Como o que não podia faltar era a aura da poesia, o Império Serrano foi catártico e fez uma excelente apresentação. “Pelo toque do agogô”, já sabíamos que a possibilidade de gritar “é campeã” na quarta-feira era grande. Não deu outra: no seu 70° ano de vida, o Menino de 47 soltou o grito entalado e explodiu Madureira, já que a Portela também havia conquistado o caneco do Grupo Especial naquela tarde. 

Unidos do Viradouro 2018 
(Vira a cabeça, pira o coração - Loucos, gênios da criação)

Unidos da Expectativa poderia substituir muito bem o nome da Viradouro em 2018 até os últimos segundos antes do desfile. No ano anterior, a escola ganhou uma injeção de dinheiro a pouquíssimos dias do desfile desenvolvido por Jorge Silveira, que terminou com o vice-campeonato. Para o carnaval em questão, depois da chegada da família Calil à gestão da agremiação e de todo um planejamento de reestruturação, a Viradouro possuía boas credenciais no pré-carnaval. Com o enredo sobre figuras geniais, Edson Pereira tinha a missão de fazer jus e representar muito bem os versos do samba que diziam “sou Viradouro, sou paixão”, em alusão a um famoso samba de outros carnavais. 

O imponente abre-alas da escola foi uma das marcas da grandiosidade daquele desfile. Foto: Raphael David/Riotour
O orgulho de ser viradourense, naquele momento, significava tanto a força da comunidade em abraçar a escola e os feitos de sua diretoria quanto a demonstração a todo o público de que o projeto da Viradouro era a aliança entre uma boa administração e uma comunidade forte que rasgava a pista. Com um barracão adiantadíssimo e grandioso, a agremiação pisou forte na Marquês para contar as invencionices e loucuras de grandes mentes criadoras da humanidade, e apresentou um carnaval de alto nível. Longe de ser uma obra-prima, mas contagiante, o samba foi fortemente comunicado pela sempre ativa comunidade da escola, muitíssimo identificada com o intérprete Zé Paulo Sierra. Começou aí o primeiro dos grandes passos da Viradouro na história recente dos desfiles: deu Niterói nas cabeças e a escola foi consagrada a grande campeã da Série A naquele ano. A apresentação marca a retomada da vermelho e branco de maneira poderosa que a levou para o título conquistado esse ano no grupo Especial. 

Acadêmicos do Cubango 2018 
(O rei que bordou o mundo)

Resgata, Cubango! Depois de brigar fortemente pelo título do Acesso no início da década, a verde e branco de Niterói acabou patinando entre desfiles menos impactantes nos anos seguintes. Com uma apresentação problemática em 2017, a má-fase gerou uma eleição agitada no pré-carnaval para o ano seguinte. A chapa Resgata Cubango fez forte oposição ao grupo liderado pelo então presidente Pelé, o qual acabou deixando o comando da escola após quatorze anos. Rei morto, rei posto. A nova direção decidiu apostar em uma dupla de estreantes na Sapucaí: Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Eles tinham dado o título da Série B de 2016 para a vizinha Acadêmicos do Sossego.

A história de Bispo do Rosário foi contada de forma espetacular pela dupla de carnavalescos. Foto: Gabriel Monteiro/Riotour
Após a especulação sobre um enredo acerca da cidade de Nova Friburgo, a dupla conseguiu propor um tema sobre Arthur Bispo do Rosário, dialogando com a tradição de enredos negros da agremiação. A inovação se dava ao exaltar uma personalidade pouco conhecida no senso comum, ainda que badalada no circuito das artes visuais. Embalados por um ótimo samba-enredo que captou da linha poética do enredo, os estreantes conseguiram carnavalizar de modo brilhante a estética do homenageado. As alegorias e fantasias não mostraram uma simples cópia de suas obras, mas reinventaram-nas na linguagem carnavalesca. Com momentos emocionantes, o destaque vai para a última alegoria do desfile, que trouxe uma reprodução gigantesca e artesanal do Manto de Apresentação, uma das obras mais marcantes de Bispo do Rosário, criada pelo artista para seu encontro com o criador. A apresentação marcou o renascimento da escola de Niterói e o talento de Leonardo e Gabriel, numa estreia brilhante. O desfile acabou no 5º lugar do grupo, após apresentação canetada em harmonia e evolução. 

Imperatriz Leopoldinense 2020 
(Só dá Lalá)

Após uma apresentação complexa em 2019, a Imperatriz surpreendentemente compôs a dupla de escolas rebaixada do Grupo Especial. Sua diretoria bem que tentou aplicar a terceira virada de mesa seguida no carnaval carioca, mas não conseguiu, então tratou de se reforçar. Ela decidiu contratar o carnavalesco mais badalado do momento, Leandro Vieira, quem já havia dando expediente na agremiação como figurinista nos belos desfiles de 2013 e 2014. Com o atraso da escola em se preparar para o carnaval depois dos imbróglios jurídicos-liesáticos, a solução foi apostar em uma reedição. Com isso, a canção escolhida foi a apresentada em 1981, em homenagem ao compositor Lamartine Babo. Batizado originalmente de “O teu cabelo não nega”, o enredo foi alterada para “Só dá Lalá”.

Abre-alas que iniciou o primoroso conjunto alegórico da escola. Foto: Wigder Frota

Reinterpretando o desfile antes assinado por Arlindo Rodrigues, Leandro Vieira deu mais uma aula estética, apostando na singeleza e no colorido das alegorias e fantasias. A Imperatriz desfilou de forma leve e vibrante na pista, passeando por antigas carnavais, pelas festas juninas e pelos times de futebol para os quais Lamartine compôs seus hinos. A comissão de frente também contou com um reforço poderoso: a dupla Beth e Hélio Bejani fez um excelente trabalho visual. No microfone, a nostalgia falou alto no retorno de Preto Joia para dividir a condução da clássica obra de Zé Katimba com Arthur Franco, embalados pela ótima bateria de mestre Lolo. Esta contou com ninguém menos que a badalada cantora Iza reinando à frente dos ritmistas. Diante de uma apresentação impecável e arrebatadora, a Rainha de Ramos se reencontrou na pista, faturando inquestionavelmente o título com a pontuação máxima.


Menções honrosas: 

Haja desfile bom! Para conseguirmos chegar a esses dez, muitos ficaram de fora! Mas não tema: separamos algumas outras grandes apresentações que deixaram seu lugar no coração do sambista e ganham nossa menção honrosa. 


Paraíso do Tuiuti 2015 (Curumim chama cunhantã que eu vou contar…)

Caprichosos de Pilares 2015 (Na minha mão é mais barato)

Porto da Pedra 2016 (Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?)

Rocinha 2017 (No saçarico do Marquês, tem mais um freguês)

Unidos de Padre Miguel 2018 (Eldorado submerso: Delírio Tupi-Parintintin)

Cubango 2019 (Igbá Cubango, a alma das coisas e a arte dos milagres)

Estácio de Sá 2019 (A fé que emerge das águas)

Inocentes de Belford Roxo 2020 (Marta do Brasil - Chorar no começo para sorrir no final)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos seus desfiles marcantes do Acesso?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidade… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!

Share
Tweet
Pin
Share
No Comments

Texto de Felipe Tinoco e Leonardo Antan.
Revisão de Beatriz Freire.
Visual e artes de Vítor Melo.

O Carnavalize está de volta a pleno vapor! Após um breve descanso e uma diminuição de ritmo, nossa produção de conteúdo retorna estreando um quadro que estávamos super ansiosos para fazer: a #SérieDécada! A segunda década desse século, iniciada em 2011 e finalizada no carnaval que acabou de terminar em 2020, trouxe muitas reviravoltas e transformações para a folia!

Após os desfiles de 2010 e a consagração da Unidos da Tijuca, no histórico “É Segredo!”, tendências, apostas, inovações, quedas e ascensões deram a tônica de uma década muito badalada, com direito ao rebrotar do gênero samba-enredo e do surgimento de uma geração criativa de novos artistas.

É por isso que, a partir de hoje e durante as próximas semanas, para animar a sua quarentena, todas as segundas, quartas e sextas-feiras serão destinadas a lembrar os acontecimentos e causos fundamentais do Sambódromo, com vários #TOP10 que relembram fortes momentos!

Como é impossível fazer uma seleção que agrade não só às leitoras e aos leitores, como também aos integrantes do Carnavalize de forma unânime, cada categoria também contará com menções honrosas que por pouquíssimo não entraram no ranking principal. Confira abaixo o cronograma da série:


Para começar nosso passeio pelos últimos anos 10 anos de folia, decidimos sair logo da missão mais difícil: as apresentações mais marcantes desse período. Algumas podem não ter sido as campeãs de seu ano, ou a escola que defendeu de forma mais técnica quesito a quesito. Todas as apresentações escolhidas, porém, não ficaram devendo em emoção e simbolismo, além de registrarem conjunturas importantes para cada agremiação e para a história da festa como um todo. São apresentações que reúnem grandes sambas, o talento criativo de seus carnavalescos e a atuação de grandes profissionais, entre compositores, intérpretes, mestres de baterias, casais de mestre-sala e porta-bandeira e coreógrafos de comissão de frente.

Então chega de papo e vamos conferir o primeiro (e mais polêmico) TOP10 da #SérieDécada: os desfiles mais marcantes do Grupo Especial carioca. (A gente lembra sempre que a lista é escrita SEM ordem hierárquica, disposta de forma livre, e não em forma de ranking.)

Ps.: se quiser ver lindas fotos de cada um dos desfiles, clique nas primeiras palavras de suas análises. Com exceção do ano 2011, todos os desfiles possuem um álbum individual de fotos da Riotur.


Acadêmicos do Salgueiro 2011 
(Salgueiro apresenta: O Rio no Cinema)

O Oscar sempre vai para a Academia, mas o título, não! Apesar da apresentação estética monumental preparada por Renato e Márcia Lage, em um dos shows visuais típicos das melhores apresentações da dupla, embalada por um samba que se destacava no CD do ano e um enredo divertido, repleto de identidade, concebido em parceria entre os carnavalescos e o Departamento Cultural da escola, sob a figura de João Gustavo Melo... os salgueirenses saíram desapontados daquele carnaval.

O tão famoso "King Kong no relógio da Central" / Foto: AF Rodrigues/Riotur
O Salgueiro cantou as principais obras do cinema que tiveram a cidade do Rio de Janeiro sob pano de fundo: Carlota Joaquina, Central do Brasil, Orfeu, Madama Satã, Tropa de Elite, dentre outros filmes. Ao fazer figurinos mais leves, a escola apostou no gigantismo dos belíssimos carros alegóricos. Ao menos três deles tiveram dificuldades para se locomover da pista e entrar no joelho da Avenida, como a icônica alegoria que trazia a impressionante escultura do “King-Kong no relógio da Central”, com a funkeira Valesca Popozuda vestida de banana como destaque. As dificuldades fizeram com que a agremiação ultrapasse o tempo máximo de desfile em 10 minutos, além de gerar correrias e buracos na Avenida. O desfile se tornou exemplo de problemas de evolução, quesito tão caro ao Salgueiro em sua história recente, e novamente tirou o favoritismo da branca e encarnada. A apresentação ainda faturou o 5º lugar e se tornou inesquecível: vale a vaga no TOP10!


Unidos de Vila Isabel 2012 

(Você Semba Lá.... Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola)

Nos seus tambores, o sonho viveu em Vila Isabel no segundo ano da década. Se muitos dos olhos estavam voltados à simbologia do inovador samba da Portela de 2012, na Marquês de Sapucaí o sucesso da obra composta para a coirmã - também azul e branca da Zona Norte - por André Diniz, Arlindo Cruz, Artur das Ferragens, Evandro Bocão e Leonel (in memoriam) confirmou sua força e deu o tom à última apresentação da noite de domingo de carnaval em homenagem a Angola. A forte parceria de compositores contagiou com força a comunidade do Morro dos Macacos em diversos versos. Na sua segunda parte, a canção propunha um contracanto, entoado por Tinga a plenos pulmões, e respondido com vibração pelos componentes, que incorporaram Kizomba.


Comissão de frente e cabeça de um desfile inesquecível. / Foto: Rafael Moraes/Riotur
Se musicalmente a apresentação foi extremamente bem servida, a estética e o visual do desfile não ficaram para trás. As alegorias e fantasias criadas por Rosa Magalhães ousaram nas formas das fantasias e no uso de diversos tecidos com estampas referentes à região do país celebrado, criando imagens marcantes para o desfile. Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente, apresentou um dos melhores trabalhos de sua carreira e a melhor comissão do ano, com uma savana que escondia a fauna angolana. Mentor do enredo e considerado como Embaixador Cultural do Brasil na Angola, Martinho da Vila encerrou a apresentação no sétimo carro sob a luz do sol e o céu azul, dando a certeza de um desfile que combinou diversos ingredientes necessários para se considerar postulante ao título e memorável aos torcedores da Vila e aos amantes do carnaval. Terminou em 3º, mas marcou a década!


Unidos de Vila Isabel 2013 
(A Vila canta Brasil, celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um)

Festa no Arraiá! Depois de gerar ótimos frutos no ano anterior, a parceria entre a Vila Isabel e Rosa Magalhães voltou a encantar o público em 2013. Novamente genial, após um enredo com a cara de Vila Isabel, a artista soube desenvolver uma narrativa leve para um tema espinhoso patrocinado pelo agronegócio. A saída foi passear pela vida do homem do campo, com sua prosódia, seus costumes, sua forma de alimentar e viver. Dando ainda mais lirismo ao que foi contado, um daqueles sambas-enredos raros e antológicos surgiu na inspiração de uma super parceira que repetiu a maioria dos nomes do ano precedente: Martinho da Vila, Arlindo Cruz, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel.

Detalhes de um carnaval primoroso de Rosa Magalhães e da Vila Isabel. / Foto: Marco Antonio Cavalcanti/Riotur
A obra musical explodiu dentro e fora da bolha do carnaval nos meses que antecederam a folia, com milhares de visualizações no YouTube. A azul e branco de Noel encerrou os desfiles naquela segunda-feira já aclamada, brindando a continuação do excelente trabalho de uma equipe coesa da agremiação que ainda contava com intérprete Tinga, o casal Rute Alves e Julinho Nascimento, os diretores Júnior Schall e Wilsinho, além dos coreógrafos Marcelo Misailidis, na comissão de frente, e Carlinhos de Jesus, responsável pelas movimentações visuais na bateria e em alegorias. Um verdadeiro arraial na Avenida coroou o protagonismo do samba-enredo, de uma forma que há muito tempo não se via, e deu o título incontestável à escola.


União da Ilha 2014 
(É brinquedo, é brincadeira: a Ilha vai levantar poeira)

Hoje a Ilha vem brincar, amor... Depois de quatro desfiles no Grupo Especial, a União da Ilha marcou de vez sua permanência na elite do samba em um grande reencontro com suas características mais famosas. A escola da simpatia e da alegria encantou o público com muita criatividade e leveza no delicioso e nostálgico enredo desenvolvido por Alex de Souza com brilhantismo.

O belíssimo abre-alas da Ilha: a fábrica de brinquedos insulana. Foto: Riotur / Marco Antonio Cavalcante
Relembrando os brinquedos e brincadeiras que marcaram época, a tricolor fez todo mundo voltar a ser criança no seu desfile repleto de elementos visuais de fácil leitura, muita riqueza de detalhes e bom gosto. O samba-enredo traduzia com beleza e encantamento o tema proposto e foi muito bem interpretado por Ito Melodia, acompanhado pela bateria do Mestre Thiago Diago e a animação dos componentes da escola e do público da Avenida. Na comissão de frente de Jaime Arôxa, uma estrutura fazia uma bailarina e um soldadinho de chumbo rodopiarem e, em frente ao júri, distribuir presentes à frisa. A escola terminou em 4º lugar naquele ano, com o gosto de que poderia ter sido mais, mas com a certeza e muito orgulho de sua melhor apresentação em muitos carnavais.


São Clemente 2015 
(A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça Pé de Boi)

É o mestre... Veio mais uma vez do talento e bom gosto inegáveis da professora Rosa Magalhães um outro desfile que marcou a década: seu terceiro na lista. Depois de uma passagem nada harmoniosa na Estação Primeira de Mangueira, a artista surpreendeu a todos dando expediente na agremiação de Botafogo e escolheu para a estreia um enredo para nenhum sambista colocar defeito: uma homenagem a Fernando Pamplona. 
Belíssima homenagem da Rosa Magalhães ao seu professor, Fernando Pamplona. Foto: Gabriel Santos/Riotour
Baseada na autobiografia do cenógrafo e carnavalesco, a artista, uma grande herdeira do mestre, provou mais uma vez a sua capacidade de se reinventar com uma apresentação bela e repleta de bom gosto, passeando pela infância de Pamplona e seu medo de assombrações até suas principais contribuições ao Salgueiro, ao carnaval e à arte brasileira. O emocionante samba foi muito bem interpretado por Igor Sorriso, que deixou de ser promessa e se tornou uma realidade na festa e brilhou ao lado da bateria de mestres Gil e Caliquinho. Eles prepararam uma bossa no refrão do meio, em referência aos carnavais de homenagens às figuras negras do Salgueiro, que animou a Avenida. Outro destaque do time da preto e amarela foi o casal Fabrício Pires e Denadir Garcia, que também garantiu boas notas a escola. Pena que elas não foram o suficiente para uma melhor colocação da agremiação, que terminou em um inexplicável 8º lugar, longe do retorno ao Sábado das Campeãs. 


Estação Primeira de Mangueira 2016 
(Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá)

Uma escola com milionárias dívidas, vinda de um 10º lugar no carnaval precedente, um carnavalesco estreante no Grupo Especial após faturar o 7º lugar na Série A. A princípio, esse pode ser um cenário assustador para muitos torcedores, mas foi justamente nesse contexto que a Mangueira fez um dos melhores desfiles da década. O artista Leandro Vieira soube contornar a pressão dos mangueirenses apaixonados e fazer um desfile autoral, com conjunto de fantasias e alegorias lindíssimos como não se via na escola há pelo menos oito anos. O desenrolar inventivo do enredo, percorrendo a religião, a origem e a obra da história de Maria Bethânia, propôs um desenvolvimento que fugiu da obviedade das narrativas biográficas.

A vocação verde e rosa à homenagem: escola e Maria Bethânia estavam sinergicamente conectados. Foto: Gabriel Nascimento/Riotour
Além disso, após uma grande safra de sambas, a escola cantou uma obra marcante que relembrou sucessos da carreira da intérprete, com Ciganerey em uma segura apresentação solo no microfone, após o precoce falecimento do saudoso Luizito no pré-carnaval. A bateria, vestida de Fera Ferida, também conseguiu conquistar o júri e não repetir o decréscimo dos dois anos anteriores. Após perder pontos apenas no quesito comissão de frente, a Mangueira se sagrou campeã do carnaval depois de 14 anos de jejum. Daquele desfile, além da felicidade contagiante de Bethânia, do encanto da santamarense, da força dos seus orixás, e do despontar de Leandro como novo e determinante talento da década, uma figura não sai da cabeça de ninguém. Vestida de iaô, a belíssima porta-bandeira Squel desfilou careeeeca! Deslumbrante, Squel!


Portela 2017 
(Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar) 

Após um ano disputado e de desfiles surpreendentes, o carnaval viveu um de seus momentos mais tristes em 2017. O ano marcado por acidentes e fatalidades, entretanto, também é lembrado pelo esperado fim do jejum portelense de vitórias, após mais de três décadas. Vivendo uma fase de reestruturação, a azul e branco vinha de três ótimas apresentações que garantiram seu retorno ao protagonismo na festa. Nos bastidores dessa mudança, estava a simbólica liderança de Marcos Falcon, que acabou falecendo precocemente naquele pré-carnaval, fazendo Luiz Carlos Magalhães assumir a presidência poucos meses do desfile.

Detalhes de uma das alegorias assinadas por Paulo Barros no desfile da Portela em 2017. Foto: Fernando Maia/Riotour

Além dessa fatalidade nos bastidores, a Portela não saía dos holofotes pela figura de seu carnavalesco. Ninguém menos que Paulo Barros foi para o seu segundo ano na escola. Depois de falar de viagens, uma inspiração na icônica música de Paulinho da Viola em homenagem a azul e branco rendeu um enredo que navegou pelos grandes rios da humanidade. Assim como no ano anterior, o artista soube dosar seu estilo mais inventivo com a pompa portelense - tendo dessa vez o auxílio de Paulo Menezes para esboçar figurinos luxuosos e criativos.

Ala que se repetiu durante o desfile, dando bacana visual do rio que se deixou passar. Foto: Fernando Grilli/Riotour
Em uma disputa acirrada, o samba-enredo eleito foi o da parceria de Samir Trindade, o qual embalou o desfile com a animação e a emoção necessárias ao entrelaçar a narrativa a uma homenagem a grandes baluartes portelenses. Outros trunfos foram a evolução e a harmonia da escola, que se provaram das mais competentes da década. Um senão, porém, foi a comissão de frente, feita às pressas pela dupla de coreógrafos que assumiu a função há poucas semanas do desfile. Jejum quebrado na quarta-feira de cinzas, o ano da Portela não acabou ali: com a divulgação das justificativas das notas, a revelação de uma anotação problemática de um julgador de enredo fez a Mocidade Independente de Padre Miguel abrir um recurso e reivindicar a divisão do título. Dessa forma, o ano terminou com duas campeãs, o que não acontecia desde 1998.


Paraíso do Tuiuti 2018 
(Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?) 

Após fazer um desfile criativo mas marcado por um terrível acidente no ano anterior, quando a Paraíso do Tuiuti virou a curva da Sapucaí em 2018 ninguém imaginava o que estava por vir. Cotada para o rebaixamento diante do então modus-operandi da folia, a agremiação havia feito um pré-carnaval discreto e optado por encomendar seu samba-enredo a grandes compositores como Cláudio Russo, Moacyr Luz e outros nomes consagrados da escola, gerando uma obra que soube traduzir com criatividade e beleza as dores do tema abordado.

Sem duvidas, a comissão de frente do Tuiuti em 2018 é a imagem desse marcante desfile. Foto: Gabriel Nascimento/Riotour
Narrada pelo talentoso Jack Vasconcelos, que vinha se destacando em suas criações, a história da escravidão humana ao longo dos tempos começou já impactando com uma comissão de frente arrebatadora. Coreografado por Patrick Carvalho, o grupo mostrou a transformação de escravizados em Pretos Velhos e arrancou aplausos e lágrimas da plateia. A plástica bem amarrada do desfile entrou em sintonia com a vibração do belo samba e da grande atuação dos intérpretes, acompanhados pela bateria do Mestre Ricardinho. Não bastasse todas essas qualidades, o enredo perpassou a contemporaneidade, abordando o difícil momento político no qual o Brasil se encontrava - e encontra, sob outras figuras. Apontando que a escravidão estava longe de acabar, "manifestoches" e vampirões com faixas presidenciais foram os grandes destaque da alegoria “Neotumbeiro”, que rompeu a bolha do carnaval, conquistando as redes sociais e a imprensa internacional. A grande repercussão do desfile, que ecoou no seu momento histórico e social preciso, ajudou o Paraíso do Tuitui a conquistar um vice-campeonato inédito no maior desfile de sua trajetória. 


Estação Primeira de Mangueira 2019 
(História pra ninar gente grande)

Se o carnaval de 2016 revelou Leandro Vieira como um dos grandes artistas em ascensão e proporcionou uma nova roupagem à Mangueira, os anos seguintes coroaram a relação entre o carnavalesco e a escola. E essas considerações foram arrematadas após o carnaval de 2019. Inspirado em uma história alternativa à oficialidade dos livros didáticos, Leandro apresentou a versão anti-hegemônica do Brasil plural. No enredo, trouxe o olhar da população de diferentes etnias sobre os períodos de nossa história: a invasão que não foi descobrimento, o massacre indígena, a potência dos negros que resistiram à escravidão e formaram o país, a força de quem foi de aço nos anos de chumbo.

A incontestável vitória verde e rosa com um carnaval para a história. Foto: Dhavid Normando/Riotour
Nesse desfile, o carnavalesco reafirmou sua qualidade em criar signos e símbolos de forte apelo. Se não foi o carnaval mais requintado e luxuoso da Mangueira nos anos de Leandro Vieira, a originalidade ao retratar os heróis clássicos e os heróis propostos pela escola nos elementos visuais se harmonizaram com a narrativa adotada pela agremiação e a defesa das pautas ali colocadas. A força estética do desfile passava do Monumento às Bandeiras manchado de sangue, do casal Squel Jorgea e Matheus Olivério em uma brilhante apresentação, até as bandeiras de grandes personalidades brasileiras que encerraram o desfile. Na comissão de frente dos excepcionais Priscilla Mota e Rodrigo Negri, mais uma imagem marcante: os novos protagonistas da história ganharam os lugares dos nanicos nos retratos do tripé - de onde surgia a estudante Cacá Nascimento para erguer a faixa de “PRESENTE”, em referência à Marielle Franco, citada no samba. Este, que estourou a bolha carnavalesca antes mesmo de ganhar a disputa, era o melhor do ano, com letra inspiradíssima e assinado por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Danilo Firmino, Márcio Bola, Silvio Moreira Filho (Mama) e Ronie de Oliveira, além de contar com a autoria de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. A escola fechou a apuração com a nota máxima, em 270 pontos, e a certeza de que o país se orgulhava da história dos índios, negros e pobres.


Grande Rio 2020 
(Tatalondirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias)

Uma década de reencontros e da chegada de uma nova e brilhante geração ao carnaval foram determinantes para construir essa última década. No encerramento da lista, mais uma escola retorna ao seu brilho essencial e esses preceitos se renovam na apresentação da Grande Rio de 2020. Após altos e baixos, vinda de um 9º lugar e de uma virada de mesa, a tricolor resolveu apostar em uma dupla de talentos que havia brilhado na Série A e na Intendente Magalhães: Leonardo Bora e Gabriel Haddad.

De volta às origens, a escola buscou na própria história a retomada de sua identidade. Foto: Fernando Grilli/Riotour 
Responsáveis por desfiles de forte apelo artístico e densidade cultural, os artistas escolheram um enredo poderoso para a estreia e homenagearam o babalorixá Joãosinho da Gomeia, famoso por seu terreiro no município natal da escola. O enredo de forte identificação com sua comunidade teve ainda uma disputada escolha de samba que terminou exaltando a força de duas palavras: Pedra Preta - o caboclo guia espiritual do homenageado, muito bem colocado na letra da parceria vencedora liderada por Derê. Para completar a formação do time da agremiação de Caxias, estavam os veteranos e premiados Beth e Hélio Bejani, na comissão de frente, o intérprete Evandro Malandro, o casal Taciana e Daniel e o mestre Fafá. Após um grande pré-carnaval, a escola viu o título escapar mais uma vez por um problema no abre-alas, quando complicações para colocar seus destaques ocorreram. Empatada com a campeã Viradouro e consagrada vice-campeã, detalhes de evolução não tiraram o brilho criativo do desfile que apostou em adereços artesanais e muitas referências artísticas em uma narrativa muito bem desenvolvida sobre a rica história do homenageado. 

 


Menções honrosas

Haja desfile bom! Para conseguirmos chegar a esses dez, muitos ficaram de fora! Mas não tema: separamos algumas outras grandes apresentações que deixaram seu lugar no coração do sambista e ganham nossa menção honrosa.

Unidos da Tijuca 2012 (O dia em que toda realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão)

Salgueiro 2014 (Gaia, a vida em nossas mãos)

Portela 2014 (Um Rio de mar a mar: do Valongo à glória de São Sebastião)

Beija-Flor 2015 (Um Griô conta a história: uma olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial… Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade)

Salgueiro 2015 (Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí)

Portela 2016 (No voo da Águia, uma viagem sem fim)

Mocidade 2017 (As Mil e Uma Noites de uma Mocidade prá lá de Marrakesh)

Mangueira 2017 (Só com a ajuda do Santo)

Viradouro 2019 (VIRAVIRADOURO)

O Carnavalize, a partir de seus critérios, fez essa seleção, estimulando a pensarmos o que foram esses últimos 10 anos. Fique à vontade para fazer seu ranking e enviar para nós nas nossas redes sociais! Qual o seu #TOP10 dos seus desfiles marcantes do Grupo Especial?! Queremos saber!

Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidade… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!
Share
Tweet
Pin
Share
No Comments
Mais Antigo

Visite SAL60!

Visite SAL60!

Sobre nós

About Me

Somos um projeto multiplataforma que busca valorizar o carnaval e as escolas de samba resgatando sua história e seus grandes personagens. Atuamos não só na internet e nas redes sociais, mas na produção de eventos, exposições e produtos que valorizem nosso maior evento artístico-cultural.

Siga a gente

  • twitter
  • facebook
  • instagram

Desfile das Campeãs

  • #Colablize: Uma homenagem ao Guará - Compositor de grandes sucessos do samba
      Arte de Vítor Melo.  Autor: Igor Trindade Revisão: João Vítor Silveira e Marcelo D. Macedo. Guaracy Sant’anna foi um cantor e compositor c...

Total de Carnavalizadas

Colunas/Séries

sinopse BOLOEGUARANÁ 7x1 carnavalize Carnavalizadores de Primeira Quase Uma Repórter 5x colablize série década artistas da folia giro ancestral SérieDécada quilombo do samba Carnavápolis do setor 1 a apoteose série carnavalescos série enredos processos da criação dossiê carnavalize Na Tela da TV série casais 10 vezes Série Batuques Série Mulheres Série Padroeiros efemérides minha identidade série baluartes série sambas

Carnavalizações antigas

  • ▼  2023 (38)
    • ▼  ago. (1)
      • Projeto "Um carnaval para Maria Quitéria" valoriza...
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (1)
    • ►  fev. (28)
  • ►  2022 (41)
    • ►  dez. (1)
    • ►  jul. (1)
    • ►  jun. (5)
    • ►  mai. (1)
    • ►  abr. (30)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (1)
  • ►  2021 (10)
    • ►  set. (4)
    • ►  jun. (1)
    • ►  mai. (1)
    • ►  mar. (2)
    • ►  fev. (2)
  • ►  2020 (172)
    • ►  dez. (8)
    • ►  nov. (17)
    • ►  out. (15)
    • ►  set. (13)
    • ►  ago. (19)
    • ►  jul. (16)
    • ►  jun. (15)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (11)
    • ►  mar. (10)
    • ►  fev. (33)
    • ►  jan. (5)
  • ►  2019 (74)
    • ►  dez. (2)
    • ►  nov. (5)
    • ►  ago. (4)
    • ►  jul. (4)
    • ►  jun. (4)
    • ►  mai. (4)
    • ►  abr. (2)
    • ►  mar. (35)
    • ►  fev. (2)
    • ►  jan. (12)
  • ►  2018 (119)
    • ►  dez. (1)
    • ►  out. (6)
    • ►  set. (1)
    • ►  ago. (3)
    • ►  jul. (5)
    • ►  jun. (20)
    • ►  mai. (12)
    • ►  abr. (5)
    • ►  mar. (3)
    • ►  fev. (42)
    • ►  jan. (21)
  • ►  2017 (153)
    • ►  dez. (28)
    • ►  nov. (7)
    • ►  out. (8)
    • ►  ago. (5)
    • ►  jul. (12)
    • ►  jun. (7)
    • ►  mai. (10)
    • ►  abr. (7)
    • ►  mar. (7)
    • ►  fev. (49)
    • ►  jan. (13)
  • ►  2016 (83)
    • ►  dez. (10)
    • ►  out. (3)
    • ►  set. (9)
    • ►  ago. (22)
    • ►  jul. (39)

Created with by ThemeXpose